O Globo
Mudança em relação ao fim da escala 6 x 1 e promessa de não mexer em benefícios sociais contrastam com promessa de corte de R$ 200 bilhões
Flávio Bolsonaro promete ao mercado
financeiro um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões nos primeiros 18 meses
de governo. Aos eleitores, garante que não cortará benefícios sociais, não
mexerá nas aposentadorias nem reduzirá recursos para saúde e educação. Ontem,
foi além: anunciou voto favorável ao fim da escala 6x1 e prometeu que o governo
compensará os empresários pelos custos da medida.
É difícil que todas essas promessas sejam cumpridas. Ou ele vende ao mercado um ajuste que não pretende fazer, ou esconde dos eleitores os sacrifícios que pretende impor. Nenhuma das hipóteses é tranquilizadora, e ambas podem ser traduzidas como estelionato eleitoral.
A equipe econômica de Flávio chegou a estudar
um ajuste de 2% do PIB, equivalente a R$ 250 bilhões, com mudanças nas regras
de correção da Previdência e nos pisos constitucionais de saúde e educação. A
campanha negou que essas propostas integrem seu programa. Ficou a promessa de
um “tesouraço” de 1,5% do PIB, sem explicação convincente sobre onde a tesoura
cortará.
Flávio garante manutenção do Bolsa Família,
do Minha Casa, Minha Vida, para o qual promete até prestações menores, e dos
demais programas sociais. Rejeita a desvinculação das aposentadorias do salário
mínimo, para o qual diz que continuará concedendo reajustes acima da inflação.
Promete também reduzir impostos, diminuindo a arrecadação. Agora, quer que o
governo banque parte da conta da redução da jornada de trabalho.
Tudo isso enquanto promete enxugar
drasticamente as despesas públicas. Só que 92% do Orçamento federal já está
comprometido com gastos obrigatórios. Não há como produzir uma economia dessa
magnitude apenas cortando ministérios, cargos comissionados e penduricalhos,
combatendo fraudes ou vendendo imóveis da União. São medidas defensáveis,
algumas necessárias, mas cuja contribuição para a meta anunciada nem sequer foi
quantificada. Privatizações geram receitas pontuais, não redução permanente das
despesas. O governo de seu pai prometeu muitas, entregou poucas.
A pergunta que se impõe é se parte do mercado
financeiro não tem sido deliberadamente cínica ao aceitar essa grave
ambiguidade. Será que investidores e economistas acreditam que Flávio cumprirá
as promessas feitas a eles e romperá as assumidas com os mais pobres e, por
isso, está tudo bem? Uma mentira precificada, para ficar no jargão
compreensível ao meio — desde que os enganados sejam os outros, bem entendido.
Lula tem, ao longo dos anos, explicitado o
compromisso com uma agenda social clara e uma meta fiscal fluida, insuficiente.
Tem responsabilidade pelo agravamento da situação das contas públicas, resiste
a cortar despesas obrigatórias e não apresentou proposta clara para reduzir ou
ao menos estabilizar a dívida pública, que chegou a níveis impraticáveis. Sua
frouxidão fiscal é criticada com razão.
Mas ele nunca escondeu que a preservação dos
programas sociais e a valorização do salário mínimo são prioridades de seu
projeto político. Pode-se discordar das escolhas, podem-se questionar seus
custos e pode-se exigir que ele diga como pretende financiá-las, mas não se
pode alegar surpresa. Diante disso, vê-se que o setor financeiro e também o
produtivo concedem a Flávio um crédito de confiança que negam ao petista, por
mera afinidade ideológica.
Há uma diferença entre confiar na capacidade
de um candidato para executar um programa conhecido e torcer para que ele
pratique o contrário do que promete caso eleito. A segunda hipótese implica
aceitar que o eleitor é enganado deliberadamente.
Se o mercado acredita que a agenda econômica
verdadeira é a que circula reservadamente entre seus interlocutores
privilegiados, deveria exigir que fosse explicitada. Afinal, o compromisso com
a responsabilidade fiscal não deveria dispensar a obrigação com a transparência
na campanha, até para que os penalizados possam fazer uma escolha informada.

Um comentário:
Perfeito.
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