segunda-feira, 5 de novembro de 2012

2014: começar a pensar o caminho – Gilvan Cavalcanti

“os velhos falam do que fizeram, as crianças falam do que estão fazendo, os tolos do que vão fazer” (Barão de Itararé)

As eleições municipais passaram. Houve inúmeros debates sobre o tema. Não faltaram analises com visões diferentes, contraditórias e mesmo convergentes. Eram dados pra lá, dados pra cá. Foi uma inflação de análises, de números. Parecia até o IBGE, descrevendo os elementos dos censos anuais. Uns preferiram quem teve mais votos em vereadores, quem fez mais vereadores. Outros se dedicavam a examinar quem elegeu mais prefeitos. Os números serviam para todos os gostos e preferências. A mídia escrita, falada e televisiva forneceu bastante material. Colunistas políticos e especialistas reproduziram muitas vezes, essas mesmas argumentações.  Também não faltaram as ideias de historiadores, sociólogos e cientistas políticos. Em suma, houve um pluralismo de interpretações.

Estou convencido de que o eleitor demonstrou a complexidade de nossas cidades e do país:o Rio votou no PMDB, São Paulo preferiu o PT. Belo Horizonte, Recife e Fortaleza derrotaram PT. Vitória votou no PPS. O norte, optou pelo PSDB em Belém e Manaus. No sul o eleitor foi de PDT em Porto Alegre e Curitiba. Em outras palavras, houve uma fragmentação. Não aconteceu o domínio – que muitos chamam, equivocadamente, de hegemonia -, de um partido.
      
Torno a dizer, as eleições de 2012 são águas passadas. Foi uma fotografia que não se reproduzirá. Como afirmou o filósofo grego Heráclito, lá atrás, antes da nossa Era Cristã: “Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo”. Marx reinventou em 1848 o pensador grego assim: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. E não posso esquecer do poeta Drumonnd de Andrade para reforçar o argumento do tempo passado,”um quadro pendurado na parede”.

Daqui por diante começa uma nova conjuntura. As circunstâncias já são outras. Caberá ao ator político ser  protagonista do novo cenário. O que significa isso? Não esperar o fato ocorrer. É a hora de olhar as circunstâncias e fazer as escolhas. É a hora de fazer previsões. E, quem faz previsão tem um programa, um objetivo  e luta para realizar esse programa e esse objetivo. E, o programa se faz, em primeiro lugar, com valores.

São tempos, por um lado, em que se tenta impor o domínio de uma visão de política diferenciada da nossa Constituição. O que quero dizer? Chamar a atenção para assim o chamado “constitucionalismo popular”, de origem de teóricos do conservadorismo espanhol, depois, ganhou força em segmentos de professores da Universidade Harvard e desembarcou em terras bolivarianas. O que defende esse “constitucionalismo”? Em resumo se propõe uma democracia sem a divisão e separação dos poderes, sem autonomia do judiciário e do legislativo. Em outras palavras, o poder executivo, legislativo e judiciário se confundem numa só figura: o executivo.

São tempos, por outro lado, em que devemos dizer e reafirmar, mais um vez, que estamos profundamente comprometidos com os valores e as instituições da democracia representativa: o pluralismo, as liberdades individuais e coletivas, os direitos humanos, a República, o avanço da ciência, a preservação da natureza, a inclusão, a participação, a solidariedade, a igualdade e a  liberdade. Temos confiança na democracia política, porque nela reconhecemos a permanente expansão daqueles direitos. É nela que se torna visível a capacidade das mulheres, a esperança da juventude, a experiência dos idosos, o trabalho inteligente e criativo de todos.

São tempos em que devemos assumir nossos compromissos de respeito e consideração com os problemas da vida real das pessoas. Ao assumir a responsabilidade para com o bem comum, mantemos o compromisso de formular um pensamento e um agir reformista característico de uma esquerda moderna, que com espírito constitucional, saiba falar a todo o país e modificá-lo. Aí, me vem na lembrança àquela conhecida narrativa: ”Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”. Nela há a unidade de dois momentos: o conhecer e o transformar. É do mesmo autor um texto pouco conhecido: “O comunismo não é para nós um estado que deve ser estabelecido, um ideal para o qual a realidade terá que se dirigir. Denominamos comunismo o movimento real que supera o estado de coisas atual”. Qual é a alma dessa narrativa, sua essência, o núcleo central? A crítica ao real existente. Esse espírito que se está apagando, substituído pela apologia ao “estado de coisas atual”.  

Essas são algumas questões para reflexão. Podem ser parte de provável programa para conquistar um objetivo. Qual é esse objetivo? No campo político, substituir a atual coalizão governamental, sob o domínio do PT, por uma coalizão, compartilhada, entre as atuais forças opositoras, ampliada com setores da própria coalizão governamental. As últimas eleições demonstraram quanto é complexo a conquista de tal objetivo.  A partir desse novo momento, provavelmente, não haverá muita fragmentação.

Nas circunstâncias atuais o cenário vai depender de muitos fatores. Certamente, haverá uma candidatura do bloco do governo, mas ainda há uma dúvida se será Lula ou Dilma (PT). Do campo oposicionista já surge a candidatura do senador Aécio Neves (PSDB). Poderá haver outra candidatura, essa saída da coalizão governamental, na figura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com uma proposta de “terceira via” Também há no cenário a fusão de Aécio/Eduardo em uma única chapa. Outros candidatos poderão aparece.

Nesse quadro ainda há as definições das alianças e candidaturas dos governos estaduais. Com Isso aumentam as dificuldades. Dentro da coalizão governamental o PT forçará na direção de polarizar as disputas estaduais em função da coalizão nacional (PT/PMDB). Com isso deverá voltar à disputa polarizada em dois blocos.

O caminho para conseguir o objetivo é curto. Aí, arranco da memória outra narrativa, dessa vez, do poeta sevilhano:

(...) “não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.”

Rio, 4/11/2012

À espera do pior - Ricardo Noblat

“Maluf corre o risco de ser preso se sair do país. Genoino, se ficar.” Carlos Brickmann, jornalista

O medo e o ranger de dentes parecem ter cedido lugar à cautela e à sensatez como atitudes mais indicadas para orientar o comportamento do PT diante do que está por vir — a cadeia, destino certo de alguns dos seus festejados ex-dirigentes, e a possível, embora incerta, investigação sobre o papel desempenhado por Lula no esquema do mensalão. O PT estava pintado para a guerra. Guardou as armas.

DEU-SE COMO definida a ausência de Dilma na posse do ministro Joaquim Barbosa, o novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Lula não queria vê-la por lá. Está furioso com o rigor que tem pautado as intervenções de Barbosa durante o julgamento do mensalão. E pensar que Barbosa deve a Lula o cargo que ocupa... E pensar que seu nome foi selecionado por Frei Betto, assessor especial de Lula no primeiro governo dele.

AFINAL, PREVELECEU a moderação. Dilma viajará à Espanha. Mas voltará às vésperas da posse de Barbosa na vaga aberta com a aposentadoria do ministro Carlos Ayres Britto. Trata-se de um rito de Estado a presença do presidente da República na posse do chefe do Judiciário. O contrário seria um desaforo. Ou para ser exato: um ato de provocação. Presidente da República pode muito, mas não tudo.

A CONDENAÇÃO do deputado João Paulo Cunha (PTSP), um dos envolvidos no crime do mensalão, desatou no PT uma onda de ataques duros ao STF. Como se aquela Corte fosse composta por homens fracos, covardes, que cedem à pressão de uma imprensa ávida por cabeças e de uma opinião pública movida a manchetes e artigos.

ALGUÉM DEVE ter-se dado conta de que a rebelião do PT contra o STF poderia agravar a situação do partido na reta final do julgamento. Aconselhado pelo ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, Lula reuniu-se com José Dirceu e José Genoino, e ordenou que baixassem a bola. Nada de nota oficial para censurar o STF. Nem de manifestações hostis promovidas pela Central Única dos Trabalhadores. A hora é de esperar para ver no que vai dar.

O PT IMAGINOU que o STF absolveria algumas de suas estrelas — Dirceu e Genoino com certeza. Foram condenadas. O PT imaginou que, se condenadas, elas acabariam poupadas de cumprir pena atrás de grades. Tudo sugere que não serão. Para completar, o ex-publicitário Marcos Valério, um dos operadores do mensalão, pediu para ser ouvido pelo procurador- geral da República e, em depoimento assinado, disse que tem muito o que revelar.

REZA O PT para que Valério não tenha como provar o que a “VEJA” e o jornal “O Estado de S. Paulo” publicaram nas últimas semanas — que Lula era o chefe do mensalão; que Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, participou do esquema da compra de apoios políticos; e que ele, Valério, enviou para o exterior dinheiro destinado ao PT.

TERÁ VALÉRIO abastecido ou tido acesso à caixamãe de todos os caixas dois onde o PT esconde dinheiro obtido irregularmente? Será trágico para o partido se isso tiver ocorrido. Valério quer contar o que diz saber em troca de menos anos de cadeia. O procurador-geral da República poderá ou não aceitar a sua proposta. Mas, caso Valério formalize uma denúncia contra quem quer que seja, e desde que ela seja minimamente fundamentada, o procurador não poderá ignorá-la.

É SUA OBRIGAÇÃO providenciar para que uma denúncia de crime seja apurada. Então talvez se venha a saber se Lula foi apenas um idiota, feito de bobo por seus acólitos, ou mente ao país até hoje.

Fonte: O Globo

Ainda não é o fim - Wilson Figueiredo

Em Minas, onde não é bem vista, a pressa não tem tratamento especial e continua  considerada –  sob reserva, claro -  inimiga da perfeição. Entre mineiros,  qualquer evidência instintiva e imediata é admitida pela procedência grega, mas sem declinar sua condição real: nunca é  citada como axioma, nem em conversa de poucos para poucos. As verdades intuitivas têm confiança insubstituível entre a gente das montanhas. E ninguém dá a designação de axioma a uma verdade óbvia, seja num salão ou num botequim. Os mineiros adotaram o método de agregar, no velho e bom idioma que falamos, um reparo segundo o qual, se não deu certo, é porque ainda não é o fim. E estamos conversados.

A trapalhada que atende pelo nome de mensalão, depois de passar pelo crivo da justiça,  tudo indica, ainda não se encaminha para o fim. Não se esgotou no julgamento do Supremo. Mas já se destaca o perfil do ex-presidente Lula, mais arredondado do que no tempo em que não era o grande empresário de postes em épocas eleitorais. Ele curtia o tédio de governar na maneira informal de falar, e de se comportar com displicência. A inversão da ordem natural de entrada dos personagens em cena, quando o mensalão estourou, não definiu a função de Lula nem sua cota óbvia de maior responsabilidade. Já ex-presidente, ainda não sabia e, ao ficar sabendo do que se passou debaixo de suas barbas,  perdeu a oportunidade da mesma forma que era, e não sabia, o personagem principal. Sem ele, o mensalão teria morrido no ventre materno. Sobrou para o chefe da Casa Civil, José Dirceu, que agüentou sozinho o papel e as conseqüências que batem à porta dos mensaleiros.

 Lula ainda duvidava, ou fingia bem, quando despachou Dirceu, e foi até coerente, pois não o chamou de volta para chefiar, em desagravo, o gabinete, mesmo depois de se declarar convencido de que não tinha havido mensalão algum. Houvera apenas José Dirceu. Mas à distância da Casa Civil, com a incoerência que Lula pratica por princípio, meio e fim. Enquanto a questão se arrastou, Lula foi em frente como se não existisse mensalão nem, muito menos, José Dirceu. Apagou um e outro.

A última fornada eleitoral oficializou por fora, com o jeito inconfundível de Lula, a falta de estilo  na participação direta da presidente da República, pela mão do ex titular, na campanha eleitoral para prefeitos. Em nome da democracia, claro. E no interesse do candidato Lula, também claro, de olho em 2014. Foi um desacato premeditado à melhor frase, no discurso de posse do primeiro presidente eleito (pelo voto direto) depois de derrubada do Estado Novo, quando o próprio Eurico Gaspar Dutra declarou seu compromisso político de tratar igualmente, no exercício das suas prerrogativas, todos os brasileiros. Mesmo que não tenha sido, a intromissão oficial nas campanhas eleitorais  se fazia com luvas e elegância. O eleito na sucessão presidencial de Dutra em 1950 foi ninguém menos do que o ex-ditador Getúlio Vargas, que voltou pelo voto quando ainda não havia pesquisa eleitoral e sobrava confiança, pois o direito de votar excluía analfabetos funcionais na margem de incerteza ou de qualquer outra natureza.

Afinal de contas, se não deu certo nem sob o manto do farisaísmo liberal, como se viu na repetição da preferência autoritária em 1964, só pode ser porque ainda não se completou a democracia ajustada para rodar em falso com mais facilidade do que parece. Se a soma de vícios, na prática dos costumes aparentemente democráticos, não chega à perfeição pretendida e os resultados são colhidos com mão de gato, não será, certamente, porque ainda não é o fim - que pode estar de tocaia no meio do caminho - do aperfeiçoamento eleitoral perseguido com perseverança, mas na direção oposta. Também não é o começo aproveitável de uma etapa produtiva de valores e costumes condizentes com pretensão democrática da boca para fora.

Nem se pode aceitar ler como novo começo o que está mais para a consolidação do que se disfarça sob aparência de novidade. Fala-se de reforma política para aproveitar a oportunidade, mas com uma intenção declarada e outra embutida para inviabilizá-la na primeira ocasião. Se eleições separadas por dois anos já fazem estragos na credibilidade das urnas, imagine-se o que será no dia em que a escolha de prefeito, vereador, deputado estadual, governador, senador, deputado federal e, last but not least, presidentes da República, se fizer, apertando apenas um botão eletrônico num país que cresce para dentro e para fora como se nada fosse.

Fonte: Jornal do Brasil

Vide bula - Melchiades Filho

O PT tomará um banho de loja em São Paulo e lançará projetos dirigidos à nova classe média, impulsionado pela vitória de Fernando Haddad na capital e pelo diagnóstico de que, para conquistar o governo do Estado, é preciso ir além do discurso contra a pobreza.

De olho nessa fatia emergente do eleitorado, quatro petistas de São Paulo estão instalados em ministérios de projeção: Aloizio Mercadante (Educação), José Eduardo Cardozo (Justiça), Marta Suplicy (Cultura) e Alexandre Padilha (Saúde).

A disputa entre eles será -já é- sangrenta. Mas a política vive fase curiosa, em que ser desconhecido virou vantagem. Lula animou-se com os "postes" que escolheu e elegeu. A bola "nova" da vez é Padilha, 41, e não os outros, veteranos.

O titular da Saúde, ao contrário de Dilma e Haddad, é petista de raiz. Milita desde adolescente e conhece bem o partido. No governo Lula, cuidou do mapa federativo, encarregado de ouvir e atender prefeitos. Imagine quantos galhos quebrou.

Outro trunfo dele é a hiperatividade. A Folha detalhou ontem o giro paulista do ministro nos finais de semana anteriores às eleições municipais. Em um só sábado, ele correu mil quilômetros e seis cidades. Não está a passeio.

No ministério, Padilha tem lançado programas em profusão: Rede Cegonha, SOS Emergência, Academias da Saúde, Melhor em Casa, Mamografia Móvel, IDSUS...

Trata-se de um portfólio de respeito, mas ainda de pouca visibilidade: a Saúde segue a área mais crítica e criticada do governo federal.

A verdade é que, enquanto Dilma não abraçar essa agenda e colocar a Presidência a serviço dela, a percepção popular não mudará -e a corrida de 2014 continuará aberta. Para lembrar: o PAC e sua "mãe" foram inventados três anos antes da eleição de Dilma e o "mauricinho" do ProUni foi avisado em 2009 que um dia seria candidato.

Fonte: Folha de S. Paulo

2012 + 2 - José Roberto de Toledo

Como a eleição de prefeitos vai impactar o jogo de poder em Brasília? No varejo, uns caciques perdem penas enquanto outros aumentam seus cocares. No atacado, porém, a perda de cabos eleitorais será fatal para muitos deputados federais e, por consequência, para as bancadas de seus partidos na Câmara.

DEM, PMDB, PR e PTB são os mais ameaçados de diminuírem em 2014 por causa de 2012. PSB e PT, ao contrário, tendem a medrar. Nada aponta, entretanto, para uma revolução na balança partidária. A eleição municipal fez crescer mais partidos nanicos e projeta uma dispersão de poder ainda maior que a já existente na Câmara.

Há uma correlação muito forte entre número de prefeitos eleitos e tamanho das bancadas que os partidos levam para Brasília dois anos depois. No último ciclo eleitoral, o coeficiente foi de 0,9 num máximo de 1,0. Esse número não implica relação de causa e efeito, mas há indícios de que o sucesso do partido na eleição municipal esteja ligado ao número de deputados que ele elege.

Com uma série histórica mais ampla e metodologia científica, Leandro Piquet Carneiro e Maria Hermínia Tavares de Almeida demonstraram a articulação dos votos recebidos por um partido em diferentes eleições em artigo na revista Dados em 2008. O que se colhe das urnas num ano semeia os resultados subsequentes.

Em setembro passado, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas confirmaram a relação de causalidade entre um pleito e outro e ainda estimaram que a eleição de um prefeito aumenta em 20% os votos para deputado federal recebidos pelo mesmo partido naquele município dois anos depois. Suas descobertas estão no artigo Articulações interpartidárias e desempenho eleitoral no Brasil, publicado pelo Cepesp da FGV.

Explicam os autores: "Essa vantagem veio do maior acesso dos prefeitos aos recursos públicos, seu papel como implementadores de políticas públicas locais ou como intermediários de transferências estaduais e federais, ou até como emprestadores de credibilidade para as promessas eleitorais dos candidatos do partido". Ou seja: prefeitos são bons cabos eleitorais.

No triênio 2008-2010, a proporção média foi de dez prefeitos para cada deputado federal eleito por partido. Essa taxa variou muito de legenda para legenda. O PT conseguiu converter quase três vezes mais deputados por prefeito do que o PMDB, por exemplo. Isso pode mudar porque petistas avançaram nas pequenas cidades.

Adaptadas as proporções, a Câmara semeada este ano tem o PT com favorito a fazer a maior bancada em 2014, mas ainda assim menos de 20% dos deputados. O PMDB tende a encolher mas manter o segundo maior número de cadeiras. PSD e PSDB devem se equivaler em tamanho, e o PSB ameaça alcançá-los.

Em seguida viria um bloco que, em ordem decrescente, começaria no PP, passaria por PDT e PR, desceria por DEM, PTB, PC do B, PRB e PV até o PPS. Uma dezena de partidos nanicos completaria o plenário.

Haverá outros fatores em jogo em 2014, porém. No seu artigo de 2008, Carneiro e Tavares de Almeida concluíram que "a votação para governador é a variável que tem o maior efeito sobre as votações para deputado federal". Logo, os partidos ainda têm como mudar seu destino até a próxima eleição.

É a fila, tucano. O PSDB tem dois problemas similares mas diferentes que, por aparência ou conveniência, vêm sendo debatidos como se fossem um só. Renovação partidária independe de renovação política, ou o contrário. Um partido pode arejar suas ideias com os mesmos caciques de sempre, ou pode promover curumins com ideias gastas. Seria saudável juntar caras novas a cabeças abertas, mas o ótimo é inimigo do bom. Renovação, de fato, seria fazer a fila andar.

A opinião pública já deu o recado algumas vezes, basta querer ouvir. Quem encabeçava a fileira e perdeu precisa reconhecer a derrota - qualquer uma delas. É um gesto que equivale a sair da frente, dar lugar. Sem isso, a sucessão entope. Tensões se acumulam até os conflitos implodirem o partido. Para quem obstrui, melhor retirar-se do que ser expelido ou abandonado.

Quanto às novas ideias, é mais provável que provenham da necessidade do que da hereditariedade. Na política, a repetição é mais forte do que a inovação. Se o patriarca teve sucesso, o herdeiro tende a imitá-lo, não contradizê-lo. Os exemplos se repetem, não importa o partido: Dirceus no PT, Brizolas no PDT, Covas no PSDB, Magalhães no DEM, Alves no PMDB, Arraes no PSB.

O coco raramente cai longe da palmeira - ser Vladimir é exceção.

Fonte: O Estado de S. Paulo

A sedução fatal do PMDB - Renato Janine Ribeiro

Perguntem a quase qualquer partido político brasileiro o que ele quer ser quando crescer, se crescer, para crescer. É quase certo que, se ele for sincero, responderá: "PMDB". Chamo de "PMDB" um partido de pouca definição ideológica, capaz de sustentar um governo de direita ou esquerda, mas formado por tantas alianças regionais que consegue um bom retorno da União em troca de seu apoio.

Em 2011 foi criado um segundo PMDB, com o nome de "PSD", a maior realização do prefeito Gilberto Kassab - um partido que, em sua certidão de nascimento, conseguiu se definir como não sendo "de direita, de centro nem de esquerda". Nos últimos meses, o Partido Socialista Brasileiro, que pelo nome deveria ter posição ideológica de esquerda, caminhou para ser nosso terceiro e simultâneo PMDB. Nas eleições deste ano, o PSB fez alianças as mais diversas, ampliando o contingente de seus prefeitos e também, o que pode ser um sinal, aliando-se ao PSD em várias cidades.

Por que vivemos essa peemedebeização dos partidos? Na década de 1980, o Brasil parecia caminhar no rumo oposto. Foi quando nasceram os dois partidos que, nas últimas duas décadas, governaram o país. Em 1980, surgiu o Partido dos Trabalhadores. Demorou a ter uma bancada parlamentar digna de nota. Mas desde o começo conheceu um sucesso de crítica. Nasceu, em certa medida, contra o PMDB. Pretendeu, quando a democratização despontava no Brasil, libertar as causas trabalhistas e populares da dependência em face dos projetos apenas liberais da oposição então existente. A par disso, se caracterizou pela ética e mesmo pela intransigência. Queria mobilizar as pessoas, mais do que ganhar eleições ou benesses. O PSDB nasce depois do fim da ditadura, em 1988. Seus fundadores eram membros históricos do PMDB, mas romperam com ele por divergências que seriam éticas com as lideranças do partido original.

Sem identidade, os partidos são bons coadjuvantes

Com suas diferenças, PT e PSDB mostravam forte preocupação ética e convicções ideológicas. Por isso mesmo, continuam tendo as personalidades mais marcantes de nossa política. Esta continua a se polarizar em torno deles. Vejam a questão das coligações possíveis. Por mais de dez anos, tivemos quatro grandes partidos, o PMDB, o PSDB, o PT e o PFL (depois, DEM). Pois bem: deles, o PT podia se aliar apenas ao PMDB; o PSDB, ao PMDB e ao PFL; o PFL, somente ao PSDB - e o PMDB a qualquer um dos outros três. O PT e o DEM eram os mais consistentes em ideologia, o PMDB o menos. Ora, hoje, com a queda do DEM para a oitava posição na Câmara, após a criação do PSD, quase todos os nossos partidos podem se aliar a qualquer um. Mesmo o PCdoB, que por ser comunista deveria ter fronteiras ideológicas nítidas, entrou para a administração Kassab em São Paulo. Numa conta rápida, que não deve esquecer as diferenças internas a cada partido, dos 513 deputados federais apenas 164 pertencem a agremiações exigentes em termos de alianças - repito, o PT (87 deputados), o PSDB (49) e o DEM (28).

Quer dizer que, na década de 1980, ante o fim do regime militar e a eleição da Constituinte, queria-se mais dos partidos. Hoje, após três décadas de avanços democráticos, com eleições mais limpas, forte inclusão social e até sinais de que a corrupção poderá começar a ser punida, os partidos políticos têm ambições rasteiras. Querem o poder, claro. Isso é de sua natureza. Mas dizem cada vez menos para que desejam o poder. Projetos para o país melhorar, têm poucos. Nesta eleição, o próprio PSDB só conseguiu apresentar seu programa para a prefeitura de São Paulo em cima da hora.

Por que essa queda em ambição, em projeto, em idealismo? Por que esse avanço do interesse, da busca da oportunidade, da aliança sem muito pudor? Sem dúvida o fenômeno não é positivo. Mas pode dever-se, em parte, à consolidação do PT e do PSDB como os partidos ideológicos ou, embora a palavra cada vez valha menos até para eles, idealistas de nosso espectro politico. Para os outros, não vale a pena ter ideais ou ideologias. É o que sucedeu, na esquerda, com os partidos socialista e comunista, e, na direita, com o PP e agora o PSD, criado para eleitos da direita poderem apoiar o governo Dilma (ou qualquer governo).

E isso é curioso, porque tanto se cantou o fim da polarização, tantos quiseram ou querem uma terceira via na política brasileira... O PMDB tem falado em lançar, talvez em 2018, um nome próprio para a presidência da República; isso parece indicar que o principal cargo do país, o que define o rumo político do Brasil, poderia ser preenchido só na base de alianças, sem projeto. Resta ver se isso dará certo. Pessoalmente, duvido. Creio que o avanço dos grupos de interesses, dos partidos em que o projeto cede lugar ao lobismo, também os incapacita para voos mais altos. O PSB pode, sim, aumentar seu cacife pedindo a Vice-Presidência da República para escolher se apoia um tucano ou um petista para a sucessão de Dilma. Mas isso não o converte em cabeça de chapa - ao contrário. Isso o limita a uma posição secundária.

Por mais que o modelo PMDB ofereça ganhos tangíveis e certos, os dois partidos que, somados, ou melhor, brigados, chefiam o Estado há quase 20 anos, só conseguiram isso porque não foram nem são PMDB. Nosso grande partido-ônibus é vantajoso para apoiar, não para liderar. Lutar pela hegemonia, como fazem PT e PSDB, tem um custo. Você pode perder. Já fazer alianças com qualquer lado (exagero um pouco no "qualquer") tem suas vantagens, mas traz um custo: você não disputa a final do campeonato. Pode até se manter na primeira divisão, mas não chega à final do Brasileirão.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Fonte: Valor Econômico 

A verdade das urnas - Aécio Neves

Recentemente, me lembrei de uma citação folclórica que volta e meia é repetida no meio político e refere-se a uma proposta para encerrar a guerra do Vietnã nos anos 60, atribuída a um senador dos EUA.

A sugestão dele era que o presidente americano devia simplesmente declarar vitória, unilateralmente, e retirar as tropas daquele país do Sudeste Asiático, colocando um ponto final no confronto.

No plano das alegorias, é mais ou menos isso que o PT tenta fazer ao propagar que dizimou os adversários nas eleições municipais de 2012.

O fato de ter vencido em cidades importantes do país não autoriza o partido a generalizar o resultado. Pelo menos não com o amparo da realidade.

A principal característica das eleições municipais deste ano é a distribuição equilibrada entre os partidos que obtiveram as maiores votações. O PMDB foi o partido que elegeu o maior número de prefeitos, seguido pelo PSDB e pelo PT.

Mas, na política, a criatividade é grande e surgem análises de todos os tipos, prontas para atender o gosto do freguês. Há quem prefira somar o número das cidades sob o comando de cada legenda para apontar vencedores ou derrotados. Há aqueles que analisam resultados sob a ótica das alianças políticas e não das legendas isoladas. Quem não pode somar cidades, opta por somar a população a ser governada por um partido. Não falta, inclusive, quem, na ausência de ter o que contabilizar, defenda o caráter estratégico de suas conquistas.

Na verdade, o resultado político dessas eleições é muito mais complexo do que pode apontar esse tipo de análise. Talvez porque não exista um, mas diversos resultados.

Se a discussão em torno dos números não se mostra tão favorável ao PT como seus dirigentes se esforçam em demonstrar, há uma derrota política que certamente incomoda mais nesse momento ao Planalto.

Ao transformar algumas disputas em verdadeiros plebiscitos, o PT colheu a derrota direta do ex-presidente Lula ou da presidente Dilma em locais de forte simbolismo. Em Manaus e Salvador, assim como nas três principais cidades de Minas -Belo Horizonte, Betim e Contagem-, de forma especial, o que prevaleceu foi o não ao PT.

Ao PSDB, cabe agradecer os 13,9 milhões de votos em nossos candidatos a prefeito, no primeiro turno das eleições, e 5,6 milhões, no segundo. Isso sem levar em consideração os incontáveis apoios que tivemos nas alianças firmadas com outros partidos pelo país afora.

Com erros e acertos, o PSDB reafirmou sua posição de principal polo de oposição no país. O partido precisa agora entender o que disseram as urnas. Inclusive o recado dos milhões de brasileiros que preferiram não votar, descrentes da política.

Fonte: Folha de S. Paulo 

PT chega a consenso e decide que Dilma será candidata à reeleição

Em jantar amanhã no Palácio da Alvorada, a presidente começará a traçar com a cúpula do PT e do PMDB a estratégia para 2014. Também recebeu aval do ex-presidente Lula a permanência do deputado Rui Falcão no comando petista até 2018

PT chegou a consenso e já começa a trabalhar pela reeleição de Dilma

Com aval do ex-presidente Lula, o deputado Rui Falcão deve permanecer no comando do partido até 2018

Octávio Costae,  Pedro Venceslau

O PT já está preparando sua má-quina de guerra para enfrentar o decisivo ano de 2014. O primeiro passo será dado essa semana em um jantar dos caciques da sigla com o PMDB. A anfitriã será a presidente Dilma Rousseff e o cardápio a renovação do bem sucedido consórcio de poder formado pelos dois partidos. A conversa será pontuada pelas demandas de cada um na agenda de 2013: reforma ministerial, eleição para o co-mando do Congresso e divisão de espaço nas prefeituras. De sua parte, o PT e o Palácio do Planalto definiram o item mais importante.O ex-presidente Lula não disputará à presidência e Dilma será candidata à reeleição.

A decisão acertada pelos dois parece óbvia, mas se trata de uma definição que limpa o terreno de embates fratricidas. Não existe no partido nenhum foco de resistência a essa tese. Nem mesmo as barulhentas correntes da esquerda petista se opõem ao nome de Dilma.

Em outra frente, o PT trabalha para que a sucessão interna da legenda, que ocorre por meio de eleições diretas massivas, não se transforme em um palco de guerra. O BRASIL ECONÔMICO apurou que o ex-presidente trabalha para que a bem-sucedida aliança entre os grupos majoritários petistas “Novo Rumo” e “Construindo um Novo Brasil” seja repetida e reeleja Rui Falcão para um novo mandato em novembro de 2013.

O próprio dirigente teria manifestado o interesse em continuar no comando petista. O novo presidente da sigla assumirá em janeiro de 2014 e coordenará a campanha presidencial. “Rui conduziu muito bem o partido nas eleições desse ano. Ele procurou nacionalizar o PT. É um bom nome”, disse ao BRASIL ECONÔMICO o senador Humberto Costa (PT-PE), membro do diretório nacional. Candidato a prefeito derrotado no Recife, ele pontua que geralmente as correntes apresentam nomes para a disputa interna, mas pondera. ‘O partido tem problemas localizados, mas está nacionalmente unido. O sentimento é de unidade”.

O principal foco de resistência a esse projeto é o grupo “Mensagem ao Partido”, que comanda cerca de 20% da máquina do PT. As principais estrelas dessa tendência são o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O principal articulador dos “rebeldes” que resistem ao nome de Rui Falcão é o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS).

Ocorre que petistas de alta patente consideram que ele se queimou com Dilma e Lula durante seu mandato como presidente da casa. Além do comando partidário, o PT discute internamente a política de alianças da legenda para 2014. Como havia acontecido antes do pleito de 2010, duas teses estão em campo. Uma, defendida pelo grupo majoritário, prega a reedição da aliança prioritária com o PMDB. Isso significa a recondução de Michel Temer à vice-presidência, a ampliação do espaço dos peemedebistas na Esplanada dos Ministérios e um pacto de coabitação política no Congresso.

Outra quer um palanque mais “à esquerda”, com o PSB na condição de aliado prioritário. No jantar promovido por Dilma, dividirão a mesa os senadores Valdir Raupp (presidente do PMDB), José Sarney (presidente do Senado) e Eduardo Braga (líder do governo). Os deputados Jilmar Tatto (líder do PT), Arlindo Chinaglia (líder do governo na Câmara). A presidente aproveitará a ocasião para acabar com os rumores de sua reforma ministerial.

Fonte: Brasil Econômico

Instituto Lula vira central de comando para petistas

É da entidade criada para preservar memória do governo do ex-presidente que saem as ordens das principais ações eleitorais e estratégicas do partido

José Maria Tomazela

Criado para fornecer ao público o acervo pessoal do ex-presidente da República, o Instituto Lula virou um gabinete paralelo de poder do PT em São Paulo. Do sobrado de vidros escuros, vigiado por câmeras e protegido por cerca elétrica no bairro Ipiranga, zona sul da capital, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva define estratégias e toma decisões que sobrepõem, muitas vezes, a própria instância partidária.

Foi dali que Lula traçou boa parte das estratégias eleitorais do PT nas eleições municipais. Dali também conteve, semana passada, o ímpeto de alguns petistas de divulgar um manifesto em defesa dos condenados no julgamento do mensalão. Na noite da última quarta-feira, Lula recebeu no instituto o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente do PT José Genoino e convenceu ambos de que não se tratava do momento ideal para manifestações.

A instituição foi criada com base na Lei 8.394/91, que atribui a ex-presidentes a responsabilidade de tornar acessível ao público o acervo privado obtido no exercício do cargo. Pelo estatuto, trata-se de algo "apartidário e independente de partidos políticos".

No início da disputa eleitoral, a estrutura foi ampliada com o aluguel de um sobrado vizinho para a instalação de um estúdio.

O prédio de três pavimentos tem área de lazer com piscina. No local foi gravada a propaganda para candidatos petistas de mais de 90 cidades, com participação de Lula - foi uma maneira de facilitar sua aparição em programas de TV, já que o ex-presidente se recupera do tratamento contra um câncer na laringe.

Na terça-feira passada, a agenda privada do ex-presidente incluiu as visitas do megaempresário Eike Batista e do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, advogado de um dos réus do "mensalão". Reuniões partidárias com as presenças de dirigentes petistas, como o presidente nacional Rui Falcão, o secretário geral de Organização Paulo Frateschi e o líder do partido na Câmara dos Deputados, Jilmar Tatto, costumam avançar a noite.

Secretariado. Com a eleição de Fernando Haddad em São Paulo, o instituto passou a ser referência também para a composição do novo governo. Na quinta-feira, Lula recebeu Marcio Pochmann, candidato petista derrotado em Campinas, para discutir seu aproveitamento na equipe de Haddad.

A agenda oficial recente incluiu visitas de ex-presidentes e personalidades internacionais, como Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França; Fernando Lugo, presidente deposto do Paraguai, e a primeira-dama do Peru, Nadine Heredia. Na agenda privada, estavam o marqueteiro João Santana, o publicitário Valdemir Garreta, o advogado Roberto Teixeira, amigo e compadre de Lula, e o gerente de comunicação da Petrobrás, Wilson Santarosa.

Conforme o site oficial, o Instituto é mantido por doações de empresas e pessoas que se identificam com seus objetivos, mas a relação de doadores não é divulgada, assim como as despesas bancadas. Um dos objetivos declarados é a construção do Memorial da Democracia em que o ex-presidente será a figura central. A entidade nasceu com o governo paralelo que Lula estruturou após ser derrotado nas eleições de 1989 para acompanhar criticamente o governo de Fernando Collor de Mello, com o nome de Instituto da Cidadania. No ano passado, com Lula fora da Presidência, transformou-se no Instituto Lula tendo seu patrono como presidente de honra.

A instituição é dirigida pelo amigo pessoal e "braço direito" de Lula, Paulo Okamoto, com assessoria de Clara Ant, sua ex-assessora na Presidência, e dos ex-ministros Luis Dulci (Secretaria-Geral da Presidência) e Paulo Vanucchi (Direitos Humanos).

Novo estatuto. O estatuto aprovado em agosto de 2011 sofreu mudanças recentes. As novas normas ainda não foram postadas no site. Okamoto disse que o objetivo da mudança foi possibilitar maior atuação na área cultural. O foco central continua sendo "a cooperação do Brasil com a África e a América Latina".

Fonte: O Estado de S. Paulo

PT e PSB ficam de lados opostos em ao menos 15 Estados

Aliados nacionalmente hoje, partidos podem estar em palanques diferentes nas eleições presidenciais de 2014

PSB, da base de apoio do governo Dilma, pode investir em candidatura própria ou apoiar nome de Aécio Neves (PSDB)

Nelson Barros Neto

SALVADOR - A dois anos das eleições ao Palácio do Planalto e aos governos estaduais, o PT da presidente Dilma Rousseff e o PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, estão divididos em mais da metade dos Estados.

Levantamento da Folha nos diretórios regionais mostra que eles já enfrentam rachas em ao menos 15 Estados.

A relação entre os dois partidos, aliados nacionalmente, é hoje tratada como a principal incógnita para 2014.

Sigla que mais cresceu nestas eleições municipais, o PSB pode ficar sozinho em 2014, no palanque da reeleição de Dilma ou ao lado do senador mineiro Aécio Neves (PSDB), principal nome da oposição para a disputa.

Na campanha eleitoral deste ano, Aécio percorreu o país para pedir votos tanto para tucanos como para candidatos do PSB. Em Belo Horizonte, por exemplo, atuou como principal cabo eleitoral para a reeleição do prefeito Marcio Lacerda, do PSB.

Já Campos acumulou vitórias de seu partido em duelos diretos contra o PT. Foi assim em BH, Recife, Cuiabá, Campinas e Fortaleza.

Esses resultados o colocaram como uma opção de terceira via para 2014, mas também deixaram feridas abertas na relação com o PT.

Por isso há quem defenda uma chapa Campos e Aécio, como disse o prefeito eleito de Manaus, Arthur Virgílio.

"Nós temos esse lado, de conviver bem com um [PT] e com outro [PSDB]", diz Laurez Moreira, presidente do PSB de Tocantins -um dos 12 Estados em que a aliança continua firme, mas com possibilidade de se desmanchar em 2014, caso os socialistas lancem candidatura própria.

O primeiro ingrediente pós-eleitoral que pode acirrar o cenário virá na quinta-feira, no anúncio das sedes da Copa das Confederações de 2013, evento-teste para a Copa, no ano seguinte.

O Recife corre risco de exclusão, o que deixaria o torneio só com cinco palcos: Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Belo Horizonte e Fortaleza.

O governo brasileiro tem poder de influência na Fifa, responsável pela decisão. Recife fora da competição seria uma derrota para Campos.

Rachas nos estados

Em São Paulo, mesmo tendo apoiado Fernando Haddad (PT), o PSB comandado pelo deputado federal Márcio França antecipa: "Ou teremos chapa própria ou continuaremos com o governador Geraldo Alckmin [do PSDB]".

Em Minas Gerais, o PSB vive uma dualidade. Quase todo o partido pertence desde 2003 à base de apoio de Aécio, enquanto o presidente estadual da sigla, Walfrido dos Mares Guia, é mais próximo do PT e amigo pessoal do ex-presidente Lula. Isolado, Walfrido hoje não teria força para conduzir o partido a apoiar o PT em 2014.

No Ceará, o quadro é de indefinição. A disputa em Fortaleza distanciou o PT do PSB, mas no plano estadual os petistas continuam participando do governo Cid Gomes (irmão de Ciro). Para 2014, PSB e PT devem lançar candidatos próprios.

Em alguns Estados, PT e PSB são adversários ferrenhos. Presidente petista em SC, José Fritsch, chama o PSB catarinense de representante da "extrema direita". Lá, o presidente da sigla é o ex-senador Geraldo Althoff, com história ligada ao PFL, hoje DEM. No Paraná, o líder do PSB, Severino Nunes, diz "nunca ter participado de uma eleição junto com o PT".

Colaborou Paulo Peixoto, de Belo Horizonte

Fonte: Folha de S. Paulo

PSDB de Minas busca candidato ao governo

Marcos de Moura e Souza

BELO HORIZONTE - Aécio: senador manteve hegemonia nas urnas, com o PSDB e partidos que estiveram na base dele, quando governador, elegendo 80% dos prefeitos de Minas

Os tucanos mineiros estão em busca de um candidato. Passadas as eleições municipais, o partido precisa de um nome para concorrer com chances reais de vitória às eleições para o governo do Estado em 2014. O atual governador, Antonio Anastasia (PSDB), não pode se candidatar novamente e o partido não tem um herdeiro natural para o seu lugar. Se para o PSDB é importante continuar no comando do Estado, para o senador Aécio Neves (PSDB-MG) é fundamental contar com um nome forte em casa no ano que deverá estar dedicado à sua primeira campanha presidencial. Mas hoje sua lista de opções realmente competitivas para Minas é escassa.

Analistas e pessoas próximas ao governador dizem que o nome mais forte hoje seria o do prefeito reeleito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda. O PSDB cortejou-o diversas vezes durante seu primeiro mandato com a proposta de disputar 2014. Há, no entanto, pelo menos dois problemas em relação a ele: Lacerda teria de abandonar seu segundo mandato no meio e, acima de tudo, ele não é tucano, mas do PSB. "A não ser que haja um acordo costurado por Eduardo Campos [presidente nacional do PSB] e Aécio, dificilmente Aécio aceitaria colocar Lacerda na condição de candidato a governador", diz Malco Camargos, doutor em Ciência Política e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-MG).

O PSB é um dos partidos da base da presidente Dilma Rousseff, do PT, e Campos, um aliado do governo. Mas nas eleições municipais, esteve ao lado algumas vezes de Aécio em campanha pelo Brasil apoiando candidatos em comum. Além disso, impôs algumas derrotas marcantes ao PT, uma delas em Belo Horizonte. Campos é tido como um potencial candidato a presidente, mas caso se mantenha na órbita de Dilma não faria sentido para os tucanos "dar" o governo do Estado a um partido adversário. O PSDB está desde 2002 no governo.

O vice-governador Alberto Pinto Coelho (PP) aparece entre os nomes citados por tucanos como possível candidato a governador. Os tucanos repetiriam o roteiro de 2010, quando Aécio deixou o cargo de governador para se candidatar ao Senado e elegeu seu vice, Anastasia, para o cargo. Mas, como diz o professor Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Anastasia era visto como a "cabeça" do governo Aécio, alguém responsável pelo dia a dia do Estado e pelas medidas mais importantes do ponto de vista de gestão. Era um técnico de prestígio assumindo o governo que, para muitos, ele de fato tocou quando Aécio era o titular. Coelho não tem esse papel e não tem o prestígio que Anastasia tinha.

Outro nome que vem sendo especulado é o do atual presidente da Assembleia Legislativa de Minas, o deputado Diniz Pinheiro (PSDB). Há quem fale no secretário-geral do PSDB, o deputado federal, Rodrigo de Castro. Ambos tucanos, emergentes e jovens.

A tese do círculo de Aécio dentro do PSDB de Minas é que se o senador disputar a Presidência ele fará sem maiores dificuldades o candidato de Minas. É o que diz, por exemplo, um veterano da política mineira, o secretário de Governo de Anastasia, Danilo de Castro - pai de Rodrigo de Castro.

O presidente do diretório estadual do PSDB, deputado federal Marcus Pestana, fez as contas e disse dias atrás que o partido está "muito bem posicionado em termos de apoio para as eleições de 2014 para o governo do Estado".

O PSDB elegeu 143 prefeitos neste ano. Menos do que nas eleições anteriores, quando o escore tucano foi de 158. Pestana diz que isso se deveu à decisão do partido de ceder candidaturas a partidos aliados. A oposição petista e de parte do PMDB afirma que o desempenho tucano revela perda de prestígio do partido de Aécio.

Mas a julgar pelo resultado conjunto do PSDB e de seus partidos aliados - legendas que estiveram na base de Aécio, quando governador, e que estão na base de Anastasia -, a hegemonia aecista parece incontestável nas urnas. Segundo Pestana, essas siglas ganharam 80% das 853 prefeituras de Minas. "Aécio sai com sua liderança inconteste em Minas, revigorada, e o PSDB criou bases sólidas, raízes profundas para as eleições de 2014", escreveu o deputado nesta semana.

Para Ranulfo, ainda que não conte agora com um nome na manga, Aécio está numa situação favorável em Minas. "Há uma enorme aliança em torno dele no meio empresarial, financeiro e na imprensa local", diz. Mas a falta de um nome claro e a necessidade que Aécio terá de se concentrar na campanha presidencial - e não na disputa em Minas - tornará a situação do senador em casa menos confortável do que foi na eleição para governador de 2010, diz Camargos. E além disso, tenderá a ter um PT mais unido e um candidato bem mais forte na oposição: o ex-prefeito de BH e atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel e não Hélio Costa (PMDB), candidato derrotado em 2010.

Fonte: Valor Econômico

Reforma política de novo na mesa

BRASÍLIA – Alguns dos principais pontos da reforma política poderão ser votados ainda este mês. A previsão foi feita pelo presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). Para que isso seja possível, ele disse acreditar que a apreciação da reforma deverá ser fatiada. A votação está marcada para a última semana deste mês.

Marco Maia explicou que conversou sobre o assunto com o relator da reforma, deputado Henrique Fontana (PT-RS), que considera possível chegar a um entendimento na comissão especial sobre algumas das propostas contidas em seu relatório. "Não trabalhamos com a possibilidade de votar uma reforma política ampla, mas de avançar em alguns temas fundamentais para o Brasil e que têm ressonância com a sociedade", disse Fontana.

Para Maia, os temas que têm mais chances de aprovação no plenário são a coincidência na data das eleições, de forma que não haja mais eleição de dois em dois anos, e o fim das coligações nos pleitos para deputados e vereadores, chamadas proporcionais.

O presidente da Câmara, no entanto, tem dúvidas quanto à viabilidade de outros pontos da reforma. "O financiamento público mobiliza o mundo político, mas não tem aceitação na sociedade. A Câmara mesmo já fez uma pesquisa e as pessoas majoritariamente se posicionaram contrárias, achando que não é razoável que o Estado brasileiro gaste bilhões de reais a cada dois anos financiando campanhas eleitorais", argumentou.

Interinidade Marco Maia deverá assumir o comando do país no próximo dia 16, quando a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente, Michel Temer, estarão em viagem ao exterior. Esta será a quarta vez que Marco Maia assume a Presidência da República. No dia 16, Dilma segue para a Europa. A presidente vai a Cádiz, no Sul da Espanha, onde participará da 22ª Cúpula Ibero-Americana. Dilma fica na Espanha até o dia 19 e deve se reunir com o primeiro-ministro do país, Mariano Rajoy. No dia 14 de novembro, Temer embarca para a Alemanha, onde vai se encontrar com a chanceler Angela Merkel. O vice-presidente retorna ao Brasil no dia 18.

Fonte: Estado de Minas

Governistas reagem à 'nova oposição'

RECIFE - Carta de compromissos dos vereadores eleitos pela oposição será divulgada hoje e já provoca reações. Para Carlos Gueiros (PTB), Raul Jungmann quer é “tomar” a liderança

Carolina Albuquerque

A movimentação da “nova” bancada de oposição no Recife, formada pelos vereadores eleitos Aline Mariano (PSDB), Priscila Krause (DEM), André Régis (PSDB) e Raul Jungmann (PPS), tem sido encarada com desconfiança pelos vereadores governistas. Os oposicionista apresentam hoje à tarde, em entrevista coletiva, uma “carta de compromissos”, na qual são elencados temas polêmicos como a extinção do “auxílio-paletó” - correspondente ao 14º e 15º salários -, do voto secreto e o estabelecimento de novos critérios para reajuste na remuneração. Segundo o vereador eleito Jungmann, o documento será enviado a todos os 39 integrantes da Casa José Mariano para que se posicionem publicamente sobre os pontos, principalmente, aqueles cotados para assumir a presidência da Câmara. Em troca, o nome que se mostrar a favor ao documento da oposição ganhará o apoio do bloco.

Para Jungmann, esse é um momento privilegiado para “fazer diferente”. “Não está havendo discussão em torno de teses, de programa, apenas em torno de nomes. Os nomes são importantes, mas isso não é política. A discussão não começa pelos nomes. Precisamos abrir esse debate para a sociedade e não ficar só dentro da Casa”, defendeu. O mesmo documento será entregue também a diversas entidades da sociedade civil, como a OAB, ONGs, ABI (Associação Brasileira de Imprensa), CRESS (Conselho Regional de Serviço Social) etc. “Vamos chamá-los também para o debate. É preciso saber: a próxima legislatura vai manter o voto secreto? Por quê? E a corregedoria? A tribuna popular?”, indagou Jungmann.

Embora seja Aline Mariano a eleita líder da oposição, é Jungmann quem tem sido o porta-voz da iniciativa. O vereador Carlos Gueiros (PTB), que integra a base governista, é um dos que enxergam com desconfiança essa movimentação do futuro vereador e ex-deputado federal. “Eu estou vendo um discurso de quem quer tomar a liderança da oposição. Raul não se conforma em não ser a estrela. Dá a impressão de que ele é o arauto da moralidade e que os vereadores da Casa não estão fazendo nada. Tudo isso, para mim, é um discurso repetido pois ele não sabe o que nós estamos resolvendo”, contra-argumentou Gueiros. Ele lembrou que logo após as eleições um grupo de vereadores, incluindo Aline Mariano, se reuniu para debater os mesmos temas. “Essa história de independência do Legislativo, transparência, do 14º e 15º não é nova. Já tem proposta que está tramitando há muito tempo. E debatemos tudo isso na reunião”, arrematou. O vereador Antônio Luiz Neto (PTB) é mais cauteloso. “Vamos ver quais as opiniões deles. Não conhecemos ainda. Vamos ter que analisar a forma como está sendo colocada. Mas é legítimo colocar o que se pensa”, resumiu.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

O poste - José de Souza Martins

Não só de luminárias são feitos os postes. Em São Paulo, poste sofre, mas não reclama. Cachorro desamparado mija no poste. Marmanjo sem educação, também, atrás do poste. Em que lado do poste fica a frente? Os cansados se escoram no poste. Entende-se por que tantos postes não estão no prumo. Anunciante pobre apregoa novidades e ideias colando cartaz no poste: bailes, mercadorias, mensagens religiosas, propaganda eleitoral, amarrações de amor, anúncios de cachorro perdido, tudo vai para o poste, a mais democrática instituição brasileira.

O que seria de nós sem o poste? Até ditos populares se valem do poste: "Não sou poste pra que você venha se encostar em mim", diz a vítima da preguiça alheia. "Sou poste de Lula", foi o primeiro discurso do prefeito que acaba de ser eleito em São Paulo. Se o prefeito é poste, quem será o prefeito?

Anúncio de poesia também vai pro poste: "Pai Maicknuclear lê poema, amarra prosa, traz seu texto de volta em sete dias", li num poste no bairro do Ibirapuera. O pai do anúncio identifica-se como membro de um movimento de "terrorismo poético". Ainda bem: melhor do que terrorismo impoético, com sangue de inocentes e sem rima.

Da São Paulo romântica sobrevivem alguns postes. Os mais belos são, sem dúvida, aqueles dois postes ornamentais que ladeiam a escadaria de acesso à entrada principal do Theatro Municipal. São antigos, centenários. Esses postes têm uma figura feminina como suporte, nas duas faces, em que se apoia a coluna que sustenta as luminárias. Foram entalhados em imbuia do Paraná, em 1910, por Affonso Adinolfi, professor de escultura em madeira e diretor técnico do Liceu de Artes e Ofícios. Era a técnica que se utilizava antes de fundir a obra de arte.

O Theatro foi inaugurado em 1911, pouco depois do término do mandato do Conselheiro Antônio da Silva Prado, primeiro prefeito de São Paulo, que o mandara construir. Prado foi patrono de medidas que, no Império, transformaram o Brasil no país que conhecemos e de que gostamos: a abolição da escravatura e a imigração estrangeira para os cafezais do interior. Era filho de Dona Veridiana Prado. Morava em um palacete na Chácara do Carvalho, lá para os lados da Barra Funda.

Os postes foram fundidos pela firma Lidgerwood Limited, com estabelecimentos em Nova York, na Escócia e em Java. No Brasil, foi seu fundador William Van Vleck Lidgerwood, inicialmente com casa de importação no Rio de Janeiro. Em 1868, abriu um depósito de máquinas agrícolas em Campinas e, em 1884, ali instalou a fundição de onde sairiam os postes do Municipal de São Paulo.

Já vi mocinhas acariciando o seio de uma das figuras femininas dos postes. Dizem que é para ter sorte no amor, como fazem os apaixonados na escultura da casa de Julieta, em Verona. O problema é se o Romeu que aparecer for um poste.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Três cantoras celebram com brilho os 70 anos da mineira Clara Nunes

As paulistas Fabiana Cozza e Virginia Rosa e a baiana Mariene de Castro fazem shows com repertório de peso

Lauro Lisboa Garcia

Neste 2012 em que se celebram os 70 anos de respeitáveis ídolos transformadores da música brasileira - Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tim Maia, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Jorge Ben, Nara Leão -, Clara Nunes (1942- 1983) tem recebido belas homenagens por outras cantoras, que de alguma forma influenciou.

As paulistas Fabiana Cozza e Virginia Rosa e a baiana Mariene de Castro (todas trajando branco como a homenageada) são protagonistas de dinâmicos shows com repertório de peso, incluindo sambas clássicos como O Mar Serenou (Candeia), Conto de Areia (Romildo/Toninho Nascimento), Portela na Avenida e Canto das Três Raças (ambos de Mauro Duarte/Paulo Cesar Pinheiro), Feira de Mangaio (Sivuca/Glorinha Gadelha) e Coisa da Antiga.

Virginia Rosa Canta Clara, que encerrou temporada no Teatro Cleyde Yáconis na semana passada, e Canto Sagrado, de Fabiana, que lotou o Auditório Ibirapuera há duas semanas, têm planos de seguir em outros palcos. Mariene fez sessão única no Espaço Tom Jobim, no Rio, para gravar o DVD Ser de Luz.

Tributo de um intérprete a outro sempre é complicado, porque as comparações são inevitáveis e não raro soam como jogadas oportunistas, já que a força dos ídolos influentes é sempre maior que a dos seguidores (vide Elis Regina - Maria Rita). No entanto, Virginia, Fabiana e Mariene, ligadas pela força dos orixás, jogam luz sobre a diversidade de Clara além do samba e a trazem para universos sonoros pessoais, fugindo de imitações.

Virginia transita com desenvoltura pelo afro-pop, com toques de samba-jazz e improvisos criativos. Fabiana baila (com elegante trabalho corporal de J.C. Violla) com um pé no samba e outro no terreiro do candomblé. Mariene - que não tem influência direta de Clara, como já declarou - busca referências na baianidade e na cultura popular que apimentam o legado da homenageada, "essa senhora dos ventos que cantou a Bahia lindamente".

As três, no entanto, cometem o mesmo errinho à toa em Conto de Areia, cantando "desfia colares de contas", em vez de "colares de conchas". No caso de Mariene várias canções tiveram de ser repetidas por conta de pequenos deslizes na hora da gravação.

Morena de Angola (Chico Buarque) foi a que mais deu trabalho. Mesmo acompanhando os versos projetados num monitor de vídeo ao fundo da plateia, a cantora derrapou diversas vezes na intricada letra, cheia de aliterações e assonâncias. Bem-humorada e radiante, porém, reverteu o problema a seu favor e quando finalmente conseguiu cantar a letra inteira, depois de seis tentativas, teve uma ovação do público, o que surtiu grande efeito.

As participações de Zeca Pagodinho em Coisa da Antiga (Wilson Moreira/Nei Lopes) e Diogo Nogueira em Juízo Final (Nelson Cavaquinho/Elcio Soares) não fizeram grande diferença. Mariene tem brilho próprio. No número final, Um Ser de Luz (Mauro Duarte/Paulo Cesar Pinheiro/João Nogueira), caiu num choro profundo que mexeu com o público. "A emoção é linda, mas quero fazer bem feito", disse ela na tentativa de repetir a canção, mas nem o diretor nem a plateia acharam que precisava. Foi comovente.

Programa na tevê e show na Pompeia

O show Ser de Luz, de Mariene de Castro, com arranjos de Alceu Maia e produzido pelo Canal Brasil em parceria com a gravadora Universal, vai ao ar no dia 1º de dezembro, às 21h30, como ponto culminante de uma série de homenagens a Clara Nunes no canal pago. Um dia antes, ela se apresenta no Sesc Pompeia, cantando as músicas de seu novo e bom álbum, Tabaroinha. O show tem outra sessão no dia 1º/12. Na gravação do programa em homenagem a Clara, Mariene interpretou algumas canções do novo álbum que devem entrar como bônus no DVD. Uma das vozes mais expressivas da Bahia contemporânea, a cantora baiana e toda a banda, com maioria de músicos conterrâneos seus, passaram um mês no Rio ensaiando o show. "Entendo hoje a saudade que o Brasil sente dela", disse.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Mariene de Castro - Vi mamãe na areia

A mulher que passa- Vinicius de Moraes

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.