O presidente só pensa na reeleição, que parece ao alcance das mãos. O que acontecerá com a democracia brasileira se controlar o Judiciário e passar o rodo no Congresso, em 2022?
Para quem leu Todos os
Homens do Kremlin (Editora Vestígio), de Mikhail Zygar, ex-editor-chefe da
única emissora de TV independente da Rússia, a TV Rain (Dozhd), o paralelo com
o presidente Jair Bolsonaro e sua atuação no poder é inevitável, resguardadas,
é óbvio, as diferenças de contexto histórico e nacional. Como Vladimir Putin, Bolsonaro
tornou-se presidente porque soube aproveitar a oportunidade, bafejado pela
sorte. Diferentemente do presidente russo, porém, não era um candidato do
sistema: o homem certo na hora certa para o então presidente Boris Yeltsin, o
político carismático, beberrão e imprevisível, que implodiu a antiga União
Soviética, destronando Mikhail Gorbatchev, e liderou a transição selvagem para
o capitalismo na Federação Russa. Bolsonaro foi um candidato antisistema, que
surfou o tsunami eleitoral de 2018, na onda de insatisfação popular com os
políticos gerada pela Operação Lava-Jato.
As semelhanças são maiores
quando levamos em conta que Putin não tinha uma estratégia de poder –– foi
administrando as circunstâncias para mantê-lo. Ex-chefe da FSB, usou a força do
Estado para afastar aliados indesejáveis, proteger os amigos de São Petersburgo
e da antiga KGB, seduzir os militares e liquidar os adversários. Os
instrumentos de coerção do Estado –– os serviços de inteligência, a polícia, o
Ministério Público e o Judiciário –– foram fundamentais para a consolidação de
sua longa permanência no poder, depenando oligarcas que se apoderaram das
estatais russas, favorecendo os empresários amigos e eliminando possíveis
concorrentes eleitorais. Putin acreditou que seria bem recebido pelos líderes
das grandes potências ocidentais, mas logo se viu frustrado por Angela Merkel,
a primeira-ministra alemã; Nicolas Sarkozy, o presidente francês; e,
principalmente, Barack Obama, o presidente negro dos Estados Unidos.
Arreganhou os dentes
quando chegou à conclusão de que todos queriam enfraquecer a Federação Russa e
afastá-la das antigas repúblicas soviéticas. E de que o menosprezavam,
tratando-o como um personagem menor na cena internacional. Esse sentimento de
rejeição somente aumentou ao longo dos anos, mas teve como resposta o
endurecimento da política externa russa em relação às ex-repúblicas soviéticas
da Geórgia e da Ucrânia, e ao Oriente Médio. A decisão estratégica de manter o
ditador da Síria, Bashar al-Assad, no poder a qualquer preço, e assim preservar
sua base naval no Mediterrâneo, foi uma demonstração de força. Da mesma forma,
a divisão da Ucrânia, com a anexação da Criméia como uma república autônoma da
Federação Russa, com o propósito de manter a grande base naval da frota do Mar
Negro. Por último, o apoio econômico e militar a Nicolás Maduro, na Venezuela.























