Folha de S. Paulo
É sintomático que outra consciência venha à
luz exatamente onde irrompe obscurantismo
Dominar a bola com a ponta da chuteira
esquerda e, num voleio perfeito, girar em torno do próprio eixo para chutar com
a direita é uma descrição correta, mas escassa, do segundo gol de Richarlison
contra a seleção da Sérvia na Copa do Mundo. Obra-prima, de arte, um marco na
história do futebol. Aos olhos de muitos, o movimento perfez no espaço a letra
inicial de Lula. Puro acaso, mas um caso de ironia objetiva.
Disso são caprichosos os exemplos. É que "ironia", a figura de
linguagem em que alguém diz o contrário daquilo que quer dar a entender, se faz
na escuta, isto é, na subjetividade do interlocutor. Mas há situações em que a
disparidade entre a intenção e o resultado da ação permite falar de ironia
objetiva.
Assim, durante a ditadura, numa cerimônia
ao ar livre em Brasília, a bandeira nacional desfraldada no topo de um mastro,
por efeito de uma ventania, ficou registrada numa foto com as palavras de
"ordem pro-Esso", em vez de "progresso". Esso, a companhia
petrolífera, era símbolo do império americano. Algo acidental, mas, ao olhar
analítico, a concreta e irônica insinuação de um poder maior.
Não é apenas jogo verbal, há fundos de
sentido. Na Copa América, Richarlison havia dedicado sua chuteira à ciência,
para depois leiloá-la e financiar um grupo de pesquisa na USP. Aos 25 anos,
atento à desigualdade das condições de vida no país, ele se diz um apoiador de
causas. Dentro ou fora de campo, suas inclinações políticas estão afinadas com
combate à fome e proteção climática.