segunda-feira, 13 de maio de 2013

Navio Negreiro - Castro Alves

I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

domingo, 12 de maio de 2013

OPINIÃO DO DIA – Roberto Freire: esquerda, além das bandeiras clássicas

“Hoje, ser de esquerda, para além das bandeiras clássicas das liberdades e da igualdade, que marcaram nossa tradição, é lutar pela autonomia do ser e dos agentes sociais como elemento central para a refundação de uma nova utopia assentada no controle social e estatal dos mecanismos do mercado subordinando a lógica do capital aos interesses difusos da cidadania; é respeitar a diversidade cultural e os limites impostos pelo meio ambiente ao desenvolvimento econômico; é trabalhar pelo fim do conceito de “estrangeiro” , visto que defendemos a integralidade do ser humano; é combater de forma decidida as desigualdades alimentadas pelo processo de globalização ; é apoiar as lutas postas pelas questões de gênero e de geração, na construção de uma sociedade fundada na subordinação do Estado à sociedade civil e na radicalização do processo democrático como caminho fundamental das conquistas sociais, centro de nossa ação política como organização partidária.”

Cf. Roberto Freire, “Em busca de uma esquerda contemporânea”, in O que é ser esquerda hoje?, org. Francisco Inácio Almeida, edits. Contraponto e Fundação A. Pereira, Rio de Janeiro-Brasília, 2013, pp.25-6.

Manchetes de alguns dos principais jornais do País

O GLOBO
Dez anos após o estatuto: Venda de armas volta a bater recorde no Brasil
País é o 10º em barreiras comerciais
Benefícios dão um salto na América Latina
Palanques em SP, Minas e Rio desafiam Dilma

FOLHA DE S. PAULO
Indústria brasileira tem pior
ano entre emergentes
A estação que demorou uma linha
Três anos após chuvas, Eduardo Campos não entregou casas
Médicos testam 'marca-passo' para tratar mal de Alzheimer
Favorito, ex-premiê Sharif anuncia a vitória no Paquistão
Cleveland, a sinistra

O ESTADO DE S. PAULO
Usina de Belo Monte já custa R$ 30 bi, o dobro do orçado
Servidores do Senado tiraram 87,5 mil dias de licença médica
ONG de pastor preso recebe verba federal
A agonia da MP dos Portos
Brasil testa combustível nuclear na Noruega

ESTADO DE MINAS
Vida de cientista : Sina brasileira:muita dedicação, pouco dinheiro
Combate à corrupção não é prioridade
Incentivos do governo sem efeito positivo

O TEMPO (MG)
À base de liminares, Petrobras compra sem licitar há 15 anos
Ex-premiê do Paquistão declara vitória em eleições
Ministro da Justiça admite que ligou para governador para contar sobre ação no Acre

CORREIO BRAZILIENSE
Salários: Disputa milionária na AGU
As cidades do DF onde o dinheiro circula
Paquistão vai às urnas sob ameaça de bombas talibãs

GAZETA DO POVO (PR)
Contrato prevê reajuste extra no pedágio da BR-277
Itaipulândia tem 6 prefeitos em meia década
Azevêdo na OMC exige Brasil proativo
Entenda o conflito na Síria como um jogo de xadrez

ZERO HORA (RS)
Quem garante o leite que bebemos?
Quando a polícia é refém do crime
Feridas reabertas no berço de Jango

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Prêmio para cidade que reduzir crimes
PT de olho nas falhas de gestão de Eduardo

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais do País

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Eduardo Campos - Um palanque em Goiás

Eduardo Campos filia empresário ao PSB, visando espaço no Centro-Oeste

Após passar uma semana recolhido do cenário político e ter dedicado seu tempo às agendas administrativas no interior pernambucano, o governador Eduardo Campos retomou a articulação nacional de sua possível candidatura à Presidência da República, em 2014. Ontem, em ato na Câmara Municipal de Goiânia (GO), o líder socialista - que é presidente nacional do PSB - assinou a ficha de filiação ao PSB do empresário Vanderlan Cardoso.

Vanderlan Cardoso é potencial candidato ao governo daquele Estado e poderá enfrentar o recém chegado ao PMDB, Júnior Friboi. Este último teria sido sondado por Eduardo para ficar no PSB, mas não atendeu ao pedido.

"Para todos os que fazem o PSB, é motivo de alegria receber Vanderlan", disse Eduardo.

Embora o evento tenha tido caráter partidário, Eduardo Campos não deixou de mandar seu recado. Disse que não vai se intimidar com a pressão por estar promovendo o debate sobre o País.

"Conquistamos a estabilidade econômica e incluímos, no governo do presidente Lula, milhões de brasileiros na esfera da produção e do consumo. Mas precisamos ter a humildade de dizer que ainda há muito a fazer e termos a coragem de fazer o debate sem se intimidar com nenhum tipo de pressão", disparou.

Atualmente, o PSB administra seis Estados brasileiros, mas nenhum situado na região Centro-Oeste. Filiação de Vanderlan Cardoso poderá reforçar a estratégia socialista de montar palanques para Eduardo em Estados aonde o partido não possui tanta inserção.

Vanderlan Cardoso foi prefeito do município de Senador Canedo (GO) e concorreu ao governo de Goiás em 2010. O ato de filiação contou com as presenças de lideranças do PP, PR, PRP, PDT, PSC e até do DEM.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Campos diz que não é o momento de antecipar debate eleitoral

BRASÍLIA - Virtual pré-candidato ao Palácio do Planalto, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PE), afirmou neste sábado (11) que não é o momento de "antecipar o debate sucessório de 2014".

Presidente do PSB, Campos indicou que só vai definir se disputará a Presidência em 2014 após uma ampla consulta a base do partido.

O governador ainda retomou o discurso de independência do PSB afirmando que sua legenda não é "satélite de nenhum partido" e que "não temos relação de submissão com ninguém".

Nos últimos dias, Campos optou por se recolher e evitou participar de eventos nacionais. A nova postura --após meses de exposição e críticas veladas ao governo Dilma Rousseff-- inflou avaliações de que poderia desistir da corrida presidencial.

Essa hipótese teria sido expressada pelo ex-presidente Lula em conversas com Dilma e aliados.

"Não é um ano de eleitoralizar o debate, antecipar o debate sucessório de 2014. Vamos ter muito tempo para isso em 2014. O PSB vai tomar a decisão que cabe ao PSB tomar com companheiros do PSB participando, escutando a base do partido no Brasil inteiro, no tempo certo que é 2014, como sempre fizemos", disse Campos.

Ele participou de evento em Goiânia (GO) para a filiação do empresário Vanderlan Cardoso ao PSB, que deve disputar o governo local.

Campos ainda negou que haja uma ruptura com o governo Dilma. Ele afirmou que a bancada do PSB no Congresso é uma das que mais ajuda o Planalto. O governador, no entanto, afirmou que eventuais divergências programáticas são naturais.

"Nós temos opinião própria sobre a vida brasileira. Nós somos um partido, não somos um satélite de nenhum partido. Nós temos massa crítica, temos história, temos um pensamento, preocupações com o Brasil, não temos relação de submissão com ninguém", completou.

Questionado sobre comentários do ex-presidente Lula de que poderia recuar da candidatura ao Planalto, Campos desconversou. "Não comento teria dito".

Fonte: Folha de S. Paulo

Luiza Erundina: 'O PSB é uma alternativa de poder para o Brasil'

Deputada federal defende candidatura de Eduardo Campos e diz que a sigla não está totalmente satisfeita com Dilma

Isadora Peron

"Se nós estivéssemos absolutamente satisfeitos e contentes com o que está se dando..." A frase incompleta da deputada Luiza Erundina diz muito sobre o atual momento do seu partido, o PSB. Para ela, se a sigla estivesse absolutamente satisfeita e contente com o governo Dilma Rousseff, do qual faz parte, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, não estaria protagonizando o papel de possível candidato à Presidência em 2014. Em entrevista ao Estado, Erundina defendeu que o PSB se apresente como alternativa de poder.

Campos será candidato à Presidência da República em 2014?

A direção nacional não discutiu essa questão, mas a tendência é consolidar o projeto de uma candidatura. O PSB sustentou os projetos do PT desde 1989 Mas a sigla cresceu e esta seguindo o roteiro de qualquer partido, que é ser uma alternativa de poder no País.

A candidatura representa um rompimento entre PT e PSB?

De jeito nenhum. O PSB tem afinidade com aquilo que se fez, mas também outras propostas e outras visões.

Campos costuma dizer que é possível fazer mais. Concorda?

Sim. Senão, não seria um outro partido, não seria um outro candidato. Se nós estivéssemos absolutamente satisfeitos e contentes com o que está se dando... Se não tivesse alguma nuance que pudesse destoar do atual governo, por que quer ser candidato?

E qual seriam essas nuances?

O PSB teria um outro projeto de gestão. As gestões do governo Lula e Dilma são muito centralizadas e muito condicionadas apenas ao apoio do Congresso. Tudo é pretexto para dizer que não se pode fazer tal coisa por conta da governabilidade.

O PSB deve deixar o governo da presidente Dilma?

Eu acho que o PSB foi uma das forças da coalizão que ajudou a eleger e tem ajudado a construir as políticas desse governo. Portanto, esse espaço que o partido ocupa é legítimo. Mas eu acredito que, num dado momento, até para evitar esses questionamentos, o partido vai tomar essa decisão.

Quais os planos para 2014?

 Talvez mais um mandato de deputada esteja na agenda, mas a gente nunca sabe, vai depender da dinâmica partidária.

A sra. aceitaria se candidatar ao governo de São Paulo?

Eu estudaria. Mas isso não foi posto em nenhum momento. Por enquanto, posso dizer que sou uma entusiasta da candidatura do Eduardo.

A senhora se arrependeu de ter saído da chapa do Fernando Haddad por causa do PP?

Não, eu não estaria confortável. Estaria muito desgostosa.

Para as eleições de 2014, o PSB também terá restrições na hora de fazer alianças?

As minhas posições não são as posições majoritárias do partido. Muita gente concordou com a minha decisão (de sair da chapa que concorreu à Prefeitura em 2012), mas o meu partido provavelmente não tomaria essa decisão. Esse rigor que eu tenho com a coerência política não é do meu partido e de nenhum outro. Não vê como se comportam os partidos todos?

Fonte: O Estado de S. Paulo

Nas ruas, Rede aposta na força dos jovens

Em Pernambuco, futuro partido instalará dois pontos para coletar assinaturas buscando consolidar fundação. Ex-ministra Marina Silva desembarca no Recife na terça

Gabriela López

Na corrida contra o tempo para conseguir as 500 mil assinaturas necessárias para viabilizar o Rede Sustentabilidade - partido que a ex-senadora do Acre pelo PV Marina Silva tenta criar - os membros da Comissão nacional provisória e militantes vão intensificar a coleta a partir deste mês.

De acordo com um dos integrantes do grupo e ex-deputado Roberto Leandro (ex-PT e ex-PV), a ideia é recolher o mínimo necessário até junho. "Queremos ter uma margem de segurança", explica. Isto porque ocorre erros no preenchimento do formulário. Em entrevista recente à imprensa, Marina afirmou que cerca de 30% das assinaturas já coletadas não devem ser reconhecidas pela Justiça Eleitoral por causa de falhas.

Em Pernambuco, a intensificação terá um reforço de peso: a visita da ex-senadora na próxima terça (14) e quarta-feira (15). Também serão instalados dois pontos fixos de coleta no Recife, cujos locais não foram definidos.

A coleta no Estado está sendo feita principalmente na capital, em áreas como a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), o Recife Antigo e na central de carregamento do Vale Eletrônico Metropolitano (VEM). As tentativas ocorrem pelo menos duas vezes por semana, principalmente nos sábados e domingos, quando as pessoas estão menos apressadas. Os locais têm um aspecto em comum, além do grande fluxo de pessoas: alta concentração de jovens.

Embora ressalte que o futuro partido tenha adesão de pessoas de todas as classes e idades, Roberto Leandro reconhece que "o potencial é maior" dentro do público formado por jovens universitários. "No geral, cerca de 80% das pessoas que conversamos assina", garante.

Anteontem, uma equipe de três militantes coletou apoios nas imediações da Unicap por cerca de uma hora. A maioria das pessoas que puderam escutar a proposta da Rede concordaram em dar a assinatura. Quem não assinou geralmente foram pessoas que sequer tiveram tempo de parar e saber do que se tratara.

A estudante Graciely Castro, 34 anos, votou em Marina na eleição presidencial de 2010 e foi uma das que aceitou contribuir. "Conheço o trabalho dela e acho sério e compromissado. Acho as questões ambientais que ela defende importantes para o País", destacou.

O universitário Thiago de Carvalho, 20, avalia que a ex-senadora "tem ideias inovadoras" e assinou o documento "para ter uma opção de voto" na eleição presidencial do próximo ano.

Já a estudante Julia Lins, 19, preferiu não assinar. "Sou mais Lula e Dima. Não acredito muito nas propostas dela. São muito utópicas", sentenciou. A universitária conhecia Marina, mas não sabiam das articulações para criar o novo partido.

O saldo final da última quinta-feira foram, aproximadamente, 150 assinaturas, que se somam as mais de 9 mil obtidas até agora em Pernambuco.

De Goiana ao Recife para coletar apoios

Há três semanas, o aposentado Manoel Ferreira, de 56 anos, mudou de rotina. Desde o último dia 23, ele sai de casa todos os dias, de segunda a sexta-feira, entre 6h e 7h e percorre, de ônibus, 65 quilômetros de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, até o Recife. Ele assumiu espontaneamente o compromisso de ajudar a coletar parte das 500 mil assinaturas necessárias para criar o Rede Sustentabilidade, partido que a ex-senadora Marina Silva articula.

Manoel costuma ir à central de carregamento do Vale Eletrônico Metropolitano (VEM), na Boa Vista, área central. Com paciência, explica o que é o Rede e pede apoio. Quando a pessoa abordada diz que está sem tempo, ele tira do bolso um pequeno papel onde está escrito o site do futuro partido para ser consultado depois.

"Sou aposentado e não gosto de ficar em casa. Então, também é uma ocupação para mim", conta. Quando não tem dinheiro para a passagem do ônibus, a Comissão nacional provisória do Rede o ajuda.

Manoel foi um dos fundadores do PT em Pernambuco e sempre atuou como militante, sem ocupar cargos políticos.

Há cerca de dois anos saiu do PT e se interessou pela Rede por causa da defesa de Marina em torno do meio ambiente. "Não resta dúvidas de que está na hora de se engajar. Minhas filhas são jovens e precisam de um País melhor", observa. 

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Marina ameaça ir ao STF para garantir partido

Em Minas para buscar apoio à Rede, ex-senadora critica projeto que prejudica novas legendas

Luiz Ribeiro

A ex-senadora Marina Silva disse ontem, em Montes Claros, no Norte de Minas, que, se o Senado aprovar o Projeto de Lei 4.470/12, que limita o acesso dos novos partidos aos recursos do Fundo Partidário e ao tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, vai recorrer à Justiça contra a proposta. Ela afirmou que pretende propor uma ação indireta de inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de derrubar os efeitos do projeto, para que a Rede Sustentabilidade, partido criado pela ex-senadora, possa participar da eleição de 2014.

O projeto de lei já foi aprovado na Câmara dos Deputados, mas o ministro do STF Gilmar Mendes, acatando pedido do PSB, concedeu liminar, impedindo a tramitação do texto no Senado. A questão ainda precisa ser analisada por outros ministros da Suprema Corte.

Em visita à cidade, Marina Silva classificou o projeto de lei como "oportunismo" e "casuísmo", que, segundo ela, estão sendo patrocinados pelo governo. "O PSD do Kassab (Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo) acaba de ser criado, sem nenhuma objeção e houve por parte do governo uma ação muito acolhedora para viabilizá-lo. Quando criamos a Rede Sustentabilidade, começou a tramitar no Congresso esse projeto em caráter de urgência, urgentíssima", comentou a ex-senadora. "Acontece que o critério de votação urgência, urgentíssima só é aplicado em casos de guerra e calamidade. Não sei qual é o motivo da guerra para tirar 35 segundos de televisão de uma força política que legitimamente tem o direito de se expressar", afirmou Marina.

A ex-senadora afirmou que a Rede Sustentabilidade está aguardando uma decisão do STF. "Também achamos que o Senado vai reparar essa injustiça e esse erro, porque lá existem emendas que estão propondo que o projeto de lei só seja válido após 2014, para que não se apliquem mudanças nas regras durante o jogo", afirmou Marina.

Marina Silva, que foi candidata a presidente da República pelo PV em 2010 e ficou em terceiro lugar na disputa, agora realiza viagens por todos os estados, a fim de recolher assinaturas favoráveis para oficializar a criação da Rede Sustentabilidade. Ela é cotada como pré-candidata a presidente em 2014.

Ela negou, porém que trabalha para concorrer novamente à Presidência. "Estamos fazendo somente a coleta de assinaturas. Não tem nada a ver com pré- campanha.", afirmou. Por outro lado, ao ser questionada se hoje estaria mais próxima da situação ou da oposição no país, afirmou: "Pretendemos ser um terceiro".

A ex-senadora visitou Montes Claros acompanhada do ex-deputado federal José Fernando, ex-PV, que lidera a criação da Rede no estado. Segundo ele, já foram conseguidas 40 mi assinaturas em Minas e a meta é atingir 100 mil. Em todo país, são necessárias 550 mil assinaturas, que, segundo Marina, serão alcançadas até meados de junho. Em Montes Claros, 3 mil foram obtidas 3 mil assinaturas, entre elas as do prefeito Ruy Muniz (PRB) e do secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico, Ariovaldo Melo , um dos lideres da criação da nova sigla na cidade. Ao receber envelopes com manifestações favoráveis, a ex-senadora comentou: "Eu até brinquei com as pessoas, dizendo que eu queria assinaturas de presente no Dia das Mães".

Fonte: Estado de Minas

Aécio se esforça para unir PSDB em torno de sua candidatura

Senador será eleito presidente do partido, mas ainda há tensão com Serra

Maria Lima

BRASÍLIA - O primeiro passo para consolidar a candidatura do senador mineiro Aécio Neves à Presidência da República deverá acontecer no próximo sábado, na Convenção Nacional do PSDB que deverá elegê-lo presidente nacional do partido em substituição ao deputado Sérgio Guerra (PE). Mas sua eleição não significa que sairá com o partido pacificado e unido em torno de sua candidatura. O ponto de tensão, e a grande incógnita como sempre, continua sendo a participação ou não do ex-ministro José Serra. Com a ajuda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Aécio concluirá nesta semana as negociações com líderes e dirigentes regionais para fechar a composição da nova Executiva Nacional do PSDB. O desafio é chegar a um consenso com os paulistas e apresentar, na convenção nacional, um sinal de unidade em torno de sua candidatura.

As conversas devem priorizar a acomodação de Serra na direção do partido. Apesar dos desmentidos de que esteja pleiteando cargos para dividir o comando com Aécio, seus interlocutores esperam que no último momento ele apresente alguma reivindicação. Garantem que ele quer ser bem representado, de preferência indicando o novo secretário geral, o segundo cargo da hierarquia partidária.

Novo secretário geral também causa divisão entre tucanos

Senador é o preferido de Serra, mas deputados querem nome da Câmara

O nome do líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), tem sido citado como o preferido de José Serra para a secretaria geral do PSDB, hoje ocupada pelo deputado Rodrigo de Castro (MG), fiel escudeiro de Aécio Neves. Mas não há consenso sobre a questão.

O líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), diz que se o presidente do partido é um senador, a tradição é a bancada da Câmara indicar o secretário geral. O nome mais forte na bancada é o do ex-líder Bruno Araújo (PE), que tem relações estreitas com Aécio, mas bom trânsito com Serra.

- Talvez o Serra ainda não tenha conseguido explicitar direito o papel que gostaria de cumprir nesta nova fase do PSDB. A incógnita é tão somente saber qual o papel que ele quer para si, pois tenho certeza que será prontamente atendido - disse Sampaio. - O fato de já ter ido na convenção de São Paulo é um ponto positivo e afastou essas especulações de que vai sair do partido. E acho que não vai fazer nenhuma surpresa na convenção nacional, se Deus quiser!

Aloysio Nunes espera que Aécio converse com Serra sobre a composição da Executiva:

- Ele (Serra) é uma pessoa importante no partido e tem coisas úteis a dizer.

Mesmo com tantas incógnitas, Aécio está confiante que o caso Serra será superado na convenção e o partido sairá pacificado para se dedicar à outra agenda: percorrer o país para formar palanques. O senador diz que a estratégia é ter candidatos do PSDB onde houver nomes fortes, apoiar candidatos fortes do DEM e se aliar a candidatos de partidos governistas, mas de oposição ao PT, como a senadora Ana Amélia (PP) no Rio Grande do Sul, e o deputado Esperidião Amin (PP) em Santa Catarina.

- O PSDB é um ótimo aliado: tem bancada e tempo de TV, o artigo mais cobiçado desta eleição - afirma Aécio.

Fonte: O Globo

Presidencialismo de amarração

‘Jabuticaba’ Afif Domingos é produto do esgotamento da política de composição de extensas maiorias no Congresso, diz professor

Ivan Marsiglia

A nova jabuticaba política nacional, Guilherme Afif Domingos, só pode ser transgênica. É um híbrido de duas espécies até então incompatíveis: uma dá no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, outra no Palácio do Planalto, em Brasília. A posse, na quinta-feira, do vice-governador da administração tucana de Geraldo Alckmin como ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa pela presidente petista Dilma Rousseff superou as mais surreais expectativas sobre o vale-tudo da política brasileira.

Desde então, o professor de sociologia e política do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Carlos Melo, tem tentado entender o estranho fruto. “Afif está inaugurando a onipresença política, pretendendo servir a dois senhores ao mesmo tempo”, diz o autor de Collor, o Ator e suas Circunstâncias (Editora Novo Conceito, 2007). Para Melo, o vice da oposição que é ministro da situação demonstra quanto os governos brasileiros se tornaram dependentes de aliados como o PMDB de Renan e Henrique Alves e o PSD de Afif e Gilberto Kassab, cujo único projeto é estar no poder. E evoca a sintomática atualidade da frase de Tancredo Neves sobre o antigo (e de sigla homônima) Partido Social Democrático: “Entre a Bíblia e O Capital, o PSD fica com o Diário Oficial”.

O professor identifica a exaustão do até agora relativamente funcional “presidencialismo de coalizão” brasileiro – cujos custos aumentam a cada reeleição do grupo político que está no poder – nas dificuldades crescentes do governo Dilma no Congresso. “Não se aprova a reforma do ICMS nem a legislação dos portos, e até os vetos da presidente são derrubados.”

Que tal a nova jabuticaba brasileira?

É uma jabuticaba criativa, de duas cores: azul e vermelha ao mesmo tempo. Ela engendra uma relação entre dois partidos que estão em campos opostos há anos. A questão não é apenas ocupar dois cargos públicos ao mesmo tempo. Mas ocupar espaços e pressupostos absolutamente diferentes. Se o Brasil estivesse em um governo de união nacional, em uma situação em que todas as forças políticas tivessem que estar presentes, faria algum sentido. Obviamente não é o caso.

Afif pertence ao PSD do ex-prefeito Kassab, partido novo que agremiou, em tempo recorde, uma das maiores bancadas do País. Como entender isso?

Um tempo atrás, o STF tomou a decisão de defender a fidelidade partidária: que um parlamentar eleito pelo partido A teria que continuar nele até o final de seu mandato. Do contrário, o perderia. Aí a “criatividade” da política brasileira produziu uma outra jabuticaba: se ele não podia mudar de partido no meio do mandato, podia ir para um novo. Então, começou a ser um grande negócio criar partidos ou fundir legendas debaixo de um novo nome. Isso aconteceu com o velho DEM, que antes era PFL, aliado histórico do PSDB desde 1994. Afif se elege vice-governador na lógica do velho DEM, que era de oposição renhida ao governo do PT. No entanto, a brecha para se fundar um novo partido, com uma nova cara, outro posicionamento, resultou no PSD – que diz, com todas as letras, pela boca de seu presidente, que “não será de direita, não será de esquerda, nem de centro”! Nesse sentido, Afif é coerente com a incoerência de seu partido, essa coisa sem forma nem cor.

O PSD é uma novidade no quadro partidário historicamente confuso do País?

Se me permite uma digressão, há uma coincidência interessante. O PSD é uma sigla que já existiu no passado, entre 1946 e 1964, o “partido das raposas”, criado pela mão de Getúlio Vargas. Uma das muitas raposas do PSD foi o ex-presidente Tancredo Neves, que tinha uma frase ótima naquele contexto da Guerra Fria e serve como uma luva ao partido atual: “Entre a Bíblia e O Capital, o PSD fica com o Diário Oficial”. Afif foi além, ficou com dois diários oficiais.

A lei determina que ele abra mão de um dos ordenados dos cargos: R$ 19,6 mil como vice-governador ou R$ 26,7 mil como ministro...

O que nem é importante para ele, um empresário de sucesso, que não está na política por causa do salário. Pode ser até que Afif opte pelo salário menor. Mas se fizer isso tampouco será por consciência, mas para vender a ideia de que faz isso “contra meus próprios interesses” (Afif acabou optando pelo salário maior). O que tem importância é o espaço político que ele imagina preservar lá e cá. Está inaugurando a onipresença política, pretendendo servir a dois senhores.

Será possível servir bem a ambos?

Ou bem ele é isolado em um dos dois grupos ou não terá a confiança de nenhum dos dois. Se Afif exercer plenamente, de maneira integrada, o cargo em São Paulo e o ministério em Brasília, tem que virar presidente da República, porque vai conseguir o prodígio de juntar PT e PSDB – coisa que nem Lula, nem Fernando Henrique, Tasso Jereissati ou Mário Covas conseguiram. Não houve santo nesta terra que tenha feito esse milagre.

O filósofo Marcos Nobre, da Unicamp, cunhou a expressão ‘peemedebização’, a composição de um centro tão heterogêneo no Congresso que este se torna incapaz de aprovar qualquer inovação política. O PSD quer esse mesmo papel de fiel da balança?

Gosto dessa tese do Marcos Nobre. Mas a “peemedebização” já vem da “pessedização” original dos anos 1940 para os 60. O PSD à época já servia como fiel da balança nos conflitos entre UDN e PTB. O PMDB descobriu isso: para ele não é interessante ter candidato a presidente da República, pois seja lá quem ganhe, sempre sai vitorioso. De modo que o PMDB já tinha no PSD antigo uma referência histórica, assim como o atual PSD. O partido de Kassab e Afif sabe que essa é a fórmula mais adequada ao fisiologismo brasileiro: estar bem com todo mundo, fincar pé em todas as canoas e trabalhar com essa ambiguidade.

Quais é a consequência dessa eterna reprodução do fisiologismo nacional?

A consequência é que não há projetos voltados a algum tipo de transformação social lá no fim. O que há são projetos de poder, de ocupação de espaço. Tem uma frase no Alice no País das Maravilhas que acho fantástica. Alice pergunta ao gato: “Para onde vai essa estrada?” O gato devolve: “Mas para onde você quer ir?” Alice diz: “Não sei”. E o gato fala: “Para quem não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”. No caso do Brasil não é nem que não saibam para onde ir, eles querem ir para todos os lados. Para onde quer que haja uma migalha de poder a ser recolhida.

A disputa pelo tempo de TV é um dos responsáveis por isso?

O tempo de TV se transformou, ao longo da história e das mudanças da legislação no País, na principal moeda de troca. E, depois, a garantia de segurança no Parlamento: compor maiorias para não ter investidas que desestabilizem o governo, como CPIs. Nessa lógica competitiva, preciso trazer o maior número de partidos e mais tempo de TV para minha coligação, deixando o mínimo para meu adversário.

Alguns cientistas políticos brasileiros afirmam que, apesar de suas distorções, o presidencialismo de coalizão é uma fórmula vitoriosa, que conferiu estabilidade à democracia do País. O sr. discorda?

É algo que tenho formulado há algum tempo. Concordo com a forma com que meus colegas vinham analisando o presidencialismo de coalizão. Ele de fato forma maiorias. Tem um custo, na distribuição do espaço no governo, mas os partidos votam de acordo com os objetivos do Executivo. Implementa-se uma agenda. Isso é uma maravilha, mas só quando se tem alternância no poder. Por quê? No primeiro mandato, o presidente tem 25 mil cargos para distribuir e formar essa maioria. Os partidos o procuram, cortejam, o presidente vira uma grande noiva. É o período de lua de mel. Maioria formada, dois anos depois é preciso pensar na reeleição. Aí os partidos dizem: “Olha, aquele acordo tem de ser revisto, porque não estou mais satisfeito. Quero mais”. E o presidente, que já tinha distribuído os cargos, começa a entrar nas joias da coroa: postos importantes nas estatais. Você deve se lembrar do Severino Cavalcanti: “Não quero uma diretoria qualquer da Petrobrás. Quero aquela que faz buraco e acha petróleo”. Hoje, vivemos uma situação em que tivemos eleição, reeleição e sucessão. E quando se chega ao terceiro mandato, já se distribuiu tudo que era possível, compôs-se uma base de 400 deputados, só que ela não vota mais de acordo com o que o governo quer. Há um efeito voracidade, que leva o presidencialismo de coalizão a um ponto de exaustão.

É essa exaustão que estamos vendo agora?

A tal ponto que se precisou dar um cargo na Comissão de Direitos Humanos ao pastor Feliciano. O problema já era perceptível no início do governo Dilma. Mas a fase em que entramos é ainda pior: a reeleição na sucessão. Os acordos não são duráveis, a cada novo projeto o Legislativo quer rediscutir mais espaço. E não se consegue mais tocar uma agenda – tudo precisa ser negociado ponto por ponto. A voracidade chegou a tal nível que o governo Dilma não consegue mais aprovar nada. Não aprova a reforma do ICMS, nem a legislação dos portos e até os vetos da presidente são derrubados.

O fim da reeleição, que chegou a ser aventado por Aécio Neves, seria uma solução?

Vou usar aqui um clichê, me perdoe. O marido chega em casa e encontra a mulher traindo-o com outro no sofá. Então, pega e joga fora o sofá. O problema não é a reeleição, é a mentalidade, a prática política, que se utiliza da reeleição para se expandir. Precisamos não de uma reforma política, mas de uma reforma da política, da concepção que temos dessa atividade. Chegamos à total exaustão quando um determinado personagem se vê no direito de ser ministro do governo de um partido e vice de um governo de outro partido.

A velha oposição entre principismo e pragmatismo ganhou outra dimensão no Brasil?

Quem viu o filme Lincoln sabe da polêmica que ele levanta, sobre como o presidente americano comprou deputados para aprovar a abolição da escravatura. “Está vendo, até o Lincoln teve que fazer isso”, dizem uns. Só que ali é pragmatismo em nome de um princípio muito claro, a abolição. Aqui é pragmatismo em nome do quê? Você precisa ter princípios norteadores que não sejam camisas de força. Tem que saber ceder, aqui e acolá, sem perder a essência. Mas o pragmatismo sem princípios está se revelando tão ineficaz quanto o principismo sem pragmatismo. O pragmatismo sem princípios dá em Danton; princípios sem pragmatismo dão em Robespierre. Tanto um quanto outro terminaram na guilhotina.

Qual o primeiro passo para a mudança de mentalidade de que precisamos?

Retomo a pergunta: qual é o projeto? O PSDB ainda pode dizer “queremos criar instituições democráticas e impessoais”. O PT, “estamos trabalhando para distribuir renda”. Tanto um quanto outro douram a própria pílula, mas tudo bem. Mas e quanto ao PSD? O PMDB? Você já viu Kassab, Renan, Henrique Alves ou Eduardo Cunha externando qualquer coisa nesse sentido? Vivemos um processo de seleção adversa na política: não são mais os melhores que a fazem. É preciso recuperar a ideia da política como atividade nobre. O primeiro passo é deixar a crise mostrar que não estamos bem, há um impasse, e explicitar esse desconforto. O segundo é compreender que temos patinado num processo que poderia ser mais ágil. Temos condição de fazer mais, como aliás todos os candidatos estão dizendo – inclusive a própria presidente Dilma. Está na hora de perceber que, por mais que tenhamos dado um salto de 1994 para cá, está na hora de dar outro. E estamos com as pernas amarradas.

Fonte: Aliás / O Estado de S. Paulo

Dilma enfrenta desafios em Minas, SP e Rio

Os três estados mais populosos do país apresentam problemas para a campanha da reeleição da presidente

Paulo Celso Pereira

BRASÍLIA - A um ano e meio das eleições de 2014, a presidente Dilma Rousseff mantém um altíssimo índice de aprovação - em março, 65% da população considerava sua gestão ótima ou boa - e tem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sua popularidade igualmente alta, como principal cabo eleitoral. Com a pré-campanha já na cabeça e nos cálculos de todos, um novo fator tornou-se centro das preocupações de alguns dos mais próximos aliados da presidente nas últimas semanas: a construção dos palanques dilmistas nos três estados mais populosos do país, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

No caso fluminense, não bastasse a ameaça de um rompimento do governador Sérgio Cabral (PMDB) com o PT, pela possibilidade de o senador petista Lindbergh Farias se lançar candidato, Dilma deverá ter um adversário que frequenta assiduamente o Rio.

Desde a redemocratização, o candidato do PT à Presidência sempre saiu-se vencedor no Rio, com exceção de 1994, algumas vezes por ampla margem. Agora, dirigentes petistas começam a considerar que a vitória não é tão certa. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) mudou-se para o Rio no início da década de 1970, aos 10 anos, e até hoje passa boa parte de seus finais de semana na capital fluminense, onde mora sua filha e tem um apartamento - o longo tempo que passa no Rio é até motivo de críticas de seus adversários.

Dirigentes do PSDB defendem inclusive que o comitê central de Aécio fique no Rio. É um cenário oposto ao das três últimas eleições nas quais os candidatos tucanos eram paulistas - José Serra e Geraldo Alckmin - sem qualquer intimidade com a cidade.

PMDB descarta palanque duplo

O grande temor de aliados de Dilma, no entanto, é a crescente possibilidade de rompimento da aliança mantida há sete anos entre o PT nacional e estadual com Cabral. Lindbergh Farias começou a percorrer as regiões mais populosas do estado em ditas "caravanas da cidadania" e, segundo petistas, figura com mais de 20% das intenções de voto nas pesquisas internas. O governador e o presidente estadual do PMDB, Jorge Picciani, já decidiram, no entanto, que não aceitarão abrir o palanque do vice-governador Luiz Fernando Pezão, candidato à sucessão de Cabral, para Dilma, caso o PT confirme Lindbergh.

- A prioridade é que a aliança seja mantida. Mas se o PT optar por não reproduzir localmente a aliança nacional, o palanque duplo não se sustenta. Não temos preocupação com nenhum candidato, mas é uma questão de conceito. Se o PT optar por uma candidatura, não há problema. Mas cabe a ele decidir, porque isso implicará em prejuízo ao palanque da presidente Dilma, uma vez que palanque duplo não ocorrerá - afirma, categórico, o deputado Leonardo Picciani, integrante da Executiva Nacional do PMDB.

Lindbergh reage:

- Acho uma postura meio autoritária querer tirar uma candidatura de outro partido. Não quero polemizar, mas uma coisa é fato: o PT já decidiu e vai ter candidato ao governo do Rio.

O senador petista mantém conversas constantes com a direção nacional de seu partido e guarda na manga um convite do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para filiar-se ao PSB. Cioso do risco de perder o senador, o próprio ex-presidente Lula afirmou em recente reunião em Brasília que não haveria mais possibilidade da retirada da candidatura.

Dentro do PMDB a avaliação é que o cenário eleitoral no Rio dependerá muito da popularidade que Dilma terá no início do próximo ano. Aliados de Cabral avaliam que se o comando nacional do PT perceber que há um risco real à vitória de Dilma, a candidatura de Lindbergh será retirada. Mas, se a popularidade continuar alta, o PT poderá optará por manter a candidatura de Lindbergh, já que dos três maiores estados, o Rio seria onde o PT teria chances mais claras de vitória. Dilma, no entanto, pretende manter-se calada sobre a sucessão no Rio até março.

Se o cenário no Rio é de incerteza, mas com viés positivo, o mesmo não se pode dizer sobre Minas Gerais. Petistas e integrantes do governo são unânimes ao afirmar que a única dúvida em relação ao estado é qual será o tamanho da derrota para o PSDB, se o candidato for mesmo Aécio. Diferentemente das três últimas eleições, nas quais Lula e Dilma sempre venceram em Minas, a vitória do mineiro é vista como certa no estado que governou duas vezes e onde tem altíssimos índices de popularidade. Como referência, citam o resultado do primeiro turno da eleição de 2010 quando Aécio teve 7,6 milhões de votos para o Senado contra 5,1 milhões de Dilma - com a ressalva de que o eleitor podia eleger dois senadores.

- A dúvida é se ele terá 60% ou 80% - explica um interlocutor da presidente.

Mas as perspectivas nos três maiores colégios eleitorais não são só negativas para a presidente Dilma. O PT aposta pesadamente na possibilidade de obter em São Paulo um resultado melhor que nas últimas eleições. Com cerca de 31 milhões de eleitores, o estado tem sozinho quatro milhões de votantes a mais que Minas e Rio somados. Vários fatores animam os aliados de Dilma.

PT ainda sem nome em São Paulo

Pela primeira vez, desde a redemocratização, o candidato do PSDB à Presidência não virá de São Paulo - a se confirmar a candidatura de Aécio. Além disso, após 20 anos no comando do governo estadual, os tucanos enfrentam desgaste. E ainda conta a favor de Dilma o fato de ser petista o prefeito da capital, dono do terceiro maior Orçamento do país, atrás apenas da União e do governo paulista. Por fim, os petistas acreditam que os paulistas podem dar a Aécio o troco pelo mal resultado que Geraldo Alckmin e José Serra tiveram em Minas nas duas últimas eleições presidenciais.

Esse cenário positivo, no entanto, esbarra na falta de um bom candidato petista à sucessão de Alckmin. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que era visto como o nome mais competitivo, já disse publicamente que não pretende concorrer, e deve coordenar a campanha de Dilma. O publicitário João Santana começou a fazer pesquisas qualitativas para avaliar qual perfil de candidato os paulistas desejam.

As duas maiores preocupações para os entrevistados são a Saúde, para cerca de 40%, e segurança pública ou crack, com cerca de 30%. Não por outro motivo, os ministros da Saúde, Alexandre Padilha, e da Justiça, José Edurado Cardozo, passaram a figurar entre os favoritos. Ambos, no entanto, têm dificuldades pessoais. Padilha mantém há mais de uma década seu título de eleitor em Belém e ainda não conseguiu dar uma marca relevante para sua gestão.

Cardozo, que tem perfil semelhante ao de Fernando Haddad, com entrada na classe média e discurso voltado para a segurança, é rejeitado por Lula desde a década de 1990, quando foi o responsável, na prefeitura de São Paulo, pela apuração do chamado Caso Lubeca, que apurou destinação ilegal de verbas para a campanha presidencial petista em 1989.

A presidente Dilma Rousseff já definiu que caberá a Lula sacramentar a chapa da eleição paulista. O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, é apontado como candidato dos sonhos do ex-presidente, de quem é amigo dileto. Mas mesmo no PT há quem veja dificuldade de seu nome prosperar na classe média, especialmente da capital, por sua biografia intimamente ligada ao mundo sindical. A incerteza é tamanha que até mesmo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o próprio Lula já chegaram a ser cogitados para o posto, mas, por hora, estão descartados.

Fonte: O Globo

Ditadura da maioria – Ferreira Gullar

Não faz muito tempo, ouvi um deputado afirmar que o que define um governo democrático é a eleição. Se foi eleito, é democrático.

Todos sabemos que não é bem assim, pois, conforme a força que tenha sobre as instituições, pode um governo impor sua vontade e anular o direito dos adversários. A eleição é, sem dúvida, uma condição necessária para que se constitua um governo democrático, mas não é suficiente.

Se abordo esta questão aqui é porque vejo naquela simplificação uma ameaça à democracia, fenômeno crescente em vários países da América Latina e até mesmo no Brasil. Na verdade, essa é uma das manifestações antidemocráticas do neopopulismo, hoje hegemônico em alguns países latino-americanos.

Já defini esse novo populismo como o caminho que tomou certa esquerda radical, ao constatar a inviabilidade de seus propósitos ditos revolucionários. Não se trata mais de opor a classe operária à burguesia, mas de opor os pobres aos ricos.

O populismo age correta e legitimamente quando busca melhorar as condições de vida dos setores mais carentes da sociedade, o que lhe permite conquistar uma ampla base eleitoral. Mas se torna uma ameaça à democracia quando usa esse poder político para calar a voz dos opositores e, desse modo, eternizar-se no poder.

Exemplo disso foi o governo de Hugo Chávez na Venezuela. O domínio dos diferentes poderes do Estado permitiu ao chavismo manter-se no governo mesmo após a morte de seu líder, violando abertamente todas as normas constitucionais. Essa tese de que basta ter sido eleito para ser um governo democrático é conveniente ao populismo porque, contando com o apoio da maioria da população, usa-o como um aval para fazer o que quiser.

Está implícita nessa atitude uma espécie de sofisma, segundo o qual, se o povo é dono do poder, quem contraria sua vontade é que atenta contra a democracia. E quem sabe o que o povo quer é o caudilho.

Sucede que o governante eleito, como todos os demais cidadãos, está sujeito às leis, que estabelecem limites à ação de qualquer um, inclusive dos governantes. Não por acaso, todos eles, ao tomarem posse depois de eleitos, juram obedecer e seguir as normas constitucionais.

No Brasil agora mesmo, o populismo petista demonstra inconformismo com essas normas que o impedem de fazer o que queira. A condenação dos corruptos do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal levou-os a tentar desqualificar aquela corte de Justiça, acusando-a de ter realizado um julgamento político e não jurídico.

Como tais alegações não têm fundamento nem dificilmente mudariam a decisão tomada, resolveram alterar a Constituição para de algum modo anular a autonomia do STF.

Por iniciativa de um deputado petista, foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara uma emenda constitucional que resultaria em submeter decisões do Supremo Tribunal à aprovação do Congresso, numa flagrante violação da autonomia dos poderes da República, base do regime democrático.

Essa iniciativa provocou revolta nos mais diversos setores da opinião pública e até mesmo a Presidência da República, por meio do vice-presidente Michel Temer, procurou desautorizá-la. Não obstante, os presidentes da Câmara e do Senado manifestaram seu descontentamento a supostas intervenções do STF nas decisões do Congresso.

Com o mesmo propósito, tenta-se excluir do Ministério Público a atribuição de investigar e processar os responsáveis por crimes na área pública.

É que o populismo não tolera nada que lhe imponha limites e o critique. Por isso mesmo, um de seus inimigos naturais é a imprensa livre, de que a opinião divergente dispõe para se fazer ouvir.

Na Argentina, o populismo de Cristina Kirchner estatizou a única empresa que fornece papel aos jornais do país, o que significa uma ameaça a todo e qualquer jornal que se atreva a criticar-lhe as decisões além do que ela permita.

Quando consuma seus objetivos, o populismo estabelece o que ficou conhecido como a ditadura da maioria. Denominação, aliás, pouco apropriada, já que, nestes casos, o poder é, de fato, exercido por um líder carismático, a quem a maioria do povo segue cegamente.

Fonte: Ilustrada / Folha de S. Paulo

O enigma Dilma - Merval Pereira

A presidente Dilma fez um apelo ao Congresso para que aprove em tempo hábil a MP dos Portos, mas há gente na base criticando muito a atuação das ministras Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, das Relações Institucionais. Elas, juntamente com a própria presidente, são conhecidas ironicamente no Congresso como "as meninas superpoderosas", um desenho animado americano.

Ao contrário de Florzinha, Lindinha e Docinho, no entanto, nossas três superpoderosas vêm perdendo seus poderes à medida que o tempo passa, e hoje há muito descontentamento entre os deputados com a negociação, e a própria presidente tem sido muito criticada como a principal responsável pela maneira autoritária como o Palácio do Planalto encaminhou ao Congresso essa e outras medidas.

Há a sensação generalizada de que a presidente Dilma não gosta de política, não recebe políticos, não entende as questões políticas e só quer submissão. Não entende, enfim, as necessidades de suas bases. Há por trás dessas críticas preconceitos de parte a parte, fora os erros de ação. O fato de três mulheres comandarem as ações políticas de um governo centralizador pelas características institucionais do país, mas, sobretudo, pelo estilo autoritário da própria Dilma Rousseff, faz com que floresçam num plenário machista reações de rejeição ao trio.

Por outro lado, há uma clara rejeição de Dilma à negociação política, ao disse me disse que caracteriza a ação de bastidores, aos vazamentos de conversas reservadas no gabinete do Palácio do Planalto, às especulações sobre as escolhas que fará para os tribunais superiores, coisas comuns na atividade política que tiram a presidente do sério. Além do fato de que ela e seu marqueteiro, João Santana, sabem que não gostar de política aumenta sua popularidade.

Por isso sua relação com os partidos da base, inclusive ou principalmente com o PT, é boa na aparência, mas sempre conflituosa. Este é um estranho caso em que um precisa do outro, embora ambos gostassem de não precisar. Dilma não tem saída, precisa da legenda do PT para disputar a Presidência da República. Houve tempo em que se imaginou que poderia vir a se utilizar do PDT, sua origem partidária na política do Rio Grande do Sul, quando seu ex-marido e grande confidente voltou a se filiar àquele partido.

O PT, por sua vez, tem no banco de reservas Lula, seu grande craque, como definiu certa vez o ministro Gilberto Carvalho, um homem de Lula que se movimenta cada vez com menos desembaraço no interior do governo. Mas, com a popularidade alta da presidente, e seu franco favoritismo à eleição de 2014, é difícil tirá-la do páreo. A não ser que a economia degringole a ponto de prejudicar sua imagem diante do eleitorado.

Um dos pontos mais delicados da relação atual entre PT e Dilma se refere à escolha do novo ministro do Supremo Tribunal Federal que substituirá Ayres Britto, aposentado. Nunca um presidente da República demorou tanto para fazer escolhas. Balões de ensaios, nomes jogados à opinião pública, desfiles de currículos e guerras de bastidores. Quando os petistas achavam que haviam encontrado o substituto ideal na figura do tributarista Heleno Torres, indicado pelo ministro Ricardo Lewandowski, lá se foi a indicação por água abaixo devido ao vazamento da informação.

Vários sites petistas já se vangloriavam da escolha quando ela foi abortada. As pressões são muitas, pode ser até que ele volte à cena, mas até agora Dilma não se decidiu, para desgosto do PT. Outro ponto que chama a atenção, e vai agora botar em teste mais uma vez a coerência de Dilma, diz respeito à escolha do chefe do Ministério Público da União, o procurador-geral da República, substituto de Roberto Gurgel, vítima do ódio petista por sua atuação no julgamento do mensalão.

Lula inaugurou a praxe de escolher o mais votado das listas tríplices que lhe foram encaminhadas, e assim também procedeu Dilma na sua primeira oportunidade, quando Gurgel, um pouco antes, havia arquivado o inquérito do ex-ministro Antonio Palocci. Dilma escolherá o mais votado agora também ou optará por outro critério? Essas escolhas são cruciais para o PT, que pretende reverter as penas de seus principais líderes. Dilma não se meteu no julgamento do mensalão, apesar de ter sido instada a tanto por José Dirceu. Como agirá agora?

Fonte: O Globo

Só tem tamanho - Dora Kramer

Fato inusitado, digno de figurar no catálogo dos ineditismos dos quais se orgulha o PT na alucinação de que reinventou o Brasil: a presidente da República é altamente popular, conta com maioria parlamentar esmagadora, tem oposição mirrada e, no entanto, em questões fundamentais perde uma atrás da outra no Congresso.

A lista de revezes mais recentes é conhecida: Código Florestal, lei de distribuição dos royalties do petróleo, reforma do ICMS e marco regulatório dos portos.

Para governo que em tese domina 80% do Parlamento, convenhamos, são proezas de monta ter um veto derrubado (royalties), ser derrotado por ação do principal parceiro (PMDB, no Código Florestal), ver uma proposta retaliada por governistas (ICMS), cogitar recorrer a decreto caso deputados e senadores não atendam ao "apelo" de aprovar medida provisória (portos) às vésperas de perder a validade.

A conclusão óbvia é a de que essa base aliada só tem tamanho. Serve para interditar investigações parlamentares, para dar seguimento a manobras como a tentativa de restringir o funcionamento de novos partidos - para criar dificuldades a possíveis adversários eleitorais; serve para garantir tempo de televisão na propaganda política, mas não tem a menor serventia quando se trata de fazer andar o País.

Simplesmente porque a presidente Dilma Rousseff não parece ter a menor noção do que significam termos e expressões como articulação, negociação, construção de consenso, poder moderador, conciliação de interesses, exercício de autoridade delegada, composição de opiniões. Ignora solenemente os componentes indispensáveis ao funcionamento de uma administração em regime democrático.

Inepta na pilotagem da política - atividade que dá sinais de menosprezar - Dilma acabou por transformar sua enorme base parlamentar em um gigante desgovernado.

Talvez ela não saiba ou não tenha dado ouvidos a quem porventura tentou avisá-la: a mera aquisição de aliados mediante distribuição de ministérios não move o moinho. Pode até não parecer, mas o fisiologismo sozinho não motiva o Congresso. O voluntarismo, a imposição da vontade, os maus modos, a irritabilidade podem até compor uma imagem forte de governante, mas não asseguram a fortaleza de estadista.

O mau relacionamento da presidente da República com o Congresso vem desde o início do governo e não se resolve com agradinhos, jantares, reuniões de aconselhamento simulado e promessas que não se realizam.

É preciso um mínimo de compromisso com o outro (no caso, o Poder Legislativo), que pode até ser visto como vendido mas tem todo o direito de não se considerar mercadoria à disposição para qualquer uso.

Mau caminho. O ministro Guilherme Afif alega que suas críticas ao PT, a Dilma e a Lula eram "retórica de campanha". Na entrevista que deu dias atrás ao Estado repetiu fala do deputado João Paulo Cunha logo no início do governo petista.

Indagado sobre a razão de o partido ter votado como oposição em propostas que viria a incorporar quando se tornou situação, o hoje condenado à espera da ordem de prisão respondeu: "Política".

Ambos (não são os únicos) partem do princípio de que o eleitorado é pragmático e, portanto, não condena nem presta atenção a essas contradições entre o que dizem e o que fazem os políticos.

A prática mostra que isso até acontece. Mas há um efeito colateral que suas excelências não levam em conta: quanto mais distante ficam suas palavras de seus gestos, maior o passivo de descrédito em relação à atividade política com resultado cada vez mais negativo para quem a exerce.

E credibilidade que se perde dificilmente se recupera.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Troca de comando - Denise Rothenburg

O PSDB tentará a sorte fora da órbita paulista. Entretanto, se Serra quiser algum cargo na Comissão Executiva, o terá. Exceto a Presidência

Briga de líderes na Câmara (Anthony Garotinho versus Eduardo Cunha), julgamento dos recursos do mensalão, pressão sobre a base parlamentar para aprovar a MP dos Portos, que parece fadada ao fracasso. É tanta confusão na base governista que as mudanças na oposição ficaram no lusco-fusco. A menos de 15 dias da eleição de Aécio Neves para presidir o PSDB, o assunto parece estar restrito às instâncias partidárias, em que todo o cuidado tem sido pouco no sentido de evitar maiores atritos internos. Ao que tudo indica, depois do período de isolamento imposto ao ex-governador José Serra, agora virá a senha para agregar. Nos últimos dias, por exemplo, tem sido voz corrente entre os tucanos que Serra será atendido se pedir algum cargo na Comissão Executiva. Exceto, claro, a Presidência, reservada para Aécio, para dar a visibilidade e o comando dos movimentos partidários necessários à pré-campanha rumo a 2014.

O PSDB paulista, aliás, não tem muito do que reclamar no que se refere a lugares de peso para um partido de oposição. Hoje, os cargos de líder, tanto na Câmara quanto no Senado, estão nas mãos de São Paulo, representados pelo senador Aloysio Nunes Ferreira e pelo deputado Carlos Sampaio. Têm ainda a vice-presidência, com Alberto Goldman. O próprio governador, Geraldo Alckmin, colocou seu maior representante no Congresso como presidente do PSDB estadual, o que já é muito trabalho para acumular uma função na executiva nacional.

Para completar, os tucanos decidiram ainda que os cargos da comissão executiva devem ser entregues a quem esteja disposto a se dedicar com afinco à construção da plataforma alternativa ao governo para as eleições do ano que vem. Portanto, isso tira de cena os atuais secretários de estados governados pelo PSDB e também os governadores, uma vez que eles não teriam tempo de se aprofundar nesse trabalho. Todo esse cenário, avaliam alguns, pode tornar “natural” que a secretaria-geral fique para outro estado que não o mais rico do país. A não ser, é claro, que Serra deseje o cargo, de forma a sinalizar a sua permanência no PSDB, acabando com o suspense que circunda seus movimentos hoje. Serra, entretanto, tem até setembro para decidir o que fazer e, diz o ditado, quem tem tempo não tem pressa.

Ainda que Serra acerte o ingresso em algum cargo de destaque na executiva nacional tucana, o fato é que a convenção do próximo sábado marcará a passagem de bastão, dentro do PSDB, de uma geração que teve seu destaque no governo Fernando Henrique para outra que até então era preterida em nome dos anseios de São Paulo, o grande berço dos tucanos. Aos poucos, o partido deixa de ser uma legenda de hegemonia paulista para se espalhar em outros estados. Até porque, depois da derrota de Serra para o desconhecido ex-ministro da Educação Fernando Haddad, o fantasma do “desgaste de material” passou a assombrar o PSDB estadual e nacional, dando ao partido a certeza de que é preciso investir em outras praças, enquanto os paulistas devem dedicar todos os esforços a manter a cidadela sob a bandeira tucana.

Enquanto isso, na casa de Dilma…

Uma das estratégias do PSDB para ampliar a base em outros estados é buscar os aliados do governo. Está cada vez mais claro que a base de Dilma não se sustentará do mesmo tamanho, em especial depois do programa do partido exibido na última quinta-feira. Muitos deputados e senadores que se esforçam para ajudar o governo perceberam ali que Dilma não é mais nem a mãe do PAC. Apostam que mãe mesmo, ela só é do PT. Em nenhum momento do programa partidário os petistas partilharam as conquistas propagandeadas com os partidos que ajudaram a eleger Dilma. Nem um mísero agradecimento. Tudo ali na telinha foi apresentado como obra de Lula, de Dilma e do PT, com um desfile de todos os ministros, entre os quais muitos potenciais candidatos a governadores.

E, entre os políticos, há a clara sensação de que os petistas vão jogar tudo apenas para eles mesmos em 2014. Para muitos, foi esse o recado que ficou do programa da quinta-feira, sobre os 10 anos de governo. Fazendo um paralelo com o Dia das Mães, o programa fez com que muitos aliados se sentissem como aquele sujeito convidado para morar na casa da tia. Ele chega com mil promessas de tratamento igual aos filhos dela. Passado o período inicial, o tal sujeito termina meio deslocado, ficando com o bife menor na hora do almoço, o pior travesseiro e as roupas surradas. Com o passar do tempo, o “afilhado” em questão começa a passar mais tempo na casa do vizinho do que na companhia da tia de seus filhos. E na vizinhança, por enquanto, líquido e certo mesmo, só Aécio Neves, o único pré-candidato ao Planalto que já disse estar à disposição para enfrentar esse desafio. Os demais ainda em processo de construção.

E o Dia das Mães…

Há um ano, aproveitei a data para mandar aqui uma cartinha para dona Dilma Jane, pedindo mais estrutura para o Coaf, o órgão que faz o pente-fino na movimentação financeira de grandes volumes, dando auxílio inestimável às investigações para combater a corrupção. Os apelos continuam valendo. Feliz Dia das Mães a todos!

Fonte: Correio Braziliense

Checando forças - Tereza Cruvinel

O Congresso precisa perder o medo de legislar sobre questões polêmicas. Se continuar preferindo a zona de conforto, outros poderes e instituições vão avançar sobre suas competências

Afora as trepidações no Congresso entre o governo e sua base, que poupam o trabalho da oposição, e alguns ruídos na economia, que os adversários estariam ampliando, Lula, Dilma e seus generais enxergam um horizonte limpo pela frente, no plano político-eleitoral. Parte do otimismo vem de uma pesquisa, feita pelo Instituto Vox Populi para consumo interno do PT, examinada no almoço de quarta-feira passada entre a presidente, seu antecessor, os ministros Fernando Pimentel e Aloizio Mercadante, e o presidente do PT, Ruy Falcão.

Mais qualitativa do que quantitativa, a pesquisa avaliou a preferência pelos principais pré-candidatos a presidente, mas esses resultados, hoje, não têm muita importância. Retratam um momento ainda muito distante da eleição. Não divergiram quase nada, segundo quem teve acesso aos números, dos resultados da pesquisa – também exclusiva – encomendada pelo PSDB, já divulgada aqui: nela, Dilma tem 53%, a ex-senadora Marina Silva 18%, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) 15% e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), 5%. Na consulta espontânea, as citações de Dilma e de Lula também os colocam como favoritos. Da parte qualitativa da pesquisa é que o grupo extraiu conclusões mais otimistas sobre a disputa de 2014.

Para começar, ela revela que, para o eleitor, Lula é Dilma e Dilma é Lula. Embora isso pareça óbvio para quem lida com a política, no imaginário do eleitorado a associação poderia já não ser tão forte: Lula deixou a Presidência há quase três anos, os dois têm estilos e imagens diferentes que os poderia ter dissociado.

Segundo a "quali", como dizem os pesquisadores, a grande maioria acha que o governo está no caminho certo, que o país está progredindo, que a vida pessoal melhorou e que continuará melhorando. A visita da inflação não foi ignorada, mas, para a maioria, o governo está tomando as medidas certas de controle. Registraram que o emprego cresceu e acham que não haverá aumento do desemprego. As políticas públicas continuam bem avaliadas, embora tenham destacado os problemas com saúde e segurança. O PT aparece, apesar de todo o desgaste com o julgamento do mensalão, como o partido que inspira mais simpatia e confiança. Esse céu de brigadeiro, naturalmente, pode escurecer daqui até o pleito, por causa de circunstâncias externas e internas. Mas, para aquele grupo do almoço, o sentimento atual da população é amplamente favorável a Dilma.

Isso posto, foi com frieza e sem ansiedade que examinaram a candidatura do governador Eduardo Campos. Todos acham que ele passou do ponto de retorno e que errou ao avaliar que os problemas da economia se agravariam, minando o apoio a Lula-Dilma. Não haverá mais esforços para evitar que ele se candidate, e a saída do PSB do governo, por ora, será problema dele. Os próprios socialistas, como o ministro Fernando Bezerra e os irmãos Gomes (Cid e Ciro), do Ceará, vão aumentar a pressão por uma definição antes de setembro, quando acaba o prazo para a migração partidária com vistas a 2014. E, como Lula é Dilma e vice versa, daqui para a frente o ex-presidente será cada vez mais ativo no cenário político, ajudando na gestão da coalizão, apoiando um aliado aqui e outro ali, como fez em Brasília, dando uma força ao governador Agnelo Queiroz (PT). Contra essas boas circunstâncias, a oposição ainda não descobriu o discurso.

Além das tamancas

O Congresso precisa perder o medo de legislar sobre questões polêmicas. Se, temendo igrejas e grupos sociais com poder de grito, continuar preferindo a zona de conforto, deliberando apenas sobre temas de boa repercussão (como a PEC das Domésticas) ou votando o que o Executivo propõe – ainda que desafiando o governo, como na MP dos Portos – seguirá perdendo terreno para os outros poderes e, até, para instituições da sociedade civil com algum poder normativo. Um exemplo, a Resolução 2013/13 do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre uso das técnicas de reprodução assistida, aprovada na quarta-feira. Cabe mesmo ao conselho estabelecer regras para as práticas da medicina, no que se relaciona com a ciência e a boa prática médica.

Como fez no artigo que fixa em 50 anos o limite de idade das mulheres para engravidar com reprodução assistida. A resolução, entretanto, legisla sobre uma questão que o Congresso vem evitando enfrentar, a união de pessoas do mesmo sexo. Com todo o respeito e sem qualquer preconceito, a resolução vai além da competência do CFM quando diz que "é permitido o uso das técnicas de reprodução assistida para relacionamentos homoafetivos e pessoas solteiras, respeitado o direito da objeção de consciência do médico".

A lei – logo, o Congresso – deverá regular essas questões. Na falta da lei, os casais podem providenciar filhos, mas enfrentarão problemas para registrá-los e garantir-lhes outros direitos. A resolução parece exceder-se também quando proíbe o comércio de óvulos e embriões, mas diz que uma mulher que aspire ao tratamento para engravidar pode doar óvulos para outra, que não os produz, desde que esta ajude a financiar o tratamento da doadora. Isso é comércio disfarçado. A lei já proíbe a venda de órgãos e tecidos.

O Congresso enfrenta a concorrência do Executivo, que legisla por medidas provisórias, a do Ministério Público, da Polícia Federal, da CGU e de outros órgãos na tarefa de fiscalizar, e a espada do Judiciário, que o desautoriza e, agora, até o impede de deliberar. Há quem bata palmas. Esses nunca viram o Congresso fechado.

Fonte: Estado de Minas