domingo, 27 de outubro de 2024

O efeito Trump no Brasil – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Economia brasileira até poderia ganhar algo, diz estudo, mas 'trumponomics' causa outros danos

A economia brasileira pode até ter crescimento pouquinho maior e passageiro, de curto prazo, caso Donald Trump vença e implemente o grosso do seu plano econômico. É o que se depreende de estudo publicado em setembro pelo Peterson Institute for International Economics, de Warwick McKibbin e colegas.

Os Estados Unidos seriam o país mais prejudicado, além de China, México e Canadá, consideradas as economias do G20, blocos regionais e o grupo do "resto do mundo", no que diz respeito ao PIB (Produto Interno Bruto). Beneficiados maiores: Turquia e Rússia.

O trabalho leva em conta apenas três aspectos do plano confusamente declarado de Trump:

Bom voto! - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Melhor aposta: direita deve consolidar sua vitória também no segundo turno, mas rachada

Com segundo turno em 15 capitais, seis parecem decididas, mas nunca é demais lembrar que ninguém morre e ninguém ganha jogos e eleições de véspera e este domingo promete muitas emoções também porque pesquisas indicavam nove empates técnicos até sexta-feira, antes dos últimos debates – que podem ser decisivos quando a disputa é acirrada, mas raramente provocam reviravoltas estonteantes. Candidatos, candidatas, padrinhos, partidos e milhões de eleitores com o coração nas mãos.

Em São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) demorou, mas aprendeu e estava firme, seguro e com boa movimentação em cena no debate da Rede Globo. Pode ter sido tarde, porque ele tem um rival poderoso, a rejeição, e o favorito, Ricardo Nunes (MDB), chegou à campanha com as condições objetivas favoráveis de quem disputa a reeleição. Nunes entrou no debate pelo empate, Boulos precisava repetir os 5 x 0 do Botafogo no Peñarol.

Lula, a ordem mundial e Brasil meio emperrado - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O presidente pode falar mal do FMI. Mas ainda lhe faltaria explicar por que as projeções do mercado brasileiro são tão parecidas com as do fundo

O presidente Lula da Silva insiste em remontar a economia mundial, buscar alternativas ao dólar e dar proeminência aos países do “sul”, uma entidade ainda mal definida, mas pouco avançou, até agora, na tarefa de resgatar o Brasil da mediocridade. Com crescimento previsto de 3% neste ano, 2,2% no próximo e 2,5% em 2029, o País continua no pelotão de trás da corrida econômica, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em coro com outros políticos brasileiros, o presidente pode falar mal do fundo, acusá-lo de servir aos Estados Unidos, de agir contra os interesses do mundo emergente e em desenvolvimento e de impor políticas desastrosas. Mas ainda lhe faltaria explicar por que as projeções formuladas no mercado brasileiro são tão parecidas com as do FMI – e às vezes piores em alguns detalhes.

A luz rascante de Vladimir não se apagou - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense, 26.10.2024

O cinema russo e o novo cinema alemão influenciaram o cineasta, porém o que marca seus documentários é a saga sertaneja do pau à pique ao concreto armado

A morte de Vladimir de Carvalho, um dos mais aclamados documentaristas brasileiros, me surpreendeu, embora agora saiba que estava convalescendo de um infarto há três semanas, mas, nesta quinta-feira, não resistiu ao colapso renal. Não passava pela minha cabeça que esse paraibano cabra da peste, aos 89 anos, pudesse ter um infarto “passarinhando” pelas quadras do Plano Piloto. Há pouco tempo, compartilhei uma de suas caminhadas, à noite. “Deixe o Uber pra lá, vamos andando; a gente conversa mais um pouco”, me desafiou, lépido e sorridente, como um garoto.

Nesta sexta-feira, durante o velório no Cine Brasília, ex-alunos, a turma do cinema e seus velhos camaradas do antigo PCB compartilhavam a mesma surpresa. Era mais velho, mas parecia sempre o mais novo entre seus amigos e companheiros. Principalmente quanto às ideias, não era um náufrago do passado. Apesar de fazer parte do grupo de comunistas que atenderam ao chamado de Juscelino e vieram para Brasília, no rastro de Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro, alguns para implantar a Universidade de Brasília (UnB), da qual Vladimir seria professor titular de Cinema.

Antonio Cicero: a obra final - Cristovam Buarque*

Metópoles

Antonio Cicero viveu plenamente com lucidez, afeto e dignidade até o seu último momento

É lamentável que o avanço técnico já permite prolongar a semivida dependendo de aparelhos, mas ainda não temos avanço moral para permitir cada pessoa escolher se quer interromper esta semivida artificial do corpo sem consciência, sem autonomia, sem vida plena, sem criação, transmitindo sacrificios em vez de afeto aos familiares. Também lamentável, as crenças religiosas aceitarem a ciência enfrentando a Deus ao prolongar semivida artificial, mas considerem pecado uma pessoa escolher terminar seu sofrimento no momento em que a vida fica insuportável e deixa de ser plena. Dificil considerar a vontade de Deus condenando uma pessoa à vida que ficou insuportável e por isto, com a lucidez que Deus ainda lhe deixa, decida interromper o sofrimento em alguns dias ou meses, antes que ela chegue naturalmente. Quem está mais perto de Deus, a ciência que prorroga o sofrimento de uma vida artificial ou a moral e a lei que permite ao doente usar seus últimos dias com lucidez para antecipar a morte com dignidade e sem dor?

Poesia | Meu povo meu poema - de Ferreira Gullar

 

Música | Partido alto - Mônica Salmaso

 

sábado, 26 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Violência no Rio expõe política de segurança deficiente

O Globo

Enquanto não houver coordenação de governos federal e estaduais, crime organizado continuará a vencer

Não há como ficar indiferente às cenas de horror registradas na manhã de quinta-feira durante operação da Polícia Militar no Complexo de Israel, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, para reprimir o roubo de veículos e de carga. Os bandidos que dominam as comunidades reagiram de forma violenta, impondo caos e medo. Em meio à chuva de tiros, três inocentes morreram baleados a caminho do trabalho. Outros três ficaram feridos. Principal via do município, a Avenida Brasil, por onde circulam 200 mil veículos diariamente, teve de ser interrompida por duas horas. Escolas, unidades de saúde, estações de trem e BRT também precisaram ser fechadas.

Causaram perplexidade não apenas as imagens dramáticas de cidadãos deitados no asfalto, escondidos sob ônibus ou agachados. Chocou também o recuo da polícia ante a resistência dos bandidos. A PM reconheceu não esperar reação tão forte dos traficantes. A decisão de recuar para evitar mais mortes foi acertada, mas é inevitável constatar que as organizações criminosas estão mais bem preparadas e são mais ousadas que as forças de segurança. No Rio, bandidos fazem o que querem. Em comunidades como a Muzema, andam armados à luz do dia.

Marco Aurélio Nogueira - Dilemas e desafios

O Estado de S. Paulo

A extrema direita não mostrou tanta força e se dividiu; a esquerda não conseguiu se projetar. Ambas não captaram a cabeça do eleitorado, que carrega novas pautas e hábitos

As eleições municipais de 2024 puseram em xeque uma polarização que já não corresponde à realidade nacional. Lula da Silva e Jair Bolsonaro não se confrontaram. Dobraram-se a uma clara inclinação eleitoral ao centro, que se derramou pelo País todo. Houve mais moderação do que radicalização. Mais cálculo. O eleitorado parece ter se “acomodado”, fez escolhas conservadoras e cautelosas, referendando a maior parte dos prefeitos que se lançaram à reeleição. O eleitor se manifestou com clareza, e é pueril tratá-lo como se fosse um alienado que ignora os perigos do reacionarismo ou uma vítima indefesa das redes.

Em São Paulo, esquerda e direita ficaram nos bastidores, esmagadas pela baixaria que dominou o primeiro turno e se estendeu ao segundo.

Pablo Ortellado - Polarização ou extremismo?

O Globo

Há uma perigosa evolução de intolerância mútua

Há um debate interessante em curso sobre se vivemos um período de polarização política ou de ascensão do extremismo de direita. Aqueles que defendem a ideia de polarização argumentam que há aumento do fanatismo e da intolerância em relação aos adversários, o que poderia, em última instância, levar à violência política.

Os que veem a ampliação do extremismo criticam a ideia de polarização, dizendo que ela pressupõe, pelo menos tacitamente, os dois polos se radicalizando, na mesma medida. Mas a tendência, dizem, não é simétrica, já que, enquanto a esquerda se torna mais moderada, a direita caminha para o extremismo antidemocrático.

Carlos Alberto Sardenberg - Para que servem as previsões?

O Globo

Pode-se fazer uma previsão bem aproximada do consumo de energia e, pois, dos preços do petróleo. Até que estoura uma guerra

O Fundo Monetário Internacional trouxe notícias sobre o Brasil nesta semana. A boa: pela nova projeção, que aparece no Panorama Econômico Mundial, a economia brasileira deverá crescer 3% neste ano. A ruim: a dívida pública continuará subindo neste e nos próximos dois anos, de acordo com o relatório Monitor Fiscal.

O governo, claro, gostou da primeira e rejeitou a segunda. Mas uma ampla opinião entre economistas brasileiros concorda com as duas informações. Na verdade, é o contrário. O FMI é que chegou agora às projeções já feitas por aqui. É normal.

Eduardo Affonso - Seu mundo você é quem faz

O Globo

Há os que são contra a eutanásia. Mas deixem ir em paz quem não compartilha a mesma crença e os mesmos temores

Quando Roberto Carlos quis se casar, em 1968, teve de sair do país: a noiva, Nice Rossi, era desquitada, e a legislação brasileira não permitia uma segunda chance no casamento. Graças ao empenho do senador Nélson Carneiro, o divórcio foi, finalmente, aprovado em 1977, e hoje ninguém mais precisa cruzar a fronteira para reconstruir a vida conjugal.

Quando, em 2024, o poeta e filósofo Antonio Cicero quis acabar com a angústia de ver o passado se esvair, não conseguir mais filosofar e sentir que lhe escapava a poesia, teve de fazer as malas e ir à Suíça para dar a sua vida um fim digno.

Não há no Brasil de hoje um Nélson Carneiro disposto a lutar contra o conservadorismo e os dogmas religiosos para devolver ao cidadão o direito inato e irrenunciável de dispor da própria existência como quiser, exercendo a liberdade de escolha em tudo que diga respeito a si mesmo e à própria felicidade.

Hélio Schwartsman - Como o eleitor racional deve agir?

Folha de S. Paulo

Num mundo hiper-racional, o mais vantajoso seria não sair de casa, mas não vivemos num mundo hiper-racional

Como o eleitor racional deve agir neste domingo (27)? Se o Brasil adotasse o voto facultativo, a resposta seria simples: não votar. Mas, como por aqui o comparecimento é em tese obrigatório, é necessário fazer uma conta antes de chegar a uma conclusão.

Se os seus custos com transporte mais o preço que você atribui a seu tempo excederem R$ 3,51 (valor da multa por turno perdido), fique em casa ou vá passear e depois regularize sua situação com a Justiça Eleitoral. Dá para fazer tudo pela internet, em tempo inferior ao que você levaria para votar.

Dora Kramer - Parece, mas ainda não é

Folha de S. Paulo

Congresso resiste a cumprir exigências, e impasse com STF sobre emendas persiste

Foi cedo em agosto —quando se anunciou um pacto— para se comemorar um acerto disciplinar no uso de emendas parlamentares. Agora ainda é cedo para se acreditar que o problema esteja resolvido com a promessa de votação de um projeto de lei com novas regras de transparência.

Há mais de dois meses se reuniram representantes dos três Poderes no Supremo Tribunal Federal e ali se estabeleceu que em dez dias o Congresso Nacional apresentaria suas credenciais no tema; daria as informações necessárias e diria como iria atender as exigências do Judiciário ao qual se aliava o Executivo.

Alvaro Costa e Silva - Saúde pública fatiada e arruinada

Folha de S. Paulo

Depois de receber mais de R$ 21 milhões, laboratório investigado tem aspecto de muquifo

Responsável por mais de 50 unidades de saúde —entre as quais o laboratório Saleme, investigado por erros em laudos que fizeram com que órgãos contaminados com o vírus HIV fossem transplantados em seis pacientes—, a Fundação Rio cresceu após um escândalo de corrupção. Uma corrupção sem fim que arruína a saúde pública no país, fatiada e privatizada, permitindo que grupos de criminosos metam a mão no dinheiro destinado a salvar vidas.

Criada em 2007 como alternativa para contratar profissionais e comprar insumos de forma rápida, a fundação ganhou status de supersecretaria a partir de 2020, durante a pandemia de Covid.

Demétrio Magnoli - Brics sem maquiagem

Folha de S. Paulo

Brasil tornou-se estranho no ninho, e grupo já não serve a interesses nacionais

Na superfície, o Brics é um bloco antiocidental, como Xi Jinping, e Putin mais ainda, pretendem apresentá-lo. De fato, são coisas diferentes para atores diversos. O Brasil, porém, tornou-se um estranho no ninho: o grupo já não serve aos interesses nacionais.

Lula vetou, por razões exclusivas de política doméstica (e por enquanto), o ingresso de Venezuela e Nicarágua. Porém, desde a entrada do Irã, na expansão de 2023, o Brics+ iniciou um giro anti-Ocidente. A cúpula de Kazan emitiu convites a 13 novos parceiros, inclusive Belarus, um protetorado informal russo, Cuba e Bolívia, que apoiam a invasão imperial da Ucrânia, além de Vietnã, Cazaquistão e Uzbequistão, situados nas esferas concorrentes de influência chinesa e russa.

Orlando Thomé Cordeiro - 2026 é logo ali

Correio Braziliense

O PSD de Gilberto Kassab sai muito fortalecido dessa disputa, trazendo consigo a vitória em primeiro turno de Eduardo Paes no Rio de Janeiro e a chance de conquistar até seis novas prefeituras no próximo domingo, inclusive Belo Horizonte e Curitiba

Neste domingo, teremos a disputa de segundo turno em 51 municípios, entre eles, 15 capitais, mas o resultado do primeiro turno trouxe algumas confirmações e a indicação de algumas tendências. Mesmo nos 103 locais com possibilidade de segundo turno, por terem mais de 200 mil eleitores, em pouco mais da metade (52), a parada foi resolvida dia 6 de outubro.

Como apontamos na coluna publicada dia 26 de janeiro deste ano, na imensa maioria dos 5.569 municípios, a polarização nacional não teve peso no voto do eleitor, tendo sido preponderante a discussão de temas locais, bem como a imagem de candidatos e candidatas. Com raras exceções, quem tentou nacionalizar o debate nessas cidades não obteve êxito, até porque, na eleição municipal, a nacionalização interfere, mas não decide.

Amanda Calazans - Os munícipes que não reclamam

O Estado de S. Paulo

Como uma obra literária inacabada, Graciliano Ramos não terminou o mandato em Palmeira dos Índios, mas seus relatórios deixam reflexões sobre o papel do prefeito

Na gestão em que se dedicaria a equilibrar as contas do município, enfrentar o desperdício e a ineficiência na administração, extinguir favores a compadres, pôr fim às extorsões que afligiam os mais pobres e, o mais inconveniente, relatar de forma clara e honesta o que fez e o que não conseguiu fazer durante o mandato, o prefeito de Palmeira dos Índios escreve, após o primeiro ano de trabalho: “Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura (...) dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”.

O prefeito impopular, bem como o dono da autoavaliação seca, irônica e sobretudo literária, era Graciliano Ramos. O futuro romancista administrou Palmeira dos Índios, próxima a sua cidade natal, Quebrangulo, de janeiro de 1928 a abril de 1930, e no começo de cada ano escreveu relatórios de prestação de contas ao Conselho Municipal e ao governo de Alagoas. Desde aquela época os balanços da prefeitura chamaram a atenção da imprensa pela qualidade literária, e agora estão reunidos no livro O Prefeito Escritor: Dois Retratos de uma Administração (Record, 2024).

Carlos Andreazza - O fim e o fim do governo Cláudio Castro no Rio

O Estado de S. Paulo

O governo Claudio Castro, do Rio de Janeiro, acabou. Acabou sem ter começado, mantido enganando enquanto havia dinheiros da concessão da Cedae e, sobretudo, por influente (e cara) campanha de, digamos, comunicação.

A casa cai de vez quando se descobre que o Estado entregou a um laboratório safado – empresa de parente do ex-secretário de Saúde, padrinho da atual secretária – o contrato para testar a saúde de órgãos a serem transplantados. Transplantados, afinal, órgãos infectados com HIV.

Marcus Pestana - Governabilidade e transformação

A democracia política emerge como expressão das mudanças necessárias para dar vazão ao desenvolvimento do sistema capitalista. A monarquia absoluta, funcional para a centralização de recursos e esforços na expansão do capitalismo comercial em escala global através das grandes navegações, tornou-se um obstáculo ao desenvolvimento capitalista, quando a dinâmica da acumulação de capitais migrou da circulação para a produção. Era preciso um sistema político permeável à ação descentralizada de inúmeros empreendedores privados. A democracia moderna, filha das Revoluções Industrial, Francesa e Americana, nasce como expressão política de uma sociedade que se organizava tendo como pilar a liberdade individual e econômica.

Luiz Gonzaga Belluzzo - O Prêmio Nobel de 2024

O poder da finança cairia bem nas incursões dos vencedores pelos labirintos do poder e do progresso

O Prêmio Nobel concedido a ­Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson consagrou o trabalho dos três economistas na identificação dos processos socioeconômicos que impulsionam o progresso das nações.

No livro Poder e Progresso: Nossa Luta de Mil Anos por Tecnologia e Prosperidade, Acemoglu e Johnson enfrentam as complexidades das relações entre progresso tecnológico e democracia.

“…As primeiras esperanças de democratização digital foram frustradas porque o mundo da tecnologia colocou seu esforço onde estão o dinheiro e o poder – com a censura do governo. É, portanto, um caminho específico – um caminho sorrateiro – escolhido pela comunidade de tecnologia que intensifica a coleta e a vigilância de dados.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O Auto do frade - Frei Caneca

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Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Eu vou fazer você voar

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tragédia de Novo Hamburgo expõe leniência com CACs

O Globo

Atirador que matou pai, irmão e dois policiais mantinha em casa arsenal obtido legalmente como colecionador

Na noite de terça-feira em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), um caminhoneiro de 45 anos, depois de manter a própria família como refém, matou a tiros na hora o pai, o irmão e um policial militar. Outro PM morreu no hospital. Feriu ainda a mãe, a cunhada e outras seis vítimas. Segundo a Polícia Civil gaúcha, o atirador foi encontrado sem vida dentro de casa depois de confronto com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Cinco baleados — entre eles dois policiais militares e um guarda municipal — permaneciam ontem internados.

A motivação do crime ainda é investigada. Pelo que se sabe, o atirador abriu fogo contra os parentes e policiais depois de ser denunciado pelo pai por maus-tratos. Todas as tentativas de negociação foram frustradas, e ele ainda derrubou dois drones usados pela polícia durante o cerco, que durou mais de nove horas.

José de Souza Martins - A crise da esquerda e a ameaça autoritária

Valor Econômico

A direita mobiliza vítimas de marginalização política porque os partidos democratas têm dificuldade de reconhecer o que é política numa sociedade atrasada

A eleição, em 2002, de um presidente da República pelo PT e sua reeleição, quatro anos, depois, além da eleição e reeleição de sua sucessora, não representou uma inclinação do eleitorado para a esquerda. Apenas robusteceu a inclinação brasileira para a direita com que esta reagiu e se apoderou do poder. O que era difuso e não tinha nome, pela mediação da esquerda reconheceu-se como direita. Definiu uma identidade, encontrou um líder que personificasse sua confusão e seu ódio acumulado. Tornou-o objeto de idolatria e sujeição. Bolsonaro não é apenas personagem eleitoral.

A questão é sociologicamente complicada. Foi tratada por Theodor Adorno e sua equipe em célebre e bem cuidado estudo científico realizado na Universidade da Califórnia. Em 1950, essa equipe publicou “The Authoritarian Personality”. O grupo foi motivado, dentre outras, pela hipótese de que o que acontecera na Alemanha poderia ter seus fatores e causas também em outros países, como os EUA. Ou como aqui.

Vera Magalhães - A agenda do pós-eleições

O Globo

Retomada do controle do Orçamento, reforma ministerial e sucessão na Câmara serão temas da volta do mundo político a Brasília

Passado o segundo turno, Brasília volta a funcionar com força total com foco em quatro temas principais, todos interligados: a necessidade do governo de promover um corte estrutural de gastos que mantenha de pé o arcabouço fiscal, o acordo entre os Poderes para disciplinar as emendas parlamentares, a troca de comando na Câmara e no Senado e uma esperada reforma no primeiro escalão do governo.

Uma das coisas que ficaram nítidas nas eleições municipais foi o peso do dinheiro vindo de Brasília nos resultados que inflaram as siglas do Centrão e da direita. São dois os dutos pelos quais jorrou a dinheirama: o fundo eleitoral inflado pelo Congresso e as emendas Pix, que, agora, deverão mudar, a partir da puxada no freio dada pelo Supremo Tribunal Federal.

As várias modalidades de emendas, além da Pix, e seu caráter cada vez mais impositivo tiraram do Executivo uma das principais armas de que sempre dispôs para fazer política. O resultado é que muitos partidos com gabinetes na Esplanada fizeram campanhas completamente dissociadas de Lula ou do governo, sem deles depender e, sobretudo, sem defendê-los, fazendo com que a esquerda saia bem mais enfraquecida do mapa e, assim, largue atrás na montagem de chapas para a Câmara e o Senado daqui a dois anos.

Luiz Carlos Azedo - Não chamem Lula, Maduro e Ortega para jantar

Correio Braziliense

O Brasil equilibra-se entre dois polos, os Estados Unidos e a China, o que tensiona a política externa toda vez que se aproxima demais dos parceiros do Brics

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a reunião do Brics — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, em Kazan, na Rússia, que terminou nesta quinta-feira, para estabelecer distância segura dos presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Nicarágua, Daniel Ortega, cuja entrada no grupo foi vetada pelo Brasil nos bastidores do encontro. Ampliado com mais quatro países (Egito, Irã, Etiópia, Emirados Árabes; a Arábia Saudita ainda não oficializou seu ingresso), o bloco decidiu criar também uma categoria de países parceiros, condição que era pleiteada pelos dois países latino-americanos.

Andrea Jubé - Otto, o camisa 10 de ACM no time de Lula

Valor Econômico

Senador rebate a provocação de que o Executivo precisaria de um “milagreiro” no parlamento

Fã de Raul Seixas, também baiano, e com a autoridade de quem conviveu de perto com Irmã Dulce (1914-1992), a Santa Dulce dos Pobres, o líder interino do governo, senador Otto Alencar (PSD-BA), disse à coluna que o governo não precisa de milagres no Congresso.

“O governo sempre aprovou tudo o que quis na Câmara e no Senado, com dificuldades, mas aprovou”. Mas, parafraseando Raul, ele “não tem pressa, tem muita paciência” para votar a regulamentação da reforma tributária, e reforçou que muita gente no governo pensa como ele.

“Qual a urgência? O país está com aumento de arrecadação. É pressa para ter a grife da reforma tributária?”, desafiou, atribuindo, exclusivamente, ao mercado financeiro o interesse em ver o texto chancelado nas duas Casas até o fim do ano. O governo retirou o regime de urgência, carimbo com o qual a matéria havia chegado ao Senado.

Vinicius Torres Freire - O fim da deflação da picanha

Folha de S. Paulo

Alta anual dos alimentos passa de 7%, que incomoda; mas pode chover e vir safra recorde

A inflação anual da picanha foi quase sempre negativa de janeiro de 2023 até setembro deste 2024. Isto é, o preço do corte de carne mais politizado do Brasil caía, se considerada a variação em 12 meses. Em abril, a picanha estava em média 11% mais barata do que no abril de 2023. A baixas pelo menos compensava parte dos aumentos pavorosos de 2021 (com altas anuais de mais de 30%).

O preço médio das carnes agora aumenta ao ritmo de 5,1% ao ano, na medida do IPCA-15 do IBGE (o da picanha, 4,1%). Contribuiu para o aumento da inflação dos alimentos que a gente leva para a casa, que agora está em 7% ao ano, na medida do mesmo IPCA-15, divulgado nesta quinta-feira (24), que mede a inflação média entre meados de um mês e meados do mês seguinte, outubro, neste caso. No ano passado, o preço médio da comida caíra 0,52%. E daí?

Bruno Boghossian - Tudo ou nada de Boulos vai dar em nada?

Folha de S. Paulo

Pesquisa do Datafolha na reta final dá a dimensão do abismo entre os dois campos

Na véspera do primeiro turno, Guilherme Boulos pediu a prisão de Pablo Marçal. O influenciador havia sido o responsável por uma baixaria histórica ao divulgar um laudo falso de internação do rival. O episódio cavou os últimos metros do abismo entre os eleitores dos dois candidatos.

Só um projeto de engenharia com uma boa dose de imprudência poderia erguer uma ponte entre os dois campos. Boulos fez uma aposta nessa obra. Ajustou propostas para ecoar apelos de Marçal à periferia e gravou um vídeo em que eleitores vestiam um boné com a letra B. Como risco final, topou ser sabatinado pelo ex-coach nas redes sociais.

Marcos Augusto Gonçalves - Meia direita, mas não abandona a extrema

Folha de S. Paulo

Governador tenta se deslocar para outra faixa, mas letalidade policial, entre outras situações, diz muito sobre seu jogo

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tem se projetado como nome da direita no cenário político-eleitoral. À frente do estado mais pesado da União, está bem amparado pelo escolado Gilberto Kassab, secretário de Governo e vitorioso das eleições municipais. O ex-ministro de Bolsonaro, que teve passagem pelo governo Dilma, tem se deslocado simbolicamente para a meia direita, mas não deixa de jogar pela extrema. Conhece a posição.

Um dos sinais, entre outros, de que continua a trafegar sem embaraço por esse corredor é o desempenho da segurança pública.

Eliane Cantanhêde - Lula x Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Quem procura acha. A Polícia Federal usou um aparelho israelense de última geração para encontrar o que sabia que encontraria no celular do ajudante de ordens do então presidente Jair Bolsonaro, o tenente-coronel da ativa Mauro Cid: mais evidências e provas da tentativa de golpe, escondidas nas nuvens da internet. As que havia já eram suficientes, mas as novas, guardadas a sete chaves, reforçam o inquérito e complicam ainda mais os envolvidos.

Bolsonaro manteve as andanças e os atos pelo País, para segurar apoio popular, mas perde substância política, sai da eleição municipal com adversários consistentes dentro do seu próprio grupo e, além de inelegível, vai passar por poucas e boas na Justiça. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, deu mais 60 dias para as investigações da PF, que depois serão analisadas pela PGR e, mais cedo ou mais tarde, vão parar no Supremo em 2025. Barbas de molho…

Fernando Gabeira - Clima: um discreto tema de campanha

O Estado de S. Paulo

Temas como o enterramento dos fios e a descentralização da energia não foram ventilados. E se fossem talvez não bastassem para eleger um simples vereador

As mudanças climáticas tiveram pouco impacto nas eleições. Não foi por falta de evento extremo.

As inundações arrasaram Porto Alegre no início do ano; uma tempestade abalou São Paulo e trouxe um novo apagão, em pleno processo eleitoral.

Em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo é o favorito no segundo turno que se realiza domingo. Parece que tudo se resume a fortalecer as barreiras que impedem o Guaíba de transbordar na cidade. Em São Paulo, a crítica ao papel do prefeito foi reduzida à sua ineficácia em podar árvores.

Flávia Oliveira - Estado sequestrado

O Globo

O que era suspeita, alerta, aviso tornou-se comprovação escancarada. Porções cada vez maiores do território do Grande Rio estão sob controle de grupos armados. Chefes do crime não mais se intimidam nem com a presença nem com o poder de fogo de policiais, ora tão em risco quanto a população civil. Foi assim ontem, no Complexo de Israel, um conjunto de bairros do subúrbio carioca transformado pelo traficante Peixão em feudo, com direito a fossos à Idade Média para deter a entrada de blindados das forças do estado. Assim tem sido nas comunidades da Tijuquinha e da Muzema, na Zona Oeste, onde duas dezenas de ônibus já foram sequestrados, em uma semana, para formar barricadas contra os agentes do estado.

Não faltam estatísticas para expor a humilhação que o crime organizado impõe ao Estado do Rio, dia sim, outro também. Nas contas do Instituto Fogo Cruzado, a Avenida Brasil, principal via de acesso à capital fluminense, que se estende da Zona Oeste à área central, ontem foi cenário do 61º tiroteio do ano. No início da semana, o Rio Ônibus, sindicato das empresas do setor, contava 109 veículos sequestrados e oito incendiados apenas em 2024, na cidade do Rio. E segue contando.

Bernardo Mello Franco – A baderna de Castro

O Globo

Medo de violência não poupa nem os vizinhos do governador na Barra da Tijuca

Na quarta-feira, torcedores do Peñarol aterrorizaram a orla do Recreio à luz do dia. Os uruguaios saquearam lojas, atacaram banhistas e agrediram moradores do bairro, que revidaram ateando fogo a um ônibus de turismo. “Foi quase uma hora e meia de selvageria e vandalismo praticamente sem repressão”, registrou o portal g1.

Depois que as imagens já haviam corrido o país, o governador Cláudio Castro resolveu se manifestar nas redes sociais. Sem intenção de fazer piada, escreveu: “O Rio não é lugar de baderna”. Pelo que se viu nos últimos dias, teria sido melhor ficar calado.

Ontem um tiroteio interditou a Avenida Brasil, principal via expressa do Rio, por cerca de duas horas. Em pânico, homens, mulheres e crianças foram obrigados a rastejar no asfalto para escapar das balas. Três chefes de família não tiveram a mesma sorte. Paulo Roberto de Souza, motorista de aplicativo, Renato Oliveira, funcionário de um frigorífico, e Geneílson Ribeiro, motorista de caminhão, foram mortos. Todos com tiros na cabeça.

Cristovam Buarque* - Obrigado, Vladimir Carvalho

Brasilia perdeu nesta manhã um dos seus símbolos. Um nome do porte dos grandes que inventaram e construíram criaram nossa cidade. O Nordeste perdeu um dos seus filhos que nunca esqueceu suas raízes paraibanas. Brasil perdeu um dos mais importantes cineasta de nossa história, um documentarista que mostrou ao país como somos. A UnB perde um professor de imenso destaque, intimamente ligado à arte e cultura em geral. A sociedade brasileira perdeu um combatente que por décadas dedicou a militância à luta pela democracia, pela justiça social, pela paz, no heroísmo do antigo Partido Comunista, o PCB, na coerência do partido popular e socialista e agora na esperança do Cidadania. Nós, seus admiradores e correligionários, lamentamos muito esta imensa perda, com a tranquilidade de saber que ele morreu grande como viveu e com o compromisso de seguirmos seu exemplo mantendo viva sua luta.

Obrigado, Vladimir, pelos documentários que fez, pelo companheirismo que nos orgulhava, pela alegria e otimismo que inspirava, pelo exemplo que nos deixa. Obrigado e parabéns pela vida que soube viver.

*Presidente Regional do Cidadania/DF


Sérgio Moriconi* - O antes e o depois

Correio Braziliense

Uma das capacidades mágicas de Vladimir Carvalho era ser admirado e querido por todas as gerações que o seguiram. Vladimir nos deixou. Não, Vladimir não nos deixou. Quem viver verá

Ontem, a cidade amanheceu cinza e triste. Não era o fenômeno atmosférico comum à nossa chuvosa estação primaveril. Vladimir Carvalho havia falecido na madrugada deste 24 de outubro, depois de sofrer um infarte havia duas semanas. Alguns dias antes, experimentou uma das grandes alegrias de sua vida ao tomar conhecimento de que a sua Fundação Cinememória podia ser finalmente abrigada num dos espaços do Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB. Era uma luta solitária de décadas. Esse regozijo, quase júbilo, está documentado na entrevista que deu para a jornalista Márcia Zarur, momentos antes de sentir uma forte indisposição e ser, então, encaminhado para um hospital. Alegria e dor, paradoxo funesto. Ninguém de sua convivência entrevia o que estava para acontecer. Dinâmico, lúcido, saúde de ferro, Vladimir era o esteio, um dos dínamos da atividade cinematográfica em Brasília. 

Lilia Lustosa* - Vladimir Vorochenko dos Santos

Correio Braziliense

Vladimir Carvalho — ou Vorochenko, como era seu apelido entre os camaradas do cinema, em função de sua posição política de esquerda — era um cara simples, talentoso, dono de uma humildade cativante

Cidade do México, 24 de outubro de 2024. Acordei com a notícia da morte de Vladimir Carvalho. Imediatamente, senti a facada no peito. Aquela dor funda bem no lado esquerdo da gente. Ou seria no meio? Não importa, mas aquela dor tipo soco que nos toma de surpresa quando algo nos toca verdadeiramente. 

Imediatamente, comecei a pensar nos poucos encontros que tivemos, quer tenha sido de pura tietagem, como no Festival de Brasília, ou em ocasiões mais profissionais — ou acadêmicas — em que tive o privilégio de entrevistá-lo para minha tese de doutorado. Como objeto de estudo, eu usava uma de suas obras, Aruanda (1960), curta-metragem seminal do Cinema Novo, cuja autoria (de roteiro) havia sido tantas vezes questionada. Isso porque o diretor paraibano Linduarte Noronha não queria reconhecer a participação de Vladimir Carvalho e de João Ramiro Mello na concepção do roteiro. Mal sabia ele que seu colega dos tempos de cineclube, seu conterrâneo velho de guerra, iria conservar o roteiro original do filme, conservando-o orgulhosamente em seu Cinememória, espaço criado por ele, na W3 Sul, para salvaguardar a memória do cinema brasileiro. Uma verdadeira pérola para uma historiadora do cinema como eu.

Poesia | Quero, de Carlos Drummond de Andrade - voz de Paulo Autran

 

Música | Chico Buarque - As Vitrines