domingo, 10 de março de 2024

Ruy Castro - Justiça para Messi, o cachorro do filme 'Anatomia de uma queda'

Folha de S. Paulo

O Oscar está a ponto de cometer a maior injustiça contra um ator desde que negou o prêmio a Rin-Tin-Tin

Em reportagem de Fernanda Talarico, fico sabendo que o grande injustiçado do Oscar deste domingo (10) será um cachorro. Trata-se de Messi, o border collie do filme "Anatomia de Uma Queda", da francesa Justine Triet. É um drama de tribunal em que ele interpreta Snoop, um cão superdotado. O mundo gira e o Oscar não se livra de seu formalismo. Pelo simples fato de ser cachorro, Messi não pode concorrer ao Oscar de melhor ator —talvez para alívio de Ryan Gosling e Jeffrey Wright e certamente de Robert De Niro, candidatos ao prêmio.

Com a avançada idade de oito anos na vida real, Messi estréia na tela e já é considerado a maior revelação animal do cinema desde Flipper, o golfinho que nadava de costas, dava gargalhadas e falava francês. O nome é uma homenagem a Lionel Messi, claro, e os dois ainda não foram apresentados porque o craque teme ser ofuscado por seu xará canino. É um risco que ele pode correr pelo que se viu há pouco numa entrevista coletiva em Cannes, quando Messi deu um baile em seus colegas de elenco.

Cacá Diegues - A esplêndida história da Humanidade

O Globo

Somos constantemente ameaçados pelas mudanças climáticas que nós mesmos provocamos, a população do planeta segue crescendo e não temos como evitá-lo, as guerras destrutivas como as da Ucrânia e no Oriente Médio se repetem por toda parte, parece até que curtimos essas desgraças 

Acabo de mandar uma mensagem eletrônica para um grande amigo meu que sabe dessas coisas. Eu lhe dizia que os sinos da Academia estão batendo até agora com grande euforia por causa da eleição de Lilia Schwarcz. Ela é a mais nova acadêmica e ocupa a cadeira nº 9, onde esteve o querido Alberto da Costa e Silva, que nos honrou e ensinou durante anos com seus conhecimentos obtidos com a Diplomacia, na Literatura e na História do Brasil. “Minha candidatura é uma homenagem ao dr. Costa e Silva”, disse ela com modéstia, “ele sempre foi meu pai espiritual, meu pai intelectual, gostaria muito de seguir seus passos, e a ABL é fundamental para isso, como é fundamental para nossa memória nacional”. Os sinos continuam portanto a bater.

Poesia | Amigo, de Pablo Neruda

 

Música | "O navio negreiro" – Slim Rimografia

 

sábado, 9 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Operações policiais no Rio apontam rumo contra o crime

O Globo

Cooperação entre polícias levou a apreensão de arsenal. Inteligência financeira desfez esquema de bicheiro

Duas operações policiais deflagradas ontem no Rio mostraram a importância do planejamento, das investigações robustas e da integração entre as diversas forças de segurança com o Ministério Público para o sucesso no enfrentamento das organizações criminosas. Uma delas conseguiu interceptar um comboio de milicianos na Avenida Brasil, levando à prisão de 15 criminosos e à apreensão do arsenal em poder dos bandidos. A outra, que teve como alvo o bicheiro Bernardo Bello, mirou o esquema de lavagem de dinheiro do contraventor.

A operação na Avenida Brasil aconteceu na madrugada de quinta-feira, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Graças ao trabalho de inteligência, equipes das polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal (PRF) interceptaram um “bonde” formado por 16 milicianos em quatro carros roubados. A quadrilha participara de um confronto numa favela da região controlada pela milícia e disputada pelas facções Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA). Com o bando, foram apreendidos 12 fuzis, 58 carregadores, duas granadas, sete pistolas e mais de 1.500 projéteis — uma das armas tinha o brasão da polícia de Miami, nos Estados Unidos. Foram recolhidos também coletes à prova de bala e uniformes falsos das polícias. Seis suspeitos foram baleados nas ações.

Oscar Vilhena Vieira* - 'Tô nem aí'

Folha de S. Paulo

PM matou 94% a mais na Baixada Santista, mas governador não está preocupado

"Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí (sic)". É o que brada o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, após a Conectas Direitos Humanos e a Comissão Arns denunciarem à ONU as operações letais e a escalada da violência policial na Baixada Santista.

Mas o governador está tranquilo.

O número de pessoas mortas por policiais militares em serviço na Baixada Santista aumentou em 94% no primeiro bimestre de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério Público Estadual de São Paulo.

Hélio Schwartsman - Biden fala grosso

Folha de S. Paulo

Para contrapor-se à imagem de velho, presidente faz discurso incomumente forte ao Congresso

Joe Biden sentiu o golpe. A tentativa de Donald Trump de associar a imagem do atual presidente à de um velho decrépito parece estar pegando. Para contrapor-se a isso, Biden fez um discurso sobre o estado da união incomumente forte, no tom e no conteúdo. Bateu em Trump, lembrou a insurreição de 6 de janeiro de 2021, explicou sua política externa e abordou explicitamente o problema da idade. Em suma, fez de tudo para mostrar-se como o exato oposto de um velhinho confuso e indefeso.

Dora Kramer - Não é só a economia

Folha de S. Paulo

Estilo sem filtro e prioridade ao mundo contam muito na queda de Lula nas pesquisas

Enquanto caem as avaliações positivas do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) em praticamente todos os itens e segmentos, como registrado nesta semana em duas pesquisas (Quaest e Atlas), a economia exibe bons índices no macro: inflação, PIB, desemprego. No cotidiano, a carestia segue no comando.

Isso explica em parte, mas não destrincha com exatidão o mapa do campo minado para um presidente que saiu consagrado do segundo mandato e completa um ano do terceiro em queda no gosto do brasileiro. Mostra, primeiro, que a economia não é tudo. Na realidade, nunca foi, dependeu sempre da política, pois sem que um governo disponha de condições políticas favoráveis não há condução econômica que se sustente. Ao menos é assim nas democracias.

Adriana Fernandes - Banqueiros e a PEC da autonomia financeira do BC

Folha de S. Paulo

Preocupação é que autonomia orçamentária coloque ‘política’ dentro da instituição

Banqueiros manifestaram desconforto com o risco de a PEC que dá autonomia orçamentária e financeira ao Banco Central colocar a "política" dentro da instituição.

A preocupação é que a PEC acabe vinculando, na prática, o BC ao Senado, dando margem para interferências dos parlamentares no órgão, que é responsável pelas políticas monetária e cambial, além de regular e fiscalizar a atuação das instituições financeiras no Brasil.

Em outras palavras, que o Banco Central fique dependente do Congresso até mesmo para nomeações de cargos dentro do banco.

Demétrio Magnoli - No jogo da raça

Folha de S. Paulo

Políticas de cotas raciais espalham o gás tóxico do racismo no meio do povo

Cerca de dez anos atrás, um candidato ao ensino superior que teve sua autodeclaração racial negada por um tribunal racial ("comissão de heteroidentificação", segundo a novilíngua da burocracia identitária) solicitou meu auxílio para reverter a sentença. Neste ano, 204 candidatos à USP recorrem contra negativas similares, inclusive o pardo Alison Rodrigues, que perdeu a vaga em medicina e ingressou com ação judicial.

Nenhum deles fez contato comigo, mas atualizo a resposta pessoal que ofereci no passado. Talvez ela interesse a dezenas de milhares de jovens, Brasil afora:

Prezado candidato, não posso ajudá-lo. Você entrou num jogo com regras subjetivas, arbitrárias. É impossível comprovar objetivamente sua raça, pois raças humanas não existem.

Bolívar Lamounier* - A democracia à mercê de irresponsáveis

O Estado de S. Paulo

Crises tão portentosas como as que vivem EUA e Brasil não brotam naturalmente da terra, dos sofrimentos e angústias que atormentam os desprovidos da sorte

Em janeiro de 2021 e, novamente, em janeiro de 2023, duas das maiores democracias do mundo sofreram agressões muito parecidas com o que normalmente designamos como tentativa de golpe de Estado.

Em janeiro de 2021, a agressão ocorreu nos Estados Unidos, orquestrada por este mesmo senhor, Donald Trump, que a Suprema Corte norteamericana, por uma unanimidade de nove votos a zero, considerou elegível. A Corte baseou-se na 14.ª emenda à Constituição, mas o fator que mais pesou na decisão, salvo melhor juízo, foi a série de retumbantes vitórias de Trump nas primárias do Partido Republicano. À primeira vista execrável, tal decisão comporta duas outras leituras. Uma, o desejo de evitar uma crise política de extrema gravidade, na hipótese de os magistrados se posicionarem contra uma candidatura aparentemente endossada por uma ampla maioria dos cidadãos. Outra, a norma jurídica in dubio pro reo: havendo margem para dúvida – ou seja, não se tendo absoluta certeza de que a arruaça promovida por trumpistas às portas do Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021 –, a Corte teria mesmo de votar a favor dele.

Dom Odilo P. Scherer* - Uma aposta perigosa

O Estado de S. Paulo

Não se torna boa, mediante a legalização, uma prática ilegal, ilícita e maléfica como os jogos de azar, que gera graves danos e sofrimentos humanos

No Congresso Nacional tramita há mais de 30 anos o Projeto de Lei (PL) 442/1991, sobre a legalização dos jogos de azar. Depois de várias tentativas frustradas de aprovação, o PL 442/91 foi novamente retomado com força total e já passou pela Câmara dos Deputados, esperando ser apreciado e votado no Senado.

Ao que tudo indica, além da pressão de grupos interessados na legalização dos jogos de azar no Brasil, desta vez a busca de arrecadação para o erário poderia levar vento favorável aos militantes da causa. De fato, um dos argumentos invocados é de que a aprovação do PL 442/91 poderia contribuir para o cumprimento das metas de arrecadação do governo.

Pablo Ortellado - Avanço na proteção ao trabalho

O Globo

Motoristas passarão a ter acesso aos benefícios do INSS

Depois de mais de um ano de debate, o governo Lula finalmente enviou ao Congresso o Projeto de Lei que regulamenta o trabalho por aplicativos de transporte, como Uber e 99. O texto mantém o caráter autônomo desse tipo de trabalho, estabelece um piso de remuneração equivalente ao salário mínimo e garante ao trabalhador os direitos que advêm da contribuição ao INSS.

Apesar das limitações, o projeto é um avanço na proteção ao trabalho e dá segurança jurídica para a atuação das empresas. Para ter a dimensão desse tipo de trabalho, apenas a Uber tem 1 milhão de motoristas cadastrados. Isso é mais que o total dos que trabalham para os dez maiores empregadores do país, como Itaú, Correios e BRF.

Carlos Alberto Sardenberg - Uma bandeira a reerguer: a anticorrupção

O Globo

Repararam que ninguém fala dos atos concretos de corrupção, das confissões e, sobretudo, do dinheiro devolvido?

O tiro fatal contra a Lava-Jato foi disparado pelo juiz símbolo da operação — Sergio Moro, quando aceitou ser ministro da Justiça de Bolsonaro. Sendo generoso, havia atenuantes favoráveis à escolha de Moro. O então futuro presidente entregara tudo, o controle da Polícia Federal, de todo o sistema de segurança pública e das movimentações financeiras. Mais a garantia de apoio aos ambiciosos projetos de combate à corrupção.

A República de Curitiba, tão temida por boa parte da elite política, se instalaria em Brasília.

Avaliação equivocada de Moro. Primeiro, Bolsonaro já não era de confiança, mesmo porque ele e seus filhos tinham rolos na Justiça e na polícia. Seu comportamento nunca foi de um republicano, mas de desconfiança em relação às instituições, a começar pelo Judiciário. Não demorou muito para Bolsonaro reclamar da PF de Moro e conseguir uma PF para chamar de sua.

Eduardo Affonso - O liberal, esse desconhecido

O Globo

Liberais deram ao Brasil o Plano Real, que botou freio na inflação, castigo tão mais cruel quão mais baixa a renda

Imagine alguém a favor da igualdade de gênero, de plenos direitos para casais homoafetivos (incluindo adoção), do Estado laico (com o fim dos privilégios fiscais concedidos a “igrejas”), da descriminalização das drogas e do aborto, da legalização da eutanásia, da opção por fontes limpas e renováveis de energia — e, ainda assim, considerado de direita.

Pense agora em alguém que defenda a autorregulação do mercado, a privatização das estatais, a liberdade de expressão, a redução da maioridade penal, a implantação de normas de compliance em todo o setor público, o empreendedorismo, o capitalismo como única forma de criação de riqueza — e que, ainda assim, volta e meia seja chamado de esquerdista.

Muito prazer: esse cara sou eu, um liberal — em época de eleição, também conhecido pela pouco lisonjeira alcunha de “isentão”. Um gênero fluido: à esquerda se a referência for um bolsonarista; à direita se for um petista o parâmetro.

Cláudio Couto* - Reforma para quem?

CartaCapital

As propostas de mudança no sistema eleitoral atendem mais aos políticos do que aos eleitores

Recente levantamento da CNN Brasil mostra que, desde a aprovação da reeleição para as chefias do Executivo, ao menos 57 propostas de emenda constitucional para acabar com o instituto foram apresentadas. Não obstante, ele continua aí. Também tem sido frequente que presidenciáveis de oposição se manifestem contra a proposta. Os que se elegeram, contudo, logo abandonam a ideia. Foi assim com Lula em 2002 e Bolsonaro em 2018. Idem o governador gaúcho, Eduardo Leite, que se manifestara contra a reeleição antes de se tornar chefe de governo no Rio Grande do Sul e acabou optando por disputar um segundo mandato – e conseguiu. Agora, Leite volta a defender o fim do instituto ao lado de seus colegas presidenciáveis do Consórcio Sul-Sudeste, Romeu Zema e Ratinho Júnior. Ambos, aliás, reeleitos para o governo de seus estados.

Desta feita, a proposta de extinguir o instituto ganha impulso adicional, pois tem sido defendida pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que tem poder de agenda no processo legislativo ­congres­sual. O senador colocou-a como pauta prioritária da casa que preside para este ano, aproveitando o embalo da discussão de um novo código eleitoral, relatado pelo colega Marcelo Castro. E ela se faz acompanhar de outra velha ideia muitas vezes brandida por integrantes de nossa classe política, mas nunca aprovada: a de unificar todas as eleições num único pleito.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Keynes, filósofo moral

CartaCapital

Ele insistia na direção inteligente, pela sociedade, dos mecanismos profundos que movem os negócios

Peço licença (ou desculpas) aos leitores de nossa ­CartaCapital: vou reapresentar uma de minhas obsessões prediletas. Diante da soberba “científica” de alguns economistas, arrisco minha reputação para celebrar os escritos de um filósofo moral que embrenhou sua sabedoria nos áridos territórios da Economia.

No artigo de 1930, “As Possibilidades Econômicas dos Nossos Netos”, Keynes projeta a vida social que pode nascer do avanço tecnológico e da rápida acumulação produtiva. O capitalismo, diz ele, criou as condições para a superação das limitações impostas milenarmente à satisfação das necessidades básicas dos indivíduos. Criou, mas não entregou.

Nesse texto perturbador para o ethos da sociedade aprisionada nas engrenagens da concorrência, Keynes escreve: “Devemos abandonar os falsos princípios morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características humanas mais desagradáveis na posição das mais elevadas virtudes. Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem um calafrio… Pois, fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir… Se avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes… Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”.

Marcus Pestana* - Os desafios dos novos gestores municipais

Acreditando que as eleições de outubro não se perderão em um mar de ofensas, agressões e fakenews, nem na nacionalização artificial do processo eleitoral, e que o centro da discussão será o futuro das cidades e de sua gente, gostaria de pontuar alguns temas que me parecem essenciais e urgentes serem debatidos. Afinal, eleições na democracia deveriam, em tese, ser momento privilegiado de avaliar o passado e o presente da sociedade e suas interfaces com as políticas públicas, e, a partir disso, projetar o futuro desejado. E o êxito do horizonte escolhido depende essencialmente da eleição de bons prefeitos e vereadores. Não basta ter ideias claras, criativas, consistentes e exequíveis, mas é essencial também capacidade administrativa, habilidade política e um padrão de financiamento compatível com o programa de governo. 

Poesia | O tempo passa? Não passa, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Teresa Cristina - Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola

 

sexta-feira, 8 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

São inexplicáveis os afagos de Lula à ditadura de Maduro

O Globo

Não tem cabimento comparar casos do próprio petista e de oposicionista venezuelana impedida de concorrer

Dos dez países com que o Brasil faz fronteira, a Venezuela é o que mais gera dores de cabeça. Garimpeiros ilegais usam o território venezuelano quando a fiscalização aumenta em terras indígenas e voltam ao brasileiro quando diminui. Grupos criminosos atuam nos quase 3 mil quilômetros de divisa, e venezuelanos têm buscado o Brasil para escapar da crise humanitária provocada pelo regime chavista. Ameaças recentes de invasão da Guiana fizeram ressurgir o espectro de um conflito armado a poucos quilômetros de Roraima e Amazonas. Por fim, brasileiros e venezuelanos ainda têm a responsabilidade de coordenar esforços pela preservação da maior floresta tropical do mundo.

Com uma agenda dessas, é compreensível que o presidente do Brasil seja obrigado a estabelecer uma relação produtiva com a liderança venezuelana, ainda que se trate de um regime autoritário. Somente com canais abertos e um ambiente de cooperação, os interesses brasileiros podem avançar. Mas isso nada tem a ver com a atitude benevolente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva perante os desmandos do ditador Nicolás Maduro. A condescendência com o regime chavista, que Lula não perde a oportunidade de expressar, contradiz sua própria biografia e ofende a memória dos brasileiros que lutaram e lutam pela democracia.

Fernando Abrucio* - Contra o reformismo ilusionista

Valor Econômico

O caminho é construir um modelo baseado em bons diagnósticos, com visão sistêmica e contextual dos problemas e, geralmente, com alterações incrementais das instituições

O Senado federal discute agora uma proposta de fim da reeleição para os cargos do Executivo e de junção de todas as eleições - municipal, estadual e federal - num só pleito. Se a base para avaliar tais medidas for o senso comum, é preciso aprovar essas leis. Mas, se as evidências científicas forem a bússola da decisão, essas reformas são completamente equivocadas. Todo esse debate, no entanto, tem uma utilidade: mostrar que o Congresso Nacional precisa ouvir mais os especialistas e a sociedade antes de fazer grandes alterações legislativas, pois o que parece ser uma solução mágica pode ser apenas ilusionismo.

O novo projeto de reforma política, centrado na extinção da reeleição, não é o único caso daquilo que chamo de reformismo ilusionista. A proposta de reforma administrativa em discussão na Câmara, que promete aumentar a eficiência e cortar gastos, sofre do mesmo mal. Outros projetos recentes, como o que pretende acabar com a “saidinha” dos presos, também é outro caso em que a legítima reação contra alguns bandidos que fogem e cometem novos crimes produz magia reversa: a decisão vai aumentar a sensação de inferno que predomina nas penitenciárias, favorecendo o poderio das facções criminosas.

O reformismo ilusionista contém quatro características básicas. Em primeiro lugar, busca soluções que aparentam ter um impacto amplo e imediato, quase num passe de mágica. Nesse modelo, o legislador acredita que acabar com a reeleição vai alterar, já no período subsequente, a qualidade da ação dos governantes, que não pensarão mais em eleições e se concentrarão em governar. O ilusionismo não permite dúvidas sobre o dia seguinte, nem um caminho mais gradual de mudança. Sua força política está em ser simples, e sua debilidade encontra-se no simplismo de sua proposição.

José de Souza Martins* - As brechas autoritárias da organização política

Valor Econômica

As frequentes violações dos direitos humanos pelas polícias e a fragilidade da segurança refletem suas origens na cultura da repressão à senzala

O fim da ditadura militar (1964-1985) não representou o fim da baderna estrutural. A de que ela foi expressão, a que dotara o país de uma organização política anômala e desfavorável à democracia.

A coisa vem de longe. Desde, pelo menos, a independência. A constituição do Estado brasileiro tem uma característica que o distancia do que é próprio do verdadeiro Estado moderno, que na Europa nascia quando houve aqui o Grito do Ipiranga. O que deu nascimento a um Estado brasileiro antimoderno, baseado no poder do atraso, um tipo como contrapartida do outro.

As anomalias retrógradas e autoritárias do período presidencial encerrado em dezembro de 2023 se determinam pela estrutura defeituosa desse passado que persiste e resiste. Somos muito atrasados achando que somos muito modernos.

César Felício - O que fez a diferença entre 64 e Bolsonaro

Valor Econômico

Falta de comando militar do golpismo moderno foi fundamental para insucesso

Os golpes de Estado, ou tentativas dele, se dividem em sua tipologia própria, mas todos se parecem. Reeditar 1964 sempre foi uma aspiração do ex-presidente Jair Bolsonaro e do grupo de militares que o cercou no poder, e há elementos de que ele o tentou pelo menos duas vezes, de acordo com uma especialista na ruptura de março de 60 anos atrás, a historiadora mineira Heloisa Starling. A pesquisadora lança nesta sexta-feira o livro “1964: Como foi desmontada a democracia no Brasil”, pela Companhia das Letras. Para ela, bebeu-se da mesma fonte.

Há basicamente dois tipos de golpe: a Quartelada e o Pronunciamento. Em comum, ambos têm uma primeira fase, que é a da conspiração. O desfecho é um só: a ruptura institucional por meio da ação da caserna. A Quartelada se dá com as ruas em silêncio. O Pronunciamento tem como segunda fase a criação de um ambiente de desordem, de um clamor popular pela intervenção militar, forte o suficiente para revesti-la de legitimidade.

Maria Cristina Fernandes – Tarcísio contorna cerco jurídico ao bolsonarismo

Valor Econômico

Com projeto para criar programa de escolas cívico-militares, Tarcísio aposta na resiliência dos valores do bolsonarismo

A decisão do governador Tarcísio de Freitas de mandar o projeto de lei que cria o programa de escolas cívico-militares é uma demonstração de como o bolsonarismo investe para contornar, pela política, o cerco jurídico-policial.

Há generais que arriscam a se sentar no banco dos réus pelo envolvimento no golpismo que vandalizou a Praça dos Três Poderes no 8 de janeiro a despeito do batalhão estacionado no subsolo do Palácio do Planalto.

Num momento em que a cúpula legalista das Forças Armadas se esforça para se dissociar do bolsonarismo, eis que o governador paulista pauta um projeto para valorizar a disciplina militar como valor pedagógico.

Luiz Carlos Azedo - PL avança na Câmara ao presidir comissões estratégicas

Correio Braziliense

No comando da CCJ, Caroline de Toni quer acabar com a cota das mulheres nas eleições e é contra a descriminalização do aborto

Não adianta tapar o sol com a peneira. O Palácio do Planalto sai das eleições para o comando das comissões da Câmara enfraquecido e com problemas encomendados pela frente. Os resultados sinalizam uma aliança do Centrão, principalmente do PP do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), com o PL, que mira a sucessão no comando da Casa. Comissões estratégicas para o governo estão sob controle do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Arthur Lira até tentou demover o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, da indicação, substituindo-a por um nome mais moderado. Entretanto, o fato de ser a parlamentar que mais votou contra o governo nesta legislatura, segundo levantamento exclusivo do Radar do Congresso — ferramenta de monitoramento do site Congresso em Foco —, pesou na decisão do PL. Ela votou contra o governo em 72% das matérias apreciadas pela Câmara. Somente a deputada Julia Zanatta (PL-SC), também de seu estado, tem o mesmo percentual. Na Câmara, a média de aprovação das matérias do governo pelos deputados chega a 80%.

Vinicius Torres Freire - Investimento recorde das montadoras?

Folha de S. Paulo

É preciso discutir também os subsídios, maior que o valor anunciado pelas empresas

As montadoras têm anunciado investimentos grandes. A primeira reação de muita gente, a deste jornalista inclusive, é de ligeiro otimismo, dado o atoleiro em que o país se meteu desde 2014. Mas, por melhor que seja a perspectiva, não é bem assim.

Para começar com o mais "pop", dificilmente se trata de recorde. Pelos números compilados pela Anfavea, a associação das montadoras, os investimentos anunciados para os anos que vão de 2021 a 2032 chegam a pouco mais de R$ 116 bilhões.

Até aqui, "...o período do programa Inovar-Auto [de subsídios federais], de 2012 a 2018, era o de maior volume de aportes, com R$ 85 bilhões", também de investimentos anunciados, lê-se em nota da Anfavea.

Como não se sabe quanto foi o investimento em cada ano de 2012 a 2018, fica difícil corrigir valores pela inflação e compará-los com os anúncios atuais.

André Roncaglia - O risco Biden assombra o governo Lula

Folha de S. Paulo

Queda na avaliação mostra dissonância entre indicadores e sentimento das pessoas

As eleições nos EUA neste ano mostram um cenário preocupante para o presidente democrata, Joe Biden. Apesar de uma economia pujante, com desemprego em mínimas históricas e inflação em queda, Biden amarga um segundo lugar nas intenções de voto.

Guardadas as diferenças entre as sociedades, o risco Biden pode ameaçar o governo Lula, cuja popularidade vacila sob o peso das expectativas de reversão do desastre causado por Bolsonaro.

Pesquisa Quaest publicada nesta semana revela a crescente insatisfação do eleitorado e a percepção de que a economia piorou nos últimos 12 meses. Contudo, reportagem da Folha mostrou que o governo Lula tem bom desempenho em 66 dos 90 quesitos avaliados.

Dora Kramer - Supermulher no autoengano

Folha de S. Paulo

Vivi a ilusão de que o machismo não me atingia, até que atingiu

Durante muito tempo vivi a ilusão de que o machismo não me atingia, num misto de arrogância e negacionismo que fui obrigada a reconhecer para depois abandonar porque vi: a coisa só não me alcançaria até que alcançou.

Hoje, em retrospectiva e cada vez mais percebo a presença do menosprezo à mulher, apenas por sua condição feminina. Há léguas a percorrer antes que possamos descansar num ambiente de igualdade real, efetiva, reconhecida e, sobretudo, praticada.

Vinha poderosa na carreira sem maiores obstáculos até me deparar com o parceiro supostamente encantado exatamente pelo sucesso profissional daquela nova companheira tão bem-sucedida.

Eliane Cantanhêde - Caldeirão fervente

O Estado de S. Paulo

Dificilmente a reforma tributária será regulamentada em 2024. Culpa do governo e Congresso

Assim como o governo prometeu e dificilmente entregará o déficit zero em 2024, vai ficando cada vez mais difícil, deslizando para o improvável, a votação da regulamentação da reforma tributária. Tão louvada, a reforma pode chegar incompleta a 2025 e a culpa é tanto do governo quanto do Congresso, que insiste em guerrear também com o STF e contra a própria imagem.

O governo tem culpa por ter perdido o timing. Fernando Haddad, da Fazenda, ficou confrontando o Congresso com a MP que reonerava a folha de pagamentos e o setor de eventos, foi obrigado a recuar dos dois e negligenciou a regulamentação da reforma tributária. Agora, Haddad promete enviar os projetos de regulamentação da reforma até o fim de março, mas...

Depois da abertura do ano legislativo, veio carnaval, agora vêm Semana Santa, janela para troca-troca de partidos sem punição e desincompatibilização de prefeitos e ministros candidatos em outubro. E tem mais: festas de São João em junho e julho, atraindo bancadas inteiras, principalmente do Nordeste, e começa o recesso de julho.

Flávia Oliveira - O atraso do atraso

O Globo

Enquanto francesas celebram, brasileiras padecem. Por todos os lados

A semana apenas começava, quando a boa-nova vinda do outro lado do Atlântico se espalhou. A França, em votação maiúscula no Parlamento (780 votos em 852), aprovara incluir no texto constitucional o direito de mulheres interromperem a gravidez. Havia meio século que as francesas tinham autorização para abortar via lei específica. A inscrição na Carta Magna, inédita no planeta, sedimenta a garantia. Tão logo seja promulgada, provavelmente neste Dia Internacional da Mulher, não mais haverá risco de flutuar ao sabor de governos, ventos ideológicos, arroubos morais, convicções religiosas. É muito mais difícil — ao menos lá — mexer na Constituição, comentou uma emocionada Comba Marques Porto, feminista histórica, com papel importante na formatação da Carta de 1988 como membro do Conselho Nacional da Mulher.

Não apenas nas ruas de Paris, mas mundo afora, ativistas, organizações feministas, profissionais de saúde, estudantes, políticas, gente comum celebraram a mudança aprovada em Versalhes. A decisão legislativa, abraçada pelo presidente Emmanuel Macron em publicação imediata em rede social, foi vista como reafirmação do Estado laico. E içada contraofensiva a um ambiente global crescentemente conservador, que avança — ou tenta — sobre direitos sexuais e reprodutivos de mulheres, a começar pelos Estados Unidos, onde a Suprema Corte reviu, em 2022, decisão que garantia o direito ao aborto havia 49 anos.

Vera Magalhães - Lula está com um foco, e o povo, com outro

O Globo

Presidente resolveu falar a seu público mais convertido, enquanto pesquisas apontam corrupção e segurança como maiores preocupações dos brasileiros

Uma das piores coisas que podem acontecer a um governo é um presidente experimentado, que passou a vida sendo louvado pelo tino político e pela forma intuitiva como governa, se ver defendendo pautas e prioridades completamente desconectadas daquelas que a população considera mais importantes.

É o que parece estar acontecendo com Lula, sobretudo neste início de ano. Outro fator que agrava a situação e atrapalha a possibilidade de o governo corrigir a rota é haver poucos expoentes do entorno próximo do presidente com senioridade e coragem para dizer a ele que está errando e deveria rever o rumo.

No primeiro mandato, o círculo próximo ao petista era composto de pessoas que tinham intimidade com ele e autoridade política para confrontar algumas de suas decisões. Independentemente do que aconteceu com eles em investigações posteriores, Luiz Gushiken, José Dirceu e Antonio Palocci, entre outros, tinham cacife para confrontar as certezas sempre veementes que fizeram Lula chegar aonde chegou na política, mas nem sempre são o melhor caminho no exercício da Presidência.

Bernardo Mello Franco - Novos palcos para o extremismo

O Globo

Fora do governo, bolsonaristas se organizam para transformar comissões da Câmara em trincheiras de guerra cultural

Caroline de Toni foi uma aluna esforçada de Olavo de Carvalho. O guru do bolsonarismo morreu, mas ela segue fiel à sua cartilha. Investe na radicalização ideológica, no armamentismo e na tática da guerra cultural.

A deputada do PL vai presidir a Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante da Câmara. A escolha não é caso isolado. Fora do governo, a extrema direita se organizou para ocupar novos palcos. Comandará os colegiados que debatem educação, segurança, temas da família.

De Toni integra a bancada dos detratores do Supremo. Já acusou o tribunal de chefiar uma “ditadura judicial” e pediu a destituição do ministro Alexandre de Moraes. Seus ataques têm um quê de autodefesa. Ela era próxima ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado por ameaças à Corte, e chegou a ser investigada por ligação com atos antidemocráticos.

Frequentadora de clubes de tiro, a olavista costuma divulgar fotos de fuzil a tiracolo. No ano passado, apresentou projeto para permitir que os estados legislem sobre a liberação de armas de fogo. A ideia já foi declarada inconstitucional.

Fabio Giambiagi – Nunca mais

O Globo

Os políticos deveriam deixar claro que não há outra atitude diante daquelas aberrações que não um repúdio veemente

Há algo muito errado com o Brasil. O contexto histórico da época (o que os alemães chamam de zeitgeist), marcado por diversos escândalos, explica que em 2018 o país tenha escolhido um presidente como Bolsonaro.

É espantoso, porém, para uma nação que pretenda se definir como tal, seguindo as palavras de Ortega y Gasset (“uma nação é um projeto de vida em comum”), que não haja uma condenação clara às barbaridades perpetradas por aqueles que, sem sombra de dúvida, tramaram um golpe de Estado na transição entre 2022 e 2023.

O fato de que, em função do receio de “cancelamento” por parte dos cangaceiros das mídias sociais, uma parte do corpo político do país conserve a ambiguidade diante daquelas manifestações criminosas revela que a nação está, em parte, doente.

Se aquele bando que tentou “virar a mesa”, revertendo o resultado das eleições e subvertendo a ordem constitucional, fez o que fez, foi por entender que forças relevantes do país iriam amparar tais disparates.

Janaína Figueiredo - Milei faz Argentina de laboratório

O Globo

Milei aplicou sua serra elétrica e quem está pagando o custo de sua decisão não é a casta política, são os setores mais vulneráveis

Buenos Aires - Em recente artigo intitulado “Uma situação perigosa”, o economista salvadorenho Manuel Hinds, que comandou a pasta de Economia em 1979 e de Finanças entre 1995 e 1999, considerado um dos ideólogos da dolarização em seu país, analisou o programa econômico do presidente da Argentina, Javier Milei, e utilizou uma metáfora que pode parecer exagerada, mas não é.

Hinds, que por questionar o governo de Nayib Bukele foi perseguido e hoje vive exilado na Europa, comparou a Argentina com uma fazenda, na qual o dono, de uma hora para a outra, decide deixar de alimentar seus animais para reduzir custos e equilibrar contas. “Depois de alguns meses, a alimentação dos animais é retomada, com a esperança de que eles ainda estejam lá, e de que esta horrível solução não tenha de voltar a ser aplicada”, escreveu o economista, até pouco tempo atrás admirado por colegas que assessoram o presidente argentino.

Venezuela convida UE, ONU e EUA e outras organizações para observar as eleições

Por O Globo e agências internacionais 

Data da eleição presidencial foi anunciada para 28 de julho; Maduro tentará reeleição, mas principal opositora está inabilitada

Caracas - A União Europeia (UE), o Centro Carter, dos Estados Unidos, e um painel de especialistas das Nações Unidas estão entre os convidados para observar as eleições presidenciais da Venezuela, marcada para 28 de julho, nas quais o presidente Nicolás Maduro deverá tentar a reeleição. A UE enviou uma missão em 2021 para as últimas eleições de governadores e prefeitos, enquanto o Centro Carter e a ONU também enviaram painéis de especialistas.

— Estendemos um convite para que participem como observadores eleitorais, desde que cumpram os requisitos e regulamentos constitucionais e legais estabelecidos — afirmou o presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Elvis Amoroso, em declarações à imprensa nesta quinta-feira.

A data da eleição presidencial foi anunciada há dois dias para daqui a quase cinco meses, um prazo que, segundo especialistas, dificultaria uma missão de observação europeia, que ainda não se pronunciou sobre o convite.

Nelson Motta - Tom Jobim, a crônica de um musical

O Globo

Como incluir umas 25 composições em umas duas horas e meia de espetáculo sem deixar de fora canções belíssimas assinadas pelo maestro soberano?

Muito animado com o início da produção de “Tom Jobim, o musical”, que escrevi junto com Pedro Brício e será dirigida por João Fonseca, parceiro do megassucesso “Vale tudo, o som e a fúria de Tim Maia”, que ficou três anos em cartaz.

Já temos um texto “final”, que na verdade não é final nunca e vai sendo transformado até a estreia e mesmo depois da estreia vai sendo ajustado, e em breve começarão os testes de elenco, de atores, cantores, bailarinos, músicos, que viverão Tom, Vinicius de Moraes, que será uma espécie de narrador, Teresa Hermanny, a primeira mulher, Ana Jobim, a musa eterna até o fim, a filha Maria Luisa, João Gilberto, Elis Regina, e muitos personagens que contam a história gloriosa de Tom Jobim, “o” musical, o maestro soberano, e suas músicas maravilhosas.

Poesia | O sonho, de Clarice Lispector

 

Música | Teresa Cristina - Meu mundo é hoje, de Paulinho da Viola