sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A insurreição silenciosa, por José de Souza Martins

Valor Econômico

O milhão de jovens na avenida Paulista mostrou a cara de um novo sujeito político: os que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns

Até os últimos minutos da apuração dos resultados eleitorais do pleito presidencial de 25 de outubro, havia sérias dúvidas quanto a qual dos candidatos seria o eleito para a Presidência da República. As dúvidas tinham fundamento na comprovada eficácia aos recursos ilícitos criados e movimentados nas últimas décadas para impedir a alternância democrática de governo.

A disputa não era e nem tem sido entre esquerda e direita. Nem tem sido uma manifestação da luta de classes. É inútil invocar esses chavões da história do último século para explicá-la. Aqui há cientistas sociais que propõem essa compreensão da realidade política.

Esses marcos estão referidos a uma concepção de temporalidade histórica de um agora de horas e minutos próprios do imediato da sociedade de consumo e não próprios do processo histórico e político. Os de uma sociedade que teve sua concepção de destino usurpada pelos beneficiários das urgências da reprodução ampliada do capital. As de um capital rentista, anticapitalista. Uma riqueza de mera reprodução do subdesenvolvimento econômico e social.

Uma forma de reprodução da riqueza que emergiu das profundezas da realidade para que nela não se expressem politicamente as necessidades sociais radicais geradas pelas injustiças sociais. As que manifestem o clamor do possível, sem cuja realização o capitalismo privado de transformações sociais e políticas não pode se atualizar.

Nesse sentido, em todas as partes e aqui no Brasil, em particular, antes de qualquer outra mudança social e política, as esquerdas têm a função e a missão histórica de desbloquear o capitalismo para que ele cumpra por sua vez sua missão de promover o desenvolvimento. Não é o comunismo que aqui ameaça o capitalismo de destruição por inviabilizá-lo. É a direita.

Sem admitir o povo como autor da história, a sociedade brasileira acabará se tornando caricatura da civilização, uma sociedade de vítimas de privações descabidas e degradantes.

A insurreição eleitoral de 25 de outubro não seguiu os cânones da polarização esquerda/direita, que expressa politicamente o bloqueio a que me refiro. Ela deu visibilidade aos seres humanos que, das profundezas das ocultações mencionadas, expressam as necessidades radicais do carecimento de transformações sociais.

O milhão de jovens na avenida Paulista, em São Paulo, dias antes do pleito, mostrou a cara juvenil desse novo sujeito político. A dos que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns e cada vez menos de todos. E que se descobrem membros de uma categoria social que não é uma classe social nem agentes da luta de classes, que se descobrem nos avós e nos velhos, nos desvalidos.

Netos que foram às urnas e levaram até nos braços os avós para que fizessem valer no voto uma outra concepção das diferenças e das carências sociais. E escolheram o único candidato que, por experiência vivencial própria, tinha condições de ouvir e compreender o recado do voto insurgente.

Seria injusto não levar em conta os agentes de mediação dessa revolta. Que não são necessariamente petistas. O mais criativo e corajoso deles, André Janones, evangélico, com o seu Exército de Lula. Filho de empregada doméstica e de pai cadeirante, ele próprio foi cobrador de ônibus, aluno de escola pública, bolsista, formou-se em direito. Sua consciência crítica e sua prontidão para perceber o perigo das ameaças ao destino de todos com a altamente provável condenação do povo brasileiro a um destino carneiril.

Outro sinal mais do que significativo dessa explosão de consciência e ação é Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, eleita deputada federal (MG) com bem mais de meio milhão de votos, estudante de direito, preta, dotada de uma maravilhosa consciência crítica a respeito de nossa realidade e de nossas injustiças. Tem grande lucidez sobre as anomalias das classificações ideológicas que nos enganam e aprisionam. Para ela, corretamente, direita é uma coisa, e bolsonarismo é outra. Bolsonaro e sua família de políticos se apoderaram de um campo de expressão e ação política que é a direita. É preciso mostrar à direita que ela é outra coisa.

Ana Elisa poderia ir adiante e mostrar aos eleitores capturados pelo bolsonarismo que, provavelmente, a maioria deles é conservadora, enquanto os bolsonaristas são negacionistas e reacionários. Essa direita conservadora quer transformações sociais no marco das tradições, quer um lugar para seus filhos e netos na história possível. Enquanto os Bolsonaros e os bolsonaristas querem os benefícios do desenvolvimento econômico só para eles, mesmo que à custa de ações que têm terminado em processos na Justiça.

 

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