- El País
A esquerda tem de produzir uma identificação coletiva que não dependa, como na alternativa da extrema-direita, da exclusão do estrangeiro
A questão nacional é o maior desafio dos progressistas. Nos Estados Unidos e na Europa, a extrema-direita, com todos os seus limites, conseguiu recolocar a questão na agenda, obrigando parte dos progressistas a buscar novas estratégias para responder “pela esquerda” aos anseios dos “perdedores da globalização” por estados nacionais capazes de assegurar inclusão política e social. O grande desafio é produzir uma identificação coletiva que não dependa, como na alternativa da extrema-direita, da exclusão do estrangeiro, mas que seja capaz de produzir um sentimento coletivo abrangente e forte o bastante para legitimar, nas eleições e na opinião pública, políticas públicas capazes de incluir indivíduos de diferentes classes, gêneros e identidades étnicas nas esferas da economia, da educação, do direito efetivo e na própria vida política. Goste-se ou não, a modernidade política não produziu identificação coletiva mais universalista e forte que a ideia de nação. A imaginação e a construção de pertencimentos nacionais mais abrangente que classes, gêneros e identidades étnicas é um requisito indispensável para qualquer alternava melhor que o Estado-nação.
No Brasil, a extrema-direita (Bolsonaro) não assume contornos nacionalistas como no passado (Plínio Salgado, Eneas), e deixa um espaço importante para os progressistas, já que a direita tradicional não dá a menor importância à questão nacional.
Um problema complexo
A questão nacional é um problema complexo. Não se trata apenas de desenvolvimento e afirmação na esfera da economia. Envolve uma demanda de soberania política que, em termos realistas, só se concretiza com um Estado nacional forte, política e tecnicamente capacitado para induzir processos de desenvolvimento em esferas como educação, direito e ciência. Nenhum país conseguiu aumentar sua importância econômica, e nem incluir mais pessoas com qualidade na economia, sem que determinadas transformações e desenvolvimentos estruturais ocorressem nas esferas da educação, do direito e da ciência.
A ideia de complexidade exige reconhecer que o estado e a política não podem ser soberanos no sentido de controlar o que acontece e o que se desenvolve em todas estas esferas. Mas mesmo assim é possível diferenciar soberania de subordinação. Soberania significa a capacidade estatal de construir decisões coletivamente vinculantes em um determinado território, e isto envolve criar a própria identificação coletiva que vai apoiar estas decisões. A ideia democrática de soberania popular não faz sentido sem esta soberania do Estado nacional. Capacidades estatais são condição necessária, mas não suficiente, para induzir processos de transformação e desenvolvimento em várias esferas da sociedade.
Neste contexto de “crise multidimensional” a questão nacional é reconstruir as capacidades estatais necessárias para uma nova identificação coletiva forte e abrangente em torno de estratégias de desenvolvimento que nos permitem reconstruir a economia, o direito, a educação e a própria política democrática. Precisamos de um projeto político empenhado em refazer e reforçar as capacidades estatais para construir e implementar políticas públicas em diferentes setores, respondendo ao que é urgente com soluções que apontam para o que é prioritário.
A reconquista de nossas capacidades estatais é urgente porque o Estado brasileiro tem se mostrado crescentemente incapaz de responder às demandas sociais imediatas. Refazer as capacidades de resposta do Estado para o que é imediato é condição necessária, mas não suficiente, para qualquer projeto nacional de desenvolvimento. Para recolocar o futuro na agenda coletiva é preciso antes recuperar as capacidades estatais de responder estas demandas mínimas mais imediatas, como a calamitosa situação de violência e insegurança pública.
É preciso articular o urgente com o prioritário e assim tornar o Estado capaz de ganhar legitimidade fazendo políticas públicas que combinem o enfrentamento do que é “para ontem” com um projeto de futuro forte e abrangente. Por isso, a recuperação da autoridade pública no controle da própria violência estatal, hoje capturada por organizações policiais e desafiada crescentemente pelo controle territorial paralelo das milícias, deve ser objetivo central dos progressistas nas eleições de 2018. A ordem pública não pode ser abandona à direita, pois sem ela não há Estado capacitado, legítimo e transformador. Não há, a rigor, a própria validade do Estado. A questão nacional ameaça assumir contornos maquiavélicos entre nós. É preciso quebrar o processo de fragmentação dos centros decisórios que produz inflação de decisões de pouco alcance, deslegitimação da política e das decisões coletivas de maior alcance.
















