quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O que fazer em uma eleição que pode ser decidida no primeiro turno, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

A esta altura de 2022, vantagem de Lula era maior, e rejeição, menor que a dos Bolsonaro

Pelas estatísticas das pesquisas, por ora, decisão ainda vai para o segundo tempo

A eleição para presidente vai ser decidida no primeiro turno? Na falta de debate com substância, a quase isso se reduz a conversa. Há dois cavalos disparados na frente, disputando a vitória cabeça a cabeça, enquanto parte dos espectadores mais poderosos ou bem mais armados atira nos cavalos-candidatos. São, por exemplo, balas de vazamentos de tantos escândalos, tiradas do arsenal dos porões das polícias e da Justiça. Desde agosto, Luiz Inácio Lula da Silva leva mais desses tiros.

Pelas pesquisas mais recentes, é possível que um candidato tenha agora mais de 50% dos votos? Na aritmética, não. Tudo mais constante, a migração de votos de outros candidatos para os líderes não seria suficiente para resolver a disputa na primeira volta. É o que se pode depreender com base no que diz o eleitorado sobre um possível voto alternativo no primeiro turno ou sobre sua preferência de transferência de voto no segundo turno, considerando os casos mais extremos de quantidade de mudança. No entanto, nessa aritmética mais extrema, as votações estão perto do limiar de 50%.

Quanto a estatísticas, margens de erro e hipóteses de migração de votos, esse é o cenário. No entanto, para começar, pesquisa não é previsão, é retrato. Para continuar, estão sujeitas a imprecisões outras que não as estimadas pela estatística. Muito importante, o eleitor que responde a pesquisas pode faltar no dia de votação ou, obviamente, mudar de ideia.

A eleição para presidente de 2022 foi muito apertada, como se recorda, mesmo no resultado do primeiro turno. Lula teve 46,3% dos votos totais; Jair Bolsonaro, 41,3%. No Datafolha concluído quando faltavam 17 dias para a eleição, Lula tinha 45%, Bolsonaro 33%. No mais recente Datafolha sobre a eleição deste ano de 2026, concluído quando faltavam também 17 dias para o primeiro turno, Lula aparece com 39% dos votos; Flávio Bolsonaro, com 36%.

A "sobra" de votos, eleitores indecisos ou que escolhiam outros candidatos, é parecida nas duas eleições. No entanto, a rejeição a Jair Bolsonaro era de 53% em 2022. A de Lula, 38%. Neste 2026, a rejeição a Lula e Flávio é no momento a mesma, de 47%.

Pelo retrospecto, a situação de Lula parece pior. Retrospecto serve apenas para formular hipóteses de comportamento de eleitorado, para chutes mais ou menos informados e para estratégias de retas finais de campanha.

Ao menos a julgar pelo que diz agora o eleitorado e pela aritmética da migração de votos, Lula está perto de um teto eleitoral parecido com o de 2022. Não pode perder nada do seu eleitorado de base e tem de convencê-lo a ir votar em massa. Flávio Bolsonaro pode recorrer ao apelo do voto útil para repetir a atropelada antilulista de 2022.

Isso é corrida de cavalos, porém. Politicamente, o que resta? De última hora, Lula baixa medidas a fim de atenuar danos de imagem que ficaram de seu terceiro mandato. Vai levar algum tempo para saber se funcionam. No caso do reajuste do Bolsa Família, o dinheiro vai pingar apenas durante eventual campanha de segundo turno, por exemplo. Não vai tentar nenhum gesto político maior?

Flávio Bolsonaro deve ter a colaboração de todos os demais candidatos relevantes. Embora líderes e candidatos não tenham o eleitor no cabresto, conta de início com mais boa vontade. Lula não terá essa boa vontade. Não haverá uma Simone Tebet nem o microcentro chocado com as tentativas bolsonaristas de golpe, em boa parte decepcionado com Lula.

 

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