Folha de S. Paulo
STF enfraquecido, Trump e aprendizado
institucional tornam diferente um eventual novo ciclo bolsonarista
Em 2026, o projeto é mais legível e as
condições para executá-lo podem ser mais favoráveis
Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder praticamente um cheque em branco a Jair Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem se pretende entregar o governo do país.
De certa forma, Bolsonaro foi um
"poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém
menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um
patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho
determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo
pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o
tapa na cara que se queria desferir no sistema político.
Teve fiadores, claro, mas, como candidatura
do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para
onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto
vinha depois.
É curioso que, em 2026, estejamos novamente
diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a
capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias
Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir
de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é
honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras
qualidades, resiste a um exame atento.
Mas há uma diferença decisiva. O voto em
Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há
agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também
consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão
conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma
ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa
voluntariamente subordinada ao governo Trump.
Além disso, um eventual governo Flávio se
daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes
de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante
o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um
jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas
tentativas de erosão da democracia liberal.
Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer
que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer
escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos
constitucionais.
Um novo governo bolsonarista encontraria uma
corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança
no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a
percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que
pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter
perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão
das preferências políticas do campo que os indicou.
Some-se a isso o fato de que o próximo
presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já
anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação
completamente diferente da vivida no passado.
Antes, o problema era se o STF teria força
suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da
democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá
credibilidade suficiente para fazê-lo.
Por fim, também muda o ambiente internacional.
Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um
eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois
primeiros anos de mandato.
Finalmente, existe algo que não havia em
2018: aprendizado.
O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos
momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos
diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump
oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais
consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente.
No Brasil, a analogia sugere ao menos isto:
desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza
sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a
agenda.

2 comentários:
o apoio ostensivo do jornalista ao Lula ex condenado corrupto há décadas pego com a boca na botija julgada e condenado preso e solto pelos amigos do ST F
É triste ver as redações dos jornais torcendo para um corrupto incompetente que está levando o Brasil ao fracasso econômico e social nunca dantes visto
Sabemos que tem muito dinheiro em jogo mas o jornalismo tinha que ficar a margem do poder corruptor da grana
Lula lá no pqp
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