sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sem palavras :: Míriam Leitão

Há tragédias sobre as quais não há nada a dizer, mas que o jornalista tem vontade de compartilhar, de avisar ao leitor que sente a mesma dor. Há tragédias sobre as quais se pode racionalizar, tentar entender. Em algumas, há a chance de algo confortador: pensar objetivamente nos passos a serem dados para evitar a repetição da infelicidade. Mas em momentos como agora, não há palavras.

E, no entanto, o jornal sai todos os dias. Todos os dias contamos histórias, os colunistas fazem colunas nos dias certos e incertos. Há páginas especializadas e assuntos específicos. O jornal é o mundo inteiro. Há assuntos nos quais me abrigar. Posso falar do IPCA que saiu acima do previsto e que já leva o acumulado em doze meses para perto do teto da meta; ou o risco que Portugal representa de contágio da Espanha e o medo do calote das dívidas soberanas, esse fantasma que ronda a Europa. A notícia espantosa de outro terremoto no Japão. Posso falar da última medida do ministro Guido Mantega, da última elevação do IOF para moderar o consumo. A crise no Oriente Médio. O petróleo acima de US$120. Temas não faltam nesse dia intenso que foi o 7 de abril de 2011.

Esse é um espaço de economia, eu tenho para onde correr, eu posso usar a gelada palavra "macroprudencial" e me esconder dessa notícia que cresce nas telas da informação online, nos rádios e nas televisões, que ocupa todas as mentes. A sua mente e a minha. A dúvida é: onde poderei me esconder desse desconsolo que se abateu sobre mim - e sobre você que me lê? Eu sinto o leitor e a leitora hoje mais do que nos outros dias e preciso dessa conversa, como um aconchego, mais do que nos dias normais. Quero apenas admitir, leitor, leitora, que eu não entendi. Você pode me explicar? Fiquei apenas querendo conversar um pouco com vocês sobre isso neste espaço onde o econômico deveria ser a matéria principal.

A presidente falou sobre a palavra certa: "brasileirinhos". Eles eram. E estavam no local certo onde crianças devem estar durante o dia: na sala de aula. As marcas do sangue delas mancham ainda as paredes e o chão da escola onde estudavam. Nas que sobreviveram, ficará o trauma, nas que saíram correndo em pânico, ficarão lembranças das cenas inesperadas como se fosse um filme de terror proibido para menores. Precisarão ser cuidadas e protegidas porque se nem nós adultos entendemos, o que poderão processar nas suas mentes ainda em formação? Pode-se pensar em lutar contra os efeitos colaterais do ocorrido, nas que escaparam, felizmente.

O Brasil tem problemas, bem sabemos. Mas esse tipo de ataque inesperado, cruel, premeditado de um louco em uma escola, nós só estávamos acostumados a ver à distância, com perplexidade estrangeira. De repente, acontece na nossa porta e procuramos explicações. Os especialistas darão informações e o país precisa delas porque entender organiza a dor. Mas, sinceramente, eles sabem explicar outros tipos de violência: a do trânsito, que enluta tantas famílias diariamente; a provocada pelo tráfico de drogas, que arruína vidas tão jovens; a produzida pela ausência do Estado, tão frequente. Em cada uma dessas vertentes do absurdo cabe análise, explicação, estatística e estratégia de solução. Isso faz com que a tristeza seja enquadrada, organizada, superada. Os estudiosos sempre serão necessários nesse momento para explicar o que faz surgir uma pessoa como ele, como tratá-la, como famílias e pessoas próximas podem sentir o perigo. Mas mortes de crianças numa escola, provocadas por um louco que planejou seu crime com a frieza das mentes perturbadas, deixou uma carta sem sentido e morreu junto aos inocentes que atingiu, isso não é explicável.

É o momento do luto apenas. Das famílias, de Realengo, do Rio, do país. De perplexidade, espanto, raiva, mas sobretudo dessa tristeza funda. Dá vontade de pensar que quem sabe tenha sido só um pesadelo que aconteceu num país distante, numa escola longe daqui. Mas infelizmente isso ocorreu aqui mesmo; não podemos dizer aquela frase de sempre: "acontecem umas coisas estranhas nos Estados Unidos." Temos que tentar entender e evitar fatos para os quais não estávamos preparados. Como os terremotos e os vulcões; as nevascas e os grandes furacões. Fatos que só aconteciam com os outros e não conosco.

Há momentos de se pedir desculpas e dizer: amanhã eu voltarei ao normal; vou falar dos tantos fatos da economia, da política internacional, dos impasses econômicos, dos equívocos das políticas públicas, ou de um grande negócio que mudará a estrutura de um setor empresarial do país. Posso falar do consumo, das dúvidas sobre o aquecimento da economia, e até das listas de medidas que podem segurar o insustentável dólar. Amanhã, prometo falar de assuntos destinados aos cérebros. Hoje, quero ficar aqui pensando na vida que poderia ter sido e que não foi, de dez meninas e dois meninos. Quero pensar nas mães, nos pais, irmãos e professores que viram e sofreram diretamente o que eu apenas entrevi. Quero esperar que todos encontrem consolo, de alguma forma. Que a escola volte a abrir as portas, se reorganize, cure suas feridas. Que a escola de Realengo, e todas as outras do país se dediquem a ensinar e preparar outros brasileirinhos para o futuro. Futuro que ontem foi roubado de dez meninas e dois meninos. Quero só ficar com você em silêncio pensando na vida.

FONTE: O GLOBO

Enfraquecer o real é batalha perdida:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

Duas novas medidas do governo no sentido de enfraquecer o real não vão alterar a força de nossa moeda.

A razão dessa minha observação é muito simples: barreiras à entrada de capitais financeiros de curto prazo não compensam as forças estruturais, de longo prazo, que estão agindo no mercado de câmbio. O problema do real forte é uma questão que merece uma reflexão mais profunda e uma política mais abrangente por parte do governo. E isso não está acontecendo...

As medidas pontuais que vêm sendo tomadas são corretas, mas têm objetivos limitados e que precisam ser explicitados pelo ministro da Fazenda.

A cobrança de um imposto que incide sobre títulos de renda fixa e empréstimos externos de curto prazo tem como objetivo principal melhorar a qualidade dos capitais financeiros que estão entrando no país. Mas sua eficácia para forçar a desvalorização do real -ou pelo menos interromper seu fortalecimento- é muito baixa.

Quando se está em uma posição pública, como a do ministro da Fazenda, a forma de se comunicar com a sociedade passa a ser uma questão fundamental. Por isso deve-se trabalhar com conceitos bastante rígidos e claros, para não entrar em um processo de perda de credibilidade. Temo que o ministro da Fazenda esteja nessa situação, em razão da forma como vem tratando a questão da valorização do real.

Para não ficar apenas na crítica fácil, trago ao leitor da Folha algumas ideias para um novo discurso do governo em relação a essa questão. Eu começaria apresentando de maneira mais clara as razões pelas quais o dólar está sendo cotado abaixo de R$ 1,60. Considerando a valorização da moeda e o retorno dos juros locais, o ganho proporcionado pelo real é imbatível: desde o início de 2006, chegou a mais de 150%.

Para o leitor ter uma ideia da força desse movimento, basta compará-lo ao de outras moedas de países emergentes, nesse mesmo período e com o mesmo critério (incluindo os juros de cada país no período): peso argentino, 50%, dólar canadense, 40%, yuan chinês, 22%, e won sul-coreano, 6%. Somente o dólar australiano -país que tem nas exportações de produtos primários uma força comparável à nossa- teve uma valorização mais acentuada, porém ainda bem inferior à do real: 91%.

Por isso começaria por esse fato minhas explicações à opinião pública. A força do real -e do dólar australiano- tem muito a ver com a valorização dos produtos primários nos mercados internacionais depois de 2004. E o Brasil foi um dos grandes beneficiários desse movimento, que deve permanecer por muitos anos.

Em 2003, cada US$ 100 de exportações brasileiras podiam comprar o equivalente a US$ 90 dos principais itens de nossa pauta de importações; hoje, os mesmos US$ 100 de exportações podem comprar quase US$ 140 de produtos importados.

Essa dinâmica tem sido responsável por um aumento anual de mais de 1,6% no PIB brasileiro nos últimos anos. E isso não é explicitado pelos porta-vozes do governo.

Explicado ao distinto público o caráter estrutural e benéfico da força do real, seria preciso caminhar mais na direção de explicitar os problemas que são criados nessa situação. O governo tem sido mais claro na explicação desse lado negro do processo que vivemos. Mas, como não explicita o lado virtuoso, fica a impressão de que se deve buscar a qualquer preço uma moeda mais fraca. Isso aumenta a responsabilidade do governo com as ações do Ministério da Fazenda e o preço do inevitável fracasso que deve se seguir.

Creio que a questão mais difícil que vive o governo Dilma hoje é a de apresentar um balanço de perdas e ganhos nessa questão da taxa de câmbio e, em um segundo momento, definir uma proposta para enfrentá-la. O caminho da comunicação trilhado desde o governo Lula passa a uma distância lunar dessa minha proposta.

Atacar inimigos externos -como os especuladores e as taxas de juros muito baixas nos Estados Unidos- está de acordo com os manuais petistas. Mas criará muito mais problemas do que soluções para o governo da presidente Dilma, que, por ser a herdeira de Lula, terá que enfrentar a crise na indústria brasileira.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 68, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

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O discurso da oposição - parte 1:: Alberto Carlos Almeida

Em entrevista na TV no dia 22 de dezembro de 1988, David Brinkley fez a seguinte pergunta ao então presidente Ronald Reagan: existe alguma coisa que você tenha aprendido quando foi ator que esteja sendo útil no exercício da Presidência? Reagan respondeu: às vezes eu me pergunto como alguém pode ser presidente sem antes ter sido ator. Esse episódio está registrado no livro de Fred I. Greenstein "The Presidential Difference". Reagan foi muito claro na resposta: os grandes papéis políticos exigem uma forte dose de teatralidade. O grande político, o estadista, é de fato um ator.

Registre-se aqui a crítica e oposição de Lula em 1994 ao Plano Real batizado pelo PT de o Plano Cruzado dos ricos, em uma referência direta à popularidade que teve o Plano Cruzado entre a população pobre. Lula lutara a vida inteira contra a inflação; no momento em que ela despenca Lula faz oposição ao plano que a derrubou. A postura de Lula foi a postura de um ator à la Ronald Reagan. Afirma-se que, na época, em caráter privado, Lula admitia que o Plano Real estava sendo bom para o país e para os mais pobres.

Não há incoerência entre as duas posturas de Lula. Como cidadão ele considerava que o Plano Real era um sucesso e alcançava aquilo de que o país precisava: uma redução significativa da inflação que corroía o poder de compra dos salários. Contudo, quando vestia o papel de oposicionista, Lula não poderia admitir jamais o sucesso do Plano Real. Lula estava agindo como um ator, Lula estava falando para a plateia. Ele desejava deixar claro para o eleitorado que o governo sofria oposição, e que a oposição era ele e o PT. Em 1994 a estratégia oposicionista fracassou, Lula foi derrotado fragorosamente no primeiro turno. A história que se seguiu todos conhecemos: Lula e o PT continuaram a fazer oposição incessante ao governo, jamais oposição responsável. Eles foram premiados com a vitória eleitoral em 2002, quando o governo estava muito mal avaliado.

Em novembro de 1997, durante o primeiro mandato de Tony Blair, o governo trabalhista britânico decidiu dar independência operacional ao seu banco central, o Bank of England. A partir dali, ele teria total autonomia frente ao governo para aumentar juros com o objetivo de combater a inflação. Tão ou mais impressionante do que essa medida foi a reação do Partido Conservador: ele fez oposição (sem ser responsável). O então líder do Partido Conservador, Ken Clarke, afirmou que aumento de juros resultariam em redução de empregos. Por isso, a autonomia do Bank of England não era bem-vinda.

Eis mais um exemplo da necessidade de ser um ator antes de ser um político. É bem provável que Clarke e outros importantes líderes "tories", em caráter privado, reconhecessem o acerto da decisão dos trabalhistas. Todavia, no papel de oposicionistas eles jamais poderiam admiti-lo. Os conservadores tiveram e têm agora a chance de desfazer a autonomia de seu banco central, agora eles estão no governo com David Cameron. Por enquanto, nada. A autonomia está mantida. Trata-se de uma prova adicional de que o discurso oposicionista era para a plateia, era um ato teatral e útil na disputa política.

De 1980, ano de sua fundação, até 2002, o PT foi só oposição ao governo federal. Foram 22 anos de oposição. O PT foi fundado em torno de uma ideia geral: defender os trabalhadores, defender os assalariados e melhorar as condições sociais da população brasileira. O PT foi fundado em torno de uma ideologia: mais intervenção do governo para melhorar a vida das pessoas, mais governo para conduzir a economia e investir no social. O PT não nasceu como um partido contra outro partido. Na época de seu surgimento, existiam partidos contrários à ditadura militar, como também o partido que a apoiava. É claro que o PT era contra a ditadura, mas não foi esse o principal motivador de sua fundação. Repito, a principal motivação estava em torno dos valores de esquerda, de intervencionismo estatal com a finalidade de distribuir renda em favor dos mais pobres.

A noção de que o PT nasceu em torno de uma visão de mundo, e não por conta de uma dissidência partidária, é importante para entender como o partido ficou 22 anos fazendo oposição. A oposição feita por pouco mais de duas décadas tinha um fio condutor: a defesa dos trabalhadores de um ponto de vista de esquerda. Foi por isso que o PT bateu duro no FMI, fez plebiscito contra a dívida externa, defendeu a redução da jornada de trabalho, foi a favor de aumentos reais para o salário mínimo, afirmou que Collor, ACM e Jader Barbalho eram farinha do mesmo saco, opôs-se à adesão de Erundina ao governo Itamar etc.

Cada ação isolada de oposição do PT pode ser remetida a essa ideologia geral de defesa dos interesses dos trabalhadores. Ao defender essa ideologia, o PT conferiu narrativa à sua oposição. Em outras palavras, a oposição feita pelo PT não foi uma história desconexa, mas uma história com início, meio e fim. Sempre houve valores por trás de cada ação oposicionista, sempre houve uma visão de mundo ou uma ideologia que guiou os 22 anos de oposição.

Está composto o quadro teatral da política: é preciso que haja um ator e é preciso uma narrativa. O ator representa em público e a narrativa é seu conjunto de crenças. A oposição de hoje, para ter sucesso, não precisa ir longe. Precisa, sim, seguir a lição do PT, mas com o sinal trocado. Da mesma maneira que um importante pilar ideológico do Brasil é composto por milhões de brasileiros que acreditam que para melhorar de vida precisam da ajuda do governo, há também outros tantos milhões de brasileiros que pensam o oposto disso. Eles acham que para melhorar a vida o governo tem que deixar de atrapalhar.

Ao privatizar, o governo de Fernando Henrique estava retirando o Estado da vida das pessoas. Exatamente por isso a vida melhorou. Por exemplo, com menos governo aumentou a oferta de telefones. Há muitos outros exemplos dessa ideologia simples e forte que foi levada a cabo de forma muito prática durante os oito anos do governo Fernando Henrique: diminua-se o governo que a vida das pessoas melhora. Eis o valor que deve guiar a oposição contra um governo que pensa exatamente o contrário disso. Eis o fio condutor de uma oposição sem tréguas.

Com essa ideologia como guia é possível apresentar várias críticas, todas com apelo eleitoral, ao governo Dilma. Eis os discursos possíveis:

1) para reduzir a inflação que vem corroendo o poder de compra da população é preciso que o governo gaste menos; assim, é preciso cortar mais do que os R$ 50 bilhões prometidos pelo governo;

2) Dilma e Lula são ambos farinha do mesmo saco. Nos dois governos o que mais acontece é aumento de impostos; somente na semana passada o governo Dilma aumentou três impostos: bebidas frias, IOF para compras no exterior e IOF para obtenção de empréstimos no exterior. Saiba, eleitor, que no fim das contas mais imposto significa menos dinheiro no seu bolso, é sempre você que no fim paga os impostos que o governo aumenta;

3) os aeroportos do Brasil estão em crise pelo mesmo motivo que havia crise na nossa telefonia; assim, vamos privatizar a aviação brasileira; dessa forma, você terá acesso a mais voos e mais aeroportos;

4) em oito anos e três meses de governo, o PT não reduziu os impostos que incidem sobre a folha de pagamento. Se isso for feito, serão gerados mais e melhores empregos, mais gente será contratada com carteira assinada. Agora que o governo passou a falar nesse assunto, é preciso aprovar quanto antes essa medida; e

5) quanto mais o governo interferir na vida das empresas, menos elas vão empregar. Por isso, é um absurdo que o governo influencie na escolha do presidente da Vale.

Todos os exemplos estão costurados por uma ideologia clara: quanto menos governo, mais a vida das pessoas vai melhorar. O maior emblema desse tipo de discurso é a redução de impostos. Aliás, a pesquisa publicada recentemente pela CNI mostra que o governo Dilma tem sua pior avaliação justamente no tema dos impostos. Causa espanto que na semana anterior tenham sido instituídos três aumentos de impostos de uma só vez e nenhuma voz de destaque na oposição tenha criticado essas medidas.

Outros aumentos de impostos virão. Criticá-los é o mesmo que defender a sociedade. Criticá-los é o mesmo que fazer oposição. Tudo indica que a próxima vítima, provavelmente sem grande resistência de sua futura diretoria, será a Vale. Quem vai defender a Vale? Quem vai defender o modelo de administração que levou a empresa a trazer os benefícios que trouxe para o Brasil? No momento, só a oposição poderá fazer isso, mas uma oposição que tenha clara para si que defende, mesmo que teatralmente, a ideia geral de que quanto menos governo há na vida das pessoas, mais as pessoas são capazes de atingir seus objetivos.

Esse discurso foi testado, ainda que uma parte pequena dele, às vésperas da última eleição presidencial. Praticamente 90% dos eleitores disseram que votariam em um candidato a presidente que defendesse a redução de impostos. Essa proporção cai para 55% quando se pergunta se a redução de impostos seria aceita mesmo se isso implicasse a diminuição de benefícios sociais. O mais importante desse dado é que ele mostra que um enorme contingente de brasileiros apoia a redução de impostos, isto é, menos governo em suas vidas, mesmo que o "trade off" seja negativo: menos benefícios sociais.

A defesa da redução do tamanho do governo como maneira de melhorar a vida das pessoas encontra apoio social amplo, inclusive em segmentos expressivos da base de nossa pirâmide social. Esse seria o primeiro passo de uma oposição contínua (e não responsável) ao PT. Os passos seguintes serão abordados no próximo artigo.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo"

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Discurso do Senador Aécio Neves no Senado em 06 de abril de 2011.

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores senadores,

Ocupo hoje a tribuna do Senado Federal para examinar de forma mais profunda a conjuntura e os grandes desafios do País, nesse meu reencontro com o Parlamento Nacional. Chego a essa Casa, por delegação dos mineiros.

Retomo aqui o trabalho que, por 16 anos desenvolvi no Legislativo, onde tive a honra de receber importantes missões, entre elas a de presidir a Câmara dos Deputados. Trago desse período lembranças de vigorosas iniciativas pela valorização do Parlamento.

Destaco, entre elas, a limitação das medidas provisórias e a aprovação do “Pacote Ético”, que acabou com a imunidade parlamentar para crimes comuns, criou o Conselho de Ética e institucionalizou o princípio da legislação participativa. É com a mesma convicção democrática, com o mesmo respeito ao Congresso e com a mesma disposição para o trabalho e o diálogo que chego a essa Casa.

Os que ainda não me conhecem bem e esperam encontrar em mim ataques pessoais no exercício da oposição vão se decepcionar. Não confundo agressividade com firmeza. Não confundo adversário com inimigo. Os que ainda não me conhecem bem e acham que vão encontrar em mim tolerância diante dos erros praticados pelo governo, também vão se decepcionar.

Não confundo o direito à defesa e ao contraditório, com complacência ou compadrio. Estarei onde sempre estive como homem do diálogo que não foge às suas responsabilidades e convicções; não teme o enfrentamento do debate nem as oportunidades de convergência em torno dos interesses do Brasil.

Farei a política que sempre fiz aquela que entende que, neste campo, brigam as ideias e não os homens. Saúdo inicialmente essa Casa através dos grandes brasileiros que por aqui passaram e também através de todos os parlamentares que, hoje, aqui honram a delegação que receberam, respeitando a sagrada autonomia do Parlamento. Parlamentares que reconhecem ter apenas um senhor: o povo brasileiro. E apenas uma senhora: a sua própria consciência.

Senhores senadores e senhoras senadoras, a memória e o conhecimento da própria história são patrimônios preciosos de uma nação. Mais do que isso, formam a matéria prima essencial e insubstituível à construção do futuro. A consciência do que fomos e do que somos é que nos permite, todos os dias, moldar os contornos do que seremos, ou do que poderíamos vir a ser.

O Brasil de hoje é resultado de uma vigorosa construção coletiva que, desde os primeiros sopros da nacionalidade, vem ganhando dimensão, substância e densidade. Ao contrário do que alguns nos querem fazer crer, o País não nasceu ontem. Ele é fruto dos erros e acertos de várias gerações de brasileiros, de diferentes governos e líderes, e também de diversas circunstâncias históricas e econômicas. Juntos, nós percorremos os caminhos que nos trouxeram até aqui. Mas é importante e justo que nos lembremos, que não chegamos até aqui percorrendo os mesmos caminhos.

Não podemos nos esquecer das grandes diferenças que marcam a visão de País das forças políticas presentes na vida nacional nas ultimas décadas. Porque, por mais que queiram os partidos não se definem pelo discurso que fazem, nem pelas causas que dizem defender. Um partido se define pelas ações que pratica. Pela forma como responde aos desafios da realidade.

Em 85, quando o Brasil se via diante da oportunidade histórica de sepultar o autoritarismo e reingressar no mundo democrático, nós estávamos ao lado do povo brasileiro e do presidente Tancredo Neves. Os nossos adversários não. Permanecemos ao lado do Presidente José Sarney, naqueles primeiros e difíceis anos de consolidação da nova ordem democrática. Os nossos adversários não.

Mais à frente, em um momento especialmente delicado da nossa história, quando foi preciso convergir para apoiar a governabilidade e o presidente Itamar Franco, nós estávamos lá. Os nossos adversários não. Recusaram, mais uma vez, a convocação da história. Para enfrentar a grave desorganização da vida econômica do país e a hiperinflação que penalizava de forma especial os mais pobres, o governo Itamar criou o Plano Real. Neste momento, o Brasil precisou de nós e nós estávamos lá. Os nossos adversários não.

Aprovamos sob a liderança do presidente Fernando Henrique a Lei de Responsabilidade Fiscal para proteger o País dos desmandos dos maus administradores. Nossos adversários votaram contra. E chegaram ao extremo de ir à Justiça contra essa saneadora medida, importante marco da moralidade administrativa do Brasil.

Para suportar as crises econômicas internacionais e salvaguardar o sistema financeiro nacional, estruturamos o Proer, sob as incompreensões e o ataque cerrado dos nossos adversários. Os mesmos que o utilizaram para ultrapassar o inferno da crise de 2009 e que o apresentam, agora, como exemplo de boa governança para o mundo.

Estruturamos os primeiros programas federais de transferência de renda da nossa história. A partir de sucessos locais, como o do prefeito Grama, em Campinas, e do governador Marconi Perillo, em Goiás, criamos o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás. Que, depois, serviram de base para, ampliados e concentrados, se transformarem no emblemático Bolsa Família. Quando os fundamos nossos adversários também não estavam lá. Ironicamente, nos criticaram por estarmos criando políticas assistencialistas de perpetuação da dependência e não de superação da pobreza.

As mudanças estruturais do governo Fernando Henrique, entre elas as privatizações, definiram a nova face contemporânea do País. A democratização do acesso à telefonia celular talvez seja o melhor exemplo do acerto das medidas corajosamente tomadas. Porque disso é feito um bom governo: de decisões e não apenas de circunstâncias.

Senhoras e Senhores,

Faço essas rápidas considerações apenas para confirmar o que continuamos a ver hoje: sempre que precisou escolher entre os interesses do Brasil e a conveniência do partido, o PT escolheu o PT. Por isso, não é estranho a nós que setores do partido tentem, agora, convencer a todos de que os seus interesses são, na verdade, os interesses da nação. Nem sempre são.

Não é interesse do País, por exemplo, a subordinação das agências reguladoras ao governo central, gestadas que foram para terem independência técnica e, pelo país, atuarem livres de pressões políticas.

Não é interesse do País que o Poder Federal patrocine o grave aparelhamento e o inchaço do Estado brasileiro, como nunca antes se viu na nossa história. Da mesma forma, não posso crer que seja interesse do País que o governismo avance sobre empresas privadas, com o objetivo de atrelá-las às suas conveniências. Como se faz, agora, sem nenhum constrangimento, com a maior empresa privada do Brasil, a Vale, criando perigoso precedente.

Não sou, como todos sabem, daqueles cegos pela paixão política, que não se permite enxergar méritos no adversário. Reconheço avanços no governo Lula. A manutenção dos fundamentos da política econômica implantada pelos governos anteriores é, a meu ver, o primeiro e o mais importante mérito da administração petista.

E é necessário reconhecer que o adensamento e ampliação das políticas sociais, foram fundamentais para que o Brasil avançasse mais. Acredito que, mais adiante, por mais que isso desagrade a alguns, a independência dos historiadores considerará os governos Itamar, Fernando Henrique e Lula um só período da história do Brasil, de estabilidade com crescimento, sem rupturas.

Não ocupo essa tribuna para fazer uma análise dos primeiros meses do governo da Presidente Dilma Rousseff. O processo de governança instalado à frente do País – com suas falhas, equívocos, mas também virtudes -, não conta apenas com alguns dias. Pontua-se, de forma concreta, o início do nono ano de um mesmo governo. Quase uma década.

Ainda que seja nítido e louvável o esforço da nova presidente em impor personalidade própria ao seu governo, tem prevalecido a lógica dominante em todo esse período e suas heranças. Não há ruptura entre o velho e o novo, mas o continuísmo das graves contradições dos últimos anos.

O Brasil cor-de-rosa vendido competentemente pela propaganda política – apoiada por farta e difusa propaganda oficial – não se confirma na realidade.

E nós vivemos no Brasil real.

Por isso, senhoras e senhores, cessadas as paixões da disputa eleitoral, o Brasil precisa, neste momento, de um choque de realidade. Um choque de realidade que nos permita compreender corretamente a situação do País hoje, e, essencial, que nos permita também compreendê-la dentro do mundo que nos cerca.

Escondido sob o biombo eleitoral montado, o desarranjo fiscal, tantas vezes por nós denunciado, exige agora um ajuste de grande monta que penalizará investimentos anunciados com pompa e circunstância. E não é bom para um partido inaugurar uma nova fase de governo sob a égide do não cumprimento de compromissos assumidos com a população. É consenso que o país convive com o grave risco de desindustrialização de importantes setores da nossa economia. A participação de produtos manufaturados na nossa pauta exportadora, que era de 61%, em 2000, recuou para 40%, em 2010.

Vemos, infelizmente, renascer, da farra da gastança descontrolada dos últimos anos, e em especial do ano eleitoral, a crônica e grave doença da inflação. E não há razão para otimismo quando comparamos a nossa situação com a de outros países. Estudo feito a partir do relatório de competitividade do Fórum Econômico Mundial mostra que, comparado a outros 20 países com os quais concorre, o Brasil ficou apenas na 17ª colocação no quesito qualidade geral da infra-estrutura. Empatamos com a Colômbia. No item qualidade da infra-estrutura portuária o Brasil teve o pior desempenho. Fomos “os lanternas” do grupo.

A qualidade das estradas brasileiras, por onde trafega mais da metade das cargas no País, supera apenas a da Rússia. Ficamos na penúltima colocação. E, enquanto isso, em 2010, a nossa carga tributária atingiu 35% do PIB. Impressiona também saber que, apesar de todos os avanços que, reconheço , existiram nos últimos anos, a carga tributária das famílias com renda mensal de até dois salários mínimos passou, segundo o IPEA, de 48,8%, em 2004, para 53,9% da renda em 2008.

Lamentavelmente, repete-se agora o que se viu nos últimos anos: não há espaço e dedicação real à discussão do essencial. As reformas constitucionais continuam à espera de decisão política para que sejam debatidas e aprovadas.

A população brasileira nos delegou a honrosa tarefa de exercer oposição ao atual governo. Repito o que disse recentemente o governador Alckmin: “ser oposição é tão patriótico quanto ser governo”.

Aproveito este momento para fazer a minha homenagem aos companheiros do PSDB, do DEM e do PPS, pela coragem e coerência com que têm honrado no Parlamento a delegação recebida das urnas.

Hoje, cerca de metade da população vive em estados governados pela oposição. No plano nacional tivemos a confiança de cerca de 44 milhões de brasileiros que caminharam ao nosso lado e optaram pela experiência e competência de José Serra para liderar o País. Esses números, por si só, demonstram a dimensão política e a responsabilidade das oposições no País.

Acredito, no entanto, que o tamanho da oposição será equivalente à nossa capacidade de interpretarmos e defendermos os valores e expectativas da nossa gente. Como oposição, é nosso dever atuar com firmeza e lealdade em três diferentes e complementares frentes.

Uma, que define a nossa postura perante o governo. Outra, que nos remete ao nosso compromisso inalienável com o resgate da Federação. E a terceira frente, a que nos permitirá uma aproximação ainda maior com os brasileiros.

Em relação ao governo, temos como obrigações básicas: - Fiscalizar com rigor. Apontar o descumprimento de compromissos assumidos com a população. Denunciar desvios, erros e omissões. E cobrar ações que sejam realmente importantes para o país.

O segundo eixo de atuação que defendo é o compromisso de resgatarmos o princípio da Federação no Brasil. Aqui, peço licença para fazer uma manifestação de apreço aos prefeitos municipais de todas regiões, que vêm travando, há anos, inglória luta para sensibilizar o governo federal, o Parlamento e a opinião pública acerca da difícil realidade das administrações locais.

Hoje, suportamos uma das mais graves concentrações de impostos, recursos e poder de decisão na esfera da União de toda a nossa história. Esta é uma realidade que avança dia após dia e compromete o equilíbrio federativo.

Meus amigos,

Como terceiro eixo de ação, acredito que a nossa aproximação ainda maior com os vários setores da vida nacional vai ocorrer a partir da coragem que tivermos para assumirmos e partilharmos as indagações e indignações do nosso tempo.

Assumirmos e partilharmos os sonhos e utopias da nossa geração. Nesse sentido, peço licença para trazer aos senhores trechos daquele que considero o mais importante documento político produzido nos últimos tempos no País. Trata-se do Manifesto em Defesa da Democracia, que tem entre seus signatários, brasileiros da dimensão de Hélio Bicudo e Dom Paulo Evaristo Arns. Manifesto que não pertence a um partido, mas ao Brasil e aos brasileiros. Diz o manifesto em alguns trechos: É um insulto à Republica que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo… O poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder não lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis… É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político…

Esse documento, ao meu ver, reflete a alma e o coração de tantos de nós e, ao fazer isso, nos traz a dimensão maior da política.

Senhoras e senhores,

Precisamos romper a inércia. A ausência de iniciativas concretas do governo em torno das grandes reformas não pode ser justificativa para deixarmos de fazer o que pode ser feito hoje. E o que é nosso dever fazer hoje.

Ouso apresentar algumas primeiras idéias para serem examinadas por esta Casa. Começo por aquela que, defendida inicialmente pelo nosso candidato José Serra, foi acolhida e transformada em compromisso pela presidente Dilma Roussef, na campanha presidencial, e que, por isso, pode significar uma inédita convergência em torno de um dos nossos mais legítimos interesses nacionais. Refiro-me à redução de tributos cobrados em setores estratégicos da nossa economia, no caso a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins das empresas de saneamento.

Podemos somar forças e apoiar iniciativas como a do ilustre Senador Dornelles, que defende proposta semelhante para capitalizar as empresas de água e esgoto e fomentar novos investimentos em saneamento em todas as regiões.

É também compromisso assumido pela Presidente – e bandeira defendida pela oposição – a extensão da mesma iniciativa à área de energia.

Podemos construir um consenso mínimo entre as várias propostas que tramitam na Câmara e no Senado, que buscam reduzir os mais de uma dezena de tributos federais cobrados na conta de luz dos brasileiros. Se o governo federal seguisse o exemplo do governo de Minas e de outros estados que concedem isenção total de ICMS às famílias de baixo consumo, as contas de luz dessas famílias poderiam chegar a ser 20% mais baratas!

Por outro lado, não há, senhoras e senhores, justificativa para que permaneçamos passíveis diante das reconhecidas dificuldades de execução orçamentária em áreas fundamentais ao País. Segundo o Contas Abertas, por razões as mais diversas, nos últimos oito anos o Ministério dos Transportes, não executou parte expressiva do orçamento que dispunha para investir.

Para enfrentar esse e outros problemas trago uma proposta que, sei, parecerá, para muitos, ousada: - Estarei propondo a transferência gradual dos recursos e da gestão das rodovias federais para a competência dos estados. Isso poderia ser iniciado imediatamente com a transfer”encia de parclea mais expressiva da CIDE para os estados e municípios.

Do ponto de vista dos interesses da Federação, proponho ainda que 70% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança e do Fundo Penitenciário, tantas vezes contingenciados, sejam distribuídos mensalmente, de forma republicana, proporcionalmente à população de cada estado.

Sabemos, todos, que a Federação brasileira vive um processo de esfacelamento. O mal é conhecido. Do ponto de vista tributário, vivemos grave injustiça federativa. Nesse sentido, proponho adotarmos mecanismos que protejam a participação na receita dos estados, especialmente das regiões mais pobres, e das prefeituras, sobretudo as do interior e de pequeno porte. Estou encaminhando iniciativa capaz de recompor gradualmente o tamanho da fatia que o FPE e o FPM tinham no bolo tributário federal, impedindo que as isenções tributárias dadas pelo Governo Federal continuem a alcançar a parcela dos estados e municípios, que já foi, de 27% em 2002 e, hoje, é de apenas 19,4%.

No campo da geração de empregos, defendo a revisão da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, criando o Simples Trabalhista, universalizando o direito de opção pelo Simples Nacional e estendendo os benefícios do Empreendedor Individual para as micro e pequenas empresas.

No meu entendimento, decisões como essas atendem muito mais às justas demandas do setor do que a criação de mais cargos públicos e de novas estruturas burocráticas. Precisamos, insisto, buscar a equação que nos permita progressivamente desonerar as microempresas, mas também as exportações, os investimentos, a produção e a folha salarial.

Reafirmo meu compromisso com outros grandes desafios do país. Não faltará a mim e, estou certo, a outros membros da oposição, disposição para discutir com o Governo, medidas efetivas e corajosas que nos permitam superar os sempre prioritários desafios da qualidade da educação e da saúde publica no Brasil. Assim, como estaremos presentes na defesa de medidas que permitam que a questão ambiental possa alcançar um novo patamar e permear todas as áreas de ação do poder publico.

Acredito que devemos organizar o exercício da oposição em torno de três valores. São eles: coragem, responsabilidade e ética.

Coragem para resistir à tentação da demagogia e do oportunismo.

Responsabilidade. Não podemos cobrar do governo responsabilidade se não a tivermos para oferecer ao país.

E Ética. Não só a ética que move as denúncias. Não só a ética que cobra a transparência e a verdade. Mas uma ética mais ampla, íntima, capaz de orientar nossas posições, ações e compromissos, todos os dias.

Acredito, senhoras e senhores senadores, que estamos vencendo um ciclo. Hoje, o Brasil não acredita mais no discurso que tenta apontar uma falsa contradição entre responsabilidade administrativa e conquistas sociais.

Em 2002, quando criamos a expressão “choque de gestão” – e fomos criticados por nossos adversários – tínhamos como objetivo afirmar que não pode haver avanço social permanente, sem responsabilidade administrativa. Os emblemáticos avanços de Minas Gerais comprovam a tese.

Hoje, para o bem do Brasil, podemos visitar, País afora, uma densa agenda de gestão pública, empreendida por uma nova geração de líderes e gestores brasileiros, de diferentes partidos, que nos apontam caminhos para a transformação que nos exige a população.

Há muito a ser feito. Nos apresentamos hoje, sem batalhas próprias, prontos para iniciar um denso debate sobre os grandes desafios que nos esperam. É nosso dever contribuir para que a travessia iniciada – e empreendida por muitas mãos – avance na direção do pleno desenvolvimento. Esta é a grande tarefa inconclusa. E se há um erro que juntos não podemos cometer é nos perdermos na grandiloquência do discurso oficial, como se tivéssemos alcançado o nosso ponto de chegada.

Não alcançamos. Estamos longe dele, apenas no inicio da jornada.

Há grandes desafios a serem enfrentados e vencidos, que não pertencem apenas ao governo, ou às oposições, mas ao País inteiro. E aqui, não posso deixar de lembrar Minas, a história de Minas e as lições que nos legaram os homens e mulheres de Minas.

Elas nos dizem que cada geração tem o seu compromisso com a história.

Elas nos dizem que a Pátria é honrosa tarefa diária, coletiva e compartilhada. Não a realizaremos sob o signo do confronto irracional, nem tampouco da complacência.

A oposição que defendo não é a de uma coligação de partidos contra o Estado ou o País, mas a da lucidez da razão republicana contra os erros e omissões do poder público.

Convoca-nos, neste momento, a responsabilidade para fazer o que precisa ser feito. Ou o faremos ou continuaremos colecionando sonhos irrealizados.

Não temos, senhoras e senhores, esse direito. Precisamos estar, todos, à altura dos sonhos de cada um dos brasileiros. Nós, da oposição, estaremos.

Muito obrigado.

Brasília, 6/4/2011

Jarbas defende Ulysses

Senador repudia trecho de biografia autorizada de Sarney

BRASÍLIA. O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), do chamado PMDB histórico, subiu à tribuna do Senado, ontem, para repudiar trechos da biografia autorizada do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), em que ele faz críticas ao ex-presidente do partido Ulysses Guimarães. Jarbas classificou como comportamento reprovável agredir alguém que não pode se defender. Ulysses morreu em 1992. A biografia de Sarney foi lançada mês passado.

O senador pernambucano destacou, para repudiar com veemência, o trecho do livro de Sarney em que ele afirma: "Ulysses não tem grandeza de espírito público, político menor que tem o gosto da arte política, puro jogo, nada mais".

- Um dos comportamentos humanos mais reprováveis é o de agredir ou atacar quem não pode se defender. Isso foi o que o presidente José Sarney fez contra o doutor Ulysses Guimarães na sua biografia autorizada, que lançou recentemente - discursou Jarbas, acusando Sarney de denegrir a imagem de um dos homens mais importantes do século XX, numa referência à liderança de Ulysses no movimento político de redemocratização do país, quando ficou conhecido como Senhor Diretas, e também como condutor da Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição Federal de 1988.

O senador pernambucano ainda ironizou Sarney, que não estava no plenário.

- Como agora vivemos numa democracia, para a qual o doutor Ulysses contribuiu como poucos, o presidente Sarney tem a liberdade de mandar escrever a sua biografia e tecer todas as loas que puder à sua trajetória. Ele pode ser transformado num democrata revolucionário e no maior líder político da História do Brasil. É para isso que servem as chamadas "biografias autorizadas": para criar uma realidade alternativa ao gosto do freguês - discursou Jarbas.

Jarbas Vasconcelos assinalou que Ulysses permanece como "um dos melhores modelos" de homem público, especialmente em um tempo em que a mediocridade tem imperado no meio político:

- Doutor Ulysses não tem uma única mácula em sua trajetória, e seus amigos e admiradores não podem se calar ante uma agressão injustificada como esta de que, apesar de morto há 20 anos, está sendo vítima.

FONTE: O GLOBO

Serra diverge de Aécio e critica foco em 2014

"Não se faz oposição, trabalho político", diz ex-governador de SP

BRASÍLIA. A falta de sintonia entre o ex-governador José Serra (SP) e o senador Aécio Neves (MG), os dois principais líderes do PSDB, sobre a reforma política ficou clara ontem durante seminário realizado pela Executiva do partido para discutir o assunto. Também ficou evidente que o discurso de estreia de Aécio, anteontem, incomodou tanto aliados da presidente Dilma Rousseff como tucanos ligados a Serra. Reservadamente, alguns classificaram como "aberração" a interpretação de que Aécio sai fortalecido rumo a 2014. Serra criticou a antecipação do debate sobre a sucessão presidencial três meses depois da posse do novo governo.

Perguntado se isso o havia incomodado, Serra alertou sobre o risco para a oposição de se antecipar esse debate:

- Por que me incomodaria? Acho um erro, uma falsa questão fazer tudo pela ótica de 2014. Por aí não se faz mais oposição, não se faz mais trabalho político.

No debate sobre reforma, Serra propôs que o partido se concentre no voto distrital puro para 2012 e distrital misto para as próximas eleições. Disse não acreditar que o Congresso aprove outros pontos. Quando Serra havia deixado o plenário, Aécio discursou e pediu apoio do PSDB a quatro pontos da reforma: fim das coligações em eleições proporcionais, cláusula de barreira, fidelidade partidária e fim da reeleição com mandato de cinco anos.

FONTE: O GLOBO

Comissão aprova 'cotão' de 50% para mulheres

Mudança afeta listas proporcionais e será votada no Congresso

Cristiane Jungblut

BRASÍLIA. Em seu último dia de votações, a Comissão de Reforma Política do Senado aprovou ontem a criação de um "cotão" para mulheres nas listas de candidatos dos partidos nas eleições proporcionais (deputados federais, estaduais e vereadores): elas passarão a ter 50% das vagas. Os nomes de homens e mulheres devem ser postos de forma alternada na lista fechada de candidatos dos partidos - sistema eleitoral já aprovado na comissão, no qual o eleitor votará nas legendas e não mais nos candidatos. Isso caso as duas propostas sejam definitivamente aprovadas pelo Congresso.

Os partidos serão obrigados a cumprir a regra sob pena de não terem a lista registrada. Hoje, a lei eleitoral estabelece que os partidos devem destinar pelo menos 30% de suas candidaturas às mulheres, mas esse percentual nem sempre é cumprido, já que não há qualquer penalidade no caso de descumprimento.

A ideia do "cotão" foi apresentada pela senadora Ana Rita (PT-ES). Apesar de a maioria dos senadores ressaltar que será difícil os partidos obterem esse número de candidatas para viabilizar as listas, a proposta foi aprovada com facilidade, com apenas dois votos contrários.

Também foi aprovada ontem a realização de referendo sobre o sistema eleitoral que será aplicado nas próximas eleições. Pela proposta atual, o referendo seria sobre o voto em lista fechada.

FONTE: O GLOBO

MST ataca loteamento do Incra

POLÊMICA NO CAMPO

Stédile cobra de Dilma mudança na política de Lula e diz que Bolsa Família acomoda militantes

Letícia Lins

Um dos mais radicais coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stédile disse ontem que o número de acampados à espera da reforma agrária diminuiu no país por causa do Bolsa Família e cobrou da presidente Dilma Rousseff que, diferentemente do que fez o governo Lula, segundo ele, evite o loteamento político do Incra:

- Ela devia fazer como se faz no Banco Central, para o qual só se indicam técnicos. É disso que o Incra está precisando, mas todos os superintendentes regionais ainda são os mesmos do governo anterior - reclamou o líder do MST.

No primeiro ano da gestão Lula, segundo Stédile, o MST tinha 200 mil famílias acampadas, e agora, no começo do governo Dilma, tem cerca de 60 mil em todo o país. Para ele, o Bolsa Família é um dos entraves para o recrutamento de militantes para ocupar propriedades rurais, mas disse também que os sem-terra cansaram de esperar por uma reforma agrária que jamais se concretiza.

- Durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula, não mudamos a intensidade (de invasões). Promovemos uma média de 280 ocupações anuais. Mas em 2010, ano de eleição, esse ritmo caiu em todo o país. Também tivemos uma lentidão muito grande na execução da reforma agrária, e isso leva as famílias ao desânimo. Faz parte da psicologia social. Elas indagam: por que vou acampar se a reforma agrária vai demorar, se não acontece? - disse Stédile, em entrevista em Recife, onde foi lançar uma campanha contra o uso de agrotóxicos.

Stédile reconheceu que o fato de o então presidente Lula ter prometido que faria a reforma agrária "com uma canetada" motivou os sem-terra a fazerem maior quantidade de ocupações, achando que, com a pressão, a redistribuição de terras realmente deslancharia. Mas, segundo Stédile, não foi isso o que ocorreu. Para ele, Lula priorizou o agronegócio em detrimento da agricultura familiar e fez pouco para mudar o modelo agrário do país:

- E, no último ano do governo Lula, nada se fez pela reforma agrária. Então estamos dizendo para Dilma: por favor, reorganize o Incra, e vamos retomar a reforma agrária, como está prevista na Constituição, segundo a qual o governo é obrigado a desapropriar a grande propriedade que não produz. Isso é lei. Nós, dos movimentos sociais, vamos continuar denunciando a existência de latifúndios improdutivos e passíveis de desapropriação - afirmou.

Direção do Incra se recusa a comentar

Stédile disse ainda que, somando todos os movimentos sociais que atuam na área rural, as famílias acampadas hoje não passam de 80 mil, cerca de 400 mil pessoas. No início do governo Lula, só o MST tinha cerca de um milhão de homens, mulheres e crianças morando em barracas à espera da reforma agrária, onde normalmente recebem cestas básicas do governo. Com maior cobertura dos programas sociais, a demanda caiu nas fileiras do MST:

- É evidente que o Bolsa Família acomodou as pessoas em algumas regiões - disse Stédile, afirmando que o aquecimento da economia também pode ter favorecido a situação de lavradores. Ele avisou, no entanto, que na segunda quinzena deste mês o MST vai dar início ao que chama de jornadas, com a retomada de invasões:

- Para que não digam que sou sectário, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez uma coisa boa. Instituiu o 17 de abril como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Em todo o Brasil, haverá mobilização de ocupação de terras, para denunciar que a reforma está parada desde 2010, e vamos continuar ocupando o latifúndio.

Procurada pelo GLOBO, a direção do Incra não quis comentar as declarações de Stédile.

FONTE: O GLOBO

'O que a gente precisa é de trabalho'

Para assentada, Bolsa Família é cala-boca para acomodar povo no campo e nas cidades

MARILENA: "Esse modelo de reforma agrária tem que ser reformulado, porque o que está aí não serve para nós nem vai fazer bem ao país"

Marilena Ferreira, de 44 anos, dedicou dez anos de sua vida à luta por um pedaço de terra, dividindo acampamentos com 299 famílias no Engenho Prado, região canavieira de Pernambuco. A ocupação foi marcada por conflitos. Das 300 famílias, só 153 foram assentadas. Algumas sobrevivem com o Bolsa Família, mas Marilena se recusa a receber esse auxílio, que chama de migalha. Para ela, benefícios como esse não dignificam o homem do campo, a quem, em sua opinião, o governo "deve dar condições de trabalhar e não esmola".

Letícia Lins

Por que a senhora diz que essa não é a reforma agrária que sonhou?

MARILENA FERREIRA: Porque não é mesmo. Quando a gente fala em reforma agrária, pensa em fartura. Mas o que a gente vê é outra coisa: "faltura". Falta tudo: crédito, habitação, casa digna, escola, posto de saúde, água, estrada. Se a gente tivesse incentivo, como os usineiros, a coisa seria muito diferente. Quase ninguém teve financiamento por aqui, mesmo assim está plantando. Somos nós que garantimos a feira do município vizinho com nossos produtos. Acho que os assentados podem ser considerados heróis por isso.

Geralmente, as pessoas em dificuldade elogiam e até disputam o dinheiro do Bolsa Família. Por que a senhora o recusa?

MARILENA: O Bolsa Família é um cala-boca que o governo arranjou para acomodar o povo da cidade e do campo. Em vez de dar auxílio de dinheiro, o governo deveria nos dar incentivo para trabalhar. Disso tenho certeza. Se não deixassem os assentados ao deus-dará, sairíamos da "faltura" para a fartura. Infelizmente, o povo do campo é muito esquecido. Mas nós somos fortes o suficiente para nos juntarmos e irmos à rua. Ninguém tem que se intimidar porque recebe cesta básica ou outra ajuda do governo. A meu ver, Bolsa Família é uma vergonha. O que a gente precisa é de condições para trabalhar, porque o trabalhador do campo gosta mesmo é de viver do suor do seu rosto.

Por que a senhora acha que os ex-sem terra são esquecidos?

MARILENA: Você pode reparar: até a ciência aqui é voltada para o agronegócio. Nós temos tido muitos prejuízos com a macaxeira (aipim). Não sei se devido a algum fungo ou a problemas no solo. A macaxeira fica imprópria para o consumo, sem valor no comércio. Fomos a uma unidade de pesquisa no vizinho município de Carpina, da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Os pesquisadores disseram que só trabalham com cana.

Apesar das dificuldades, a senhora está vivendo do seu lote e se recusa a receber de programas sociais como o Bolsa Família. O que falta para a tão sonhada fartura?

MARILENA: É o pequeno que produz mais de 80% da mandioca e 70% do feijão do Brasil, mas o governo não se lembra disso, e aqui, na Zona da Mata, está até incentivando os assentados a plantar cana, que só dá dinheiro para o usineiro. O Engenho Prado, onde estamos, é rico em água, mas essa água a gente não pode usar porque ficou em terras da usina. Se pudesse, ia aumentar a nossa renda, criando camarão e peixe. Aqui, de fato, falta água até para beber. Esse modelo de reforma agrária tem que ser reformulado, porque o que está aí não serve para nós nem vai fazer bem ao país.

FONTE: O GLOBO

Em PE, nenhuma família assentada em 2010

E as que já tinham recebido lotes reclamam da burocracia e da falta de estrutura e crédito

TRACUNHAÉM (PE). Denunciada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), a redução de 44% do número de famílias assentadas pelo Incra no país em 2010 foi ainda maior em Pernambuco. No estado, historicamente marcado por lutas campesinas, há 17 mil famílias acampadas, ou cerca de 85 mil pessoas, segundo o próprio Incra. Já os 17 movimentos sociais que ocupam terras em Pernambuco dizem que são 20 mil famílias.

De acordo com a CPT e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2010 nenhuma família foi assentada em Pernambuco e nenhuma fazenda, desapropriada. O GLOBO encontrou assentamentos com cinco anos de implantação, onde os ex-sem-terra moram em casebres de taipa sem água, deixam de comer para comprar sementes ou trabalham em outras atividades para não passarem fome. Um dos assentados não lembrava a última vez em que conseguiu fazer três refeições diárias.

Os assentados culpam o excesso de morosidade e a burocracia do Incra pelas dificuldades. Já o instituto se defende e diz que, em 2010, a fazenda Santa Rosa foi desapropriada e 432 famílias, assentadas em Pernambuco. Mas os movimentos sociais afirmam que o assentamento não saiu do papel. O GLOBO constatou que novos assentados ocuparam terras abandonadas pelos destinatários originais, na chamada recomposição de lote, procedimento previsto nas leis agrárias.

João Apolinário da Silva, de 49 anos, vive no assentamento Chico Mendes, em Tracunhaém. Ele morou numa barraca durante 16 anos, em acampamento coordenado pela CPT. Está assentado há cinco anos, mas mora em casa de taipa, com chão de terra batida, sem água, luz, banheiro, fogão a gás e nem comida:

- Não lembro quando comi três vezes por dia. A reforma agrária que sonhei era bastante melhor. Esperava uma casa boa, crédito para plantar, produtos para negociar - disse João, que cultiva aipim, milho e inhame e vive com cerca de R$100 por mês. - Não tenho dinheiro para comprar semente nem para comida.

No assentamento Ismael Filipe, Elias Francisco Gomes, de 45 anos, e sua mulher, Ana Patrícia Gomes, de 35, reclamam dos bichos dentro de casa. Já enfrentaram aranhas caranguejeiras, cobras e ratos. Mas o fantasma maior é a precariedade da casa onde moram com duas filhas. A casa está sustentada para que as paredes de taipa não desabem.

A casa só tem um vão onde dorme toda a família. Quando chove ninguém tem sossego. E, quando faz sol, as telhas de amianto aumentam o calor. A família está assentada há cinco anos. Planta milho, maracujá, feijão, inhame, banana e aipim. Tem 20 galinhas e quatro cabras e há cinco anos espera por crédito para o plantio.

Incra: falta de documentos de associações atrasa verbas

O Incra afirma que, entre os motivos para atraso na liberação das verbas, estão documentação incompleta das associações de assentados, falta de licença ambiental e de recursos para viagens dos servidores ao interior para acompanhar e monitorar os assentamentos.

Segundo a CPT, apesar de ter prometido fazer a reforma agrária "com uma canetada", o governo Lula não a consumou em oito anos de gestão. O superintendente substituto do Incra em Recife, Carlos Eduardo Costa Lopes, diz que a situação este ano pode piorar. Com o corte de 60% em diárias, passagens e locação de veículos, a mobilidade de servidores da autarquia fica ainda menor. A situação é alvo de críticas ácidas de representantes da CPT:

- Dá repugnância um governo que despreza o povo do campo feito este, que não quer fazer reforma agrária, nem quis o anterior, nem o anterior do anterior - diz o padre escocês Thiago Thorby, da CPT, que há mais de 40 acompanha a situação do campo no Brasil. (Letícia Lins)

FONTE: O GLOBO

Governo dobra imposto de empréstimo

Mantega anuncia elevação do IOF que incide sobre os financiamentos para pessoas físicas para 3%, numa tentativa de conter a inflação

Francisco Carlos de Assis e Anne Warth

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem a elevação de 1,5 ponto porcentual na alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente sobre todas as operações de crédito para pessoa física - excluindo apenas os financiamentos de imóveis.

Com a medida, que entra em vigor hoje, o tributo de 1,5% passa a 3% ao ano sobre operações com cartão de crédito, crédito direto ao consumidor e crédito consignado.

Considerando a nova alíquota de 3% ao ano às pessoas físicas, o IOF vai de 0,041% ao dia para 0,082% ao dia. A medida, de acordo com Mantega, tem o objetivo de reduzir o consumo e, por consequência, a inflação. O ministro ressaltou que o novo imposto não incidirá sobre o crédito para empresas e investimentos.

A avaliação de Mantega é que o crescimento do crédito está em 20% ao ano, o que é uma velocidade muito elevada. O ideal, de acordo com ele, é que esse crescimento seja em torno de 12% a 15% ao ano.

"Estamos tomando essa medida para evitar que a inflação fuja do controle. O governo não vai perder o controle da inflação no Brasil", afirmou Mantega.

Segundo o ministro, a inflação medida pelo IPCA em março foi o que motivou a decisão do governo anunciada ontem. O IPCA de março ficou em 0,79% e acumula alta de 6,3% em 12 meses.

Quando o IPCA-15 do mês passado foi anunciado, a equipe econômica percebeu que o índice fechado poderia ficar muito acima das expectativas do próprio governo e do mercado.

Inflação. "É bom lembrar que temos uma inflação mundial de commodities agrícolas. Além disso, existe a especulação com as commodities, cujos preços estão subindo no exterior por conta do excesso de liquidez", avaliou o ministro, acrescentando que tem "gente" emitindo moeda de forma exagerada e isso aumenta a especulação com esses produtos, especialmente com o petróleo.

"Ninguém poderia prever a crise no Oriente Médio e o petróleo acima de US$ 120 por barril", observou Mantega.

O ministro fez questão de destacar que países emergentes como o Brasil e a Rússia também estão sofrendo com a inflação, mas que o IPCA de março subiu por causa dos alimentos, com aumento da pressão sobre os preços por causa das chuvas.

"Acreditamos que a inflação deve cair nos próximos meses, quando acabar a entressafra de etanol, mas o governo não deixará de tomar medidas, porque essa inflação pode se propagar para outros setores que já estão aquecidos, como é o caso de serviços", disse Mantega.

Ele fez questão de ressaltar que a inflação não está fora de controle no Brasil. "Está mais controlada do que em outros países." O ministro trabalha com a projeção de inflação do Banco Central, que é de 5,6% para este ano.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Novos dilemas, velhas políticas:: Monica B.de Bolle

Tantos deuses, tantos credos / Tantos caminhos que serpeiam, serpeiam (...) (Ella Wheeler Wilcox, The World"s Need)

Durante uma conferência recente sobre a condução da política econômica no período pós-crise organizada pelo FMI, o economista-chefe da instituição, Olivier Blanchard, defendeu a necessidade de uma "revisão abrangente dos princípios da política macroeconômica", destacando que a crise revelou os limites tanto dos mercados quanto do intervencionismo estatal. Segundo o economista, no "admirável mundo novo" pós-crise é necessário ter um espírito desbravador, inclinado a explorar diferentes opções que permitam navegar de forma mais adequada os desconhecidos mares dos novos dilemas da política econômica. Mas aquilo que para alguns tem um ar romântico de exploração e novidade, para outros é simplesmente o dessoterramento de velhos e frágeis artefatos.

O governo brasileiro atendeu prontamente à exortação de Blanchard, desenterrando peças quebradiças das tumbas da política econômica. Ações intervencionistas de todo tipo, antes classificadas sob rótulos pouco atraentes, como "repressão financeira" e "administração cambial", agora são chamadas de "macroprudenciais", uma denominação moderna e oportunista. Sob a justificativa de que é necessário combater os problemas causados pelas políticas frouxas dos outros, reeditam-se velhas distorções. A iniciativa mais recente, a imposição e subsequente extensão de um novo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a contratação de dívidas corporativas e bancárias no exterior, além das ameaças constantes de adoção de novas restrições, diante da incapacidade de conter a valorização do real, vai criando as condições para o retorno gradual dos regimes de câmbio múltiplo. Como já se viu antes, as tentativas fracassadas de dirigir os mercados tendem a gerar instrumentos alternativos, como o câmbio para os exportadores, para as viagens internacionais, para as compras das empresas, e por aí vai. As discussões sobre o papel do crédito público como fomentador do investimento de longo prazo, a reimplantação dos mecanismos de indexação, com as novas propostas de fixação do salário mínimo e do Imposto de Renda, a interferência do governo no planejamento estratégico de grandes empresas para "garantir o aumento do valor adicionado" também são artigos bolorentos do museu de políticas malsucedidas. Não são, como têm arguido certos membros da equipe econômica, bússolas para desbravar "o admirável Brasil novo".

Mas não é só isso. A política monetária, no Brasil e no mundo, parece cada vez mais inclinada a ressuscitar a desgastante engrenagem de stop-and-go da década de 70, que vacilava constantemente entre a priorização do combate inflacionário e da preservação do crescimento. Diante dessas crescentes evidências de mudança de regime, surge um questionamento fundamental. Será, como alertou certa vez o economista Dionisio Dias Carneiro, que estamos sofrendo as consequências de ter tentado reformar o Brasil com taxas de juros muito altas? Isto é, as alterações nos fundamentos da política macroeconômica brasileira estão refletindo a fadiga da sociedade com o lento e árduo processo de redução dos juros? Ou as novas ações seriam só um flerte exploratório, adolescente e efêmero, fruto do aval global para a adoção da heterodoxia? Eis a dúvida. O grau de desorganização macroeconômica que o País poderá enfrentar nos próximos dois anos depende da resposta.

Na década de 80, Dionisio escreveu o seguinte sobre o governo Geisel (1974-1979): "Os conflitos entre estabilização e ajuste estrutural, que caracterizariam a política econômica do governo Geisel, teriam sido resolvidos em favor de uma estabilização mais drástica, aceitando-se um crescimento deliberadamente menor por dois anos, por exemplo, para realizar a expansão em bases mais condizentes com as possibilidades dos anos seguintes". Ironicamente, as semelhanças entre o governo militar de Geisel e o governo democrático de Dilma são cada vez mais nítidas.

Economista, professora da PUC-RJ. É diretora do IEPE/CASA DAS GARÇAS

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Massacre em Realengo

"Ele atirava na cabeça"

Aluna de 12 anos relata o ataque a sua escola, com 12 colegas mortos e 12 feridos

"Escutamos muito barulho e a professora disse que era só estouro de bexiga. Chegaram duas meninas mandando subir porque um homem estava matando pessoas lá embaixo. Todos saíram pisoteando o outro, e alguns desmaiaram na escada. Já tinha um monte de gente agonizando no chão. Ele dava tiro nos pés das crianças. Mandava virar para a parede e dava tiro. Ele atirava na cabeça. Só olhava pra frente e seguia em frente. Ele estava carregando a arma e já entrando na sala. A professora trancou a porta e colocou armário. A sala ficou suja de sangue. Deu muito, muito, muito tiro. Ele falava: "Vira de costas pra parede, vira de costas, vou matar vocês." Um monte de gente gritava "não, não atira em mim, não me mata", mas morreram mesmo assim. Tinha muita gente agonizando, muitos amigos. Colegas do meu irmão morreram. Meu irmão saiu de porta em porta me procurando, e o atirador vivo procurando a gente. Meu irmão conseguiu me pegar. A escada parecia uma cachoeira de sangue. Vinha aquele sangue escorrendo feito água. E muita gente morta na escada. Tinha mais meninas mortas do que garotos. Muita gente entrou em choque e desmaiou na escada. Essas ele matou ... Achava a escola segura. Agora eu fico com medo."

Depoimento de Jade Ramos de Araújo, 12 anos, 6ª série, turma 1703.

O pavor que o Rio não conhecia

Massacre em escola de Realengo faz a cidade pacificada reviver o pesadelo da violência

Por essa o Rio não esperava. Num momento em que a cidade, após tantos anos subjugada e maltratada pelo crime organizado, experimenta os ventos da pacificação e das Olimpíadas, agora assiste, incrédula e perplexa, a uma violência incomum onde ela menos deveria acontecer: numa escola pública repleta de estudantes. O homem armado executou a sangue frio 12 crianças acuadas, feriu outras 12 e conseguiu massacrar uma população inteira. Doze anos depois, os tiros de Columbine foram novamente disparados. Em Realengo.

Lição de crueldade em sala de aula

Homem armado entra em escola, executa 12 crianças, fere outras 12 e depois se mata

O terror que antes os brasileiros assistiam pela televisão, nos massacres das últimas décadas em colégios americanos, tornou-se, ontem, uma realidade assustadoramente presente na vida dos cariocas, na Escola Municipal Tasso da Silveira, na Rua General Bernardino de Matos, em Realengo, na Zona Oeste do Rio. Numa ação de crueldade, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu o colégio onde já estudou, executou a tiros 12 crianças e deixou outras 12 feridas, algumas em estado grave. Das 12 crianças mortas, dez eram meninas, baleadas a queima-roupa, quase sempre na cabeça. Vítimas de um assassino que, no fim, depois de ser alvejado por um PM, suicidou-se com um disparo na cabeça - e tendo ainda 22 balas num cinturão.

Wellington chegou a escola por volta das 8h30m e toda ação durou apenas 15 minutos. Aluno do colégio de 1999 a 2002, ele se aproveitou do fato de, esta semana, a escola estar completando 40 anos e recebendo antigos estudantes para dar palestras sobre suas experiências de vida. Reconhecido por funcionários, ele ingressou pela porta da frente, vestido de calca escura e camisa verde, com dois revólveres escondidos numa bolsa - um de calibre 38 e o outro, de 32.

- Ele entrou na escola dizendo que daria uma palestra - contou o gari Dorival Porto Rafael, que estava no colégio na hora da tragédia, embora a prefeitura negue que ele tenha se apresentado como palestrante.

Dentro do colégio, ele passou pela secretaria, onde pediu uma cópia de seu histórico escolar e perguntou por uma professora de literatura que dizia admirar. Na sala de leitura do primeiro andar, antes de começar a barbárie, Wellington a encontrou e deu-lhe um beijo na testa. Enquanto ela lhe pediu um tempo para atendê-lo, Wellington subiu para o segundo andar e entrou numa sala do 8º ano, onde cerca de 40 alunos assistiam a uma aula de português.

- Ele entrou e pediu para que as crianças fechassem os olhos e levantassem as mãos, disse que começaria uma palestra. Como pode um homem entrar numa escola, passar por dois portões, sem que ninguém pedisse para que se identificasse? - perguntou Francisco Andre, primo de Jéssica Guedes, de 13 anos, uma das vítimas do massacre.

Daí para frente, o pânico tomou conta de alunos e professores. Wellington recarregou a arma e entrou numa segunda sala de aula, em frente à primeira. Para escapar dos tiros, muitos correram para o terceiro andar e outros, para um auditório no quarto pavimento, que teve as portas fechadas por uma barricada de mesas e cadeiras.

- A moça da escola mandou todo mundo subir para o auditório. Nós ficamos lá dentro, trancados, até a polícia chegar - contou Pamela Cristina Nunes, de 13 anos, aluna do 7º ano.

“Ele queria matar apenas as meninas”, diz aluno

Outra menina, Jady Ramos de Araújo, de 12 anos, estudante do 6º ano, contou que, na fuga para o terceiro andar, muitas crianças foram pisoteadas e desmaiaram, enquanto o atirador dava tiros nos pés para derrubá-las.

- Ele falava “vira de costas para a parede, vira de costas. Vou matar vocês”.

Para os que paravam, ele falava “vira para a parede que eu vou te matar”. Um monte de gente gritava “não, não atire em mim, por favor, não me mate”, mas morreu mesmo assim. A escada parecia uma cachoeira de sangue. Sai correndo porque tinha medo de ele me matar. As crianças gritavam muito e fiquei muito nervosa - descreveu Jady, que se escondeu numa sala do terceiro andar.

Aluno do 8º ano, da turma 1801, Mateus Morais, de 13 anos, chegou a conversar com o assassino.

- Estávamos assistindo a aula quando, de repente, começou o barulho e o homem armado entrou na nossa sala - contou Mateus. - Eu pedi para não me matar, e ele respondeu que eu podia ficar tranquilo. Nos meninos, ele atirava só para machucar. Muitos foram atingidos nos braços e nas pernas. Ele queria matar apenas as meninas. Nelas, ele atirava na cabeça.

Uma menina de 12 anos, que pediu para não ser identificada, viu uma amiga sendo baleada na cabeça.

- Nos primeiros tiros, os professores acharam que eram bombinhas. Todos estávamos abaixados quando ele entrou, gritando para que ficássemos quietos. Não queríamos morrer.

Foi quando ele apontou para minha amiga e atirou. Um tiro na cabeça - contou.

A tragédia só não foi maior porque policiais militares que participavam de uma ação do Detro na Rua Piraquara, a duas quadras da escola, foram alertados por dois alunos feridos que tinham conseguido escapar. O sargento PM Marcio Alexandre Alves foi o primeiro a chegar e cruzou com o assassino quando ele saia de uma das salas de aula e se preparava para subir ao terceiro andar. Wellington chegou a apontar a arma para o policial, que foi mais rápido e acertou o assassino com um tiro de fuzil no abdômen. Ele caiu numa escada entre o segundo e o terceiro andares e, em seguida, deu um tiro na própria cabeça, depois de disparar pelo menos 30 vezes. O assassino deixou uma carta de despedida, que levava consigo.

Do lado de fora, dezenas de pessoas, desesperadas, cercavam a escola, enquanto crianças corriam pedindo ajuda, algumas delas feridas.

Deputado estadual e ex-chefe de Policia Civil do Rio, Zaqueu Teixeira foi uma das autoridades que estiveram na escola e no IML. De acordo com ele, cada morte teve característica de execução.

- Vi as fotos e entrei nas salas. Todas as crianças mortas tinham tiros na cabeça ou na parte superior do tórax. Ele atirou para matar, não há dúvida. Os tiro foram dados a curta distância, de cima para baixo. As crianças foram encurraladas e executadas. Já estive na apuração de muitos crimes, mas nunca vi nada parecido com isso. Meus anos de polícia não valeram de nada. É muita maldade - lamentou.

Percepção parecida com a de Marcos Aparecido, tio de uma menina desaparecida até ontem à noite.

Os tiros de muitos entravam por cima, pela cabeça, e saiam pelo queixo. Vi as fotos para tentar reconhecer minha sobrinha - disse.

FONTE: O GLOBO

Orquestra Imperial - Não foi em vão

Medo:: Graziela Melo

Transita, Livre,
Em minh’alma
Um certo
Medo
Bisonho


Esquisito,
Medonho!!!


Não é medo
De fantasma
Nem de algo
Que se diz.


É o medo
Da verdade
E daquilo
Que aconteça
No futuro
Ao meu país!!!


Medo que,
Brasileiros
Deserdados,
Se sintam
Representados
Por um homem
Traidor...


Que persista
A incongruência
A leviana
Inconseqüência


A prática
Da mentira
Da violência,


Do cinismo
Persistente...
Enganador!!!


Medo
Da frieza
Do desamor...


E que lhe reste
Ao povo,
Apenas


A indiferença,
O torpor!!!


Rio de Janeiro, /26/10/2006