quarta-feira, 6 de maio de 2020

Vinicius Torres Freire - Más notícias sobre o tamanho da crise

- Folha de S. Paulo

Indústria cai mais que previsto; ritmo ainda forte da epidemia trava mais o PIB

Aos poucos, as notícias da epidemia caem pelas tabelas. São substituídas pelo conta-gotas dos vazamentos do "caso Moro", pelas ameaças semanais de golpe presidencial e pelas evidências diárias de tutela militar. Sim, tutela, pois os generais soltam comunicados em que pressupõem seu poder moderador e afirmam em público e oficialmente o que entendem ser a justa medida das relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Parece até que a epidemia se tornou uma rotina inevitável de morte e destruição econômica. Foi para escanteio o debate das medidas extras para atenuar a crise. Foi para a lateral a conversa sobre a necessidade de mais UTIs, ventiladores, testes.

A economia afunda? Quanto? Não se sabe bem, e pouca gente parece querer saber. Em março, a produção da indústria caiu mais de 9% ante fevereiro. A estimativa média era de queda de uns 4%. Parece faltar informação sobre o tamanho da desgraça e, portanto, medida razoável da reação necessária para atenuá-la.

Abril deve ter sido pior na indústria, pois foi um mês inteiro de paradão da pandemia. Projeção preliminar de economistas do Bradesco indica uma baixa de outros 6%, sobre março. Despiora? Ressalte-se: é queda sobre queda, cava-se dentro de um buraco.

Elio Gaspari* - Bolsonaro semeia a anarquia militar

- Folha de S. Paulo / O Globo

Para quem vive uma pandemia e uma recessão, essa encrenca não era necessária

Quando Jair Bolsonaro falou que “o povo está conosco. As Forças Armadas, ao lado da lei, da ordem, da democracia, da liberdade e da verdade, também estão ao nosso lado”, não disse coisa nenhuma.

Foi apenas uma construção astuciosa, mas, como o capitão não consegue parar, acrescentou: “Não tem mais conversa. Daqui para frente, não só exigiremos. Faremos cumprir a Constituição. Será cumprida a qualquer preço”. Logo ele, que se julga “realmente, a Constituição” e se referiu às “minhas Forças Armadas”. Ganha um resfriadinho em Caracas quem não conseguir juntar lé com cré.

Para quem vive uma pandemia com a marca dos 10 mil mortos batendo à porta e uma inédita recessão já instalada na economia, esse tipo de encrenca não era necessária.

O capitão passou mais tempo no baixo clero da Câmara do que no Exército, onde conheceu melhor as sendas da indisciplina do que as normas da corporação. Nelas, também não se enquadrava, por exemplo, o major e ex-deputado Curió do Araguaia. Levado ao Planalto por um sentimento antipetista, Bolsonaro flerta com a anarquia militar.

Essa anarquia, resultante de divisões dentro das Forças Armadas, se fez sentir na política brasileira do século passado, até que perdeu ímpeto em 1977 e desapareceu com a redemocratização.
Na crise que Bolsonaro incentiva, misturam-se ingredientes tóxicos. O primeiro deles é a influência de sua família no governo.

O que restava do prestígio militar do marechal Henrique Lott, poderoso ministro da Guerra de 1954 a 1959, esvaiu-se em 1962, quando sua filha Edna elegeu-se deputada estadual. Com 3 dos 5 presidentes-generais (Castello Branco, Emílio Médici e Ernesto Geisel), a história foi outra, e seus familiares não se metiam no governo. Castello demitiu um irmão porque aceitou um presente e não moveu um dedo quando a Marinha negou ao seu filho a promoção a almirante.

Ricardo Noblat - Justiça põe a nu o governo Bolsonaro. E o que se vê é muito feio

- Blog do Noblat | Veja

Aperta-se o cerco

Diz a lei que ninguém é obrigado a produzir provas que o incriminem. Ou o presidente Jair Bolsonaro não conhece a lei ou decidiu contrariá-la para ajudar a esclarecer o que de fato houve quando ele tentou intervir na Polícia Federal, provocando por tabela a saída do governo do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro.

De volta do expediente no Palácio do Planalto, no cercadinho à entrada do Palácio da Alvorada onde costuma confraternizar com seus devotos e mandar jornalistas calarem a boca, Bolsonaro sacou do seu celular e mostrou um fragmento de mensagens trocadas por ele e Moro. Ocorre que o que ele mostrou dá razão ao ex-juiz.

Moro disse em depoimento à Polícia Federal que Bolsonaro lhe enviara notícia publicada sobre um inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal para apurar malfeitos de um grupo de deputados aliados dele. E ao comentar a notícia, escreveu que era por isso que chegara a hora de trocar o diretor-geral da Polícia Federal.

Por que Bolsonaro assinou embaixo da acusação que, se provada, poderá servir para que o Procurador-Geral da República o denuncie pelos crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de Justiça e corrupção passiva? Sabe-se lá! Bolsonaro é seu maior inimigo.

Entrevista | José Murilo de Carvalho: “Militares que embarcaram no governo Bolsonaro se veem em um dilema”

Para o historiador José Murilo de Carvalho, tutela do Exército pode ser usada contra o presidente

Por Malu Delgado | Valor Econômico

SÃO PAULO - A tutela do Exército pode ser usada contra o presidente Jair Bolsonaro “caso ele leve o país a situação de grave instabilidade”, avalia o historiador José Murilo de Carvalho, em entrevista ao Valor. Observador atento do papel das Forças Militares na república brasileira e em especial na conjuntura atual, José Murilo concordou em responder a perguntas por e-mail, sua forma recorrente de comunicação, mesmo antes da quarentena.

“Imagino que os militares que embarcaram na canoa furada do governo se veem em um dilema: ou caem fora, ou arriscam fazer as Forças Armadas pagarem o custo dos erros do presidente”, enfatizou, numa resposta enviada dias antes de o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, divulgar, na segunda-feira, o documento que enfatiza exatamente o papel constitucional dos militares, como reflete o historiador. “Não creio que a corporação militar esteja disposta a pôr em perigo sua reputação entre a população para defender um presidente que não está à altura do cargo”, disse ao Valor.

Na reedição revista e ampliada de seu livro “Forças Armadas e política no Brasil”, da Editora Todavia, José Murilo já enfatizava ter uma “nova, e mais pessimista, interpretação do papel das Forças Armadas na história de nossa República e na construção de nossa ainda claudicante democracia”. A atuação dos militares, explica ele, merece seu olhar atento desde os tempos em que o jovem universitário, militante da Ação Popular, assistiu perplexo ao golpe de 1964. Nesta revisão, José Murilo dedicou um capítulo exclusivo a 2019, intitulado “Uma república tutelada”.

Além de relembrar o histórico tuíte de abril de 2018, do general Eduardo Villas Bôas - que o historiador classifica como agressão à Constituição pelo fato de pressionar um outro Poder, o Supremo Tribunal Federal, a rejeitar o habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - José Murilo escreve que já havia “nuvens políticas turvando os céus bem antes”. Em 2015, pontua, o general que comandava a Secretaria de Economia e Finanças do Exército, Hamilton Mourão, já dava fortes declarações sem a usual contenção de militares para se meter em assuntos políticos.

“Não se pode deduzir do fato da inédita presença de militares no governo [Bolsonaro] a existência de um governo militar que se pareça com o que vigeu entre 1964 e 1985”, explica o historiador em seu livro. Mais explicitamente, os militares do governo Bolsonaro não representam as corporações e em uma eventual militarização do governo Bolsonaro, o presidente não teria adesão total das três Forças.

A pandemia serviu para ressaltar dramaticamente o problema de nossa desigualdade social”

Em outro ponto de reflexão que não poderia estar mais atual, José Murilo já salientava em sua obra que a Constituição de 88 manteve o papel de poder moderador das Forças Armadas, no seu artigo 142 (como na Constituição de 1824). É sintomático, continua ele, que não tenha havido “sequer uma tentativa de mudança em 39 anos de governos civis”, como se a república brasileira precisasse dessa bengala para sobreviver. “Cria-se, desse modo, um círculo vicioso: as Forças Armadas intervêm em nome da garantia da estabilidade do sistema político; as intervenções, por sua vez, dificultam a consolidação das práticas democráticas”, escreveu.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O senhor já havia feito análises minuciosas sobre o papel político dos militares do Brasil, antes e depois da ditadura. Considerando a noção de “intervencionismo tutelar” das Forças Armadas, no Estado Novo, o senhor considera que a tutela militar ainda é característica preponderante do governo Bolsonaro agora, neste atual cenário de política agravada pela pandemia da covid-19?

Fernando Exman - Pandemia no país das guerras de narrativa

- Valor Econômico

PT vê necessidade de aliança tática com DEM e PSDB

A pandemia de covid-19 avança a cada dia sobre o território nacional, interioriza-se e atinge as periferias. De tragédia anunciada, vai também tomando a forma de crise política para os administradores que reagiram de forma questionável a um desafio que já estava colocado com clareza em vários países. Esta já é uma realidade, por exemplo, no Amazonas. E a aposta da oposição é que inevitavelmente o presidente Jair Bolsonaro precisará prestar contas sobre seu desempenho.

O problema da oposição é que um ambiente de desorganização do Estado, fomentado pela disputa política entre os Poderes e os entes federativos, é o ambiente ideal para a disseminação da doença. Ou seja, a despeito dos esforços de alguns governadores e prefeitos para a sua contenção, haverá sempre quem diga que, na verdade, as medidas de isolamento nunca funcionaram e acabaram por prejudicar a economia.

Cabe à oposição decidir se tenta construir uma estratégia mais ampla para o enfrentamento da crise ou aceita cair na armadilha que reduz qualquer discussão a mais uma disputa de narrativas.

Esta última opção é tudo o que o presidente da República parece querer. Bolsonaro tem sua plateia cativa e continuará apostando que este percentual do eleitorado será suficiente para lhe garantir um lugar no segundo turno na eleição de 2022.

A tática do presidente é dissuasória e visa sua própria blindagem eleitoral. A cada aparição pública, entrevista, ato político ou transmissão ao vivo nas redes sociais, lá vai ele repetindo o discurso de que sempre defendeu a vida e o emprego, apesar da resistência de prefeitos e governadores. Usa uma falsa dialética de economia versus saúde pública, para afastar-se da responsabilidade do que já vem acontecendo e do que pode ocorrer no país.

Em grande parte do mundo, a estratégia sanitária é amparada pelas medidas econômicas e as duas áreas trabalham em conjunto. No Brasil, entretanto, mesmo diante da perspectiva de que a crise não será solucionada a curto prazo, o presidente agora sinaliza que a ajuda emergencial pode não ser estendida para além dos três meses previstos inicialmente. Seu objetivo, conforme demonstra diariamente em conversas com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, é induzir a população a pressionar os governantes locais por uma rápida flexibilização das regras de distanciamento social.

Tiago Cavalcanti* - Lições de uma pandemia

- Valor Econômico

No curto prazo, pelo menos, não parece existir o ‘tradeoff’ entre saúde e economia

Na minha mais recente coluna deste Valor, no mês de abril, escrevi sobre a história e os desafios de uma pandemia. Naquele momento, eram 800 mil casos e cerca de 40 mil mortes confirmadas provocadas pela covid-19 no mundo. Hoje, o número de casos no globo já passa de 3,6 milhões, enquanto o número de mortes está acima de 250 mil.
O Brasil atualmente tem aproximadamente 110 mil casos e 7,4 mil mortes confirmadas por conta do coronavírus. Enquanto em vários países o topo da curva de mortes já ficou para trás, no Brasil essa mesma curva continua com tendência ascendente. Sem falar nas subnotificações, que devem ser elevadas e os números reais bem superiores aos dados oficiais.

Evidências indicam que o argumento de que o não isolamento irá salvar a economia parece, sim, falacioso

De Manaus talvez venham as imagens mais chocantes da covid-19 no país, onde os mortos estão sendo enterrados em valas coletivas. Na cidade que fica no coração da Amazônia, desde o início da pandemia, há 2.200 mortes acima do padrão de óbitos verificados em anos anteriores para a mesma época do ano e, no entanto, há 350 óbitos registrados oficialmente em decorrência da covid-19.

Quais são as lições que podemos tirar da pandemia até o momento? Sem dúvida nenhuma essa pandemia é acima de tudo uma crise sanitária e humanitária. O isolamento social não é apenas uma resposta às restrições de movimentação impostas pelos governos, mas também uma reação das pessoas ao perigo do contágio com consequências heterogêneas na saúde dos indivíduos, com os idosos sofrendo o maior risco de complicações e óbitos.

Depender apenas das decisões individuais em relação ao isolamento social é uma estratégia arriscada. As pessoas não internalizam os riscos da transmissão do vírus, gerando, o que chamamos em economia, um efeito externo no contágio, justificando de forma clara a intervenção governamental. Além disso, não é preciso existir uma fração grande de pessoas descumprindo as regras de isolamento para que o número de casos venha a subir.

Cristiano Romero - A economia Frankenstein

- Valor Econômico

Modelo brasileiro é aberração por não superar passado

O longo período de instabilidade entre meados das décadas de 1970 e 1990, seguido de tentativas frustradas (ou incompletas) de implantação aqui de uma economia competitiva, equilibrada do ponto de vista fiscal e menos desigual no que diz respeito à distribuição da renda, criou no Brasil uma espécie de Frankenstein. No fundo, o país nunca superou modelos que, aparentemente, sucederam num determinado momento, mas, em outros, tornaram-se uma das principais razões do fracasso do nosso Produto Interno Bruto (PIB) em crescer de forma mais rápida.

A longa batalha contra a superinflação nos fez pensar apenas no dia de hoje. O planejamento de longo prazo, uma característica presente nas nações ricas e marcante nas economias asiáticas de crescimento acelerado, perdeu relevância na Ilha de Vera Cruz desde a crise da dívida, em 1982.

Parece mentira, mas, no início daquela década, o governo tinha órgãos públicos para avaliar permanentemente, por exemplo, a qualidade de rodovias federais construídas na década anterior. O objetivo era verificar se o impacto do aumento do tráfego ao longo do tempo não estava diminuindo a eficiência daquela estrada, elevando os custos dos produtores de grãos e de bens industriais. Na ocasião, um engenheiro brasileiro desenvolveu, para facilitar essa tarefa, um software que se tornou referência no mundo.

A urgência do combate à inflação turvou a visão de empresários, consumidores e formuladores de políticas públicas. Nada era mais importante do que domar o processo inflacionário, que, desde a primeira crise global do petróleo, em 1973, tornou-se uma preocupação, uma vez que o Gigante do Atlântico Sul era fortemente dependente de importação de óleo bruto.

A coexistência de mecanismos distintos usados não só nos planos de estabilização, mas também em modelos de desenvolvimento, forjou contradições que atolam esta enorme economia numa espécie de areia movediça. Daí, a referência ao famoso personagem da escritora Mary Shelley.

Cristovam Buarque* - O apelo do mundo

- Correio Braziliense – 05/05/2020

Graças ao esforço do casal Lélia e Sebastião Salgado, o Correio Braziliense publicou no domingo um apelo assinado por dezenas de personalidades mundiais, pedindo por nossos indígenas. Alertam para que não sejamos cúmplices do genocídio que está sendo cometido por madeireiros, grileiros, garimpeiros, latifundiários com apoio do presidente da República, usando o coronavírus como arma.

Nós já despertamos para o risco do genocídio urbano se não respeitarem o isolamento social necessário para vencer a pandemia. Mas não despertamos ainda para o genocídio que está sendo perpetrado contra povos indígenas. A ciência mostra que a epidemia só será enfrentada se forem tomadas medidas para isolar pessoas. Qualquer desincentivo ao isolamento provoca aumento de mortes, além de ampliar o sofrimento dos infectados, mesmo que não cheguem à morte. O desrespeito ao que diz a ciência é gesto genocida.

O efeito do isolamento sobre a economia deve ser mitigado por medidas econômicas, não antissanitárias. Negar cuidado a quem ficou sem dinheiro e sem emprego é crime social que deve ser evitado por transferência de renda e outros meios. Esse crime social vem sendo cometido há séculos no Brasil, negando-se água, esgoto, emprego e renda à metade de nossa população. Jogar a culpa da desigualdade e da pobreza sobre o coronavírus é querer esconder o crime social secular cometido pelos governos, de direita e esquerda, que dominam o poder no país, ignorando necessidades e direitos dos pobres.

Mas o coronavírus agrava esse crime social cometido por nossos dirigentes, com apoio da minoria privilegiada, contra nossos índios, negros e pobres. Não é decente hierarquizar a barbárie entre diferentes genocídios, comparar a maldade dos campos de concentração e câmaras de nazistas, com os navios negreiros e a venda de pessoas na escravidão. São formas brutalmente desumanas, independentemente do número de vítimas e do tempo que durar a prática genocida.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Desconstrução de memória da gestão Mandetta é ameaça ao SUS

Um debate promovido pela Globo News, na noite do último dia 02.05, mostrou que senta praça na discussão sobre as crises sanitária e política uma desconstrução da imagem positiva que a atuação do Ministério da Saúde contra a pandemia conquistou, junto à opinião pública mais informada e à população em geral, enquanto durou a gestão do ex-ministro Luiz Mandetta. Essa desconstrução política de uma experiência exitosa não é propriamente uma conspiração. Se repararmos nas vozes que a difundem, ou permitem, veremos que a coisa vai além do discurso bolsonarista. Aliás, parece que, para esse polo autoritário, o assunto é página virada, desde que o presidente exonerou o ministro, no qual farejava um concorrente eleitoral. Vozes que atualmente desqualificam, sempre de passagem, nunca frontalmente aquela experiência ocupam posições distintas, algumas até opostas entre si, como ficou claro no referido debate.

A desconstrução começa com uma pergunta de uma jornalista da emissora ao líder do governo na Câmara. Aqui não importa se foi politicamente intencionada ou se apenas superficial e desatenta. Muito menos a resposta dada pelo deputado. Importa reparar no raciocínio que levou à pergunta: o presidente - disse - exonerou o ministro Mandetta no meio da pandemia por discordar do isolamento social que o ministro defendia. O sucessor passaria a praticar outra política. Duas semanas depois, Nelson Teich reafirma que o MS defende o isolamento social. Então, se era para seguir a mesma política, por que Bolsonaro demitiu o ministro? Sem entender de política sanitária ou de gestão de saúde pública, como cidadão e na expectativa de que vozes mais abalizadas que a minha se debrucem sobre esse assunto, pergunto eu, agora:

Mesma política? A frase cínica de Teich revoga a realidade do contraste brutal entre o que era e o que passou a ser a política do ministério? Aonde foi parar aquela ênfase engajada no isolamento como conduta prudente e solidária diante dos fatos de não haver vacina e do vírus ser desconhecido? É a mesma coisa dizer que o isolamento é necessário, mas se calar diante da imprudência, ou mesmo flertar com ela, dizendo que ele deve ser compatibilizado, sob igual prioridade, com os requerimentos imediatos da economia? E por onde anda agora aquela articulação federativa que gerava sintonia fina entre o MS e os governadores? E aquela articulação com o Congresso, para opinar sobre o conteúdo das medidas de combate direto e de mitigação dos efeitos sociais da pandemia? Coincidem com ela a atual lassidão federal face à velocidade da crise sanitária que deve enfrentar e a indiferença do ministro à dimensão política dessa crise? O que significa a secretaria executiva do ministério ter sido desconectada da área de saúde e assumida por um militar interventor? Nada nos diz o simbolismo do principal quadro responsável pela área técnica e todos os que falam pela política de saúde do MS serem obrigados a se despir do colete do SUS, para se sintonizarem com o novo ministro e o interventor? São só mudanças de estilo, ou decretam uma malévola tensão do governo com a gestão do sistema público de saúde e com os vínculos dessa gestão com a sociedade civil?

O que a mídia pensa - Editoriais

• Um mau militar – Editorial | O Estado de S. Paulo

As Forças Armadas desfrutam do merecido apreço da maioria dos brasileiros, como há tempos atestam pesquisas de opinião. Merecido porque, desde a redemocratização do Brasil, souberam manter-se à margem do desgastante processo político, limitando-se às suas elevadas funções constitucionais. “Se a política entra pela porta da frente de um quartel, a disciplina e a hierarquia saem pela porta dos fundos”, disse, com razão, o vice-presidente Hamilton Mourão, general da reserva, ao comentar o movimento grevista da Polícia Militar do Ceará, em março passado.

O comportamento do presidente Jair Bolsonaro, contudo, vem impondo um complexo desafio para as Forças Armadas. O presidente Bolsonaro, ele mesmo um oriundo dos quadros do Exército, cercou-se de militares em seu gabinete, alguns inclusive na ativa – como o ministro da Secretaria-Geral de Governo, general Luiz Eduardo Ramos.

Tornou-se inevitável, assim, uma associação entre a imagem das Forças Armadas e a do governo, mesmo que a maioria dos militares que hoje servem ao presidente seja da reserva e mesmo que a cúpula das Forças reafirme constantemente seu distanciamento da cozinha política do Palácio do Planalto. Mais do que isso: em muitos momentos, Bolsonaro se refere às Forças Armadas como “as nossas Forças”, modo nada sutil de indicar uma unidade de pensamento e ação entre ele e os quartéis.

Música | Gilberto Gil - Lamento sertanejo (Gilberto Gil e Dominguinhos)

dsem titulo

terça-feira, 5 de maio de 2020

Opinião do dia – Eliziane Gama*

“O que nós temos é um presidente que testa diariamente os limites institucionais. Para mim, ele chegou no limite do tolerável. O presidente Bolsonaro incita o ódio entre os seus seguidores e ele acaba criando, com isso, um clima de instabilidade diário. E agora demonstra claramente a disposição de uso político das Forças Armadas. Está claro de que o presidente está descontrolado no comando da nação brasileira.”

*Líder do Cidadania no Senado, Eliziane Gama (MA), no Jornal Nacional da TV Globo, 4/5/2020.

Merval Pereira - Supremo poder

- O Globo

Bolsonaro está esticando a corda a tal ponto que parece querer o confronto para constranger o STF e o Congresso

Pela segunda vez em poucos dias, o ministro da Defesa, General Fernando Azevedo e Silva é obrigado pelas circunstâncias políticas provocadas pelo presidente Jair Bolsonaro a soltar uma nota oficial tentando retirar as Forças Armadas do protagonismo em que o presidente as coloca em manifestações antidemocráticas.

A frase dúbia dita por Bolsonaro durante manifestação de domingo sobre as Forças Armadas tem o propósito de colocá-las ao lado das atitudes ilegais e inconstitucionais que está cometendo.

As Forças Armadas teriam que se pronunciar, natural que não pudessem dizer claramente que o presidente está mentindo, ou usando-os como biombo para ações ilegais, mas coube uma nota oficial a respeito do entendimento sobre democracia, respeito às leis, ao Congresso e ao STF, para que não paire no ar nenhuma dúvida de que não estariam realmente ao lado de Bolsonaro quando ele quebra as regras da democracia.

Sublinhando que as Forças Armadas são “organismos de Estado”, já eximiram-se de uma atuação de Governo, como a de domingo em frente ao Palácio do Planalto, com um teor político explosivo. Bolsonaro, no entanto, ainda tem uma compreensão por parte de seus pares militares, que não entenderam ainda, ou não querem entender, que essas manifestações são claramente ilegais.

José Casado | Bolsonaro perde, de novo

- O Globo

Ele quer envolver as Forças Armadas na sua campanha

Foi um longo fim de semana para Jair Bolsonaro. Imerso na realidade paralela, à distância do país devastado por um vírus que já abateu mais de sete mil vidas, entreteve-se no seu jogo predileto: envolver as Forças Armadas na sua campanha para reeleição em 2022. É raro caso de governante empenhado num pandemônio político em plena pandemia.

No sábado, no Palácio da Alvorada, extravasou sua ira com a suposta conspiração para impedi-lo de governar. Citou Sergio Moro, João Doria, Congresso, STF e governadores. Lula e PT estão fora da sua agenda. Bolsonaro, agora, racha a centro direita. Briga com o governador paulista, a quem vê como adversário eleitoral.

No domingo ensolarado comandou nova manifestação, financiada por empresários amigos, em produção esmerada com faixas de apelo à “intervenção militar com Bolsonaro”. A claque, outra vez, pedia aos generais um golpe em favor do ex-capitão, afastado do Exército por indisciplina, há quase quatro décadas.

Bernardo Mello Franco - Bolsonaro conspira à luz do dia

- O Globo

Bolsonaro conspira à luz do dia. No domingo, ele usou a rampa do Planalto como palanque para o golpismo. Ontem nomeou outro delegado para controlar a PF

Jair Bolsonaro conspira à luz do dia. No domingo, o presidente usou mais um símbolo nacional como palanque para o golpismo. Na rampa do Planalto, confraternizou com extremistas que atacavam a democracia e agrediam jornalistas no exercício da profissão.

Irritado com decisões do Supremo, o capitão vociferou: “Não vamos admitir mais interferência. Deixar bem claro isso aí. Acabou a paciência”. No mesmo tom, ele prosseguiu: “Chegamos no limite, não tem mais conversa”. Só faltou mandar o cabo e o soldado cercarem o tribunal do outro lado da praça.

A ameaça do uso da força é cada vez mais explícita nas falas presidenciais. Diante de sua minoria barulhenta, Bolsonaro disse que as Forças Armadas “estão do nosso lado”. Os militares sabiam quem ele era quando embarcaram sorridentes no novo governo. Agora são arrastados para o centro de uma turbulência política prestes a virar crise institucional.

Em nota, o ministro da Defesa afirmou que as Forças “estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”. O esclarecimento seria desnecessário se o país vivesse tempos normais. A tensão tende a se agravar nos próximos dias, à medida que avançam as investigações sobre o clã presidencial.

Carlos Andreazza - O Bolsa Família do Jair

- Globo

Não me surpreenderá que, tendo surgido em caráter provisório, essa ajuda torne-se permanente

Se não fosse natimorto, o liberalismo bolsonarista — este oximoro perfeito — estaria morrendo em praça pública. Natimorto porque, afora a propaganda influente, nunca foram conciliáveis o fenômeno reacionário bolsonarista, com seu ímpeto permanente para o choque, para a imprevisibilidade e, pois, para a instabilidade, e um programa de reformas liberais do Estado, como aquele vendido por Paulo Guedes, que pressupõe que o solo sobre o qual se obrará seja firme e que haja algum horizonte de constância para a empreitada.

Nada disso jamais houve — jamais haverá — sob um governo de Jair Bolsonaro, a fábrica de crises ele próprio. A usina de conflitos eleita para governar um país em depressão política profunda, onde grassa a insegurança jurídica — e onde só um gringo louco e desinformado, com muito dinheiro para queimar, investiria. Esse tipo exótico que simplesmente... inexiste. Mas que, garante-se, logo estará despejando bilhões aqui.

Houve, no entanto, quem se enganasse. (Ou se deixasse enganar.) Houve também quem enganasse.Para esses foi preciso que a peste sobre nós se abatesse; a chaga inclemente que precipita a imposição da verdade, que estabelece nova convenção social sobre o papel do Estado e que oferece a Bolsonaro, que é Dilma em matéria econômica, a chance de ser Bolsonaro antes de o imaginado — o que se livra do natimorto como se o ofertasse, tal qual vivo fosse, ao sacrifício da morte em praça pública.

Morre em praça pública o juízo daquele que, ante o baixar da praga, supôs que o presidente pudesse se aprumar para liderar algo que não a aplicação radical de seus propósitos. A pandemia é janela de oportunidades. E o homem é Brasil Grande. Ustra nos costumes; Tarcísio na economia.

Recomponho a imagem a que tenho recorrido: Bolsonaro como um girassol publicitário cujo norte se orienta pelo calor — pelo pulso — das redes. Retomo, assim, a reflexão iniciada na coluna da semana passada. Sobre o presidente estar trocando de pele, deixando pelo caminho — ainda antes da metade do mandato — a carcaça narrativa, de matriz eleitoral e existência precária, que o trouxe até aqui; o lavajatismo encarnado em Sergio Moro, por exemplo, já foi. Mais irá.

Míriam Leitão - A esperança, o poeta e o tempo

- O Globo

A música de Aldir Blanc nos lembra o que não podemos esquecer jamais, quando o país vê sombras de um tempo que ele nos ajudou a atravessar

Nossa esperança de novo se equilibra. Perdemos quem cantou para o país que dores pungentes não podem ser inutilmente. Com seu talento, Aldir Blanc fez do sofrimento de um tempo extremo músicas que nos ajudaram a seguir por um trilho estreito. É impensável tudo isso que anda acontecendo, mas a verdade é que tantos anos depois, de novo, a tarde parece cair como um viaduto. A doença que o atingiu já levou mais de sete mil brasileiros, e o Brasil dança na corda bamba. Várias cordas, todas bambas. A da luta diária pela vida, a de um país atormentado, a de velhas sombras que o próprio governante joga sobre nós.

As más intenções estão sendo ditas pelo presidente Jair Bolsonaro, por atos e palavras. Todos os dias. Ele se reuniu com os militares no domingo. Ouvi um general do alto escalão do governo, e ele me disse que existe uma “extrapolação de funções por parte do Judiciário”, e que isso vem desde 2014. Citou dois exemplos, a escolha de auxiliares e a política externa. Seriam prerrogativas do chefe do Executivo que foram invadidas. Portanto, o que senti nessa autoridade foi apoio ao presidente em dois fatos específicos: a suspensão da nomeação do diretor-geral da Polícia Federal e o problema dos diplomatas venezuelanos. Bom, uma coisa é a fricção que possa existir entre os poderes. Normal. Outra é fazer o que Bolsonaro fez.

Bolsonaro usou as Forças Armadas para ameaçar quem pensa diferente daqueles que, ao seu lado, na manifestação de domingo, pediam a volta da ditadura. O protesto contra a democracia poderia ser um evento menor, ainda que sujeito à punição legal, mas o ato se agiganta quando o presidente comparece e afirma: “As Forças Armadas estão do nosso lado.” E quem não está daquele lado deve pensar o quê?

Ricardo Noblat - Bolsonaro e seus delírios de Napoleão de hospício

Blog do Noblat | Veja

À espera que o tempo se esgote

Durou menos tempo do que uma rosa cortada a nova tentativa do presidente Jair Bolsonaro de fazer os militares cerrarem fileira em torno do seu governo. Pela segunda vez em menos de um mês, o ministro Fernando Azevedo e Silva, da Defesa, divulgou uma nota onde diz que as “Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”.

Sob o título “As Forças Armadas cumprem a sua missão Constitucional”, a nota acrescenta que “Marinha, Exército e Força Aérea são organismos de Estado, que consideram a independência e a harmonia entre os Poderes imprescindíveis para a governabilidade do país”. Se Bolsonaro, pois, imagina usá-las para atropelar a Constituição, vá logo tirando seu cavalinho da chuva.

O aviso vale não só para Bolsonaro e demais interessados em romper com as regras do jogo democrático. Vale também para acalmar os ânimos dos que temem, e com razão, que um presidente da República cada vez mais enfraquecido, apoiado por não mais do que um terço da população, possa em um ato de desespero atrair para seu lado antigos companheiros de farda.

A ratatuia que sai às ruas a pedir a volta da ditadura militar é uma fração da metade ou de menos da metade desse um terço. Por barulhenta e disposta à violência, dá impressão de ser maior e mais perigosa do que é. Bolsonaro a cultiva porque pensa como ela, deseja o que ela quer, e dela precisa para causar medo aos seus desafetos – que são todos os que se opõem às suas vontades.

Uma coisa são os generais de pijama, empregados ou não no governo, adeptos dos jogos de cartas, de damas e de dominó e que apoiam a pretensão de Bolsonaro de aplicar um golpe de Estado. Bolsonaro é um Napoleão que foi tirado do hospício com o propósito de varrer a esquerda do poder, e varreu. Antes de retornar à sua insignificância, ainda dará trabalho. Fazer o quê?

Aturá-lo até onde for possível. Ou abreviar seu mandato por meio de um processo de impeachment. É o que prevê a Constituição. Mas, enquanto isso, limites lhe estão sendo impostos. Ontem, ele sentiu-se obrigado a telefonar para o comandante do Exército para negar a veracidade de notícias que deram conta do seu desejo em substitui-lo. Por conveniente, a mentira de Bolsonaro foi aceita.

Luiz Carlos Azedo - Emergência e fricção

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Bolsonaro agrega à epidemia de coronavírus um ambiente político de conflitos desnecessários e estresse institucional, com crises criadas dentro do governo”

Nunca vivemos, desde a gripe espanhola de 1918, uma emergência sanitária como a que o mundo atravessa. O problema do novo coronavírus é que ainda há mais dúvidas do que certezas em relação à doença, exceto que se propaga muito rapidamente, é letal para um contingente significativo de suas vítimas e não se tem previsão de quando e se teremos uma vacina que o previna, nem um remédio realmente eficaz para combatê-lo. O que tem sido mais eficiente no combate à epidemia é o distanciamento social e um sistema público de saúde robusto, para tratar os casos graves e salvar vidas.

Ninguém estava preparado para enfrentar o coronavírus, essa é a verdade. Mas talvez nenhum outro governante no mundo tenha revelado tanto despreparo para lidar com a situaçao como o presidente Jair Bolsonaro. Até hoje, não se deu conta de que a volta à normalidade é impossível enquanto o vírus estiver se propagando numa velocidade maior do que a capacidade de atender as pessoas que necessitam de assistência médica, pois isso significa pôr em colapso o sistema de saúde e, consequentemente, toda a economia.

Ranier Bragon – O sonho da quartelada

- Folha de S. Paulo

Tanques não podem mais escrever a história política deste país

A paciência de Jair Bolsonaro acabou, ele está em seu limite, tem ao seu lado as Forças Armadas e fará cumprir, a qualquer preço, a sua interpretação da Constituição.

As palavras proferidas na mais recente algazarra golpista, no domingo (3), têm como objetivo intimidar não só Alexandre de Moraes, que dificultou sua intenção de interferir em investigações da PF, mas qualquer ministro do STF que possa lhe causar embaraços. Como Celso de Mello, que comanda a apuração das acusações do ex-ministro Sergio Moro.

Como suporte às bravatas, o presidente ameaça mover o sonho de toda uma vida de delinquência sem punição: uma quartelada a seu favor.

A ameaça de ruptura institucional foi coroada no domingo pela violência de covardes que se escoram na proteção dos bandos para atacar alvos pelas costas. Os presidentes do próprio Supremo, Dias Toffoli, e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), acoelharam-se, mudos.

Hélio Schwartsman - Centrão é virtuoso e Moro é petista

- Folha de S. Paulo

O centrão, vale lembrar, é sinônimo da "velha política"

Eu tento ser uma pessoa boa, mas nem sempre consigo. Confesso que experimento um certo prazer —uma "Schadenfreude", diriam os sempre precisos alemães— ao ver bolsonaristas contorcendo seus neurônios para processar a nova aliança do mito com o centrão ou ao se verem obrigados a reclassificar o ex-herói Sergio Moro como um traidor.

O centrão, vale lembrar, é sinônimo da "velha política", que Bolsonaro jurou que não teria vez em sua administração. Circula na internet um vídeo impagável em que o general Heleno, o fiador verde-oliva do governo, arrisca acordes em que sugere que todos os parlamentares do centrão são ladrões. Agora, Bolsonaro ameaça demitir os ministros que resistirem em ceder cargos para esses políticos.

Já Moro, que até alguns dias atrás emprestava à administração sua imagem de campeão da luta contra a corrupção, deixou o governo acusando Bolsonaro de crimes graves. É Moro que mudou ou Bolsonaro que mentiu?

Joel Pinheiro da Fonseca* - Amadorismo político não é virtude

- Folha de S. Paulo

Demos um voto de confiança à antipolítica, agora colhemos os frutos

Macron, Boris Johnson, Conte: líderes de diferentes colorações ideológicas, todos viram sua popularidade subir na pandemia. Nenhum deles foi particularmente genial: apenas compareceram à chamada da responsabilidade, o que naturalmente fez com que a população se unisse ao redor de seu chamado ao esforço coletivo pelo bem comum.

Jair Bolsonaro fugiu. Não só não foi capaz de implementar nenhuma resposta sua à epidemia como ainda escarneceu de quem tomava esse papel.

Numa franca admissão da própria inutilidade, quando informado que passáramos de 5.000 mortos, respondeu apenas: "E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?".

Ele realmente acredita em fazer "isolamento vertical" e aplicar hidroxicloroquina universalmente? Tinha a faca e o queijo na mão para brigar por essas soluções, mas preferiu se ausentar e reclamar. Para completar, criou novas crises por conta própria, como a que culminou na saída de Sergio Moro.

Isso não é problema de ser esquerda ou direita: é de falta de capacidade política. Embora tenha longa carreira, Bolsonaro sempre foi um político inábil e inexpressivo, característica que carrega na Presidência.

Isso o torna um líder fraco, incapaz de criar consensos e capitanear o barco.

Em cima desse vazio, novas lideranças crescem e batem cabeça com ele. Para cada fracasso ou pedra no caminho, há um culpado: o Congresso, o STF, a imprensa, o ministro traidor, as pessoas que torceram contra. Uma hora as desculpas não enganam mais.

FHC teme ‘paredão’ e alerta para risco de autoritarismo

Ex-presidente diz que Forças Armadas não estão preparando um golpe, mas podem ser levadas a preparar

Por Cristiane Agostine e Ana Conceição – Valor Econômico


SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ter a sensação de que o Brasil enfrente em breve cenário “muito desagradável” e o risco de um projeto autoritário. A um mês e meio de completar 89 anos, ele teme enfrentar um novo “paredão”, referência à ditadura militar, que governou o país de 1964 a 1985, e criticou o presidente Jair Bolsonaro por não ter projeto de governo, mas, “ímpeto” para o autoritarismo.

Ao debater o cenário político, social e econômico com o sociólogo e professor emérito da USP José de Souza Martins, em “live” promovida ontem pelo Valor, FHC disse que falta comando no paí. Para ele, as Forças Armadas não estão preparando um golpe. “[Mas] podem ser levadas a [isso].”

O ex-presidente disse que a democracia brasileira vive uma crise e demonstrou receio em relação ao que pode acontecer nos próximos meses. “Tenho a sensação de que podem me ocorrer coisas desagradáveis. Coisas muito desagradáveis vão começar. No ano que vem faço 90 anos. É muita idade. A esta altura, ter que encontrar um paredão outra vez... É duro”, disse FHC. “A verdade é que vai ser difícil.”

Ao falar sobre os riscos de o país enfrentar uma nova ruptura institucional, o ex-presidente ponderou que o contexto político atual é diferente do vivido pelo país em 1964, quando houve o golpe militar, mas disse que é preciso cuidado.

“Em 1964, quando houve ruptura, havia um projeto que foi desenvolvido aos poucos contra a desordem simbolizada pelo pobre do Jango [João Goulart], e havia uma realidade. Havia Cuba, URSS etc. Hoje não há propriamente um projeto de autoritarismo. Ele pode acontecer. É pior, talvez, porque não tem projeto. Mas pode acontecer”, disse FHC. “Há o impulso, o ímpeto de pessoas, inclusive do presidente. É grave.”

Maria Cristina Fernandes - Reação bolsonarista é de quem está acuado

- Valor Econômico

O presidente segue a rota traçada no início da pandemia de provocar o cerco institucional para tentar angariar apoio militar

O presidente Jair Bolsonaro segue a rota traçada no início da pandemia de provocar o cerco institucional para tentar angariar apoio junto às Forças Armadas. Com o Congresso recuado, valeu-se do protagonismo do Supremo Tribunal Federal na contestação a atos do Executivo para buscar uma saída que margeie a Constituição. Segue sem sucesso.

A nota do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, segmenta o posicionamento das Forças Armadas para cada uma das peças em jogo. Ao abrir pela importância da independência e da harmonia entre os Poderes para a governabilidade, o ministro coloca em foco o desagrado provocado entre militares pela suspensão da expulsão de diplomatas venezuelanos por liminar do ministro Luís Roberto Barroso, do STF.

Não que concordem com a decisão do chanceler Ernesto Araújo, mas os militares consideram Venezuela um tema sensível para a defesa nacional e sobre o qual o Supremo teria se excedido com sua ingerência. O vice-presidente Hamilton Mourão verbalizou ontem esse desagrado. O Exército acompanha com preocupação o conflito com o país vizinho. O regime de Nicolás Maduro abateu, no domingo, um barco, supostamente vindo da Colômbia, e matou oito integrantes de sua tripulação.

Eliane Cantanhêde - Crise sobre crise

- O Estado de S.Paulo

A covid-19 avança, mas o tipo de crise de que Bolsonaro gosta é outro. Melhor não alimentá-lo

O objetivo não era esse, mas o ministro do Supremo Alexandre de Moraes pode ter salvo, ou ao menos aliviado, o presidente Jair Bolsonaro no processo em que é acusado pelo ex-ministro Sérgio Moro de investir contra a autonomia da Polícia Federal para obter informações sigilosas e interferir em processos autorizados pelo próprio Supremo.

Até onde se sabe, Moro acusa o presidente de “intenções”. Se o ministro Moraes não tivesse impedido a posse do delegado Alexandre Ramagem na direção-geral da PF, estariam criadas as circunstâncias para que essas “intenções” se transformassem em atos – ou não. Sem Ramagem e com o delegado Rolando Alexandre de Souza na PF, os cuidados serão naturalmente redobrados para não jogar álcool na fogueira.

Logo, Alexandre de Moraes pode ter obtido o efeito inverso ao pretendido, dando uma mão para Bolsonaro e evitando que ele saísse do mundo da vontade para o da execução, caso Ramagem já chegasse reunindo investigações sobre este ou aquele amigo, este ou aquele inimigo do presidente e enviando diretamente para o Planalto. A subjetividade teria adquirido materialidade.
Por ora, é a palavra de Moro contra a de Bolsonaro. Os generais Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno, apontados pelo ex-colega como testemunhas, não podem nem mentir para a Justiça nem incriminar o chefe. Basta confirmar que Bolsonaro exigia, sim, trocar o diretor da PF e ameaçava, sim, demitir o ministro da Justiça. E daí? É atribuição do presidente nomear e demitir o outro.

Paulo Hartung* - Na travessia da pandemia, o presente e o futuro

- O Estado de S.Paulo

É impositivo reformar o Estado, em todos os níveis, tornando-o contemporâneo

Nesta dura travessia, para além da angústia das incertezas e do sofrimento dilacerante das perdas, há que exercitar a altivez do espírito e a grandeza da razão. Isso porque, se não há – e não há – sentido algum intrínseco a esta tragédia, que produzamos um sentido a partir do seu enfrentamento. Só esse duro desafio nos tornará aptos a concluir essa caminhada em pé, e não de joelhos, capacitados para a reconstrução e também para a prevenção de situações como a que nos abate.

Esse é um caminho possível, porque toda crise tem três forças: aprendizados, oportunidades e finitude. Além disso, as mais bem-sucedidas travessias de tempos trágicos, ou seja, as que implicaram menos perdas e possibilitaram uma reabilitação mais rápida e com uma sociedade mais preparada, tiveram o dom de dar prioridade às demandas do momento e ao olhar no pós-crise – mais que o olhar, o agir em prol do futuro.

Nesse sentido, sempre no espectro dos valores democrático-republicanos e humanísticos, o atual enfrentamento consolida certezas como a prioridade absoluta de salvar vidas, cuidar dos vulneráveis, preservar empregos, empresas e atividades econômicas. Há também a consciência de que devemos ter humildade diante deste obscuro mal, investindo nas melhores ferramentas da ciência e nas virtudes da prudência, da generosidade e da justiça.

No campo dos aprendizados e das oportunidades que a crise enseja, há pontos importantes. A pandemia escancarou a infâmia da desigualdade social no Brasil. Num país que ainda debate sobre a necessidade ou não de quarentena, há mais de 30 milhões de irmãos nossos sem acesso regular a água tratada. Não se trata de discutir distanciamento social, mas de não ter água dentro de casa para lavar as mãos. Mais: 100 milhões não estão conectados aos sistemas de coleta e de tratamento de esgoto. Assim, além do aspecto humanitário e sanitário, os investimentos em saneamento são uma oportunidade, seja para gerar ocupação e renda, seja para enfrentar um dos maiores desafios de nossa secular desigualdade socioeconômica.

A superação dessa desigualdade tem no investimento em educação básica o seu mais potente recurso. Uma educação qualificada promove a autonomia cidadã, é agente de prosperidade compartilhada. E nem é preciso reinventar a roda. Há experiências bem-sucedidas, como as de Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, entre outras, assim como há exemplares movimentos da sociedade, como o Todos Pela Educação e os Institutos Unibanco, Ayrton Senna, Natura, ICE e Sonho Grande.

Pedro Fernando Nery* - New Deal verde

- O Estado de S.Paulo

Ao seguir outros países, Brasil poderia superar a imagem de pária na questão ambiental

Se o polêmico plano de obras do atual governo foi chamado de Plano Marshall, fora do Brasil a referência tem sido outra, o New Deal. Dos Estados Unidos à União Europeia, continua se falando no New Deal Verde. Referência ao investimento maciço do governo americano depois da Grande Depressão de 1929, o verde do novo New Deal revela os ambiciosos objetivos de descarbonização da sociedade. A nova geração de programas de infraestrutura é voltada para enfrentar a mudança climática.

Popularizado ao longo de 2019 pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, o plano já foi incorporado pela candidatura de Joe Biden – o opositor democrata contra Trump nas eleições de novembro. Biden chegou a sugerir que já neste ano o Congresso aprovasse o programa, em uma nova rodada de estímulos fiscais contra a crise do coronavírus. Seu plano é gastar quase US$ 2 trilhões em uma década em investimentos.

Na União Europeia, o plano, anunciado em dezembro e mantido após a pandemia, compartilha do objetivo de Biden de zerar as emissões líquidas de carbono até 2050. Sem o “New” da versão americana, o Deal Verde (Pacto Ecológico na tradução oficial) foi introduzido pela Comissão Europeia como “uma nova estratégia de crescimento”.

Andrea Jubé - O recalcitrante

- Valor Econômico

“Falta quem lidere a moderação”, diz general sobre crise

A crise política insuflada pelo próprio presidente da República cresce no mesmo ritmo e proporção que a acentuada curva em ascensão da pandemia da covid-19 no Brasil. Na contramão, a inflexão para baixo verificada nos últimos dias foi a da popularidade presidencial.

Segundo a pesquisa XP/Ipespe divulgada ontem, a aprovação de Bolsonaro caiu quatro pontos percentuais em uma semana (até 30/4), desde o pedido de demissão do ex-ministro Sergio Moro. No mesmo período, o número de casos confirmados e óbitos provocados pelo coronavírus dobrou. Eram 3.704 vítimas fatais em 24 de abril; ontem esse número subiu para 7.288.

É um círculo vicioso e infeccioso: os minicomícios dominicais que atentam contra a democracia (e agora contra a liberdade de imprensa) elevam a temperatura política e violam a quarentena; essa violação gera aglomerações, que podem levar ao aumento dos casos de covid-19; o incremento dos casos obriga governadores a prolongarem a quarentena, o que mantém o comércio fechado, acirra a crise econômica e a política e estimula os minicomícios com o presidente; esses minicomícios violam a quarentena e causam aglomerações, que aumentam os casos da doença.

No domingo, a reedição dos atos antidemocráticos com a participação do presidente Jair Bolsonaro, apenas 15 dias depois do evento cobrando intervenção militar, voltou a gerar desconforto e contrariedade entre políticos e militares. Em paralelo, contudo, prevalecia um sentimento de resignação: no curto prazo, a saída institucional é conviver com a ousadia e recalcitrância presidencial.

O presidente já foi aconselhado a não estimular nem participar desses atos, mas faz ouvidos moucos. “Não adianta, Bolsonaro não vai mudar”, sentenciou à coluna um cacique político com trânsito nos três Poderes. “É o que temos para o jantar”, completou, num esgar. Esta liderança diz que será preciso “administrar” os atos do presidente, e no caso de eventuais arroubos autoritários, acionar os freios e contrapesos institucionais.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Emissão monetária, dívida e crise

- Valor Econômico

Se a derrocada seguir incontida, até mesmo o fluxo de renda dos pensadores inflacionistas vai cessar

Em um Boletim de 2014, “Money Creation in the Modern Economy”, o Banco da Inglaterra ensina que nos sistemas monetários contemporâneos, o dinheiro é administrado em primeira instância pelos bancos. Essas instituições têm o poder de avaliar o crédito de cada um dos centros privados de produção e de geração de renda e, com base nisso, emitir obrigações contra si próprios, ou seja, depósitos à vista, o meio de pagamento dominante. A criação monetária depende da avaliação dos bancos a respeito do risco de cada aposta privada.

O dinheiro ingressa na circulação com a benção do Estado, o cobrador de impostos, e a unção das relações de propriedade, isto é, decorre das relações estabelecidas entre credores e devedores, mediante a cobrança de uma taxa de juros. No circuito da renda monetária, os gastos privados e públicos precedem a coleta de impostos. As razões são óbvias. Não há como recolher impostos, se a renda não circula.

O banco credor empresta exercendo a função de agente privado do valor universal. O devedor exercita seus anseios de enriquecimento como proprietário privado, usufruindo a potência do valor universal. O dinheiro é riqueza potencial, promessa de enriquecimento, mas também algoz do fracasso. Se o devedor não servir a dívida, o banco, agente privado do valor universal, deve expropriar o inadimplente. A política monetária do Estado é incumbida, em cada momento do ciclo de crédito, de estabelecer as condições que devem regrar e disciplinar as expectativas de credores e devedores. Faz isso mediante a taxa de juros que remunera as reservas bancárias.

No livro “First Responders”, organizado por Ben Bernanke, Henry Paulson e Timothy Geithner, assessores do Federal Reserve e do Tesouro registram as características dos mercados contemporâneos: “O sistema financeiro mudou de forma fundamental nas décadas que antecederam à crise de 2008: mais crédito e precificação de risco foram intermediados nos mercados financeiros, sob os auspícios de instituições não bancárias. Muitas dessas instituições dependem de financiamento de curto prazo nos mercados monetários atacadistas, em vez de depósitos à vista garantidos e estáveis; assim, são mais vulneráveis a uma queda na confiança dos investidores, o que pode levar à queima de ativos e ao contágio do mercado”.

Dina Lida Kinoshita* - Lições históricas que a esquerda dogmática insiste em ignorar

Nos últimos 30 anos a politização e partidarização nas universidades brasileiras chegou a um extremo, sobretudo na área de ciências humanas. Com raras exceções, a posição do militante sobrepujou os fatos históricos e sociológicos que presumidamente os cientistas sociais deveriam conhecer.

Durante a curta campanha eleitoral recém encerrada escutei, na lógica maniqueísta e hegemônica que “os candidatos Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro representam a mesma coisa”.

Imediatamente me veio à lembrança a eleição alemã de 1932. No VI Congresso da Internacional Comunista (IC) realizado em 1928, alegando uma suposta Terceira Onda Revolucionária, foi aprovada a política de “classe contra classe” e, nesta lógica, os social democratas alemães foram tachados de social fascistas. Como resultado desta política Hitler assumiu o poder pela via democrática, não revogou a Constituição de Weimar, transformando a Alemanha, por meio de decretos, na ditadura mais hedionda que o mundo conheceu.

Após esse episódio, no VII Congresso da IC realizado em julho de 1935, foi aprovada a proposta de Dimitrov da construção das “Frentes Populares” para barrar o nazi-fascismo. No ano seguinte foram eleitos governos desse tipo na França e na Espanha. A monarquia espanhola foi derrubada e o governo republicano propôs reformas modestas já realizadas nos países europeus mais avançados ao longo do século XIX. Monarquistas, a Igreja Católica e conservadores em geral, indignados, deram ensejo a parte do exército liderada por Francisco Franco, a dar um golpe. Os golpistas utilizaram uma estratégia que isolou a República e teve início uma guerra fratricida selvagem com quase três anos de duração. Enquanto socialistas e comunistas entendiam que era preciso defender a República, anarquistas e trotskistas pensavam que havia chegado o tempo de uma revolução profunda. 

A divisão entre essas forças foi uma das causas da derrota republicana. Essa guerra civil se internacionalizou; a Alemanha nazista e a Itália fascista apoiaram os golpístas, a URSS enviou assessores militares e armamentos e mobilizou as Brigadas Internacionais através da IC. Grã Bretanha e França optaram pela “não intervenção”. Esta guerra foi um prelúdio da II Guerra Mundial onde se testaram vários armamentos e, pela primeira vez, populações civis foram deliberadamente atingidas. Esse episódio foi magnificamente retratado por Pablo Picasso, no quadro Guernica. Depois de tudo isso os espanhóis sofreram quase 40 anos de uma ditadura feroz.

Ruy Castro*- Aldir Blanc fez versos que poderiam estar em qualquer livro de poesia

- Folha de S. Paulo

Conheça composições do artista doce e recluso que morreu por coronavírus nesta segunda

Em março de 2010, Aldir Blanc desceu de um táxi na porta do teatro João Caetano, na praça Tiradentes. Venceu a multidão no foyer sem dar tempo a que o reconhecessem, subiu as escadas até o balcão e se escondeu numa poltrona atrás de uma pilastra. Era a primeira vez que escapava de casa em muito tempo.

E só fez isto porque se tratava da estreia de um musical, “Era no Tempo do Rei”, cujo score continha 19 canções feitas especialmente para a peça –música de Carlos Lyra e letras dele, Blanc, tão ricas e sofisticadas que a plateia, ainda desabituada a musicais com material inédito, não captou nem metade da beleza. Ao fim do espetáculo, Blanc não subiu ao palco com os autores para os aplausos. Já tinha se mandado sem ninguém perceber, de volta a seu apartamento, na rua Garibaldi.

Morto nesta segunda-feira (4), ele morava –ou se escondia– num dos pontos mais charmosos da zona norte do Rio de Janeiro, na confluência entre a Muda da Tijuca e Vila Isabel, ao lado do Bar da Dona Maria, que ajudara a tornar famoso, e de uma feira livre semanal, ambos com rodas de samba criadas por ele no tempo em que ainda exercia fisicamente a boemia. E nem assim saía de casa e atravessava a rua. Mas, à noite, os boêmios podiam ver a sua silhueta na janela e sabiam que Blanc estava velando por eles.

Era recluso, mas não antissocial nem rabugento. Ao contrário, ninguém mais doce ao telefone ou ao email, seus meios de comunicação com o mundo –dos zaps, de que nem chegava perto, cuidava Mari, sua mulher.

Aldir Blanc cantou a aldeia e, por isso, falou do mundo

Compositor é um poeta da Brasilidade, que vem a ser um canto desesperado de amor e liberdade

Luiz Antonio Simas | O Globo

Aldir Blanc é um poeta da Brasilidade, palavra com que defino uma comunidade de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras, contradições, naufrágios, ilhas fugidias, identidades inviáveis, subversões cotidianas, voo de arara e picada de maribondo, saravá e samba. Coisas que o Brasil oficial, o estado brasileiro delimitado em marcos territoriais, odeia. O Brasil é, vez por outra, como nos nossos dias, um empreendimento de ódio; a Brasilidade é um canto desesperado de amor e liberdade.

Letrista excepcional, daqueles raros capazes de letrar nota por nota de uma melodia, fugindo das soluções fáceis brincando com as palavras na beira de um precipício, Aldir fez o mergulho mais profundo que um poeta da canção brasileira ousou. Foi capaz de descrever nossas vertigens a partir do cume das montanhas e do rasteiro das sarjetas; navegou oceanos com os corsários, cruzou a Baía da Guanabara na embarcação do Almirante Negro, cantou os mistérios do tempo entre a condenação da eternidade e o amor pelo residual. Conquistou a fama do Olimpo da música almejando o anonimato nos botequins mais vagabundos.

Aldir celebrou a vida porque sempre olhou a cara da morte. Cria das encruzilhadas em que a Vila Isabel, o Estácio, a Muda, o velho Maracanã e o Salgueiro se abraçam, consagrou-se como o cronista da Zona Norte carioca. Cantou a aldeia e, apenas por cantar a aldeia, falou o tempo todo do mundo. As letras de Blanc, mesmo quando falam dos bêbados do subúrbio carioca, são capazes de sondar com a profundidade dos escafandristas as obsessões de um esquimó.

Irmão siamês de João Bosco, parceiro dos abismos delirantes da música de Guinga, um Pelé para o Coutinho Moacyr Luz, furioso como os cavalos de Ogum, caudaloso como as hemoptises de um Canal do Mangue virado em assentamento de Oxumarê, o vascaíno Aldir permanecerá. Ao lado dele, como totens, encantados, orixás, Villa-Lobos, Pixinguinha, Tom Jobim, Aracy de Almeida, Noel Rosa, Luiz Gonzaga, Elizeth, Clara, Capiba, Ary e tantos gigantes da nossa cultura.

A Brasilidade está na arte de viver na síncope, no drible, na dobra do tambor, na oração dos romeiros, na dança de Oxalufan, nas serestas suburbanas, nos namoros em Paquetá, na suavidade dos sons bonitos, no esporro dos tambores das matas e cidades, no grito de gol e na imponência calada das imensas gameleiras, nas salas de aula, recreios, terreiros, lupanares, valas, sarjetas e jardins. E está em cada verso de Aldir Blanc.

O Brasil tem verdadeiro horror da Brasilidade, essa bruma incerta que une os marujos da nau sem rumo, a filha dos lanhados, ferrados, exterminados, encantados, contra o vento, contra o rei, contra a lei, contra o altíssimo, contra a foice, o facão, o canhão e o arado. Aldir Blanc carregou a Brasilidade no colo, deu nela petelecos e fez cafunés em seus caracóis. Que a Brasilidade possa agora embalar Aldir em sua longa jornada pelo tempo, aquela reservada aos que hoje, como ele, viraram memória e incêndio na solidão de cada um de nós.

Música | O Rancho da Goiabada ( Aldir Blanc / João Bosco)

Música | Nana Caymmi - Resposta ao tempo (Aldir Blanc / Cristovão Bastos)

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.