sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Reinaldo Azevedo: Federações podem dar 2ª via à luz

Folha de S. Paulo

União entre legendas pode tornar viável uma liderança realmente conservadora; Bolsonaro e Moro são apenas as expressões do caos

Conversas em curso para a formação de federações partidárias podem trazer à luz, quem sabe, o que até agora não há: o candidato conservador viável. Será o nome da segunda via! O da primeira, como resta evidente, é Lula, do PT. Pertencem à "terceira via", neste meu raciocínio, Jair Bolsonaro e Sergio Moro. Vamos ver.

Não era simpático à ideia das federações porque garantem a sobrevivência de legendas que só subsistem em razão do fundo partidário. Ainda que uma ou outra possam defender causas meritórias, deveriam ser correntes de opinião em partidos maiores. Nas democracias estáveis, as disputas são, em sua essência ideológica, dualistas. Uma terceira força só se robustece em caso de erros de operação da tendência que hegemoniza, para ser genérico, o progressismo e o conservadorismo.

O STF começou a julgar ontem um recurso do PTB contra a formação das federações, que impõem que a união entre siglas dure ao menos quatro anos e reproduza nos Estados o acerto que se fizer em escala nacional. Não vejo por que o tribunal deva se meter na questão. A lei não impõe a formação dos blocos; apenas oferece essa alternativa.

Maria Cristina Fernandes: O cálculo político de Boric

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Lógica da equipe do presidente eleito do Chile não é identitária, mas política. Escolha de ministro da Fazenda respaldado pelo mercado foi a saída encontrada para que os demais ministros possam mostrar serviço

“É inverossímil! Sanhattan (centro financeiro de Santiago), todos os especuladores e donos do Chile estão em festa.” Mal o jornal chileno “La Tercera” anunciara que Gabriel Boric havia escolhido Mario Marcel, presidente do Banco Central, para o Ministério da Fazenda, Ramón López, economista influente do Partido Comunista, protestou no Twitter.

O PC chileno integra a coalizão que elegeu Boric (Aprovo Dignidade) e é, depois do partido do presidente eleito, Convergência Social, com cinco ministros, a sigla melhor representada no futuro governo. Ocupa três ministérios, em igualdade de condições com o Partido Socialista, mas, ao contrário deste, tem uma representante no coração do governo, a futura porta-voz, Camilla Vallejo, ex-parceira do presidente eleito no movimento estudantil.

A revolta do aliado não cessou. Dias depois, o BC comandado pelo futuro ministro de Boric subiria a taxa de juro. E López voltou a tuitar: “De 0,5% em julho de 2021 a taxa de juro subiu para 5,5% em janeiro de 2022. Deve ser um recorde mundial. Uma irresponsabilidade sem precedente (...). Boric premia a bestialidade nomeando Marcel como ministro da Fazenda”.

Mario Marcel, PhD em Economia pela Universidade de Cambridge, é um ex-militante do Partido Socialista. Ocupou cargos na burocracia do governo desde a redemocratização e uma diretoria no Banco Mundial. Foi levado ao BC pela ex-presidente socialista Michelle Bachelet e teve seu mandato renovado pelo presidente conservador Sebástian Piñera.

Cristian Klein: Lula com Alckmin, com Temer, com tudo

Valor Econômico

Ex-presidente mira amplo acordo para governabilidade

A liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas tem sido tão folgada que criou no petista uma autoconfiança capaz de combinar múltiplas estratégias. Desde a chancela a movimentos à esquerda - como a tentativa de o PT formar federação com legendas progressistas - quanto os mais à direita - a exemplo da aliança com o ex-tucano Geraldo Alckmin para vice da chapa.

Com amplo favoritismo, Lula lança mão tanto de apostas ideológicas, partidárias ou pessoais - ao comprar briga pela candidatura de Fernando Haddad a governador em São Paulo ou agradar Marcelo Freixo no Rio - quanto recorre a composições pragmáticas que, inversamente, parecem sugerir um receio, o temor do revés.

É o caso da informação de que seu advogado Cristiano Zanin teria sido o emissário de uma proposta de aproximação com o ex-presidente Michel Temer. Logo Temer, o vilão do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Acusado de traição, o vice de Dilma personificou, como poucos, ladeado pelo ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a imagem de maior inimigo do petismo. Até a ascensão de Jair Bolsonaro.

José de Souza Martins*: Desvalidos nas eleições de outubro

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Os protagonistas de um possível desempenho democratizante e libertador vão sendo constituídos, criados pela história política do futuro próximo, já em curso

O Brasil entra agora no período que mais de perto precede a fase dos embates propriamente eleitorais relativos à escolha do presidente da República, dos governadores, de senadores e dos deputados federais. Provavelmente, será o período mais tenso do jogo político. Nele atuam diferentes agentes de definição de qual será o perfil do constituinte da próxima composição do Estado brasileiro. O que será o conjunto dos eleitores como um corpo coletivo, ainda que na diversidade de suas orientações e de seus desencontros.

Momentos como esse, na história política, expressam a tendência mais geral de definição da configuração cambiante do Estado vivo, o Estado traduzido em modo de pensá-lo, de orientá-lo e dar-lhe rumo. São momentos da possibilidade de mudança política, de correção de curso, de correção de erros, de inovação.

Francisco Góes*: O tortuoso caminho da privatização no Brasil

Valor Econômico

Desestatização tem que pensar o que se quer do Estado

A dificuldade para fazer avançar a privatização da Eletrobras, anunciada em 2018 no governo Temer e ainda cercada de incerteza, mostra como é tortuoso o caminho para o Estado se desfazer de empresas estatais. Trabalho inédito do economista Cláudio Frischtak, sob encomenda da Confederação Nacional da Indústria (CNI), indica que o Brasil tinha 48 empresas federais sob controle direto da União em 2016, número que cinco anos depois, em 2021, permanecia o mesmo. O retrato é simbólico da complexidade que é levar adiante a desestatização no Brasil.

O levantamento feito por Frischtack, da consultoria Inter B, mostra ainda que o universo de subsidiárias de holdings estatais se reduziu no mesmo período. Eram 182 subsidiárias em 2016, contingente que caiu para 107 em 2021. Nesse grupo estão empresas ligadas a Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Correios, Eletrobras, Petrobras e Telebras.

Silvio Essinger*: A música que ainda fala por nós

O Globo

No Brasil, a televisão promove milagres periódicos. E o mais recente deles foi reintegrar ao circuito popular dos afetos a figura de Nara Leão (1942-1989), cantora que, desde bem cedo, se desvinculou da competição por vezes insana entre as grandes vozes e pôs-se a serviço das grandes ideias. Nara não se conformou com o que a posição social e o fato de ser mulher determinaram para ela. Rasgou a fantasia de musa da bossa e foi cantar samba de morro e canções de alto realismo social em “Nara” (1964) — LP que, defendem os estudiosos, inaugurou a MPB.

A esta altura, todo mundo já assistiu à série documental “O canto livre de Nara Leão” (Globoplay), do diretor Renato Terra. E não foram poucos os que verbalizaram, ao fim, o sentido saudosismo de um tempo no qual o Brasil podia reconhecer as suas angústias nas canções, e nelas buscar por soluções ou simplesmente por um alento. Um tempo bem anterior ao advento das redes sociais e dos reality shows, no qual eram os compositores e as vozes que conseguiam pautar os grandes debates nacionais, de um país em convulsão, no campo de batalha dos festivais da canção.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Banco Central persiste na batalha contra a inflação

O Globo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) confirmou na quarta-feira que a luta contra a inflação segue firme. Como já era esperado, a taxa básica de juros da economia, a Selic, saiu de 9,25% para 10,75% ao ano. Foi a oitava elevação consecutiva em pouco mais de um ano. Desde julho de 2017, o principal instrumento da política monetária para alcançar a estabilidade de preços não chegava aos dois dígitos. Embora nunca comemorada por contrair a atividade econômica, a alta da Selic era, sem dúvida, necessária. Novos aumentos são esperados até que o BC consiga ancorar as expectativas de altas de preços às metas de inflação do país. É uma grande lástima que o presidente Jair Bolsonaro esteja tornando essa missão mais difícil.

Como todos sentiram em 2021 quando foram às compras, os valores cobrados por produtos e serviços dispararam. O ano terminou com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 10,06%, quase o dobro do teto da meta. De acordo com o regime monetário adotado desde 1999, o BC se compromete a garantir uma meta preestabelecida que conta com um intervalo de tolerância. O objetivo central de 2021 era de um IPCA de 3,75%, podendo, no máximo, chegar a 5,25%. Ficou longe disso.

Poesia | Joaquim Cardozo: Imagens do Nordeste

Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.

Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.

Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.

És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
– Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.

E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.

Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.

A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.

Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.

Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.

Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.

............................................................

Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.

Terra crescida, plantada
De muita recordação.

Música | Dominguinhos + Hamilton de Holanda + Mayra Andrade + Yamandu Costa: Lamento Sertanejo

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: No centro do ringue

O Globo

O ex-juiz Sergio Moro não consegue chegar a dois dígitos nas pesquisas eleitorais para presidente da República, mas provoca reações raivosas em seus adversários. É “canalha”, segundo Lula; “ladrão e desonesto”, para Ciro Gomes, e “traidor”, para Bolsonaro. Mobiliza altas rodas do Judiciário, e centenas de advogados criminalistas reunidos na guilda autointitulada “Prerrogativas”, que querem vê-lo destruído moralmente e, se possível, atrás das mesmas grades em que colocou o ex-presidente Lula.

Malu Gaspar: Quem protege Jair Bolsonaro?

O Globo

As conclusões dos últimos inquéritos da Polícia Federal sobre os atos de Jair Bolsonaro deixaram a impressão de que ele conta com salvo-conduto para cometer a barbaridade que quiser sem ser incomodado.

A primeira investigação buscava saber se o presidente da República prevaricou — ou seja, deixou de cumprir seu dever como servidor público — ao não tomar providência sobre as denúncias dos irmãos Miranda, que o procuraram para relatar irregularidades na compra de vacinas pelo Ministério da Saúde.

A segunda apuração investigou Bolsonaro por usar sua live para vazar um inquérito sigiloso da própria PF sobre uma invasão de hackers ao sistema do TSE, em 2018. Além de violar o sigilo do inquérito e divulgar a íntegra em suas redes sociais, o presidente ainda sugeriu que o papelório comprovava fraudes nas urnas eletrônicas, o que nunca aconteceu.

Nos dois casos, os delegados concluíram que Bolsonaro fez mesmo tudo aquilo de que era acusado. Mas não propuseram nenhum tipo de punição.

Luiz Carlos Azedo: Acidente no metrô paulista não feriu ninguém, exceto a candidatura de Doria

Correio Braziliense

O PSDB anunciou entendimentos com o MDB para formar uma federação que envolveria ainda o Cidadania, na linha de articulação de um bloco político capaz de pôr de pé a chamada terceira via

A estrada que liga São Paulo ao Palácio do Planalto é tortuosa e cheia de obstáculos. Para o governador tucano João Doria, os problemas começaram na Marginal Tietê, onde um acidente supostamente provocado pelo “tatuzão” das obras do metrô abriu uma enorme cratera, ao romper uma galeria de esgoto ao lado do poço de ventilação construído entre as futuras estações de Santa Marina e Freguesia do Ó.

Não houve feridos, mas as obras foram interrompidas, o esgoto invadiu o túnel do metrô, o equipamento de escavação foi seriamente danificado e a marginal acabou bloqueada, no sentido Ayrton Sena. Segundo o secretário dos Transportes Metropolitanos, Paulo José Galli, a galeria de esgoto que passava 3 metros acima do “tatuzão” se rompeu e a pista desmoronou, por volta das 9h de ontem. O presidente Jair Bolsonaro, que na véspera havia visitado Franco da Rocha, ironizou a situação: “Semana que vem a gente conclui a transposição do São Francisco. Em São Paulo, eu vi a transposição do Tietê”, afirmou à saída do Palácio do Alvorada, ontem.

O acidente é tudo o que Doria não precisava num momento delicado de sua pré-candidatura. O governador tucano está sendo pressionado pelos correligionários a deixar o Palácio Bandeirantes mais cedo e andar pelo país, mas não haveria momento pior do que esse para se desincompatibilizar do cargo.

Hamilton Garcia*: O plebiscito de Ciro

Folha da Manhã (Campos (RJ)

O movimento estratégico de Lula na direção do centro político, tanto para consolidar seu favoritismo e tentar catapultá-lo à Presidência já no primeiro turno, como para construir uma alternativa parlamentar ao Centrão, em caso de vitória, parece ter mexido com o tabuleiro eleitoral.

Nesta quarta (26/01), o candidato do PDT, Ciro Gomes, ensaiou uma escapada pela esquerda diante do congestionamento do centro político provocado por Lula, que também embaraça a ascensão de Moro e pode inviabilizar as pretensões de Dória. Percebendo a impossibilidade de furar a fila nesta disputa, onde Moro tem maiores credenciais, Ciro radicalizou o discurso acenando para um pacote de reformas a ser apresentado nos seis primeiros meses de seu virtual governo e referendado diretamente pelo eleitorado por meio de um plebiscito.

Maria Hermínia Tavares*: Populismo em baixa no mundo

Folha de S. Paulo

A doença insidiosa pôs freios à onda mundial desse gênero de autoritarismo

Quando a pandemia de Covid-19 começou, estudiosos da política e da sociedade temeram que seus efeitos pudessem ir além da destruição de vidas. Imaginaram que o vírus viesse a fortalecer o populismo —de direita ou de esquerda—, dotando os seus líderes de pretextos para concentrar poder e atropelar as liberdades e as instituições da democracia, em nome, bem entendido, da defesa da saúde coletiva.

O receio —embora plausível— não se confirmou. É o que mostra o abrangente estudo do Centro para o Futuro da Democracia, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, divulgado na semana passada, sob o título "The great reset - public opinion, populism and pandemic" (A grande reconexão: opinião pública, populismo e pandemia).

Vinicius Torres Freire: Sinais da elite para Lula

Folha de S. Paulo

Centrão e até donos do dinheiro dão sinais de que podem aderir ao petista

Partidos do centrão, quase o Congresso inteiro, e gente "do mercado" dão sinais de que Lula da Silva (PT) pode ser também para eles a alternativa incontornável, se por mais não fosse porque a opção, até agora, é Jair Bolsonaro (PL).

Ainda é muito cedo, em especial para políticos e "o mercado", que precisam de perspectivas menos incertas antes de fazerem seus arranjos. Faltam oito meses para o primeiro turno, mas algumas características da política e da economia destroçadas do Brasil talvez induzam certa precipitação ou conformismo.

Bruno Boghossian: Uma campanha paralela

Folha de S. Paulo

Articulações envolvendo Lula e Bolsonaro incluem cálculos para presidências da Câmara e do Senado

As articulações da corrida presidencial deram início a uma campanha paralela para definir o comando do Congresso a partir de 2023. A negociação de alianças envolvendo Lula e Jair Bolsonaro passou a incluir cálculos dos partidos interessados em ocupar as presidências da Câmara e do Senado num futuro governo.

Nas últimas semanas, os petistas voltaram a investir no apoio do PSD a Lula já no primeiro turno. Aliados do ex-presidente indicam que, em troca, podem oferecer à sigla um patrocínio à reeleição de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) na chefia do Senado.

O acordo interessa a Pacheco, que foi lançado ao Planalto, mas aparece com apenas 1% nas pesquisas. O PT ganharia mais: ampliaria a sua aliança eleitoral e agregaria um partido à base de Lula em caso de vitória.

Ruy Castro: Bolsoriarty ou Mabusonaro

Folha de S. Paulo

Até que ponto os cúmplices que Bolsonaro implantou no sistema impedirão que ele pague por seus crimes?

Jair Bolsonaro acaba de nomear mais um aliado para um cargo-chave na administração. Desta vez, trata-se de um indivíduo com autoridade para bloquear, ignorar ou mesmo apagar as investigações contra um de seus filhos pela extorsão de funcionários chamada "rachadinha". Qual é a novidade? Todo dia, Bolsonaro infiltra em cargos-chave elementos de sua confiança. É sua prerrogativa, mas nunca um presidente amarrou tão bem o sistema visando a proteger-se, assegurar impunidade ou eternizar-se no cargo.

William Waack: Rivais têm dúvidas se Bolsonaro vai concorrer

O Estado de S. Paulo

Adversários de Bolsonaro se perguntam se ele vai tentar a reeleição

Jair Bolsonaro é no momento o fator imponderável das próximas eleições. O comportamento de Lula, seu principal adversário, é o que se esperava e previa. Idem para os demais concorrentes, nenhum deles até aqui uma formidável surpresa – mesmo considerando o “efeito Moro”, em parte já dissipado.

O imponderável associado ao presidente tem menos a ver com a possibilidade de uma “ruptura” institucional, como a pantomima ensaiada no último 7 de setembro. E muito mais com seu notório desequilíbrio pessoal, pautado em grande medida pelo medo de ele ou de seus filhos acabarem presos em caso de derrota eleitoral. Temer foi preso quando deixou a Presidência, e Bolsonaro acha que corre o mesmo risco.

Maria Cristina Fernandes: A fila do confessionário

Valor Econômico

Lula diz que não é candidato do PT mas de um “movimento”. Adesismo só não é maior que a resistência à conta a pagar

Foi com ares de Arenão que o União Brasil foi anunciado. Alçaria à condição de maior partido da Câmara pela junção do PSL, legenda que elegeu o capitão, com o DEM, herdeiro do partido de sustentação da ditadura dos generais. Quatro meses depois, a UB, que ainda não foi formalizada, passou de legenda disputada pela terceira via, para agrupamento dos que têm dinheiro e TV mas é incapaz de canalizar um ou outro para a conquista do poder.

Também foi com pompa de partido oficial que o PL de Valdemar Costa Neto filiou o presidente da República. Com os planos de arregimentar os candidatos do bolsonarismo raiz à Câmara, passou a acalentar o sonho de fazer uma bancada robusta o suficiente para suceder ao deputado Arthur Lira (PP-AL) em 2025 - sim, porque não colocavam em dúvida a recondução do presidente da Câmara na próxima legislatura.

Cristiano Romero*: Vão chamar o Meirelles novamente?

Valor Econômico

Bem-sucedido, ex-presidente do Banco Central sempre foi subestimado

Quando o jornalista Chico Mendez criou o bordão “Chama o Meirelles”, o maior achado de marketing político da eleição presidencial de 2018, o ex-presidente do Banco Central (BC) e ex-ministro da Fazenda já havia sido “chamado” pelo menos três vezes por governantes para socorrê-los. Goiano de Luziânia, cidade a menos de 50 Km de Brasília, engenheiro formado pela Poli, a prestigiosa Escola Politécnica da USP, Henrique Meirelles é, ao mesmo tempo, o homem público mais subestimado da história do país e um dos mais bem-sucedidos.

Em novembro de 2002, quando ainda beliscava o braço para ter certeza de que vencera mesmo a eleição para Presidente depois de chegar em segundo lugar nos três pleitos anteriores, Luiz Inácio Lula da Silva foi logo pressionado pelo coordenador do programa de governo de sua campanha e futuro ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a iniciar as consultas para a escolha do presidente do Banco Central.

Alvaro Gribel: A ‘torre’ de volta aos dois dígitos

O Globo

O Banco Central subiu a Selic para 10,75% e já se comprometeu com mais um aumento na reunião de março

A “torre” dos juros que o ministro Paulo Guedes tanto propagou ter derrubado está de volta aos dois dígitos. O Banco Central subiu a Selic para 10,75% e já se comprometeu com mais um aumento na reunião de março, ainda que em ritmo menor, a grande novidade na decisão. Agora, haverá uma guerra de interpretações no mercado, na tentativa de prever a taxa final deste ciclo. Ela deve ficar em torno de 12% — um pouco mais, um pouco menos — mas o importante é entender que os juros nesse patamar terão um forte impacto sobre a economia e esse é um dos principais motivos para que as projeções de crescimento deste ano estejam tão baixas.

A verdade é que o Banco Central está sozinho no combate à inflação, já que neste ano eleitoral o governo relaxou as regras fiscais para gastar mais. Por duas vezes no curto comunicado de ontem o BC falou desse assunto. Primeiro, disse que é um risco para a inflação “se houver impulso adicional” da demanda agregada. Depois, que a “incerteza em relação ao arcabouço fiscal” está afetando as projeções para os índices de preços. No modelo do Banco, o IPCA fechará este ano em 5,4%, acima do teto da meta, e em 3,2% no ano que vem. Mas no mercado a estimativa de 2023 está em alta, e por isso o BC avisou que irá “perseverar” até que consiga controlar as expectativas.

Mario Mesquita*: Condições para a convergência

Valor Econômico

O aumento de gastos públicos tipicamente implementado no Brasil tende a apreciar a taxa de câmbio real

Em coluna anterior, registrei o pífio desempenho da economia brasileira nos últimos 50 anos, que confirma um padrão histórico pouco encorajador, que vem sendo observado desde a independência, com um interregno dinâmico em parte do século passado.

O objetivo aqui é ampliar o foco, e considerar os casos de sucesso, isto é, as economias que conseguiram, nas últimas décadas, sair da renda média e alcançar patamar de ingresso mais próximo (em alguns casos superior) ao observado nos EUA.

É claro que classificar uma economia como “desenvolvida” ou “avançada” é algo que abrange várias dimensões, mas para os propósitos desta coluna, vou estabelecer, de forma arbitrária, que convergência significa atingir um nível de renda per capita de pelo menos 60% daquele observado na economia americana.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Supremo dá valioso recado ao país em ano eleitoral

O Globo

A solenidade que abre os trabalhos do Judiciário no começo de cada ano é sempre motivo de atenção para a sociedade. A sessão solene do Supremo Tribunal Federal (STF) realizada por videoconferência na terça-feira teve um atrativo a mais por se tratar de 2022, um ano de eleições gerais. Ao presidente do STF, ministro Luiz Fux, coube a tarefa de proferir o discurso de abertura. De forma firme e serena, ele mandou recados claros e sensatos. Em tempos normais, muitos comentários poderiam ser classificados como obviedades. Não em 2022.

Fux reconheceu que debates inflamados são parte do jogo democrático, consequência de um ambiente onde circulam diferentes visões sobre os problemas do país e como solucioná-los. Isso tudo é válido. Campanhas que incentivam a polarização extremada não são. “A democracia não comporta disputas baseadas no ‘nós contra eles’”, disse o presidente do STF, que pediu tolerância e moderação nos embates entre os candidatos e seus apoiadores, mas não apenas nesses casos.

Após três anos de governo Bolsonaro, Fux foi categórico: “Não há mais espaços para ações contra o regime democrático e para violência contra as instituições públicas”, declarou. O magistrado não chegou a citar o nome de Jair Bolsonaro, provavelmente porque são de conhecimento público todas as investidas do presidente contra órgãos de controle do Estado.

Poesia | Joaquim Cardozo: Chuva de caju

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

Música | Paulinho da Viola: Eu canto samba / Quando bate uma saudade

 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Luiz Werneck Vianna*: Ainda podemos nos tornar um imenso Portugal

Em política é preciso estar atento ao tempo, que não para como o movimento da terra que não sentimos, como Nabuco gostava de dizer, embora conheçamos seus resultados nas noites que se sucedem aos dias e nas mudanças das estações, assim como variam pelos efeitos das nossas próprias ações, em grande parte inesperados, as circunstâncias imperantes na sociedade em que vivemos e atuamos. Há cerca de 50 anos um celebrado poeta vaticinava que o Brasil estava se tornando um imenso Portugal, autocrático, passadista e inimigo das liberdades, e enquanto seu belo canto embalava o mundo já germinava o que se tornaria a Revolução dos Cravos que sepultaria a época de trevas do salazarismo. Por que o mundo gira e a Lusitana roda, também estava fora do alcance do poeta que o Portugal de hoje se converteria aos nossos olhos numa experiência a ser seguida com sua capacidade de navegar em meio a tempestades e se manter fiel aos ideais com que expurgaram os males do seu passado ditatorial.

Vera Magalhães: Falta a Bolsonaro visão de Brasil

O Globo

Jair Bolsonaro deu para demonstrar tamanho fastio com a tarefa de governar o Brasil que fica difícil entender por que, além da razão exclusivamente política, ele pretende gastar mundos e fundos para tentar se reeleger.

Duas das últimas manifestações do presidente de turno apontam uma completa ausência, da sua parte, de visão do que seja o país que administra (sic) há três anos.

Para se contrapor à avassaladora constatação de que foi o presidente que mais gastou nos cartões corporativos da Presidência, sobre os quais ainda colocou camadas adicionais de sigilo, o capitão (ou seus filhos, esses luminares da comunicação) teve uma ideia: por que não dar um dos seus apreciados rolês de motoca pela capital federal e se deixar fotografar coberto de farofa, comendo um frango com as mãos numa barraca de rua? Genial, não?

Não. Poucas cenas podem ser mais emblemáticas da falta de empatia do presidente com quem de fato carece de recursos para se alimentar, ou precisa muitas vezes fazer uso das mãos pois não dispõe de casa, cadeira, talheres e pratos.

Luiz Carlos Azedo: A política mundial caminha no sentido anti-horário; no Brasil, também.

Correio Braziliense

Caso Lula faça seu aggiornamento, a estratégia de seus concorrentes no campo democrático não passará da mera busca de sobrevivência na trincheira parlamentar

Desde a eleição do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a política mundial caminha no sentido anti-horário. As recentes eleições chilenas e, neste fim de semana, os pleitos portugueses mostram isso. A onda eleitoral favorável às forças mais conservadoras e reacionárias, em vários países da Europa e da América Latina, foi contida em razão de fatores que também estão se apresentando nas eleições brasileiras. Primeiro: indiscutivelmente, a pandemia de covid-19 desorganizou a economia e escancarou as desigualdades sociais num quesito básico, o direito à vida. Segundo: o novo choque de petróleo, patrocinado pela Opep, pela Rússia e pela Venezuela, grandes produtores mundiais. Terceiro: a economia do carbono está tornando a vida humana no planeta muito mais difícil e ameaça o futuro da espécie. Quarto: a compreensão no Ocidente de que não existe salvação fora da democracia, por sinal, muito bem lembrada em 27 de janeiro passado, em memória do Holocausto.

Elio Gaspari: O compromisso com o erro

O Globo

Lula parece ter ouvido JK

Há poucas semanas, quando Guido Mantega foi escalado pelo PT para escrever um artigo para a Folha de S.Paulo propondo um programa econômico, a turma do papelório assustou-se. Haveria o risco de retomar o caminho da ruína? Passaram-se 26 dias, e o próprio Mantega mostrou que dentro do lençol não havia fantasma: “Não pretendo voltar. A economia tem ciclos; você fica com a parte boa, mas se a economia não funciona, a culpa é do ministro. Fiquei no governo por 12 anos seguidos. Já dei a minha parte”.

O pessoal do papelório gosta de sustos, e Lula gosta de administrar temores alheios.

Depois de ter surpreendido a plateia da cena política apontando a possibilidade de escolher o tucano Geraldo Alckmin para seu vice, Lula mostra que absorveu o ensinamento de Juscelino Kubitschek: “Não tenho compromisso com o erro”. Tê-lo desprezado foi um dos pilares da derrocada petista na eleição de 2018.

José Nêumanne*: O crime no comando

O Estado de S. Paulo

Na farsa democrática, perde tempo o gestor público que tentar governar com planos e projetos

Neste País, Bolsonaro manda às favas o Supremo Tribunal Federal (STF), que desconhece a Constituição para tudo permitir aos donos da lei

A democracia é o império da lei. Na sexta-feira 28, esse truísmo foi falsificado pela maior autoridade da República. Ou não vigora nela o que possa ser definido como governo do povo. Pois Bolsonaro não depôs na Polícia Federal, órgão do Estado, e não de seu governo particular, sob acusação de vazar inquérito sigiloso, a cargo da mesma. Agiu como se estivesse acima da norma legal. O que significa além ou fora dela.

Vinicius Torres Freire: Compra de votos com diesel e fogão

Folha de S. Paulo

Baixar tributos sobre diesel e eletrodoméstico tem pouco efeito e eleva a dívida

Paulo Guedes quer emagrecer o "Estado obeso" cobrando menos imposto sobre eletrodomésticos, para "beneficiar o setor industrial e o consumidor de massa". Diz que o aumento permanente da arrecadação do governo foi de mais de R$ 100 bilhões em 2021. Quer devolver até uns R$ 20 bilhões para a "população abusivamente explorada" pelo governo glutão. Para tanto, diminuiria um imposto sobre fogão, geladeira e lava-roupas.

Hum.

Como no caso de diesel e gasolina, se o governo cobrar menos imposto, vai fazer mais dívida. Vai, pois, pagar mais juros, o que beneficia ricos.

Bruno Boghossian: Aposentadoria antecipada

Folha de S. Paulo

Equipe do ex-presidente quer conter exploração de erros na economia e corrupção por rivais

O PT anunciou a aposentadoria de alguns de seus quadros. Na semana passada, Lula disse que Dilma Rousseff não deve ocupar nenhum cargo no governo caso ele vença a próxima eleição. Outros petistas seguiram o exemplo: em declarações públicas nos últimos dias, Guido Mantega e José Dirceu descartaram uma volta à Esplanada dos Ministérios em 2023.

O partido se antecipou para deixar no passado figuras que podem se tornar incômodas na campanha. O time de Lula quer descolar a imagem do presidente das memórias da crise econômica evocadas com Dilma e Mantega, além das conexões de Dirceu com escândalos da era petista.

Hélio Schwartsman: O livre-arbítrio salva Deus?

Folha de S. Paulo

Livre-arbítrio não explica o mal resultante de desastres naturais

O problema da teodiceia tem mais de 2.000 anos, de modo que não achei que causaria tanta polêmica ao evocá-lo em relação à pandemia, como fiz na coluna "Deus e a Covid". Mas, como estou até agora recebendo contestações, acho que vale a pena tentar esclarecer alguns pontos.

Conciliar o sofrimento presente no mundo com a existência de um Deus onipotente e benevolente é um problema real, que desafia filósofos e teólogos das mais diversas tradições. E nem é algo que os religiosos procurem esconder. É o tema mesmo do "Livro de Jó", incluído na Bíblia.

Fernando Exman*: O jogo da regulação dos criptoativos

Valor Econômico

Ideal é proteger investidor sem criar amarras à inovação

Era tarde da noite de 8 de dezembro, algo comparável aos 42 minutos do primeiro tempo deste biênio em que a Câmara será presidida por Arthur Lira (PP-AL), quando os deputados aprovaram o projeto de lei que regulamenta a atividade de prestação de serviços de negociação de criptoativos.

Lance inesperado, que ainda não se sabe qual andamento terá no Senado, a despeito dos sinais de que a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) não perderá tempo. Será difícil ignorar o assunto depois da notícia divulgada recentemente pelo Banco Central (BC) de que as importações de criptoativos somaram US$ 6 bilhões em 2021 - volume recorde e quase o dobro do registrado no ano anterior.

Tiago Cavalcanti*: Transferência de renda como investimento

Valor Econômico

O Bolsa Família é uma forma pragmática de garantir renda para os mais pobres, em um país com alta informalidade

No meu artigo anterior (“Por que as pessoas seguem na pobreza?”), aqui no Valor, discuti razões pelas quais indivíduos permanecem em situação de extrema pobreza e em atividades de baixíssimo rendimento. Apresentei evidências sobre como um programa de distribuição de ativos em Bangladesh teve efeitos positivos e permanentes sobre o tipo de ocupação, trabalho e renda das famílias beneficiadas.

Portanto, não só políticas de capital humano são efetivas para combater a pobreza de curto e longo prazos; ações redistributivas podem ter papel relevante.

No presente artigo, discuto o desenho das políticas de transferência de renda sob a ótica do investimento. Penso que, nesta questão, o objetivo do gestor público é de transferir eficientemente recursos para as pessoas que realmente necessitam, minimizando os possíveis efeitos adversos dessas transferências.

A questão atraiu vários pensadores, inclusive os liberais mais influentes. Milton Friedman, por exemplo, em seu livro “Capitalismo e Liberdade”, dedica o penúltimo capítulo ao problema de combate à pobreza.

Roberto DaMatta: Tempos eleitoreiros

O Globo

Em tempos eleitorais, tempos de mudanças inversas ou reversas, de ajustes de contradições e permanência disfarçada; tempos nos quais mudamos nomes e inventamos partidos, mas não pensamos nisso como um costume destinado a não transformar os jeitinhos, os assassinatos de caráter, as notícias mentirosas, falsas, fantasiosas, caluniosas, criminosas — enfim, tudo que cabe na noção de fake surge como um sol de verão.

Em tempos eleitorais, falamos de “candidatos” e postulantes. Dos que pretendem ser eleitos numa competição teoricamente igualitária. E tal princípio alheio à vida cotidiana produz uma multidão de discursos conjunturais, transformando-se numa verdadeira “economia política eleitoral”, na qual se produz uma matemática de relações. Uma álgebra que poderá revelar se A vai com X ou Y, e se o partido Z vai com G, T ou K. O campo político eleitoreiro vira uma crônica de Lima Barreto ou um manicômio de Machado de Assis. Nele, só não ficam loucos os pré-candidatos, perdidos numa competição cuja única regra é ganhar porque, conforme sabemos, “em política vale tudo”, até mesmo trair juramentos constitucionais, como é rotineiro em Bolsonaro. Dito isso, vale observar a ferocidade com a qual se tenta, neste jogo sujo, eliminar o “centro” bloqueador eventual de uma infame repetição.

Luiz Roberto Nascimento Silva*: O novo escravo digital

O Globo

A revolução digital trouxe uma mudança profunda no ciclo do trabalho, que ficou mais curto com o crescimento de serviços temporários sem proteção ou sindicalização. Nesse universo, os serviços de delivery utilizam-se de trabalho quase escravo. O prestador não é empregado de quem encomenda nem do restaurante para o qual trabalha. Aluga a moto ou bicicleta que usa, não tem férias nem folga no fim de semana, não tem plano de saúde e não vai se aposentar.

Na fase inicial, esse novo escravo sentiu-se liberto da estrutura tradicional de trabalho com subordinação e rotina, achando que a mudança seria sua libertação. Sua consciência ainda não se formou, mas sente sinais insistentes de que as coisas não estão saindo como imaginou. Analisei este assunto em detalhe no livro “O cavalo de Troia digital”, que acabo de publicar. O tema passou a ser objeto de discussão dos principais candidatos à Presidência da República, valendo a pena refletir sobre ele.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Na volta às aulas, ensino presencial deve ser prioridade

O Globo

No momento em que escolas de todo o país começam a retomar suas atividades, secretários estaduais e municipais de Educação, diretores e professores têm a missão crucial de fazer o possível e o impossível para que os alunos voltem às salas de aula, depois de um inaceitável afastamento de quase dois anos em que imperou o ensino remoto ou híbrido.

É boa notícia a forte adesão ao ensino presencial, mesmo com o agravamento da pandemia de Covid-19 pelo avanço da variante Ômicron. Como mostrou reportagem do GLOBO com o G1, dez redes públicas estão retomando o ano letivo esta semana de forma presencial, como é o caso dos estados de São Paulo, Ceará, Espírito Santo e Pernambuco (Goiás havia feito o mesmo na última semana). Nos próximos dias, Bahia e Rio de Janeiro devem se juntar ao grupo. Capitais como São Paulo, Rio, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, São Luís, Recife, Goiânia e Palmas também priorizam o modelo presencial. Espera-se que sirvam de exemplo.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Ainda a retórica

Talvez retórica: na voz
que não sabe ser em voz baixa,
e que por isso mais explode
do que fala, se é que ela fala;

retórica ao avesso, ela ensina
senão o falar, essa explosão
com que a voz, como qualquer gás,
se expressa ao ser forte a pressão;

caprichosa, com a água morta
da vida sul-americana,
que explode sem quandos nem ondes,
ou onde parece mais mansa.

Música | Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti - Por quem os Blocos Cantam