Revista Será?
A eleição de Lula no Brasil e a dos
democratas nos EUA separaram-se por cerca de dez dias, a primeira em 25 de
outubro e a segunda em 3 de novembro. Ambas foram comemoradas como conquistas
democráticas, embora tenham tido características distintas. E resultaram de
posicionamentos eleitorais dominados pela rejeição de candidaturas de extrema
direita, Flavio Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA.
Os democratas norte-americanos venceram embalados por um grande repúdio ao governo Trump. Subiram à tona o custo de vida, a inflação, as denúncias de corrupção, os gastos nababescos do governo, as guerras e as intervenções, as ameaças e acusações cruéis contra minorias e imigrantes. As promessas megalomaníacas que Trump fez em 2016 e repetiu em 2024 desmoronaram diante dos fatos eloquentes da vida cotidiana.
Trump perdeu o controle da Câmara dos
Representantes e do Senado, numa derrota histórica. Os republicanos recuaram.
Houve um deslocamento expressivo do poder, o que fará com que o presidente
norte-americano seja obrigado a reduzir sua empáfia e a negociar os diversos
pontos emblemáticos de sua atuação, como é o caso do tratamento brutal que
dispensa aos imigrantes e às suas famílias.
Trump, porém, é um animal político de tipo
muito particular. Ele se especializou em usar o poder a partir da atenção que
desperta, valendo-se de uma inesgotável capacidade de “aparecer” e “falar”,
saturando a opinião pública com mensagens e promessas sucessivas,
independentemente de esclarecer a viabilidade e o mérito delas. Seu
histrionismo é calculado. Não é previsível que ele abandone esse estilo só por
ter perdido uma eleição. Demagogos não se comportam assim. E Trump poderá até
mesmo radicalizar ainda mais sua performance nos dois anos que lhe restam de
mandato. Para ele, o jogo não terminou. E não há nenhuma garantia de ele
deixará de permanecer a degradar as instituições políticas norte-americanas.
Os democratas, no entanto, passaram a
controlar o Congresso, o que lhes dá condições de impedir que Trump prossiga em
sua cruzada danosa e irresponsável. Podem contribuir para que se perceba melhor
o que rola nos bastidores do trumpismo, dificultando as manobras de Trump e
ajudando a população a compreender o tamanho dos estragos provocados por sua
administração.
Para tanto, os democratas precisarão agir de
forma coesa, sem disparar a torto e direito, sem gastar munição à toa. Terão de
potencializar o que obtiveram com a vitória eleitoral. Entusiasmar as pessoas,
oferecer-lhes perspectivas plausíveis de futuro, falar com pessoas de carne e
osso, sem imagens idealizadas. Como escreveu Yasha Mounk (Six Thoughts About a
Big Night for Democrats and Democracy), os eleitores norte-americanos não são
“especialmente ideológicos”. Embora possam estar abertos a algumas ideias não
convencionais, “não têm uma visão do mundo fortemente de esquerda nem
fortemente de direita. Na verdade, têm frequentemente uma aversão instintiva a
valores e preferências políticas que consideram desprovidos de bom senso”. É
para pessoas com este perfil que os democratas terão de direcionar suas
mensagens.
Dizem que um “pato manco” somente terá maior
margem de liberdade na política externa. Se for verdade, o mundo ainda
continuará a sofrer o impacto do trumpismo, cuja principal característica é a
agressividade e a tentativa constante de criar ruído e atrito. Porém, como tudo
na vida tem uma articulação complexa, pode ser que essa alegada liberdade não
se consuma, já que a nova correlação de forças tenderá a funcionar como um
freio para as ações do presidente.
O eleitor votou com raiva, indignação e
desejo de um outro futuro, diferente do verbalizado pelo presidente. Viram nos
candidatos democratas uma alternativa segura. A raiva e a indignação que
depositaram milhões de votos nas urnas precisarão ser processadas. Pois
sozinhas não movem montanhas. Sempre demandarão sinais políticos para se
converterem em força de mudança. Ao menos por ora, é visível que os democratas
souberam canalizar de forma adequada o descontentamento disseminado pela
sociedade. Ganharam musculatura, voltaram a dialogar com a população e a
apresentar candidatos com capacidade de interpelação social. E parecem ter
pacificado suas alas mais progressistas e mais moderadas. Ao mesmo tempo,
deixaram de lado a “batalha cultural” (identitária e “politicamente correta”)
para se concentrar nos problemas que incomodam e rasgam a vida cotidiana.
Conseguiram, assim, protagonizar uma jornada
democrática que deverá modificar a dinâmica política do país.
Uma cortina desceu sobre a Era Trump. Mas não
dá para prognosticar que ela terminou. Os republicanos permanecem como atores
políticos importantes. Têm condições de recuperar o terreno perdido com o
“tsunami azul”. Mas o impacto de sua derrota tenderá a fortalecer o Partido
Democrata, que ainda lambe as feridas da derrota de Kamala Harris em 2024 e
carece de um protagonismo mais vigoroso. Abriu-se uma avenida para os
democratas.
É importante ver, a partir de agora, como a
condição de “pato manco” reverberará na persona Trump. Ele se converteu, nos
últimos anos, em dono do Partido Republicano. Em que medida a derrota dessa
terça-feira, 3 de novembro de 2026, afetará seu posicionamento e sua força
dentro do partido?
Há uma variável ainda mais importante. O que
acontecerá com o movimento MAGA, que funcionou como abrigo e reprodutor do
trumpismo? Seguirá respirando e destilando veneno? Irá se reinventar como uma
nova forma de insurgência populista, que voltará a crescer no mundo da
ultradireita? Por mais que permaneça como personagem importante do sistema
político estadunidense, é de se esperar que a derrota contundente force o
movimento a se reformular. O que pode significar que o estilo trumpista de
ameaçar e desorganizar o mundo, de bagunçar a política e trabalhar por sua
polarização extremada, não se esgotará num passe mágica.
As sociedades hipermodernas permitem essa
conclusão. Elas são velozes, fragmentadas, movidas por redes e celulares,
compostas por cidadãos com déficit de atenção, capazes de dar piruetas no ar,
odiar quem antes era amado, aplaudir quem antes era odiado. São sociedades que
se reconfiguram de um dia para outro. Nelas, a disposição à lealdade política
declinou e os partidos viram sua estrutura desabar, perdendo camadas
importantes de suas identidades. As pessoas estão irritadas e insatisfeitas.
Desconfiam das elites, dos especialistas, dos burocratas, dos tecnocratas e
especialmente dos políticos. Por tudo isso, basta um vento mais forte para que
os afetos se alterem e as preferências eleitorais se desloquem. Demagogos como
Trump sabem se aproveitar disso.
O Partido Democrata terá de trabalhar
bastante para recompor sua “narrativa” política e aglutinar uma ampla maioria
de cidadãos. O momento, para os democratas, exige uma dose extra de realismo e
ação. Aqueles que lhes deram a vitória em 3 de novembro movimentaram-se
basicamente como uma força anti-Trump. A conquista de uma maioria ampla e
confiável terá de ser incluída em lugar de destaque na agenda dos democratas.
“Seu objetivo para 2028 não deve ser apenas conquistar a presidência; deve ser
conquistá-la de forma suficientemente convincente para repreender todo o
movimento MAGA e fazer isso de uma forma que lhes permita construir uma
coligação duradoura contra as forças antidemocráticas na nossa política”.
(Mounk)
Terão de praticar e por em curso uma política
democrática convincente e com poder de agenda. O que vierem a fazer nessa
direção nos beneficiará a todos.
*Professor Titular de Teoria Política da Universidade Estadual Paulista-UNESP.

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