segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Golpe de misericórdia ou tarde demais? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Medidas poderosas a poucos dias do primeiro turno testam a capacidade de Lula de obter um quarto mandato

Na Zona Leste de São Paulo, a jornalista Renata Lo Prete, apresentadora do Jornal da Globo, pergunta a um grupo de três mulheres empregadas num salão de beleza: “O que motiva vocês a trabalharem tanto?” Sem pestanejar, a manicure Janine Mendes Pereira responde: “As dívidas!”

Segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa Experian, o Brasil tinha em agosto 83,9 milhões de pessoas com o CPF negativado por pagamentos em atraso. Isso representa 51% da população adulta brasileira, mas em algumas unidades da Federação esse índice é ainda mais preocupante, como Mato Grosso do Sul (60,9%), Amazonas (61,2%), Distrito Federal (63,2%) e Amapá (64,9%).

Trata-se de um problema de longa data, mas que se agravou no mandato do presidente Lula. Prova disso é que quatro anos antes, ainda no governo de Jair Bolsonaro, havia 68 milhões de inadimplentes - um quantitativo já bastante expressivo, embora 19% menor do que o atual.

Ao longo de seu terceiro mandato, a equipe econômica de Lula até tentou aliviar o sufoco financeiro dos endividados brasileiros com as duas edições do programa Desenrola, mas ele se revelou apenas um paliativo para um problema estrutural.

Por isso, chama a atenção que a nove dias do primeiro turno o candidato à reeleição tenha resolvido adotar medidas drásticas para combater o elevado endividamento da população - uma ação com elevado poder eleitoral, pois angustia milhões de brasileiros.

Para alguns, a proibição das bets e a decisão de o governo federal comprar dívidas de até R$ 10 mil (o valor médio nacional das parcelas atrasadas é de R$ 7.049,68, segundo o Serasa) serão o golpe de misericórdia que liquidará a favor de Lula uma eleição tão disputada.

Para outros, são propostas populistas adotadas de forma açodada por uma candidatura assombrada pelo crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Sem prazo suficiente para os eleitores sentirem no bolso o alívio das dívidas, o anúncio seria apenas um fato político extremo incapaz de reverter a migração pelo voto útil que tende a desidratar as outras alternativas de direita em prol do candidato do PL.

No giro por quatro regiões metropolitanas feito para o especial Voto Pendular - série em quatro episódios disponível no Globoplay - Renata Lo Prete e o cientista político Felipe Nunes, da Quaest, conversaram com Herika Oliveira. Ela é ajudante de cozinha da lanchonete Cachorro Crente, estabelecimento criado por e para evangélicos no bairro da Penha, no Rio de Janeiro.

“A gente vive numa área muito complicada de se viver e a gente batalha todo dia pelo nosso pão. E o Bolsa Família não está dando para a gente [viver]. Ele é um direito nosso, de mãe solo, mesmo trabalhando ou não”, avalia a cozinheira. “A gente recebe um salário-mínimo, então esse dinheiro [do Bolsa Família] vem só para complementar um pouco, porque a gente rala muito”.

No último dia 17, Lula anunciou uma elevação de 15,04% no Bolsa Família, com o pagamento mínimo passando de R$ 600 para R$ 691 mensais. Embora o petista desfrute da preferência nas intenções de voto de 56% dos beneficiários deste programa social, segundo a última pesquisa da Quaest, uma parcela de 30% deste grupo diz que vai votar em Flávio Bolsonaro. Evitar esse movimento num eleitorado que sempre lhe foi cativo é o principal motivador do reajuste, que custará R$ 28,5 bilhões até o final de 2027, nas contas do próprio governo.

Não é novidade esse tipo de ação eleitoreira. Jair Bolsonaro sempre foi um crítico feroz do Bolsa Família - chamando-o de “bolsa farelo” e outros apelidos pejorativos nos tempos de deputado federal -, mas na Presidência da República ele não apenas o manteve (embora batizando-o com outro nome), como elevou o seu valor de R$ 400 para R$ 600 mensais faltando dois meses para as eleições. Mesmo assim a medida não lhe garantiu a reeleição.

Lula, porém, foi o criador do programa social mais bem-sucedido de nossa história. Paira, portanto, a dúvida se o reajuste servirá para que o petista resgate o crédito junto ao eleitor beneficiado ou, como fica expresso na resposta de Herika, esse grupo já considera o Bolsa Família como um direito mínimo. Nesse caso, Lula não teria feito mais do que a obrigação de recompor o poder de compra do auxílio governamental.

No episódio final da série sobre os eleitores que não fecham questão com nenhum dos candidatos favoritos neste ano, Lo Prete e Nunes visitaram a feira da Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. Lá eles entrevistaram a empregada doméstica Jucilene Barboza, natural de São Francisco, no norte de Minas, mas que há muitos anos migrou para a capital mineira. Quando questionada pelo diretor da Quaest sobre qual característica ela mais desaprova num candidato, Jucilene não titubeou: “Passar a mão na cabeça de pessoas que cometem crime, isso daí eu não aceito”.

Faltando poucos dias para os brasileiros irem às urnas, o fantasma de novas revelações comprometedoras do celular de Daniel Vorcaro contra Flávio Bolsonaro assusta mais do que o timing das medidas econômicas anunciadas pelo governo Lula.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Quanta preocupação com esse governo moribundo incompetente corrupto do Lula
A complacência desse jornalistas com o PT é algo surreal
Tá na cara de todo mundo a falência moral econômica e social do país causado por quatro anos desses desgovernos petistas
Agora eles enchem as redações de jornais de dinheiro , são milhões de reais por ano e aí vira a cabeça dessa turma toda sem dizer os jornalistas que já tem a cabeça virada na ideologia de esquerda
Em pesquisas nas redações dos principais jornais 85 por cento dos jornalista se Definiram de esquerda