Após mais de cinco séculos de tentativa de construir uma nação e um grande
país, rico e soberano, chegamos ao século XXI ainda como uma província
dependente, tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista
ideológico. Exportadores de produtos agrícolas e minerais sem valor agregado,
convivemos com a crise da indústria de transformação. A modernização
“conservadora”, com a qual se identifica a ditadura militar, associou
industrialização, capital externo e concentração de renda. Pôs por terra o
projeto nacional-desenvolvimentista fundado na industrialização e na expansão
do Estado como indutor do desenvolvimento, que havia sido retomado por Getúlio
Vargas em 1951 e que, de uma forma ou de outra, chega a 1964, em cuja sequência
a classe dominante se reconfigura, tendo como eixo a financeirização da
economia e o rentismo, característicos de nossos tempos, que se expressam mais
claramente na política de juros altos — que aumenta o endividamento das
famílias e o custo do capital — e no diktat da “austeridade fiscal”,
codinome da asfixia dos gastos sociais, de resto indispensáveis.
A acumulação capitalista pouco depende das transformações estruturais; por isso
mesmo, a grande burguesia, como classe proprietária, reage às inovações e se
apega à sustentação do statu quo. Assim se explica por que a riqueza aqui
produzida não está comprometida com o desenvolvimento do país.
Enquanto o país se regozija com seu próprio triunfo, saudado em todos os
quadrantes como uma vitória da democracia, exemplo de um povo que tomou a si a
condução de seu destino quando tudo parecia perdido, a classe dominante, já
desde o dia imediato ao segundo turno, vale-se de todos os muitos meios ao seu
alcance para tentar desnaturar o sentido histórico do pronunciamento da
soberania popular. Derrotada nas urnas, derrotada eleitoralmente e, mais do que
tudo, derrotada politicamente, intenta ditar o programa do novo governo, e o
faz, valendo-se de extremada desfaçatez, brandindo o discurso da
extrema-direita.
O “mercado”, esta instituição que ninguém vê, mas que está em toda parte — nos
governos, no Congresso, no Judiciário —, perdeu com o senador homiziado nos
EUA, mas quer ganhar o governo Lula, impondo-lhe o receituário fiscalista.
Vencendo, conquistará dois troféus: desestabilizará o governo e punirá o
eleitorado brasileiro que maciçamente optou pela democracia e pelo avanço das conquistas
sociais. Que querem? Que o governo de centro-esquerda, por formar-se, puna as
grandes massas que reelegeram Lula, adotando o programa mínimo da direita,
fragorosamente rejeitado nas urnas: desvincular do salário mínimo os benefícios
dos aposentados (25 milhões), as pensões do BPC (o benefício pago a idosos
pobres ou com deficiência) e, suprassumo das maldades, cortar os pisos
constitucionais da saúde e da educação pública. Por óbvio, nenhuma palavra
sobre a farra das verbas orçamentárias, nenhuma palavra sobre a farra das
isenções fiscais, tampouco sobre os privilégios tributários e a gorda
remuneração do capital financeiro, via juros estratosféricos. A propósito: o
Banco Itaú anuncia lucro líquido recorde de 12,6 bilhões (Valor. 4.11.26).
Trata-se, repito, de uma classe dominante consabidamente divorciada do destino
nacional. Filha dileta do escravismo, da produção primária dependente das
encomendas das grandes potências, da Colônia até o fim da Primeira República,
sobrevive e impera mediante a exploração do trabalho e o controle do Estado.
Esta relação ajuda a explicar por que tantas de suas frações — com destaque
para o rentismo (de que a Faria Lima é o quartel general) — puderam prosperar
sem assumir um compromisso com a construção de uma economia nacional.
Não estamos em face de um acaso, mas do fruto de um processo de continuidade
histórica: o senhor de terras e de escravos (o africano importado e o índio
preado); o grande exportador de matérias-primas (do açúcar ao café) e
minérios in natura; o rentista e os segmentos contemporâneos do
capital financeiro, a serviço da especulação.
São esses interesses que ditam o discurso dos meios de comunicação hegemônicos
(os jornalões e a grande rede de televisão); foram eles que levaram o
grande capital a apoiar a proposta neofascista e, nada obstante a rejeição
proclamada pelo veredito do segundo turno, são ainda esses interesses que
pretendem ditar regras e condicionar o destino do país, coartado por uma lógica
perversa de acumulação, de apropriação da riqueza e de uma relação com o Estado
que subordina aos seus ditames o que poderia ser um projeto nacional, fundado
no desenvolvimento social, na soberania e na democracia, apontando para uma
nova sociedade.
A colonização portuguesa estruturou a economia de seu quinhão americano em
torno da extração de riquezas e da produção de gêneros destinados ao mercado
externo. A ocupação territorial, a organização da propriedade e a ordem
produtiva foram profundamente condicionadas por essa finalidade, donde a
ausência de um projeto nacional; da Colônia até 1888, era impossível pensar em
nação quando nossa gente se dividia entre a mão de obra escrava, responsável
pela produção, e uma minoria branca que simplesmente acumulava o resultado do
trabalho alheio. E como intentá-lo hoje, quando a classe dominante dá as costas
ao país e idolatra o imperialismo, apesar do trumpismo decadente?
Somos uma sociedade que, durante mais de cinco séculos, organizou parcela
decisiva de sua produção mediante a apropriação do trabalho — alheio, repita-se
—, construiu obstáculos históricos à universalização dos direitos e à
valorização do trabalho livre e aboliu da história o papel do povo e de seus
heróis, para exaltar bandidos como os Bandeirantes. Colônia de um
império decadente, ocupamos um vasto território, chegamos mesmo a povoá-lo,
ciscando o litoral, sem conhecer a diferença entre ocupar um território,
explorar sua gente e suas riquezas e construir uma nação. Crescemos sem clareza
do que éramos e, principalmente, do que pretendíamos ser.
A questão permanece: qual é o nosso projeto?
As eleições recém-encerradas devem ser vistas como uma promessa de construção
do que Darcy Ribeiro chamava de “projeto de ser”.
Não incorro no simplismo de reduzir nossa tragédia à interdependência entre a
grande propriedade e o escravismo, mas é preciso pôr de manifesto que o
escravismo extrapola os limites de uma simples economia, pois é a matriz de
tudo o que a ele se sucede, como a dependência externa, a concentração da
propriedade e a organização do Estado.
Ao escravismo se articulam a conformação das relações sociais, a organização do
trabalho, o caráter da propriedade, a hierarquia e os papéis da cidadania; a
formação da ideologia da classe dominante, racista e preconceituosa,
irreparavelmente reacionária, espargindo a ideologia da dependência; por fim, o
sentimento de inferioridade que aplaca necessidades revolucionárias.
Nelson Rodrigues nos falava no “complexo de vira-lata” que fazia do brasileiro
um Narciso às avessas, aquele que cospe na própria imagem. O dramaturgo,
escrevendo em 1958, antecipava-se na definição do caráter do bolsonarismo,
alienado, distante de nossas raízes culturais e, no contrapelo das matrizes
fascistas, terrivelmente entreguista. Nada obstante haver-se tornado movimento
de massas, e eis como deve ser enfrentado, o bolsonarismo expressa uma
ideologia racista em país mestiço; machista quando, em nossa população, as
mulheres são maioria.
Rejeitado pelo plebiscito em que se converteu o segundo turno, derrotado
política e eleitoralmente, o bolsonarismo — como expressão fascista — segue
vivo, como a peçonha que ainda não teve sua cabeça esmagada. Seu antídoto é a
mobilização popular. Esta é a lição do segundo turno.
Permanece a esperança de que tenha sido lida e bem compreendida.
*Com a colaboração de Pedro Amaral
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 7 de novembro de 2026
Terceiro turno, a batalha da vez, por Roberto Amaral*
A Bolsa de Valores comemorou o resultado do
primeiro turno batendo recorde de ganhos, com uma alta de 7,7%, completada com
o recuo do dólar em 4%. Os especuladores fizeram sua festa. Contudo, a aposta
do mercado, que tinha nome e programa, foi, para alívio do país, derrotada nas
urnas na segunda volta, assustando a coalizão financeiro-rentista que capturou
o orçamento da União e, por ofício, transfere renda para uma minoria mínima,
aprofundando a desigualdade social.
A reação não se fez esperar: no pregão do dia 26, puniu o voto. O Ibovespa caiu
13,88%, o dólar subiu 8,21% e os juros futuros saltaram para 15,25%.
A revanche do capital não é uma reação conjuntural de operadores, mas a forma
política necessária de um capital que não se valoriza pela produção, e precisa
submeter a política eleitoral e o orçamento público à sua reprodução. A análise
política explicita o movimento: depois de apostar no bolsonarismo e perder, a
Faria Lima cobra de Lula o programa derrotado nas urnas. O dito “mercado” não
aceita o resultado eleitoral como definição da vontade política; desloca a
disputa para o orçamento e para a política monetária, tentando transformar o
programa derrotado nas urnas em precondição da governabilidade.
Quando a via eleitoral não entrega as condições de reprodução daquilo que Marx
(Livro III de O Capital) definiu como “capital fictício”, a estratégia do
mercado financeiro é impor, pela via do constrangimento econômico, a
subordinação da política à lógica de valorização de uma riqueza que não produz.
Marx mostra que o capital fictício é uma forma de riqueza que se autonomiza da
produção e, por isso, tem uma relação intrínseca com a crise econômica e com a
necessidade de capturar o Estado. No Brasil, essa forma se tornou dominante
como rentismo, reconfigurando a dependência e transformando o Estado em
garantidor da remuneração fictícia. Daí a inquietação da classe dominante.
Tudo isso explica os editoriais da grande imprensa e o discurso dos
“especialistas” selecionados a dedo, a depender dos quais o novo ministro da
Economia, não podendo ser o próprio, deve ser um clone de Joaquim Levy.
Por que o Brasil conseguiu construir um Estado e uma economia de dimensões
continentais, mas teve tanta dificuldade para construir uma classe dirigente
comprometida com um projeto nacional de desenvolvimento?
O patriciado, majoritariamente desapartado da produção, é incuravelmente alheio
aos interesses nacionais, porque seu ofício, de onde recolhe o mando, é a
especulação financeira, vinculada aos humores do capital, por definição um
ativo internacional, gerido pelas bolsas de valores (nomeadamente Wall Street)
e pelas corporações que regem as sendas do capital globalizado.
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