quarta-feira, 9 de junho de 2021

Paulo Delgado* - Reparador de brechas

- O Estado de S. Paulo

FHC, um intelectual que presenteia o povo com mais do que poderia receber por gratidão

Político e intelectual missionário, avesso a dar sermão, exerceu o poder sem falsos pretextos. Em país de política inóspita e coalizões frágeis, elites apáticas, demagogias, combinou liberalismo econômico com intervenção social, sem provocar frustração.

Numa América Latina em que os intelectuais emigram e muitos reagem às críticas de forma rígida, Fernando Henrique Cardoso é exemplo admirável de quem não deixou passar a hora nem esticou provocação. Cidadão do mundo, selou compromisso com o Brasil. Com elevada capacidade de ligar fatos, conectar análises e dono de jovialidade compreensiva e receptiva a novas explanações, sua trajetória prova que é possível associar eficácia e grandeza – e felicidade – à política como ofício.

Carioca, compreendeu o mar e navegou por suas ondas. Executou reforma ambiciosa da moeda, reuniu a mais brilhante equipe de economistas, enterrou a inflação. Ousou sem impostura ou negligência. Construiu alicerces para o Estado eficiente, enfrentou oligarquias e movimentos sindicais monopolistas. Foi corajosamente impessoal na crise bancária. Sempre alertou para a racionalidade limitada da economia, a emersão do sujeito de direitos, a certeza de que só será promissora nação capaz de conduzir conjuntamente vida social e econômica.

Apontou caminhos para a modernização. Traçou fronteiras, sem sufocar a liberdade. Não mentiu sobre o que pensava, não se moveu falsamente na política. A todas as críticas que recebeu respondeu sem provocar ou perseguir. Espírito propenso ao jogo democrático, não estimulou a ferocidade de campanhas eleitorais que acham que é a pior parte que funciona. E ao reconhecer a inadequação da reeleição, deu de vez a mão a JK como os dois maiores presidentes brasileiros.

Inesperado, combinava informação, intuição e razão. Assim, quando o MST invadiu a fazenda da família o presidente não exigiu reintegração na marra, mandou o ouvidor agrário negociar. O professor preocupou-se mais com a maneira como um movimento social faz tão descuidadamente suas ações. Não viu profanação em sua adega: se são hospedes compulsórios, que bebam o vinho como desagravo à cortesia.

Vinicius Torres Freire - Mais sinais de despiora

- Folha de S. Paulo

Vendas no comércio crescem além do esperado, mercado financeiro anda mais calmo

Não se deu muita bola para as vendas do comércio em abril, divulgadas nesta terça-feira (8) pelo IBGE: cresceram além da conta de quase todo mundo. Sim, o comércio vem claudicando desde dezembro, com a seca dos auxílios emergenciais e repiques horrendos da epidemia. Abril teria outra baixa, pelos mesmos motivos, era o que se previa, como foi registrado nestas colunas. Só que não.

Receita de impostos, PIB trimestral e comércio tiveram desempenho acima do esperado. Nas entranhas desses indicadores há coisas feias: a inflação ajuda a engordar a arrecadação tributária, o consumo das famílias no PIB caiu. Ainda assim, houve despioras significativas.

O indicador de emprego formal dos economistas do Itaú teve alta em maio. A população ocupada cresceu 5,5%, voltando ao nível anterior ao da epidemia.

Antes de passar às más notícias, convém lembrar outras despioras relevantes. As taxas de juro de prazo mais longo (mais de dois anos) no atacadão de dinheiro andam caindo. Depois de tomar um calmante em meados de abril, o preço do dólar relaxou ainda mais, voltando à casa de R$ 5. O ingrediente mais importante desse calmante foi o fim das turbulências no mercado financeiro americano, com umas pitadas de juros mais altos por aqui e de indícios de que o teto de gastos não desabaria.

Cristiano Romero - Contas públicas: e o povo?

- Valor Econômico

Desigualdade deveria nortear debate sobre contas públicas

O país a que chamamos de Brasil tem um problema fiscal grave porque o Estado gasta muito mais do que arrecada com tributos e outras receitas, como os dividendos gerados pelas empresas estatais onde o Tesouro Nacional é o maior acionista. Esta é, digamos, a dimensão macroeoconômica, debatida, geralmente, por especialistas, apartados de seu aspecto mais importante _ os impact0s na vida das pessoas; no caso deste país onde vive a 6ª ou 7ª maior população, seus efeitos sobre o destino da maioria pobre e miserável.

Toda e qualquer política pública só deveria ser adotada nesta Ilha de Vera Cruz depois de considerados seus efeitos sobre o arraigado conflito distributivo que nos caracteriza desde sempre. Em outras palavras, os três poderes da República não poderiam aprovar nenhuma iniciativa que aumentasse a concentração de renda existente, hoje, uma das cinco maiores do planeta. Observar esse aspecto a partir de agora seria o início de uma longa e nobre jornada desta sociedade rumo à criação de uma nação.

Não se trata de proposição absurda ou revolucionária. O projeto de nação já existe, está na Constituição que aprovamos em 1988. Essa mesma Constituição possui aspectos que contradizem seus princípios mais civilizadores, mas, os princípios que norteiam o caminho da virtude são cláusulas pétreas, presentes nos artigos que tratam dos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos que habitam a 4ª maior extensão de terra contínua deste mundo.

Zeina Latif - O bom, o mau e o feio

- O Globo

Não há melhora na qualidade do regime fiscal. O caminho para a campanha de 2022 eleva o risco de deterioração das contas públicas

O comportamento recente dos indicadores fiscais tem surpreendido positivamente, para além do efeito do desmonte de políticas de socorro na pandemia (responsável por 57% da melhora do balanço da União até abril) e da aprovação tardia do orçamento represando despesas não obrigatórias (9,5%).

É inegável a dupla contribuição do aumento (nominal e real) do PIB: eleva a receita tributária e reduz o déficit e a dívida pública, ambos medidos como proporção do PIB. Alguns fatores poderão ser mais duradouros, uns tantos são transitórios, enquanto outros serão perversos.

A pandemia tem gerado uma “seleção natural” no setor produtivo, com fusões e aquisições, crescimento dos grandes grupos e fechamento de empresas menos eficientes, via de regra, com maior grau de informalidade. Apesar de o quadro preocupar do ponto de vista social, pois a informalidade é alternativa para muitos, a consolidação do setor produtivo traz ganhos de escala e de produtividade ao longo do tempo, enquanto o aumento da formalização na economia alimenta a arrecadação e o crescimento do PIB.

Esse efeito é mais duradouro - o bom.

Roberto DaMatta - Por que Bolsonaro não usa máscara?

- O Globo

Fiz a pergunta a muitas pessoas de ambos os polos e a uma minoria centrista que procurei como um detetive. Todos se assombraram com minha inocência. Como é que eu — professor titular de Antropologia Social e pesquisador da “alma brasileira” — não sabia que, entre nós, quem manda não obedece?

Como é que eu podia ignorar que, no Brasil, mandar anula o obedecer, essa desagradável anormalidade democrática que inverte a velha ordem? Como é que eu esquecia que “estar no poder” é sinônimo de não seguir coisa alguma, porque obedecer é o carimbo dos fracos e dos pobres?

É claro que Bolsonaro não usa máscara!

Como é que ele aceitaria tal banalidade, se o sinal que envia é que pode tudo? No Brasil, ser superior é não estar com a lei, mas situar-se acima dela, é claro.

É ter o privilégio de não ser cidadão. De provocar e abusar, na certeza de não ser punido. É ser “impunível” e, se preso for, ter a plena confiança de que um jurisconsulto ponderado vai livrá-lo da prisão, que será especial — um xadrez hierárquico e diferenciado...

Ninguém definiu tais condições com mais clareza que o próprio Bolsonaro quando, em 12 de maio do corrente, numa de suas tiradas absolutistas, declarou que “só Deus me tira daqui” e, no dia 17, afirmou ser “imorrível, imbrochável e também incomível”. O incomível é curioso. Ele salienta a qualidade bolsonaresca de ser duro de roer, mas deixa de lado outras implicações que Freud explica, e eu prefiro não comentar...

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Joga pedra na Geni!

Chega o tempo das queimadas, da escassez de chuvas, da energia controlada e dos preços absurdos dos gêneros de primeira necessidade, produtos agrícolas colhidos, nas tais “entressafras”. A baixa umidade do ar ressuscitará os problemas respiratórios, de pele e as gripes que virão para se juntar à Covid. “A culpa é do Bolsonaro!” - Joga pedra na Geni!

Na realidade, trata-se da sazonalidade (repetição anual) dos mesmos fenômenos e desafios no mesmo período. Esses problemas são tratados com as mesmas soluções, ineficientes, sem qualquer criatividade, mas financeiramente caudalosas.  

Nunca os brasileiros se preparam para a chegada do inverno. Os políticos passam o ano se acusando e se defendendo. Nada produtivo. Ninguém se apega aos problemas estruturais da sociedade e menos ainda aos males presentes. Nenhum deles parece se interessar pela governabilidade.  Nesse happening, atravessam incólumes os Exercícios. A sustentabilidade alimenta, inclusive, a retórica de  reeleição. E só.

Na sociedade civil, participar e até organizar alguns eventos, na semana do meio ambiente, esgota o esforço militante de alguns. Ganham perenibilidade a poluição do ar, da água, do solo, do subsolo, nos biomas terrestres, nas inadequadas técnicas e ferramentas  usadas para extração, cultivo ou transformação até dos recursos  para subsistência.

O quadro remete à abertura da Conferência (da ONU) em Estocolmo, na Suécia, no dia 15 de dezembro de 1972, cinquenta anos atrás, cujo tema era o Ambiente Humano. O chefe da delegação brasileira, na contramão da História, conclamou os países a virem poluir no Brasil. Era um chamamento para o processo de desenvolvimento em curso por aqui: “Temos recursos naturais abundantes, mão de obra barata e um amplo mercado consumidor” - e emendou - “Falta capital e tecnologia”. Já não se pensava mais em substituição de importações, mas na atração da indústria pesada, de bens de capital, aquela que reproduz o próprio sistema de produção.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Rede de ódio desvendada

O Estado de S. Paulo

Estranhamente, após cinco meses de absoluto silêncio, a Procuradoria-Geral da República (PGR) requereu ao Supremo Tribunal Federal (STF) o arquivamento do inquérito que apura responsabilidades pela organização e financiamento de manifestações golpistas ocorridas em abril do ano passado, incluindo um sórdido ataque ao edifício-sede da Corte Suprema.

As razões alegadas pela PGR para pugnar pelo encerramento do inquérito são frágeis e incongruentes em relação aos achados da Polícia Federal (PF) no curso das investigações (ver editorial Visões muito discrepantes, publicado em 8/6/2021). O ministro relator, Alexandre de Moraes, determinou que a PGR “esclareça o alcance do pedido”, mas deverá acatá-lo, haja vista que, de acordo com a jurisprudência do STF, um pedido desta natureza é “irrecusável”.

Mas, se não pode deixar de acatar o pedido de arquivamento feito pelo parquet, o ministro relator pode trazer à luz o minucioso esquema de desinformação e destruição de reputações que foi montado na antessala do presidente da República com o objetivo de corroer a confiança dos brasileiros nas instituições pátrias, desqualificar adversários e críticos de Jair Bolsonaro e, consequentemente, depreciar o próprio valor da democracia. E foi exatamente o que Alexandre de Moraes fez na sexta-feira passada.

O funcionamento da rede de trolls – usuários inautênticos que, por meio das redes sociais e de aplicativos de mensagens, como o WhatsApp e o Telegram, disseminam falsidades, distorções e ataques contra adversários do presidente Jair Bolsonaro e de sua prole de encalacrados com a Justiça – foi esmiuçado pela delegada Denisse Dias Rosas Ribeiro ao longo das mais de 150 páginas de seu relatório. O que a PGR não enxergou como conjunto de indícios robustos o bastante para “apontar para a participação de deputados e senadores nos supostos crimes investigados” agora vem a público pela decisão do ministro Alexandre de Moraes de retirar o sigilo do inquérito que tramita no âmbito da Corte Suprema.

“Embora a necessidade de cumprimento das numerosas diligências determinadas exigisse, a princípio, a imposição de sigilo à totalidade dos autos, é certo que, diante do relatório parcial apresentado pela autoridade policial – e com vista à Procuradoria-Geral da República desde 4/01/2021 – não há necessidade de manutenção da total restrição de publicidade”, escreveu o ministro relator em seu despacho.

Como revelou o Estado, a PF identificou mais de mil acessos àquelas contas inautênticas nas redes sociais feitos a partir de computadores instalados em órgãos públicos e até na residência privada da família Bolsonaro na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. A polícia identificou ainda acessos a contas e páginas que disseminam desinformação e ataques ao Estado Democrático de Direito oriundos de gabinetes de deputados e senadores, e até mesmo de instalações militares. Ora, se isto não é razão forte o bastante para ensejar o prosseguimento das investigações, como pleiteia a PGR, o que seria, afinal?

Poesia | Pablo Neruda - O teu riso

 

Música | Arraiá de Geraldo Azevedo: "É só brincadeira" (Geraldo Azevedo e Zama)

 

terça-feira, 8 de junho de 2021

Marco Aurélio Nogueira* - Os militares na hora da verdade

- O Estado de S. Paulo, 7/6/21

Com a crise Pazuello, deu-se mais uma volta no parafuso. Estreitaram-se os espaços e os atores precisam se reposicionar.

A impressão generalizada é de rendição e cooptação. O Exército cedeu boa parte de sua autonomia funcional, de sua altivez e de seu respeito à Constituição. Entregou-se a um projeto de poder encampado por um movimento autoritário que jamais escondeu sua vocação para um golpe contra as instituições.

Por que fez isso?

Uma hipótese salienta a intenção de não agravar a crise e não dar ao presidente a opção de demitir, mais uma vez, os comandos das Forças Armadas. O Exército preserva seus dispositivos internos de disciplina e hierarquia, não estão a abrir mão deles e não querem dar pretextos para que o Planalto os responsabilize pelos ruídos entre governo e militares. É a hipótese sugerida pelo ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, para quem os militares não trairão suas tradições e seus compromissos constitucionais. Cedem e recuam taticamente, manobrando para não aumentar a fogueira que arde. Por enquanto, estão tentando resistir ao “modelo venezuelano de Chávez” perseguido por Bolsonaro, que deseja “reduzir o comando dos militares para transferi-lo para a política. Ou seja, para ele”. Estão correndo o risco de “ver a Constituição destruída junto com a hierarquia e a disciplina”.

Outra hipótese é que os militares já definiram um lado, aderiram ao projeto autoritário de Bolsonaro, passando de armas e bagagens para a sustentação do governo, indiferentes ao risco que isso traz para a democracia. É a hipótese formulada por Fernando Gabeira em O Globo de hoje: “o Exército brasileiro amarelou diante da pressão de Bolsonaro. No futuro, saberemos se amarelou por covardia ou se aderiu conscientemente a um projeto autoritário”. Para Gabeira, a capitulação do Exército no caso Pazuello é somente a ponta de um iceberg, que já emergiu e que impõe a organização de uma resistência democrática. “Estrategicamente, será preciso compreender como é vulnerável uma oposição dividida”. Míriam Leitão segue a mesma direção: “O erro fatal do comandante do Exército foi achar que ao ceder ele estancaria a crise. Na verdade, elevou seu patamar. Até porque, antes de decidir, ele ouviu o Alto Comando. O erro foi socializado com 15 outros generais. Passou a ser falha da instituição, ainda que alguns oficiais tenham discordado. O general Paulo Sérgio levou o Exército à rendição ao projeto político de um governo e, dessa forma, traiu o papel da Força como instituição do Estado”.

Merval Pereira - Verde e amarelo

- O Globo

Em mais um movimento que comprova como estamos regredindo como nação, mal conduzida em anos recentes e de maneira calamitosa desde o início do governo Bolsonaro, agora é o futebol que mobiliza o governo federal de maneira completamente equivocada. Nem mesmo o sucesso da seleção fará com que Bolsonaro saia vitorioso desse imbróglio, em que ainda por cima se viu envolvido com os escândalos da CBF. Qual almas gêmeas no que toca ao machismo regressivo, Rogério Caboclo, o presidente afastado da CBF por assédio moral e sexual contra uma funcionária, encontrou-se com o presidente Bolsonaro, um misógino, para arranjarem mais um problema para o país, a realização da Copa América em plena pandemia.

A disputa pela Copa América é uma demonstração de como o governo Bolsonaro é prejudicial ao país até nas coisas supérfluas. Nesse caso, porque retoma um hábito do governo militar, de interferência na seleção brasileira, de tê-la como símbolo político. A decisão de forçar a realização da Copa América no Brasil e a tentativa de mudar o técnico, tirando Tite, atacado nas redes sociais como comunista e petista, para colocar Renato Gaúcho, considerado bolsonarista, são erros graves, além de patéticos.

Carlos Andreazza - A superação dos generais

- O Globo

O Exército não puniu Pazuello. Qual a surpresa? O governo é militar. Surpreendente seria se punisse o que lhe dá dentes para intimidar inimigos. O governo é militar, e é Bolsonaro, indistinta e personalissimamente, o que ladra. Surpreendente seria punir-se com a banguelice.

O governo é militar e é daquele que ergueu bem-sucedida empresa familiar nas bordas do Estado. O governo é militar e é de patriotas como general Braga Netto, ministro da Defesa, cujo salário — sob regra editada pelo mito — aumentou 58% e para mui além do teto remuneratório constitucional. O governo é militar e é do capitão, o velho líder corporativista fã de Hugo Chávez. Não cortará na própria carne — e isso não se aplica somente a privilégios de contracheque.

O governo é militar. E o Exército está pazuellizado: submetido à dissolução de sua essência impessoal, degradada a natureza de instituição de Estado, a serviço incondicional do governante de turno e independentemente do que limita a Constituição. Um manda, o outro obedece — qualquer que seja a ordem, depauperado também, confundido com falta de vergonha, o senso de hierarquia. O governo é militar, e o Exército vai bem alimentado.

Eliane Cantanhêde – Carnaval e anarquia

- O Estado de S. Paulo

Sensação de vitória de Bolsonaro no caso Pazuello é só sensação. Alerta disparou

Foram dois movimentos paralelos, mas têm tudo a ver e acendem a luz amarela em gabinetes e consciências neste país: a decisão do comandante do Exército, que jogou no lixo os princípios basilares das Forças Armadas para agradar ao presidente Jair Bolsonaro, e o ataque também covarde da polícia pernambucana a manifestantes pacíficos, para testar limites da nossa democracia. 

Tudo está dominado e é indefensável que oficiais e policiais se calem em nome da disciplina e da hierarquia. O capitão insubordinado e suas tropas podem implodir esses princípios à vontade, porque os que teriam de garanti-los alegam que “têm de respeitar a hierarquia”. 

Ele se lixa para os protocolos das três Forças, como já fazia há mais de 30 anos, na ativa, mas os que prezam a farda e estão indignados, estupefatos, adotam a mesma postura que criticam do comandante Paulo Sérgio: condenam, mas aos sussurros, no conforto dos seus lares. 

Luiz Carlos Azedo - Supremo versus PGR

- Correio Braziliense

Ao quebrar parcialmente o sigilo das investigações sobre os atos antidemocráticos do ano passado, Moraes pôs uma saia justa na Procuradoria-Geral da República

A quebra do sigilo do inquérito sobre os atos antidemocráticos praticados por aliados do presidente Jair Bolsonaro é um novo patamar na escalada das tensões entre os Poderes da República. Decidida pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, foi uma resposta ao pedido de arquivamento do inquérito, feito na sexta-feira, pelo vice-procurador-geral da República Humberto Jacques de Medeiros. Segundo a PGR, as investigações da Polícia Federal (PF) não conseguiram apontar a participação de deputados e senadores nos supostos crimes investigados. Moraes, porém, resolveu quebrar o sigilo do inquérito, exceto dos anexos. Agora, cabe ao ministro do Supremo decidir sobre o arquivamento ou não.

São investigados os deputados Alê Silva (PSL-MG), Aline Sleutjes (PSL-PR), Bia Kicis (PSL-DF), Carla Zambelli (PSL-SP), Caroline de Toni (PSL-SC), General Girão (PSL- RN), Guga Peixoto (PSL-SP), Junio Amaral (PSL-MG) e o já falecido senador Arolde de Oliveira (PSD-RJ). Os deputados Daniel Silveira (PSL-RJ) e Otoni de Paula (PSC-RJ), que já estão denunciados ao Supremo com base nesse inquérito, não são beneficiados pelo pedido. Segundo Medeiros, houve “inadequado direcionamento da investigação”. A PF tomou depoimentos, verificou contas inautênticas em redes sociais, solicitou informações a operadoras de telefonia, mas não fez a análise dessas informações, alegou o vice-procurador-geral.

Embora o inquérito tenha sido aberto a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, nada foi investigado durante os cinco meses em que o caso esteve sob responsabilidade do MPF, apesar de um pedido da delegada federal Denisse Ribeiro, titular do inquérito. São investigados a organização e o financiamento de manifestações de extrema-direita, durante o ano passado, quando partidários de Bolsonaro foram às ruas para pedir intervenção militar, o fechamento do Supremo e do Congresso,e a volta do Ato Institucional no. 5. Principal ato de força do antigo regime militar, o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, institucionalizou o autoritarismo no Brasil e serviu de base para prisões, sequestros, assassinatos e “desaparecimentos” de oposicionistas.

Entrevista | Cristovam: oposição deve ao país uma nova carta aos brasileiros

Ex-governador do Distrito Federal diz que se Bolsonaro se reeleger ano que vem será difícil tirá-lo do poder nas eleições de 2026

Ricardo Noblat - Metrópoles

O professor Marcos Nobre, da Universidade Estadual de Campinas, alerta que “Bolsonaro é um candidato fortíssimo e as instituições estão em colapso”. Diz mais: se Bolsonaro for reeleito, ele vai fechar o país, seguindo os modelos autoritários da Polônia, Hungria e Filipinas. Se perder, mobilizará parte das Forças Armadas, das polícias estaduais e das milícias para um golpe.

O professor Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal, defende que PT e PSDB apresentem um candidato de união nacional, em defesa da democracia e que se elegeria sem possibilidade de reeleição. Diz ele em entrevista a este blog:

 “Sem o apoio do PT dificilmente alguém da oposição chega no segundo turno e dificilmente o PT elege alguém, mesmo Lula, sem os votos dos outros partidos. Sem o apoio de Ciro, Doria, Tasso, Amoedo, etc… Este é o labirinto em que estamos”.

O professor Marcos Nobre diz que o apoio a Bolsonaro deve crescer com a ampliação da vacinação e a melhora da economia. Bolsonaro pode vencer?

Cristovam: Não sei se ele vai crescer. Mas, se ficar onde está, chega ao segundo turno. E pode se eleger se a rejeição do seu oponente for maior do que a dele. Temo que a disputa no primeiro turno entre os candidatos da oposição aumente a rejeição daquele que passar para o segundo turno. Como sempre acontece. Ainda mais em tempo de radicalismos.

Ricardo Noblat - O Caso Pazuello, segredo para ser guardado por um século

- Blog do Noblat / Metrópoles

Exército nega acesso ao conteúdo do processo administrativo aberto para apurar transgressão disciplinar do ex-ministro da Saúde

Além do presidente Jair Bolsonaro, do que mais tem medo o Exército para que considere segredo a ser guardado por 100 anos o conteúdo do processo administrativo que deveria ter punido, mas que não puniu o general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, que pedalou uma moto, subiu em um carro de som e discursou em uma manifestação político-partidária?

O jornal O GLOBO, com base na Lei de Acesso à Informações, pediu acesso ao processo. O Exército, com base em dispositivo da mesma lei, respondeu que o processo contém informações pessoais e deveria ser mantido em segredo. Por quanto tempo? Dez, vinte, trinta anos, o que já seria um exagero? Não. Por um século. Quantos bebês viverão tanto para conhecer o que se passou?

O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Noronha, que perdoou Pazuello por desrespeitar o Regulamento Disciplinar da Arma, foi o mesmo que decidiu a favor da manutenção do segredo secular. Contrariou o entendimento da Controladoria Geral da União de que procedimento administrativo só deve ficar sob segredo enquanto não tiver sido concluído. Não é o caso.

Eleições 2022: PSDB define nesta terça regras para escolher candidato

Modelo das prévias afeta diretamente os planos dos governadores João Doria, de São Paulo, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul

Grasielle Castro / Metrópoles

São Paulo – A Executiva do PSDB decide nesta terça-feira (8/6) quais regras serão adotadas para a votação das prévias que vai decidir o candidato da legenda à eleição presidencial de 2022. A definição do peso de cada voto atinge diretamente os planos dos governadores João Doria, de São Paulo, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul — principais nomes da disputa.

A discussão vai girar em torno da recomendação apresentada pela comissão das prévias, que propôs no último dia 1º a divisão dos votantes em quatro grupos, com peso unitário de 25% do total de votos.

A medida em análise desagrada ao governador João Doria, que intensificou a articulação nos últimos dias para reverter a derrota. O governador paulista defende que cada voto de cada filiado tenha o mesmo peso.

Vale ressaltar que São Paulo é o estado com maior percentual de filiados — 22% do total de 1,37 milhão, de acordo com dados do Tribunal Superior de Eleitoral de abril deste ano.

Além do PSDB paulista, o PSDB Mulher, Tucanafro e a Diversidade também vão defender essa metodologia, com voto universal e igualitário.

A proposta que está na mesa divide os votantes entre os seguintes grupos:

Andrea Jubé - Saída à la Ernesto

- Valor Econômico

Presidente cogita mais mudanças caso Salles deixe a pasta

Aumentou nos últimos dias a pressão sobre o presidente Jair Bolsonaro pela substituição do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Integrantes da ala militar do governo intensificaram a cobrança para que Salles, ao menos, peça uma licença temporária do cargo enquanto avançam as investigações da Polícia Federal de que ele se tornou alvo em dois inquéritos.

O fogo amigo no governo contra o ministro alastrou-se depois que se tornaram públicas ações da Polícia Federal, principalmente no inquérito conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal. Na sexta-feira, Moraes abriu prazo para que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre pedido de prisão do ministro, ou afastamento cautelar do cargo, diante da recusa de entregar o aparelho celular para os investigadores, o que poderia configurar tentativa de obstrução da Justiça.

Ontem, 19 dias após a busca e apreensão de que foi alvo, o ministro finalmente entregou o aparelho à PF e se ofereceu para colaborar com as investigações. Um gesto para tentar controlar o incêndio que avança sobre sua biografia política.

Cristina Serra - Bolsonaro e o gabinete da morte

- Folha de S. Paulo

O 'gabinete da morte' reuniu o que há de pior na medicina

Desde o começo da pandemia, Bolsonaro fez o que pôde para que os brasileiros acreditassem na cilada da cloroquina e continuassem saindo às ruas, como gado a caminho do matadouro. A aposta foi na imunidade de rebanho. Nada de parar a economia ou planejar a compra de vacinas. Novas provas desse crime surgiram nos últimos dias em vídeos de conteúdo estarrecedor.

Para que o intento criminoso fosse bem-sucedido, seria preciso arregimentar um bando de vigaristas que desse credibilidade à fraude do "tratamento precoce". É exatamente isso que o vídeo publicado pelo site Metrópoles comprova, ao mostrar uma reunião do tal "gabinete paralelo", que, mais apropriadamente, deveria se chamar "gabinete da morte".

Na reunião, o virologista Paolo Zanotto fez ressalvas às vacinas, recomendando que Bolsonaro tivesse "cuidado enorme" com elas. Foi dele também a sugestão para que os membros do grupo não fossem expostos à "popularidade". Deveriam agir à "sombra". Nessa ocasião, ofertas de vacinas da Pfizer jaziam sem resposta em computadores da Esplanada.

João Pinheiro da Fonseca - Entre o delírio e o golpe

- Folha de S. Paulo

Bolsonarismo é um sonho febril das redes que tomou de assalto a realidade

Entre os pertences de Allan dos Santos, o blogueiro pró-Bolsonaro que está sendo investigado por possíveis manifestações golpistas e recebimento de verbas públicas, encontrou-se uma singela notinha escrita à mão. Diz ela: “Objetivo: materializar a ira popular contra os governadores/prefeitos; fim intermediário: saiam às ruas; fim último: derrubar os governadores/prefeitos”.

O próprio presidente não escondeu intenções ainda mais violentas na famigerada reunião ministerial de 22 abril.

Entre tantos disparates, expressou seu desejo de que a população se armasse para resistir às medidas de isolamento social vindas de prefeitos e governadores.

Ninguém tem a menor dúvida de que, se perder nas urnas, Bolsonaro negará o resultado e tentará causar tumulto. É o que ele e seus asseclas já vêm tentando fazer. Ontem mesmo a deputada Bia Kicis afirmou que a eleição de 2022 só será confiável se tiver voto impresso em 100% das urnas. É tecnicamente impossível viabilizar essa mudança eleitoral em tempo hábil para as próximas eleições. Logo…

Entrevista | Eduardo Leite: ‘PSDB deve sintonizar os sentimentos das ruas’

Lauriberto Pompeu / O Estado de S. Paulo

Governador do RS diz que quer ajudar o partido e que não sairá da sigla se for derrotado nas prévias para 2022

BRASÍLIA – Candidato às prévias que vão definir o nome do PSDB para a disputa presidencial, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem sido cortejado por várias siglas, mas diz que não vai sair do partido, mesmo se não for o vencedor da disputa interna. “Quero ajudar o PSDB a voltar a sintonizar os sentimentos das ruas”, afirmou ele, numa referência ao clima de oposição que ronda o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Além de Leite e João Doria, devem participar da disputa o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio. “Eu estou muito firme e decidido a participar, mas não sou obcecado por um projeto pessoal”, disse o governador gaúcho, que costuma fazer elogios públicos a Tasso. 

Os quatro pré-candidatos do PSDB vão mesmo disputar prévias ou é possível um entendimento?

Eu estou muito firme e decidido a participar, mas não sou obcecado em torno de um projeto pessoal. Eu não estou nessa por um projeto pessoal. Fui provocado por um grupo de deputados que entendiam que eu deveria representar essa discussão e eu estou trabalhando nessa linha. Eu tenho toda disposição de conversar, dialogar. Só que neste momento, não parece haver isso. 

Míriam Leitão - As hesitações na crise hídrica

- O Globo

O Brasil avançou na energia em relação há 20 anos, quando houve o apagão de 2001. Mesmo assim, o risco de uma crise hídrica e de falta de abastecimento de energia está sobre o país neste momento. O fator complicador mais grave é a incapacidade do atual governo de gerir crises ou se antecipar a problemas. Hoje, a matriz é mais diversificada e caiu em vinte pontos percentuais a dependência da fonte hidrelétrica. A eólica, que não existia, representa 10%. A solar já é 2%.

Houve também, desde então, a construção de mais linhas de transmissão, o que não melhorou foi a capacidade de pensar o que fazer diante do estresse hídrico que tende a ficar cada vez mais frequente. O sistema ainda é garantido por um conjunto de térmicas a combustível fóssil, que são mais caras e mais sujas e estão na contramão da tendência de baixo carbono.

Em relação à crise atual, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse, na entrevista ao GLOBO, que “tudo indica que temos o controle da situação”. A frase tem uma negação embutida. Se “tudo indica” é porque há dúvidas. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) soltou uma nota alertando para o risco de o país enfrentar uma crise inédita de falta de água nos reservatórios. No dia seguinte, soltou outra nota para esclarecer a primeira, em que diz o oposto. Ficou estranho.

Felipe Salto* - Inflação é problema, não solução

- O Estado de S. Paulo

Governo comemora como se o desempenho da economia resultasse de suas políticas

Nem tudo o que reluz é ouro. Em 2021, a dívida pública como porcentual do PIB deve diminuir, mesmo sem mudanças estruturais nas contas do governo. A inflação mais alta explica boa parte da expectativa. Não resolve o desarranjo fiscal, mas ilude.

O indicador utilizado para avaliar o risco nas contas do País é a dívida sobre o produto interno bruto (PIB). No numerador, o estoque de títulos e outras obrigações do Estado. No denominador, o fluxo de renda gerado em determinado período. O que mais importa não é o cálculo em um instante do tempo, senão o movimento. O filme, não só a fotografia.

Se a dívida e o PIB crescem no mesmo ritmo, a situação é tida como controlada: os compradores de títulos públicos avaliam que o endividamento é sustentável e o risco de o Estado tornar-se insolvente é baixo. Assim, exigem juros menores para financiar novos déficits, ano a ano, e o País executa suas políticas públicas sem sobressaltos.

Na semana passada, o resultado do PIB do primeiro trimestre de 2021 causou alvoroço. Houve quem o correlacionasse a acertos da política econômica. Na verdade, o efeito estatístico preponderou, dada a recessão de 2020. Crescer depois de cair é mais fácil. O fato novo é a alta dos preços das commodities, que impulsionou os investimentos ligados ao setor agropecuário. Algo alheio ao governo. O afrouxamento da restrição à circulação de pessoas ajudou, mas à custa de mais mortes, como mostrou Affonso Celso Pastore na coluna de domingo.

A subida dos preços das commodities dará fôlego à economia. Filme repetido. Em 2009 o PIB caiu 0,3%, refletindo a crise econômica e financeira internacional. No ano seguinte, alta de 7,5%. Os termos de troca – razão entre os preços dos produtos exportados e importados – subiram 16% entre 2009 e 2010.

Pedro Cafardo - Do bom gasto público à volta do ‘velho normal’

- Valor Econômico

Experiência bem-sucedida de 2020 não foi suficiente para amolecer ortodoxia brasileira

A pandemia perde força lá fora. Aqui, o país está assustado com a possível chegada de uma terceira onda da covid-19. Quem tem fé reza, e quem não tem torce para que ela não venha, sem poder esperar por empenho efetivo da autoridade federal, que cometeu inúmeros equívocos no enfrentamento da doença. Estimativas indicam que esses erros e omissões tenham sido responsáveis por 70 mil das mais de 470 mil mortes.

A esta altura, rezando ou torcendo, aqueles que lidam com economia já têm material para avaliações conclusivas sobre o impacto real da pandemia na economia e o efeito das medidas emergenciais adotadas em 2020.

Diferentemente de outros economistas heterodoxos, que consideram a ação estatal fraca e inconsistente, o professor Luiz Fernando de Paula, da UFRJ, sustenta que as iniciativas tomadas em 2020, após pressões da sociedade, tiveram forte efeito contracíclico na economia. Houve redução de pobreza e desigualdade, ainda que as autoridades tenham agido sem estratégia coordenada.

No paper “A crise do coronavírus e as políticas contracíclicas no Brasil”, que circula nos meios acadêmicos, Fernando de Paula reúne dados para sustentar essa afirmação. A reação inicial do ministro da Economia, Paulo Guedes, foi lamentável, mantendo coerência com sua formação na velha Escola de Chicago e argumentando que as reformas seriam a melhor resposta à crise sanitária. Tomou medidas iniciais claramente insuficientes. Depois, acuado pelo Congresso, aceitou o auxílio emergencial e tomou outras medidas que totalizaram injeção de R$ 415 bilhões na economia. A maior parte, R$ 230 bilhões, foi aplicada no auxílio a pessoas vulneráveis (55%), seguido do auxílio a Estados e municípios (19%), à saúde pública (11%) e à manutenção do emprego e renda (8%).

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Militares cedem outra vez aos arbítrios do presidente

Valor Econômico

Cabe aos militares demarcarem o terreno para atos de seu comandante

No Brasil, o comandante chefe das Forças Armadas, o presidente da República, incentiva a indisciplina e a quebra de regulamentos nos quartéis. O Alto Comando do Exército, que deveria zelar pela ordem, se exime de fazê-lo, acatando a ordem de que o infrator nada fez de errado, talvez sob pretexto de que algo ainda pior poderia ocorrer se cumprisse as regras - uma substituição do comandante do Exército. O pivô da crise, o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, fez aparição gaiata em manifestação de motociclistas sem máscaras promovida pelo presidente Jair Bolsonaro, onde não poderia estar. A única coisa certa nestes desacertos é que houve intenção de criar um fato consumado cujos desdobramentos são temerários.

Não é a simbologia de um capitão botinado do Exército por indisciplina agora intimidando generais que interessa, mas os propósitos. “O presidente da República é o comandante supremo das Forças Armadas. Isso tem de ficar bem claro”, disse o ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, um dos principais auxiliares de Bolsonaro, como se isso significasse arbítrio e não cumprimento de regras. Bolsonaro não queria que houvesse punição a Pazuello - nem sequer uma inofensiva advertência oral - e seu desejo foi satisfeito. Sua vontade foi lei e, como suas inclinações são antidemocráticas, esse é o caminho pelo qual o presidente poderá conduzir as Forças Armadas.

A rota de colisão do presidente com as instituições, percorrida desde o primeiro dia da posse, tem como destino a permanência no poder. “A todo momento estamos vendo-o anunciar o golpe aos quatro campos da nação”, diz o historiador Fernando Teixeira, ex-professor na Escola Superior de Guerra e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Valor, ontem). “O mais grave é que ele está anunciando o golpe e a metodologia do golpe. A cada momento ele faz um ensaio geral”, afirma, referindo-se aos reiterados avisos do presidente de que não aceitará uma derrota nas urnas diante do (hoje) principal rival, à frente nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva.

O início de quebra de hierarquia militar foi um dos catalisadores do golpe militar de 1964, mas as provocações de Bolsonaro parecem ir em outra direção, não a de fomentar rebeliões de cabos e sargentos contra generais, mas a de obter o consentimento ou a resignação, o que dá no mesmo, dos comandos militares para que a ordem seja moldada aos desígnios do presidente.

Poesia | Manuel Bandeira - Cotovia

 

Música| Lucy Alves - Sabiá

 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso*

 

“Em meu livro Crise e reinvenção da política no Brasil, alertei que, contrariando as previsões de seu fortalecimento após o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, a democracia estava em risco. Alertei também que nos tempos de hoje as democracias não morrem mais apenas por meios de golpes militares ou pela demagogia aberta, inclusive com apoios populares, mas por dentro, pouco a pouco, quando os que mandam porque obtiveram o consentimento popular enveredam pelo caminho do ataque ás instituições e os valores que garantem a liberdade.”

*Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, ex-presidente da República. “Um intelectual na política” p. 246. Companhia das Letras, 2021

Fernando Gabeira - Do verde ao amarelo

- O Globo

A decisão do Exército de não punir o general Eduardo Pazuello é dessas notícias que anunciam uma época.

Já tinha escrito que saberíamos por ela se há luz no fim do túnel ou se nos espera uma longa escuridão. Infelizmente, o Exército brasileiro amarelou diante da pressão de Bolsonaro. No futuro, saberemos se amarelou por covardia ou se aderiu conscientemente a um projeto autoritário.

Isso já não importa tanto. Ele já tomou o seu lado. O que importa agora é uma leitura correta do fato e uma preparação adequada para as consequências.

Sempre me exponho à acusação de exagero, mas, com tantos golpes na trajetória, minha tendência é avisar: quanto mais preparados estivermos, melhores condições teremos de resistir.

A primeira consequência tem de ser o estreitamento de laços entre todas as forças democráticas. Como assim, se elas se preparam para disputar uma eleição com candidatos diferentes?

É preciso ser ingênuo para supor que o processo eleitoral não contenha uma armadilha. Bolsonaro já afirmou que não aceitará resultados de urnas eletrônicas. Ele é defensor de rebelião armada, chegou a falar dessa possibilidade contra as restrições sanitárias na pandemia.

Entrevista | Tasso Jereissati: 'A responsabilização, com certeza, vai chegar ao presidente'

Ao GLOBO, senador do PSDB e titular da comissão avalia que erros do governo tiveram Bolsonaro como ‘ordenador’, e que demora por vacinas foi 'deliberada'

Julia Lindner / O Globo

BRASÍLIA - O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), membro titular da CPI da Covid, considera que o presidente Jair Bolsonaro será responsabilizado ao final dos trabalhos do colegiado como o “grande chefe” de uma política desastrosa no enfrentamento à pandemia. Para o senador, todas as linhas de investigação levam ao presidente da República, entre elas o atraso na compra de vacinas.

Ele considera que Bolsonaro tenta desestabilizar o país e que a situação do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello com o Exército torna o retorno do general à comissão ainda mais delicado.

Já existem indícios na CPI da Covid contra o presidente Jair Bolsonaro?

Na verdade, há vários indícios em várias linhas de investigação, e todas têm uma coisa em comum, que é o Bolsonaro. O problema leva ao Bolsonaro. Se você for falar de vacina, onde parou o processo de compra, a lentidão, você vai no Pazuello, vai no outro, e acaba no Bolsonaro. Se você fala em críticas e obstáculos ao afastamento social e ao uso de máscara... Bolsonaro. Pode criticar o ministro da Saúde, mas acaba no Bolsonaro. Sobre a cloroquina, por que essa prescrição de um remédio sem comprovação científica, quem fez, quem não fez, segue a linha e acaba no Bolsonaro. E agora estamos vivendo esse problema de aglomeração, com uma ameaça, se já não uma realidade, de terceira onda. E o Ministério da Saúde praticamente imobilizado, não se pronuncia sobre essa aglomeração, se promove uma Copa América. E o que tem por trás disso? Bolsonaro. Então, todos os indícios levam ao grande chefe disso tudo, o grande chefe dessas falhas todas é sem dúvida nenhuma o Bolsonaro, cercado por maus conselheiros.

Então já é possível falar em algum tipo de responsabilização em relação ao presidente?

A responsabilização, com certeza, vai chegar ao presidente Bolsonaro. Evidentemente. Porque todas as declarações (dadas à CPI) que coincidem, em todos os aspectos, levam ao grande mentor, não como um grande mentor intelectual, mas o grande ordenador. E aconselhado por uma equipe paralela ao governo oficial, que o levou a esse negacionismo e a essa política desastrosa.

O que o senhor acha do perfil do presidente, que mesmo com a CPI funcionando, com novas evidências surgindo, mantém a direção e continua fazendo provocações aos membros da comissão?

A postura dele é provocadora. Parece-me que ele já passou do limite de fazer algum tipo de enfrentamento racional às coisas que estão sendo obtidas na CPI e passou a uma provocação não só à CPI, mas ao país inteiro. O máximo da provocação foi quando o ex-ministro Pazuello esteve na CPI e jurou perante a Deus e a Constituição Brasileira, como um militar, um general, de quem se espera uma palavra altiva e corajosa, que era a favor do afastamento e rigoroso em relação a uso de máscara. E dois dias depois ele estava fazendo em cima de um palanque, ao lado do presidente, uma manifestação justamente pelo contrário. Eu acho que o presidente hoje está claramente buscando desestabilizar o país.