sábado, 24 de dezembro de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - O Natal da transição

O Estado de S. Paulo

O melhor e o correto é torcer pelo sucesso de Lula. Seu fracasso aprofundará os problemas do País e poderá trazer de volta nossos piores pesadelos

Chegar ao final de 2022 com um governo eleito em nome da democracia foi a melhor notícia do ano. O pior foi neutralizado, em que pese a persistência da movimentação golpista. A balbúrdia e as ameaças seguem o enredo conhecido: urnas eletrônicas são manipuladas, as instituições do Estado são suspeitas, a República deve ser confrontada, o Brasil não é “vermelho”. O que importa é contestar o “sistema”, insuflar a população e disseminar mentiras.

O golpismo bolsonarista, porém, não é o dado principal da transição em curso. Há dilemas e dificuldades na formação do novo governo, que precisa introduzir novos quadros e novas ideias na gestão pública. Não pode repetir experiências passadas, que lhe roubarão clareza e envergadura. O Lula de 2003 não serve como molde para o Lula de 2023.

O novo governo fixou-se na recomposição orçamentária. Com o fim das emendas do relator, deliberado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e a retirada do Bolsa Família do teto de gastos, a questão passou a ser obter maior folga fiscal. Para tanto, foi preciso compensar os parlamentares: o teto foi aumentado em R$ 145 bilhões, mas valerá somente por um ano, e as verbas remanescentes do finado orçamento secreto serão divididas entre o Executivo e o Legislativo. Os parlamentares continuarão a encaminhar emendas individuais, de bancada e de comissão ao governo, que serão impositivas. O Centrão, de algum modo, se acomodou no governo futuro. O Legislativo se fortaleceu como poder sem que se tenha reduzido o poder do Executivo. Como, aliás, deve ocorrer em toda democracia.

Pablo Ortellado - Que tal dar o primeiro passo para a tolerância no Natal?

O Globo

Será quase impossível que os temas da vida nacional não surjam em algum momento e azedem a ceia

Estamos politizados demais. Por muito tempo, olhamos para nossos vizinhos argentinos e invejamos a sua politização, que, vista à distância, parecia saudável e cívica. Agora que não há mais almoço de família em que Lula e Bolsonaro não sejam chamados para um duelo à mesa, não sei se mantemos o mesmo apreço pela politização.

Claro, pode ser que tenhamos ficado politizados de uma maneira ruim e que exista um outro modo, respeitoso e civil, de valorizar o debate político. Mas, por lá, na Argentina, tudo anda parecido demais com o Brasil — o antagonismo entre kirchneristas e antikirchneristas também está destruindo vínculos de afeto entre parentes e amigos. Será que existe uma maneira de um país ser politizado, sem ser polarizado?

Quando falamos de polarização política, enfatizamos o abismo que separa os dois lados. Mas a polarização também une. Ela aglomera e unifica o campo político. É esse sentimento de fazer parte de uma comunidade homogênea, com os mesmos valores fundamentais, que traz conforto. Se a polarização gera hostilidade contra o grupo adversário, entre os semelhantes ela produz coesão e comunidade, assentadas no sentimento de compartilhar valores elevados e de estar do lado certo da História.

Eduardo Affonso - Novo governo rumo ao hexa — ou não

O Globo

Confinar mulher, afrodescendente e indígena a pastas temáticas ou sem peso político chega a ser constrangedor

Mais uma semana, e Lula, finalmente, descobrirá o que é uma herança maldita de verdade. Um país dividido e endividado, ainda mais devastado e injusto que o de praxe. Pode chamar de carma, se quiser: as sementes desta calamidade foram plantadas nos últimos governos de seu partido, resultando na onda antipetista que levou à eleição de Bolsonaro.

Lula não há de alimentar ilusões de que sua vitória tenha sido mais que uma reação a esse que foi, possivelmente, o pior governo desde Tomé de Souza. Não, não é por saudade do mensalão, do petrolão e das saudações à mandioca que sua estrela voltou a brilhar.

Houvesse ali um campo para profissão, a certidão de nascimento de todo brasileiro poderia vir pré-preenchida com “Esperança”. É ela que nos move, mesmo nos gestos de desespero. Como eleger, em 2018, quem quer que fosse —desde que tirasse o PT do poder. Ou fazer o que tivesse de ser feito para mandar Bolsonaro embora, ainda que à custa de trazer o PT de volta.

Ascânio Seleme - ‘Nós não precisamos de puxa-saco’

O Globo

O presidente eleito não tem com o que se preocupar. De nossa parte, seu pedido será inteiramente aceito. Lula disse no discurso em que anunciou novos ministros que dispensa bajuladores. Suas palavras exatas foram essas: “Não precisamos de puxa-saco. Um governo não precisa de tapinha nas costas. Um governo precisa ser cobrado. Peço que vocês cobrem para que a gente faça mais”. Embora não tenha sido explícito, Lula parecia se referir à imprensa, que acompanhava o ato no escritório da transição no CCBB de Brasília.

Apesar do pedido enfático, Lula sabe que terá muitos bajuladores na mídia. Ele conhece muito bem a sua “imprensa” amiga. O presidente sempre teve e continuará tendo um cordão de puxa-sacos travestidos de jornalistas. Quem não lembra dos famosos blogs sujos da primeira era petista? Agora, com Bolsonaro, outros blogueiros e tuiteiros aduladores, que se diziam jornalistas, aliaram-se ao carro-chefe do governismo bolsonarista montado na Jovem Pan. Mas Lula tem razão, estes não acrescentam nada, além de certo conforto enganador. O governante acha que está bem, ouvindo aquela enxurrada de elogios, nenhuma crítica, e não enxerga os erros que comete.

Carlos Alberto Sardenberg - O erro repetido

O Globo

Autores de artigo com erro reconhecido por jornal, Guilherme Mello e Esther Dweck foram nomeados para governo Lula

Grosso modo, o leitor encontra nos jornais reportagens (de autoria dos repórteres do veículo), colunas e artigos de opinião. Reportagens são de dupla responsabilidade: do repórter e do veículo, pois se supõe que a editoria tem um sistema de checagem e verificação do noticiário publicado. Colunas e artigos são de responsabilidade do autor. Por isso frequentemente se encontra a informação: “o texto do colunista não reflete necessariamente a opinião deste veículo”.

Os jornais erram. Mas, tempos atrás, mais presunçosos, nós, jornalistas, gostávamos de citar como nosso guia o slogan do New York Times: “All the news that’s fit to print”. Algo como “todas as notícias que estão prontas para ser impressas” ou, mais presunçoso ainda, “todas as notícias que merecem ser impressas”.

Quando um leitor reclamava, por carta, os jornais publicavam na seção adequada, frequentemente com uma resposta refutando.

Ricardo Henriques - Novos ares para políticas públicas

O Globo

Despedida de 2022 marca o fim de um ciclo político em que nossas instituições democráticas foram testadas ao limite

Fim de ano é sempre época de encontros, reencontros, e de renovação de esperanças. Mas a despedida de 2022 tem ainda mais simbolismo por marcar também o fim de um ciclo político em que nossas instituições democráticas foram testadas ao limite.

Individual e coletivamente, chegamos exaustos ao fim do ano, mas com o desejo de que encontraremos um caminho de pacificação, com desenvolvimento social e econômico, pautado sobretudo pela equidade. Não será uma tarefa fácil, mas é possível vislumbrar novos ares para políticas públicas essenciais para o desenvolvimento social e ambiental.

Um desses sinais positivos é o retorno do Bolsa Família. Primeiro, por se tratar de uma política de transferência de renda de caráter permanente, e com valores atualizados, algo que será crucial para o alívio da pobreza no curto prazo.

Almir Pazzianotto Pinto* - ADI nº 1.625: 25 anos sem solução

O Estado de S. Paulo

Quando formulou pedido de vista, o ministro Gilmar Mendes emitiu sinais nebulosos. Mas a maioria está definida

Passados 25 anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) estaria para concluir o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n.º 1.625, ajuizada em 1997. O pomo da discórdia é a Convenção n.º 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aprovada em 22/6/1982 e ratificada 14 anos depois pelo governo brasileiro mediante o Decreto n.º 1.855, de 10/4/1996, baixado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

Alguns meses depois, em 20/12/1996, o presidente editou o Decreto n.º 2.100, para “tornar pública a denúncia, pelo Brasil, da Convenção da OIT n.º 158, relativa ao Término da Relação de Trabalho por Iniciativa do Empregador”. Denúncia significa voltar atrás, deixar de cumprir.

Inconformadas, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) ajuizaram a ADI n.º 1.625, distribuída em 19/6/1997 ao falecido ministro Maurício Corrêa. Pelas anotações extraídas do portal eletrônico do Supremo, o primeiro julgamento ocorreu no dia 2/10/2003. Após ser afastada a CUT, os ministros Maurício Corrêa e Carlos Ayres Britto decidiram pelo provimento da ADI. Concluíram que o ato de denúncia dependia de referendo do Congresso Nacional.

João Gabriel de Lima* - Hora de dar um baile no racismo

O Estado de S. Paulo

Que o combate ao racismo seja realmente prioridade no próximo governo

A esplêndida série com as melhores fotos da Copa do Catar, publicada pelo jornal britânico The Guardian, destaca, entre outras imagens, a dança de Vinícius Júnior depois do golaço que marcou contra a Coreia do Sul. Ao seu lado estão Raphinha, Paquetá e Neymar. Na legenda, o jornal estampa a frase que se tornou um slogan: “Dance, Vini, dance”.

A celebração tem um histórico. Em setembro deste ano, após dançar na comemoração de um gol de seu time, o Real Madrid, Vinícius Júnior foi vítima de um comentário racista na televisão espanhola. Na partida seguinte, os jogadores do Real Madrid, em solidariedade ao craque, deram um baile no racismo e dançaram junto com ele. Do gesto político surgiu a hashtag #Bailavinijr.

Camila Rocha* - Poder para quem?

Folha de S. Paulo

Diversidade não se expressa somente em números e imagens, mas em programas políticos

Hoje a distribuição de cargos governamentais é acompanhada pela cobrança de novos critérios, entre os quais, a paridade de gênero.

O México, que há 20 anos possuía 16,6% de mulheres na Câmara, já conta com paridade de gênero em todos os níveis. A chamada "paridade em tudo" passou a vigorar no país após ter sido implementada no âmbito legislativo. A partir de 2018, as mulheres, ao ocuparem 49,3% das cadeiras na Câmara e 49,2% das cadeiras no Senado, puderam pressionar por paridade no Executivo e no Judiciário. Até mesmo organismos públicos autônomos, entre os quais figuram o Banco do México e o Instituto Nacional de Estatística e Geografia, passaram a ser pautados pela nova regra.

Em 2021, a Assembleia Constituinte chilena foi a primeira no mundo a contar com paridade de gênero. A fotografia do gabinete formado pelo presidente Gabriel Boric, em que aparecem 10 homens e 14 mulheres, acompanhava o novo espírito do tempo.

Hélio Schwartsman - Envelhecimento e pênaltis

Folha de S. Paulo

Ele não assimilou as lições do biólogo Peter Medawar sobre a senescência

Qual a semelhança entre a senescência, o processo de envelhecimento que leva à morte, e a escalação dos batedores numa disputa de pênaltis?

Gosto de futebol. Assisti, de esguelha, a boa parte dos jogos da Copa. Mas não sou muito assíduo na leitura do noticiário esportivo. Não porque eu desacredite das análises dos especialistas ou desconsidere o talento dos jogadores, mas porque estou convencido de que, ao fim e ao cabo, é o acaso quem dá as cartas. Para saber com algum rigor qual é o melhor de dois times parelhos, eles precisariam se enfrentar centenas de vezes. Basta lembrar que, se a diferença de competência for de cinco pontos percentuais (55% a 45%), o time mais fraco vencerá o mais forte em 9 de cada 20 partidas que não terminarem em empate.

Demétrio Magnoli - Silêncios que falam

Folha de S. Paulo

Brasil não precisa se somar às sanções à Rússia, mas condená-las é legitimar a guerra imperial

O Brasil "vai voltar a todo mundo", garantiu Mauro Vieira, novo ministro das Relações Exteriores. Não é a ideologia, mas o interesse nacional, que guiará nossa política externa. As declarações marcam uma nítida ruptura com a orientação bolsonarista, que fechou-nos num casulo de relações preferenciais com governos da direita nacionalista e correntes do fundamentalismo cristão. O que se fala é positivo. O problema reside no que se cala.

Guerra Fria 2.0 entre EUA e China? O Brasil rejeita a escolha, anunciando uma "nova era" na parceria com Washington e o aprofundamento do intercâmbio com Pequim. Mais: diante da polaridade entre as duas grandes potências, o Brasil empenha-se em consolidar as relações com a Europa, por meio da implementação do acordo Mercosul/União Europeia. "Não nos preocupamos com a ideologia; a ideologia é a integração", enfatizou Vieira, abordando a América do Sul.

Marcus Pestana - Tempo de desarmar os espíritos

No período do Natal instala-se um clima de congraçamento e reflexão, de esperança e renovação, de fim de um ciclo e início de outro. Tempo propício para que desarmemos os espíritos, recuperemos a capacidade de diálogo e respeito à diversidade, resgatemos a disposição de convívio com aqueles que vivem e pensam de forma diferente. Poucas vezes em nossa história vivenciamos dias de tamanha intolerância. O Natal nos abre uma porta para abrirmos corações e mentes em favor da tolerância e celebrarmos a liberdade e a democracia.

A democracia nos permite a convivência plural, a liberdade de pensamento e ação, e deveria ser para todos um instrumento de construção de consensos progressivos a partir do tratamento respeitoso e tolerante das divergências, do diálogo franco e aberto, sem anulação de identidades legítimas, mas com a boa fé de construção de um caminho comum. Cristo não veio ao mundo para dividir e sim para unir as pessoas em torno dos valores da solidariedade humana e da compreensão mútua. Boa chance para repensarmos os rumos de nosso país.

Alvaro Costa e Silva - Os filhos musicais de Papai Noel

Folha de S. Paulo

Nem só de Simone vive o rico cancioneiro natalino no Brasil

Uma das histórias mais tristes das quase sempre tristes noites de Natal envolve o autor de "Boas Festas". Nem o biógrafo Gonçalo Junior, que escreveu o excelente "Quem Samba Tem Alegria: A Vida e o Tempo de Assis Valente", descobriu o que ele fazia num quarto de pensão em Niterói, na véspera de 25 de dezembro de 1932, tendo como única companhia a ilustração de uma bailarina na folhinha do calendário.

A fossa era profunda, e Assis Valente deve ter se lembrado da infância difícil no interior da Bahia, sem presentes nem brinquedos, ao ter a inspiração para os primeiros versos: "Anoiteceu, o sino gemeu/ E a gente ficou feliz a rezar/ Papai Noel, vê se você tem/ A felicidade pra você me dar". E o refrão revelador de seu estado de angústia: "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel".

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É urgente recuperar Programa Nacional de Imunizações

O Globo

Apenas 3% dizem não ter levado os filhos para se vacinar, mas só 60% das crianças estão com vacinação em dia

A futura ministra da Saúde, Nísia Trindade, afirmou ao GLOBO que uma de suas prioridades será “avançar na vacinação”. É um alento que o governo dê ênfase ao retrocesso vergonhoso na cobertura vacinal da população brasileira. Apenas 60% das crianças de até 2 anos estão com a vacinação em dia, revelou o Inquérito de Hesitação Vacinal, pesquisa do Ministério da Saúde com a Beneficência Portuguesa de São Paulo e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

É verdade que só 3% dos mais de 31 mil entrevistados entre 2020 e 2021 — em plena pandemia — afirmaram não ter levado os filhos para tomar pelo menos uma vacina. É um percentual baixo, mas suficiente para comprometer as metas de vacinação necessárias para proteger a população, em torno de 95%. O resultado ajuda a explicar o drama do outrora vigoroso Programa Nacional de Imunizações (PNI), hoje às voltas com índices de cobertura que passam longe das metas traçadas.

Poesia | Vinicius de Moraes - Poema de Natal

 

Música | Boas Festas - Assis Valente com Pery Ribeiro

 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Opinião do dia - Luiz Werneck Vianna*

“Conceder alento ao moderno, numa sociedade como a nossa que viveu décadas de modernização autoritária, importa instaurar um estatuto de plena autonomia aos seus seres sociais, tarefa que reclama uma intelectualidade ativa que abra pela reflexão caminhos para novas trajetórias críticas sobre o passivo da nossa história e ilumine novas possibilidades de ações progressistas.

A restauração da cultura democrática se encontra na dependência da musculatura que vierem a adquirir os entes da sociedade civil na luta por suas reivindicações, a fim de contornar o cenário hostil, atualmente configurado numa composição adversa das câmaras congressuais, buscando espaço e oportunidades que viabilizem o reencontro da sociedade com suas melhores tradições.

O futuro está em aberto, e, se bem que no nosso passado encontremos boas inspirações, ele está a exigir de nós espírito de descoberta e de invenções audaciosas num contexto exigente e desafiador, que só poderemos enfrentar na medida em que começarmos a caminhar, passo a passo, na busca de uma sociedade igualitária e justa.”

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC-Rio. “Uma travessia difícil”. Blog Democracia Política e novo Reformismo, 21/12/2022. 

Fernando Gabeira - Um país em busca de horizonte

O Estado de S. Paulo

A forma mais prática de desejar um bom ano novo é com uma ampla proposta de como explorar nossos horizontes nos próximos quatro anos

A melhor maneira de um país aproveitar o ano novo é explorar seu horizonte de possibilidades. Dito assim, é muito abstrato. Segundo Yuval Harari, no seu livro Sapiens, horizonte de possibilidades significa o espectro de crenças, práticas e experiências que se apresentam diante de determinada sociedade, considerando suas limitações ecológicas, tecnológicas e culturais.

Uma sociedade, ou mesmo um indivíduo, nunca explora totalmente seu horizonte de possibilidades. Mas, diante de um novo ano, é razoável tentar realizar o máximo.

As chamadas limitações ecológicas, no caso brasileiro, são um ponto decisivo no seu horizonte de possibilidades. Depois da destruidora política ambiental do governo Bolsonaro, Lula fez um discurso animador em Sharm el-Sheikh, no Egito.

O novo governo promete conter o desmatamento na Amazônia, expulsar garimpeiros das terras indígenas, fortalecer a exploração sustentável e abrir-se para a cooperação internacional.

Luiz Carlos Azedo - Falta ainda anunciar os ministros da frente ampla

Correio Braziliense

Quinta-feira, após anunciar os novos ministros, Lula disse que dedicará a próxima semana aos entendimentos com os demais partidos que o apoiaram no segundo turno.

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, ontem, 16 novos ministros, consolidando os espaços do PT e dos partidos de esquerda que foram seus aliados no primeiro turno. Falta agora anunciar os ministros que vão dar ao governo um espectro de centro-esquerda, incorporando as legendas e as lideranças que o apoiaram no segundo turno. O principal nó a ser desatado para a ampliação do governo é o acordo com Simone Tebet, a candidata a presidente da República do MDB, que apoiou Lula no segundo turno e deu grande contribuição à sua eleição. Ela está com um pé no governo e o outro na oposição.

Quinta-feira, após anunciar os novos ministros, Lula disse que dedicará a próxima semana aos entendimentos com os demais partidos que o apoiaram no segundo turno. Em alguma medida, tentará consolidar a aproximação com o PSD, o União Brasil e o Cidadania. Talvez até mesmo com o PP de Ciro Nogueira (PI) e Arthur Lira (AL), para formar uma base parlamentar sólida e uma construir uma boa relação com o Congresso. O espectro das bancadas que apoiaram a PEC da Transição é o limite dos acordos, mas há que se levar em conta que a motivação maior dos deputados foram suas emendas ao Orçamento, e não necessariamente o apoio ao governo Lula, como é o caso do PSDB.

Vera Magalhães - O governo Lula 3 e o papel das mulheres

O Globo

Excesso de pastas dadas a homens petistas mostra que, ao partido, interessa mais se guarnecer para a disputa de 2026

O governo Lula 3 vai se encaminhando para ser aquele com mais mulheres no primeiro escalão na posse desde a redemocratização. São seis as escolhidas até agora e, dados os nomes cotados, é bem provável que o número final supere as nove designadas para a largada do primeiro mandato de Dilma Rousseff.

Trata-se de um avanço enorme, sobretudo diante da comparação com o governo Jair Bolsonaro, que começou com apenas duas mulheres no primeiro escalão, terminou com uma e, no auge, tinha três representantes femininas na equipe.

A melhor notícia foi a designação da primeira mulher para o Ministério da Saúde. A nomeação de Nísia Trindade tem um enorme peso concreto e simbólico. Foram mulheres algumas das principais vozes de resistência ao negacionismo e ao boicote a vacinas e medidas sanitárias de Bolsonaro no curso da pandemia, e a Fiocruz, dirigida pela futura ministra, esteve na linha de frente do enfrentamento da emergência sanitária.

Bernardo Mello Franco - Radiografia do desmonte do Estado

O Globo

Documento mostra destruição promovida por Bolsonaro; Lula erra ao divulgá-lo junto ao anúncio de novos ministros

Lula errou ao divulgar o relatório final da transição no mesmo dia em que anunciou os nomes de mais 16 ministros do novo governo. Como era de se esperar, escolhidos e preteridos monopolizaram as atenções. O diagnóstico da máquina federal acabou em segundo plano.

O texto fornece uma radiografia da gestão de Jair Bolsonaro. Registra o desmonte do Estado, o abandono de políticas públicas, os retrocessos na área social. “O governo federal andou para trás”, resumiu o vice Geraldo Alckmin. Uma forma polida de descrever o que se passou nos últimos quatro anos.

No meio ambiente, a demolição foi calculada. O bolsonarismo desossou os órgãos de controle. O número de fiscais do Ibama, que já chegou a 1.800, despencou para cerca de 700. O Fundo Amazônia foi congelado com R$ 3,3 bilhões em caixa. Com as autoridades de braços cruzados, o desmatamento da floresta aumentou 60%. A maior alta num mandato presidencial desde o início das medições por satélite, em 1988.

José de Souza Martins* - As instituições e seus heróis

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

A cerimônia de diplomação do presidente e do vice-presidente da República no TSE foi um rito de passagem e de reencontro do Brasil ferido com o Brasil civilizado

Na calma própria da civilidade, no último dia 12 de dezembro tivemos a solene cerimônia de diplomação do presidente e do vice-presidente da República democraticamente eleitos em outubro para o próximo mandato presidencial.

Mais uma vez, ganhou sentido a palavra sensata de José Gregori, que foi ministro da Justiça do governo FHC e embaixador do Brasil junto ao governo democrático de Portugal. Nos momentos de temor pelo futuro, em nossas conversas vespertinas na Academia Paulista de Letras, tem sido ele firme em nos lembrar que as instituições estão funcionando. A solenidade do dia 12 confirmou essa certeza do homem experimentado e prudente que ele é.

Não por acaso e muito significativamente, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Alexandre de Moraes, foi o mais longamente aplaudido, de pé, pelo público presente. Um reconhecimento justo e necessário pela corajosa defesa do processo eleitoral, dele e de seus antecessores, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso, contra os ataques sistemáticos da extrema direita reacionária, oportunista e antidemocrática.

César Felício - Lula tenta seu ‘vale a pena ver de novo’

Valor Econômico

Há muitos ecos do passado no novo desenho da Esplanada

O ministério do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, já tem definidos os espaços para o PT, PSB, PC do B e militância, que fazem parte do núcleo original da aliança que forjou a terceira candidatura vitoriosa do petista. De modo que análises como “o ministério é petista demais” e “a frente ampla não está contemplada” ainda são prematuras.

A camada de ministros que representam forças que entraram em um segundo momento na campanha ou até depois da eleição deve vir na próxima semana. Falta definir o destino de Marina Silva e Simone Tebet, a parte que cabe ao MDB e ao PSD nesse latifúndio, de que maneira o Centrão de Arthur Lira estará representado, se algo será dado para o PDT e Solidariedade e quem assume o Ministério dos Povos Originários e de que forma.

 “Quem tem expectativa não perca a expectativa”, disse Lula durante o anúncio. Só na próxima semana, portanto, haverá a perfeita dimensão da representatividade política da Esplanada dos Ministérios.

Claudia Safatle - Sempre haverá a LFT para nos salvar

Valor Econômico

Papéis atrelados à Selic na dívida ganham espaço

Para fontes oficiais da área econômica, a aprovação da PEC da Transição, também conhecida como PEC da Gastança, autoriza o governo eleito a gastar até R$ 145 bilhões acima do teto mais cerca de R$ 24,6 bilhões de recursos esquecidos, pelos trabalhadores, nas contas do PIS/Pasep que poderão ser utilizados. Perfazendo, portanto, uma licença para aumentar a despesa pública em até R$ 169 bilhões em 2023.

O valor adicional do gasto que a PEC autoriza representa um aumento do endividamento público, que sairia dos 73,7% estimados para este ano para algo como 81,8% do PIB, segundo uma simulação feita pelos técnicos do Tesouro Nacional considerando que a elevação do teto em R$ 145 bilhões será mantida nos anos de 2025 e 2026. Já a partir de 2024 se espera que esteja em vigor uma nova âncora fiscal, que venha a substituir a lei do teto do gasto público.

Vinicius Torres Freire – A cara do ministério Lula 3

Folha de S. Paulo

Governo é o mais diverso da história, mas não muito, e agora vai ter nomeações do centrão

Luiz Inácio Lula da Silva nomeou 21 dos seus 37 prováveis ministros. Por enquanto, é um ministério dominado por PT, aliados, companheiros de viagem e de gente representativa de movimentos sociais, negros em particular. Agora em diante é que são elas (poucas elas): vem a barganha com centrão e Congresso.

É um ministério de gente muito experiente, que ocupou cargos executivos de importância. Vai ser o mais diverso da história, mas lá não muito. Mulheres talvez chefiem um quarto das pastas ou um tico mais do que isso, por exemplo.

É um governo marcadamente nordestino. Embora seja injusto e ignorante jogar as pessoas da região nesse balaio genérico, o adjetivo tem, no contexto, significado político. Lula deve sua eleição às largas maiorias que teve no Nordeste, que tem tido muitos governadores de esquerda. No mais, o gabinete é em boa parte paulista.

Reinaldo Azevedo - Lula vence no Congresso e já governa

Folha de S. Paulo

Futuro presidente paga até os calotes do desastrado governo Bolsonaro

Sempre presto atenção às advertências muito severas feitas por colunistas desta Folha e de outros veículos sobre os males que aguardam o Brasil em razão de escolhas equivocadas que Luiz Inácio Lula da Silva já teria feito, e a PEC da Responsabilidade Orçamentária seria uma delas.

Divirjo com admiração — nem sempre, é verdade —, de braços dados com Romain Rolland: não permito que o "pessimismo da inteligência" meu e dos meus pares turve de todo o "otimismo da vontade". Não é raro que me encante com suas certezas tornadas sentenças, como se estivessem a ver o futuro além dos juros futuros.

E eu cá, num mar de dúvidas, percebo que quase "não tenho par nisto tudo nesta terra". Espantam-me tanta destreza nas predições e a ousadia de anunciá-las.

Hélio Schwartsman - A aposta de Lula

Folha de S. Paulo

Presidente eleito blinda suas decisões de um escrutínio mais crítico

O filósofo Paul Virilio (1932-2018) não está entre os meus preferidos, mas acho que ele captou algo importante quando, já nos anos 1970, identificou a velocidade e a aceleração (da vida, da política, das relações econômicas) como elementos definidores da modernidade. A sociedade tem cada vez mais pressa, o que, muitas vezes, se traduz em impaciência com governantes.

Um bom exemplo disso é o chileno Gabriel Boric. Ele assumiu a Presidência em março com 50% de popularidade. Com quatro meses de mandato, essa cifra já havia baixado para 34% e hoje ele está com meros 29% de aprovação. Não há um evento único que explique essa queda, que parece mais o resultado de processos difusos nos quais a pressa da população teve papel relevante.

Bruno Boghossian - O alerta da velha guarda

Folha de S. Paulo

Ex-ministros acreditam que disputas por influência e lacunas na equipe criam riscos para 2023

O apetite do PT e os impasses na distribuição de cargos do novo governo fizeram soar um alerta entre integrantes da velha guarda do partido. Esses políticos avaliam que a formação do ministério tem alimentado disputas internas e deixado lacunas que criam riscos para 2023.

O receio foi compartilhado em conversas por telefone e durante um jantar na última quarta-feira (21), em Brasília. Petistas que ocuparam cargos de ponta em governos passados indicaram que os sinais emitidos nos ministérios anunciados e nas pastas pendentes podem provocar alguma instabilidade política.

Flávia Oliveira - É vermelho o Natal

O Globo

Vestir a cor não é crime. Nunca foi. Não será

Não foi pouco o que se lamentou, nos últimos tempos, o sequestro pela extrema direita brasileira do amarelo da seleção, indumentária que costumava aproximar os amantes de futebol, súditos do Rei Pelé. O que passou batido foi a criminalização do vermelho. Quem não gosta de Jair Bolsonaro e seus aliados, além de não vestir a camisa canarinho, ficou sem poder usar a cor associada pelos radicais à esquerda, ao comunismo, ao PT, a Lula. Mas é vermelho o Salgueiro. É vermelha a Unidos do Viradouro. A Estácio de Sá é vermelha. É vermelho o Boi Garantido. São vermelhos o América, cansado de guerra, e o Internacional. É vermelho o Natal.

A cor vermelha é associada a desafio e resistência, à esquerda revolucionária e aos sindicatos, às lutas populares e ao sangue derramado. Deu o tom a bandeiras do Partido Socialista Francês, do Partido Trabalhista do Reino Unido, do PT brasileiro, da União Soviética, da China. E, nos EUA, do Partido Republicano, de ninguém menos que Donald Trump, ídolo do quase ex-presidente do Brasil.

Pedro Doria -A transformação silenciosa de 2023

O Globo

Produzir um pequeno texto jornalístico a partir de um boletim de ocorrência será tarefa para as máquinas

Uma das primeiras reações ao lançamento do ChatGPT, aberto ao uso público no início deste mês, foi de professores universitários americanos. O sistema atua como uma janela de chat. Pergunte sobre o conceito de liberdade segundo o filósofo fulano ou peça um resumo de Hamlet, e o sistema não dá apenas uma resposta coerente. A resposta é incrivelmente profunda, às vezes até sensível. Os professores começam a temer que não serão mais capazes de distinguir os trabalhos que alunos de graduação escreveram daqueles produzidos por inteligência artificial. Mas o cenário está posto. Este ano que entra, 2023, será o ano da inteligência artificial generativa — Gen-AI, na sigla habitualmente usada em inglês.

Rogério Werneck* - Um trauma mal resolvido

O Estado de S. Paulo

Negacionismo de Lula e do PT compromete a largada do novo governo

Para Lula e o PT, o desastroso mandato e meio de Dilma Rousseff continua sendo um trauma mal resolvido. Aferrados ao negacionismo, Lula e o partido jamais conseguiram desenvolver uma narrativa apresentável do que se passou entre 2011 e 2016. E o que agora se vê é que essa incapacidade de reconhecer o que, de fato, aconteceu começa a afetar decisões cruciais do presidente eleito sobre a composição da nova equipe econômica e a condução da política econômica do futuro governo.

Para todos os efeitos, Lula se comporta como se, em sua cabeça, o governo Dilma não tivesse existido. Um período a ser desconsiderado e, de preferência, jamais mencionado. O problema é que, como os segmentos mais bem informados da opinião pública estão perfeitamente a par do que se passou no governo Dilma, se cria uma situação de grande constrangimento a cada vez que Lula se permite fazer declarações que parecem presumir que a audiência nada sabe a esse respeito.

Celso Ming - Cadê a política industrial?

O Estado de S. Paulo

Já sabemos que o futuro vice-presidente, Geraldo Alckmin, também vai ser o ministro que vai comandar o desenvolvimento da indústria, mas não sabemos qual será a política industrial.

O PT não sabe o que quer. O relatório final do governo de transição é vago quando trata sobre a indústria. Fala em reverter a desindustrialização, explorar investimentos em ações coordenadas entre os setores públicoprivado, “promover o engajamento da indústria na transição tecnológica” para uma economia verde e limpa e mais competitiva, porém são palavras vazias porque não estão acompanhadas de ações concretas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Risco para novo governo é repetir erros do passado

O Globo

Para lidar com a herança de Bolsonaro, não bastará dar mais recursos a programas esvaziados

Antes de anunciar mais 16 nomes para seu ministério, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, divulgou ontem o relatório final do gabinete de transição, sob a coordenação do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin. O documento foi apresentado como um diagnóstico da “herança maldita” que o novo governo receberá da gestão Jair Bolsonaro e um primeiro esboço das medidas que tomará.

Deve-se reconhecer que, para uma chapa eleita com base num programa de governo repleto de ideias ultrapassadas e propostas descabidas, o documento foi um avanço. Pelo menos está apoiado em fatos (e isso, registre-se, não é pouco nos tempos que vivemos). A primeira parte desfia uma ladainha, ministério a ministério, constatando cortes em verbas e programas, cujos efeitos são considerados deletérios.

É verdade que diversos indicadores são alarmantes. O acompanhamento da vacinação infantil caiu de 68% para 45% na gestão Bolsonaro. No Cadastro Único para Programas Sociais, apenas 60% dos dados estão atualizados, e quase 35% dos 40 milhões de famílias têm apenas um integrante. Os empréstimos consignados a beneficiários de programas sociais concedidos às vésperas da eleição somam R$ 9,5 bilhões. O tempo médio para concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC) subiu de 78 para 311 dias, e há 580 mil na fila de espera.

Poesia | Machado de Assis - Soneto de Natal

 

Música | Saudades da Guanabara - Moacyr Luz/Ana Costa/Anna Luisa/Nilze Carvalho

 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto* - O bem e o mal no Legislativo e nos partidos

Hoje é quinta-feira, mas fiquei animado a publicar este texto que substitui o que não seria publicado no sábado do Natal. O motivo foi um ótimo artigo de Hélio Schwartsman ("A política de volta" - Folha de São Paulo, 21.12.22) sobre a conjuntura delicada em que ora se envolvem os três poderes da República.

Destaco aspectos do texto que me causaram agrado especial. O primeiro foi o autor colocar as coisas de um modo que me fez rever uma interpretação que me ocorrera sobre o voto do ministro Ricardo Lewandowski, decisivo para a decretação, pelo STF, do fim do chamado orçamento secreto. Inicialmente, recebi o voto do ministro como possível complicador do processo de negociação em torno da PEC da transição. Mas Schwartsman foi convincente ao mostrar que o gesto foi positivo, não só por ter respaldado o voto correto e primoroso da relatora, ministra Rosa Weber, como por ter objetivamente ajudado a destravar um impasse. É o que importa, noves fora o que o presidente da Câmara e o futuro presidente da República possam achar ou os meus botões cogitar sobre motivações do ministro. Ao mesmo tempo, o artigo citado lembra um ponto relevante do tema Legislativo / Executivo/orçamento: decidir sobre orçamento é, em democracias, prerrogativa genuína do Legislativo.

Luiz Carlos Azedo - Qual a natureza do governo Lula?

Correio Braziliense

Lula fará um governo democrático, com certeza, ao contrário da gestão Bolsonaro. Mas com que amplitude?

Uma das dificuldades para compreender o atual cenário político é a lulofobia da elite política e econômica do país, que majoritariamente apoiou a reeleição do presidente Jair Bolsonaro. O hegemonismo do PT na montagem do governo, porém, fortalece esse sentimento nos setores que só apoiaram o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, mas tiveram um papel decisivo na derrota de Bolsonaro e seu projeto autoritário. A chave para resolver essa contradição é ampliar a base de sustentação do petista incorporando essas forças ao governo. Lula fará um governo democrático, com certeza, ao contrário da gestão Bolsonaro. Mas com que amplitude?

A resposta é a nomeação da senadora Simone Tebet para a equipe ministerial. Havia uma expectativa de que ela fosse indicada para o Ministério do Desenvolvimento Social, que gerencia o Bolsa Família, mas essa é uma marca do governo Lula, em grande parte responsável pela sua volta ao poder, graças às mulheres e aos mais pobres, sobretudo nordestinos. Portanto, não é nenhum absurdo que o cargo venha a ser ocupado pelo ex-governador do Piauí Wellington Dias (PT), que comandou o seu estado por quatro mandatos e foi um dos articuladores políticos da transição, sobretudo nas negociações com o Senado, para o qual acaba de ser eleito novamente.

Merval Pereira - Gestos importam

O Globo

Se o próximo governo Lula for, mais uma vez, monopolizado pelo PT, corre o risco de perder apoio popular rapidamente.

Sabe-se da importância dos gestos na política. Não apenas os corporais, que podem até mesmo fazer parecer mais alto e mais digno um orador, ou não. Mas que dizer dos gestos simbólicos, daqueles que engrandecem o emissor? Nos dias de hoje, em que já estamos fartos de não acreditar nos políticos, os gestos simbólicos têm mais importância que os corporais, que são absorvidos pelos candidatos em sessões de media training que os ensinam até mesmo a parecer sinceros. Como o amor verdadeiro, que Nelson Rodrigues dizia ser comprável pelo dinheiro.

Temos neste momento da política brasileira situação exemplar de gestos simbólicos que engrandecem ou apequenam emissor e receptor. Os gestos de Simone Tebet e Marina Silva no segundo turno da eleição presidencial em direção a Lula, quando ele mais necessitava ampliar seus apoios, contrastam com a miudeza das negociações políticas pragmáticas com que o presidente eleito está organizando seu ministério.