sexta-feira, 25 de julho de 2008

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÓ PARA COMPLICAR
Eliane Catanhêde


BRASÍLIA - Um monte de gente se deu mal, justa ou injustamente, com o inquérito do delegado Protógenes. Mas uma coisa é certa: a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) se deu foi bem.

Na apuração que deveria ser sobre Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, quantos e quantas acabaram caindo no arrastão de grampos em telefones fixos, celulares, e-mails, MSN, até Skype? A esta altura, a Abin e a banda de Protógenes na PF têm um vasto dossiê, quer dizer, banco de dados, sobre tudo e todos. Pequenino exemplo: até detalhes da estratégia de defesa do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh para o italiano Cesare Battisti, sujeito a deportação.

Fica até engraçada a discussão sobre a inviolabilidade dos escritórios de advocacia. Na prática, eles já são grampeados há bastante tempo.

Qual a diferença de serem ou não investigados formalmente? O interessante é o elo entre chefiado e chefe. O chefiado é Protógenes, da PF. O seu chefe de fato é o da Abin, Paulo Lacerda, ex-PF, talvez o policial mais prestigiado na ativa hoje no país. Protógenes passa por cima do atual diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa (que abandonou o tiroteio para tirar férias), assim como Lacerda passa por cima do general Jorge Armando Félix, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. Até por isso, há quem diga que Protógenes e Lacerda só fazem o que querem. E a Abin e a PF estão fora de controle.

O ideal é que as energias se concentrem no inquérito e em Daniel Dantas, mas ocorre o oposto: eles passam, e as outras informações ficam. E ficam, para o bem ou para o mal, nas mãos da Abin e na PF de Lacerda e Protógenes. Muita gente, em especial no governo, está com várias pulgas atrás da orelha. Não custa lembrar o general Golbery do Couto e Silva, muitos anos e muitos sustos depois de criar o SNI (Serviço Nacional de Informações): "Criei um monstro". A Abin é herdeira direta do "monstro".

DEU NO VALOR ECONÔMICO


EM PORTO NACIONAL, A LÓGICA É LOCAL
César Felício



Quem abre a página da cidade de Porto Nacional, em Tocantins, na Internet, se depara com a cena: está lá a foto do prefeito Paulo Mourão, semblante sereno, acima da legenda PT. Ao lado, sorridente em um retrato, está o vice-prefeito Edgar Tavares, identificado como do "PFL", a antiga denominação do DEM. O município de 30 mil eleitores na região Norte é uma síntese do que se passa no processo político longe dos salões do Congresso e do Planalto.

A decifração da lógica das alianças municipais foi o tema analisado pelo cientista político Humberto Dantas de Mizuca, em sua tese de doutorado apresentada na USP em dezembro do ano passado - última orientada pela professora Maria D"Alva Gil Kinzo, falecida mês passado. Sócio da empresa de consultoria política Cepac, Dantas esmiuçou as composições partidárias nas eleições de 2000 e 2004.

Parte-se da constatação que , em eleições de turno único, como é o caso de praticamente todos os municípios do País, exceção a 77, há uma tendência de eleições polarizadas ou com poucos candidatos. O fenômeno ocorreu nas eleições passadas e se repete : segundo dados preliminares do TSE, em 2.774 cidades - ou 49,8% do total nacional - haverá apenas dois candidatos. Em outras 1.616 a disputa terá três nomes. A competição chega a quatro ou mais opções em apenas 21% dos municípios.

O quadro polarizado em um cenário com mais de vinte partidos é a porta aberta para alianças extremamente amplas. Dantas mostra que há três fatores que guiam o comportamento partidário nos pequenos e médios municipais. O menos importante deles - mas de modo algum inexistente - é o ideológico. Na eleição de 2004, a parceria entre o então PFL e o PP aconteceu em 1.653 cidades, embora a primeira sigla estivesse na oposição e a segunda muito próxima do governo Lula. Do ponto de vista político, são ramos da mesma árvore.

O pouco peso do fator ideológico nas alianças é evidenciado, segundo Dantas, quando se leva em conta não as combinações binárias como PP/DEM ou PT/PSB, mas se pensa nas coligações como um todo. Em 2004, as alianças que juntavam centro, direita e esquerda somaram 35% do total nas pequenas e médias cidades. As restritas às esquerdas não passaram de 10%. As que envolviam apenas a direita, 5%. Composições de centro-esquerda ou centro-direita somavam 20%.

O segundo fator é o federal. A necessidade de se ter uma espécie de despachante de interesses locais junto aos ministérios impulsionou o PT nas últimas eleições como havia impulsionado o PSDB nos dois pleitos anteriores. "O PT capilarizou-se, mas nas pequenas cidades ficou muito diferente do que é nas grandes. Bebe na fonte do governisno e tornou-se uma espécie de franquia", comenta o cientista político. Entre 2000 e 2004, o PT passou de 80 para 219 prefeituras conquistadas entre os municípios com menos de dez mil eleitores. Em 2000, havia disputado com a cabeça de chapa ou a vice em 2.722 municípios. Quatro anos depois, houve 4.634 candidatos a prefeito ou vice petistas.

Alianças de PT com PSDB só fazem crescer

Este PT "muito diferente" ignorou normas partidárias nas eleições passadas para se compor com tucanos e pefelistas nos pequenos e médios municípios. O PT e o PSDB haviam estado juntos em 451 cidades há oito anos. Em 2004, com o PT no governo federal e com suas "franquias" abertas nos grotões, o número de alianças dobrou: foram 904. Ainda não há números precisos sobre o que ocorreu este ano, mas dados preliminares apontam a parceria tucano-petista em 1.130 municípios. Um em cada cinco.

É o terceiro fator de influência nas alianças municipais que explica o chamego PT/PSDB parecer proibido apenas em Belo Horizonte: o peso do governo estadual. "A formação das maiorias estaduais é o grande eixo das eleições municipais. No Acre em 2004 a polarização era entre o PT, de um lado, e o eixo PMDB-PP, do outro. O PSDB estava mais próximo dos petistas. As parcerias entre tucanos com pefelistas e com petistas na Bahia foram relativamente comuns. O que não aconteceu foram associações entre PT e PFL , que estavam em pólos opostos ", diz Dantas.

Dantas mostra que em 2004 o PSDB esteve com o PT em mais de um terço dos municípios em que disputou a eleição em cinco Estados: Amapá, Bahia, Sergipe, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Em todos petistas e tucanos estavam fora do comando local.

O partido do governador foi o carro-chefe das alianças na eleição passada. A sigla que comanda a máquina estadual apareceu com candidato próprio em mais da metade dos municípios em 21 dos 26 Estados. Em 23 deles, exceção a Tocantins, Piauí e Amapá, estava presente nas alianças de pelo menos 90% das cidades.

Um exemplo do protagonismo do governador vem do Rio Grande do Norte, onde Wilma de Faria já governava em 2004, pelo esquerdista PSB. Nada menos que PFL, PP, PSDB, PT, PPS, PDT e PL (atual PR) procuraram o PSB como parceiro em no mínimo um terço dos municípios em que disputaram .

"Como o PT entrou nos grandes municípios e o governador ainda é o grande ator político, o resultado é que as alianças tornaram-se menos ideológicas no governo Lula do que eram no governo Fernando Henrique", sustenta Dantas, que explica: no governo do tucano, os petistas eram menos numerosos e excluídos da base de apoio não só do governo federal.

Tornavam-se parceiros pouco interessantes para os governadores e suas bases aliadas. É a dependência do prefeito de um grotão em relação ao governador de seu Estado e a vulnerabilidade dos Estados diante da União que favorecem alianças heterodoxas.

O PT em Tocantins cresceu em importância à medida em que desmoronava a grande frente "União por Tocantins" que mantinha a hegemonia no Estado nas mãos da família Siqueira Campos. Eleito nesta frente, o governador Marcelo Miranda , inicialmente no PFL e hoje no PMDB aproximou-se dos petistas e a aparentemente exótica aliança em Porto Nacional está neste contexto. Os políticos e eleitores tocantinenses não são mais pragmáticos ou menos ideológicos que a média nacional. Só organizam seu mundo pela própria perspectiva.


César Felício é repórter de política e substitui, interinamente, a titular da coluna às sextas-feiras, Maria Cristina Fernandes.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1036&portal=


LÊNIN E GRAMSCI
Raimundo Santos


Lênin e Gramsci guiaram as esquerdas comunistas – até os anos 1970, a marxista-leninista e, depois, a vertente que se reivindica apenas marxista. Orientaram-nas na busca de uma sociedade homogênea na qual a política e o Estado já não teriam serventia (neste estágio a "administração das pessoas" seria substituída pela "administração das coisas", cf. Engels). A ditadura do proletariado viria garantir a supremacia popular requerida para alcançarmos essas utopias igualitárias (cf. Marx e Engels, sobremaneira Lênin, no limiar do século XX).

Gramsci elabora suas teorias no contexto da crise de 1929, quando o poder burguês já não se sustenta exclusivamente no uso da força (no Estado, por ele renomeado como "sociedade política"). Ampliado, o Estado passa a contar com o consenso obtido por meio de um "conjunto de ´aparelhos privados´ de hegemonia" (escolas, partidos etc.), a "sociedade civil". Nessa circunstância, a revolução não se reduz a um assalto direto ao Estado (Rússia, 1917). Ela assume forma de uma "guerra de trincheiras" ou "posições" ao interior da "sociedade civil", não desconsiderada a captura da "casamata" mais forte: a "sociedade política". Para Gramsci, a revolução consiste num processo largo de renovamento "ético-político", "catarse" (sic). Todavia, assim pensada (consenso prévio, instituições), a revolução pressupunha hegemonia. No contexto já muito diversificado daquela época de "capitalismo organizado", o socialismo, no "Ocidente" (nas sociedades complexas; "Ocidente" não é conceito geográfico), requer supremacia de um bloco nacional-popular.

O núcleo dessa teoria gramsciana – a hegemonia – foi discutido intensamente desde que Bobbio fixou nosso paradoxo nos anos 1970: democracia no capitalismo; socialismo sem democracia. A esquerda vem se debatendo ante o desafio de renovar a sociedade por meio da política, sob o Estado Democrático de Direito. Habermas, a quem sigo, define-se pelo caminho da "identificação sem reservas com o Estado democrático de direito, sem o abandono de objetivos reformistas muito além do status quo".


Raimundo Santos é professor da UFRRJ/CPDA, autor de vários livros.

DEU EM O GLOBO


ENTRE PORRETES E CENOURAS
Merval Pereira


NOVA YORK. Além de ter que torcer por uma derrapada de Barack Obama em sua primeira viagem internacional como candidato a presidente, coisa que até agora não aconteceu, o senador John McCain está lidando mal com uma espécie de "herança maldita" que, também no caso americano, está ajudando Obama. Tanto como senador como candidato, Obama foi contra o reforço de tropas no Iraque, no início de 2007, que sem dúvida proporcionou um controle maior da segurança no país, a ponto de permitir que hoje o próprio governo iraquiano fale em dispensar as tropas dos Estados Unidos até 2010, programação que coincide com a proposta do candidato democrata de retirada gradual por um período de 16 meses a partir de janeiro do próximo ano.


Não há dúvidas de que o reforço de tropas e a concentração de poderes no general Petraeus, comandante-geral das forças multinacionais no Iraque, que McCain apoiou desde o primeiro instante, ajudaram a criar a atual situação, mas, para efeitos de opinião pública americana, a melhoria de segurança não significa que os Estados Unidos estão ganhando a guerra do Iraque, mas sim que já é tempo de os soldados regressarem ao país, a principal bandeira de Obama.


Para infelicidade de McCain, também quem deu várias escorregadas na política externa foi ele, que, além de se referir a uma inexistente fronteira entre Iraque e Paquistão, onde a situação seria perigosa, deu uma versão sobre o controle da segurança no Iraque que não corresponde à realidade histórica, perdendo as credenciais de especialista em guerras e em política externa que se atribui por ser herói do Vietnã.


Querendo ressaltar a importância de ter apoiado o aumento das tropas e a mudança de estratégia que fora criticada por Obama, o candidato republicano atribuiu a essa decisão o movimento de tribos e insurgentes, na região de Anbar, contra as ações da Al Qaeda, conhecido como "Anbar Awakening" ("Despertar de Anbar", na tradução literal).


Acontece que esse movimento teve início em 2006, e as tropas extras dos Estados Unidos só chegaram ao Iraque entre fevereiro e março de 2007, quando também assumiu a função o general Petraeus.


É verdade que em setembro de 2006 os insurgentes contra a Al Qaeda formaram o Conselho de Jazeera em Ramadi, e começaram a trabalhar em conjunto com as forças da coalizão, o que se intensificou no início de 2007.


Ao comentar a posição do senador Barack Obama, o candidato republicano tentou menosprezar os conhecimentos do adversário, afirmando que ele desconhecia "fatos históricos" e fazia "um grande desserviço" ao não reconhecer o papel da liderança do general Petraeus e dos "jovens americanos que com seu sacrifício possibilitaram o sucesso no Iraque".


Mas, historicamente, foi McCain quem cometeu a gafe, que está sendo apontada como grave para quem pretende ser o comandante de uma guerra que não teria prazo para acabar.

Ao contrário, a viagem internacional de Obama está sendo vista como um divisor de águas que dará confiança ao eleitorado na capacidade de o candidato democrata vir a ser o futuro presidente dos Estados Unidos.


O diretor do Centro para Estudos Globais e Humanidades da Universidade Duke, Walter Mignolo, por exemplo, considera "muito interessantes" os movimentos internacionais de Obama, e atribui a eles algumas mudanças de atitude do governo Bush.


A atitude firme, mas conciliadora, que Obama vem defendendo para a política externa americana teria sido a razão de algumas mudanças liberalizantes da administração Bush, como retirar a Coréia do Norte da lista negra de países, e mesmo uma posição mais negociadora com o Irã.


Para Mignolo, a carta decisiva é a secretária de Estado Condoleezza Rice, "negra como Obama": "Ela está mudando de posição a política externa sentindo os novos tempos, revelando que no final ela é uma boa política, ou está apenas tratando de sua futura carreira?", pergunta.


A visita a Israel era considerada talvez a mais delicada etapa da viagem internacional, ainda mais porque Barack Obama havia feito uma declaração recentemente que teve que ser refeita em seguida. Num dia, ele se disse favorável a um Estado Palestino tendo por capital Jerusalém, para no dia seguinte afirmar que Jerusalém era indivisível, e teria que continuar sob domínio israelense.


Ontem, usando uma gravata comum listrada de azul e branco, as cores de Israel, Barack Obama saiu-se bem da questão, continuando a afirmar a soberania de Israel sobre Jerusalém, mas defendendo um Estado palestino independente. Mais importante do que tudo, reafirmou seu apoio integral na disputa com o Irã, não deixando dúvidas de que o Irã nuclear é uma ameaça tanto a Israel quanto aos Estados Unidos.


Disse estar disposto a negociar com o Irã, mas falou na política do "big stick" (grande porrete), que marca a época mais dura da política externa americana. É verdade que acenou com "big carrots" ("grandes cenouras") para atrair a boa vontade do Irã, mas isso faz parte da maneira que ele está encontrando para se equilibrar entre seu passado de político liberal e seu presente de candidato a presidente, que precisa atrair os votos da grande classe média branca americana, que ainda não o escolheu como seu candidato.


Ele tem, por exemplo, uma vantagem de 60 a 30 entre os eleitores judeus americanos, mas, quando se trata do eleitorado geral, ainda há uma divisão forte. Na mais recente pesquisa do jornal "Washinton Post" e da cadeia de televisão ABC, os eleitores estão claramente rachados entre Obama e McCain sobre quem é mais habilitado a lidar com questão de Israel com os palestinos: 44% votam em McCain, enquanto 42% preferem Obama. Mas os resultados são anteriores a esta viagem.

DEU EM O GLOBO


QUAL É O NOSSO LADO?
Carlos Alberto Sardenberg


A Rodada Doha foi lançada em novembro de 2001, na capital do Catar, apenas dois meses depois do ataque terrorista que havia derrubado as torres de Nova York. A reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio estava marcada antes do atentado - mas parecia que nem ia se iniciar. Não havia clima para negociações cujo objetivo seria facilitar o comércio internacional e, pois, a globalização.

O ataque acabou influenciando na outra direção. Tornou-se amplamente aceita a tese segundo a qual quanto mais crescimento, emprego e renda houvesse nos países emergentes e pobres, menor seria o espaço para o terrorismo. E ainda: quanto mais integrados os países estivessem no comércio global, também menor seria a tentação terrorista, vista como uma espécie de desespero diante da exclusão. Acrescente-se que o mundo sofria as conseqüências da crise financeira gerada pelo estouro das bolhas da internet e das telecomunicações, outro problema que poderia ser combatido com mais negócios.

Resumindo, o clima internacional virou para o outro lado. Combater a pobreza no mundo tem de ser prioridade na agenda; o Talibã e a al-Qaeda merecem bombas, o Afeganistão precisa de ajuda; e todos precisam de mercados e, pois, de comércio externo.

Por isso a Rodada Doha ganhou o apelido de Rodada do Desenvolvimento. A conseqüência direta era a abertura do comércio agrícola mundial, pois mais de 70% das exportações dos países não-ricos eram compostas de produtos agrícolas e industrializados com uso intensivo de mão-de-obra. Ora, naquele momento, Estados Unidos, União Européia e Japão estavam gastando mais de US$200 bilhões anuais com subsídios agrícolas.

A rodada iniciou-se ambiciosa. A conclusão do acordo foi marcada para janeiro de 2005. Já estamos, portanto, com quatro anos de atraso. Os objetivos falavam de redução "substancial" dos subsídios e tarifas de importação de produtos agrícolas. Hoje, está claro que se perdeu muito do espírito inicial.

Isso foi conseqüência de uma combinação de fatores, a começar pela emergência econômica e política de países como China, Índia, Brasil e Rússia, cujos interesses nacionais parecem complementares, mas aparecem freqüentemente contraditórios. Não cabe mais aí a divisão entre pobres e ricos, Sul e Norte.

A Índia, por exemplo, está mais alinhada com a União Européia quando se opõe à redução de tarifas de importação agrícola, medida de total interesse do Brasil. Outro fator: o terrorismo quase se dissipou, não era a ameaça global que parecia ser.

Finalmente, o mundo entrou em um processo de forte crescimento econômico global (2002/2007), com expansão dos emergentes, passando a idéia de que o comércio global já estava bem arrumado assim mesmo. Com isso, a rodada sofreu sucessivos fracassos. Chega a seu momento decisivo quando a prosperidade global deu lugar a uma série de crises nacionais e regionais, situações que tendem a exacerbar o protecionismo. Ou seja, a atual rodada, se terminar com acordo, será um acordo bem limitado. Uma pena, pois o fundamento é totalmente correto: mais comércio mundial é igual a mais prosperidade.

Em Genebra, os EUA propuseram um teto anual de US$15 bilhões para os subsídios que pagam aos seus agricultores, para compensar preços baixos. Ora, neste ano, por exemplo, quase todos os preços agrícolas estiveram muito altos, de modo que o governo americano não precisou subsidiar diversos agricultores. Resultado, seus gastos estão em torno dos US$7,5 bilhões - metade do que propuseram nas negociações.

Por outro lado, a lei agrícola aprovada pelo Congresso americano estipula um teto anual de US$48 bilhões para subsídios. Esse é o valor que o governo poderia gastar em um momento de preços internacionais baixos. Ora, US$48 bilhões é três vezes o teto proposto pelo governo Bush em Genebra. Problema: a lei agrícola atual foi aprovada pelo Congresso, com a maioria democrata. O presidente Bush vetou, propondo limitar os subsídios a agricultores com renda anual de até US$200 mil.

Os deputados e senadores derrubaram o veto e mantiveram inclusive o subsídio a agricultores com renda de até US$1,2 milhão e aumentaram o apoio a plantadores de milho para etanol.

Sabem quem foi um dos mais entusiastas defensores da lei? Barack Obama. Já McCain votou contra a lei agrícola e os subsídios ao etanol de milho, assim como pediu a eliminação do imposto de importação sobre o etanol brasileiro.


CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista.

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A LEI SECA E SEUS EFEITOS
Celso Ming



Ninguém gosta de proibições. Mas está ficando tão difícil a vida nas cidades que algumas leis que implicam sérias restrições à liberdade de ação dos indivíduos começam a ganhar rápida popularidade.

A lei do rodízio dos veículos que trafegam durante a semana no centro expandido da cidade de São Paulo é uma delas. Ninguém, nas atuais condições do transporte público, seria capaz de defender o fim desse sistema. Também foi enorme o índice de aprovação à lei do Município que restringiu a poluição visual. A população estava tão acostumada a viver naquelas condições que o alívio só foi sentido plenamente quando as placas, painéis e outdoors foram definitivamente removidos.

As normas antifumo também estão nessa categoria. No mundo inteiro, as restrições nesse campo tendem a aumentar e são cada vez mais aceitas com naturalidade.

O último caso de ampla aprovação de uma lei que restringe o consumo é a lei seca, que proíbe os motoristas em todo o Brasil de dirigirem seus veículos depois de terem ingerido qualquer quantidade de bebida alcoólica. Alguns interesses saíram contrariados e fizeram questão de manifestar essa contrariedade. Este é especialmente o caso dos fabricantes de bebidas e o dos proprietários de bares e restaurantes.

Mas as primeiras pesquisas de opinião, provavelmente levantadas em condições ainda precárias, mostram que 73% da população aplaudiu a iniciativa.

Também são fortemente favoráveis os resultados que se seguiram às primeiras semanas de vigência da lei. As mortes violentas registradas pelo Instituto Médico Legal caíram 57% em São Paulo. E os casos de motoristas apanhados pelo bafômetro começaram a diminuir, o que parece comprovar que ela deverá ser observada.

São dados iniciais, longe de serem confiáveis, não só porque ainda não apresentaram a necessária densidade estatística, mas também porque julho é um mês atípico. Além de ser marcado pelas férias escolares, apresenta trânsito menos caótico do que em outros períodos do ano na cidade, o que pode ter interferido na precisão desses números. Mesmo assim, não podem ser desconsiderados como indícios de que essa nova lei "vai pegar".

Mas os principais resultados ainda estão por vir. Informações apresentadas pela Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo dão conta de que as despesas com atendimento de pronto-socorro e internação hospitalar em conseqüência de acidentes de trânsito queimam R$ 2,5 mil por hora do contribuinte do Estado. Com a redução do número de acidentes, o custo dos serviços públicos de assistência médica tende a cair substancialmente.

Se essa redução se confirmar, dentro de mais alguns meses será inevitável, também, a queda dos prêmios de seguro tanto de veículos como de seguro de vida. Números disponíveis da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg) mostram que apenas as indenizações pagas em conseqüência da colisão de veículos (54% do total) alcançaram R$ 2,5 bilhões no ano passado.

E, de quebra, a nova lei deve contribuir para combater o alcoolismo, não só por parte dos motoristas, mas da própria população.

CONFIRA

Reforço de dose - A decisão do Copom foi aumentar os juros em 0,75 ponto porcentual, para 13,00% ao ano. É a terceira alta desde janeiro, que acumula neste ano um avanço nos juros básicos de 1,75 ponto porcentual.

Tempestivamente - Esta é a palavra-chave do comunicado divulgado junto com a decisão. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já a usou há algumas semanas.

Em tempo oportuno - Este é o significado dessa expressão. Mas Meirelles parece ter pretendido dizer com isso que o Banco Central está sendo determinado a trazer rapidamente a inflação para o centro da meta.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

PEGA LADRÃO!
Fernando de Barros e Silva

SÃO PAULO - A demanda por moralidade na política e maior transparência no processo eleitoral ganhou um aliado polêmico com a divulgação da "lista dos 15" pela AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros). Os fichas-sujas viraram um assunto. Essa onda moralizadora está ligada a um desejo mais amplo de "passar o país a limpo", como mostram as reações ao caso Dantas.

Ninguém de boa-fé deixará de reconhecer méritos nesse anseio. Mas ninguém escaldado deixará de perceber também que esse filme é velho e suas motivações são mais ambíguas do que podem parecer.

Sabemos todos que notórios ladrões fazem da política a sua profissão. Que usam a imunidade do cargo como biombo para a impunidade e usurpam o mandato popular, transformando-o em ferramenta de seu business ou gatunagem.

A generalização dessa percepção, para a qual contribuiu o realismo quase sem nenhum pudor de PSDB e PT na última década, tem alimentado uma certa ojeriza à política. Desenvolveu também em muitos progressistas de antigamente uma espécie de cinismo pragmático.

A atitude do eleitor desiludido diante dos candidatos parece oscilar entre dois pólos complementares: 1. O que ele quer arrancar de mim? 2. O que eu posso tirar dele? (O leitor de boa alma faça a gentileza de não vestir a carapuça.)

Nesse ambiente, a faxina eleitoral proposta pela AMB corre o sério risco de se converter numa caça às bruxas, manchando a democracia em nome da "higienização" do voto.

Entre o critério elástico adotado pela lista dos juízes, que junta candidatos em situações legais muito distintas e passados muito diversos, e a atual legislação eleitoral, que na prática premia os larápios e pune a sociedade, seria o caso de buscar um meio-termo, menos estridente, mas também menos concessivo, capaz de separar o joio do trigo.

É essa, aliás, a posição esclarecida do presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, infelizmente minoritária no âmbito daquele tribunal que decide as coisas.

DEU NA FOLHA DE S. PAULO


ERROS E ACERTOS
Eliane Cantanhêde


BRASÍLIA - Não foi nenhum acusado, advogado ou curioso quem disse que há "erros" no inquérito do delegado Protógenes Queiroz sobre o trio Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta. Foi, nada mais nada menos, o ministro da Justiça e chefe da PF, Tarso Genro.

Antes, os erros eram só de procedimento, a tal "espetacularização" de prender os suspeitos com câmeras de TV adentrando a casa alheia e com o uso de algemas de pobre em gente tão rica.

Agora, passaram a ser de conteúdo: a fundamentação da prisão temporária (como Gilmar Mendes já dizia), a referência leviana a pessoas inocentes e os rasgos messiânicos injustificáveis em peças policiais (como apontou o repórter Ranier Bragon). Sem contar as ações escondidas da cúpula da PF e a aliança com a Abin.

Segundo Tarso, o substituto de Protógenes, Ricardo Saadi, é de "altíssimo nível" e o inquérito incorporará uma profusão de adjetivos: será "mais profundo", "mais técnico", "mais sofisticado", "com mais qualidade" e "menos midiático".

O que, portanto, significa retirar trechos como o que trata uma boa jornalista como "integrante de organização criminosa", por ter dado o chamado "furo de reportagem", ou o que faz referência a um rapaz de Niterói como agente infiltrado de Daniel Dantas no Exército.

Ele fez engenharia da computação no Instituto Militar de Engenharia e se tornou tenente em 2007, mas desistiu da carreira. O Exército exigiu ressarcimento, e ele entrou na Justiça. Trata-se do primeiro espião que decidiu processar quem deveria espionar.

O grande escândalo poderia descambar para uma comédia de quinta, não fosse o principal: à parte as idiossincrasias e os erros de Protógenes, a essência do inquérito que ele comandou é consistente -ou "robusta", como admitiu Tarso. E, assim, a investigação e suas conseqüências têm de ir adiante, porque a desmoralização não seria só de um delegado; seria geral.

DEU NO VALOR ECONÔMICO


"ESSE É O GABEIRA, GENTE", ANUNCIA ASSESSOR EM BANGU
Ana Paula Grabois, do Rio

Gabeira em campanha com Aladim, jogador do Bangu na década de 60, hoje vereador pelo PV de Curitiba

Quase como um desconhecido, o candidato a prefeito do Rio Fernando Gabeira (PV/PSDB/PPS) fez caminhada ontem no calçadão de Bangu, parada obrigatória de políticos em busca dos votos da zona Oeste carioca. No centro de comércio popular de um dos bairros com maior eleitorado da cidade, Gabeira precisava ser anunciado por um assessor munido com um megafone. "Esse é o Gabeira, gente. O candidato do povo", dizia o rapaz conhecido como Pulmão aos aposentados que lotavam as mesinhas de cimento no meio do calçadão.

Mais identificado com o eleitor da zona Sul, o candidato era menos reconhecido do que o vereador do PV de Curitiba, Aladim, ex-jogador do time do Bangu na década de 60. Depois de cumprimentada pelo candidato do PV, a aposentada Eliete Gomes de Araújo disse que iria votar nele, mas comentava com ironia: "Não é o homem do Partido Verde? É o homem da erva, da erva maldita."

Com um figurino que destoava daquele cenário, vestido com uma blusa florida de tons claros e manga comprida, calça jeans e tênis de skatista, o deputado seguiu firme por todo o calçadão. Entrava nas lojas, cumprimentava pessoas na fila de um banco e era recebido por rostos um tanto constrangidos. Vindo de um partido com apenas um representante na Câmara Municipal, o deputado federal defensor da liberação da maconha e dos direitos civis dos homossexuais, não teve nenhum dos seis vereadores do coligado PSDB na caminhada de ontem. Nem o seu vice, o deputado estadual tucano Luiz Paulo Corrêa da Rocha, apareceu.

"É uma caminhada como as outras. Há alguma simpatia, algumas pessoas cumprimentam e dizem que vão votar. Outras, simplesmente cumprimentam ou ficam espantadas porque não sabiam que as eleições estão começando. Há lugares e há dias mais densos, como um sábado em Madureira", disse o candidato.

Gabeira vai manter a campanha nas zonas Sul e Norte, mas quer avançar na zona Oeste, área que costuma definir as eleições na cidade. O principal entrave, diz, são as 26 milícias armadas que controlam comunidades da região e dificultam a entrada de políticos. "Tem uma parte da população que não pode votar livremente. Esse dado é muito importante na zona Oeste e nós vamos entrar nas comunidades, mas primeiro queremos que haja algum tipo de investigação", afirmou.

Ele pretende iniciar a campanha nessas comunidades na semana que vem sem a escolta da Polícia Militar. Na terça-feira, a candidata à Câmara Municipal Ingrid Gerolimich, do PT, foi à favela da Rocinha com policiais militares para garantir a segurança de sua panfletagem. "Vamos entrar sem polícia, vamos entrar na moral", disse Gabeira, para quem é preciso organizar uma campanha educativa na imprensa e no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de que voto é secreto, pois as milícias dizem que vão descobrir o voto de cada um. "O Rio é a única cidade do Brasil onde tem mais de 700 mil pessoas que não podem ser acessadas pelos candidatos."

A zona oeste é marcada pela política do voto comunitário. O prefeito Cesar Maia (DEM), eleito três vezes, criou uma rede forte de sustentação assistencialista por meio de vereadores das localidades com ligações com associações de moradores, centros sociais e obras. Ontem, o DEM decidiu expulsar o deputado estadual e chefe de milícia Natalino Guimarães, preso pela Polícia Civil na terça-feira.

Nesta semana, porém, Maia fez duras críticas ao candidato em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, Marcelo Crivella (PRB), por adotar práticas clientelistas nas comunidades pobres do Rio. O prefeito chama o ex-bispo da Igreja Universal de neo-chaguista ao lembrar o projeto de reformas de casas "Cimento Social" no Morro da Providência, cujas obras foram interrompidas pela Justiça Eleitoral. Na avaliação de Gabeira, os vereadores não são tão importantes. "O importante é conquistar a sociedade", disse. (Com Agência O Globo)

DEU NO VALOR ECONÔMICO


ESQUECERAM QUE DANTAS ERA O ACUSADO
Maria Inês Nassif

A primeira reação da mídia foi a de se refugiar em seu papel noticiarista: a prisão do banqueiro Daniel Dantas, de sua irmã e de outros parceiros de negócios foi acompanhada pelas lentes dos fotógrafos e dos cinegrafistas, e pelas diligentes anotações dos repórteres. Aí, os acusados eram Dantas e outros integrantes ou parceiros de negócios do Grupo Opportunity. Num segundo momento, os meios de comunicação embarcaram nos protestos do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que acusou o delegado da PF, Protógenes Queiroz, de sensacionalista, jogou pedras sobre o Ministério Público e soltou todos os presos, exceto os envolvidos diretamente na tentativa de suborno de um delegado. Foi quando os acusados passaram a ser a Polícia Federal e o Ministério Público. Em seguida, sob pressão da mídia, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e a direção da Polícia Federal forçaram o afastamento dos delegados responsáveis pelo inquérito. A partir daí, os dedos acusadores da mesma mídia apontaram para o governo, que teria abortado a ação saneadora do delegado Protógenes, antes aquele que cometeu abusos contra acusados.

Exceto no primeiro capítulo da novela Daniel Dantas, o foco da mídia não foi o dos negócios do banqueiro - ou empresário, ou sócio de empresas fantasmas, ou seja lá o que for - que estava sob investigação da polícia, mas os supostos crimes cometidos pela PF, ou uma ação política do governo para esvaziar o inquérito produzido por delegados da PF antes acusados de cometer ilegalidades.

É difícil cobrar um comportamento sempre coerente da mídia: no calor dos fatos, reportar e julgar ao mesmo tempo, sem ter todas as informações, embute um enorme risco de erro. Mas é inegável que as oscilações abruptas de julgamento - e de foco - têm evidentes efeitos colaterais. A desautorização do inquérito da PF em determinado momento - desautorização pura e simples, sem ressalvas - serviu à defesa de Dantas. É certo que o inquérito cometeu erros crassos, misturou estações e interpretou de forma muito equivocada alguns grampos - e perdeu credibilidade ao misturar pessoas envolvidas nos negócios de Dantas com outras que simplesmente foram citadas e não tinham culpa nenhuma no cartório. Mas os meios de comunicação também não separaram as coisas. Primeiro, publicaram tudo como se fosse tudo verdade e, quando se depararam com a dificuldade de comprovar o envolvimento de alguns dos citados, a tendência foi a de generalizar a acusação de "abuso", como se prender alguém que mandou corromper um delegado fosse algo impensável, pelo menos quando essa figura é um banqueiro. Quando resolveram rever sua opinião sobre a polícia - e isso ocorreu quando foi possível acusar o governo de pressão política sobre a instituição - a guinada foi radical: a PF não era mais leviana, mas moralizadora, e era essa PF moralizadora o objeto das pressões de um governo.

Nesses dois extremos, a mídia também foi o veículo da sensacionalização. Se a PF foi sensacional, foi porque o fato dado a conhecimento foi reverberado pela mídia sem qualquer filtro. Daí foi a própria mídia a acusar o sensacionalismo e pressionar por uma posição de governo contra o que considerou abusos. E foram os próprios meios de comunicação quem, à ação corretiva dos superiores do delegado, acusaram sensacionalmente o governo de ter pressionado a instituição a não apurar fatos relativos ao inquérito contra Dantas e grupo.

Mídia mudou de posição sobre a PF várias vezes

Nesse processo, o resultado mais palpável foi que em alguns dias Daniel Dantas e suas ações pouco republicanas saíram rapidamente de foco e deram lugar a um debate surrealista sobre o que é um abuso policial e sobre até onde vai a autonomia da PF diante de uma pressão do governo (dada como certa e definitiva) sobre a instituição para não apurar os fatos - que, ao mesmo tempo, segundo a mesma imprensa, fez um inquérito que beirou o abusivo. É surrealista porque em nenhum momento a imprensa analisou o seu próprio papel no caso. E isso inclui o fato de que toda a informação que uma instituição vaza é publicada por algum veículo de comunicação. Se foi um abuso o vazamento de todo o inquérito, inclusive as partes relativas a pessoas que não são parte dos delitos cometidos pelo grupo de Dantas, de quem é o abuso? De quem vazou ou de quem publicou a informação vazada?

Desde a promulgação da Constituição de 1988, o país vive ciclos em que uma ou outra instituição se impõe sobre as demais quando assume como exclusivamente seu o papel de repressão ao crime e de guardião da moralidade. O Ministério Público já esteve nessa situação, assim como os juízes de primeira instância. Agora é a vez da PF. Todas as vezes que uma instituição se excedeu, no entanto, foi porque encontrou eco na mídia. Foram os veículos de comunicação que deram guarida aos sucessivos vazamentos de investigações do MP ou de processos que corriam na Justiça; como hoje dão abrigo aos vazamentos da PF. Não raro, um vazamento de informação acaba justificando um pedido judicial da mesma instituição que fez o vazamento; ou é usado como pressão política contra partidos e governos; ou é exibido como prova de eficiência, em movimentos de valorização corporativa. Portanto, a informação, pretensamente acrítica, não é neutra. Ela tem usos políticos e corporativos.

Não dá para debater os eventuais abusos de instituições sem reconhecer que o jornalismo teve um papel fundamental nos processos de hipertrofia dos poderes de uma ou outra, em determinados períodos. É um engano imaginar que a informação acrítica é neutra. Ela é apenas acrítica - e isso não significa sequer ser independente. O próprio modus operandi de Dantas é prova disso. A farta produção de dossiês para destruir reputações de inimigos foi um fato. Se os jornais e revistas os publicaram, fizeram um favor a Dantas. Esse comportamento está longe de ser neutro. Se um inquérito policial atinge quem não deve atingir, e a imprensa não filtra essa informação, pode lançar o descrédito em todo o inquérito e contribuir para a impunidade dos que devem efetivamente ser punidos. Ou pode abalar as reputações de quem nada deve.


Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
INFLEXÃO PRÓ-URIBE SUPERA AMBIGÜIDADE QUANTO ÀS FARC
Jarbas de Holanda

Antes tarde, é o caso de dizer”. Ou seja, antes tarde do que nunca. Assim, editorial do Estado de S. Paulo, de ontem – “O novo aliado de Uribe” – avalia e aplaude a presença do presidente Lula nas comemorações do 198% aniversário da independência da Colômbia, e a assinatura de um acordo de cooperação militar entre os governos colombiano, brasileiro e do Peru contra o narcotráfico e o contrabando em geral na região de fronteira dos três países. Promovido na cidade de Letícia, o principal ato das comemorações teve a participação dos presidentes Álvaro Uribe, Lula e Alan Garcia e ganhou a dimensão (ao lado de eventos semelhantes realizados em outros centros urbanos da Colômbia e em 90 cidades do exterior) de novo marco de mobilizações sociais pela libertação de cerca de 700 reféns que a narcoguerrilha das Farc mantém em cativeiros.

O editorial registra que “Lula molhou as mãos com tintas azul e amarela, as cores colombianas, para imprimi-las num mural grafitado com apelos pela liberdade dos seqüestrados”, e associa a inflexão pró-Uribe do nosso governo à atitude assumida agora pelo colombiano de concordância com a “polêmica” proposta da criação de um Conselho de Defesa da América do Sul, concebido pelo ministro Nelson Jobim e apresentado em recente encontro, em Brasília, da Unasul – União das Nações Sulamericanas, no qual “a proposta foi praticamente ignorada pelos participantes, a começar dos colombianos”. O texto do Estado trata ainda do anúncio, feito
nessa viagem pelo presidente Lula, de um financiamento de US$ 650 milhões, através do BNDES, para a construção por duas empresas brasileiras – Camargo Corrêa e Odebrecht – de ferrovia que ligará o altiplano colombiano ao litoral do país, com um ramal para servir a uma siderúrgica recentemente adquirida pela Votorantim.

Com essa inflexão, o presidente deixa, enfim, inteiramente para trás a ambigüidade que o Itamaraty mantinha diante do conflito entre o governo da Colômbia e as Farc, postura que o levou a enredar-se em sucessivas e confusas propostas de “negociação equilibrada para a libertação dos reféns”. Enredamento resultante de dois tipos de pressões: de um lado, o relacionamento ideológico- cooperativo entre o PT e a guerrilha colombiana, formalizado no Foro de São Paulo constituído na capital paulista no início dos anos 90, quando ela já passava a se financiar com o narcotráfico, e, de outro, a influência que nos últimos anos vinha sendo exercida por Hugo Chávez, explícita e agressivamente em favor do grupo narcoguerrilheiro (isso até a apreensão, do outro lado da fronteira da Colômbia com o Equador, dos computadores de Raúl Reyes, reveladores de estreito relacionamento do presidente da Venezuela com o grupo, seguida de completo isolamento internacional deste com o sucesso da operação de Uribe que libertou do cativeiro Ingrid Betancourt, três norte-americanos e 11 policiais-militares colombianos).


A parceria econômica com a Colômbia

Trechos de reportagem de hoje do Valor, intitulada “Após trauma, empresas do Brasil voltam à Colômbia”:

“Onze anos após ter tido dois de seus engenheiros seqüestrados pelas Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc), a construtora mineira Andrade Gutierrez está recuperada do trauma e pronta para voltar a operar no país. Mais segura, com um ambiente mais propício aos negócios e com uma economia em melhor forma do que há uma década,a Colômbia tem chamado a atenção de um número crescente de empresas brasileiras. Mas não apenas pelas mudanças internas. A disposição do governo brasileiro de financiar obras e serviços no país, realizados por companhias brasileiras, ajuda também a reforçar o interesse pela terceira maior economia e pelo segundo país mais populoso da América do Sul.


“O seqüestro foi um fator para sairmos da Colômbia”, diz o vice-presidente para Relações Institucionais da empresa, Flávio Ma
chado Filho. “Mas hoje, tendo em vista a situação do país, nos interessa em voltar a atuar aqui e estamos prospectando obras de infra-estrutura ferroviária, aeroportuária, metroviária, em Bogotá, particularmente, e de hidroelétricas”. Os dois engenheiros estiveram por sete meses nas mãos da guerrilha e seguem no quadro da empresa – um deles hoje trabalha na Venezuela; o outro, no Ceará”.

“Ao mesmo tempo em que conseguiu reduzir os indicadores de violência – os seqüestros, os homicídios e atos de sabotagem e atentados despencaram - o atual governo, ao longo dos últimos seis anos, centrou sua política econômica no equilíbrio das contas públicas, na redução da inflação e no crescimento econômico.”

quarta-feira, 23 de julho de 2008

DEU NO JORNAL DO BRASIL


FRENTE AMPLA:
UM FRAGMENTO IMPERDÍVEL DA HISTÓRIA RECENTE

Sergio Bruni
Economista, Presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento da Prefeitura do Rio de Janeiro e Surperintendente do Centro de Estudos Estratégicos da FGV
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O livro Renato Archer – diálogo com o tempo é fruto de 25 encontros que o ministro Renato Archer teve com profissionais do Centro de Pesquisa e Documentação Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (Cpdoc/FGV), resultando em 33 horas de gravação, que foram criteriosamente organizadas pela pesquisadora Regina da Luz Moreira e senhora Leda Soares, contando com o decisivo patrocínio da prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Renato Bayma Archer da Silva, maranhense de nascimento, cursou a Escola Naval, entre 1941 e 1945, tendo servido a bordo de navios que patrulhavam a costa brasileira durante a 2ª Guerra Mundial. Elegeu-se deputado federal, em 1954, por seu Estado, na legenda do Partido Social Democrático (PSD), licenciando-se, assim, do serviço ativo da Marinha, onde chegou ao posto de capitão-de-fragata, sendo transferido para a reserva em 1961. Foi reeleito em 3 pleitos consecutivos, permanecendo na Câmara dos Deputados de 1955 à 1968, quando foi cassado pelo AI-5. Posteriormente, já com seus direitos políticos reestabelecidos, participou da fundação do MDB, hoje PMDB, foi ministro da Ciência e Tecnologia (1985/1987) e da Previdência Social (1987/1988) no governo José Sarney, e presidente da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) no governo Itamar Franco.

Sua última atuação pública ocorreu em 1996, poucos meses antes de falecer, quando dirigiu o Comitê Rio 2004, que organizou a campanha pela realização da Olimpíada maranhense, nacional e internacional.

Nas quatro décadas, por ele abordadas, relata interessantes episódios, agora trazidos à tona, que tiveram como protagonistas personalidades como Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas, Vitorino Freire, senador José Sarney, almirante Álvaro Alberto, Walter Moreira Salles, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Flores da Cunha, Aliomar Baleeiro, embaixador João Carlos Muniz, Leonel Brizola, João Goulart, José Maria Alckmin, Oswaldo Aranha, Gustavo Capanema, Café Filho, Carlos Luz, Generais Lott, Flores da Cunha, Fiúza de Castro e Mascarenhas de Moraes, Nereu Ramos, Celso Furtado, Amaral Peixoto, Burle Marx, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Pablo Neruda, Milton Campos, José Aparecido de Oliveira, Afonso Arino de Mello Franco, comandante Carlos Borba, Antônio Callado, Cid Rojas Américo de Carvalho, Lindolfo Collor, Villas-Boas Corrêa, Armando Falcão, Chagas Freitas, Lincon Gordon, Che Guevara, Ulisses Guimarães, John Kennedy, Danusa Leão, Clemente Mariani, Hélio Jaguaribe, Franco Montoro, Oscar Niemayer, Richard Nixon, Petrôneo Portela, Luis Carlos Prestes, Mário Henrique Simonsen, Miguel Arraes, Ivete Vargas, dentre outras dezenas de ecléticas personalidades com as quais conviveu.

No livro, ele relata diversos episódios que se iniciam lembrando suas fortes raízes maranhenses, passando pela Escola Naval, sua carreira militar, a política maranhense, entrando na questão nuclear, onde deu grande contribuição como discípulo do seu então professor de química, o almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva, especialista no assunto e fundador, em 1951, do CNPQ.

Também aborda com desenvoltura, elegância e desprendimento, o período JK, o governo João Goulart, durante o gabinete parlamentarista de Tancredo Neves, onde foi subsecretário das Relações Exteriores, tendo ajudado a refinar, juntamente com o ministro San Thiago Dantas, a chamada Política Externa Independente, oriunda do governo Jânio Quadros, passando pelo período do regime militar, onde aborda, com precisão e maestria, aspectos extremamente interessantes, de todos os governos dos generais-presidentes.

Exemplo são suas observações do governo Costa e Silva, nas quais, com riqueza de detalhes relata o expurgo radical dos chamados castelistas, o caso Marcio Moreira Alves, a acefalia no poder e a constituição da junta militar.

Nos brinda, também, com sua visão da formulação, caminhos e descaminhos da Frente Ampla, na qual, sem dúvida, exerceu um importante papel na busca da consolidação da mesma, que unia atores com posturas político-ideológicas distintas, e às vezes, até mesmo, antagônicas, como as de Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, João Goulart, Leonel Brizola, Jânio Quadros, dentre outros.

No livro ele aborda inúmeras passagens por ele vivenciadas, muito interessantes e de conhecimento restrito até então, finalizando seu depoimento abordando "a dura face do regime militar", que lhe cassou os direitos políticos e o prendeu três vezes, sendo que na última passou 20 dias incomunicável, fechando sua contribuição com as observações que fez na condição de "paisano" e a nova feição do Brasil, nos quais avaliou, com precisão cirúrgica, o momento político vivenciado pelo país, merecendo o registro de que em 1978, o ministro Renato Archer concedeu sua última entrevista ao Cpdoc.

Era o momento em que o governo Geisel enfrentava, ao lado das contradições internas do regime, representadas pela forte oposição à escolha do general Figueiredo como candidato à sucessão, também o crescimento da luta pela anistia, apoiada por importantes setores da sociedade, e se verificava os primeiros sinais de reanimação do movimento operário.

Jornal do Brasil, 20 de julho de 2008.
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1035&portal=

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


QUEM MATOU A VELHINHA?
Luiz Carlos Azedo


Ninguém sabe quem é o assassino, mas Raskólnikov sabe: foi ele mesmo. O desfecho da Operação Satiagraha lembra a trama de Crime e Castigo

O delegado federal Protógenes Queiroz é um personagem digno de um romance “noir” americano. Saiu do comando da Operação Satiagraha como um herói e ainda deixou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na maior saia-justa. Sua imagem é a do “cana dura” que não faz trato com bandidos, não aceita propinas, nem se intimida com políticos. Para chegar aos objetivos, usou de subterfúgios, inclusive aquele mais comum: atropelar hierarquia, suspeitos e advogados. No rastro dos crimes que investigava, foi em frente, doesse a quem doesse. Mas talvez tenha faltado ao delegado Protógenes a paciência de um Porfíri Pietrovitch, o perseguidor implacável de Rodion Românovitch Raskólnikov, assassino de uma velhinha e da única testemunha do crime, sua sobrinha, personagens de Crime e Castigo, o clássico romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1866.

A caçada

O método do policial russo era a paciência e a persistência no cerco aos suspeitos, até que perdessem o controle e acabassem se incriminando. “Assentemos em que eu passei a ter suspeitas deste, daquele ou daquele outro, por me parecer que é o autor de um crime; vejamos: por que hei de eu ir incomodá-lo antes do tempo, embora possua algumas provas contra ele?”, explica Profíri, no genial diálogo com Raskólnikov.

“E veja, se o prendo antes do tempo, embora eu esteja convencido de que é ‘ele’, sou eu próprio que acabo por privar-me do meio de desmascará-lo mais à vontade; e como? Porque dessa maneira lhe destino uma posição, por assim dizer, definida; defino-o psicologicamente e tranqüilizo-o, e ele escapa-se-me e mete-se na sua concha; compreende, finalmente, que está preso”, arremata Porfíri.

O investigador joga com os nervos de um suspeito culto e inteligente: “Já reparou numa borboleta à volta da luz? Bem; pois da mesma maneira se porá ele a dar voltas e voltas em meu redor, como em torno de uma vela; a liberdade deixará de ser-lhe agradável, começará a matutar, a viver numa inquietação, a ficar preso nas suas próprias redes e a sofrer angústias mortais... E isso ainda não é tudo: ele próprio, espontaneamente, me proporcionará alguma prova matemática, do gênero de dois e dois são quatro... assim que eu lhe consinta um intervalo mais longo (…)Não lhe parece?”

A trama

Raskólnikov não responde a Porfíri, fica pálido e imóvel. “Boa lição!”, pensava. “Ah, é absurdo, meu caro, que tu queiras assustar-me e valer-te de estratagemas para comigo! Tu não tens provas (…)” Ninguém sabe quem é o assassino, mas Raskólnikov sabe: foi ele mesmo. Por isso, com os nervos à flor da pele, acaba se entregando. O desfecho da Operação Satiagraha lembra a trama de Crime e Castigo. Por que o Palácio do Planalto, de uma hora para outra, resolveu entrar de sola no caso, quando tudo indicava que a oposição seria a mais prejudicada no episódio?

Porque o responsável pela Operação Satiagraha tentou estabelecer um vínculo entre o principal acusado na operação, o banqueiro Daniel Dantas, e o Palácio do Planalto, envolvendo a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho. Forçou a barra demais ao levantar suspeitas de que a compra da BrasilTelecom pela Oi, que é fomentada pelo governo Lula, faria parte das operações suspeitas de Dantas.

Gato escaldado por escândalos envolvendo petistas trapalhões, o presidente Lula decidiu dar um novo rumo às investigações. Agora, o foco será nos crimes financeiros de Dantas , jamais as operações comerciais que envolviam a participação do governo e dos fundos de pensão, como era o horizonte das investigações conduzidas por Protógenes. Essa é uma tentativa de salvar a megafusão nas telecomunicações, na qual o presidente Lula sempre apostou e que agora está sob suspeitas. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já anda dizendo que a instituição não tem como pegar Dantas. Seria um problema para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que deveria fiscalizar melhor os fundos de investimentos. O crime da velhinha continua sem solução.

DEU EM O GLOBO


OBAMA "TEFLON"
Merval Pereira


NOVA YORK. O provável candidato democrata à Presidência, senador Barack Obama, é um sucesso de público, mas não tinha até agora conseguido transformar esse inegável apelo em um apoio consolidado, tanto assim que as pesquisas de opinião o mostram sempre à frente do senador John McCain, mas a uma distância relativamente pequena. A mais recente pesquisa Gallup mostra uma diferença de apenas três pontos percentuais. O sucesso até o momento de sua primeira viagem internacional como presuntivo candidato pode lhe dar essa musculatura que falta. Está ficando claro que o primeiro-ministro do Iraque, Al-Maliki, aproveitou-se da presença de Obama para mandar o recado de que apoiava a proposta de uma retirada de tropas americanas em 16 meses a partir de janeiro de 2009, provocando irritação na Casa Branca e deixando o senador McCain isolado em sua posição radical de não sair do Iraque "nos próximos cem anos".


De fato, há sinais claros nos últimos dias de que a campanha republicana está perdendo o controle com o sucesso do adversário, e os mais evidentes deles são os anúncios que começaram a ser veiculados, tanto na televisão quanto na internet.


Para tentar quebrar o predomínio de seu adversário na cobertura da mídia, McCain pensa até em antecipar para esta semana o anúncio de seu vice. Somente levantando essa expectativa, a partir da noite de segunda-feira, o candidato republicano conseguiu atrair a atenção para sua campanha, enquanto todos os holofotes se viravam para a viagem de Obama.


Também uma publicidade divulgada nos últimos dias na televisão, tentando culpar os votos de Obama no Senado pela alta da gasolina que tanto afeta a vida do americano médio, mostra o desequilíbrio que tomou conta da campanha de McCain.


Tudo está sendo tentado para reduzir a importância ou colocar no ridículo a viagem de Obama pelo mundo. McCain chegou a dizer que não sabia se "o pessoal do Missouri" iria gostar de ver Obama sendo ovacionado pelos europeus.


Num momento crítico da economia americana, quando o euro fica cada vez mais forte que o dólar e até a compra da fábrica da cerveja Budweiser por uma empresa européia, a AmBev (belgo-brasileira, para nós, e apenas belga para os jornais americanos) é vista como um sinal de fraqueza quase tão expressivo quanto, nos anos 90 do século passado, os japoneses comprarem o Rockefeller Center, em plena Manhattan.


Quatro anos atrás, essa carta antieuropéia foi jogada, com sucesso, contra o candidato democrata John Kerry, que passava as férias na região francesa da Bretanha. Mas Kerry era um milionário com pose de aristocrata, ao contrário de Obama.


Há também muita queixa contra a mídia por parte da campanha de McCain, e com certa razão. A viagem de Obama está sendo acompanhada por um séquito de jornalistas, inclusive os três principais âncoras da televisão americana, e uma verdadeira veneração por Obama é expressa às vezes de maneira tão explícita que permite até exageros como o de Chris Mathews, da MSNBC, que chegou a dizer certa vez que, ao ouvir Obama discursando, sentiu "um excitamento" subindo-lhe pelas pernas.


O caso foi relembrado esta semana no talk-show de Jay Leno, e a campanha de McCain colocou na internet um vídeo irônico com essas e outras demonstrações de "amor" por Obama por parte de jornalistas. Nesse ponto, e não onde Lula as vê, existem semelhanças entre as figuras de Obama e de Lula, a começar pelo apelido de "teflon", em que nada pega, nem mesmo quando muda radicalmente de posição e, tendo sido considerado o senador mais esquerdista de Washington, vota a favor da escuta telefônica sem permissão da Justiça, enquanto o "conservador" McCain pelo menos se absteve.


O governo Lula prefere, de maneira geral, um futuro presidente republicano, "menos protecionista" e, sobretudo, menos "próximo dos tucanos" do que a oligarquia Clinton. A escolha de Obama como candidato democrata afastou o pior pesadelo de Lula, o de ter novamente um Clinton na Casa Branca, o que fortaleceria seu adversário Fernando Henrique.


Mas, embora não esteja ainda afastada a hipótese de que a senadora Hillary Clinton venha a ser candidata a vice na chapa de Obama, a influência maior na candidatura Obama dentro do Partido Democrata está mais para a oligarquia Kennedy do que para os Clinton.
Mas a relação especial que existe entre Lula e Bush, selada na parceria sobre os biocombustíveis, que tanta polêmica provoca hoje no mundo por causa da alta do preço dos alimentos, pode continuar com McCain, que tem se mostrado muito mais sensível à abertura comercial do que seu adversário democrata.


Mas Lula vê na história de Barack Obama semelhanças com a sua vida, embora essa seja uma percepção equivocada, já que Obama faz parte de uma elite, ele próprio um intelectual formado pelas principais universidades americanas, filho de um professor.


O fato de ser o primeiro negro a ter chances reais de vir a ser presidente da República, porém, o tem colocado em uma redoma, longe dos ataques, e qualquer referência mais crítica é considerada "politicamente incorreta".


Ao contrário, Obama encarna o "politicamente correto", e não se dá direito nem mesmo de sorrir de uma piada sobre ele, o que vem provocando reclamações, e até situações radicalizadas como a reação à capa do "The New Yorker" em que aparece vestido de muçulmano com sua mulher fantasiada de guerrilheira no Salão Oval. Mesmo com todas as explicações, que até podem ser insuficientes, a revista foi "punida" e seu repórter, barrado na viagem que Obama está fazendo.


Um detalhe mostra bem até aonde vai a preocupação com detalhes de sua campanha. Para a convenção democrata, foi contratada a ativista ambiental Andrea Robinson, que vai medir as emissões de carbono de cada viagem, de cada placar, até cada xícara de café. E a maior parte da comida será orgânica ou produzida localmente, para reduzir as emissões durante o transporte.

DEU EM O GLOBO


NA HORA DA MORTE
Zuenir Ventura


Acho que nenhum dos viajantes estrangeiros que ao longo dos séculos se deslumbraram com o hedonismo dessa terra solar de Dionísio, afável e bela, jamais previu que o Rio pudesse vir a ser uma cidade identificada com a morte, onde se mata e morre sistematicamente. Uma necrópole povoada de vítimas fatais. Dói constatar que a Cidade Maravilhosa virou um lugar lindo para se morrer. Não falo da morte por doença, mas da morte súbita, estúpida, provocada, violenta; em uma palavra, o extermínio. Mata-se por encomenda e por vingança, de uma só vez ou em série, no varejo ou em forma de chacina, com pistola, metralhadora ou fuzil. Executam-se com tiros certeiros e com balas perdidas - crianças, velhos, mulheres, civis e militares, culpados e inocentes, a qualquer hora do dia ou da noite, nas ruas e dentro de casa, nos carros e nos ônibus. O que deveria ser escândalo banalizou-se e tornou-se uma rotina.

Houve um tempo em que havia jornais popularescos especializados em crimes, e deles se dizia que, espremidos, saía sangue. Hoje, o sangue invadiu todas as primeiras páginas e os horários nobres, transformando esses espaços em obituários. Mais do que uma imprensa "especializada" em crime, a cidade é que se especializou no tema. A PM do Rio não apenas é a que mais mata no Brasil, como faz isso quatro vezes mais do que nos EUA. Sua fama é a de que atira primeiro e pergunta depois.

Gostaria de saber por que o narcotráfico existe em NY, Londres e Paris, mas só aqui se mata e se morre tanto. Talvez porque se adota uma absurda "ideologia de guerra" em que o combate às drogas causa mais mortes do que elas mesmas. O governador e seu secretário José Mariano Beltrame dizem que é uma necessidade, a conseqüência inevitável da política de confronto com os bandidos. Será? Seu colega, o secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, acha que não. Em entrevista ao repórter Vasconcelos Quadros, afirma: "Em hipótese nenhuma o enfrentamento pode ferir inocentes." Ele é contrário à prática de "trocar a vida de um inocente pela do bandido".

Por que o governo de Cabral, em geral tão sintonizado com o de Lula, não ouve esse eco de sensatez que vem de Brasília? Podia fazer isso em nome da vida e da paz. O Rio não deve ser governado pelas pulsões de morte, por Tânatos; não é da sua natureza. O Rio tem que ser Eros.
Nessa hora de morte, nada melhor do que visitar a retrospectiva de Thereza Miranda no MAM, como fizeram 1.980 pessoas na memorável noite de abertura. Faz bem sentir a vida que palpita nos 140 quadros ali expostos. As paisagens de Thereza são, além da beleza, gestos vitais em defesa da Natureza ameaçada de extinção. Sua obra salva pela recriação artística o que periga perecer. De cada uma de suas gravuras "brota um mundo", como disse Carlos Drummond de Andrade.

DEU NO JORNAL DO BRASIL


A PRIORIDADE DA FAXINA NO CENTRO DO RIO
Villas-Bôas Corrêa


A ampla cobertura da chocha campanha para a eleição de prefeitos e vereadores no primeiro domingo de outubro alterna alguns exemplos de áspera rivalidade municipal, que se dissolvem na pasmaceira que lembra as velhas preliminares dos antigos campeonatos de futebol. O mandato de prefeito baixou à categoria de escada para o pódio do governador do Estado.E daí, o vôo para o infinito.

No Rio, o exemplo calça como uma luva na maioria dos municípios. Com algumas curiosas extravagâncias a denunciar que, da penca de candidatos, muitos não conhecem a ex-Cidade Maravilhosa. Não é necessário identificar os pilotos que voam acima nas nuvens das mazelas que infernizam o cotidiano do morador do Rio, pois todos parecem empenhados em salvar a cidade com obras fantásticas na periferia, sem sequer olhar para o antigo centro político, ad- ministrativo, cultural, econômico e artístico condenado à decadência do desmazelo, do abandono na longa penitência que começa com a mudança da capital para Brasília em obras, em 21 de abril de 1960.

Iludiu-se com o engodo do Estado da Guanabara e mergulhou de cabeça no declínio com a calamitosa fusão com o Estado do Rio de Janeiro. De lá para cá, nem o governador do Estado cuida da cidade e muito menos prefeitos dispõem de recursos e prestígio político para falar grosso com os hóspedes com mandato de donos do mundo do Palácio do Planalto, do Palácio Alvorada e da Granja do Torto. Mas se a consolidação de Brasília não sustentou o prestígio do Congresso, ora engolfado na crise ética que respinga nos três poderes, também não justifica o abandono da área mais nobre da cidade fundada por Estácio de Sá em 1º março de 1565.

O Centro do Rio, que se percorria a pé a qualquer hora do dia e da noite sem qualquer risco é uma vasta área sem limites precisos para a serventia dos que nele moram, trabalham ou freqüentam. Mas da Praça Mauá ao Monroe ligados pela Avenida Rio Branco e da Praça 15 de Novembro ao Campo de Sant"Ana, na Praça da República ainda é o Centro do Rio. E que, em poucos anos, virou uma imensa lixeira, com detritos amontoados nas praças, ruas, calçadas. A catinga é insuportável.

Neste cenário de miséria comparável aos piores flagrantes do calvário de infelizes dizimados pela fome e a violência nas manchas da África e da Ásia, uma população errante pede esmolas ou um prato de comida, cata papéis, enquanto gangues de marmanjos e menores maltrapilhos furtam os incautos que ousam passar pelas áreas de risco. Durante o dia, a limpeza urbana garante condições de higiene razoáveis no miolo da cidade. E a presença da polícia reduz o numero de roubo dos trombadinhas que arrancam as bolsas das senhoras, os relógios e celulares dos distraídos.

O candidato a prefeito do Rio logicamente deve procurar solução para todos os problemas da cidade. E aproveitar as facilidades da campanha para o debate das mazelas de cada bairro, até de cada rua. Com o salvo-conduto dos líderes do tráfico da favela, subir o morro para ouvir as queixas dos moradores e buscar o alívio possível. Promessas o vento leva. Duplicação de avenidas, alargamento de ruas, policiamento em cada esquina, redução da carga de impostos, o fim da novela da roubalheira da recuperação da baía de Guanabara não enganam nem as crianças de colo. O eleitor quer ser tratado com respeito. E quem quiser entrar na corrente para usar o voto como protesto, deve usar a arma para a renovação moralizadora.


Quem não sabe escolher o seu candidato, não merece ser eleitor.

DEU NO VALOR ECONÔMICO


INFORMAÇÃO E FICHA SUJA
Cláudio Gonçalves Couto


A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) deu início ontem à divulgação em seu site ( www.amb.com.br ) dos nomes dos candidatos que respondem a processos na Justiça. Já há algum tempo a organização não governamental Transparência Brasil também iniciou a divulgação de uma relação de parlamentares de casas legislativas dos três níveis de governo que respondem a processos . Em ambos os casos nota-se uma cautela na utilização dos termos para designar aqueles cujos nomes serão listados. A AMB fala em "candidatos que respondem a processo na Justiça, de origem criminal ou eleitoral", enquanto a Transparência fala em "citados na Justiça e tribunais de contas", ressaltando que se trata apenas de ocorrências já em segunda instância e excluindo litígios de natureza privada e crimes contra a honra - no primeiro caso porque são irrelevantes para o desempenho da função pública, no segundo porque políticos são muito comumente processados por este tipo de coisa.

Comentando a iniciativa da AMB, o deputado Paulo Maluf, por meio de sua assessoria, afirmou que "juízes não devem se meter em política" - informou ontem o UOL. O deputado quase tem razão. De fato, juízes não devem - no exercício do cargo - atuar politicamente, seja mediante decisões, seja por manifestações públicas que ensejem uma interferência do Judiciário no processo de competição política. O mesmo não se pode dizer, contudo, de uma associação de classe - como é o caso da AMB. Neste caso, a atuação do órgão não expressa a posição individual deste ou daquele juiz e, portanto, não enseja o entendimento de que seu posicionamento vá influenciar decisões institucionais de entes estatais, como são os tribunais. Portanto, se os juízes gostariam de manifestarem-se politicamente como cidadãos, contudo sem violar o resguardo funcional que o cargo lhes impõe, encontraram na AMB um instrumento adequado. Por isto, o queixume do deputado Maluf parte de um princípio correto, mas é inadequado para o caso específico agora em voga.

Ficha suja é diferente de direito de informação

O que podemos perguntar é porque esse tipo de iniciativa parte de uma associação de juízes. Ironicamente, pode-se dizer que as razões para isto não são muito diferentes daquelas que podem nos auxiliar a compreender o porquê da intromissão do Judiciário em assuntos tipicamente políticos. Esta intromissão (analisada por Vitor Emanuel Marchetti Ferraz Jr. em tese de doutoramento em ciência política, recentemente defendida na PUC-SP) pode ser compreendida, dentre outras razões, pelo amplo espaço deixado vazio pela classe política na regulamentação do processo de competição entre partidos e lideranças. A omissão de nossa classe política para combater os descalabros morais e mesmo legais cometidos por alguns de seus membros ensejou a insatisfação de amplos setores da sociedade com a condução dos negócios públicos. Essa insatisfação assumiu a forma de uma demanda insatisfeita - e uma vez que não surgiu a possibilidade de que fosse satisfeita pela classe política, abriu-se o espaço para que outros atores entrassem em cena - dentre eles, os juízes. Como diz o adágio popular: o cachorro entrou na igreja porque a porta estava aberta.

Uma parcela dessa abertura de porta se dá diretamente pelos partidos políticos. Seriam eles os primeiros a ter a possibilidade de filtrar as candidaturas - oferecendo aos eleitores apenas postulantes de indubitável conduta. Neste caso, o veto ao candidato não teria de ter qualquer tipo de motivação judicial, bastando uma avaliação política da conveniência ou não de aceitar que cidadãos sob suspeição postulem um cargo público. Mas é difícil esperar dos partidos esse tipo de ação se alguns deles, em vez de reduzir o poder de lideranças sob suspeição, preferem guindá-las a postos tão elevados como a presidência da agremiação - é esse o caso do PTB, que reconduziu Roberto Jefferson à presidência do partido mesmo depois deste confessar ter cometido ilícitos por ocasião do imbróglio do "mensalão". Outro caso emblemático é o dos irmãos, deputado estadual e vereador, presos ontem no Rio de Janeiro. Ambos foram expulsos da polícia civil por vínculos conhecidos com milícias armadas. Pode-se questionar porque então seus partidos, DEM e PMDB, optaram por ceder-lhes a legenda.

Mas não são apenas os partidos que deixam de fechar as portas, impedindo que estranhos "se metam em política", nos termos do deputado Maluf. Também os parlamentares deixam de tomar providências. Deixaram de tomá-las repetidamente por ocasião dos últimos escândalos que afetaram o Congresso - não só ao deixar impunes seus pares, mas também ao não aprimorar as instituições. Com isto abrem espaço para que atores normalmente estranhos à política nela interfiram - e pior, façam-no gozando de legitimidade, ainda que não se trate de uma legitimação propriamente democrática. Noutros termos, se a percepção que o corpo de cidadãos tem é de que os políticos nada fazem para disciplinar seu meio, passa a não apenas aceitar, mas exigir, que outros tomem providências, mesmo que essas providências se dêem ao arrepio da lei e do respeito aos direitos de cidadania. Num cenário de impunidade e ausência de instrumentos de resguardo do respeito à coisa pública, linchamentos (ainda que não propriamente físicos, mas morais) começam a se mostrar atraentes para muitos.

Um exemplo deste tipo de linchamento é o uso que boa parte da imprensa vem fazendo da expressão "lista suja" ou "ficha suja" para se referir àqueles que constam das relações divulgadas por órgãos como a AMB e a Transparência Brasil. Ora, como os ali relacionados respondem a processos que ainda não transitaram em julgado, permanecem - até sentença em contrário - apenas como "supostos culpados", ou "suspeitos". O problema é que a pecha da "ficha suja" pode provocar danos irreparáveis a muitos que ainda têm o direito de defender-se e provar sua inocência. Portanto, embora a divulgação de informações sobre a situação judicial dos candidatos seja algo desejável numa democracia (quanto mais transparência melhor), é preciso ter cautela na qualificação que se dá a essas pessoas. Falar em "ficha suja" é, certamente, impróprio.

Cláudio Gonçalves Couto é professor de Ciência Política da PUC-SP e da FGV-SP. A titular da coluna, às quartas-feiras, Rosângela Bittar, está em férias

terça-feira, 22 de julho de 2008

O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1034&portal=

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

O GRAMSCI DE AMERICANISMO E FORDISMO
Geraldo Augusto Pinto
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Antonio Gramsci. Americanismo e fordismo. Tradução de Gabriel Bogossian. Introdução de Ruy Braga. Revisão técnica e notas de Alvaro Bianchi. São Paulo: Hedra, 2008. 92p.

Haverá momento na história em que o ser humano deixará de chocar as futuras gerações com sua sempre infinita capacidade de transformação do mundo? Falo aqui de intelecção e ação sobre a natureza animada e inanimada. Do trabalho, no sentido do materialismo histórico. Por que não, então, deixar o essencialismo do termo “gerações” pela historicidade de “culturas” e, nesta perspectiva, indagar quantas delas ainda hão de ser metamorfoseadas pela atividade de outras e por quanto tempo ficarão inconscientes disso, até serem despertadas por obras outrora condenadas ao silêncio por um suposto anacronismo ou subversão?

Mais surpreendente, talvez, seja o perfil de algumas dessas obras: a sagacidade de um O príncipe, de Nicolau Maquiavel, ou a veemência de um Manifesto comunista, de Marx e Engels, nas poucas dezenas de páginas que contêm. Profundidade analítica, arrojo conceitual e poder de síntese, eis o perfil mais comum. Ou, em uma palavra, “simplicidade”, produto de uma erudição comprometida, de uma dedicação obsessiva, de um sonho prometéico. O texto Americanismo e fordismo, de Antonio Gramsci, sem dúvida é um desses raros exemplos.

Na carta de 19 março de 1927, Gramsci confidenciava, nos primeiros cinco meses dentro da prisão, à amiga e cunhada, Tatiana Schucht:

Estou atormentado [...] por esta idéia: de que é preciso fazer algo für ewig. [...] Em suma, segundo um plano preestabelecido, gostaria de me ocupar intensa e sistematicamente de alguns temas que me absorvessem e centralizassem minha vida interior (Cartas do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, v. 1, p. 128).

Tais palavras antecederam os vinte e nove “cadernos do cárcere”, manuscritos por Gramsci entre 1929 e 1935, e que, mais tarde, compuseram uma das mais impactantes obras de ciências sociais do século XX. Só esses fatos já tornam desnecessária uma breve apresentação aqui da vida e obra desse pensador. E talvez até mesmo redundante situá-lo entre os que com mais clareza resgataram o alcance teórico da obra de Marx em diversas frentes do conhecimento, reafirmando, aliás, contundentemente, a supremacia da filosofia como instrumento prático e revolucionário, em face do perigoso idealismo presente na suposta neutralidade axiológica com que se auto-afirma a ciência moderna.

O diferencial é que Gramsci, tal como o próprio Marx, foi de fato um pensador, e não apenas acadêmico de profissão ou intelectual por mera erudição. Ambos viveram à frente de arriscadas lutas sociais da classe trabalhadora, redigiram notáveis editoriais da imprensa combativa, disputaram o espaço literário com as lideranças intelectuais das classes dominantes, e, a seu modo e no seu contexto, cada um atuou diretamente sobre a estrutura política estabelecida, como chaves revolucionárias a abrir grilhões e ameaçar os pilares da dominação de classes. E, por isso mesmo, ambos foram, dentro e fora de seus países, incansavelmente perseguidos, difamados, silenciados quase à força.

Não é um acaso, portanto, que haja ainda outros pontos comuns entre estes dois pensadores. O texto Americanismo e fordismo de Gramsci reflete, por exemplo, as características marcantes de toda a sua obra, e esta, por sua vez, retoma um traço fundamental da própria obra de Marx, qual seja: uma investigação totalizante, que formula objetos de pesquisa partindo não somente de paradigmas científicos, mas da efetividade que assumem na história real. Uma investigação que não se esquiva, por meio dos sofismas da infinitude do real e dos limites da compreensão humana, de buscar as determinações fundadoras de cada momento histórico, decompondo a realidade, tal como a luz num prisma, em feixes de fenômenos que ganham sentido como partes de um todo explicativo. Enfim, uma investigação que rompe com a metafísica, ao sustentar-se na dialética e partir do real “efetivo”.

Gramsci não se perde em pormenorizar objetos de pesquisa. Nas poucas páginas de Americanismo e fordismo, esboça um plano de trabalho imenso, que, à primeira vista, tornaria todo o empreendimento inexeqüível nesse único espaço, não fosse o seu raro talento em cruzar as linhas gerais de múltiplos feixes de fenômenos para compor, de forma convincente, uma primeira tessitura explicativa, deixando ao mesmo tempo aberta e instigante a possibilidade da expansão da mesma trajetória de investigação em inúmeras escalas. A combinação entre genialidade, erudição e restrição carcerária, em Gramsci, fez dele mais do que um autor encerrado em respostas que dá às questões do seu tempo: fez dele um clássico da crítica contemporânea.

Assim, numa espécie de monólogo indagativo, conjugando memória e intuição dignas do exímio lingüista que foi, Gramsci realiza em Americanismo e fordismo uma análise que conecta as finanças e a propriedade monopolista de capital da indústria de massas aos estratagemas da organização do trabalho gerencial e operacional nas empresas; e também passa por temas, como a composição demográfica, geracional, etária, de gênero e religiosa das classes sociais na Europa e EUA, sobre a qual se formaram as suas principais instituições e modos de vida. As expressões “cultura”, “civilização” e mesmo “sexualidade” aparecem definindo-se neste texto em meio a termos basais do materialismo histórico, como produção, reprodução, trabalho, práxis, ideologia, educação e qualificação, Estado, controle social, entre tantos outros.

Enfim, Antonio Gramsci ocupa, entre os economistas políticos e filósofos críticos do capitalismo no século XX, um papel hegemônico (o que faz jus a um dos seus conceitos inovadores, o de hegemonia). E a introdução de Ruy Braga, docente da Universidade de São Paulo (USP), nesta edição (a primeira no Brasil que traz apenas esse texto em um só livro), tem o predicado de mostrá-lo bem. Ou seja, como todo texto clássico, Americanismo e fordismo continuará a nos surpreender e ensinar, a cada releitura.

Geraldo Augusto Pinto é docente do Centro de Educação e Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus de Foz do Iguaçu.

DEU EM O GLOBO


COINCIDÊNCIAS
Merval Pereira


NOVA YORK. Dois personagens históricos da cidade, envolvidos com crimes de natureza semelhante aos que estão em discussão hoje no Brasil, ressurgiram no noticiário nos últimos dias. A falecida milionária com merecida fama de má Leona Helmsley, proprietária de uma cadeia de hotéis e empreendimentos imobiliários, e o investidor Michael Milken, considerado um dos mais brilhantes financistas de todos os tempos. Leona, condenada a 16 anos, ficou apenas 18 meses presa em 1989 por sonegação de impostos, e retornou do mundo dos mortos devido à polêmica herança de U$12 milhões que deixou para seu cachorro, significativamente chamado "Problema". Os responsáveis pelo inventário conseguiram convencer um juiz que era dinheiro excessivo, e a soma foi reduzida para U$2 milhões.

Já Michael Milken reapareceu no noticiário por estar pedindo clemência ao presidente Bush, assim como já o fizera oito anos atrás, sem sucesso, ao ex -presidente Clinton. Milken, que inventou o mercado dos "junk bonds", revolucionando o mundo acionário com uma maneira nova de investir em empresas falidas, recuperá-las e colocá-las novamente no mercado com lucros altíssimos, foi condenado a dez anos de prisão por vários crimes, entre os quais fraude, sonegação de impostos e informação privilegiada.

Ele cumpriu apenas 22 meses e está solto desde 1993, mas proibido de atuar no mercado financeiro. Mesmo assim, permanece como um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna de cerca de U$2 bilhões, e continua ganhando dinheiro como investidor, agora no setor de educação.

Os dois têm frases famosas no seu currículo. Leona Helmsley, segundo uma empregada testemunhou na época e ela nega, se gabava de não pagar impostos: "Só pobre paga imposto". Michael Milken gostava de repetir a expressão "Greed is good" ("Ganância é bom", na tradução literal), que virou símbolo de uma geração de yuppies do mercado financeiro para quem ele era um ídolo.

Milken foi literalmente perseguido durante anos por um jovem promotor de Nova York chamado Rudolph Giuliani, que começou aí sua fama de durão que o levou até a candidato a candidato à Presidência dos Estados Unidos.

Os dois conseguiram reduções drásticas de suas penas graças à contratação de grandes escritórios de advocacia, que acabaram derrubando uma série de acusações.

Tanto o crime de Leona Helmsley quanto os de Michael Milken são assemelhados a dois casos rumorosos levados a cabo pela Polícia Federal do Brasil, a acusação de sonegação de impostos contra a loja de superluxo paulista Daslu e o processo contra o banqueiro Daniel Dantas.

Pelo que ficamos sabendo pela reportagem do GLOBO de domingo, o caso da Daslu e diversos outros estão parados por problemas técnicos nos inquéritos, aproveitados pelos advogados para virtualmente neutralizá-los.

Já temos experiências anteriores de ações feitas com estardalhaço que acabam por não dar em nada por falhas gritantes nos inquéritos. Tudo indica que o caso de Daniel Dantas caminha nessa direção, se depender do inquérito do delegado Protógenes Queiroz, aquele que se intitula "representante do povo" e acredita "que a vitória está com as pessoas de bem que lutam por um país melhor".

Um delegado que tem o desplante de afirmar em seu inquérito que "a fim de evitar o mal maior", estará de prontidão para agir contra (...) "corsários saqueadores das riquezas do nosso país" e se jacta de que a "organização criminosa de Daniel Dantas" teme apenas a Polícia Federal, ou melhor "a execução dos trabalhos pelo autor da presente", não pode ser levado a sério.

É de torcer para que a força-tarefa que será montada para analisar os documentos apreendidos na operação inspirada em Gandhi tenha mais técnica e menos palavrório para conseguir montar um caso sólido, que resista às brechas da lei.

O outro "herói" dessa história, o juiz De Sanctis, também está convencido de que a sociedade depende de sua atuação. Ele se dispõe a resgatar "a auto-estima" de um povo "feliz, mas muito injustiçado". E persegue, vejam só, a "pureza, honestidade e o amor dos nossos nativos".

O juiz, na sua messiânica missão, não tem dúvidas em afirmar que "um grande êxito advirá e as pessoas poderão se orgulhar e reconhecer novamente neste país uma terra limpa e abençoada".

Seria risível, se não fosse trágico, inclusive porque a posição voluntarista e messiânica desses representantes do poder público só ganha vida em um ambiente político completamente corrompido como o em que vivemos há algum tempo no país.

Corrompido por disputas políticas, corrompido por interesses de negócios. Em todos os escalões, estão envolvidas pessoas ligadas ao poder central. Em ambiente assim, juiz tem partido, delegado faz parte de facções, políticos vendem prestígio.

Se é possível fazer-se ilações de interesses escusos na privatização da telefonia brasileira, onde teria começado o poder destruidor de Daniel Dantas, é muito mais clara a ligação entre interesses pessoais e o grande negócio da fusão de telefônicas ao qual Dantas atribui o desencadeamento da operação policial contra ele.

Na época em que a Telemar alavancou com R$5 milhões um projeto do filho do presidente Lula, já havia uma disputa interna de ministros com sala no Palácio do Planalto a favor e contra Dantas, que, aliás, tentou chegar primeiro para financiar o projeto do Lulinha.

Dois anos depois, o governo alterar toda a legislação existente; forçar a barra na direção da Anatel, nomeando um diretor para desempatar a decisão a favor da fusão; permitir que bancos oficiais como o Banco do Brasil e o BNDES emprestem grandes somas de dinheiro para uma operação que é ilegal até o momento - tudo para permitir que a Telemar compre a Brasil Telecom -, é coincidência demais.