sexta-feira, 18 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Asilo para peruana é injustificável

O Globo

Itamaraty não justificou por que Nadine Heredia sofreu perseguição política ao ser condenada por crime

Não há, até o momento, justificativa plausível para a decisão do governo brasileiro de conceder asilo diplomático a Nadine Heredia, mulher do ex-presidente peruano Ollanta Humala. Os dois foram condenados a 15 anos de prisão no Peru por lavagem de dinheiro, ao receber US$ 3 milhões da empreiteira Odebrecht para financiar a campanha eleitoral que levou Humala à Presidência em 2011. Nadine, influente durante o governo, foi cofundadora do Partido Nacionalista. Os detalhes foram revelados em 2016, durante as investigações da Operação Lava-Jato no Brasil.

Por aqui, processos por corrupção envolvendo a Odebrecht e outras empresas que confessaram crimes têm sido questionados com sucesso na Justiça, mas não sem controvérsia ou estranhamento da opinião pública. Independentes, os peruanos não têm nada a ver com isso — os fatos que levaram à condenação do casal foram examinados por juízes autônomos, de acordo com a lei do Peru. Em nome da relação estável entre os dois países, o governo brasileiro não deveria questionar as decisões do Judiciário peruano.

Em Lima, chamou a atenção a rapidez com que foram tomadas as decisões relativas ao asilo político. Nadine e seu filho chegaram à embaixada brasileira quando a sentença estava prestes a ser proferida. Em questão de horas, ela recebeu sinal verde da diplomacia brasileira. O salvo-conduto das autoridades locais não demorou, e logo os dois estavam num avião da FAB enviado especialmente para fazer o transporte ao Brasil. A deferência, além de incomum, é inexplicável do ponto de vista jurídico ou diplomático.

Hugo Motta ganha tempo - Vera Magalhães

O Globo

Presidente da Câmara quer passar imagem de democrata, mas adiar problemas pode ser visto como fraqueza política

O recesso branco da Câmara neste feriadão foi interrompido pela greve de fome do deputado Glauber Braga e pela precipitação do PL, que não esperou o coelho da Páscoa para protocolar o pedido de urgência ao projeto de anistia dos condenados do 8 de Janeiro. Nos dois casos, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), agiu com o mesmo expediente: à distância, procurou ganhar tempo e empurrar os pepinos para a frente.

Como se sabe que problemas adiados não deixam de existir, apenas se prolongam, a pauta da Casa presidida por Motta segue à mercê de fatos que passam ao largo daquilo que, ele prometeu, seria sua prioridade quando sucedeu a Arthur Lira: os grandes temas econômicos de interesse do Brasil, que não dissessem respeito apenas à polarização a cada ano acentuada entre PT e bolsonarismo.

A verdadeira urgência - Flávia Oliveira

O Globo

Uma menina morreu. Podia ser sua filha, neta, sobrinha, afilhada. Sarah Raíssa Pereira de Castro tinha 8 aninhos e a vida inteira pela frente. Não mais. Celular na mão, foi desafiada numa rede social a inalar desodorante aerossol. Sofreu uma parada cardiorrespiratória, e —apesar do esforço do avô, que a encontrou desacordada, e da equipe médica que tentou reanimá-la — sua morte cerebral foi constatada três dias depois da internação. A polícia do Distrito Federal abriu inquérito para apurar as circunstâncias do óbito e identificar os responsáveis pela viralização macabra. Em março, sem comoção, o Brasil já tinha perdido em situação semelhante Brenda Sophia Melo de Santana, de 11 anos, moradora de Bom Jardim, Agreste Pernambucano. A causa da morte foi “possível inalação, por via oral, de desodorante aerossol”. A família mencionou o desafio do desodorante, a que a pequena teve acesso também via internet.

O bispo que contestava – Bernardo Mello Franco

O Globo

Bispo irritou militares ao denunciar a tortura e apoiar movimentos por creches e moradia

Em novembro de 1978, a ditadura resolveu investigar um gibi. A repressão queria saber quem financiava “As Aventuras de Zé Marmita”. Distribuída na periferia de São Paulo, a revistinha narrava a rotina nas fábricas e incentivava os trabalhadores a lutarem por melhores condições de vida. Só podia ser coisa de dom Angélico, bispo tachado de subversivo e adversário do regime.

Na juventude, Angélico Sândalo Bernardino não sabia se queria ser padre ou jornalista. Resolveu o dilema ao unir as duas vocações, ajudando a Igreja a se comunicar com os fiéis. Antes de ser ordenado, ele já escrevia no Diário de Notícias, da diocese de Ribeirão Preto. Mais tarde comandaria as “rádios-cornetas”, com alto-falantes pendurados nos postes de favelas e ocupações.

Fábula sobre a prudência e riscos que rondam o governo - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Projeto de Diretrizes Orçamentárias para 2026 sinaliza frouxidão com as contas públicas e alimenta análises pessimistas em relação à inflação e ao equilíbrio fiscal após as eleições

Esopo nasceu provavelmente na Frígia (atual Turquia) entre o final do século VII a.C. e o início do século VI a.C. Pouco se sabe sobre sua vida, exceto que era um escravo que recorria às fábulas para traduzir sua sabedoria, muitas vezes com ironia, sem se expor em demasia aos senhores.

Sua obra chegou aos nossos dias porque foi exaltada pelos grandes filósofos gregos, entre os quais Heródoto, Platão e Aristóteles. Geralmente, Esopo recorria às características dos animais para traçar um paralelo com os bons e maus comportamentos humanos.

Os romanos Fedro (século I d.C.) e Bábrio (século II d.C.) traduziram Esopo para o latim, a partir do qual as narrativas foram retraduzidas e chegaram aos nossos dias. Ainda hoje suas fábulas são usadas na educação das crianças. A primeira edição impressa das Fábulas é de 1484, ou seja, quase 30 anos após a impressão da Bíblia de Gutemberg, de 1455.

Instrumentos - Laura Karpuska

O Estado de S. Paulo

No debate sobre o Orçamento, a pergunta que vale é: o que queremos da política pública?

Na economia, aprendemos que ter mais instrumentos melhora a capacidade de ação dos governos. Se há mais de um objetivo – estabilizar a economia, reduzir desigualdades, manter o equilíbrio fiscal –, então, faz sentido ter mais de uma ferramenta à disposição.

No Brasil, porém, há uma resistência curiosa a isso. Um exemplo é a vinculação do salário mínimo aos benefícios previdenciários. A regra, firmada nos governos Lula, tem peso simbólico, mas cria um problema prático: amarra dois instrumentos diferentes, que deveriam ser usados com autonomia.

O salário mínimo pode ser uma boa política de valorização do trabalho – especialmente em mercados onde empresas têm poder demais na fixação de salários. Em contextos assim, como o do Brasil, há evidências de que o aumento do salário mínimo ajudou a reduzir a desigualdade entre trabalhadores formais, sobretudo entre mulheres e trabalhadores menos qualificados. Um estudo do Ipea mostrou que, entre 2001 e 2011, a política teve impacto redistributivo importante, especialmente nas regiões Nordeste e Sul.

Prudência nunca é demais - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Presidente Lula e Alexandre de Moraes acertam no conteúdo e erram na forma de asilo e extradição

O Brasil debate sobre asilo e extradição, que envolvem política externa, mas tendem a ter grande repercussão na política doméstica, onde, nunca custa lembrar, a popularidade do presidente Lula não está nenhuma maravilha e o Supremo é alvo direto do bolsonarismo. Além de o governo mandar avião da FAB buscar no Peru uma ex-primeira-dama condenada por corrupção, o STF cobra reciprocidade e nega a extradição para a Espanha de um búlgaro acusado por tráfico de drogas no país.

Brasil e Peru são signatários da convenção de asilo diplomático da ONU, de 1954, que é justa, humanitária e bastante útil para acolher perseguidos políticos em regimes autoritários, que ameaçam até a vida de opositores. A questão é que Nadine Heredia e seu marido, o ex-presidente Ollanta Humala, já preso, não são alvo de perseguição política e sim condenados a 15 anos por corrupção.

Ora, o declínio da globalização... - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O tarifaço do presidente Donald Trump, acompanhado das suas iniciativas isolacionistas, levou alguns analistas a concluir que o processo de globalização está em inexorável retração.

É uma afirmação apressada e temerária, até porque a pretensão do governo dos Estados Unidos não é acabar com a globalização, mas impor mudanças numa economia de abrangência global.

A globalização não começou ontem. Quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio e a Ásia, por volta do ano 320 a.C., toda essa região foi, de alguma forma, helenizada, e as relações econômicas e culturais passaram a ser compartilhadas entre aqueles povos. Em toda parte se falava grego, como hoje se fala inglês, e construíram-se teatros onde eram encenadas as tragédias de Eurípedes, Ésquilo e Sófocles.

A resposta somos nós - Eliana Lucena

Correio Braziliense

Povos indígenas defenderam, em Brasília, mais espaços nas discussões que envolvam não somente o seu futuro, mas o de toda a humanidade

Com grandes desafios pela frente, o país celebra neste sábado, dia 19, o Dia dos Povos Indígenas, após a realização do 21º Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília.  Durante a última semana, quem atravessou o portal que se abria para o acampamento com mais de 7 mil indígenas, representando 200 povos, sentiu o impacto da mobilização que reuniu desde líderes históricos, como Raoni Metuktire, a jovens que discutiram e levaram reivindicações aos representantes dos Três Poderes.

A caminhada dos indígenas até 2025 exigiu resistência para enfrentar grandes obstáculos. Durante a década de 1970, em pleno regime militar, para a realização de encontros, era preciso burlar a vigilância da Funai e dos órgãos de segurança do governo. Os primeiros de maior porte foram organizados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em Diamantino, no Mato Grosso, e o segundo na Missão Cururu, no Pará, terra dos índios Munduruku.

Construção de um país mais justo exige reforma tributária progressiva - Maria Alice Setubal (Neca)

Folha de S. Paulo

Taxação mais elevada aos mais ricos não deve ser vista como punição, mas como passo essencial para um ambiente econômico mais equilibrado

Doutora em psicologia da educação (PUC-SP), é socióloga e presidente do Conselho da Fundação Tide Setubal

Tem sido crescente a minha preocupação com a concentração de riqueza e o combate às desigualdades no Brasil. Já me posicionei publicamente a favor da taxação progressiva dos chamados super-ricos por meio de uma reforma tributária que seja amplamente discutida com a sociedade.

Tenho atuado nessa causa articulando organizações sociais, pesquisadores acadêmicos e poder público. Nessa trajetória, estou convicta de que um dos caminhos eficazes para reduzir as disparidades estruturantes em nosso país é um sistema que atue como instrumento de equilíbrio, protegendo os que têm menos e fortalecendo a responsabilidade dos que mais podem contribuir —o oposto do que temos hoje.

Anistia como farsa – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A ideia não é pacificar, mas fazer valer a versão de que agredir a democracia não é ato grave

A anistia aos golpistas de variadas espécies é o tipo do assunto a respeito do qual é mais fácil falar do que realizar. Ainda assim, seus adeptos já foram além do aceitável: conseguiram pôr o tema em pauta e paralisar o Congresso em torno dele.

Brutalizados em 8 de janeiro de 2023, os três Poderes da República são agora instados a lidar com uma proposta de perdão dos crimes aos que propugnaram pelo fim do Estado de Direito em vigor no país há parcas quatro décadas.

Fala-se na produção de um acordo entre Executivo, Legislativo e Judiciário para se chegar a meios-termos entre condenações e impunidade.

Com ou sem tarifaço penal, anistia a 8/1 é descalabro - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Pode-se discutir dosimetria do STF, mas gangsterismo para livrar a cara de golpistas e de Bolsonaro é inaceitável

Há um esforço de setores da ultradireita para fazer a sociedade brasileira engolir um projeto de lei que promova a anistia de envolvidos no ataque à democracia de 8 de janeiro e, por extensão, arrume um jeito —o verdadeiro objetivo— de permitir que Jair Bolsonaro concorra à eleição de 2026.

Entre cenas explícitas de desfaçatez e banditismo parlamentar, o PL, sigla do capitão, arregimenta apoios para abrir a porteira e deixar a boiada passar.

Toda a mistificação em torno da cabeleireira Débora Rodrigues, acusada de cinco crimes, presa preventivamente e ora em julgamento pelo STF, tem servido para maquiar a agressão golpista do 8/1. Teria sido um convescote de idosos desocupados e moças a fazer inocentes pichações em estátuas, usando um batom.

Julgando a Justiça - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Na mesma semana, Brasil dá asilo a condenada por corrupção no Peru e vê Espanha negar extradição de bolsonarista

A culpa é da Constituição. A contradição em potência dorme lá, no artigo 4º, que enumera os princípios pelos quais o Brasil se rege em suas relações internacionais. Os incisos III e IV mencionam a autodeterminação dos povos e a não intervenção, mas o X estampa a concessão de asilo político.

Inconsistências emergem porque a decisão de dar asilo envolve sempre um juízo qualitativo sobre as instituições do outro país, o que pode ser entendido como uma violação à sua soberania e uma interferência em seu sistema político-judicial.

Entrevista | Sidônio Palmeira: 'Faltou ao governo Lula comunicar a herança que encontrou'

Por Thiago Prado / O Globo

O homem responsável pela imagem do presidente Lula e do seu governo é o décimo entrevistado da série da newsletter com os mais importantes estrategistas políticos e donos de institutos de pesquisa do Brasil. O baiano Sidônio Palmeira foi o marqueteiro da campanha presidencial do petista, em 2022, contra Jair Bolsonaro, e, desde janeiro, comanda a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República.

Sua chegada ao cargo ocorreu simultaneamente à divulgação de dados de pesquisas que mostraram a queda da aprovação popular do presidente. Sidônio é das figuras mais relevantes do Palácio do Planalto atualmente. Quase todo dia a agenda presidencial exibe um despacho matinal do ministro com Lula.

Na conversa que você, leitor, vai ler a seguir, o marqueteiro fala dos motivos que levaram o governo a ter piora nos índices de aprovação, detalha as iniciativas que podem fazer Lula virar o jogo da popularidade e responde a críticas dos colegas de profissão ouvidos por “Jogo Político” desde janeiro.

Abaixo os principais trechos do bate papo com o ministro.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - Alguns toureiros

Música | Vanessa da Mata - Esperança

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quinta-feira, 17 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Orçamento de 2026 reflete incúria fiscal

O Globo

Em vez de rever indexações ao salário mínimo, governo insiste em projetar receita inflada para equilibrar contas

A proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 enviada pelo Executivo ao Congresso traz, pela primeira vez no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um compromisso de superávit: R$ 38,2 bilhões. O porém — um grande porém — é que, para alcançar a meta, será preciso que o governo arrecade mais R$ 118 bilhões, projeção para lá de otimista. Incapaz de promover ajuste nas despesas, mais uma vez o governo insiste em apresentar um plano prevendo aumento nas receitas — variável dependente do ritmo de crescimento da economia e fora de seu controle. Não há notícia de medidas capazes de equilibrar o Orçamento de forma duradoura, embora elas sejam conhecidas faz tempo.

Um dos maiores entraves à saúde orçamentária é a regra de atualização do salário mínimo adotada em 2023. Além da correção pela inflação, o valor passou a aumentar levando em conta o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos dois anos anteriores. Por lei, reajustes do mínimo têm impacto imediato em todos os benefícios da Previdência, em especial aposentadorias e programas sociais, como seguro-desemprego, abono salarial e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Não fosse o aumento desses benefícios nos últimos anos, o país gastaria R$ 35 bilhões a menos com tais despesas, quase a meta de superávit.

Entrevista - Gilmar Mendes: Projeto de anistia do 8/1 ‘tem como objetivo beneficiar os mentores’ da trama golpista

Por Mariana Muniz e  Thiago Bronzatto / O Globo

Ministro do Supremo Tribunal Federal afirma que penas aplicadas aos condenados pelos atos às sedes dos Poderes não deverão ser revisadas

Decano do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes tem sido um dos interlocutores do Congresso nas discussões sobre o futuro dos condenados pelos atos golpistas do 8 de janeiro. Em entrevista ao GLOBO, o magistrado diz que o movimento pró-anistia impulsionado pelo partido de Jair Bolsonaro tem como pano de fundo beneficiar os mentores da trama antidemocrática. Dentre eles, está o próprio ex-presidente, entusiasta da proposta de revisão das penas e réu por arquitetar um plano para reverter a derrota nas eleições em 2022.

— A minha experiência política, nesses anos todos, revela que esse projeto só tem impulso com o objetivo de beneficiar os mentores — afirma o ministro do STF, que está há mais de duas décadas na Corte.

Em resposta às críticas das penas aplicadas pelo STF aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, Gilmar pontua que acredita que a Corte não revisará os julgamentos. Segundo ele, “o que poderá haver é a análise de situações individualizadas que justifiquem a progressão, que já está prevista na legislação, ou a aplicação de prisão domiciliar”. O ministro destaca ainda que tem mantido diálogo constante com o Congresso e que “tem muito espuma” nessa discussão.

Como o senhor vê a pressão para o STF discutir a redução das penas para os condenados e denunciados pelos atos golpistas do 8 de janeiro?

Gleisi vê risco de golpe continuado - Míriam Leitão

O Globo

Ministra afirma que PL da Anistia é salvo-conduto para quem quer dar golpe e espera que deputados da base recuem 

A ministra Gleisi Hoffmann disse que muitos parlamentares que assinaram o requerimento de urgência do PL da Anistia admitem que não conheciam o projeto. “Não estamos pensando em retaliação” disse ela, sobre a possibilidade de o governo retirar cargos de partidos da base que apoiaram a urgência. “Espero que haja um convencimento político, porque enquanto parlamentares temos responsabilidades, o Congresso Nacional tem responsabilidade”. Gleisi define o projeto como o de “golpe continuado” e um “atentado ao Estado Democrático”.

A ministra das Relações Institucionais esteve no meu programa na GloboNews e falou sobre as questões mais urgentes da articulação política do governo Lula, que vive as agruras de uma base parlamentar muito comprometida com pautas do governo anterior. Neste PL da Anistia, ficou ainda mais evidente a contradição da base, que é formada pelas adesões de vários partidos que estiveram também com Bolsonaro.

Brasil retoma a reforma agrária - Paulo Teixeira

O Globo

Quanto mais gente no campo, plantando e colhendo, menos conflitos agrários e desemprego, mais alimentos baratos

No dia 7 de março, acompanhei o presidente Lula até Campo do Meio (MG) para anunciar que 12 mil famílias de agricultores receberam seus lotes de terra só nos primeiros meses de 2025. O ato foi carregado de simbolismos. O Quilombo Campo Grande, onde ocorreu o anúncio, é fruto de décadas de luta dos trabalhadores de uma fazenda que faliu, deixou milhões em dívidas com a União e ficou abandonada até que os ex-empregados decidiram voltar a produzir por conta própria. Hoje é exemplo de produtividade, geração de renda e resistência. Eles enfrentaram nada menos do que 11 ordens de reintegração de posse.

Outro simbolismo importante está no número de assentamentos. A entrega de 12 mil lotes significa que a reforma agrária no Brasil retomou o ritmo dos dois primeiros governos do presidente Lula, depois da política de terra arrasada imposta pelos antecessores. No governo Lula 3 foram mais de 15 mil assentamentos. Até o fim deste ano, esperamos assentar 30 mil famílias, um dos maiores volumes da História do Brasil. No ano que vem, a meta é de 29 mil lotes.

Decisões esdrúxulas - Merval Pereira

O Globo

Como dar asilo a alguém acusado de corrupção? Acusação de corrupção não tem nada a ver com política — ou tem, na visão do PT.

Quando a política se mistura com as decisões jurídicas, não há chance de dar certo. Ontem, instituições brasileiras depararam com impasses nas relações internacionais do Brasil que evidenciaram erros cometidos anteriormente.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes deu mais uma prova de que decide mais com o fígado que com a legislação pertinente. Como o governo da Espanha recusou-se a repatriar ao Brasil o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio, foragido da polícia brasileira e acusado de ter tido comportamento radicalizado no seu blog para desacreditar as urnas eletrônicas, Moraes, alegando uma reciprocidade inexistente, liberou um cidadão búlgaro, traficante internacional de drogas, preso com 52 quilos de cocaína — a Espanha queria julgá-lo lá.

Cada um tem o asilado que merece - Malu Gaspar

O Globo

No final de fevereiro, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi para os Estados Unidos e, mesmo sem ser alvo de nenhuma acusação ou processo no Brasil, disse que pretende ficar lá e pedir asilo político a Donald Trump. No carnaval do ano passado, tinha sido a vez de Jair Bolsonaro passar um final de semana entocado na embaixada da Hungria em Brasília depois de seu passaporte ser apreendido pela Polícia Federal (PF). Ele nunca explicou o que foi fazer lá, mas está na cara que pretendia evitar a prisão ou mesmo tentar fugir.

Agora foi a ex-primeira-dama do Peru Nadine Heredia quem entrou na embaixada brasileira em Lima pouco antes de ser condenada por lavagem de dinheiro e pediu asilo no Brasil. Com o marido, o ex-presidente Ollanta Humala, que se entregou e está preso, Nadine pegou 15 anos de prisão por receber US$ 3 milhões da Odebrecht durante a campanha presidencial de 2011.

Tanto ela quanto os Bolsonaros se dizem perseguidos políticos, única condição pela qual a Constituição brasileira e as convenções internacionais admitem dar guarida a um estrangeiro. Elas são claras ao dizer que os condenados ou processados por crime comum não se qualificam para esse tipo de asilo e têm de ser devolvidos ao país de origem.

Brasil busca a sombra do quintal alvejado por Trump - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula terá dois encontros com Xi Jiping nos próximos três meses em meio à ofensiva americana por aliados para a guerra comercial com a China

As exportações minerais do Brasil para a China bombaram no primeiro trimestre deste ano. As de cobre cresceram 180%, de manganês, 310%, de ferroníquel, 253%, e de compostos de metais de terras raras de ítrio e escândio registraram um volume sete vezes maior do que aquele de todo o ano de 2024.

Um dia antes deste balanço, feito pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o secretário do Tesouro dos EUA deu, em Buenos Aires, uma entrevista à Bloomberg. A pretexto de comemorar o acordo do governo Javier Milei com o FMI, do qual os americanos são o principal acionista, Scott Bessent declarou: “O que estamos tentando evitar é o que aconteceu no continente africano. A China assinou uma série desses acordos vorazes marcados como ajuda, nos quais adquiriu direitos minerais e adicionou enormes quantidades de dívidas aos balanços patrimoniais desses países”.

Política e dor de barriga - José de Souza Martins

Valor Econômico

Guardadas as devidas proporções, a doença de Bolsonaro o aproxima de algo que aconteceu com Dom Pedro, que viria a ser o primeiro imperador do Brasil

A recente dor de barriga do ex-presidente Bolsonaro expôs aspectos interessantes do que somos e não somos e de nossa própria história em face da doença de políticos e notáveis. O aspecto mais bonito da ocorrência foi o gesto de civilidade da governadora potiguar, do PT, a professora Fátima Bezerra, em cujo território ocorreu o desconforto.

Providenciou ela um helicóptero do governo para que o doente fosse removido do interior para Natal e ali pudesse ter mais ampla assistência. Ele acabaria removido para Brasília, onde foi submetido a uma demorada cirurgia. Antes, postou agradecimentos, mas não incluiu neles a governadora. Cada um dá de si o que tem. Essa dor de barriga faz revelações e instiga uma visita à nossa história política.

Trump ataca a solidariedade como se fosse um valor da esquerda - Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Parece haver uma tendência de parte da direita de identificar a solidariedade como valor de esquerda. E, portanto, um alvo justificável

Neste fim de semana os cristãos comemoram a Páscoa. Uma das mensagens da Páscoa é a de solidariedade. Na tradição cristã, a morte de Jesus é um sacrifício pela salvação da humanidade. Nesta quinta-feira ocorre a cerimônia do lava-pés, que celebra a passagem em que Jesus lava os pés dos apóstolos, num gesto de humildade e fraternidade. Nos últimos três meses, esses valores estão sob ataque nos EUA de Donald Trump.

O presidente Trump vem fazendo da falta de empatia e de solidariedade marcas definidoras de seu governo. Ele cortou ajudou americana vital para crianças, pessoas pobres e doentes pelo mundo. Vem também explorando com fins políticos a humilhação e o sofrimento. Trata-se de uma mudança importante na tradição política e social americana.

Apesar de ser uma sociedade que valoriza muito a responsabilidade individual e a ação privada, os EUA sempre tiveram a solidariedade como um valor fundamental, talvez um valor fundador, num país construído por imigrantes que dependiam uns dos outros para sobreviver. Isso gerou uma cultura do voluntariado, da filantropia, da atuação comunitária e do espírito de ajuda mútuo que tem poucos paralelos no mundo.

Um símbolo dessa cultura é a tradição de os presidentes americanos fazerem trabalho voluntário (servindo comida ou ajudando a pintar escolas, por exemplo) no feriado dedicado a Martin Luther King.

Entrevista | Randolfe Rodrigues: Lula deve impedir ‘avanço maior’ sobre o Orçamento

Hugo Henud / O Estado de S. Paulo

Líder do governo no Congresso afirma que papel da atual gestão é diminuir protagonismo do Legislativo Senador pelo Estado do Amapá e professor de Direito, é o terceiro líder do governo no Congresso desde o início da atual gestão do presidente

Líder do governo Lula no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) avalia que a eleição de 2026 não será definida pelo eixo tradicional entre direita e esquerda, mas por uma disputa mais profunda entre democracia e autoritarismo. Em entrevista ao Estadão, o congressista afirma que “a grande disputa de 2026 será entre democratas e autocratas, não entre direita e esquerda”. Randolfe afirma que o governo Lula precisa atuar para conter o avanço do Congresso sobre o Orçamento federal, que aprovou para 2025 R$ 50,4 bilhões em emendas parlamentares. “Hoje, 20% das receitas discricionárias da União estão sob responsabilidade do Congresso. O papel do Executivo é não permitir que haja um avanço maior do Legislativo sobre a peça orçamentária.” 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Confissão para 2026 - William Waack

O Estado de S. Paulo

As estimativas para as contas públicas que o governo acaba de entregar ao Congresso recebem o pomposo nome de Lei de Diretrizes Orçamentárias, mas deveriam ser tratadas como confissão. A de que nada mesmo importa além de ganhar as eleições de 2026.

Nisso não há qualquer surpresa. Desde as eleições municipais do ano passado, Lula assumiu que uma deterioração modesta da política fiscal – a que ele conduz no momento – incomoda muito os agentes econômicos, mas seria essencial para ganhos eleitorais. A novidade na confissão é o próprio governo assumir que o sucessor estará quebrado em 2027.

Este será o resultado da conhecida armadilha fiscal que Lula armou para si mesmo, pela qual garantiu desde o primeiro dia do terceiro mandato que despesas cresceriam mais do que receitas. Numa linha do tempo mais longa, os resultados prometem ser os mesmos da primeira era do PT no poder – medíocres, sobretudo diante dos desafios que o Brasil enfrenta –, mas Lula acha que foi um golpe em 2016 que o impediu de alcançar o paraíso.

Próximo alvo: emissoras públicas - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

A NPR e a PBS viverão tempos duros. Se souberem enfrentar a sanha autoritária, contribuirão para a causa democrática nos Estados Unidos e no mundo todo

Depois de disparar contra as universidades e contra a imprensa, a Casa Branca pretende agora atacar as emissoras públicas dos Estados Unidos. As estações de rádio da National Public Radio (NPR) e as estações de TV da Public Broadcasting Service (PBS) entraram na mira. Estamos falando de dois pilares da comunicação social de toda a América do Norte. A PBS foi formada em 1970 e hoje reúne 365 canais de televisão dedicados à cultura, à educação e ao jornalismo independente e crítico. A NPR surgiu em 1969 e tem 1.041 rádios públicas entre as suas afiliadas, algumas delas em atividade desde a primeira metade do século 20. Um dos pontos altos de sua programação tem sido o jornalismo internacional. As duas entidades provam diariamente que qualidade pode fazer sucesso e se distinguem por não veicularem anúncios publicitários banais, desses que oferecem hambúrguer, pasta de dente, cartão de crédito ou vitaminas em cápsula. Elas não têm fins de lucro. Agora, atraem a fúria de Donald Trump, empenhado em cortar os recursos federais que elas deveriam receber.

Condenações judiciais da União custam caro - Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

Já são 2,5% do PIB ao ano, porcentagem que pode parecer pequena, mas o PIB é de cerca de R$ 11 trilhões, fazendo com que elas alcançam centenas de bilhões

Até aqui, o noticiário sobre esse tema despertou muito a minha atenção para os chamados precatórios. Essas e outras condenações foram objeto de um detalhado, interessante e inédito estudo de quatro pesquisadores do Insper: Marcos Mendes, Cristiane Coelho, Marcos Lisboa e Leonardo Barbosa, que motivou uma extensa e esclarecedora reportagem do jornal Valor Econômico (9/4, página 10), de autoria da jornalista Jéssica Sant’Ana. O estudo vai muito além dos precatórios e entendo que merece maior divulgação, inclusive para implementar suas recomendações.

Lula atravessou os Andes para escorregar em casca de banana em Lima – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Odebrecht operava uma rede de influência por meio de subornos e financiamentos ilícitos de campanhas, afetando partidos de diferentes espectros ideológicos no Peru

A ex-primeira-dama do Peru Nadine Heredia chegou a Brasília nesta quarta-feira em avião da Força Aérea Brasileira (FAB), graças a um salvo-conduto concedido pela presidente do Peru, Dina Boluarte, a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A informação foi confirmada pela defesa do ex-presidente Ollanta Humala, marido de Nadine. O Ministério das Relações Exteriores informou à Embaixada do Brasil que a ex-primeira-dama foi condenada, pelo Poder Judiciário, a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro.

"O Governo da República Federativa do Brasil solicitou a saída dos asilados, com base nos artigos V e XII da mencionada convenção, que estabelecem que o Estado que concede o asilo pode pedir a saída do asilado para território estrangeiro, e o Estado territorial está obrigado a fornecer imediatamente, salvo em caso de força maior, as garantias necessárias e o salvo-conduto correspondente", comunicou o Ministério das Relações Exteriores do Peru.

A política comercial de Trump e o futuro incerto do comércio internacional - Celso Henrique Cadete de Figueiredo

Correio Braziliense

O mundo assiste apreensivo a mais um capítulo da disputa entre interesses nacionais e a governança global. Com consequências imprevisíveis

A política tarifária voltou ao centro do debate econômico com a proposta do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de aplicar "tarifas recíprocas" como instrumento de correção de desequilíbrios comerciais. O que se apresenta como uma medida de justiça comercial é, na verdade, uma ruptura com as regras do sistema multilateral de comércio. Em vez de se basear em práticas desleais reconhecidas, como dumping ou subsídios, Trump propõe tarifas proporcionais ao déficit comercial dos EUA com cada país, desconsiderando os fundamentos econômicos que explicam esses desequilíbrios.

Essa abordagem, além de tecnicamente insustentável, ignora os fundamentos da interdependência econômica global e desconsidera as complexas cadeias de valor em que os EUA estão inseridos. Elas não apenas carecem de base jurídica nos tratados da Organização Mundial do Comércio (OMC), como introduzem um critério de aplicação profundamente equivocado. Em vez de se basearem na tarifa média efetiva aplicada por seus parceiros comerciais — como é de praxe nas avaliações técnicas multilaterais —, essas tarifas se pautam unicamente no déficit comercial bilateral dos EUA com cada país.

A prioridade da segurança - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Proposta de Lewandowski é necessária diante da rápida expansão do crime organizado

Em boa hora, a proposta de emenda constitucional (PEC) da Segurança Pública saiu do forno. Recém-encaminhada ao Congresso pelo Ministério da Justiça, sinaliza a disposição do Governo Federal de —enfim— assumir papel ativo e positivo em face daquele que, segundo as sondagens de opinião, é hoje o maior problema a atormentar os brasileiros.

A proposta do ministro Ricardo Lewandowski é tão ambiciosa quanto necessária diante da expansão do crime organizado pelo território e da ramificação de seus negócios ilícitos em inimagináveis atividades lícitas. Seu propósito é favorecer a coordenação entre os 27 sistemas de segurança pública de responsabilidade dos estados, aumentando sua eficiência —hoje não só limitada como desigualmente distribuída pela federação.

Na zorra de Trump, Brasil se esquece - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

O que fazer de arcabouço à beira do fim, invasão de sobras chinesas, perdas com petróleo e juros?

Desde 2023, sabia-se que o gasto do governo explodiria o arcabouço fiscal em algum momento em torno de 2027. Isto é, a coisa iria para o vinagre ao final de Lula 3 se não houvesse mudança maior no ritmo de crescimento de despesas, grosso modo determinado por leis, "gasto obrigatório", piorado desde fins de 2022.

Pois bem. Nesta semana, o roteiro da explosão até 2029 foi desenhado pelo próprio governo, que apresentou as linhas gerais do Orçamento de 2026 (o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias).

Prestou-se atenção ao fato de que, em 2027, será preciso incluir nas contas (de despesa, de saldo primário) o gasto inteiro com sentenças judiciais ("precatórios"). Até lá, para certos fins fiscais oficiais, finge-se que um gasto de uns R$ 50 bilhões não existe (reaparece no aumento sem limite da dívida pública). Note-se, porém, que, pelo menos a partir de 2028, o que sobra para o governo gastar, além do obrigatório, é achatado com ou sem precatório. Ou se muda o limite de gastos, ou a meta de superávit primário ou se faz alguma gambiarra ou não vai sobrar nada. Bum.

Longa vida a Bolsonaro – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nem os que mais o odeiam querem vê-lo morto num hospital. Não, ele precisa viver, para pagar

Jair Bolsonaro volta ao hospital em decorrência da facada que lhe foi aplicada por um desequilibrado em Juiz de Fora na campanha de 2018. Naquele dia, Bolsonaro foi salvo pelos médicos. O que não impediu que, como presidente, escarrasse o seu desprezo por eles na pandemia, levando-os a trabalhar sob altíssimo risco de vida nas UTIs improvisadas, sonegando-lhes as vacinas, zombando dos pacientes que eles lutavam para salvar e nomeando o repugnante Pazuello como ministro da Saúde.

Só por isso, Bolsonaro justificaria que se soltassem foguetes a cada nó nas tripas que o acomete. É o que, neste momento, ele parece estar pedindo, ao descrever-se como em situação quase terminal e desfilando alegremente pelos corredores como um moribundo. Mas nem os que têm os piores motivos para odiá-lo querem que ele morra num leito de hospital. Não. Bolsonaro precisa viver.

Poesia | Isto, de Fernando Pessoa

 

Música | Zeca Baleiro - Santa Luzia

 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Milei avança ao adotar novo regime cambial

O Globo

Respaldado por acordo robusto com o FMI, presidente argentino tenta sair da armadilha do peso forte

A decisão do presidente argentino, Javier Milei, de reformular a política cambial chegou em boa hora. Desde que assumiu, em dezembro de 2023, ele promoveu mudanças consideradas impensáveis. Reduziu o gasto público em 27% e fez a inflação mensal cair de 26% para cerca de 3%. Não sem razão seus apoiadores dizem que a Argentina precisou de um presidente fora do normal para dar mais normalidade a sua economia. Apesar de um primeiro ano promissor, desafios persistem. O recente acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) abriu o caminho para Milei tentar desatar o nó do câmbio. A chegada de dólares motivou o anúncio de um novo regime, com a implementação de uma banda de flutuação. O sucesso de todo o plano econômico depende de uma transição sem sobressaltos.

Quem defende a democracia? - Vera Magalhães

O Globo

Em 2022 e 2023 o Brasil se mostrou mais maduro e equipado que os Estados Unidos em 2020 e 2021 para lidar com as turbas

Estados Unidos e Brasil lidam neste momento com um dilema comum: como responder a diferentes graus de ameaça à democracia que aconteceram nos últimos anos e, por lá, se intensificam a cada dia no novo mandato de Donald Trump?

Enquanto aqui uma corrente política tenta convencer a sociedade de que o Judiciário exagera e persegue ao punir com rigor aquilo que a sua Corte mais alta, o Supremo Tribunal Federal, decidiu por ampla maioria ter sido uma tentativa de golpe de Estado, nos Estados Unidos as diferentes instituições começam a dar sinais de que perceberam quanto subestimaram a capacidade de destruição de todo o arcabouço democrático erigido nos últimos séculos por parte de uma oligarquia disposta a fazê-lo.

A ignorância nos EUA de Trump – Elio Gaspari

O Globo

Não se pode exigir que os presidentes dos Estados Unidos conheçam a América do Sul. Franklin D. Roosevelt (1933-1945) chamou Getúlio Vargas de general, e George W. Bush (2001-2009) perguntou a Fernando Henrique Cardoso se havia negros no Brasil. A ignorância pontual é uma condição do gênero humano. Afinal, ninguém é obrigado a saber tudo, mas o problema se agrava quando o sujeito recicla a própria ignorância e acredita ter conseguido sabedoria. Esse é o caso de Donald Trump e de sua turma.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que “o governo Obama (...) permitiu que a China se infiltrasse em toda a América do Sul e Central com sua influência econômica e cultural”, e acrescentou:

— Estamos retomando o nosso quintal.

O doutor falava do Canal do Panamá, onde empresas chinesas se estabeleceram no vácuo deixado pelos interesses comerciais dos Estados Unidos.