terça-feira, 16 de outubro de 2018

Luiz Carlos Azedo: A volta do marmiteiro

- Correio Braziliense

“A campanha nas redes sociais continua sendo um fator decisivo na eleição. Com a paridade de tempo de televisão, ganha ainda mais importância”

Na pesquisa do Ibope divulgada ontem, na qual Jair Bolsonaro (PSL) aparece com 59% dos votos válidos e Fernando Haddad (PT), com 41%, o dado mais significativo é a rejeição. O candidato do PSL tem mais simpatizantes convictos: 41% votariam nele com certeza e 35% não votariam de jeito nenhum, enquanto 47% não escolheriam o petista em nenhuma hipótese e 28% manifestaram certeza na escolha. Esses dados sinalizam certo congelamento do cenário eleitoral, apesar do reinício da campanha de tevê e rádio, com muita virulência de ambas as partes.

Bolsonaro não tem nenhum motivo para mudar o rumo de sua campanha, ainda mais agora, que conseguiu a paridade estratégica do tempo de televisão e rádio, o que não acontecia no primeiro turno. Está apenas afinando o discurso, para reforçar sua posição defensiva em relação aos ataques do petista quanto a temas como misoginia e homofobia, além de conter a violência dos seus cabos eleitorais. No mais, o discurso é o mesmo. Não houve um fato novo de campanha que o obrigasse a mudar de postura. Já o cavalo de pau de Haddad na própria campanha, que no primeiro turno ignorou Bolsonaro e concentrou seus ataques no tucano Geraldo Alckmin, não foi convincente para mudar os índices de rejeição dos eleitores em relação a Lula e ao PT.

O candidato petista não fez autocrítica dos erros do PT e não se desvinculou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; de certa forma, está engessado quanto a isso, pois provocaria uma crise na campanha. A chantagem moral como tática para atrair setores do chamado “centro democrático” também não funcionou. Até Fernando Henrique Cardoso, que sempre se mostrou aberto ao diálogo com Haddad, reclamou dessas pressões. A pesquisa também mostra que 9% do eleitorado pretendem votar nulo ou branco. É um resultado muito próximo do segundo turno de 2014, disputadíssimo, no qual somaram pouco mais 7%. Àquela época, Dilma Rousseff (PT) derrotou Aécio Neves (PSDB) por 51,64% a 48,36% dos votos.

Bolsonaro já abriu 18 pontos percentuais de vantagem nos votos válidos desde o primeiro turno, quando ficou à frente de Haddad por 46% a 29%. A campanha nas redes sociais continua sendo um fator decisivo na eleição. Com a paridade de tempo de televisão, ganha ainda mais importância. “Nos últimos dias, as menções aos candidatos têm ficado numa proporção média de 60 x 40, com ampla vantagem para o capitão. O grande volume de menções ao candidato do PSL revela que a sua militância venceu a guerra da internet e o impulsiona nesta reta final. Sem um fato novo, as eleições estão definidas”, avalia o analista digital Sérgio Denicoli, da AP Exata. Segundo ele, há uma relação direta entre o volume de menções nas redes sociais e a intenção de votos, num universo de 145 cidades brasileiras.

Forças ocultas vão ter de se moderar, afirma Giannotti

Forças ocultas na política terão que se civilizar, diz Giannotti

Professor de filosofia diz que não se governa com ameaças e que vitória de Bolsonaro levará conservadores a moderação

Mario Cesar Carvalho | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - A eventual eleição de Jair Bolsonaro (PSL) vai jogar conspiradores e golpistas na dança política, afirma José Arthur Giannotti, 88, um dos mais influentes professores de filosofia do país, que já deu aulas na USP, da qual se aposentou, e na Universidade Columbia, em Nova York.

E essa é uma boa notícia, segundo ele. "A grande sorte dessas eleições foi trazer para a política as forças ocultas”, disse à Folha. "Com isso, elas vão se moderar. Você não governa com ameaças nem se mostra publicamente como bandido. Eles serão obrigados a se civilizar."

Um dos primeiros intelectuais a dizer que os tucanos caminhavam para a morte, em 2014, Giannotti afirma que não há chance de renascimento do PSDB, partido do qual já foi considerado um ideólogo informal. Mas defende que um partido de centro é essencial. "Para conter o discurso e a prática velha do PT. E para conter essa onda que acredita na violência pela violência."

Ele elogia o desmonte do sistema político provocado pela onda conservadora por achar que ela abrirá a estrutura extremamente fechada. Ele nem esperou o repórter perguntar para começar a falar.

Nós estávamos numa negação política. O Congresso fechado nele mesmo, armado para se reproduzir. O governo isolado, incapaz de enfrentar as crises econômicas e sociais. Estávamos num fechamento total. E a Lava Jato denunciando, num processo jurídico-político, na medida em que atua juridicamente mas com intenções políticas. Sua intenção é jogar uma bomba atômica no processo político.

• Por que a polaridade PT-PSDB foi varrida?

Foi varrida porque ao PSDB faltaram lideranças, faltou se renovar. Quando você chega ao [João] Doria, que é pura aparência, é o fim. Nós vivemos numa sociedade do espetáculo, mas com o Doria você só tem espetáculo, não tem conteúdo político. O PSDB ficou dividido entre o Alckmin e oDoria. Do outro lado, o PT levou o país a uma recessão brutal por causa de uma série de equívocos econômicos. Esta eleição recupera e amplia 2013 [movimento contra alta de tarifas de transporte que depois começou a questionar a agenda dos partidos e a eficiência do Estado].

• O que o sr. achou do resultado das eleições? 

Estou contente porque esse movimento antidemocrático, que é profundo e ocorre no mundo inteiro, representa o capitalismo atual, que é o capitalismo de conhecimento. Isso exige uma universidade que faça pesquisa, e o lulismo transformou a universidade num processo de ascensão social: você sai de secretária 3 para secretária 1. Os tucanos também fizeram isso em SP.

A eleição trouxe essa violência toda para o jogo político. Nós temos uma violência insustentável: morre mais gente aqui do que na guerra da Síria. A eleição foi um banho de soda cáustica revelando as nervuras da real luta política.

Deputados da centro-esquerda europeia se reunem para criticar Bolsonaro

Para grupo, eventual vitória do candidato seria uma 'ameaça à democracia' no Brasil

Jamil Chade | O Estado de S.Paulo

GENEBRA - Deputados ligados à esquerda, à centro-esquerda e aos ecologistas europeus realizam nesta terça-feira, 15, um debate no Parlamento Europeu, em Bruxelas, dedicado às eleições no Brasil com foco nas propostas do candidato Jair Bolsonaro. O evento diz que há um “risco à democracia” caso o líder nas pesquisas vença as eleições 2018.

Entre os membros do Parlamento Europeu que apoiam e patrocinam a iniciativa estão os deputados portugueses Marisa Matias e Francisco Assis, os espanhóis Xabier Benito Ziluaga, Ramon Tremosa i Balcells e Ana Miranda, os italianos Roberto Gualtieri e Ignazio Corrao, e a britânica Julie Ward.

“Reunindo Membros do Parlamento Europeu de todo o espectro político, o evento tem um único objetivo: manifestar publicamente a firme oposição ao candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, cuja trajetória política e declarações públicas claramente se contrapõem aos princípios básicos do Estado de Direito”, declararam os deputados que convocaram o evento em um convite enviado aos demais parlamentares.

Sem eleger o mínimo exigido, Rede, de Marina Silva, mira fusão com PV ou PPS

Jeferson Ribeiro | O Globo

A Rede Sustentabilidade, partido idealizado por Marina Silva e que obteve o registro em 2015, deve deixar de existir até o final do ano. Após não atingira cláusula de barreira e ficar sem fundo partidário e propaganda no rádio e na TV, integrantes da legenda conversam com PV e PPS mirando uma fusão nos próximos meses.

Uma decisão sobre qual o melhor caminho para a fusão pode sair hoje, quando Marina reúne a comissão executiva para debatera questão.

—A ideia é concluir esse processo ainda neste ano para dar segurança aos nossos parlamentares — disse Laís Garcia, porta-voz da Rede.

Para passara cláusula de barreira, o partido precisaria eleger deputados federais empelo menos nove estados ou obter 1,5% dos votos para a Câmara, com um mínimo de 1% dos votos em nove estados. A Rede elegeu uma deputada, Joenia Wapichana, em Roraima, e não atingiu o mínimo de votos necessários para a Câmara.

Rede e PV já estiveram juntos no primeiro turno, quando Marina disputou a Presidência e teve pouco mais de um milhão de votos, impactando no mau desempenho do partido.

Há conversas também com o PPS. O presidente do partido, Roberto Freire, disse que ainda não falou diretamente com Marina, mas admitiu que integrantes das duas legendas têm discutido uma possível união.

Cid Gomes diz que PT perderá eleição se não fizer mea culpa e chama militância de 'babaca'

Em evento no Ceará, senador eleito pelo PDT e irmão de Ciro Gomes ainda afirmou que Bolsonaro é 'criação' de quem acha que é dono da verdade

Matheus Lara | O Estado de S.Paulo

O senador eleito e ex-governador do Ceará Cid Gomes (PDT) disse nesta segunda-feira, 15, em evento do PT em Fortaleza, que o partido do presidenciável Fernando Haddadprecisa fazer mea culpa e assumir que fez "muita besteira" - ou perderá a eleição de forma "merecida". O irmão de Ciro Gomes (PDT), que estava na corrida presidencial, ainda disse que Jair Bolsonaro (PSL) é uma "criação" de quem acha que é dono da verdade.

"Tem que fazer mea culpa, tem que pedir desculpa, ter humildade e reconhecer que fizeram muita besteira", disse Cid, ao lado do governador eleito no Estado, Camilo Santana (PT). Vaiado por militantes petistas, Cid apontou para um deles, que fazia sinal de negativo com as mãos, e o confrontou. O vídeo ganhou repercussão nas redes sociais na madrugada desta terça.

"É assim? Pois tu vai perder a eleição. Não admitir mea culpa é pra perder a eleição e é bem feito", disse Cid. "Quem, junto com ele (militante), acha que fez tudo certo, muito bem, pois vão perder feio. Porque fizeram besteira, aparelharam as repartições públicas, porque acharam que eram dono de um País e o Brasil não aceita ter dono."

Ao ouvir gritos de "Olê olê olá, Lula, Lula!", em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cid chamou a militância de "babaca". "Quem criou o Bolsonaro foram essas figuras que acham que são donos da verdade, que acham que os fins justificam os meios. Que Lula o quê? O Lula está preso, babaca! E vai fazer o quê? Babaca! Isso é o PT e o PT desse jeito merece perder."

Líderes partidários criticam atitude ‘hegemonista’ dos petistas

Dirigentes de ex-partidos aliados e adversários dizem que postura da sigla de Haddad dificulta frente de apoio ao petista

Ricardo Galhardo e Marianna Holanda | O Estado de S.Paulo

Após vencer quatro disputas presidenciais seguidas, a postura do PT, classificada por ex-aliados e adversários como “hegemonista”, deixou um rastro de ressentimentos que hoje dificulta reaproximações e a formação de uma “frente democrática” em torno do presidenciável Fernando Haddad e contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Em entrevista ao Estado, neste domingo, 14, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deixou claro que a postura do PT é um entrave para seu apoio a Haddad. “O PT no poder sempre teve uma deterioração da visão do (Antonio) Gramsci da hegemonia. Aqui não é cultural, é hegemonia do comando efetivo. Quando você vê o que foi dito a respeito do meu governo, nada é bom”, disse.

FHC não é o único. Carlos Lupi, presidente do PDT, partido que declarou “apoio crítico” a Haddad, explicou por que a sigla e Ciro Gomes não entraram de cabeça na campanha petista. “É um acúmulo dessa coisa de hegemonia. Me diga uma unidade da Federação em que eles nos apoiaram. Para o PT, a gente só é bom quando os apoia”.

Segundo Lupi, no dia 29, logo depois do segundo turno, o PDT vai lançar a candidatura de Ciro para a eleição presidencial de 2022.

Rede. O PT também procurou a Rede de Marina Silva, por meio de ex-petistas. As tratativas pararam quando a Executiva Nacional do partido decidiu não apoiar o petista ao estabelecer apenas o veto a Jair Bolsonaro. Questionado sobre as razões para não apoiar Haddad, Bazileu Margarido, membro da Executiva Nacional da Rede, criticou o que chamou de “erros” do PT, como as alianças com “o que há de pior na política”.

Haddad patina em amarrar apoios de FHC, Barbosa e Ciro

Por Malu Delgado | Valor Econômico

SÃO PAULO - As dificuldades para que o candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, consiga produzir fatos e sinais claros de apoio mais amplo na disputa com Jair Bolsonaro (PSL) se acumulam e esbarram no curtíssimo tempo que resta de articulação no segundo turno. Na noite de ontem, emissários de Haddad sinalizaram, mais uma vez, a intenção de bater à porta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

O candidato também aguardava resposta do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa sobre uma possível adesão à campanha ou ao menos uma declaração favorável ao petista.

Nos dois casos, tanto FHC quanto Barbosa sinalizam que só poderão cogitar o apoio a Haddad se houver inflexão clara do petista em pontos específicos do programa de governo. O discurso de Haddad em prol da democracia não é e não será suficiente para construir esta unidade de forças democráticas. Além de perder o 'timing', a liderança consolidada de Bolsonaro nas pesquisas limita os movimentos do PT sobre eventuais alianças.

Ontem, o candidato fez um outro movimento e disse ter conversado com o professor Mario Sérgio Cortella. No Twitter e em entrevistas, Haddad disse que Cortella seria um excelente ministro da Educação. Um convite, porém, não foi feito. Houve apenas um contato telefônico.

Os movimentos de Haddad esbarram na falta de autonomia que o candidato tem dentro do PT. O novo coordenador político da campanha, o ex-ministro Jaques Wagner, afirmou ontem ao Valor que Haddad "tem total liberdade" para conduzir pontes com setores amplos da sociedade, para além da política, inclusive. Wagner é um dos defensores, dentro do PT, da construção de um campo amplo em torno da candidatura. Eleito senador, Wagner disse não gostar do nome "frente ampla", porque uma frente só pode ser de fato construída em caso de vitória.

Haddad declarou ontem, em entrevista a jornalistas, que não tem feito outra faz coisa "a não ser falar com pessoas" que podem compor frente democrática que se oponha a Bolsonaro (PSL).

O candidato voltou a mencionar o encontro com Joaquim Barbosa e foi questionado sobre sinais concretos que poderia fazer a Ciro Gomes, do PDT, para tê-lo a seu lado, como um compromisso de não disputar uma eventual reeleição.

"Pelo Brasil democrático, eu estaria disposto a qualquer tipo de...", disse, sem concluir o raciocínio. Haddad afirmou que tem feito "vários outros contatos desta natureza", mas que não citaria nomes devido a pedidos de reserva das pessoas com as quais busca uma interlocução.

Wagner voltou a defender ontem que Haddad vá ao Ceará, caso Bolsonaro insista em permanecer "escondido debaixo da cama e atrás de uma receita [médica]" e não vá a nenhum debate. Ele sinalizou que Ciro pode antecipar seu retorno da Europa. "Nosso governo teria que ser mais amplo do que nunca", disse Haddad, que deu entrevista com uma bandeira nacional ao fundo. "A bandeira não é do Bolsonaro. São as cores do Brasil", justificou Jaques Wagner.

Wagner tenta choque de comunicação tardio

Por Andrea Jubé | Valor Econômico

BRASÍLIA - Na largada para o segundo turno, o senador eleito pela Bahia, Jaques Wagner (PT), incorporado ao time de Fernando Haddad, tomou as rédeas da campanha para aplicar um choque de comunicação tardio, que poderá surtir ou não efeitos a 12 dias da votação. Wagner trouxe para a campanha de Haddad o reforço de profissionais da Bahia para promover mudanças nas redes sociais e no horário eleitoral, setor em que diagnosticou, ao lado do candidato, falhas na primeira etapa da disputa.

Haddad conduziu uma reunião em São Paulo na última terça-feira apenas com o governador da Bahia, Rui Costa, e Jaques Wagner, incorporados à coordenação da campanha, quando ouviu de ambos que deveria dar mais entrevistas, principalmente para rádios e televisão, turbinar as redes sociais, em especial o WhatsApp, e adicionar doses de emoção à disputa.

Wagner avocou para si a missão de turbinar a comunicação. Na última quinta-feira, Haddad concedeu entrevista para um pool de 98 rádios do interior da Bahia. A estratégia foi repetida ontem, quando o candidato petista falou para um dos locutores mais conhecidos do Estado, Mário Kertész, em um pool de 28 rádios baianas.

Ontem, Haddad deu três entrevistas para rádios, incluindo o pool de emissoras baianas, falou para veículos de internet, participou de um ato com professores e gravou entrevista para a TV dos Trabalhadores (TVT). Hoje ele falará para a rádio Jovem Pan e para uma emissora do Piauí. O petista concedeu mais entrevistas em oito dias de campanha no segundo turno do que durante um mês como candidato na primeira fase.

A simbólica perda de votos do PT na classe C: Editorial | O Globo

De 2014 a 2018, partido teve 10 milhões de votos a menos em faixas de renda mais baixa, algo sugestivo

O primeiro turno da eleição marcou o surgimento de uma forte corrente conservadora que digitou nas urnas 47,7 milhões de votos em Jair Bolsonaro (PSL), contra 29 milhões no candidato do PT, Fernando Haddad. Ficou nítida uma onda antipetista na derrota de Haddad nesta primeira fase das eleições presidenciais.

Natural que, enquanto o candidato vitorioso avalie discurso, propostas e campanha para confirmar o êxito no segundo turno, o PT — partido que ganhou as eleições presidenciais de 2002 a 2014, tendo saído do Planalto devido ao impeachment aprovado pelo Congresso, em 2016, contra a presidente Dilma Rousseff — faça um cuidadoso inventário dos erros.

A necessidade de os petistas entenderem o que houve se justifica por diversos fatos. Um deles, importante, revelado pelo GLOBO de domingo, é que, segundo uma atualização da tese de doutorado em ciência política da pesquisadora Priscila Lapa, da Universidade de Pernambuco (UFPE), o PT, de 2014 a 2018, perdeu 10 milhões de votos junto à classe C. Aquela, segundo a classificação da Fundação Getúlio Vargas, que tem rendimentos familiares entre R$ 2 mil e R$ 8,6 mil.

A prepotência petista: Editorial | O Estado de S. Paulo

As análises estatísticas do primeiro turno da eleição presidencial mostram aquilo que todos já sabem: o PT continua a reinar soberano nos remotos grotões do País, onde eleitores sustentados pelo assistencialismo do Bolsa Família idolatram o chefão petista Lula da Silva. Foi basicamente esse clientelismo que impulsionou a transferência de votos de Lula para seu preposto na eleição, Fernando Haddad, levando o ex-prefeito paulistano para o segundo turno contra Jair Bolsonaro (PSL).

Superada a primeira etapa da campanha, e a título de arregimentar apoio fora do curral lulopetista, Haddad agora quer fazer o País acreditar que nada tem a ver nem com o PT nem com Lula. Mais do que isso: pretende identificar-se como um candidato sem partido, preocupado unicamente com a democracia brasileira, que, segundo seu discurso, estaria ameaçada pelo seu oponente – um ex-capitão que faz apologia da ditadura e da tortura.

Assim, a candidatura de Haddad seria nada menos que a salvação da democracia – condição que, se verdadeira fosse, tornaria praticamente obrigatório o voto no PT no segundo turno para aqueles que prezam as liberdades democráticas. Na narrativa elaborada pelos estrategistas do PT, aqueles que rejeitam esse axioma lulopetista, recusando-se a declarar voto em Haddad ainda que considerem Bolsonaro realmente uma ameaça à estabilidade do País, são desde logo qualificados como cúmplices do ex-capitão.

O preço do voto: Editorial | Folha de S. Paulo

Custo das campanhas eleitorais cai, mas com alta de verba orçamentária

Em um curso forçado, sob o impacto das revelações da Lava Jato, o Brasil atingiu o objetivo de baratear as campanhas eleitorais.

Conforme esta Folha relatou, os candidatos aos múltiplos cargos em disputa no primeiro turno deste ano se valeram de uma receita total de R$ 2,8 bilhões. O montante decerto está longe de desprezível, mas aponta uma substancial redução após os R$ 6,4 bilhões, em valores corrigidos, desembolsados há quatro anos nos dois turnos.

Resta contabilizar, claro, os gastos dos confrontos finais ao Palácio do Planalto e aos governos de 13 estados; seria ingenuidade, ainda, imaginar que não tenha havido casos de caixa dois. De todo modo, não há dúvida de que se reverteu uma tendência de encarecimento contínuo dos pleitos no país.

De positivo, comprova-se que os candidatos podem levar sua mensagem aos eleitores sem a necessidade de marqueteiros contratados a peso de ouro e efeitos espetaculosos na propaganda de TV.

Se o debate programático ainda deixa a desejar, não é por falta de verbas. A disputa presidencial de 2014, aliás, indica que a dinheirama mais se destinava a iludir do que a esclarecer o eleitorado.

A chapa vitoriosa de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB) declarou, na época, mais de R$ 300 milhões em arrecadação oficial. Agora, o petista Fernando Haddad teve pouco menos de R$ 50 milhões no primeiro turno; seu adversário, Jair Bolsonaro (PSL), não chegou aos R$ 2 milhões.

Velhas fragilidades da educação no novo índice do Banco Mundial: Editorial | Valor Econômico

Em recente artigo no Financial Times, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, escreveu que os governos geralmente preferem construir rodovias, pontes e aeroportos a investir em treinamento de professores e em atendimento à saúde, o que também beneficia a população. Médico que trabalhou em projetos de apoio humanitário antes de assumir o Banco Mundial, Kim conclui que os frutos político e econômico da construção de uma obra de infraestrutura podem ser colhidos mais rapidamente, enquanto o impacto positivo do investimento em capital humano pode "levar anos ou mesmo décadas para se tornar aparente". No entanto, adverte, a disponibilidade de capital humano de um país tem estreita correlação com o crescimento econômico, ligação que deve se aprofundar no futuro cada vez mais digital.

A conclusão de Kim é que promover o desenvolvimento do capital humano é, portanto, urgente. Com o objetivo de oferecer um instrumento de partida para a tarefa, o Banco Mundial elaborou um Índice de Capital Humano (ICH), divulgado na reunião conjunta com o Fundo Monetário Internacional (FMI), na semana passada. A ideia é que, ao poder comparar sua posição com a de vizinhos ou concorrentes, o governo de cada país possa trabalhar para superar os pontos fracos da formação de sua população, providência tão importante quanto a solução dos problemas fiscais e econômicos.

Cesaria Evora & Marisa Monte - É doce morrer no mar

Carlos Drummond de Andrade: Entre o ser e as coisas

Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

As almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.

N'água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso

• O sr. tem mais identidade com o Haddad?

“Não posso dizer isso. Como pessoa é uma coisa, como partido é outra. A proposta que o PT representa não mudou nada. Quando fala em economia, é a nova matriz econômica. Incentivar o consumo? Tudo bem, mas como se faz isso sem investimento? Como se faz sem enfrentar a questão fiscal? O PT no poder sempre teve uma deterioração da visão do (Antonio) Gramsci da hegemonia. Aqui não é cultural, é hegemonia do comando efetivo. Quando você vê o que foi dito a respeito do meu governo, nada é bom. Tudo que fizeram é bom. Quem inventou o nós e eles foi o PT. Eu nunca entrei nessa onda. Agora o PT cobra... diz que tem de (apoiar). Por que tem de automaticamente apoiar? É discutível. (O PT) Não faz autocrítica nenhuma. As coisas que eles dizem a respeito do meu governo não correspondem às coisas que acho que fiz. Por que tenho que, para evitar o mal maior, apoiar o PT? Acho que temos de evitar o mal maior defendendo democracia, direitos humanos, liberdade, contra o racismo o tempo todo.”

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Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República. Entrevista: 'Não estou vendendo a minha alma ao diabo', O Estado de S. Paulo, 14/10/2018.

Fernando Gabeira: Novos tempos, nova tática

- O Globo

Esquerda atrelou o destino ao de um homem na cadeia, supondo que estava repetindo a história de Mandela

Manifestações dos leitores são um estímulo para avançar um pouco nesse oceano de emoções eleitorais. Alguns acham que trato de temas etéreos, que não interessam agora. Outros, que sou condescendente com Bolsonaro.

Talvez as pessoas estranhem que me dedique a um cenário pós-eleitoral, pois acho que o resultado do segundo turno é relativamente previsível. Os que me acusam de condescendente não percebem que estou tentando transferir uma experiência de relação com Bolsonaro para oferecer, se não uma tática, elementos de uma tática para o futuro próximo.

Minha experiência é de quem defendeu no Parlamento bandeiras que Bolsonaro ataca. As frases preconceituosas que ele eventualmente dizia são as mesmas que ouvimos nas ruas de todo o Brasil.

Minha relação com ele era de alguém que representava minorias, que até hoje apoio, com alguém que, no meu entender, estava mais perto do espírito majoritário das ruas.

Um ponto de convergência foi aluta contra a corrupção. Aliás, foi essa luta, nome utem pode político, que me permitiu disputar com alguma chance eleições majoritárias.

Minha atitude não foi ade rotular de fascista, misógino, racista ou homofóbico, mas compreender que, por baixo dessas reações populares, existe uma insegurança sobre as mudanças culturais, e é preciso buscar avanços que não provoquem um retrocesso maior. Discussões embaixo nível no Congresso contribuem para abrira Caixa de Pandora na sociedade. Hoje, infelizmente, está aberta.

Rosiska Darcy de Oliveira: O ar que respiramos

- O Globo

Quando o ódio e a violência falam mais alto que o argumento, a defesa da democracia se torna imperativa.

Não me lembro de um mal-estar semelhante ao que percebo hoje na sociedade brasileira. Paira um temor difuso sobre o pano de fundo das notícias falsas que dissolvem a realidade em ritmo demencial, como num pesadelo em que o extraordinário se mistura ao cotidiano banal, criando histórias incompreensíveis.

Nas sete eleições que sucederam à redemocratização, apesar das divergências entre os candidatos, não havia medo de que o resultado viesse a pôr em risco a democracia.

Os candidatos ao segundo turno falam em democracia pronunciando essa palavra como um exorcismo dos demônios que sabem que a ameaçam. P araque seja mais que uma palavra usada em vão, é na espessura dos grandes e pequenos gestos do cotidiano que a democracia se afirma ou infirma.

Fatos intoleráveis, como o assassinato do mestre de capoeira Moado Katendê por ódio político, justificam os fantasmas de uma violência que podes e alastrar como a peste. Caetano Veloso, rompendo o silêncio, gravou em vídeo um alerta emocionado: “O Brasil não pode ser reduzido a essa coisa bárbara.” Essas agressões têm que ser repudiadas e punidas. Já.

Eleições são em si mesmas uma afirmação da democracia. O eleito tem legitimidade para governar, mas não tem um poder absoluto. Os contra-poderes se enraízam nas instituições e na sociedade. A Constituição e o Judiciário independente garantem os direitos individuais e coletivos. Asseguram a liberdade de expressão na mídia que denuncia tentativas de violação ou negação desses direitos. Protegem a liberdade de pensamento e escolhas no cotidiano de cada um.

A democracia foi obra de gerações. Combater quem a ameaça é preciso. Não importa de onde venha a ameaça.

A democracia não convive coma barbárie que agride minorias e ofende as mulheres. Não aceita que nos dividam como inimigos. Nosso futuro como nação depende da preservação das liberdades. O ar que respiramos.

Cacá Diegues: A vigência da democracia

- O Globo

Brasileiros conservadores, a grande maioria, foram esquecidos pela nossa liderança intelectual, política e cultural

Eleitos para o segundo turno, as primeiras declarações de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad foram as de que prometiam absoluto respeito à Constituição de 1988. A promessa pode não ser sincera, pode logo se desfazer em pérfidas maquinações para que o futuro vencedor faça o que bem entender do governo e do Brasil. Mas não há como negar que Bolsonaro e Haddad desejavam dizer que são candidatos fiéis às regras do jogo democrático, do estado de direito e da observância da lei. Uma reafirmação de compromisso com o tipo de sociedade em que vivemos desde o fim da ditadura no país.

Cabe a nós, testemunhas do juramento, vigiar e cobrar no futuro o comportamento prometido. Teremos que evitar as eternas desculpas científicas (históricas, sociológicas, políticas) para justificar o que eventualmente aconteça, nos dispondo a ser os guardiões daquilo que foi jurado, não importa em que circunstância. Garantiremos assim uma das mais belas consequências da democracia — a valorização do que é dito pelos concorrentes antes do pleito, em benefício deles mesmos, no intuito de convencer o eleitor.

Não conheço o plano de governo de Jair Bolsonaro, acho até que não existe plano nenhum. Bolsonaro não está sendo escolhido pelo eleitor por causa de um vago programa econômico, nem por causa de qualquer projeto administrativo que ele tenha bolado para o país. Seus votos vêm de brasileiros frustrados com o que lhes foi prometido em outras eleições, cansados de tanta conversa fiada que, no fundo, só serviu para esconder a corrupção generalizada.

Esses brasileiros conservadores, a grande maioria da população do país, foram esquecidos pela nossa liderança intelectual, política e cultural, que nunca se deu conta de que, do politicamente correto aos hashtags de protesto, da incompreensível globalização ao empoderamento das minorias, tudo é matéria que não lhes dizia respeito, nem queriam saber do que se tratava. Como disse recentemente o historiador Boris Fausto, “essa onda é diferente do fascismo, quando havia uma consciência politizada por trás. Essa onda atual de direita é muito mais à brasileira, amorfa e inconsciente, o que não quer dizer que não seja perigosa.”

Marcus André Melo: O queijo suíço

- Folha de S. Paulo

Sob novas regras os eleitores puniram e premiaram o desempenho dos congressistas

O saldo de acertos e erros entre cientistas políticos é pouco animador. Esta conclusão não se aplica apenas ao Brasil, onde a sabedoria convencional na área apontava para a derrota de Jair Bolsonaro.

A eleição de Donald Trump seria impossível segundo um cientista político influente como John Zaller. O erro dele e de seus colaboradores estava estampado no próprio título do livro que havia publicado, pouco antes das eleições, sobre as primárias presidenciais, nas quais o republicano foi vitorioso: “The Party Decides” (o partido decide).

Às vezes, acertamos, como no caso da renovação parlamentar. De fato, o padrão “esquizofrênico com derrota de muitos caciques que serão varridos do Congresso” e parecido com “um queijo suíço”, que apontei, na contramão das apostas, como provável, acabou prevalecendo.

O tsunami varreu muitos nomes, já sobejamente divulgados. As estruturas que permaneceram no “queijo” se devem em larga medida ao fundo de campanha, o qual garantiu alguma sobrevivência a alguns partidos e parlamentares.

O fundo foi o pedágio para a aprovação da reforma política, aprovada em 2017, e que continha medidas para reduzir progressivamente a fragmentação, como a cláusula de barreira e a proibição de coligação em eleições proporcionais.

Celso Rocha de Barros: As vozes de Bolsonaro e Haddad

- Folha de S. Paulo

O candidato do PSL, se eleito, desmoralizaria a direita por uma geração inteira

Fernando Haddad (PT) encontrou sua voz, e, se você leu minha coluna da semana passada, deve imaginar que ela me soou bem. Jair Bolsonaro (PSL), por sua vez, não tem mais o atestado médico para esconder a sua.

Em sua entrevista ao Jornal Nacional na segunda-feira passada (8), Haddad deu os sinais certos. Anunciou que o PT deixou de lado a proposta de nova Constituinte, adotou um discurso moderado, deixou claro que Dirceu não participará de seu governo (o que era óbvio) e, o que passou despercebido, descreveu a proposta do PT como “social-democrata”.

Esse ponto é muito importante: o PT sempre foi reconhecido por todos os grandes partidos social-democratas do mundo como um igual, mas nunca admitiu esse parentesco muito claramente.

O PT pertence à mesma família dos movimentos de esquerda moderados do Chile, do Uruguai e da Costa Rica. É importante sinalizar isso.

Mas a sinalização mais clara de que o PT está falando sério no segundo turno foi o encontro de Haddad com Joaquim Barbosa, que, admito, nem eu esperava que acontecesse.

Pensem bem no peso disso: Barbosa foi indicado por Lula para o STF (Supremo Tribunal Federal), mas mandou para a cadeia grande parte da direção do PT. O PT passou anos gritando que o julgamento foi uma farsa, e que todos os condenados eram inocentes.

O gesto de Haddad foi importante. É difícil imaginar outro petista fazendo a mesma coisa nos últimos anos.

Vinicius Mota: Ele não pode tudo

- Folha de S. Paulo

A ilusão de que o presidente eleito tem grande autonomia para mudar o que quiser vai se dissipar conforme a ansiedade eleitoral dê lugar à sobriedade dos dias comuns

Preconceitos baseados em apreensões superficiais da democracia brasileira se espalham como fogo na serragem. Supõe-se que o presidente da República eleito no próximo dia 28 será um todo-poderoso capaz de mudar o curso das políticas públicas, das instituições e do comportamento social num estalar de dedos.

Daí brota o pânico do rival. A ameaça de um lado seria o “fascismo”. Do outro, o “comunismo”. As duas campanhas atiçam o surto de medo, pois lucram com ele.

Mas o fato, que ficará claro conforme o novo governo se desenvolva e a sóbria modorra do cotidiano prevaleça sobre a ansiedade, é que o presidente da República está mais limitado do que nunca sob esta Constituição.

A mandatária que atingiu picos de popularidade foi cassada por esta legislatura. Com Temer neutralizado, o Congresso aprendeu a partilhar o Poder Executivo, num tipo de semipresidencialismo cujo enraizamento não está descartado.

Leandro Colon: Segundo turno desperdiçado

- Folha de S. Paulo

Soma-se a isso a neutralidade de partidos de peso que contribuíram muito para a crise política

Instituído pela Constituição de 1988, o sistema de votação em dois turnos faz com que o vencedor assuma o poder legitimado por mais de 50% dos votos válidos.

Assim fosse lá atrás, teríamos em 1955 um segundo turno entre Juscelino Kubitschek e Juarez Távora.

Na ocasião, JK foi eleito com 35,68% dos válidos, cinco pontos a mais que o segundo colocado e dez à frente do terceiro lugar, Adhemar de Barros.

Cinco anos depois, Jânio Quadros chegou à Presidência com 48%, uma vitória de 16 pontos sobre o marechal Lott, o candidato do governo JK.

E se houvesse segundo turno naquele período? JK poderia ter sido derrotado e Brasília nem existido (para alegria de muitos). O Rio seria a capital até hoje. Talvez o país não tivesse vivido a tempestade dos sete meses de Jânio e quem sabe os anos seguintes, que levaram à derrubada de João Goulart e ao golpe militar de 1964, teriam sido diferentes.

Em meados dos anos 90, setores do Congresso flertaram com a revogação do modelo então recém-criado.

Passados 30 anos da Constituição, parece não haver dúvidas de que o sistema é justo. Não só porque evita a eleição de um presidente sem a maioria. A regra permite ao eleitor comparar dois projetos de poder e mergulhar com profundidade em questões tantas vezes desprezadas em uma disputa muito pulverizada.

Denis Lerrer Rosenfield *: A onda da renovação

- O Estado de S.Paulo

Vote no Brasil ou compre sua passagem para a Venezuela ou para Cuba. Só de ida!

A onda da renovação atingiu profundamente a vida política brasileira. Os sismógrafos, a saber, os institutos de pesquisa, não conseguiram captar a intensidade das mudanças em curso, seja por instrumentos inadequados ou por viés ideológico. É como se houvesse uma torcida a orientar as análises e enquetes, cegando ou obscurecendo a irrupção que estava por vir. Quando não é a verdade o objetivo, a tendência consiste em ficar na superfície das coisas, numa espécie de acomodação ao politicamente correto, à esquerda tida por “boa” opção. Se assim foi até agora, por que não continuar?

Para tais posições, seria quase impensável sair da alternativa esquerda/centro-esquerda, PT e PSDB, como se esta falsa polarização fosse de natureza a satisfazer o pensamento (ou sua ausência), num jogral que terminou por produzir fastio à sociedade. Pela primeira vez desde o referendo sobre o Estatuto do Desarmamento - et pour cause -, os cidadãos foram chamados a outra opção, a de uma escolha que pudesse abandonar a falsa polarização existente, em proveito de outra posição, a de uma alternativa clara de direita.

A sociedade brasileira decidiu dizer não. Não a ser governada por PT, Lula e assemelhados. O antipetismo é uma resposta aos desmandos do partido. Não a ser governada da prisão, num modelo oriundo do PCC. Não à corrupção. Não a uma classe política que buscou seus próprios privilégios em lugar de trabalhar para o bem comum. Não à criminalidade e à insegurança que tomaram conta das cidades e do campo. Não aos tucanos que se resignaram ao muro e a um “diálogo” com os petistas, cessando de ser uma alternativa eleitoral.

Cida Damasco: Meia volta, volver

- O Estado de S.Paulo

Recuos e indefinições nos planos de governo marcam segundo turno

Bolsonaro e Haddad entram na segunda semana de campanha para o segundo turno em situações bem diferentes. O primeiro com seu favoritismo confirmado pelas pesquisas eleitorais e o segundo tendo de se conformar com “apoios críticos” em lugar da sonhada formação de uma frente mais ampla. Se há, porém, uma semelhança entre os dois candidatos, essa é a manutenção das incertezas em relação aos programas de governo. Especialmente no caso da economia.

Até os mercados, que já haviam consagrado Bolsonaro e seu liberalismo, manifestaram dúvidas nos pregões da semana passada, depois dos escorregões do candidato sobre reformas e privatizações. Em resumo, a temporada de instabilidade tende a se alongar. Pode não ser uma temporada de furacões, mas tão cedo não haverá tempo claro e firme.

É evidente que correções de rumo, além de naturais num processo eleitoral conturbado como o atual, são bem-vindas. É o caso do recuo dos dois candidatos em relação à convocação de uma Constituinte – eles falam agora em emendas à Constituição em pontos específicos. Mas quando essas correções se multiplicam, dão motivo a preocupações. Afinal, seriam apenas “ajustes” nos planos ou estaria a caminho um novo estelionato eleitoral?

Depois de inúmeras entrevistas e, no caso de Bolsonaro, de “pronunciamentos” via redes sociais, o programa econômico dos dois candidatos continua tão ou mais obscuro do que antes. E não é só isso. Haddad ainda não definiu nenhum integrante de sua equipe, enquanto se divide entre acenos ao centro e agrados à esquerda. E o próprio Bolsonaro, que se antecipou e usou a escolha do liberal de raiz Paulo Guedes para adoçar os agentes dos mercados, continua dando sinais de que seu futuro ministro da Economia não terá a anunciada autonomia.

Fernando Limongi: O admirável mundo do Novo

- Valor Econômico

Partido toma decisões com olhos voltados à agenda econômica

O Brasil está à beira do abismo, a um passo da queda. Não há meias palavras, nem pílula a ser dourada. Ou Bolsonaro é derrotado ou viramos as Filipinas. O tamanho do desastre não pode ser minimizado. Não enxerga quem não quer.

O centro e a direita civilizada estão sendo vítimas dos fantasmas que criaram, do bicho-papão que inventaram para assustar a todos. Chamaram o lobo para protegê-los, mas se esqueceram de que nem todas as feras são passíveis de polimento. É como aceitar a proteção da máfia. Quando se derem conta, serão as vítimas de seus salvadores.

A hora da razão está sendo desperdiçada. Tome-se como exemplo o pronunciamento do candidato do Novo: "O PT é muito desalinhado com o que o Novo pensa, mas gostaria de ouvir mais do outro candidato. Ele tem algumas ideias na parte econômica, vindo do seu assessor, o Paulo Guedes, que se assemelham ao que defendemos."

O Novo, como se vê, toma decisões ouvindo apenas um lado e com olhos voltados exclusivamente para a agenda econômica. É assim que o "mercado" processa informações? Agentes racionais devem revisar seus juízos a partir das informações que recebem. O medo do bicho-papão faz com que Amoêdo se esqueça dos ensinamentos básicos que aprendeu em seu curso de economia. Tudo o que Bolsonaro falou e fez está sendo ignorado, ao passo que se deposita confiança em promessas que, levadas em conta as informações disponíveis, não são críveis.

Luiz Carlos Mendonça de Barros: Os resultados das eleições

- Valor Econômico

Novos congressistas do PSL e aliados serão testados em ambiente radicalizado e sem o guia de um plano de voo

Os resultados do primeiro turno das eleições deste ano surpreenderam a todos os brasileiros. Não só pelos números finais captados nas urnas, mas, principalmente, pelas mudanças que ocorreram nos dias finais da campanha. Dois exemplos chamam a atenção dos analistas: as eleições para governador de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. No primeiro caso o candidato do partido Novo ultrapassou nas 48 horas que antecederam a abertura das urnas o primeiro colocado nas pesquisas e abriu uma frente que lhe garante o favoritismo no segundo turno. No caso do Rio de Janeiro tivemos o mesmo rush final de um candidato desconhecido e que chega ao segundo turno também na posição de favorito.

Em ambos os casos os candidatos que foram ultrapassados são políticos tradicionais, com uma história longa e que ocuparam cargos importantes em seus respectivos Estados. Já seus desconhecidos adversários declararam antecipadamente seu voto para o candidato Jair Bolsonaro.

Mas estas não foram as únicas surpresas nas urnas. As inúmeras derrotas de candidatos favoritos a vários cargos no Executivo e no Legislativo ocorreram em praticamente todo o território nacional, atingindo tanto figuras de expressão da política nas últimas décadas como figuras de menor expressão.

O corte feito pelo eleitor buscou a eleição de figuras novas e não vinculadas aos partidos mais tradicionais, principalmente PT, MDB e PSDB. Este movimento fez com que mais de 250 deputados federais fossem substituídos por novas caras, reduzindo a importância dos partidos líderes nos últimos 25 anos e aumentando a pulverização das bancadas no Congresso.

Nas colunas de junho e julho passados escrevi sobre estarmos vivendo no Brasil o fim de um ciclo de mais de 25 anos e que marcou de forma muito forte a atividade política no Brasil. Mas de forma alguma previ a intensidade deste fenômeno, como ocorreu nas eleições deste 7 de outubro, dividindo quase ao meio a sociedade brasileira. Ou seja, a transição que eu intuía já estar ocorrendo, pela perda de credibilidade dos partidos dominantes, chegou de forma abrupta e com uma intensidade que não faz parte da sociedade brasileira. O eleitor médio decidiu penalizar a classe política com a perda de mandato de seu núcleo dirigente e identificado com o período em que a corrupção sistêmica tomou conta do funcionamento do parlamento.

Angela Bittencourt: Passada a euforia, foco está no plano de governo

- Valor Econômico

Fusão de ministérios é blindagem contra pressão de políticos?

Passada a euforia do 1º turno e a duas semanas do 2º, marcado para 28 de outubro, o resultado da eleição brasileira parece dado; sabe-se que o dólar não vale R$ 4,50, mas também não vale R$ 3,20; e as expectativas se voltam aos detalhes do programa de governo que será adotado pelo próximo presidente da República.

Pesquisas convencionais de intenção de voto, sondagens telefônicas, trackings e interações entre internautas nas redes sociais apontam vantagem do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL), sobre o candidato da esquerda, Fernando Haddad (PT).

Nesta segunda-feira, Ibope, FSB e RealTime divulgam novas sondagens. Na semana passada, logo após o 1º turno, três pesquisas chegaram a resultados muito próximos. Pelo critério de "votos válidos", o Datafolha registrou 58% das intenções de voto para Bolsonaro e 42% para Haddad; a "Veja"/ Ideia Big Data observou 54% e 46%; e a XP /Ipespe, 59% e 41%, respectivamente.

Sem alteração expressiva desses resultados, Jair Bolsonaro será o próximo presidente da República. Contudo, como o vencedor só é proclamado com as urnas apuradas, a prudência ainda é boa conselheira.

Bolsonaro e Haddad têm dado indicações do que pretendem fazer e principalmente do que não pretendem na área econômica. O futuro, portanto, está longe de mapeado. Ambos rejeitam a ideia de privatizar os bancos públicos. Banco do Brasil e Caixa permaneceriam estatais em qualquer uma das administrações. Empresas estatais estratégicas e ligadas ao setor real, como Petrobras e Eletrobras, poderiam ter segmentos vendidos ao capital privado, por meio de operações possivelmente "cirúrgicas".

A Previdência seria reformada no governo de um ou do outro. E a preferência de ambos é pelo sistema de capitalização, o que elevaria brutalmente os custos de implantação. Nenhuma das campanhas demonstra disposição em adotar o projeto de reforma previdenciária encaminhado pelo governo Temer ao Congresso.

Bolsonaro - ladeado pelo economista Paulo Guedes já indicado ministro da Fazenda - deseja uma redução radical do déficit público, proposta que sobe no telhado sem a disponibilidade de recursos viriam das privatizações. Haddad - ladeado pelo ex-presidente Lula preso na sede da Polícia Federal, em Curitiba, desde abril - prioriza o fim do teto de gastos para o setor público.

Na semana passada, Fernando Haddad, do PT, anunciou uma equipe de coordenação da campanha para a disputa do 2º turno. No grupo destacam-se ex-governadores e petistas históricos muito atuantes nos governos Lula e Dilma e próximos do ex-presidente.

Um passo à frente, Paulo Guedes teria ventilado a colaboradores da campanha e a empresários a ideia de criar um "superconselho" econômico à semelhança do existente no governo americano que tem como função definir a política econômica e assessorar o presidente em questões nessa área, informou o jornal "O Estado de S. Paulo".

Entrevista: E agora, Gabeira?

Morris Kachani | O Estado de S. Paulo

Seja como guerrilheiro, exilado, militante dos direitos humanos, ambientalista, deputado, jornalista ou escritor, Fernando Gabeira se dedica à vida política brasileira há praticamente meio século.

Gabeira foi filiado ao PT até 2003, quando se deu um rompimento rumoroso com Lula e seu séquito. Foi também colega de Jair Bolsonaro por 16 anos, na Câmara dos Deputados.

Ele, autor do clássico “O que é isso, companheiro?”, que entre tantas revolucionou os costumes com a icônica tanga de crochê rosa, no começo dos 80, e mais recentemente recebeu um ‘abraço hetero’ de Bolsonaro, com o ex-capitão dizendo-se apaixonado, em entrevista na GloboNews, há dois meses.

Gabeira construiu uma trajetória original e de respeito, e em suas palavras talvez estejam algumas chaves para se entender o tempo de hoje.

“Eu acho que a sobrevivência da democracia não está ameaçada, mas a qualidade dela, sim. A situação brasileira pode ser um pouco mais aproximada com a situação dos Estados Unidos, onde a regressão autoritária acontece de uma certa maneira contrabalanceada pelas instituições, pela justiça, mídia, parlamento”.

“As circunstâncias eleitorais que levam o Bolsonaro e essa vitória são circunstâncias que não podem ser muito reduzidas à visão de que é só a direita que está chegando ao governo. Existem não somente várias visões de direita, como muita gente que é basicamente contra a corrupção.

Não significa que todo o eleitorado que vota no Bolsonaro pensa como ele. É muito comum você ouvir: “eu voto no Bolsonaro apesar das coisas que ele pensa”. É um raciocínio, um cálculo que as pessoas fizeram julgando muito com a presença do PT do outro lado. E ele, muito sabiamente, explorou isso desde o princípio”.

“Não acho Bolsonaro preparado para ser presidente. Acho que ele vai ter que ser preparado sendo presidente. O Bolsonaro é um deputado do baixo clero que praticamente ignorou o debate parlamentar.

Colocou que aquilo era o sistema e que ele seria contra aquele sistema.
Trabalhei com ele na Câmara num contexto de concordâncias na questão da luta contra a corrupção, e num contexto de divergências a respeito de gays, negros, mulheres, toda essa temática”.

“Eu não posso tomar o Haddad como candidato. Na verdade, ele é a pessoa determinada por um grupo que se recusa a fazer uma autocrítica de toda a roubalheira que houve no país, e que está propondo à sociedade – de uma forma que considero inadequada –, que ela dê um cheque em branco para voltarem e fazerem a mesma coisa. Se você não faz uma autocrítica sobre aquilo tudo que aconteceu – e há uma montanha de provas –, e se dispõe a ganhar de novo o governo, é porque você quer continuar fazendo o mesmo”.

“Eu acho que vamos ter uma possibilidade – quem sabe num horizonte próximo –, de todas aquelas pessoas que estavam separadas começarem a se unir um pouco em torno de uma possibilidade de uma frente democrática que não seja essa caricatura que o PT propôs.

Uma frente democrática com pessoas, sem partidos querendo hegemonia; sem essa perspectiva eleitoral imediata. Uma frente democrática que pudesse temperar o caminho, moderar o caminho. E as próximas eleições fariam seu ajuste”.

“A ditadura é algo fora do horizonte. As Forças Armadas vão manter uma relação de autonomia em relação a Bolsonaro. Eu acho até que potencialmente, como elemento moderador. Existe no pensamento militar uma visão mais moderada do que do Bolsonaro. Ele é a versão mais popular, com uma série de impurezas que nem sempre os militares consideram uma coisa sensata”.

“Collor veio num contexto ainda de uma eleição analógica. O Bolsonaro veio num contexto de uma eleição digital. Ele tem muitos admiradores que o apoiam, e existe também um corpo de militantes na internet que defendem suas posições. Algo que o Collor não tinha. Ele não tinha ninguém. E o Bolsonaro tem, progressivamente, alguns setores intelectuais que começam de alguma maneira a aparecer em sua defesa. Então, ele tem, no meu entender, uma base mais enraizada que a do Collor”.

“Os elementos do programa do PT que se parecem com o projeto venezuelano foram amplamente discutidos. Este programa surgiu de uma análise do impeachment baseada na presunção de que o partido não procurou tomar o poder, mas apenas vencer as eleições. Uma proposta de Assembleia Constituinte, controle social da mídia e conselhos populares acaba parecendo com o que se passa na Venezuela. E finalmente as entrevistas de José Dirceu sobre o tema, falando em controlar o Judiciário e tomar realmente o poder. Tenho a impressão de que, se o PT vencer as eleições com esse programa, a oposição teria que ser um pouco mais enérgica”.

“Quando esse tema cultural, racial e sexual entrou na campanha, de uma certa maneira abriu um pouco a caixa de Pandora na sociedade, porque veio de cima pra baixo. Agora é necessário tapá-la. Mas, vamos fazer o gênio voltar de novo pra garrafa?

O ideal é começar a baixar o tom, porque grande parte da resistência, da animosidade que o Bolsonaro tem com os movimentos minoritários – seja de gays, mulheres, negros – é que ele os vê muito associados à esquerda e ao PT. Ele os vê como uma continuação do PT.

Na verdade esse é um problema brasileiro. Esses movimentos ficaram muito dependentes do poder do governo, às vezes até financeiramente. E se associaram com a esquerda.

Naturalmente, existe uma visão religiosa, missionária, que tende a se transportar para a política e deseja, de uma certa maneira, uniformizar o comportamento. Essa é a visão conservadora mais clássica, inclusive de alguns setores evangélicos.

É importante que não haja nem grandes vitoriosos, nem grandes derrotados. Mas, que se chegue a uma sociedade onde as pessoas compreendam que elas não são donas do único modo bom de viver. Precisam ter uma tolerância”.

“O que torna as questões mais difíceis, em primeiro lugar é que o momento é de crise econômica, de individualismo. A Europa está acossada por imigrantes, e lá surgiu um movimento de defesa dos postos de trabalho, enfim, um movimento anti-imigrante. O mesmo que mobilizou o Trump.

Portanto, podemos dizer que a crise que está acontecendo é resultado de uma situação econômica muito difícil, na qual as pessoas querem se proteger, mais do que pensar na solidariedade. Parece que nesse momento da História, as forças que dominam ou caminham para o poder, são forças que visam mais a proteção dos seus lugares”.
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• Gostaria de saber sua interpretação desse momento que estamos vivendo.

Houve um vendaval. Eu não esperava esse vendaval. Eu achava que essa eleição ainda poderia ter sido dominada pelos velhos nomes que detinham dinheiro. Mas eu estava pensando em categorias antigas, de campanhas feitas com muito dinheiro, com tempo de televisão e com farta distribuição de material.

O fato dessa ter sido a primeira campanha que se realizou basicamente no território digital fez com que todas essas questões fossem subvertidas. E assim foi possível que a resposta nas ruas a uma ideia de renovação fosse a mais ampla possível, independente dos recursos verificados nas mãos dos partidos tradicionais.

• Você acha que o recado que vem das urnas é esse, de renovação?

De uma tentativa de renovação. O recado básico que vem das urnas é uma condenação do PT.

Está vencendo as eleições, e é muito improvável que haja uma mudança no quadro, aquele que encarnou de uma forma mais contundente o antipetismo.

• Você acha que a democracia está ameaçada?

Citando um estudioso da Fundação Getúlio Vargas, Matias Spektor, eu acho que a sobrevivência da democracia não está ameaçada, mas a qualidade dela, sim.

E ameaçada não somente pelos fatores imediatos, que são as eleições no Brasil, mas por um conjunto de fatores que ocorrem em escala mundial. Veja o peso que hoje têm as fake news, por exemplo.

À medida que a democracia se amplia e se coloca basicamente nas redes, ela está sujeita também a forças positivas e negativas.

Nós ganhamos qualidade com o fato de estarmos no mundo digital, mas perdemos com o fato dos defeitos do país aparecerem com mais clareza nesse mundo. No passado nós fazíamos campanhas nas quais éramos emissores para grandes receptores. Falávamos na televisão para telespectadores; falávamos em comício para militantes reunidos e para o povo.

Mas agora, com a internet, o modo de comunicação se transformou bastante; o modo de se fazer política também se transformou bastante.

Entrevista: Haddad tem que ser o candidato de uma frente democrática, não do PT

Haddad precisa representar mais que o seu partido, diz Marcos Nobre

Filósofo diz que único caminho para o ex-prefeito é abrir mão do protagonismo petista e atrair adversários para seu governo

Patrícia Campos Mello e Marco Rodrigo Almeida | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Há apenas um caminho para Fernando Haddad (PT) conseguir o feito improvável de derrotar Jair Bolsonaro (PSL) na eleição: mostrar que ele, Haddad, não é o candidato do PT, mas sim o de uma frente democrática.

Palavras, porém, não bastarão para convencer o eleitor e possíveis aliados de que o governo dele seria radicalmente diferente de qualquer governo anterior do PT: o partido terá de ceder poder e fazer gestos concretos, adverte o professor de filosofia da Unicamp Marcos Nobre.

Na avaliação de Nobre, o primeiro passo de Haddad deveria ser abrir mão de se candidatar à reeleição, caso eleito, e afirmar que Ciro Gomes(PDT) será o candidato dessa frente democrática em 2022.

O segundo passo seria incorporar pontos do programa de outros candidatos, de forma unilateral, sem exigir apoio em troca. Isso valeria para qualquer legenda que não tenha anunciado apoio a Bolsonaro, como a Rede de Marina Silva e o PSDB.

O PT também deveria renunciar a uma candidatura à presidência da Câmara, embora tenha a maior bancada, e integrar a sua campanha nomes como Nelson Jobim, para a pasta da Segurança, Joaquim Barbosa, sinalizando um compromisso com o combate à corrupção, e Marina no Meio Ambiente.

“Se quiser ser o candidato do PT, Haddad vai perder, e o peso de uma possível regressão autoritária ficará sobre as costas do PT; o partido tem uma tarefa histórica e, se jogar fora essa chance, as pessoas vão perguntar: por que então não deixaram o Ciro? ”

• O senhor falou em artigo recente que, mais uma vez, o PT tem uma chance de renascimento. Qual seria o caminho para o candidato Haddad vencer as eleições, com essa vantagem tão grande para Bolsonaro? 

Se quiser ganhar, Haddad tem que ser o candidato de uma frente de defesa das instituições democráticas. Se quiser ser o candidato do PT, vai perder. E o peso de uma possível regressão autoritária vai cair sobre as costas do PT.

• E como construir essa frente? 

Haddad deveria sinalizar claramente para o eleitorado que o governo dele será radicalmente diferente de qualquer governo anterior do PT.

A primeira coisa é chamar Ciro Gomes e dizer: “Eu abro mão de me candidatar à reeleição se for eleito e acho que nessa frente que montamos Ciro deveria ser nosso candidato em 2022”. Com isso, afasta-se o medo que as pessoas têm de que o PT vai se perpetuar no poder.

A segunda coisa é tomar pontos programáticos não só dos partidos que apoiarão Haddad, como PSOL, PDT e PSB, mas também tomar de outras candidaturas, de maneira unilateral, sem ter o apoio deles. De todas as forças políticas que disseram que não votam no Bolsonaro, ele tomaria unilateralmente os pontos do programa , sem negociar, sinalizando: “eu quero você dentro do meu governo”.

Poderia adotar, por exemplo, a agenda ambiental de Marina Silva, a proposta de Alckmin de criação de uma força de segurança nacional. Precisa abrir espaço para que Marina e Ciro participem. Deveria chamar uma figura como Joaquim Barbosa para representar, dentro do governo, o combate à corrupção. Chamar Nelson Jobim para ser responsável pela segurança pública.

Haddad precisa fazer movimentos nesse sentido. Se não fizer, não estará querendo de fato ampliar a sua base, não mostrará empenho em fazer um governo diferente.

É um desafio histórico, uma oportunidade de refundação. Para sair das cordas, o PT precisa de ajuda. E o PT pedindo ajuda, precisa também distribuir poder, de verdade.

É urgente o debate sobre a verdade orçamentária: Editorial | O Globo

Bolsonaro e Haddad precisam explicar suas propostas de mudanças para a economia

Os dois candidatos à Presidência da República deveriam, com urgência, explicar suas principais propostas para mudanças na economia. Entre eleitores, e também agentes econômicos, é perceptível a falta de informação adequada sobre o que Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) planejam e como, efetivamente, pretendem mudar o rumo da vida econômica de 208 milhões de brasileiros.

Bolsonaro e Haddad devem saber que a prioridade zero é a reforma da Previdência. Sem ela, o país corre o risco de ficar insolvente no próximo governo. E quando um Estado se torna incapaz de convencer pessoas e empresas sobre a sua capacidade de pagar compromissos assumidos, a economia começa a derreter.

Nesse cenário, não haveria dinheiro nem mesmo para serviços básicos de saúde, educação e segurança pública. Uma vez instalada a corrosão na convicção coletiva sobre o real valor da moeda, o processo de desintegração econômica ganha velocidade, foge ao controle e dissipa a credibilidade do governo.

O discurso radical contra o “império do mercado” até pode ser útil para satisfazer nichos do eleitorado à direita e à esquerda. Mas, como os próprios candidatos sabem, é absolutamente inócuo. Porque essa abstração genericamente chamada de “mercado” agrupa interesses conflitantes. Se entendida como segmento de entidades financeiras, ou seja Bolsa de Valores, menos ainda, porque na mesa de negociações o pragmatismo determina as apostas, a definição de preços, por pessoas que compram e vendem títulos.

Imprevidentes: Editorial | Folha de S. Paulo

Bolsonaro e Haddad até agora não expuseram planos consistentes para a reforma da Previdência

Já é grave o bastante que, em pleno segundo turno das eleiçõespresidenciais, nenhum dos candidatos finalistas tenha explicado claramente seus planos para reformar a Previdência Social. Pior, nem mesmo demonstram dispor de um diagnóstico adequado do problema.

Sem mudanças capazes de controlar a escalada de despesas com aposentadorias, não será possível sustentar o teto de gastos nem haverá espaço para desenvolver outras políticas públicas focalizadas na redução das desigualdades.

Infelizmente, não se notam ideias coerentes a respeito de como lidar com o tema nas manifestações dos candidatos ou de seus assessores.

Do lado de Jair Bolsonaro (PSL), parece reinar uma grande confusão. O presidenciável se limita a dizer que o problema está nos privilégios e defende uma reforma fatiada, a ser realizada “vagarosamente”.

O programa que evapora: Editorial | O Estado de S. Paulo

O eleitor que no primeiro turno votou no demiurgo petista Lula da Silva, presidiário representado na eleição por um preposto, sufragou um programa de governo que já não existe mais. Agora, para o segundo turno, o PT está a reescrever freneticamente suas propostas, na tentativa de acomodá-las a uma clientela indisposta a apoiar a estatolatria e o pendor bolivariano do partido que estavam expressos na primeira versão do programa. Ou seja, o PT inovou ao antecipar o estelionato eleitoral, renegando muitas de suas promessas e ideias antes mesmo do desfecho da eleição.

É o estado da arte da empulhação petista, cuja reincidência reflete a personalidade gelatinosa de seu chefão Lula da Silva. Como esquecer que Lula, na condição de presidente, em 2007, abandonou sua feroz oposição à CPMF e passou a defender o famigerado imposto do cheque, dizendo que não via problema em “ser considerado uma metamorfose ambulante”? E como esquecer que a presidente Dilma Rousseff passou toda a campanha eleitoral de 2014 a negar a crise que já despontava no horizonte e a prometer mundos e fundos aos eleitores sabendo perfeitamente que a promessa era falsa, para em seguida, assim que sua reeleição foi confirmada, recorrer a um mambembe ajuste fiscal contra a catástrofe econômica que ela jurava não existir?

Mercados continuam inquietos com o rumo dos juros nos EUA: Editorial | Valor Econômico

O mais longo rali dos mercados de ações nos Estados Unidos em algum momento chegará ao fim e os solavancos da semana passada, os mais fortes desde fevereiro, mostram que os investidores estão nervosos a respeito do momento certo de redirecionar seus ativos. Após as fortes quedas na quarta, as ações nos mercados dos EUA viveram uma montanha russa na quinta, com novas desvalorizações - foi a pior semana em seis meses para Wall Street. O fator imediato que as provocou, mais uma vez, foi a reavaliação sobre o ritmo de aperto da política monetária americana. Os diagnósticos mais extravagantes partiram, naturalmente, do presidente americano Donald Trump. Para ele, o Federal Reserve "ficou louco" e "está fora de controle".

Ao contrário, tem sido a serenidade do presidente do Fed, Jerome Powell, que tem garantido até hoje a calmaria nos mercados. Suas indicações sobre a política a ser seguida pelo Fed, claras quanto ao ritmo gradual dos aumentos de juros, porém, não contém agora a ansiedade dos investidores. O título do Tesouro de 10 anos bateu em 3,25% quando as bolsas desabaram e não recuou muito no dia seguinte, de alta volatilidade. Ao deixar a zona dos juros muito baixos, aonde ainda se encontra - a inflação ao consumidor, de 2,3% é quase idêntica ao dos fed funds, na faixa de 2% a 2,5% - o grande ciclo de valorização das bolsas tem de se reverter em algum momento.

Almir Rouche & Elba Ramalho - Se tu quiser

José Saramago: Nesta esquina do tempo

Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.

Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do eu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito

Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando
Sobre as águas, as margens e os lírios.