CartaCapital
O Brasil vira exemplo de resistência ao
avanço da extrema-direita
Não é exagero chamar de épica a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Um dos marcos históricos desse pleito é o de ter sido a primeira vez, desde a adoção do sistema de dois turnos, em 1989, que um candidato acabou eleito após ficar em segundo lugar na primeira votação, feito que a mídia e a sociedade consideravam praticamente impossível.
A maneira pela qual se deu essa virada nas urnas é especialmente memorável. Ela foi fruto de uma grande mobilização nacional, que envolveu sobretudo a juventude do País, tanto nas redes sociais quanto nas ruas, constituindo um espaço único e fluido de troca de ideias e encaminhamento de ações. Um dos aspectos mais comoventes dessas movimentações é, sem dúvida nenhuma, o seu caráter espontâneo, o fato de não terem sido orquestradas por qualquer diretriz oficial de campanha. Essa característica foi constatada desde a primeira das manifestações, ocorrida em 5 de outubro, logo após a divulgação da predominância de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Na ocasião, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, saíram às ruas em apoio a Lula de forma orgânica e autêntica. Segundo depoimentos dos próprios participantes, a motivação principal dessa manifestação foi evidenciar que a democracia estaria gravemente ameaçada numa eventual vitória do senador.
A partir daquele primeiro ato, muitos outros
se seguiram em todo o País, nas capitais e em cidades menores, até a véspera do
segundo turno, sempre com o espírito de proteção aos direitos fundamentais
assegurados por um Estado Democrático de Direito. Muito simbólico, aliás, que
vários dos manifestantes presentes nesses eventos tenham passado a exibir
exemplares da Constituição Federal, gesto que, inclusive, tornou a ser repetido
pelo presidente Lula.
Em paralelo, a caminhada rumo à reação nas
urnas tomou também o espaço digital. De forma inédita, uma campanha do campo
progressista ganhou volume e expressão, ocupando as redes sociais de forma
efetiva, fazendo delas uma ponte para as ruas. Estabeleceu-se, assim, um
sistema híbrido potente de luta por uma causa, valendo-se de uma nova forma de
sociabilidade. Esta é mais uma lição que fica desse processo eleitoral: o poder
dessa conjunção de trilhas.
Tal direção, pavimentada pela mobilização
virtual, como a possibilidade de vitória já havia sido apontada, com muito
discernimento e precisão, pela deputada federal eleita por Minas Gerais Ana
Elisa, de 21 anos, quando ela afirmou, nos primeiros dias subsequentes ao
primeiro turno, que ainda havia tempo de a esquerda dominar as redes sociais. O
recado ecoou. O uso das redes era um ferramental altamente estratégico e de
grande capilaridade para o bolsonarismo desde 2018, impulsionando a
disseminação de versões de sustentação de ideologias da extrema-direita com uma
eficácia que o progressismo não conseguia acompanhar. O que se viu nas semanas
que antecederam o segundo turno das eleições deste ano indica que esse cenário
começou a mudar.
A virada de Lula nas urnas foi fruto de uma
grande mobilização nacional que envolveu sobretudo a juventude do País, tanto
nas redes sociais quanto nas ruas
No avanço da campanha por Lula nas redes, foi
primordial o papel exercido pelo deputado federal reeleito em Minas Gerais André
Janones, da Rede. Ele foi o grande articulador de um exército digital de apoio
ao presidente e então candidato petista à reeleição. Janones acertou em cheio
na comunicação com a juventude, incentivando os participantes de um canal criado
no WhatsApp – o “Exército do Lula” – a realizar tarefas e congregar novos
adeptos, o que criou uma dinâmica de militância contagiante e engajadora. Ao
fim dos trabalhos, o canal reunia 10,8 milhões de integrantes.
As mobilizações nas redes e nas ruas surtiram
claro efeito. Os porcentuais de abstenção e de votos nulos e brancos caíram,
representando 4,8 milhões de votantes a mais no segundo turno na comparação com
o primeiro. No discurso da vitória, Lula agradeceu à juventude brasileira e
prometeu investir na economia digital em seu novo mandato.
A virada traz grandes aprendizados. A
condução dos acontecimentos dialoga com movimentos verificados em outros
países, como França, Portugal, Espanha e a vizinha Argentina, nos quais
estudantes têm protestado contra crises econômicas, a precarização dos serviços
públicos e outras medidas dos governos de extrema-direita. O modo como Lula
alcançou a vitória também repercutiu entre outras nações, estabelecendo uma
correspondência global na luta pelos princípios democráticos.
O mundo começa a olhar para o que foi feito
pelo campo progressista neste processo eleitoral no Brasil como um exemplo de
resistência democrática e de luta contra o fascismo e pela soberania. É
possível que estejamos às voltas com um fenômeno semelhante ao vivido em maio
de 1968, em que protestos estudantis em Paris despertaram movimentos
revolucionários no mundo todo. Que o impacto desta nova Primavera Brasileira
seja duradouro, extrapolando fronteiras temporais e geográficas na salvaguarda
da democracia em todos os cantos do planeta.
*Advogado, professor de Direito
Constitucional da PUC-SP
Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026.

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