domingo, 8 de dezembro de 2024

Intentona sem pé nem cabeça - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Luta não se trava entre abstrações como classe e ideologia, e sim entre indivíduos

A reação popular e institucional ao autogolpe presidencial na Coreia do Sul suscita uma ponderação sobre a força da instituição no enfrentamento da trama golpista entre nós. Instituição, recorde-se, é um modo regulatório da vida social que funciona por um "fazer saber", constitutivo do processo de subjetivação. É o que fazem família, escola, religião e o próprio exército, instâncias pertinentes à convivência humana. Nelas Jean-Paul Sartre divisou uma característica contraditória, como conceito de algo inerte e, ao mesmo tempo, transformador.

Celebridade filosófica - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra a ascensão e o declínio das ideias de Henri Bergson, filósofo que ganhou Nobel de Literatura em 1927

Henri Bergson não é hoje um nome que se escuta com muita frequência fora dos círculos filosóficos, mas, nos anos 1910, ele era uma celebridade, do tipo Taylor Swift mesmo. Quem quisesse um bom lugar para assistir às suas aulas no Collège de France tinha de chegar com várias horas de antecedência.

O sucesso não estava limitado à França. Bergson também atraía grandes públicos na Inglaterra e nos EUA. Ele foi a causa do primeiro congestionamento de veículos registrado na Broadway em Nova York, em 1913.

O Rio de Janeiro precisa de uma “Grande Política” - Vagner Gomes de Souza*

O estado do Rio de Janeiro se esvaiu numa política conservadora desde que a “Lava Jato” local atingiu algumas figuras da política fluminense. Os partidos políticos do “centro político” se esvaziaram enquanto muitas “facções” oportunistas se fizeram presente como uma alternativa na política local. A falência financeira do estado é um problema crônico em que as soluções ganham espaço também na mediação do judiciário. Para agravar o cenário, uma “onda de violência” atingiu funcionários públicos da segurança estadual sem que tenhamos até hoje a dimensão de tamanha incidência num ente da federação. Veio uma intervenção da Segurança Pública estadual sob uma lógica sempre hobbesiana. Aqui, é o melhor cenário para se vislumbrar que o “o homem é o lobo do homem” a despeito da vitalidade cultural da sociedade e de nossos potenciais universitários.

Sucesso e fracasso das nações - Sérgio C. Buarque

Revista Será?

A prosperidade das nações é o resultado da formação de instituições inclusivas baseadas em um sistema democrático, com regras estáveis e seguras, com mecanismos que permitem que os cidadãos escolham os seus dirigentes e busquem livremente suas ocupações, adquiram educação e conhecimentos, e de instrumentos de distribuição igualitária de serviços públicos, com destaque para a educação. As nações que fracassam contam, ao contrário, com instituições extrativistas constituídas por regimes instáveis e pouco permeáveis, que desincentivam a inovação e os investimentos, convivendo com corrupção política e rede de apadrinhamento que favorecem a apropriação da riqueza por uma minoria e a distribuição desigual de acesso aos serviços públicos. Esta é a interpretação dos economistas que foram agraciados como o Prêmio Nobel deste ano – Daron Acemoglu, James A. Robinson e Simon Johnson. De acordo com o  Comitê do Prêmio Nobel em Ciências Econômicas, os três economistas proporcionaram “uma compreensão muito mais profunda das causas fundamentais do fracasso ou do sucesso dos países”, exposta no best seller “Por que as nações fracassam” (assinado por dois dos economistas premiados), publicado em 2012. 

Degradación de la política en el siglo XXI: de la impotencia al espectáculo - Daniel Fernández

El Diário (Espanha)

Trump ha sabido aprovechar como nadie la impotencia de la política democrática y las oportunidades que ofrece el nuevo sistema mediático. En este contexto, no es casualidad que Nayib Bukele sea ahora uno de los líderes de moda 

Cada vez que el Partido Demócrata pierde unas elecciones en Estados Unidos, resurge el debate sobre sus dificultades para conectar con los sentimientos e inquietudes del norteamericano medio. Desde la presidencia de Bill Clinton en los años noventa, quedó claro que el partido había adoptado un nuevo paradigma: la aceptación de las políticas económicas neoliberales como único camino viable. Este giro relegó la lucha por la igualdad como eje central del programa demócrata, que había definido su identidad desde el New Deal y, especialmente, durante la presidencia de Lyndon Johnson en los años sesenta. 

Comparar las políticas y discursos de aquella época, marcados por la Gran Sociedad y una agenda redistributiva, con las de los demócratas a partir de los noventa evidencia la derechización del espectro político estadounidense. Dicha evolución no solo distanció al partido de las clases populares, sino que contribuyó a un replanteamiento de la identidad progresista en favor de un enfoque más tecnocrático y centrado en las élites urbanas. Del mismo modo que Margaret Thatcher afirmó en 2002 que su mayor logro político había sido Tony Blair y el nuevo laborismo, Ronald Reagan bien podría haber dicho lo mismo respecto a Clinton. 

Poesia | O açúcar, de Ferreira Gullar

 

Música | Teresa Cristina - Positivismo (Noel Rosa)

 

sábado, 7 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Mundo ganha com acordo Mercosul-EU

O Globo

Num momento de avanço do protecionismo, tratado resgata benefícios do livre-comércio

O fim das negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) é um passo decisivo para o Brasil. Agora, além de trâmites burocráticos, o único risco que paira sobre a parte comercial do tratado — a mais relevante — são as pressões de bastidor para que seja rejeitado pelo Conselho Europeu ou pelo Parlamento Europeu. Mas, apesar da resistência empedernida de uns poucos países como França ou Polônia, é pouco provável que a iniciativa de 25 anos naufrague depois de tanto esforço.

Trata-se de uma enorme conquista para o Mercosul, para a UE e para o livre-comércio, tão combalido com o avanço do protecionismo. Ao longo do tempo, o impacto em geração de riqueza e crescimento deverá ser significativo. Apesar das mudanças em relação à versão preliminar de 2019, o acordo representa um avanço substantivo, resultado da persistência do Itamaraty ao longo de administrações de todas as inclinações ideológicas.

A economia não funciona sem o mercado – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O crescimento não é sustentável a médio prazo se continuar baseado na expansão do gasto e da dívida pública

Não há contradição entre o pibão e o dólar a R$ 6.

Não há contradição entre aplaudir o crescimento atual e manifestar preocupação com os próximos dois anos. Não há contradição entre a economia real e o mercado financeiro, como se este pudesse ir bem se o país estivesse em frangalhos. O mercado apoia a economia real.

Eis um exemplo: neste ano, as companhias aumentaram o financiamento tomado no mercado de capitais, mediante a emissão de debêntures ou outras operações. Investidores no mercado compram os papéis das empresas e ganham com isso. As companhias se financiam a prazo mais longo e a juros menores que nos bancos.

Bobagem, portanto, dizer que o mercado financeiro joga contra o país real. Isso seria jogar contra as empresas, participantes vitais do mercado como tomadores ou investidores. 

Seattle, 25 anos – Pablo Ortellado

O Globo

Ardor ativista dos anos 1990 e 2000 parece ter colaborado para as profundas e perigosas transformações que vivemos

Vinte e cinco anos atrás, protestos contra a rodada do milênio da Organização Mundial do Comércio pararam a cidade de Seattle, nos Estados Unidos. Na época, os protestos foram vistos como um divisor de eras. O historiador inglês Eric Hobsbawm havia dito que o breve século XX começava com a Primeira Guerra Mundial e terminava com a queda do Muro de Berlim. O sociólogo francês Edgar Morin disse então, em artigo no jornal Le Monde, que o século XXI começava em 1999, com Seattle. Hoje, essa história parece esquecida, mas seus efeitos, visíveis e invisíveis, permanecem estruturando o tempo presente.

Seattle foi o símbolo de um movimento mais amplo que começou um pouco antes, em 1994, com a revolta de Chiapas, no México. Em janeiro daquele ano, indígenas que se identificavam como zapatistas tomaram a cidade de San Cristóbal de las Casas em protesto contra o Nafta, acordo de livre-comércio entre Canadá, México e Estados Unidos. O governo mexicano preparou uma reação armada ao levante, mas a mobilização da sociedade civil mexicana impediu um massacre.

O Fefaetiapá® - Eduardo Affonso

O Globo

Ministério da Saúde tomou para si o encargo de propagar picaretagens etimológicas, a título de luta antirracista

Já deveria estar no calendário de eventos da Embratur: em fevereiro (ou março) tem carnaval; em abril, a Alvorada de São Jorge, em Quintino; em junho, o Festival Folclórico de Parintins e o São-João de Campina Grande; em outubro, a Oktoberfest e, em novembro, o Festival de Falsas Etimologias.

Normalmente bancado com verbas públicas, o Fefaetiapá® (Festival de Falsas Etimologias que Assola o País) celebra a disseminação e consolidação das FNBs (Fake News do Bem), um tipo de desinformação inclusiva, empática, que goza de imunidade. Não está na mira do STF, não precisa ser removida das redes sociais e recebe o selo de garantia de ministérios públicos, universidades federais, tribunais de Justiça.

Neste ano, foi o Ministério da Saúde. Talvez por não precisar se preocupar com gerenciamento de vacinas, epidemia de dengue, doenças dizimando ianomâmis, falta de medicamentos contra o câncer de mama ou aumento dos casos de aids, o MS tomou para si o encargo de propagar picaretagens etimológicas, a título de luta antirracista. É que deve ser muito mais fácil proteger o cidadão de termos como “inhaca” do que contra o bacilo de Koch (65,2% dos casos de tuberculose no Brasil foram registrados na população negra, mas isso não deve ter nada a ver com desigualdade, racismo estrutural etc.).

Da Coreia à França, a crise das democracias - Fareed Zakaria

Washington Post / O Estado de S. Paulo

As pessoas estão cada vez mais desconfiadas das instituições tradicionais e das elites que as dirigem

A democracia liberal foi marcada por ênfase em procedimentos, não em resultados

Foi uma semana e tanto em todo o mundo. O presidente da Coreia do Sul colocou o país sob lei marcial, mas foi rejeitado pelo Parlamento. Na França, o primeiro-ministro e seu governo receberam um voto de não confiança pela primeira vez em mais de 60 anos. Esses eventos distintos têm um tema subjacente comum: uma crise das instituições democráticas.

Aparentemente, a Coreia do Sul é uma incrível história de sucesso. Sua economia cresceu mais de 5% por cinco décadas consecutivas, um recorde igualado apenas por Taiwan. O país hoje é mais rico que o Japão em termos de PIB per capita. Ainda assim, foi abalado por profunda polarização e batalhas políticas.

Cultura do horror - Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

Como se normalizou o descaso para com o processo democrático, não se reagindo à prática da violência política, tanto nos EUA como aqui?

A sociedade civil organizada bem vislumbrou a vocação autoritária de Jair Bolsonaro ao longo do exercício de seu mandato. Desde 2020, diversos e relevantes setores sociais denunciaram o golpismo, reafirmando os valores da democracia.

Em muitos manifestos anotava-se estar a Nação exausta do clima artificial de confronto, proclamando-se: “A sociedade brasileira é garantidora da Constituição e não aceitará aventuras autoritárias”.

Bolsonaro veio empreendendo intensa luta contra as urnas eletrônicas, alcançando o cume no ato de 7 de setembro de 2021, na Avenida Paulista, no qual chegou a dizer que não cumpriria ordem da Justiça Eleitoral e “só sairia da Presidência preso ou morto”, além de que sem voto impresso “não haveria eleições”.

A esquerda perdeu? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Apesar de insucessos eleitorais, esquerda parece ter triunfado ao emplacar teses que se tornaram o pensamento convencional

Há uma espécie de consenso de que a esquerda está em crise. Ela ainda obtém vitórias eleitorais em alguns países, como o Uruguai e o México, mas experimentou recentes reveses em vários outros, como Estados Unidos e Argentina. A esquerda estaria com dificuldades para adaptar seu discurso para os tempos atuais.

Não discordo da necessidade de atualização da pauta, mas receio que o quadro seja mais complexo. Dependendo da medida escolhida, dá para dizer que a esquerda triunfou.

Quem me chamou atenção para isso foi José Eli da Veiga, que me mandou uma interessante discussão entre o cientista político francês Vincent Tiberj e o ex-ministro da Educação Jean-Michel Blanquer travada nas páginas do Le Monde.

Feitiço contra o feiticeiro – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Tarcísio se arrisca a perder apoio da população ameaçada pela brutalidade policial

De quantos casos "isolados" o governador Tarcísio de Freitas vai precisar para se render à evidência de que há uma crise na administração da segurança pública em São Paulo? Quantos abusos "pontuais" serão necessários para ele aceitar que a brutalidade por parte de agentes do Estado é inaceitável?

Talvez essa tomada de consciência ocorra quando, e se, a sociedade perceber que qualquer um do povo pode ser vítima da violência desmedida de policiais pagos para protegê-la, e disso decorra uma queda na avaliação positiva de seu governo.

Há golpistas de todos os tamanhos e estilos – Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Bolsonaro convocou um 171 clássico para agir em parceria com os militares aloprados

A tese segundo a qual o Brasil é o país do golpe (e não o do jeitinho, que era uma noção romântica de nós mesmos) cada dia ganha mais evidência. O golpismo representa uma força de trabalho impressionante, brava gente brasileira escolada na arte de falar javanês e na ciência de transformar ossos em ouro.

Ninguém escapa de ser enganado. Tido como gênio do mercado financeiro e ostentando nas redes para atrair incautos, o ex-soldado da PM Djair de Araújo embolsou R$ 30 milhões de seus colegas de farda. Até os temidos "caveiras" do Bope dançaram. Com a promessa de pagar dividendos que alcançariam 5% do valor investido, policiais venderam imóveis e contraíram empréstimos para despejar entre R$ 300 mil e R$ 500 mil nas contas de uma empresa fajuta. Era um esquema de pirâmide, que ruiu.

O senhor da guerra- Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Alternativa para conflito em Gaza encontra-se na proposta árabe de paz

"Imagine um apocalipse. Você olha à direita, à esquerda, tudo que vê são edifícios destruídos, danificados por fogo, por mísseis, tudo. É Gaza, bem agora." Yuval Green, 26, reservista de Israel, atendeu ao chamado às armas no rastro do 7 de outubro, mas decidiu dar um basta e explicou seu motivo moral à BBC. Ele entendeu que a guerra já não é sobre reféns ou o Hamas. E, depois de contemplar o apocalipse, talvez algum colega tenha lhe contado: Netanyahu, o senhor da guerra, pretende ficar em Gaza.

O Corredor de Netzarim, com cerca de 7 km de comprimento e de largura, corta a Faixa de Gaza do Mediterrâneo à fronteira israelense, pouco ao sul da Cidade de Gaza. Imagens de satélite mostram que as forças de Israel destruíram centenas de edificações situadas ao longo do corredor, dando lugar a 19 bases e dezenas de postos militares. O senhor da guerra tem um plano para o pós-guerra: girar os ponteiros do relógio para antes de 2005, quando Israel retirou suas forças e seus assentamentos da Faixa de Gaza.

O Direito à Preguiça - Marcus Pestana

Paul Lafargue, escritor e jornalista revolucionário franco-cubano, genro de Karl Marx, cuja obra foi o marco fundador do pensamento marxista, escreveu, no final do século XIX, O DIREITO A PREGUIÇA. Na epígrafe do primeiro capítulo cita Lessing “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos”. E abre seu texto dizendo: “Uma estranha loucura se apossou das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua progenitora. Em vez de reagir contra essa aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho” ...... “Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica”.

Fio da navalha – André Barrocal

CartaCapital

Entre a ira do mercado e a chantagem do Centrão, o governo busca um alívio para a segunda metade do mandato

O governo discutiu por dois meses medidas de controle de gastos públicos antes de o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciar as linhas gerais em cadeia de rádio e tevê na noite de 27 de novembro e detalhá-las em uma coletiva de imprensa no dia seguinte. O pacote contém propostas dolorosas para um presidente eleito e apoiado principalmente pelos mais pobres. Contenção do aumento no salário mínimo, redução do número de beneficiários do abono salarial, pente-fino em programas sociais. Um ministro que participou no gabinete presidencial de reuniões preparatórias do plano afirma: Lula sempre deixou claro que o peso do ajuste não poderia cair apenas nas costas do povão. A tentativa de barrar supersalários no serviço público, a gastança parlamentar com verbas do orçamento e alguns privilégios das Forças Armadas foi pensada para repartir o ônus dos 70 bilhões de reais de ajuste fiscal nos dois últimos anos de Lula. “Queríamos que todo mundo pagasse a conta, mas nenhuma medida pegava o andar de cima”, diz uma testemunha dos acontecimentos.

Sem bufunfa no colchão - Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Apostas em outras moedas e nas taxas de juro podem ser também, como o são realizadas em reais na Terra Brasilis

Na mítica trilogia épica, Indiana Jones, nosso arqueólogo corre desesperadamente atrás da Arca da Aliança e o Santo Graal. Assim como Indiana, nossos “especialistas” procuram neuroticamente o dinheiro nas “arcas” dos mercados!

O dinheiro não está lá, mas exerce seus poderes nas altas esferas da abstração ­real. Suas poderosas funções – unidade de conta, meio de troca e de pagamento, reserva de valor – escaparam das algemas da imediatidade material e buscam realizar o seu conceito em formas cada vez mais ideais e abstratas.

Violência sem limites - Aldo Fornazieri

CartaCapital

Partidos e parlamentares comprometidos com a democracia, assim como a sociedade civil, precisam dar um basta à brutalidade policial em São Paulo

A sociedade tem se deparado, nas últimas semanas, com cenas de violência policial assustadoras e inaceitáveis. Quem paga a polícia são os cidadãos e o pressuposto deveria ser o de que ela tem de proteger a sociedade, e não executar, assassinar pessoas desarmadas e inocentes.

Em 5 de novembro, o menino Ryan da Silva Andrade Santos, de apenas 4 anos, foi morto em uma operação policial no litoral paulista. Na madrugada do dia 20, o estudante de Medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta foi executado à queima-roupa na escadaria de um hotel na capital. Nos últimos dias, apareceram vídeos que mostram um policial à paisana executando Gabriel Renan da Silva Soares com vários tiros pelas costas, após o jovem negro furtar três pacotes de sabão líquido. O PM foi apenas afastado das funções, quando a Justiça deveria ter decretado a sua prisão.

Poesia | Poema das sete faces, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Geraldo Azevedo: Estou em Paz (Geraldo Azevedo e Sergio Peres)

 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Avanço contra pobreza e miséria merece celebração

O Globo

Para que queda de ambas se consolide, porém, governo precisará fazer bem mais do que tem feito

O Brasil registrou avanço significativo no combate à pobreza e à miséria, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2023, ambas caíram aos menores índices da série histórica iniciada em 2012. A proporção de pobres na população foi de 36,7% no ápice — período da pandemia — para 27,4%. A pobreza extrema, de 9% para 4,4%. Estimativas da FGV Social sugerem que a fatia de pobres e miseráveis na população nunca foi tão pequena. Como, apesar da queda, os contingentes ainda são enormes, o combate às duas chagas históricas não pode esmorecer. Para que a tendência se consolide, o governo precisará fazer bem mais do que tem feito.

Dois fatores foram responsáveis pelos resultados positivos. O primeiro foi a redução do desemprego. A desocupação caiu de 8,8% no primeiro trimestre de 2023 para 7,9% um ano depois. A massa salarial, descontada a inflação, cresceu 6,6%, e o rendimento médio subiu 4%. Para a população vulnerável, mais dinheiro no bolso é a diferença entre a pobreza e uma vida mais digna. Mas a previsão é que o crescimento econômico que embalou a geração de emprego e renda arrefeça.

O julgamento do ano - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

É uma questão que não se pode arrastar. É preciso resolver de uma vez a constante reaparição da variável autoritária na política brasileira

Apesar de imprevisível, o Brasil já tem um importante roteiro político para o ano que entra. É o julgamento do processo de tentativa de golpe, envolvendo militares e Jair Bolsonaro.

Em fevereiro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) deve apresentar a denúncia. É o mais provável, embora tenha também a prerrogativa de pedir novas investigações. Essa denúncia pode englobar ou não os três temas: desvio de joias, falsificação de vacinas e tentativa de golpe. No caso das vacinas, podem ser vistas como um instrumento necessário para a fuga. No entanto, as joias aparecem mais como uma espécie de fundo de horror para a travessia do deserto. Mas nunca se sabe se os fatos serão entrelaçados ou se estaremos diante de três processos distintos.

A economia real e o humor do mercado - Vera Magalhães

O Globo

Governo faz discurso binário de que ente maldoso não se preocupa com os pobres, mas conhece lógica que dita pé atrás com a política fiscal

Os dados positivos de vários indicadores macroeconômicos e sociais animaram Lula e ministros a reforçar o discurso de que há desconexão entre o mau humor do mercado financeiro com as decisões de política econômica, sobretudo fiscal, e a economia real. É o tipo de contraposição que funciona bem em discursos, rende argumentos para os defensores do governo no Congresso e na conversa de redes sociais, até pode indicar um caminho para recuperar a avaliação do presidente nas pesquisas de opinião, mas não é fidedigna, por opor variáveis distintas e esconder que o desequilíbrio fiscal pode, sim, comprometer os ganhos a respeito dos quais o governo bate bumbo na outra ponta.

Plano B de Bananinha - Bernardo Mello Franco

O Globo

Declaração indica que ex-presidente só apoiará quem tiver seu sobrenome

Eduardo Bolsonaro foi a Buenos Aires tirar uma selfie com Javier Milei e visitar aliados do pai na cadeia. Depois da incursão carcerária, deu um recado sobre a eleição presidencial de 2026. “O plano A é Bolsonaro. Posso ser o plano B”, disse.

Com cinco palavras, o Zero Três se autoproclamou candidato ao Planalto. A frase joga luz sobre a estratégia eleitoral do clã.

Jair Bolsonaro, o plano A, está inelegível até 2030. Foi condenado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral. Com o capitão fora do jogo, abriu-se um espaço para novos competidores no campo da direita.

A declaração de Eduardo indica que a família só admite uma alternativa ao patriarca se ela também usar o sobrenome Bolsonaro. Isso limita as opções a quatro nomes: Flávio, Carlos, Eduardo e Michelle.

Entre o inferno e o céu - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Para o mercado, tudo é um desastre; na vida real, milhões de brasileiros saem da miséria

No mesmo dia, a pesquisa Genial/Quaest e o IBGE nos confirmaram duas realidades: no setor financeiro, que detesta o presidente Lula, 96% consideram que a economia vai mal; milhões de brasileiros, porém, vêm sendo tirados da miséria pelos programas sociais e justamente pelo aquecimento da economia, do emprego e da renda.

Sim, a inflação ultrapassou a meta, os preços absurdos são um dos grandes temas nacionais, os juros vão continuar subindo e Lula tem dificuldade com equilíbrio fiscal e em assimilar a importância do corte de gastos para os pobres, o País e o sucesso do seu governo. Tudo isso é verdade, mas a economia está tão desastrosa como diz o mercado?

A função da redução da jornada de trabalho - José de Souza Martins

Valor Econômico

A questão não é liberar o trabalhador apenas para a família e para a religião, mas para as atividades que saciem nossa fome secular de saber e nos libertem da ignorância que nos barateia e nos oprime

O projeto de emenda constitucional que reduz a semana de trabalho de seis para quatro dias, apresentado pela deputada federal Erika Hilton, em vez de um debate sobre o que é de fato a questão social do trabalho na economia moderna e na perspectiva das carências extraeconômicas dos trabalhadores, gerou uma celeuma unilateral sobre os prejuízos dos empregadores.

O Brasil adotou a jornada de oito horas de trabalho em 1908, há 116 anos portanto, para atalhar os imensos abusos que havia em nossa indústria nascente: sete dias de trabalho por semana, 12 horas por dia, sem distinção entre homens e mulheres nem entre adultos e crianças. Os mestres de seção de fábrica ainda se achavam no direito de bater nas crianças operárias para discipliná-las.

Centrão cobra de Lula fim do ‘governo de amigos’ - Andrea Jubé

Valor Econômico

Em fevereiro, presidente terá de recompor o ministério para formar um time totalmente alinhado ao seu projeto de reeleição

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Hermes Lima, morto em 1978, e citado nesta coluna na semana passada, dizia que política “é uma atividade para pecador, e pecar é uma das atividades mais fascinantes, contraditórias e perturbadoras que o ser humano pode exercer”.

Aposentado compulsoriamente pela ditadura militar em 1968, pelo AI-5, Lima transitou antes pela política. Foi deputado federal, ministro do Trabalho e chanceler do governo João Goulart. Em uma entrevista de 1977, declarou que o cargo de ministro foi “extraordinário”, mas não tinha a “excitação e os imprevistos” que a vida de deputado proporcionava.

Congresso peleja com STF mas colabora com pauta do governo - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Pacote de votações foi destravado a despeito da decisão do ministro Flávio Dino sobre as emendas parlamentares

Foi apertado, mas a urgência do pacote fiscal passou. E não apenas. A Comissão Mista de Orçamento aprovou, no mesmo dia, o relatório da Lei de Diretrizes Orçamentárias. A votação em plenário, que deveria ter acontecido em julho, está prevista para o dia 18, liberando a votação do Orçamento entre Natal e Ano Novo. E, finalmente, a leitura do parecer sobre o projeto de regulamentação da reforma tributária foi marcada para segunda na Comissão de Constituição e Justiça com votação prevista na quarta.

Todo esse pacote de votações foi destravado a despeito da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que reafirmou a necessidade de apresentação de um plano de trabalho ao Executivo como condição para a liberação das emendas Pix, o veto à camuflagem na autoria individual das emendas de comissão com a titularidade dos líderes partidários sobre as rubricas e a limitação dos montantes às regras do arcabouço fiscal.

Violência policial pôs Tarcísio na berlinda – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, transformou a cultura de truculência policial na centralidade de sua política de segurança

Existe uma cultura de violência policial no Brasil que precisa ser estudada e combatida pelo próprio sistema de segurança, porém, isso se torna mais difícil porque foi banalizada. Encontra apoio em parte da população e se tornou uma bandeira eleitoral que levou ao poder políticos, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Uma cultura diretamente relacionada ao passado escravocrata do país, como também acontece nos Estados Unidos, e que normatiza as relações entre a polícia e a população pobre das periferias. Negros e pardos são tratados como suspeitos, e não como cidadãos.

Um velho samba de 1938, de autoria de Tio Hélio e Nilton Campolino, cantado nos terreiros do Morro da Serrinha e de Madureira, berço do Império Serrano e da Portela, respectivamente, traduz a mentalidade policial da época, na voz de Zeca Pagodinho: "Delegado Chico Palha/ Sem alma, sem coração/ Não quer samba nem curimba/ Na sua jurisdição/ Ele não prendia/ Só batia/ Era um homem muito forte/ Com um gênio violento/ Acabava a festa a pau/ Ainda quebrava os instrumentos".

São Paulo sem moderação – Flávia Oliveira

Não só as estatísticas, mas a sucessão de casos isolados (no plural) escancara a política de segurança do governador bolsonarista de São Paulo. Faz oito meses que Tarcísio de Freitas declarou alto e bom som que não se importava com a denúncia ao Conselho de Direitos Humanos da ONU contra a escalada da violência policial em seu primeiro ano de mandato.

Sem moderação.

Desde o início de 2023, um mosaico de episódios emblemáticos de brutalidade sugere que as forças de segurança do estado estão autorizadas a barbarizar. Um relatório elaborado pela Ouvidoria de Polícia de São Paulo — em conjunto com organizações da sociedade civil e movimentos de defesa dos direitos humanos — mostrou que, de julho de 2023 a abril deste ano, as operações Escudo e Verão deixaram 84 mortos. Foram as ações mais letais do estado desde o massacre de 111 presos do Carandiru, há 32 anos.

Nada relativizam violência da PM paulista - César Felício

Valor Econômico

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), levanta um critério objetivo para justificar a manutenção no cargo do secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite. Os indicadores de criminalidade em São Paulo estão melhorando, de acordo com o governador. A letalidade policial é baixa, o que relativizaria o descontrole evidente das ações da Polícia Militar, reconhecido pelo próprio Tarcísio

Aos números: desde que Tarcísio assumiu o cargo, é fato que São Paulo apresenta redução contínua do mais confiável dos indicadores, o da taxa de homicídios dolosos. Mas não apenas São Paulo: 18 dos 27 Estados estão com esse índice em queda. É um fenômeno nacional. São Paulo tem a menor taxa do Brasil, constatação que não apresenta novidade. Desde o governo Serra (2007-2010) é assim.

Ricos querem sair de fininho do baile do ajuste fiscal - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Conflito distributivo chega às vias de fato com reação de juízes, procuradores, militares

Justiça e Ministério Público passaram a bater em público na tentativa do governo de conter supersalários, parte do pacote Lula-Haddad. No fundo, é mais um movimento de resistência a tantas tentativas de limitar penduricalhos que elevam a despesa com servidores. É mais uma reação à tentativa de limitar gastos com Legislativo, Judiciário e Ministério Público, não apenas na esfera federal, instituições que despendem relativamente mais que seus pares em outros países. É outra manifestação dos mais ricos contra planos de arrumar as contas dos governos. A mesma gente que pede "responsabilidade fiscal" e pimenta nos olhos dos outros.

O conflito distributivo mais e mais chega às vias de fato, pois as contas públicas estão em situação crítica e, de resto, apareceu um governo que, mal ou muito mal, quer fazer o dito ajuste também tirando dinheiros de ricos.

Tarcísio não está nem aí para matança e barbárie policial - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Acossado por crônica sangrenta e descontrole, governador vai tentar abafar efeitos, não combater as causas

"Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU [Organização das Nações Unidas], pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí."

As famosas palavras do governador Tarcísio de Freitas foram pronunciadas no início de março, em resposta às denúncias de abusos policiais em operações no litoral, que chegaram às Nações Unidas.

Levantamento feito pelo Instituto Sou da Paz mostrou que, nos primeiros oito meses deste ano, 441 pessoas foram mortas no estado por agentes de segurança em serviço, contra 247 no mesmo intervalo no ano passado. É uma alta de 78%.

Fascistas normalizam o bolsonarismo? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Questões que alimentam as guerras culturais podem ser resolvidas ou pelo menos iluminadas por uma análise da linguagem

Alguns representantes do positivismo lógico já acalentaram a ideia de que todos os problemas filosóficos seriam na verdade problemas linguísticos, que poderiam ser resolvidos com uma readequação da linguagem. Como projeto totalizante, essa ideia fracassou, mas daí não se segue que não existam problemas filosóficos que podem ser solucionados ou ao menos iluminados por uma análise da linguagem.

Donald Trump é fascista? A mídia normaliza líderes autoritários? Existe bolsonarismo moderado? Penso que essas três perguntas e as múltiplas respostas que comportam se alimentam de confusões linguísticas, mais especificamente da polissemia de seus termos principais.

Os quepes pelos coturnos – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A obsessão pelas siglas e abreviaturas em seus comunicados pode ter frustrado o golpe dos militares

Woody Allen contou certa vez que a Revolução Russa, que já era para ter acontecido desde o encouraçado Potenkim, em 1905, só se realizou, em 1917, depois que os bolcheviques descobriram que o czar e o tzar eram a mesma pessoa. É no que dá depender de siglas e abreviaturas para definir alguém ou alguma função.

Os militares, por exemplo, abusam desses recursos em suas comunicações, seja por cacoete profissional ou para manter suas intenções a salvo de paisanos enxeridos. Foi o que pode ter se voltado contra eles na sua mais recente tentativa de golpe de Estado. Usaram tantas abreviaturas e siglas em tantas trocas de comunicados que acabaram metendo os quepes pelos coturnos e o golpe lhes saiu pela culatra.

Poesia | Vinicius de Moraes - Os Acrobatas

 

Música | Xande Canta Caetano - Força Estranha