sexta-feira, 8 de março de 2024

César Felício - O que fez a diferença entre 64 e Bolsonaro

Valor Econômico

Falta de comando militar do golpismo moderno foi fundamental para insucesso

Os golpes de Estado, ou tentativas dele, se dividem em sua tipologia própria, mas todos se parecem. Reeditar 1964 sempre foi uma aspiração do ex-presidente Jair Bolsonaro e do grupo de militares que o cercou no poder, e há elementos de que ele o tentou pelo menos duas vezes, de acordo com uma especialista na ruptura de março de 60 anos atrás, a historiadora mineira Heloisa Starling. A pesquisadora lança nesta sexta-feira o livro “1964: Como foi desmontada a democracia no Brasil”, pela Companhia das Letras. Para ela, bebeu-se da mesma fonte.

Há basicamente dois tipos de golpe: a Quartelada e o Pronunciamento. Em comum, ambos têm uma primeira fase, que é a da conspiração. O desfecho é um só: a ruptura institucional por meio da ação da caserna. A Quartelada se dá com as ruas em silêncio. O Pronunciamento tem como segunda fase a criação de um ambiente de desordem, de um clamor popular pela intervenção militar, forte o suficiente para revesti-la de legitimidade.

Maria Cristina Fernandes – Tarcísio contorna cerco jurídico ao bolsonarismo

Valor Econômico

Com projeto para criar programa de escolas cívico-militares, Tarcísio aposta na resiliência dos valores do bolsonarismo

A decisão do governador Tarcísio de Freitas de mandar o projeto de lei que cria o programa de escolas cívico-militares é uma demonstração de como o bolsonarismo investe para contornar, pela política, o cerco jurídico-policial.

Há generais que arriscam a se sentar no banco dos réus pelo envolvimento no golpismo que vandalizou a Praça dos Três Poderes no 8 de janeiro a despeito do batalhão estacionado no subsolo do Palácio do Planalto.

Num momento em que a cúpula legalista das Forças Armadas se esforça para se dissociar do bolsonarismo, eis que o governador paulista pauta um projeto para valorizar a disciplina militar como valor pedagógico.

Luiz Carlos Azedo - PL avança na Câmara ao presidir comissões estratégicas

Correio Braziliense

No comando da CCJ, Caroline de Toni quer acabar com a cota das mulheres nas eleições e é contra a descriminalização do aborto

Não adianta tapar o sol com a peneira. O Palácio do Planalto sai das eleições para o comando das comissões da Câmara enfraquecido e com problemas encomendados pela frente. Os resultados sinalizam uma aliança do Centrão, principalmente do PP do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), com o PL, que mira a sucessão no comando da Casa. Comissões estratégicas para o governo estão sob controle do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Arthur Lira até tentou demover o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, da indicação, substituindo-a por um nome mais moderado. Entretanto, o fato de ser a parlamentar que mais votou contra o governo nesta legislatura, segundo levantamento exclusivo do Radar do Congresso — ferramenta de monitoramento do site Congresso em Foco —, pesou na decisão do PL. Ela votou contra o governo em 72% das matérias apreciadas pela Câmara. Somente a deputada Julia Zanatta (PL-SC), também de seu estado, tem o mesmo percentual. Na Câmara, a média de aprovação das matérias do governo pelos deputados chega a 80%.

Vinicius Torres Freire - Investimento recorde das montadoras?

Folha de S. Paulo

É preciso discutir também os subsídios, maior que o valor anunciado pelas empresas

As montadoras têm anunciado investimentos grandes. A primeira reação de muita gente, a deste jornalista inclusive, é de ligeiro otimismo, dado o atoleiro em que o país se meteu desde 2014. Mas, por melhor que seja a perspectiva, não é bem assim.

Para começar com o mais "pop", dificilmente se trata de recorde. Pelos números compilados pela Anfavea, a associação das montadoras, os investimentos anunciados para os anos que vão de 2021 a 2032 chegam a pouco mais de R$ 116 bilhões.

Até aqui, "...o período do programa Inovar-Auto [de subsídios federais], de 2012 a 2018, era o de maior volume de aportes, com R$ 85 bilhões", também de investimentos anunciados, lê-se em nota da Anfavea.

Como não se sabe quanto foi o investimento em cada ano de 2012 a 2018, fica difícil corrigir valores pela inflação e compará-los com os anúncios atuais.

André Roncaglia - O risco Biden assombra o governo Lula

Folha de S. Paulo

Queda na avaliação mostra dissonância entre indicadores e sentimento das pessoas

As eleições nos EUA neste ano mostram um cenário preocupante para o presidente democrata, Joe Biden. Apesar de uma economia pujante, com desemprego em mínimas históricas e inflação em queda, Biden amarga um segundo lugar nas intenções de voto.

Guardadas as diferenças entre as sociedades, o risco Biden pode ameaçar o governo Lula, cuja popularidade vacila sob o peso das expectativas de reversão do desastre causado por Bolsonaro.

Pesquisa Quaest publicada nesta semana revela a crescente insatisfação do eleitorado e a percepção de que a economia piorou nos últimos 12 meses. Contudo, reportagem da Folha mostrou que o governo Lula tem bom desempenho em 66 dos 90 quesitos avaliados.

Dora Kramer - Supermulher no autoengano

Folha de S. Paulo

Vivi a ilusão de que o machismo não me atingia, até que atingiu

Durante muito tempo vivi a ilusão de que o machismo não me atingia, num misto de arrogância e negacionismo que fui obrigada a reconhecer para depois abandonar porque vi: a coisa só não me alcançaria até que alcançou.

Hoje, em retrospectiva e cada vez mais percebo a presença do menosprezo à mulher, apenas por sua condição feminina. Há léguas a percorrer antes que possamos descansar num ambiente de igualdade real, efetiva, reconhecida e, sobretudo, praticada.

Vinha poderosa na carreira sem maiores obstáculos até me deparar com o parceiro supostamente encantado exatamente pelo sucesso profissional daquela nova companheira tão bem-sucedida.

Eliane Cantanhêde - Caldeirão fervente

O Estado de S. Paulo

Dificilmente a reforma tributária será regulamentada em 2024. Culpa do governo e Congresso

Assim como o governo prometeu e dificilmente entregará o déficit zero em 2024, vai ficando cada vez mais difícil, deslizando para o improvável, a votação da regulamentação da reforma tributária. Tão louvada, a reforma pode chegar incompleta a 2025 e a culpa é tanto do governo quanto do Congresso, que insiste em guerrear também com o STF e contra a própria imagem.

O governo tem culpa por ter perdido o timing. Fernando Haddad, da Fazenda, ficou confrontando o Congresso com a MP que reonerava a folha de pagamentos e o setor de eventos, foi obrigado a recuar dos dois e negligenciou a regulamentação da reforma tributária. Agora, Haddad promete enviar os projetos de regulamentação da reforma até o fim de março, mas...

Depois da abertura do ano legislativo, veio carnaval, agora vêm Semana Santa, janela para troca-troca de partidos sem punição e desincompatibilização de prefeitos e ministros candidatos em outubro. E tem mais: festas de São João em junho e julho, atraindo bancadas inteiras, principalmente do Nordeste, e começa o recesso de julho.

Flávia Oliveira - O atraso do atraso

O Globo

Enquanto francesas celebram, brasileiras padecem. Por todos os lados

A semana apenas começava, quando a boa-nova vinda do outro lado do Atlântico se espalhou. A França, em votação maiúscula no Parlamento (780 votos em 852), aprovara incluir no texto constitucional o direito de mulheres interromperem a gravidez. Havia meio século que as francesas tinham autorização para abortar via lei específica. A inscrição na Carta Magna, inédita no planeta, sedimenta a garantia. Tão logo seja promulgada, provavelmente neste Dia Internacional da Mulher, não mais haverá risco de flutuar ao sabor de governos, ventos ideológicos, arroubos morais, convicções religiosas. É muito mais difícil — ao menos lá — mexer na Constituição, comentou uma emocionada Comba Marques Porto, feminista histórica, com papel importante na formatação da Carta de 1988 como membro do Conselho Nacional da Mulher.

Não apenas nas ruas de Paris, mas mundo afora, ativistas, organizações feministas, profissionais de saúde, estudantes, políticas, gente comum celebraram a mudança aprovada em Versalhes. A decisão legislativa, abraçada pelo presidente Emmanuel Macron em publicação imediata em rede social, foi vista como reafirmação do Estado laico. E içada contraofensiva a um ambiente global crescentemente conservador, que avança — ou tenta — sobre direitos sexuais e reprodutivos de mulheres, a começar pelos Estados Unidos, onde a Suprema Corte reviu, em 2022, decisão que garantia o direito ao aborto havia 49 anos.

Vera Magalhães - Lula está com um foco, e o povo, com outro

O Globo

Presidente resolveu falar a seu público mais convertido, enquanto pesquisas apontam corrupção e segurança como maiores preocupações dos brasileiros

Uma das piores coisas que podem acontecer a um governo é um presidente experimentado, que passou a vida sendo louvado pelo tino político e pela forma intuitiva como governa, se ver defendendo pautas e prioridades completamente desconectadas daquelas que a população considera mais importantes.

É o que parece estar acontecendo com Lula, sobretudo neste início de ano. Outro fator que agrava a situação e atrapalha a possibilidade de o governo corrigir a rota é haver poucos expoentes do entorno próximo do presidente com senioridade e coragem para dizer a ele que está errando e deveria rever o rumo.

No primeiro mandato, o círculo próximo ao petista era composto de pessoas que tinham intimidade com ele e autoridade política para confrontar algumas de suas decisões. Independentemente do que aconteceu com eles em investigações posteriores, Luiz Gushiken, José Dirceu e Antonio Palocci, entre outros, tinham cacife para confrontar as certezas sempre veementes que fizeram Lula chegar aonde chegou na política, mas nem sempre são o melhor caminho no exercício da Presidência.

Bernardo Mello Franco - Novos palcos para o extremismo

O Globo

Fora do governo, bolsonaristas se organizam para transformar comissões da Câmara em trincheiras de guerra cultural

Caroline de Toni foi uma aluna esforçada de Olavo de Carvalho. O guru do bolsonarismo morreu, mas ela segue fiel à sua cartilha. Investe na radicalização ideológica, no armamentismo e na tática da guerra cultural.

A deputada do PL vai presidir a Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante da Câmara. A escolha não é caso isolado. Fora do governo, a extrema direita se organizou para ocupar novos palcos. Comandará os colegiados que debatem educação, segurança, temas da família.

De Toni integra a bancada dos detratores do Supremo. Já acusou o tribunal de chefiar uma “ditadura judicial” e pediu a destituição do ministro Alexandre de Moraes. Seus ataques têm um quê de autodefesa. Ela era próxima ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado por ameaças à Corte, e chegou a ser investigada por ligação com atos antidemocráticos.

Frequentadora de clubes de tiro, a olavista costuma divulgar fotos de fuzil a tiracolo. No ano passado, apresentou projeto para permitir que os estados legislem sobre a liberação de armas de fogo. A ideia já foi declarada inconstitucional.

Fabio Giambiagi – Nunca mais

O Globo

Os políticos deveriam deixar claro que não há outra atitude diante daquelas aberrações que não um repúdio veemente

Há algo muito errado com o Brasil. O contexto histórico da época (o que os alemães chamam de zeitgeist), marcado por diversos escândalos, explica que em 2018 o país tenha escolhido um presidente como Bolsonaro.

É espantoso, porém, para uma nação que pretenda se definir como tal, seguindo as palavras de Ortega y Gasset (“uma nação é um projeto de vida em comum”), que não haja uma condenação clara às barbaridades perpetradas por aqueles que, sem sombra de dúvida, tramaram um golpe de Estado na transição entre 2022 e 2023.

O fato de que, em função do receio de “cancelamento” por parte dos cangaceiros das mídias sociais, uma parte do corpo político do país conserve a ambiguidade diante daquelas manifestações criminosas revela que a nação está, em parte, doente.

Se aquele bando que tentou “virar a mesa”, revertendo o resultado das eleições e subvertendo a ordem constitucional, fez o que fez, foi por entender que forças relevantes do país iriam amparar tais disparates.

Janaína Figueiredo - Milei faz Argentina de laboratório

O Globo

Milei aplicou sua serra elétrica e quem está pagando o custo de sua decisão não é a casta política, são os setores mais vulneráveis

Buenos Aires - Em recente artigo intitulado “Uma situação perigosa”, o economista salvadorenho Manuel Hinds, que comandou a pasta de Economia em 1979 e de Finanças entre 1995 e 1999, considerado um dos ideólogos da dolarização em seu país, analisou o programa econômico do presidente da Argentina, Javier Milei, e utilizou uma metáfora que pode parecer exagerada, mas não é.

Hinds, que por questionar o governo de Nayib Bukele foi perseguido e hoje vive exilado na Europa, comparou a Argentina com uma fazenda, na qual o dono, de uma hora para a outra, decide deixar de alimentar seus animais para reduzir custos e equilibrar contas. “Depois de alguns meses, a alimentação dos animais é retomada, com a esperança de que eles ainda estejam lá, e de que esta horrível solução não tenha de voltar a ser aplicada”, escreveu o economista, até pouco tempo atrás admirado por colegas que assessoram o presidente argentino.

Venezuela convida UE, ONU e EUA e outras organizações para observar as eleições

Por O Globo e agências internacionais 

Data da eleição presidencial foi anunciada para 28 de julho; Maduro tentará reeleição, mas principal opositora está inabilitada

Caracas - A União Europeia (UE), o Centro Carter, dos Estados Unidos, e um painel de especialistas das Nações Unidas estão entre os convidados para observar as eleições presidenciais da Venezuela, marcada para 28 de julho, nas quais o presidente Nicolás Maduro deverá tentar a reeleição. A UE enviou uma missão em 2021 para as últimas eleições de governadores e prefeitos, enquanto o Centro Carter e a ONU também enviaram painéis de especialistas.

— Estendemos um convite para que participem como observadores eleitorais, desde que cumpram os requisitos e regulamentos constitucionais e legais estabelecidos — afirmou o presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Elvis Amoroso, em declarações à imprensa nesta quinta-feira.

A data da eleição presidencial foi anunciada há dois dias para daqui a quase cinco meses, um prazo que, segundo especialistas, dificultaria uma missão de observação europeia, que ainda não se pronunciou sobre o convite.

Nelson Motta - Tom Jobim, a crônica de um musical

O Globo

Como incluir umas 25 composições em umas duas horas e meia de espetáculo sem deixar de fora canções belíssimas assinadas pelo maestro soberano?

Muito animado com o início da produção de “Tom Jobim, o musical”, que escrevi junto com Pedro Brício e será dirigida por João Fonseca, parceiro do megassucesso “Vale tudo, o som e a fúria de Tim Maia”, que ficou três anos em cartaz.

Já temos um texto “final”, que na verdade não é final nunca e vai sendo transformado até a estreia e mesmo depois da estreia vai sendo ajustado, e em breve começarão os testes de elenco, de atores, cantores, bailarinos, músicos, que viverão Tom, Vinicius de Moraes, que será uma espécie de narrador, Teresa Hermanny, a primeira mulher, Ana Jobim, a musa eterna até o fim, a filha Maria Luisa, João Gilberto, Elis Regina, e muitos personagens que contam a história gloriosa de Tom Jobim, “o” musical, o maestro soberano, e suas músicas maravilhosas.

Poesia | O sonho, de Clarice Lispector

 

Música | Teresa Cristina - Meu mundo é hoje, de Paulinho da Viola

 

quinta-feira, 7 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Oponiões

 

Combate à dengue exige mais de governos e cidadãos

O Globo

Todos sabem o que precisa ser feito para evitar epidemia maior — atacar os focos do mosquito

O Brasil já registra neste início de ano 1,3 milhão de casos de dengue e 329 mortes (outras 767 estão em investigação). Ao menos nove unidades da Federação apresentam incidência de mais de 300 casos por 100 mil habitantes, situação que, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), configura uma epidemia. O cenário mais preocupante ocorre no Distrito Federal, com 4.276 infecções por 100 mil. Esses números expõem a incapacidade de governos e da própria sociedade de lidar com uma doença que, diferentemente da Covid-19, reaparece como uma velha conhecida.

Governo federal, estados, municípios e a população sabem — ou deveriam saber — o que fazer para evitá-la, uma vez que surtos e epidemias são recorrentes. É preciso combater os focos do mosquito transmissor, o Aedes aegypti (em 75% dos casos, ele está dentro das próprias residências), tapar caixas-d’água, recolher objetos que acumulam água parada, remover lixo, limpar os pratos dos vasos de plantas etc. Sabe-se tudo isso — mas nem todos fazem.

António Guterres* - Investir nas mulheres é apostar na igualdade de gênero

O Globo

Onde quer que haja conflitos, catástrofes climáticas, pobreza ou fome, são elas as que mais sofrem

A luta pelos direitos das mulheres nos últimos 50 anos é uma história de progresso.

As mulheres e as meninas demoliram barreiras, desmantelaram estereótipos e impulsionaram o progresso rumo a um mundo mais justo e igualitário.

No entanto o progresso está ameaçado, e a igualdade plena continua a anos-luz de distância, sendo que as crises mundiais afetam de forma mais severa as mulheres e as meninas. Onde quer que haja conflitos, catástrofes climáticas, pobreza ou fome, são elas as que mais sofrem. Tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, tem havido uma reação contra os direitos das mulheres, incluindo seus direitos sexuais e reprodutivos, que impede e até reverte o progresso.

As novas tecnologias, que têm enorme potencial para desmantelar as desigualdades, agravam muitas vezes essa situação, seja pela desigualdade no acesso, por algoritmos com preconceitos enraizados ou pela violência misógina — que vai desde os deepfakes até o assédio dirigido a mulheres específicas.

Merval Pereira – Percepções

O Globo

A direita tomou conta dos meios digitais e divulga sua narrativa com muito mais poder de fogo do que o sistema de comunicação do governo

Recentemente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes disse que deveríamos reagir com cautela diante de pesquisas indicando percepções dos cidadãos que podem não corresponder à realidade. Ele se referia à percepção de que a corrupção aumentou no país nos últimos tempos, revelada pela Transparência Internacional.

Fora o fato de o ministro não gostar daquela instituição não governamental por considerá-la ligada aos procuradores de Curitiba na Operação Lava-Jato, ele também não gosta de percepções que coloquem em questionamento sua visão sobre a própria operação, de que foi um entusiasta, para depois tornar-se seu maior adversário.

Mas, como diz o pesquisador Felipe Nunes, da Quaest, é um perigo colocar em dúvida a percepção do eleitor, pois é com base nela que o eleitorado avalia os líderes políticos, e não na realidade tal qual vista pelos interessados na disputa. A mesma coisa acontece agora com a aprovação do governo Lula, que sofreu queda, fazendo retornar o clima de calcificação que se estabeleceu no país na eleição de 2022.

Malu Gaspar - Democrata de conveniência

O Globo

Imagine o que seria o cenário político do Brasil hoje se a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), controlados por Jair Bolsonaro, tivessem com uma canetada cassado os direitos políticos de Lula e de Simone Tebet por 15 anos e impedido os dois de disputar as eleições de 2022. Ou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tivesse trocado a data da votação para 31 de março só para render homenagem à ditadura militar.

Daria para acreditar que uma eleição nessas condições teria um resultado justo? A pergunta é obviamente retórica e um tanto absurda, já que tal situação seria impensável no Brasil — onde, apesar da onda golpista dos últimos anos, ainda temos uma democracia.

Não é o caso da Venezuela, onde a Controladoria-Geral e o Supremo, dominados por Nicolás Maduro, retiraram da disputa deste ano seus dois principais opositores — e ainda mudaram a data do pleito, que tradicionalmente ocorre em dezembro, para 28 de julho, aniversário do falecido presidente Hugo Chávez.

Para Lula, porém, levantar qualquer dúvida sobre a lisura das eleições venezuelanas é prejulgamento.

— Não podemos jogar dúvida antes das eleições acontecerem, que aí começa discurso de prever antecipadamente que vai ter problema — afirmou o presidente brasileiro a jornalistas ontem no Palácio do Planalto. — Temos que garantir a presunção de inocência, até que haja as eleições para que a gente possa julgar se foi democrática ou decente.

Míriam Leitão - Freire Gomes e o Alto Comando

O Globo

O ex-comandante do Exército não tratou do espinhoso tema da minuta do golpe nas reuniões do Alto Comando

O general Marco Antonio Freire Gomes não chegou a comunicar ao Alto Comando o que estava sendo proposto a ele pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro, e o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, nas minutas do golpe. É essa a informação que se tem dentro do Exército. O Alto Comando tem função consultiva e não deliberativa e houve seis reuniões no ano de 2022. Em pelo menos duas foram discutidos temas como manifestações na porta dos quartéis e participação na Comissão de Transparência Eleitoral, mas o assunto do decreto presidencial não foi tratado.

— Ele pode ter consultado alguns, mas chegar e mostrar o documento no Alto Comando, isso não aconteceu. O comandante é o responsável pela tomada de decisão. Ele não tinha outra decisão a tomar que não fosse a de cumprir a lei. Que não é mérito nenhum, ele tem que cumprir a lei. Era uma ordem inexequível. Se ele desse essa ordem para baixo, os comandantes militares de área não poderiam cumprir. Uma ordem ilegal não se cumpre — me disse um oficial que estava no Alto Comando no governo Bolsonaro.

Maria Cristina Fernandes - Veto à reeleição só interessa ao Congresso

Valor Econômico

PEC que estenda o mandato presidencial para cinco anos e faça coincidir as eleições para os sete cargos eletivos não será chancelada pelos deputados

“Não tem nenhum país importante do planeta que não tenha reeleição. Quatro anos não dá pra gente fazer o que quer”, o presidente já chegou à roda de senadores reunidos no Alvorada na noite de terça-feira, disposto a provocá-los sobre o tema.

Na roda, além de Jorge Kajuru (Podemos-GO), autor da PEC que põe fim à renovação dos mandatos executivos, e Marcelo Castro (MDB-PI), que é o relator, estavam os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Davi Alcolumbre (União-AP), Jaques Wagner (PT-BA), Renan Calheiros (MDB-AL), Omar Aziz (PSD-AM), Weverton Rocha (PDT-MA), Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), Eliziane Gama (PSD-MA), Beto Faro (PT-PA), Veneziano Rego (MDB-PB) e Otto Alencar (PSD-BA).

Ainda estavam todos em pé quando o presidente chegou. O tema não invadiu a parte mais formal da reunião, destinada a alinhar as pautas de interesse da atual mesa com aquelas do governo, ali representado, além de Lula, pelos ministros palacianos (Alexandre Padilha, Rui Costa e Paulo Pimenta) e por Fernando Haddad (Fazenda).

Luiz Carlos Azedo - Algo está errado — economia vai bem; aprovação de Lula, não

Correio Braziliense

Indicadores econômicos vão bem: queda da inflação, aumento do emprego, crescimento de quase 3%. Se não é a economia, o problema está a política

Segundo a Lei de Murphy, “se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará errado”. A frase é atribuída ao capitão e engenheiro norte-americano Edward Aloysius Murphy Jr., um dos responsáveis pelo desenvolvimento de testes sobre os efeitos da desaceleração rápida em pilotos de aeronaves, que registravam a frequência cardíaca e a oxigenação do sangue dos pilotos. O aparelho estava defeituoso e Murphy foi chamado para consertá-lo. Foi quando descobriu que a instalação estava errada e disse a frase famosa.

A Lei de Murphy não tem base científica, mas foi adotada no planejamento sempre que as coisas começam a dar errado. Na verdade, é uma questão de probabilidades. A tese de que o pão cai sempre com a manteiga para a parte de baixo, por exemplo, tem 50% de chance de se confirmar — mas depende da altura da queda, porque muitas vezes não há tempo ou energia suficientes para o pão dar uma volta completa. No fundo, o que torna a Lei de Murphy um sucesso é a memória. Sempre vamos nos lembrar quando algo não deu certo e poderia ser evitado. É o caso da pesquisa Genial-Quest divulgada ontem.

Vinicius Torres Freire - Economia melhor, Lula pior

Folha de S. Paulo

Aprovação do governo Lula 3 piora desde meados do ano passado, apesar de renda em alta

A avaliação de Luiz Inácio Lula da Silva em fevereiro foi a pior das pesquisas da Quaest. Nas análises dos resultados, lia-se que as declarações sobre a guerra de Israel devem ter prejudicado o prestígio do presidente, assim como a alta da inflação de alimentos do início do ano. Destacava-se que Lula perdeu muitos pontos entre evangélicos. Pode ser.

Mais notável, no entanto, é que a "aprovação do trabalho" presidencial cai muito desde agosto do ano passado, quando estava no pico, com 60% de aprovação e 35% de desaprovação, um saldo de 25 pontos.

O tombo maior apareceu na pesquisa seguinte, em outubro de 2023: aprovação de 54%, desaprovação de 42%, saldo de 12 pontos. Na pesquisa de fevereiro, divulgada nesta quarta-feira (6), o placar ficou em 51% a 46%.

Os dados preliminares da economia que afeta o cotidiano não parecem explicar grande coisa, se alguma. Os preços de janeiro e a bobagem sobre a guerra de Israel não explicam o declínio contínuo e enorme desde agosto do ano passado.

Bruno Carazza - Sinal de alerta sobre a popularidade do governo Lula

Valor Econômico

Pesquisa Quaest mostra piora de avaliação entre grupos que sempre apoiaram o presidente

A fotografia parece a mesma de um ano atrás, mas nos detalhes é que se percebe a perda de brilho e uma certa mudança no semblante dos personagens.

Os números da pesquisa Genial Quaest que acabam de sair sobre a aprovação do presidente Lula e de seu governo são muito parecidos com o retrato de um ano atrás, quando seu terceiro mandato se iniciou.

Na linha do que o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, e o jornalista Thomas Traumann definiram no seu livro Biografia do Abismo, a sociedade brasileira está calcificada entre lulistas e bolsonaristas.

De forma geral, o panorama que saiu das urnas em outubro de 2022 continua intacto: Lula tem mais apoio no Nordeste, sua rejeição é menor entre as mulheres e sua aprovação é mais alta entre a população preta, menos escolarizada e com renda familiar mais baixa.

Eduardo Belo - Riscos, inflação e incertezas no cenário

Valor Econômico

Conflitos armados, eleições, crime organizado e acomodação das cadeias produtivas dão o tom do ano, aponta relatório

A economia global deve enfrentar um ano de inflação e incerteza e ao mesmo tempo algum crescimento - e muitos riscos no horizonte. A guerra entre Rússia e Ucrânia, já entrando no terceiro ano, e o conflito entre Israel e Hamas são dois ingredientes importantes nessa receita. Essa é a previsão do relatório O Mundo em 2024, sobre as tendências e os desafios que devem influenciar o cenário da segurança neste ano. O relatório foi publicado em fevereiro pela empresa especializada em riscos Prosegur Research, da Espanha.

O documento passeia por temas como segurança, cibersegurança, tecnologia e meio ambiente. No capítulo econômico, os autores citam a previsão do Fundo Monetário Internacional de que a maioria dos países enfrentará inflação acima das metas - formais ou não - ao longo deste ano, bem como a previsão de aumento da dívida pública em muitos deles - Brasil incluído.

Eugênio Bucci* - Manchetes adversativas

O Estado de S. Paulo

Esperar que uma conjunção adversativa costure a junção pacífica entre um lado e outro do Brasil partido é um suspiro de otimismo

No sábado passado, dia 2 de março, os três principais jornais brasileiros trouxeram manchetes quase idênticas. O Globo, no alto da primeira página, proclamou: “Brasil cresce 2,9%, mas queda de investimentos é alerta”. O Estado procurou um enunciado mais detalhado: “PIB sobe 2,9%, mas investimento cai e pode travar desenvolvimento maior”. A Folha de S.Paulo arriscou uma variação: “PIB cresce 2,9% em 2023, mas estagna no segundo semestre”.

No centro das três, imperou a conjunção adversativa “mas”, em meio a duas assertivas contraditórias. Na primeira assertiva, antes do “mas”, a notícia foi o resultado positivo da economia brasileira em 2023 (quase no mesmo patamar do ano anterior, que alcançou a marca de 3%), o que surpreendeu positivamente os assim chamados “mercados”. A segunda assertiva, depois do “mas”, falou dos senões. O Estado e O Globo alertaram que, com os juros ainda altos, o capital aplicado na produção se retrai, o que não anima ninguém. Na Folha, o destaque negativo foi o declínio da atividade econômica no final do ano passado, prenunciando uma tendência de baixa para 2024.

William Waack - A Lava Jato como assombração

Estado de S. Paulo

A operação foi declarada morta e enterrada, mas seu fenômeno político persiste

O sepultamento jurídico da Lava Jato foi consumado bem antes de a operação completar agora seus dez anos. O enterro político tem se revelado mais difícil.

No lado jurídico, a derrota da Lava Jato apresenta aspectos específicos do campo do Direito, resumidos na frase “não se deve cometer crimes para combater crimes”. Mas envolve uma monumental disputa entre poderes institucionais: qual deles exerceria uma “tutela” sobre sociedade e política.

Como supremo poder, o STF se sentiu acuado e atacado pela Lava Jato e pelo Ministério Público (nem se trata dos rumores em torno de uma “Lava Toga”). Afinal, quem “faz história” e protege uma sociedade hipossuficiente, a que não é capaz de se defender sozinha?

Maria Hermínia Tavares* - Os sonhos sonhos são

Folha de S. Paulo

Centro poderoso ou esquerda radical não são respostas à extrema direita

No debate público sobre o momento político brasileiro há duas posições diferentes em tudo —menos em matéria de desconforto diante do governo de coalizão ampla que o presidente Lula encabeça.

A primeira sustenta que o país vive tempos de polarização política e que o PT no Palácio do Planalto só faz ampliar a divisão que cinde a sociedade e faz dos brasileiros torcedores prontos para o vale tudo.

A segunda posição, reconhecendo a força da extrema direita, prega que a esquerda, dada por morta, vítima de excesso de moderação e escassez de utopia, deva ressuscitar como polo igualmente extremado, radicalmente anticapitalista.

Fernanda Perrin - Bolsonaro, Trump e a Justiça

Folha de S. Paulo

Cálculo delicado entre banir ou liberar candidaturas tem custos dramáticos e pouco conhecidos

Jair Bolsonaro está inelegível. Donald Trump lidera a corrida pela Casa Branca. Frequentemente comparados nos últimos anos, a situação dos dois não poderia ser mais distante hoje, em razão de abordagens opostas adotadas pela Justiça de cada país.

No Brasil, o TSE condenou o ex-presidente por abuso de poder político e uso indevido de recursos públicos e meios de comunicação para fazer campanha. Já nos EUA, a Suprema Corte invalidou na última segunda-feira (4) a tentativa de retirar o republicano da disputa por ter violado uma cláusula constitucional sobre insurreição.

Ruy Castro - Cagões em silêncio

Folha de S. Paulo

Alguns generais de hoje, crianças em 1964, eram das que, em perigo, corriam para as saias da mãe

O presidente Lula afirmou que não irá ficar remoendo o passado a respeito de 1964, porque os atuais generais eram crianças quando o golpe militar aconteceu e não tiveram nada a ver com ele. Tem razão. Como esses generais estão hoje entre os 60 e os 70 anos, tinham então menos de 10, idade em que, segundo Nelson Rodrigues, deviam estar raspando perna de passarinho a canivete. Ou passando mais tempo no banheiro do que estudando.

Por não serem responsáveis por 1964, os generais hoje na ativa não deveriam se sentir herdeiros do golpe e obrigados a defendê-lo das acusações de tortura, execução e desaparecimento de seus adversários. Ao contrário —sem envolvimento emocional com os algozes e vítimas, seu maior interesse deveria ser ilibar as Forças Armadas dessa nódoa, admitindo que foram tais e quais oficiais que cometeram os crimes, e não as Forças em conjunto. O "esprit de corps" de que não se livram só serve para explicar por que, culpado ou inocente, nenhum milico saía fardado às ruas das grandes cidades brasileiras durante a ditadura.

Conrado Hübner Mendes - Dormiu bem, general?

Folha de S. Paulo

Irritometria militar em off é o pico do servilismo jornalístico

No currículo oculto da formação em jornalismo existe uma disciplina chamada "Servilismo ao poder político e econômico". Ensina a prestar serviços privados a quem manda, e a se afastar da produção de qualquer informação útil ao interesse público ou bem comum. Dentro dessa disciplina, há um tópico ao qual o jornalismo brasileiro se dedica com muito gosto e engenho: a irritometria militar.

"Forças Armadas se irritam com revelações da PF sobre participação de militares na tentativa de golpe"; "A irritação da cúpula militar com a investigação da PF sobre o golpe"; "Cresce a irritação das Forças Armadas com atuação da Polícia Federal".

"Militares se irritam com prisão de Cid"; "Entenda o motivo da irritação das Forças Armadas com o caso das joias de Jair Bolsonaro"; "Nova crise provocada por Olavo de Carvalho escancara irritação de militares".

"A irritação das Forças Armadas com o decano do Supremo" (o decano era Celso de Mello, que ousou avisar a militares que, se não fossem depor, seriam levados, como qualquer cidadão, "debaixo de vara"); "A irritação dos militares com Alexandre de Moraes" (o ministro representaria uma "senha da indignação" entre militares).

É um jornalismo orgulhoso do privilégio dessa fonte tão especial, o general. Por isso não se reconhece como jornalismo de fofoca. Na tipologia das fofocas, existe a fofoca BBB (relato de fatos curiosos sobre atores que só se tornam conhecidos em razão da fofoca); e existe a fofoca sobre a vida privada de autoridades ou celebridades (onde a notoriedade dos atores precede a fofoca).

Ricardo José de Azevedo Marinho* - Águas de Março

Em muitas ocasiões, os verões brasileiros trazem a ideia de um devaneio de lazeres, de uma pausa no cotidiano, em que se esperam dias claros, diversão, leitura para alguns e, em todo momento, alegrias proximais emocionais. E no Brasil de hoje, viagens recreativas dentro e fora do país.

De fato o nosso país, que tem uma grande paisagem natural, costuma mostrar que está natureza variada e bela não é, como diz o nosso hino nacional com otimismo, “de amor eterno seja símbolo”, que tem nos faltado esse sentimento, por vezes indo a aspereza, dureza que franze a testa ao Grande Número, justo nos momentos em que menos queremos: no verão.

A esse azedume que nunca foi nosso juntam-se várias pragas e com o aumento do calor que as mudanças climáticas nos trazem, contando também com a ajuda da negligência, do desleixo e do mal, surgem chuvas e queimadas gigantescas e letais, catastróficas, para os quais nunca ninguém está totalmente preparado, a despeito da sua previsão.

É também muito triste quando perdemos mentes como a do Samuel Pinheiro Guimarães Neto (1939-2024) e a de Luiz Jorge Werneck Vianna (1938-2024), personagem que a despeito de suas idades avançadas, continuavam a servir de forma importante a vida democrática do país.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Tapetão eleitoral ...

O presidente Lula passou este ano e meio de mandato em viagens pelo mundo, tratando de assuntos planetários.   Não escapou de imiscuir-se em searas alheias.  Chegou a anunciar uma moeda nova para substituir o dólar no comércio internacional, defendeu o aumento o número de membros do Conselho de Segurança da ONU, palpitou sobre a invasão da Ucrânia e sobre a resposta de   Israel ao Hamas, prometeu financiamentos para a África e para a América Latina. Internamente, deixou entender que pretende disputar sozinho as próximas eleições presidenciais, como Putin, Maduro e Ortega, retirando concorrentes da corrida eleitoral. 

Seus escorregões retóricos, inciativas e opiniões intempestivas estão mostrando a distância do que pensa das promessas da campanha eleitoral de 2022. Algumas afirmações   deveriam constar, não apenas de uma agenda transparente, mas até serem submetidas a consultas públicas, no mínimo, ao Congresso Nacional. Se não se cuidar seu comportamento meio leviano tende a complicar-se nas eleições municipais de outubro. O País parece aproximar-se de uma crise de confiança no campo econômico, mesmo diante do anunciado crescimento de 2,9% do PIB de 2023, amparado no amaldiçoado agronegócio.

Poesia | Tabacaria, de Fernando Pessoa

 

Música | Adoniran Barbosa - Despejo na Favela