- O Estado de S. Paulo
FHC, um intelectual que presenteia o povo
com mais do que poderia receber por gratidão
Político e intelectual missionário, avesso
a dar sermão, exerceu o poder sem falsos pretextos. Em país de política
inóspita e coalizões frágeis, elites apáticas, demagogias, combinou liberalismo
econômico com intervenção social, sem provocar frustração.
Numa América Latina em que os intelectuais
emigram e muitos reagem às críticas de forma rígida, Fernando Henrique Cardoso
é exemplo admirável de quem não deixou passar a hora nem esticou provocação.
Cidadão do mundo, selou compromisso com o Brasil. Com elevada capacidade de
ligar fatos, conectar análises e dono de jovialidade compreensiva e receptiva a
novas explanações, sua trajetória prova que é possível associar eficácia e
grandeza – e felicidade – à política como ofício.
Carioca, compreendeu o mar e navegou por
suas ondas. Executou reforma ambiciosa da moeda, reuniu a mais brilhante equipe
de economistas, enterrou a inflação. Ousou sem impostura ou negligência.
Construiu alicerces para o Estado eficiente, enfrentou oligarquias e movimentos
sindicais monopolistas. Foi corajosamente impessoal na crise bancária. Sempre
alertou para a racionalidade limitada da economia, a emersão do sujeito de
direitos, a certeza de que só será promissora nação capaz de conduzir
conjuntamente vida social e econômica.
Apontou caminhos para a modernização.
Traçou fronteiras, sem sufocar a liberdade. Não mentiu sobre o que pensava, não
se moveu falsamente na política. A todas as críticas que recebeu respondeu sem
provocar ou perseguir. Espírito propenso ao jogo democrático, não estimulou a
ferocidade de campanhas eleitorais que acham que é a pior parte que funciona. E
ao reconhecer a inadequação da reeleição, deu de vez a mão a JK como os dois
maiores presidentes brasileiros.
Inesperado, combinava informação, intuição e razão. Assim, quando o MST invadiu a fazenda da família o presidente não exigiu reintegração na marra, mandou o ouvidor agrário negociar. O professor preocupou-se mais com a maneira como um movimento social faz tão descuidadamente suas ações. Não viu profanação em sua adega: se são hospedes compulsórios, que bebam o vinho como desagravo à cortesia.

























