sábado, 7 de novembro de 2026

A vitória e o desafio dos democratas, por Hubert Alquéres*

Donald Trump pediu aos americanos que votassem nas eleições de meio de mandato como se seu nome estivesse nas urnas. Foi atendido. A derrota republicana de 3 de novembro devolveu aos democratas o controle das duas Casas do Congresso e atingiu estados que pareciam protegidos pela fidelidade ao presidente. As urnas impuseram um limite ao seu poder. Mas seria precipitado confundir esse resultado com o encerramento dos riscos de seu governo.

Os números dão a dimensão da mudança. Até o fechamento das edições de quinta-feira, o bloco democrata tinha 54 cadeiras asseguradas no Senado, contra 44 republicanas, com duas disputas pendentes. Conquistou sete cadeiras antes ocupadas pelos republicanos, incluindo as do Texas, Kansas, Ohio e das duas Carolinas. Na Câmara dos Representantes, já havia conquistado 237 das 435 cadeiras, com a apuração ainda em andamento.

O partido do presidente costuma perder espaço nas eleições realizadas na metade do mandato. Essa regularidade, porém, é insuficiente para explicar o alcance do resultado. Trump voltou à Casa Branca prometendo prosperidade, segurança e o resgate dos americanos esquecidos pelas elites. Dois anos depois, recebeu a cobrança daqueles que esperavam uma melhora concreta em suas condições de vida.

Uma pesquisa da agência de notícias Associated Press ajuda a compreender esse julgamento. Cerca de quatro em cada dez eleitores apontaram a economia como principal problema do país; três em cada dez mencionaram a situação da democracia. O custo de vida e as suspeitas de corrupção envolvendo o governo também tiveram peso expressivo na decisão do voto. A eleição reuniu insatisfação material e preocupação com o exercício do poder.

As tarifas sobre produtos importados e os efeitos da guerra no Irã sobre o custo de vida contribuíram para desgastar a credibilidade econômica do presidente e contrariaram sua promessa de colocar os interesses dos americanos em primeiro lugar. O próprio vice-presidente, JD Vance, atribuiu a derrota ao conflito, expondo divergências dentro do governo.

Essa cobrança alcançou também a política migratória, um dos pilares da vitória de Trump há dois anos. As operações federais provocaram reações, especialmente depois da morte de dois cidadãos americanos em confrontos com agentes em Minneapolis. As ações do ICE, órgão federal de fiscalização migratória, expuseram a violência dos métodos empregados para cumprir a promessa de deportações em massa.

Ainda não é possível determinar quanto as operações de deportação influenciaram o voto hispânico. A insatisfação com a inflação também pesou nessa escolha. Candidatos democratas defenderam o controle das fronteiras e condenaram os abusos cometidos pelo governo, mostrando que segurança e respeito aos direitos podem fazer parte de uma mesma política migratória.

A vitória reúne sob a mesma maioria correntes que divergem sobre impostos, imigração, política externa e estratégia de oposição. Essa diversidade também contribuiu para ampliar o alcance eleitoral do partido. Progressistas e centristas conseguiram vencer em realidades distintas, convergindo na crítica a Trump e na prioridade ao poder de compra. Sustentar essa convergência no Congresso será mais difícil do que a construir na campanha.

Por isso, nenhuma das alas deveria interpretar a vitória como autorização para impor sua agenda às demais. O desafio será transformar a amplitude da coalizão eleitoral em capacidade de atuação parlamentar.

A campanha apresentou sinais de revisão, com maior prioridade ao custo de vida e menor ênfase nas controvérsias culturais. A defesa da igualdade de direitos é indispensável, mas sua força política se enfraquece quando vem acompanhada de patrulhamento e condenação moral de quem diverge. O desafio dos democratas é conciliar esse compromisso com propostas capazes de reunir eleitores com preocupações e valores diferentes.

Também é preciso dimensionar corretamente o poder conquistado. Os democratas terão a maioria parlamentar a partir de janeiro. A responsabilidade pela condução do Executivo continuará com Trump, que conserva instrumentos poderosos para bloquear seus adversários.

O presidente fez questão de lembrar isso ao publicar a imagem de um boné vermelho com a palavra “Veto”. O gesto traduz uma realidade institucional: para derrubar um veto presidencial, são necessários dois terços dos votos em cada Casa do Congresso, separadamente. Com todos os parlamentares votando, seriam 290 deputados e 67 senadores. A maioria democrata está longe de assegurar, sozinha, esses números.

A história mostra a força desse instrumento. Segundo os registros do Senado, desde 1789 o Congresso derrubou apenas 112 dos 1.533 vetos presidenciais regulares. No primeiro mandato de Trump, somente um de seus dez vetos foi superado, sobre a legislação de defesa. Mesmo antes de enfrentar o veto, os democratas precisarão negociar: pelas regras atuais do Senado, superar a obstrução à tramitação de boa parte dos projetos exige 60 votos.

Os democratas poderão investigar abusos, fiscalizar gastos, bloquear nomeações e negociar prioridades orçamentárias. Terão também de apresentar alternativas para os problemas que mobilizaram os eleitores. A anunciada agenda de cem dias voltada ao custo dos alimentos, dos combustíveis e da saúde será testada pela consistência das propostas e pela capacidade de construir apoio para aprová-las.

Isso exigirá negociar com republicanos e enfrentar o dilema de um governo dividido. O orçamento e as decisões sobre endividamento podem abrir espaço para acordos, mas também produzir impasses que comprometam o funcionamento da administração. O primeiro semestre de 2027 deverá testar esse equilíbrio. Os enfrentamentos poderão gerar novas tensões, inclusive na economia, enquanto governo e oposição buscam formas de convívio institucional.

A dimensão internacional exige cautela ainda maior. Um presidente enfraquecido no Congresso continua dispondo de ampla capacidade de ação sobre diplomacia, comércio e emprego das forças militares. Existem limites legais e poderes legislativos de controle. Sua existência, porém, não impede decisões presidenciais com consequências imediatas para aliados, adversários e para a economia mundial.

A relação com a OTAN ilustra essa diferença. A legislação americana impede a retirada unilateral dos Estados Unidos da aliança, exigindo aprovação legislativa. Mas a confiança entre os aliados pode ser abalada sem que haja uma retirada formal. Declarações, ameaças e decisões sobre cooperação militar já são capazes de produzir insegurança.

A derrota eleitoral tampouco garante uma revisão das tarifas ou uma mudança de rumo no Irã. Trump poderá buscar acordos para preservar sua influência, mas, acuado internamente, também poderá dobrar a aposta na confrontação externa. Esse risco precisa entrar no cálculo de governos e aliados.

Para o Brasil, a nova maioria abre interlocução e possibilidades de pressão sobre as tarifas, sem garantir sua retirada. Lula faria bem em explorar essas oportunidades com firmeza e prudência. Tripudiar sobre a derrota de Trump poderia oferecer-lhe um pretexto para uma nova escalada contra o país.

Pelas regras constitucionais atuais, Trump não poderá ser eleito novamente em 2028: a 22ª Emenda proíbe uma terceira eleição presidencial, mesmo em mandatos não consecutivos. Mas ele continuará tentando influenciar a escolha do sucessor e os rumos do Partido Republicano. Sua ausência da próxima cédula não significa o desaparecimento das forças políticas que mobilizou.

Os democratas terão de se preparar para essa disputa sem organizar toda a sua atuação em torno do presidente. Investigar abusos é um dever. Transformar a fiscalização em espetáculo permanente pode devolver a Trump o domínio da atenção e dificultar a construção de uma alternativa com identidade própria.

Trump recebeu um limite. Os democratas receberam uma oportunidade. Aproveitá-la exigirá construir unidade em meio às próprias divergências, usar com firmeza os instrumentos do Congresso e oferecer propostas que conquistem a confiança dos americanos. A derrota do presidente abriu esse caminho. Não assegurou seu desfecho.

*Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação

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