domingo, 19 de março de 2023

Luiz Sérgio Henriques* - ‘A rosa de Hiroshima’

O Estado de S. Paulo.

Mal podemos imaginar o grau de beligerância num mundo em que autocratas dos mais variados coturnos conseguissem acesso irrestrito às alavancas e às salas de comando

Desde 1945 imagens de “crianças mudas telepáticas” e de “meninas cegas inexatas”, entre outras, passaram a indicar, de modo irrevogável, a possibilidade de autodestruição da humanidade sob a nova condição atômica. E a tal ponto que a ameaça absoluta representada pelo cogumelo obsceno – a “rosa com cirrose”, na intuição de Vinícius de Moraes – seria percebida por políticos responsáveis de todas as correntes. A partir daí o gênio não voltaria mais à garrafa de origem e vez por outra nos assombraria. Em alguns momentos, como na crise cubana dos mísseis, escapamos por um triz.

Talvez surpreenda hoje a afirmação de que um líder comunista, forjado nos anos de ferro e fogo, tenha apreendido tal ameaça em toda a sua extensão e complexidade. Palmiro Togliatti, respeitado dirigente do antigo Partido Comunista Italiano (PCI), nos anos 1950 e 1960 do século 20 interpelaria em variados momentos a cultura católica “adversária”, buscando um terreno comum a partir do qual a “luta pela paz” saísse da esfera instrumental – inclusive da parte dos comunistas – e empolgasse multidões mundo afora.

Para Togliatti, a guerra já não era a continuação da política por outros meios, mas, antes, a abolição desta mesma política e, como consequência, “o possível suicídio de todos”. A Igreja de Constantino começava a definhar com os bons ares do Concílio Vaticano II e o tempo dos anátemas devia ficar progressivamente para trás. Seria, então, a hora do “diálogo” entre cristãos e marxistas, estes últimos, ainda por cima, chamados a deixar de lado aspectos ultrapassados da sua visão das religiões, herdados do iluminismo do século 18 e do materialismo do século 19.

Dorrit Harazim - Nada de novo

O Globo

Livros não são objetos mortos. Contêm uma potência de vida tão vibrante quanto a alma que os criou

Felizmente, nem tudo pode estar em todo lugar ao mesmo tempo, como pretende o filme multicampeão de Oscars de 2023. Há coisas que merecem ser contadas com vagar para ser sorvidas em profundidade. Assim fez Erich Maria Remarque quase cem anos atrás ao publicar sua obra-prima literária “Nada de novo no front”. A primeira edição, de 1929, esgotou-se no mesmo dia e, ao final daquele ano, mais de 1 milhão de cópias já haviam sido lidas com reverência. Até hoje Remarque continua sendo, ao lado de Goethe, o escritor de língua alemã mais lido no mundo.

O livro, como se aprende na escola, é baseado na vivência do autor como soldado na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O narrador é um jovem recruta, Paul Bäumer, que parte para a guerra voluntariamente ao lado de colegas de classe. Encontra a face do horror daquela que, com razão, é chamada de “A Grande Guerra”. No livro, combatentes se arrastam em trincheiras de lama e sangue, convivem com restos humanos pendurados em arame, cavalos são esturricados por bombas, explodem feio, e a soldadesca, ora faminta à beira da loucura, ora convulsionada por gases venenosos, vai silenciando. Poucos saem da narrativa com vida. O próprio protagonista, Bäumer, morre poucos dias antes da assinatura do Armistício que, na vida real, pôs fim à carnificina de mais de 40 milhões. Foi todo um mundo que ruiu e que Erich Maria Remarque compreendeu e descreveu sem retórica.

‘Ameaça comunista’ ronda 44% dos brasileiros

Por Nicolas Iory e Bianca Gomes / O Globo

Tema disseminado pela extrema-direita e frequente dos discursos de Bolsonaro, mudança de regime no país é uma hipótese totalmente plausível para 31%, enquanto 13% concordam em parte

Alardeado pela extrema-direita no mundo e tema recorrente nos discursos de Jair Bolsonaro mesmo antes de ocupar a Presidência, a hipótese de instalação de um regime comunista preocupa uma parcela dos brasileiros — ainda que a queda do Muro de Berlim, símbolo da derrocada do modelo, tenha ocorrido há pouco mais de 33 anos. Segundo o Ipec, a chance de um regime ao estilo soviético ser instaurado é plausível para 44% dos brasileiros.

No ano passado, ao longo da campanha, Bolsonaro associava o “risco” à vitória de Lula. Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump e outros representantes do Partido Republicano usavam o mesmo expediente contra Joe Biden, vitorioso no pleito de 2020. A pesquisa mostra ainda que, no Brasil, 31% concordam totalmente com a afirmação de que o comunismo pode vigorar no país; 13% dão aval em parte, enquanto 48% discordam total ou parcialmente da possibilidade.

— A maior parte das pessoas associa o comunismo na América Latina com as situações de Venezuela e Cuba, combinações de um regime autoritário com realidades como fome e desabastecimento. Isso esteve muito presente nas narrativas do Bolsonaro — diz a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Em setembro de 2022, em Sorocaba (SP), Bolsonaro chamou Lula de “capeta” e disse que o petista queria “impor” o comunismo no Brasil. Não à toa, a pergunta “o que é comunismo?” foi a que mais cresceu em uma das categorias nas pesquisas dos brasileiros no Google no ano passado.

Merval Pereira - De volta para o futuro

O Globo

Inteligência artificial conseguirá reproduzir a realidade?

Nos sentimos envelhecer quando, além da redução das capacidades físicas, presenciamos o início de processos que mudaram a vida do país e do mundo. Nasci em 1949, e de lá para cá usei diversas moedas: Cruzeiro; Cruzeiro Novo; Cruzeiro novamente; Cruzado; Cruzado Novo; Cruzeiro de novo: Cruzeiro real e Real. Passando pelas tablitas e o URV. Todas acompanhadas de sucessivas crises políticas e econômicas.

Também no jornalismo acompanhei mudanças radicais, como a passagem do linotipo de chumbo à era digital. As notícias que transmitíamos através de mensageiros ou telex, hoje podem ser enviadas pelo celular. Celulares, aliás, que foram sendo reduzidos de tamanho, assim como os computadores, enquanto aumentam exponencialmente sua capacidade.

O primeiro celular que vi foi com um correspondente estrangeiro, em Brasília. Era um tijolão, com uma antena enorme. Tenho ainda em casa um Macintosh Classic modelo 1991 que, ao lado de uma Remington do pós-guerra, me lembram do passado enquanto teclo um IPad última geração. A primeira telefoto a cores foi publicada no caderno de Esportes do Globo em 1979, de Recife para o Rio, num jogo do Flamengo. Mas, antes disso, a telefoto em preto e branco já representava uma evolução espantosa.

Bernardo Mello Franco - Vale a pena ver de novo

O Globo

Com pressa para apresentar resultados, presidente relança vitrines de governos petistas

Lula está com pressa. Na terça-feira, o presidente disse aos ministros que o mandato é “muito curto”. Acrescentou que quatro anos passam “rapidíssimo” para quem está no poder. “Nós não temos muito tempo para ficar pensando no que fazer. Temos que fazer”, cobrou.

O petista está preocupado com o calendário. Sabe que se aproxima dos cem dias de mandato. A data costuma marcar o primeiro balanço de um novo governo. É quando a imprensa e a sociedade começam a comparar o que foi prometido ao que foi entregue.

Lula informou que deve celebrar a efeméride com um pronunciamento na TV. Se o discurso fosse ao ar hoje, teria ares de “Vale a pena ver de novo”. Até aqui, o governo apresentou poucas novidades. Preferiu apostar na reciclagem de velhos programas.

Em fevereiro, o presidente relançou o Minha Casa Minha Vida. No início de março, recriou o Bolsa Família. Na semana passada, ressuscitou o Pronasci. Amanhã fará uma solenidade para anunciar a volta do Mais Médicos.

Elio Gaspari - Franklin recuperou a voz da rua

O Globo

Está nas livrarias “Quem foi que Inventou o Brasil?”, do jornalista e ex-ministro Franklin Martins. A pergunta é do compositor Lamartine Babo em 1934 e, na resposta de Franklin, o povo canta. Nesse volume, ele coletou 296 canções, indo da Independência à República, com algumas dezenas tratando da escravidão e do racismo.

A história de Pindorama deve muito à música. Basta dizer que o Hino da Independência tem letra de um jornalista político (Evaristo da Veiga) e música de D. Pedro I. Graças à música, conhece-se também o “Batuque de Palmares”, tão candidato que foi proibido em 1839:

“Folga nego, branco num vem cá

Se vié, pau há de levá”.

Com a colaboração de João Nabuco ao piano, foram trazidas de volta inúmeras canções, inclusive as “Cantigas Báquicas”, compostas em 1826 por José Bonifácio de Andrada, o poderoso ministro da Independência, exilado na França. Episódios que o andar de cima trata com gravidade; no de baixo as coisas eram mais simples. Quando o Banco do Brasil quebrou, em 1829, a rua cantava “piolhos, ratos e ladrões”. Quase meio século depois, quando quebrou um grande banco privado do Rio, cantava-se:

“E quem há de nos valer

Em momento tão sinistro?

Ah! Já sei, corramos todos

Ao palácio do ministro.”

Celso Rocha de Barros – A esquerda e o mercado

Folha de S. Paulo

Mercado só enxerga problema quando vira gasto

Uma pesquisa Genial/Quaest revelou que 98% dos gestores de mercado (em uma amostra de 82) reprovam os rumos da política econômica de Lula. A primeira coisa a ser dita é que se os 2% de gestores que discordam estiverem certos devem fazer uma boa grana nos próximos anos.

Em um certo sentido, o resultado da pesquisa era de se esperar. Os gestores de fundos certamente estão entre os 1% mais ricos da população, que não é território eleitoral fértil para a esquerda. E seria ridículo não reconhecer que os gestores, como todos os outros seres humanos, têm suas opiniões políticas.

Por exemplo, esta coluna está desde dezembro perplexa com o pessoal do mercado que achava que Haddad era um radical. Hoje não parece haver ninguém que ache isso, mas Haddad não mudou, o mercado é que se rendeu às evidências.

Aliás, bom lembrar: boa parte da turma que hoje tem medo de que "Lula não deixe Haddad trabalhar" teve a chance de eleger Haddad presidente em 2018. Ao invés disso, preferiram votar em um muambeiro genocida e golpista que quebrou o país e fugiu pra Disney.

Isso não quer dizer, entretanto, que a esquerda e o mercado nunca possam estar de acordo um com o outro, ou que a esquerda não cometa erros que reforçam a percepção ruim do mercado sobre ela.

Bruno Boghossian - Uma oposição doméstica

Folha de S. Paulo

Como não há força consistente de centro-direita, objeções à política econômica aparecem na esquerda

Quando foi torpedeado por petistas na briga dos combustíveis, Fernando Haddad disse que não era nada pessoal. O chefe da equipe econômica lembrou que Antonio Palocci também havia passado por maus bocados na primeira gestão de Lula, sob críticas de colegas de governo. "Isso é natural", sentenciou o ministro.

Palocci foi alvo de fogo amigo pesado. Economistas de esquerda diziam que sua equipe tinha infiltrados do mercado financeiro, intelectuais ligados ao PT fizeram um manifesto contra a política econômica e ministros de outras pastas falavam em buscar um plano B (o substituto favorito era Aloizio Mercadante), como conta Thomas Traumann no livro "O Pior Emprego do Mundo".

Luiz Carlos Azedo - Macron vive dias de Thatcher com reforma na França

Correio Braziliense

Ao pretender aumentar por decreto a idade mínima para a aposentadoria 62 para 64 anos, o presidente francês viu o povo voltar às ruas para protestar contra a reforma da previdência

Os franceses gostam de resolver suas contradições nas ruas, desde a Revolução de 1789, que acabou com o Antigo Regime os privilégios da aristocracia. A Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, espalhou a revolução por toda a França e mudou a História do Ocidente. Mutualistas e coletivistas, os trabalhadores franceses voltariam às barricadas em 1871, na Comuna de Paris, tomando o poder sem estarem preparados para isso. Mesmo assim, o assalto aos céus passou a ser o objetivo dos trabalhadores europeus, que se dividiram em duas grandes correntes: a social-democrata e a comunista.

Para a formação dos partidos operários contribuíram as teses do judeu-alemão Karl Marx, sustentadas na Conferência de Londres da I Internacional Socialista, em 1871: “Em sua luta contra o poder reunido das classes possuidoras, o proletariado só pode se apresentar como classe quando constitui a si mesmo num partido político particular, o qual se confronta com todos os partidos anteriores formados pelas classes possuidoras”.

Muniz Sodré* - Graxa em roupa branca

Folha de S. Paulo

Imbróglio das joias das Arábias borra imagem de rude simplicidade de Bolsonaro

Segundo um aforismo da tradição jeje-nagô, "quem usa roupa branca não se senta na graxa" (alaosála ki ilo ioko si-elépo, no original iorubá). Sentido prático: não se pode tocar em sujeira sem ser descoberto. Bem provável, assim, que o imbróglio das joias das Arábias venha borrar a pretensa imagem de rude simplicidade do ex-presidente, vendida aos incautos por redes sociais, políticos de baixa extração e aproveitadores.

O fascínio popularesco por essa imagem, responsável também em outras regiões do mundo pela identificação com personalidades toscas, é análogo ao exercido pelo objeto antigo. Numa análise datada dos anos 70, Jean Baudrillard, crítico dos signos culturais, opõe a funcionalidade dos objetos modernos à natureza mitológica do antigo (em "O Sistema dos Objetos"). Para ele, o objeto arcaico decorativo é puramente mitológico em sua referência ao passado. Ou seja, não tem nenhuma incidência prática, sua única função é significar os índices culturais de uma vida anterior. Dele não se exige utilidade, apenas autenticidade.

Vinicius Torres Freire - Lula entre a China e a breca

Folha de S. Paulo

Presidente pode arrumar a casa antes de viajar ou deixar país e governo no fogão da crise

No final da semana, Luiz Inácio Lula da Silva vai à China. A gente espera que não vá à breca. Com sorte e habilidade, pode driblar a encrenca mundial e nacional. Caso tolere mais burrices, como as que têm vazado de seu governo, vai viajar deixando uma panela fervendo no fogo de crises.

A semana que vem poderia ser divertida, não houvesse tanto risco de desgraça.

Os donos do dinheiro, especialmente os negociantes frenéticos de dinheiro, esperam que o presidente diga algo sobre o plano do que fazer de gastos e dívida, o "arcabouço fiscal" de Fernando Haddad. Caso não diga nada, mande tudo de novo para a prancheta ou vazem mais frituras de Haddad, o caldo engrossa mais.

Já no final da semana que passou, havia gente do Planalto e do PT vazando malícias para os jornais. Não deu para entender ainda se é manobra do gênero "olha, não temos nada a ver com isso" (pacote fiscal de Haddad) e "o presidente está fazendo isso a contragosto". Ou se tentam de fato avacalhar o teto de gastos de Lula, mais flexível ou conversível, mas um limitador de despesa e dívida.

Míriam Leitão - As tempestades no horizonte

O Globo

Com Congresso parado e cenário internacional turbulento, o ministro Fernando Haddad ainda viverá teste com a divulgação do arcabouço fiscal

Há crises se formando aqui e no exterior, complicando a vida do governo Lula, que tem que entregar resultados a curto prazo. O Congresso parado é o primeiro desafio do presidente em seu objetivo de reorganizar a administração e aprovar os projetos que marquem a mudança. As MPs enviadas não andaram um milímetro. A queda de braços entre Arthur Lira e Rodrigo Pacheco pode fazer com que elas caduquem. Há outros tremores. Ainda não se sabe a evolução da crise bancária que começou localizada, mas ainda não parou. Os economistas dizem que os recentes abalos não são nada comparáveis à crise de 2008, mesmo assim os bancos perderam globalmente US$ 500 bilhões em valor de mercado em uma semana, segundo cálculos do Financial Times. As ações de resgate estão ficando cada vez mais amplas.

Celso Ming - Contra a inflação, mas não só com juros

O Estado de S. Paulo.

Tantas foram as promessas a respeito da qualidade do arcabouço fiscal, responsável por substituir o critério do teto de gastos, que o risco é de que não seja suficientemente confiável e que acabe em decepção. A conferir.

O governo Lula tem insistido em que não se pode deter a inflação apenas com a alta dos juros. Nada mais certo. Só não se vê até agora nenhum passo decisivo nessa direção. Mas vamos ao que poderia ser feito para ajudar a segurar ou, até mesmo, a derrubar os preços, sem pressionar demais os juros.

As providências mais importantes escorreriam para o lado fiscal. O presidente Lula não esconde sua resistência a práticas de austeridade fiscal. Para ele, as prioridades são as despesas sociais que aliviem a pobreza e os investimentos em obras públicas que produzam crescimento econômico e emprego. E, no entanto, despesas sociais e investimentos baseados em despesas públicas, sem receitas que lhes correspondam, despejam recursos no mercado e fazem o contrário do que tenta o Banco Central.

Eliane Cantanhêde - Durma-se com um barulho desses

O Estado de S. Paulo

Com PT x PT, Haddad ajusta PAC e vinculações constitucionais na nova âncora fiscal

De boas intenções o inferno está cheio e elas são irmãs siamesas de “ideias geniais” que pululam em Brasília, animam a plateia, atiçam interesses e dividem o governo. O presidente Lula virou mediador entre a “criatividade” de Fernando Haddad, o “esquerdismo” do PT e a “genialidade” de ministros afoitos.

O pacote fiscal de Haddad empacou na reunião com Lula na sexta-feira, quando Rui Costa (Casa Civil) vocalizou a pressão do PT e de ministros gastadores por “maior amplitude” para obras e investimentos no teto de gastos. Eram 4 a 2: os petistas Lula, Haddad, Costa e Esther Dweck, vinculada ao partido, “contra” os liberais Geraldo Alckmin (PSB, ex-PSDB) e Simone Tebet (MDB). O problema, porém, foi PT contra PT.

Celso Lafer* - Rui Barbosa, no centenário do seu falecimento

O Estado de S. Paulo.

A República lhe deu espaço público para, como jurista, senador e em duas campanhas presidenciais, defender a verdade eleitoral, enfrentar a questão social e sustentar o civilismo

Há cem anos falecia Rui Barbosa. Merece destaque a atualidade de seu legado, que se notabiliza por um fio condutor: “a formação da esfera pública e a construção institucional da democracia no Brasil”, como certeiramente realçou Bolívar Lamounier.

A Oração aos Moços foi seu discurso de paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde se formou. Foi o seu balanço de 50 anos de trabalho na jurisprudência e de serviços à Nação. Enfatizou que não atuou como “político fértil em meios e manhas”. Empenhou-se em “inculcar ao povo os costumes de liberdade e à República as leis do bom governo”, que fazem prosperar os Estados, moralizar a sociedade e honrar as nações.

Rui é um paradigma da atuação dos advogados que souberam valer-se do Direito como instrumento da ação política, como observou Afonso Arinos. Na sua práxis, viveu o Direito não como abstração, mas em função do agir. A autonomia de jurista em relação ao poder é um traço marcante da personalidade de Rui, que não colocou o seu saber para acomodar impulsos arbitrários do pragmatismo de governantes ou justificativas de “razão de estado”.

Cristovam Buarque* - Os esquecidos da anistia

Blog do Noblat / Metrópoles

No mundo letrado, o analfabeto é torturado todos os minutos em que está desperto. É como se carregasse um chicote elétrico dentro do cérebro

No seu brilhante e emotivo discurso de posse, o Ministro Silvio Almeida listou, um por um, os grupos que precisam ter seus direitos humanos relembrados, afirmando que eles não seriam esquecidos. Mas não citou aos mais de 10 milhões de brasileiros analfabetos.

Diante da violência da tortura a que foram submetidos os presos políticos no passado, do sofrimento diante do racismo contra os negros e dos preconceitos contra gays e transsexuais, o Brasil esquece a violência cometida contra quem sobrevive no mundo letrado sem saber ler seu próprio idioma: a tortura de caminhar pelas cidades sem ler o nome de cada rua, sem saber o remédio que toma ou o ônibus em que sobe.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula manteve opacidade no Orçamento

O Globo

Mas, com aumento nas emendas de parlamentares, nem isso lhe garante força para ditar agenda no Congresso

Ao acabar com as emendas do relator, identificadas pela sigla RP9 no Orçamento da União, o Supremo Tribunal Federal (STF) acreditou prestar um serviço ao país. No discurso, valorizava a transparência dando um basta ao esquema de compra de votos que sustentou apoio parlamentar ao governo Jair Bolsonaro e à alocação de recursos públicos seguindo critérios paroquiais, não técnicos. Na prática, as brechas continuam abertas. Os critérios adotados no Orçamento de 2023 desenham um quadro não muito diferente, quando não pior, do existente sob Bolsonaro.

Para começar, os recursos à disposição dos congressistas aumentaram. As verbas previstas para 2023 somavam R$ 47 bilhões, ante emendas de R$ 43,1 bilhões em 2020, R$ 37,1 bilhões em 2021 e R$ 26,2 bilhões em 2022 (em valores corrigidos até 15 de março). Nunca o Orçamento lhes destinou tanto dinheiro (há dez anos, as emendas giravam ao redor de R$ 15 bilhões).

Metade (R$ 9,8 bilhões) do valor previsto para as banidas emendas do relator foi incorporada às emendas individuais, cuja execução é obrigatória (RP6). Na dotação inicial, o total das RP6s saltou de R$ 11,7 bilhões para R$ 21,5 bilhões. Cada deputado federal teria neste ano R$ 32,5 milhões à disposição, e cada senador R$ 59,8 milhões — antes ambos tinham R$ 19,7 milhões.

Poesia | Não te quero senão porque te quero - de Pablo Neruda

 

Música | Sueli Costa - Jura Secreta (Original da Autora)

 

sábado, 18 de março de 2023

Demétrio Magnoli - Al Capone, Bolsonaro e nós

Folha de S. Paulo

Futuro político do ex-presidente pode misturar impunidade com inelegibilidade

Al Capone acabou em Alcatraz pelo menor de seus crimes: evasão fiscal. Os crimes comuns que pesam sobre Jair Bolsonaro no caso das joias pouco significam perto dos crimes constitucionais praticados sistematicamente ao longo de seu mandato. Mas delineia-se um cenário no qual o ex-presidente terá o destino do mafioso americano. Seria uma forma de misturar, no liquidificador da demagogia, impunidade com inelegibilidade.

Durante a pandemia, Bolsonaro sabotou as restrições sanitárias e a campanha de vacinação, operando contra o direito coletivo a saúde pública. Seu governo estimulou a invasão de terras indígenas por garimpeiros e madeireiros, desafiando o compromisso estatal de proteção desses povos. Durante quatro anos, o presidente mobilizou seus apoiadores em persistente agitação golpista, que culminou no 8 de janeiro de Brasília, traindo o dever de respeito às instituições democráticas. Contudo, ao que parece, responderá apenas por peculato, descaminho e abuso de poder.

Alvaro Costa e Silva - Os cúmplices de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Novos escândalos mostram como militares se curvaram ao capitão

O almirante Bento Albuquerque não está com a memória boa. Esquece o que falou, confunde as coisas, mistura alhos, bugalhos e muambas. Em depoimento à PF, ele deu mais uma versão sobre as joias recebidas na viagem à Arábia Saudita em 2021.

Diz agora que o pacote feminino (par de brincos, colar, anel e relógio confeccionados com pedras preciosas que brilham de cegar e com valor avaliado em R$ 16,5 milhões), retido na Receita Federal e alvo de uma força-tarefa governamental para que fosse liberado, era um presente da ditadura saudita ao Estado brasileiro —assim como o conjunto masculino (abotoaduras, caneta, relógio, anel e um tipo de rosário, todos da marca suíça de diamantes Chopard, avaliados em R$ 400 mil), que entrou ilegalmente no país e foi entregue a Bolsonaro.

Hélio Schwartsman - Resgate a bancos quebrados cria o chamado risco moral

Folha de S. Paulo

É fundamental que operações de salvamento não recompensem gestores incompetentes

Um mundo justo é aquele em que cada um responde por suas ações e omissões. A definição não é despropositada, mas receio que a maioria de nós não gostaria de viver num lugar assim. Nele, pessoas que não tivessem poupado para aposentadoria seriam condenadas à miséria na velhice; quem não tivesse plano de saúde morreria na porta do hospital. Vivemos em sociedades que redistribuem riscos, por variados mecanismos.

No Brasil, temos o SUS, um sistema de saúde universal bancado com dinheiro dos impostos. Temos também o INSS e programas de governo voltados para populações específicas. Mais longe do âmbito do Estado, temos seguros, hedges etc.

Rodrigo Zaidan - Sobressaltos bancários adiam recuperação global para 2024

Folha de S. Paulo

Problemas em bancos trarão maior custo de crédito e diminuição do crescimento

Apertem os cintos, o regulador sumiu. A quebra do banco Silicon Valley (SVB, em inglês) acendeu o alerta no mercado financeiro mundial.

Estamos à beira de uma crise financeira global como a de 2008? Felizmente não, mas isso pode contribuir para desacelerar a economia global.

Há chance de uma crise financeira no Brasil? Também não, já que temos um dos reguladores mais conservadores do mundo.

O SVB quebrou por ter dinheiro demais, o que parece estranho à primeira vista, é claro. O banco recebeu uma enxurrada de mais de US$ 120 bilhões em novos depósitos em 2020 e 2021, com preços de ativos financeiros nas alturas; em 2019, o total de depósitos não chegava a metade disso.

Fernanda Mena - Com reforma, Macron pode jogar França no colo da ultradireira

Folha de S. Paulo

Ao impor reforma da Previdência aos franceses, presidente adiciona pólvora a cenário potencialmente explosivo

"Trabalhar e morrer." A frase fatalista, vista em cartazes nas manifestações que levaram milhões às ruas da França contra a controversa reforma da Previdência de Emmanuel Macron, exagera um sentimento comum entre os franceses, que pode, segundo analistas, jogar o país no colo da ultradireita.

Ao elevar a idade mínima para a aposentadoria de 62 para 64 anos, a reforma imposta pelo governo mexe em um sistema de segurança social que é motivo de orgulho nacional e reduz o horizonte dos franceses de usufruir do benefício com qualidade em uma terceira fase da vida.

"A proteção social francesa é relativamente generosa na comparação internacional, assim como o nível das pensões", explica Anne-Marie Guillemard, especialista em trabalho e previdência da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), em Paris, e professora emérita de sociologia da Universidade de Paris Cité. "E os franceses são muito apegados a esse sistema, que permite aos aposentados manter um nível de vida similar ao de quando estavam ativos."

João Gabriel de Lima* - As cidades de 15 minutos

O Estado de S. Paulo

O paulistano fará festa se um dia conseguir resolver compromissos em menos de meia hora

No dia em que Francisco Prestes Maia terminou seu mandato, um carro o esperava à frente do gabinete do prefeito, que ficava na Rua Libero Badaró. O político dispensou o motorista, caminhou até o Viaduto do Chá e pegou o bonde logo adiante, na Rua da Consolação. Prestes Maia, prefeito de São Paulo entre 1938 e 1945, abriu mão das mordomias do cargo assim que saiu dele. A anedota é narrada no livro A Capital da Vertigem, de Roberto Pompeu de Toledo.

No episódio, Prestes Maia rejeitou o carro e preferiu o transporte público. Na vida política, fez o contrário. Foi dele o plano de avenidas que se espraiam do centro para os bairros periféricos – as “radiais” –, num desenho que em tudo privilegia os carros. Poucos paulistanos sabem que essa escolha, feita décadas atrás, é responsável pelos congestionamentos que enfrentam hoje.

Maílson da Nóbrega* - O papel das regras na geração de riqueza

O Estado de S. Paulo.

Independência dos BCs tornou-se imprescindível nos últimos 50 anos e consagrada há pelo menos três décadas. PT e Lula não perceberam essa realidade ainda

Nas recentes críticas à taxa de juros, o presidente Lula tachou de “bobagem” a independência do Banco Central (BC). Ocorre que a regra prevalece nos países ricos, sem exceção. Também é assim em países latino-americanos. Em três deles – Chile, Colômbia e México, governados por líderes de esquerda – esse status permanece. O novo presidente colombiano, Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, reclamou das taxas de juros, mas não questionou a independência do banco central.

Lula usou um exemplo pessoal para defender uma tese: nos seus dois primeiros mandatos, o presidente do BC tinha autonomia para definir a taxa Selic. Não haveria, pois, necessidade da independência formal. Lula se equiparou, assim, a Luís XIV, o Rei Sol francês do século XVII, que em 72 anos de reinado se tornou o símbolo máximo do absolutismo. Egocêntrico, ele teria dito que “o Estado sou eu”, ou seja, a fonte máxima de poder e autoridade para estabelecer regras. Se não fosse Lula o presidente, como ficaria a autonomia do BC?

Adriana Fernandes - Nas mãos de Lula

O Estado de S. Paulo.

Haddad terá de gastar saliva para convencer pessoal do governo de que regra não é arrocho

É só o começo da guerra que Fernando Haddad, trava com a ala expansionista do governo e do PT em torno do anúncio do novo arcabouço fiscal. É uma guerra tribal, relata um interlocutor da coluna.

Enquanto Haddad quer e precisa mostrar uma nova regra fiscal que pareça robusta e crível, a ala expansionista do governo está fazendo de tudo para que o novo arcabouço seja o mais flexível e gradual possível no processo de reversão do déficit das contas públicas.

Como Haddad e três integrantes da sua equipe já deixaram claro que o modelo contém uma regra de controle das despesas, o ponto central que está pegando na definição do arcabouço é o que ficará de fora do limite de gastos. Quais os investimentos, os projetos prioritários. O que inclui o tamanho do novo PAC que Lula quer fazer.

Evangélicos querem isenção para igrejas até de impostos indiretos

Por Luísa Marzullo / O Globo

Proposta que amplia isenção tributária para igrejas ganha força na Câmara com adesão de governistas

Bancada evangélica mobilizou 336 deputados federais em prol da Proposta de Emenda à Constituição

Com aval do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e apoio de partidos da base de Lula, a bancada evangélica mobilizou 336 deputados federais em prol da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que busca ampliar a imunidade tributária para as igrejas no país. Os evangélicos, que angariaram uma série de benefícios durante a gestão Jair Bolsonaro, querem isenção também em impostos indiretos, aqueles que incidem sobre produtos e serviços, por exemplo. Para especialistas, esse novo modelo vai impactar diretamente na arrecadação dos estados.

A imunidade para os templo está prevista na Constituição, e o Supremo Tribunal Federal (STF) entende que a isenção se refere aos tributos diretos — tais como IPTU no imóvel da igreja ou IPVA para os carros no nome da entidade religiosa. Com a nova proposta, o deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) busca expandir a medida para as tributações indiretas. No caso de uma reforma do templo ou em obras comunitárias ligadas à igreja, por exemplo, o material de construção seria adquirido sem imposto.

Carlos Alberto Sardenberg- Dúvidas razoáveis?

O Globo

Sumir com um déficit de 2,3% do PIB em dois anos é uma proeza que só pode ser realizada com forte corte de gastos

Existem várias maneiras para controlar as contas públicas, mas, ao final, trata-se de uma combinação de receitas e despesas. Tem-se falado recentemente em controle pela dívida. Ocorre que o tamanho e a evolução da dívida dependem da relação entre receita e despesas. Se o gasto excede a arrecadação, surge um déficit que logo se torna dívida.

Também se pode avaliar a dívida não pelo tamanho absoluto, mas pela relação com o Produto Interno Bruto. Se a dívida permanece estável, e o PIB cresce, é claro que o quadro fiscal ganha equilíbrio. Mas a outra variável — a equação de receita e despesa — continua dominante.

Dirão:

— Mas que monte de obviedades!

Com razão.

Então por que estamos insistindo nisso? Porque toda essa conversa sobre o novo arcabouço fiscal parece caminhar em busca de algum truque para escapar daquelas obviedades.

O que se sabe?

Eduardo Affonso - É ruim, mas é bom

O Globo

As manchetes das análises econômicas têm sido um tanto bipolares. O desemprego é alto, mas está baixo. Projeta-se uma recessão, mas isso não é o fim do mundo. Lula acertou sobre o BNDES, apesar de ter errado.

É como se vivêssemos numa espécie de “Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo”, só que sem o multiverso. Basta a tecnologia das conjunções adversativas, com o viés apontando para onde olhar com mais carinho — o que vem antes ou o que vem depois do “mas”.

No governo anterior, volta e meia algo despiorava. No atual, aqui e ali, algo desmelhora. Por exemplo, a redução dos juros do empréstimo consignado. Faltou combinar com os russos (os bancos) e com o mundo real (onde o pensamento mágico tem poderes limitados). A suspensão da linha de crédito foi um resultado inesperado para os jênios do Ministério do Trabalho — e previsibilíssimo para quem já leu “Introdução aos rudimentos básicos de economia para principiantes”. Juro baixo é como o colesterol: tem o bom e o ruim.

Pablo Ortellado - A política está adoecendo a esquerda?

O Globo

Uma pesquisa publicada no fim do ano passado disparou um grande debate nos Estados Unidos sobre a relação entre saúde mental e política. O estudo, publicado na revista SSM Mental Health, apontou uma correlação intrigante entre a identidade política dos adolescentes e uma escala que mede depressão. Estudantes do último ano do ensino médio (17 e 18 anos) que se identificam como “liberais” (na tradição americana, de esquerda) têm pontuação média significativamente maior na escala que mede depressão do que aqueles que se identificam como “conservadores”. A diferença aparece em toda a série histórica e, mesmo quando a depressão entre todos os adolescentes dispara, no começo dos anos 2010 (provavelmente pelo maior uso de mídias sociais), a pontuação é maior para adolescentes de esquerda e maior ainda para meninas de esquerda.

A recepção da pesquisa ficou restrita aos círculos acadêmicos até o fim de fevereiro, quando foi descoberta e passou a ser discutida nas redes sociais e na imprensa americana. O debate produziu dois tipos de explicação.

Marcus Pestana - Fascismo: totalitarismo e guerra

Seguimos hoje com mais um artigo da série sobre as correntes de pensamento que animaram as lutas políticas nos últimos séculos, tratando de um dos fenômenos históricos mais complexos e intrigantes da civilização moderna: o nazifascismo.

Um terremoto de grandes proporções se abateu sobre a Europa nas décadas de 1920, 1930 e início dos 40. Não é possível atribuir eventos tão trágicos que resultaram na Segunda Grande Guerra, no Holocausto e na crise econômica e social vivida no período, apenas à psicologia individual e aos atributos pessoais de Mussolini e Hitler. O líder, seja o “Dulce” ou o “Führer”, só pode ser compreendido dentro do contexto histórico que se configurou após a Primeira Grande Guerra e a crise monumental que se abateu sobre a Alemanha e a Itália, agravada pela Grande Depressão de 1929. É intrigante entender como dois líderes desequilibrados, sem empatia pelo ser humano, carismáticos, narcisistas, ególatras, violentos, conseguiram chegar ao poder pela via da democracia parlamentar e consolidar a mais terrível experiência totalitária em toda a história moderna – esqueçamos aqui o stalinismo já objeto de artigo anterior – com impacto em todo os cantos da Terra, na mais chocante guerra vivenciada pela Humanidade. O líder, ainda mais ditadores facínoras como Mussolini e Hitler, tem, sem dúvida, um papel crucial nos acontecimentos. Mas não chegariam e se manteriam no poder a não ser em determinadas condições históricas e obtendo consensos mínimos e apoio social em seus países.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Políticos precisam cumprir exigências da Lei das Estatais

O Globo

Liminar do ministro Lewandowski dispensou de quarentena líderes de partidos e campanhas eleitorais

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) tem a missão de rever a suspensão, pelo ministro Ricardo Lewandowski, de obrigações impostas pela Lei das Estatais. Em liminar feita sob medida para atender aos interesses do Planalto, Lewandowski dispensou lideranças de partidos e campanhas eleitorais de cumprir a quarentena de três anos antes de assumir cargos de direção nessas empresas.

Trata-se de um retrocesso evidente, por enfraquecer a legislação que tenta manter a gestão das empresas estatais imune à interferência de interesses políticos. Toda vez que políticos as subordinam a seus desígnios, estão dadas as condições para escândalos que resultam em prejuízos à sociedade e ao contribuinte — quando não em cadeia.

O interesse dos partidos em obter cargos para apaniguados nas estatais é evidente. É grande a pressa para indicar nomes neste início de governo. Daí o PCdoB — partido da base governista que entrou com o processo contra a Lei das Estatais — ter solicitado uma liminar sobre o assunto sem esperar o pedido de vista feito na semana passada pelo ministro André Mendonça no plenário virtual, onde tramita a ação. Para que a decisão de Lewandowski seja examinada também com rapidez, Mendonça decidiu então devolver o processo ao plenário físico.

Poesia | A Última Cantiga - de Cecília Meireles

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Papagaio do Futuro

 

sexta-feira, 17 de março de 2023

Fernando Abrucio* - Brasil vive epidemia de intolerância

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Nas últimas semanas, foram vários casos de preconceitos sociais vindos de indivíduos dos mais variados lugares da sociedade brasileira

Foram mais de dois anos de pandemia de covid-19, com um número enorme de mortos e sequelados no Brasil. A vacina nos salvou de uma situação pior e agora houve uma grande redução dos casos e dos óbitos. Há um quadro de quase normalidade, com todas as crianças na escola, as pessoas novamente indo a festas, shows e atividades esportivas, além do prazer inenarrável de voltar a frequentar o teatro. Mas nem tudo são flores, pois uma nova epidemia está assolando a sociedade brasileira: a praga da intolerância.

Nas últimas semanas, foram vários casos de preconceitos sociais contra nordestinos, mulheres, negros, transexuais/travestis, pessoas com deficiência e gente com mais idade (etarismo). Foram falas vindas de indivíduos dos mais variados lugares da sociedade brasileira, como empresários, parlamentares, estudantes, donas de casa e humoristas. O que chama primeiramente a atenção é que não são episódios isolados. Trata-se de uma epidemia de intolerância