quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais | Opiniões

Operação policial no Rio foi resultado de planejamento

Por O Globo

Letalidade alta deve ser investigada, mas houve preocupação das autoridades em preservar moradores

As polícias Militar e Civil do Rio correram enorme risco ao entrar no quartel-general do Comando Vermelho durante a megaoperação de terça-feira nos complexos do Alemão e da Penha. Os traficantes demonstraram resistência incomum — a ponto de, pela primeira vez, usarem drones para lançar bombas nos agentes —, matando quatro policiais e ferindo outros 15. Os policiais prenderam 113 suspeitos — entre eles lideranças do CV, não apenas do Rio — e apreenderam mais de cem armas. É revelador que a operação, a mais letal na história do Rio, tenha deixado mais de uma centena de mortos. Mas ela foi resultado de planejamento para tentar preservar os moradores e encurralar os traficantes nas matas, onde ocorreu a maior parte dos confrontos.

Lula vive boa fase da Lua, por Carlos Melo

O Globo

Não existe postulante ao Planalto posicionado para além dos clichês da polarização mutuamente estimulada

Dizem que o presidente Lula nasceu virado para a lua: há cem dias, estava nas cordas. Os erros da oposição o empurraram de volta ao centro do ringue. Deram-lhe a agenda de que carecia: “pobres x ricos”, “soberania nacional”, a “blindagem” do Centrão. Apesar de percalços naturais, Lula comete menos erros, aproveita a maré. As curvas dos gráficos de popularidade têm reagido.

Precificaram sua derrota, mas o jogo empatou. Hoje, o governo tem a vantagem anímica da partida. Abatida, a oposição, sem unidade ou método, tenta emplacar sua agenda: a segurança pública. Busca deter um Lula fortalecido pelo veneno que ela mesma destilou. É a política.

É óbvio, tudo pode mudar: fatos dramáticos como os do Rio de Janeiro, nesta semana, podem influenciar o quadro. Há também a complicada conciliação de interesses nos palanques regionais. E, na esquerda, o bom momento tem sido mau conselheiro. Contudo já existem elementos favoráveis ao projeto de reeleição.

Uma crise em duas imagens? Por Malu Gaspar

O Globo

A imagem que traduzirá para a História a operação policial mais letal que já se fez são as dezenas de corpos estirados no chão de uma praça vizinha aos complexos do Alemão e da Penha, recolhidos na mata pelos próprios moradores. São cadáveres de homens muito jovens, quase todos negros, um com a cabeça cortada, outros com marca de algemas nos pulsos. Para o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), são criminosos, não vítimas. Não mereciam nem sequer prisão ou julgamento, mas eliminação.

Por esse viés, 121 mortos são prova de sucesso, embora no Brasil não haja pena de morte e, pelo menos oficialmente, não se autorizem execuções sumárias em ações policiais. A justificativa para a matança é que estamos em guerra, e não se faz guerra sem mortes. Boa parte da população endossa esse discurso, daí por que Castro tem capitalizado politicamente a operação.

Pouco importa que não se tenha capturado o principal alvo, Edgar Alves de Andrade, o Doca, responsável pela expansão do Comando Vermelho, prestes a concluir a tomada das Zonas Oeste e Sudoeste do Rio de Janeiro.

Da boca para fora, por Julia Duailibi

O Globo

A situação atual é tão extrema que não adianta mais as polícias estaduais agirem sozinhas

Entre os cem mandados de prisão da operação na Penha e no Complexo do Alemão, 32 eram de foragidos do Pará. Policiais paraenses acompanharam o planejamento da ação e fizeram constar dela ordens de prisão contra líderes do Comando Vermelho (CV) do estado que, foragidos no Rio, determinavam a execução de crimes a mais de 3 mil quilômetros. Nos últimos quatro anos, 57 mandados foram cumpridos no Rio por crimes cometidos no Pará, entre os quais a prisão de Bianca Franco, a Fielzinha do 41, que chamou a atenção da polícia de seu estado natal ao posar com um fuzil num baile funk no Complexo da Penha.

Rio de sangue, dor e conflito, por Míriam Leitão

O Globo

Combater as facções criminosas exige inteligência, planejamento e ação organizada. O que vimos, até aqui, foi a repetição de erros do passado

O Rio amanheceu ontem contando os mortos e o governador Cláudio Castro se dizendo orgulhoso e definindo como um sucesso a operação policial mais letal do Brasil. Pior do que a sua distorção de análise, é o fato de que o Supremo Tribunal Federal, em voto único, em abril, mandou o Rio fazer exatamente o contrário, ter um plano de redução da letalidade das operações. Há ordens do STF não cumpridas na ação no Complexo da Penha. Desde o começo da crise, o governador tem entrado em seguidas contradições, e se corrige dizendo que fizeram má leitura das suas declarações. No fim do dia, ontem, deu uma entrevista ao lado do ministro da Justiça, reduzindo a tensão da crise federativa.

Durante os últimos dois dias, Cláudio Castro disse diversas vezes que não queria a politização dos eventos. Mas politizou todo o tempo. Ontem chegou a dizer que "quem quiser somar com Rio de Janeiro neste momento é bem-vindo. Os outros que querem fazer confusão e politicagem, sumam. Ou soma ou suma”. Isso foi logo depois de uma reunião online com os “governadores de direita”. Disse que nesta reunião não se falou da PEC da Segurança. Deveria ter falado. Afinal, a PEC cria os canais de cooperação entre os entes federados e a União através do SUSP, o Sistema Único de Segurança Pública. O governador do Rio sempre criticou a proposta, alegando que iria perder autonomia. Quando o número de mortos começou a subir, no entanto, Castro reclamou a falta de ajuda federal.

Segurança terá colaboração no varejo e embate no atacado, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Governo federal continuará a investir contra as atividades econômicas do crime organizado no Rio ignoradas pelo governo estadual

O primeiro pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a operação policial com o maior número de mortos da história se deu 24 horas depois de sua volta ao Brasil. Como convinha evitar uma exposição como aquela que, na Indonésia, o levou a ver traficantes como “vítimas” de usuários, Lula falou por escrito nas redes.

Ressaltou o impacto sobre as famílias, as drogas e a violência e registrou as duas iniciativas federais no tema, as operações contra as atividades do crime organizado na venda de drogas, na adulteração de combustíveis e na lavagem de dinheiro, além da PEC da segurança.

Até então, o recado, na única cerimônia pública à qual compareceu desde então, a posse do novo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tinha sido a camisa preta, a simbolizar um estado que o titular da Justiça, Ricardo Lewandowski, resumiu como de “estarrecimento”.

Depois de assistir sua foto com Donald Trump se transformar na mensagem com maior engajamento em suas redes, segundo a Quaest, Lula viu o noticiário ser tomado pela violência, tema que lidera as preocupações dos brasileiros em todas as pesquisas. Entre as pesquisas que começaram a chegar ao Palácio do Planalto estava uma, da Activaweb, que mostrava uma reação mais comovida que sanguinária e uma cobrança pela cooperação dos governos estadual e federal.

Cláudio Castro assume sua necropolítica com o conceito de “narcoterrorismo”, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O termo “narcoterrorista” desloca o crime do âmbito penal para campo da segurança nacional. É importado da doutrina norte-americana da “narcoguerra”. usada na Colômbia e no México para o emprego das Forças Armadas

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, rompeu de forma explícita com os paradigmas de segurança pública estabelecidos pela Constituição de 1988. Ao comentar a Operação Contenção, deflagrada no Complexo do Alemão e da Penha — a mais letal da história do estado, com 121 mortos —, Castro sintetizou os resultados do conceito de narcoterrorismo: “Temos muita tranquilidade de defendermos tudo que fizemos ontem. Queria me solidarizar com as famílias dos quatro guerreiros que deram a vida para salvar a população. De vítima, ontem, lá, só tivemos esses policiais.”

A frase é mais que uma defesa corporativa. Ao tratar os mortos como “narcoterroristas”, Castro inaugura no Brasil uma retórica que substitui a segurança pública pela lógica da guerra interna. Em nome da “defesa da população”, o Estado reivindica o poder de decidir quais vidas são protegidas e quais podem ser eliminadas. A operação de “cerco e aniquilamento”, do ponto de vista militar, foi bem-sucedida. Mas não desarticula o tráfico de drogas nem recupera o território, porque a violência volta à “normalidade” e, geralmente, as milícias ocupam o espaço dos traficantes no controle da economia informal.

Letalidades e atrocidades, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Onde o poder público descuida da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue

“A ditadura segue presente nas periferias.” A frase estava no pequeno cartaz que me fez companhia na Catedral da Sé, na noite de sábado, 25 de outubro, durante o culto inter-religioso em memória dos 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog. Era um cartaz em papel bem firme, plastificado, quase do tamanho de uma página de jornal como este aqui. De um lado, trazia a foto de Manoel Fiel Filho, o metalúrgico alagoano que foi morto em 1976 pela repressão política da ditadura. Do outro lado, as palavras certeiras sobre a presença destrutiva da violência policial nos bairros mais pobres das metrópoles brasileiras.

Eu levantei o retrato muitas vezes durante o culto. Sempre que um discurso lembrava os desaparecidos ou um dos que tombaram sob tortura, como o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho, eu o erguia. Dezenas de outras pessoas presentes, com pôsteres estampados com outros rostos, também elevavam os seus. O efeito cênico se traduzia em comunicação didática e expressão política: a História existe quando dela não nos esquecemos – e, se dela não nos esquecemos, sabemos tecer o presente. Fora disso, o que resta é a selva. A memória dos crimes perpetrados pelo arbítrio que varreu o País há 50 anos nos ajuda a vencer aqueles que querem reeditá-lo. Por isso dizemos: ditadura, nunca mais.

Sem saida, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Sem debate sério e entendimento político, o crime organizado não será contido

O sistema político brasileiro parece viver para si mesmo sem se dar conta de que o crime organizado se transformou no fator de risco número 1 para a própria política e a governabilidade. Entende-se aqui por sistema político não só os grupos e partidos, mas também as estruturas formais do Estado, como o STF.

A erosão do monopólio do Estado na aplicação da violência já tem mais de 40 anos e a acomodação das autoridades a essa situação idem. Em muitas das áreas sob domínio territorial do crime organizado duas gerações de brasileiros cresceram sem conhecer outro estado de coisas.

No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, desenvolveu-se até o que se poderia chamar de “cultura própria” – que (goste-se disso ou não) são canais de integração e solidariedade dentro de comunidades, capazes de conviver com a ferocidade dos traficantes e a dos agentes do Estado, visto em boa parte simultaneamente como ausente e inimigo.

Messias, guinada conservadora no STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Tribunal tomou decisões essenciais pelos direitos de parcelas vulneráveis; hoje, evita o tema

Aprovável chegada de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) engrossa a crescente bancada conservadora da Corte. Se nas décadas passadas o plenário tomou decisões de vanguarda a favor de grupos minoritários da sociedade, hoje esse cenário é cada dia menos provável de se repetir.

Um termômetro da mudança dos ventos é o julgamento a conta-gotas da ação que descriminaliza o aborto até a 12ª semana de gestação. Rosa Weber votou em 2023 e Luís Roberto Barroso votou há duas semanas. Um pedido de vista jogou a discussão para um futuro distante.

No STF, há quem considere que o momento não seja propício para se debater o aborto. Há também quem acredite que essa não seja uma tarefa para o Judiciário. Uma minoria até gostaria de impulsionar a votação, mas não encontra apoio interno para por o plano em prática.

Não foi assim nas décadas passadas. Em 2011, o STF legitimou as uniões homoafetivas como núcleos familiares por unanimidade. No ano seguinte, legalizou o aborto para gravidez de feto anencéfalo por oito votos a dois.

Cláudio Castro deveria ser preso, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Governador confessou ser o autor intelectual dos assassinatos

Matar alguém é potencialmente homicídio e deve ser assim tratado

Por baixo da pilha de mais de cem corpos que sangram nas ruas da Penha e do Alemão, não cabem meias palavras: Cláudio Castro confessou em rede nacional ser o autor intelectual do assassinato de ao menos uma centena de pessoas na ação mais letal da história do estado e, por isso, deveria ser preso imediatamente. Não seria uma novidade: outros cinco ex-governadores do RJ já foram presos por ilícitos bem menores.

Tiro na nuca, nas costas e facadas constituem sinais de execução, e se o Ministério Público não os investigar, conivente será. Faz-se urgente que o STF determine, via ADPF 635, que a Polícia Federal participe das perícias nos corpos, garantindo o respeito a parâmetros como o Protocolo de Minnesota sobre a Investigação de Mortes Potencialmente Ilícitas.

A USP diante da intolerância, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A universidade não pode ser campo de batalha de 'guerras culturais'

Grupos de extrema direita atacaram espaços ocupados por estudantes da FFLCH

A Universidade de São Paulo se prepara para escolher quem ocupará a Reitoria nos próximos quatro anos.

A USP é responsável por 20% da produção científica brasileira; rankings internacionais a situam nos primeiros lugares entre as universidades latino-americanas e entre as 100 ou 200 instituições mais importantes do mundo. A cada ano, nela se titulam, em média, quase 6.000 pós-graduados —mestres e doutores. Mais do que isso, ali se formam não só lideranças científicas e culturais, mas também quadros qualificados para governos e partidos, empresas e organizações da sociedade.

Junto com a Unicamp e a Unesp, a USP constitui o alicerce de um robusto sistema de produção de ciência e cultura, que distingue o Estado de São Paulo.

Desde 2017, uma renovação social, tão importante quanto silenciosa, vem ocorrendo em seus campi. A adoção de políticas afirmativas —sob a forma de cotas raciais e para estudantes egressos da escola pública— tornou seu corpo docente mais diverso e próximo das cores e da composição social da população brasileira.

No Congresso, mais gritos por segregação, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Parlamentares resistem à inclusão escolar de crianças com deficiência

Mudança social guiada por uma ideia de justiça é o mais difícil empreendimento humano. Exige combate a poderes enraizados, hierarquias e interesses lucrativos. Em mudanças assim, os de cima descem e os debaixo sobem. Alguém sempre perde, se entendermos a promoção de justiça como derrota daquele que se beneficiava da injustiça.

A Constituição de 1988 se comprometeu com projeto desse tipo. Além de prever metas, direito e deveres, dividiu atribuições aos que devem liderar o processo. Há fracassos e êxitos coletivos ao longo desses quase 40 anos de constitucionalismo democrático.

Entre os êxitos, a educação oferece alguns dos exemplos mais inspiradores, sobretudo na educação de crianças com deficiência. Uma vanguarda internacional. O Estado construiu gradualmente arcabouço normativo e política pública orientada pelo princípio da educação inclusiva.

Matança volta a dominar conversa sobre segurança, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de três meses de derrotas, governadores e oposição acham mote de propaganda

Ideia de guerra contra narcoterroristas renova ciclo de estupidez na política de segurança

As direitas estavam acuadas, na defensiva, depois de quase três meses de derrotas. Planejam agora contraofensiva cadavérica. Governadores querem fazer propaganda da matança no Rio de Janeiro a fim de arrumar um mote de campanha e preparar um ataque ao governo federal.

A direita não conseguiu levar adiante a anistia para golpistas. Teve de engolir (por enquanto) o revertério da PEC da Blindagem da Bandidagem, a PEC da Parlamentagem. A conspiração dos Bolsonaro contra empregos e empresas do país parece dar errado, dado o início de negociações entre Brasil e EUA.

A tragédia brasileira, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Fala do governador Cláudio Castro de que a operação foi um 'sucesso' choca pela brutalidade da realidade do país

É desesperançoso constatar que há saídas, mas faltam consensos para implementá-las

Primeiro, o choque com o horror da operação nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro.

Depois, novo choque com a declaração do governador do estado, Cláudio Castro, de que "tirando a vida dos policiais, o resto da operação foi um sucesso".

É pavoroso ver que a maior autoridade do estado tenha feito essa avaliação equivocada no dia seguinte ao desastre da ação policial mais letal da história do país.

É aterrador constatar que Castro recebe aplausos de setores importantes da sociedade, mesmo diante de tanta barbárie.

Poesia | Em louvor da aprendizagem, de Bertolt Brecht

 

Música | No nos moverán - Joan Báez - Piero ~ León Gieco ~ Luis Eduardo

 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação expõe limite estadual no combate ao crime

Por O Globo

Ou governo federal e estados se unem para enfrentar facções criminosas, ou então todos sairão derrotados

A resistência feroz que a polícia fluminense encontrou na operação desta terça-feira contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, é demonstração eloquente dos limites enfrentados pelos governos estaduais no combate às organizações criminosas. A ação reuniu 2,5 mil policiais e deixou ao menos 60 mortos, entre eles quatro policiais, 56 suspeitos, além de vários inocentes feridos. Diante da incursão, os criminosos ergueram barricadas, incendiaram veículos e fecharam vias essenciais paralisando a cidade. Usaram até drones com explosivos para intimidar a polícia.

O secretário de Segurança do Rio, Victor Santos, reconheceu que o governo do estado não tem condição de enfrentar o tráfico. “Não dá para enfrentar sozinho”, afirmou. “É preciso que, sem ideologia, estado, União e município se sentem à mesa.” O governador Cláudio Castro cobrou “um trabalho de integração muito maior com as forças federais”. Ele disse que pediu apoio de blindados do Exército por três vezes e que os pedidos foram negados. O governo federal afirmou que não houve pedido de ajuda para a operação atual.

Segurança exige união e inteligência, por Vera Magalhães

O Globo

Não é mais possível abordar o problema pelo receituário clássico da esquerda, que preconiza ações de longo prazo, mas resposta exige atuação conjunta de entes federados

Um enfrentamento efetivo ao crime organizado e à rápida e preocupante expansão de seu domínio de territórios e atividades econômicas no Brasil, além da infiltração em instituições de Estado, exige mais que megaoperações como a desta terça-feira no Rio de Janeiro, que registrou a maior letalidade da História, levou o caos à cidade e descambou, mais uma vez, para um jogo de empurra entre autoridades.

O caminho mais consistente, que permitirá resultados de longo prazo, para além das baixas de integrantes das facções e de parte de seu arsenal —ambos passíveis de rápida e constante reposição, mantida a lógica atual —, envolve investimento em inteligência e forçosamente uma coordenação sofisticada de esforços entre Poderes e instâncias governamentais.

O que se viu nos complexos do Alemão e da Penha passou longe pelo menos da segunda dimensão. O governo federal e a prefeitura da capital não foram informados da operação. Ao longo do dia, Rio e Brasília protagonizaram uma disputa de versões a respeito da negativa atribuída à gestão Lula a oferecer ajuda pedida pelo estado. No fim, o governador Cláudio Castro reconheceu que os pedidos não foram relativos à ofensiva atual e acabou telefonando à ministra Gleisi Hoffmann para se retratar.

Castro aposta no bangue-bangue, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Após maior matança da história do estado, governador critica ministérios e STF

Ainda não era meio-dia quando a equipe de Cláudio Castro abasteceu as redes com um vídeo sobre a operação de ontem. A peça foi embalada com trilha sonora de filme de ação. Exibia policiais de uniforme camuflado, viaturas em alta velocidade e um fuzil repousado no asfalto.

Estrelado por forças públicas, o vídeo tinha fins particulares. Ao fundo, uma marca-d’água convidava o visitante a seguir o perfil pessoal do governador. Um instantâneo da política na era do Instagram, em que até matanças viram material de autopromoção.

Castro apostou alto na megaoperação que mobilizou 2.500 agentes com o objetivo declarado de combater o Comando Vermelho. A ação se concentrou nos complexos da Penha e do Alemão. Resultou num banho de sangue nunca antes visto no Rio: ao menos 64 mortos, sendo quatro policiais.

A territorialização do crime organizado no Rio é uma patologia social e política, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Tríade território-sociabilidade-economia ilícita é o eixo estruturante do poder paralelo no estado. Eis a anatomia do patológico: o crime como forma de organização social

Por décadas, o Rio de Janeiro conviveu com a ideia de que a violência urbana é parte da paisagem. A naturalização das armas, dos tiroteios, das rotas interditadas e das mortes diárias se consolidou como uma anomalia que deixou de chocar — e, como ensinou Émile Durkheim, fundador da sociologia moderna, o momento em que o patológico se torna normal é o instante em que uma sociedade começa a adoecer profundamente.

A territorialização do crime no Rio não é apenas uma questão de segurança pública: é uma patologia social e política, resultado da corrosão prolongada dos mecanismos de solidariedade e da incapacidade das instituições de exercerem, de forma integrada, o monopólio legítimo da força. O ex-deputado Alfredo Sirkis, pioneiro do movimento ambientalista e ex-militante da resistência armada, diagnosticou o fenômeno há décadas: “Os traficantes têm uma topografia adequada, uma base social enraizada e uma fonte inesgotável de financiamento”.

Dia da Memória das Vítimas da Corrupção, Cristovam Buarque

Correio Braziliense

É estranho criar um dia para lembrar as vítimas do comunismo na União Soviética quando, no Brasil, os comunistas sempre foram as vítimas

Ao criar o Dia da Memória das Vítimas do Comunismo, o governador do Distrito Federal se refere, provavelmente, às vítimas do regime comunista da antiga União Soviética, que desapareceram há quase meio século. Não está considerando as vítimas da Rússia capitalista na Ucrânia, nem os 6 milhões — quase todos judeus — mortos pelo regime de direita nazista na Alemanha. Tampouco considera os 1.700 israelenses mortos e os cerca de 300 sequestrados, vítimas do terrorismo do Hamas, nem os 70 mil mortos e condenados à fome por Israel no gueto de Gaza. Ainda menos, não leva em conta as dezenas de milhares de presos, torturados, exilados ou os mortos pela ditadura militar de direita capitalista no Brasil.

Interseção entre as crises da Venezuela e do Rio, por Fernando Exman

Valor Econômico

Uma eventual queda do regime de Maduro pode levar milicianos a se livrarem das armas, abrindo uma grande oportunidade para as facções brasileiras

Enquanto se aproximava da costa venezuelana o USS Gerald R. Ford, maior porta-aviões do mundo e símbolo da projeção de poder dos Estados Unidos, a imprensa oficial da ditadura de Nicolás Maduro transmitia imagens de cidadãos comuns com fuzis na mão recebendo treinamento. É a Milícia Nacional Bolivariana, que, segundo os números muito provavelmente inflados pelo governo local, conta com 4,5 milhões de integrantes.

São homens e mulheres de todas as idades, armados e sem experiência militar, mas que juram fidelidade ao seu líder e disposição para enfrentar uma força invasora. São, portanto, um obstáculo para os planos dos EUA e, de forma indireta, também um potencial problema para a segurança pública brasileira: as Forças Armadas temem que esse arsenal possa entrar ilegalmente no Brasil, em caso de colapso do Estado venezuelano.

Impacto na investigação dos EUA sobre Pix, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

O entrelaçamento de cadeias de produção, principalmente na indústria, é característica marcante da relação com os Estados Unidos e que o Brasil não repete om outros parceiros

A reação química que transformou o diálogo entre Brasil e Estados Unidos também produziu uma névoa de dúvida em torno da investigação aberta pelo Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sob o abrigo da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. É aquela que cita o Pix, o comércio da rua 25 de Março, o desmatamento e tarifas sobre o etanol, entre outros, como práticas brasileiras que prejudicam a competitividade americana.

Nos bastidores, a investigação segue vista como uma possível ferramenta dos americanos para limitar o comércio com o Brasil caso, por exemplo, a Suprema Corte decida que o tarifaço é ilegal. No entanto, o cenário hoje é diferente do que havia quando a investigação foi aberta, e isso cria incerteza sobre como será conduzida de agora em diante. O tom político que a pautou, junto com o tarifaço de 40%, foi trocado no último fim de semana por um claro comando do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sentido de se buscar rapidamente um acordo.

O que Lula quer com Boulos no Planalto, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Novo ministro provoca alas do PT, que o veem fortalecido para furar a fila no pós-Lula

A entrada de Guilherme Boulos na “cozinha” do Palácio do Planalto é uma aposta do presidente Lula com muitos desdobramentos políticos. É cedo para dizer que Lula quer Boulos como seu sucessor, mas esta é uma hipótese no tabuleiro, apesar das resistências no PT.

Escolhido para comandar a Secretaria-Geral da Presidência, Boulos toma posse na tarde de hoje, com a tarefa de religar a conexão perdida entre o governo e os movimentos sociais. Terá duas grandes missões: 1) ser uma espécie de “mascate” digital, anunciando as boas-novas do governo nas redes sociais e fazendo a disputa política e 2) investir nos territórios populares, com um olhar atento para a juventude e o novo mundo do “empreendedorismo”.

O Brasil barbarizado pelo crime privado e pelo crime estatal, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Por que o país se acostumou à violência, problema até para quem se ocupa só de dinheiro?

Crime organizado se fortalece, propaganda direitista de cometer massacre policial também

Esta terça, 28 de outubro, é um dia, um de tantos, em que pessoas em tese dedicadas a discutir os assuntos brasileiros devemos dizer algo sobre a violência, mesmo que não tenhamos novidades ou conhecimento especializado. Seria um ritual, um minuto de silêncio, bandeira a meio pau, oração, meditação. Pelo menos.

Sim, um momento de meditação sobre o que aconteceu no Rio de Janeiro. Para quase todos nós, que não somos especialistas ou suficientemente informados, não seria o caso ou hora de aplicar sociologias, antropologias, economias, criminologias, histórias, direitos ou políticas para explicar mais este dia de horror, este outro surto sintomático de um mal de todos os dias, cotidiano, mas que vai piorar, ao qual nos acostumamos, de alguma maneira. Nos acostumarmos ao mal também não é surpresa.

A guerra do Rio virou paisagem, por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Todos ficam à espera de que a chuva passe, os corpos sejam recolhidos e o sangue seque; e eu me incluo nessa crítica

Enquanto o governador segue sentado sobre uma política de segurança pública falida, nós estamos aqui, aplaudindo o pôr do sol

A violência no Rio de Janeiro parece uma chuva de verão. Quando engrossa, as pessoas evitam sair de casa para não ficarem presas num alagamento, mas depois a vida volta ao normal.

Ainda mais que os tiroteios, os mortos e o sangue só escorrem bem longe daqui —do lado limpinho da cidade. A morte é vizinha de todos que nasceram em CEP longe dos cartões-postais do Rio. Depois de passar o dia afundada em reuniões —dentro de casa, claro—, procurei por notícias em grupos diversos.

Cláudio Castro promove 'matança produzida pelo Estado', diz nota conjunta de quase 30 entidades, por Mônica Bergamo

Folha de S. Paulo

Organizações de direitos humanos dizem que ação expõe fracasso da política de segurança fluminense

Ação é a mais letal da história do estado; além das vítimas, 81 homens foram presos

Quase 30 organizações de direitos humanos e coletivos da sociedade civil divulgaram, nesta terça-feira (28), uma nota conjunta em que afirmam que a Operação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, e que deixou ao menos 64 mortos, foi uma "matança produzida pelo Estado brasileiro".

As entidades dizem que a ação —a mais letal da história fluminense— "expõe o fracasso e a violência estrutural da política de segurança pública" e "coloca a cidade em estado de terror". O texto responsabiliza diretamente o governador Cláudio Castro (PL), que, segundo a nota, "detém o título de responsável por quatro das cinco operações mais letais da história do Rio de Janeiro".

PSB defende ação sobre favelas criticada por Castro e diz que governador tenta esconder incompetência

Por Folha de S. Paulo /Painel

Partido foi o autor da ADPF que regulamentou operações policiais em 2020

Chefe do Executivo fluminense afirmou que medida que disciplina trabalho policial dificulta combate ao crime

Ex-presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira diz que o ataque feito pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), à chamada ADPF das Favelas é uma tentativa de camuflar o fracasso de sua gestão no combate à ação das facções no estado.

A ação foi proposta pela legenda ao Supremo Tribunal Federal em 2020, quando Siqueira a comandava. Atualmente, ele preside a Fundação João Mangabeira, ligada ao partido.

"O governador Cláudio Castro, com esse ataque ao PSB, está tentando esconder a incompetência do seu governo em lidar e reprimir o crime organizado", afirmou ele ao Painel.

Ação no Rio joga segurança no centro da campanha de 2026, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Castro tenta culpar Planalto por um erro seu, expondo flanco numa área em que o discurso bolsonarista é mais conhecido

Esquerda tem dificuldade para lidar com a questão da violência, como a frase do presidente sobre traficantes prova

A operação da polícia fluminense contra o Comando Vermelho, necessária que tenha sido, escancara uma politização do tema da segurança pública que verá o assunto como candidato a prioridade dos rivais na campanha presidencial de 2026.

Há anos isso é dito, mas a questão é que, apesar da atribuição constitucional sobre o assunto recair mais sobre estados, na prática o poder federal tem se envolvido crescentemente no tema, da primeira GLO (Operação de Garantia da Lei e da Ordem) em 1992 ao pacote antifacção proposto pelo governo Lula (PT) na semana passada.

Num país em que a urgência de se lidar com o crime organizado parece ter virado preocupação nacional, num continente no qual uma superpotência nuclear tem explodido barcos atribuídos a traficantes sem perguntar a ninguém, é natural que seja assim.

O silêncio dos incompetentes, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A abertura de canal real entre Lula e Trump deixou a oposição entre silenciosa e desengonçada

Se a direita continuar amarrada à tornozeleira de Bolsonaro, poderá dar adeus ao projeto de poder

A reação de bolsonaristas à aproximação dos presidentes Luiz Inacio da Silva e Donald Trump mostrou como são desengonçados na arte de transformar vitórias em derrotas. São bons em aproveitar erros e vacilos dos adversários, mas não têm traquejo para aceitar os acertos nem requinte para usar algum tipo de fino ricochete.

Contrariamente às evidências de que na economia o Brasil é parceiro importante e de que na política Trump não daria a Lula a chance de ganhar apoio popular diante de alguma grosseria, Eduardo Bolsonaro festejou os primeiros dois contatos como sinal de armadilha adiante. Depois da reunião na Malásia, na falta do que dizer, disse que Lula saiu sem nada.

‘Centrão’ é um rótulo que protege siglas, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Camuflagem poupa quem deveria responder por cargos e barganhas

Sem identificação, surge uma espécie de ente metafísico do fisiologismo

Diz-se há muito tempo que, no Brasil, não se governa sem o centrão. Que ele é fisiológico, chantagista, faminto por cargos e dinheiro. O que normalmente não se nota, porém, é que o mesmo jornalismo que o fustiga em reportagens, colunas e editoriais acaba lhe concedendo o benefício com que todo investigado sonha: proteção de identidade.

O leitor lê que "o Planalto precisa dos votos do centrão para aprovar matérias de interesse" ou que "integrantes do centrão admitem desacelerar o desembarque da gestão petista". Aprende que há ali um poder decisivo, mas mascarado por um rótulo genérico. Entende que "um cardeal do centrão" trama nos bastidores, mas sem saber se o religioso atende por PP, União Brasil, Republicanos, MDB ou até mesmo PSD. O grupo aparece como classe profissional, mas sem nome no crachá.

Levantei, ao longo de um mês, 51 menções ao centrão na Folha. Em 84% delas, centrão é apenas "o centrão", uma espécie de ente metafísico do fisiologismo, designado sem que se diga quais partidos nele se abrigam.

Liberdade, liberdade, por Ivan Alves Filho

Predomina hoje uma concepção que restringe a ação do homem baseada somente em uma questão de escolha. Sob essa ótica, quase tudo se torna prisioneiro do mercado, dos objetos que se compra na esquina de casa ao voto exercido a cada quatro anos pelos cidadãos. Na realidade, muitas das nossas opções são impulsionadas pela busca do lucro e do poder. Segundo dados revelados pelo Instituto Federal de Tecnologia, da Suíça, apenas 147 mega corporações 
controlam 40% de toda a economia no mundo. Não creio ser preciso dizer muito mais. Até mesmo o exercício do voto obedece a determinadas leis da propaganda e ao controle dos mecanismos de indicação por parte de minorias encasteladas nos partidos políticos. Ou seja, o voto como mercado pura e simplesmente.

A realidade como cópia imperfeita das ideias, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão

-  Rei morto, rei posto!...
-  Sabemos muito bem onde estamos. Sabemos muito bem onde eles estão.

Não é um diálogo. Essas duas frases,  resumem o dito pelo não dito, na  conversa, na Malásia, de 45 minutos, entre os presidentes Lula e Trump. Eram agendas diferentes.
 
Nas falas acima, observa-se uma desconfiança mútua. Evidencia-se o fato de que os pares  hemisféricos, convivem num universo de   tensão constante,  inspirada não em  arsenais bélicos,  mas em   discursos inoportunos,  palavras mal colocadas , agressivas e verdades omitidas, como se  tudo voasse pelos ares, sem nenhuma consequência (Verba volant) . Faz lembrar a advertência do filósofo Michel Foucault: "As palavras geram ações!";  ou de Platão para quem a realidade (inteligível) é configurada  pelos pensamentos ditos ou não ditos. No Brasil tivemos um grande  jornalista e político, Carlos Lacerda, que   toda vez que abria a boca para dizer alguma coisa, mesmo óbvia,  gerava uma consequência. 

De fato, assusta a autoridade de um outro país, que não o seu,  sair de  um restaurante da 5a. Avenida de Nova York, de madrugada,  apelando , em  altos brados, às Forças Armadas do País anfitrião  para  desobedecer ao seu Presidente  .  A democracia é o lócus da liberdade de expressão, mas nem tudo pode ou deve ser feito ou dito, mesmo em lugares  isolados e na calada da noite. Espera-se dos cidadãos  respeito e  bom senso. No discurso, as palavras transitam dentro de um campo semântico, com muitos significados identificáveis... e voam. 

Poesia | Eu, de Clarice Lispector

 

Música | Paulinho da Viola - Sinal Fechado

 

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Voto de confiança em Milei é recado para toda a América Latina

Por O Globo

Apoio ao programa de ajuste fiscal mostra eleitor consciente de que déficit não deve ser tratado com leniência

A Argentina não pode desperdiçar a oportunidade que seus eleitores deram ao presidente Javier Milei nas eleições do último domingo. O resultado foi um voto de confiança renovado no programa de ajuste fiscal — ambicioso e doloroso, mas necessário — de Milei. Seu êxito não apenas encerraria a sucessão de ciclos de incúria fiscal que amaldiçoa os argentinos, mas também serviria de exemplo a toda a América Latina, em especial ao Brasil, onde déficits públicos têm sido tratados com leniência, alimentando o endividamento de modo irresponsável e pondo em risco qualquer perspectiva de crescimento sustentado e desenvolvimento duradouro.