sábado, 16 de novembro de 2024

Um manifesto certeiro - Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Sindicatos e partidos condenam a pressão do mercado para o governo cortar despesas sociais e investimentos

“Mercado financeiro e mídia não podem ditar as regras do País” proclama o Manifesto assinado por sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos.

Já no parágrafo de abertura, o ­texto dos inconformados vai ao cerne da orquestração financeira e midiática: “­Temos acompanhado, com crescente ­preocupação, notícias e editoriais na mídia que têm o objetivo de constranger o governo federal a cortar ‘estruturalmente’ recursos orçamentários e outras fontes de financiamento de políticas públicas voltadas para a saúde, a educação, os trabalhadores, aposentados e idosos, bem como os programas de investimento na infraestrutura para o crescimento”.

Mal-estar da civilização e a democracia em xeque (II) - Marcus Pestana

Há uma agenda desafiadora a ser enfrentada nesses últimos três quartos de Século XXI, englobando crescimento econômico, combate às desigualdades, sustentabilidade ambiental, solução para conflitos regionais como os da Ucrânia e do Oriente Médio, redesenho da globalização com a geração de soluções compartilhadas envolvendo problemas complexos como as grandes correntes de imigração e a integração econômica menos excludente e concentradora.

Enquanto governos autoritários avançam em soluções, já que conseguem unilateralmente adotar medidas sem nenhum debate democrático, freios, contrapesos e controles sociais, a democracia patina em produzir resultados para a população, entre outros motivos, pela dificuldade de governabilidade, num ambiente caracterizado pela fragmentação social e a consequente pulverização partidária e parlamentar, o que impossibilita ações mais assertivas, ousadas e profundas, proporcionais à complexidade da agenda que nos desafia.

O som e a fúria de Othon Bastos - Pablo Spinelli*

No momento vivemos tempos explosivos, desafios à democracia, a elegia à ignorância, ao sectarismo. Bombas explodem na capital federal, central do Brasil, dias depois do lançamento do filme sobre a morte e a morte de Rubens Paiva. Donald Trump é eleito. Dentre outros motivos, por falta de história e por murros em pontas de facas equivocadas – a mais especial, o papel coadjuvante do tema da paz pelos democratas e pelos analistas políticos. O arauto da paz foi Trump. Uma velha pergunta ressurge: O que fazer?

Eis que surgem lições, sugestões e um sopro de esperança com a peça “Não me entrego, não!”, de autoria de Flávio Marinho, a partir da biografia de Othon Bastos, que aos 91 anos, mostra seu amor ao teatro, à profissão de ator, sem firulas quanto à dureza do ofício de interpretar tantos que pode se perder em si mesmo, uma dialética entre o ego e o outro, numa conjuntura da supremacia do primeiro sobre o segundo.

Poesia | A espantosa realidade das coisas, de Fernando Pessoa

 

Música | Claudinor Germano - Madeira que cupim não rói (Capiba)

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Atentado expõe os riscos da radicalização

O Globo

Mesmo que sejam ato isolado, explosões em Brasília mostram que as autoridades não aprenderam todas as lições do 8 de Janeiro

É grave o atentado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O autor parou um carro carregado de explosivos num estacionamento da Câmara, incendiou o veículo, caminhou em direção ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF), arremessou outros explosivos contra o prédio ao lado da escultura que representa a Justiça, depois se matou em nova detonação. O mais preocupante é que tenha chegado tão perto do Supremo e do Palácio do Planalto, expondo mais uma vez a vulnerabilidade do coração da República.

Tal fragilidade ficara evidente no trágico 8 de janeiro de 2023, quando, tentando tomar o poder, golpistas invadiram a Praça dos Três Poderes e depredaram Congresso, Palácio do Planalto e STF. As novas explosões mostram que, aparentemente, as autoridades não aprenderam todas as lições que deveriam ter aprendido no episódio.

Nem foi a primeira vez que atos terroristas abalaram a capital. Em 2022, no ambiente polarizado depois da eleição, radicais tentaram explodir um caminhão de combustível perto do Aeroporto de Brasília. A tentativa só não deu certo porque o motorista percebeu um objeto estranho e chamou a polícia. Houve também sabotagens a torres de transmissão de energia e mobilização armada em acampamentos.

Vera Magalhães - Terrorista explode farsa da anistia

O Globo

Extremistas não querem conciliação, mas vingança contra aqueles que seu líder máximo trata como traidores da pátria

Chama a atenção a desfaçatez com que os principais líderes bolsonaristas, alguns dos quais estavam no Congresso na noite de quarta-feira e puderam ouvir as explosões, rapidamente se puseram a minimizar a gravidade do novo ataque à Praça dos Três Poderes, menos de dois anos depois do 8 de Janeiro. Pudera. O ato, não importa se planejado por Francisco Wanderley Luiz de forma isolada, explodiu não só um carro e seu perpetrador, mas a indecente defesa da tal anistia para os golpistas de 2023 — que, na verdade, nunca teve a ver com a preocupação legítima com aqueles que são réus ou já foram condenados, mas com a vindoura fase da responsabilização dos financiadores, insufladores e idealizadores das sucessivas tentativas de golpe urdidas por Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Não que o roteiro traçado pelo ex-presidente e reverberado por deputados e senadores a ele vinculados tivesse chance de prosperar. Mas o sucesso eleitoral de alguns dos candidatos da direita, o crescimento da ala mais estridente do bolsonarismo em câmaras municipais e, depois, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos deram gás ao discurso de que os ventos sopravam pela “conciliação” nacional.

Bernardo Mello Franco – Pacifismo de ocasião

O Globo

A polícia ainda vasculhava os arredores do Supremo em busca de explosivos quando Jair Bolsonaro, logo ele, fez um apelo à “pacificação nacional”. “Já passou da hora de o Brasil voltar a cultivar um ambiente adequado para que as diferentes ideias possam se confrontar pacificamente”, escreveu.

O capitão classificou o atentado de quarta-feira como um “fato isolado”, executado por alguém com “perturbações na saúde mental”. “Isso tem de ser tratado como o que foi: um ato de loucura de uma pessoa”, reforçou seu escudeiro Ciro Nogueira.

As investigações dirão se o chaveiro Francisco Wanderley Luiz agiu mesmo sozinho ao levar bombas para a Praça dos Três Poderes. O ato pode ter sido solitário, mas não foi isolado. Está ligado à espiral de violência política que começou com faixas pedindo um novo AI-5 e culminou na intentona golpista do 8 de janeiro.

Bomba implodiu a anistia de Bolsonaro – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O uso da violência por extremistas de direita no Brasil pode, sim, ser enquadrado como terrorista, porque visam desestabilizar a ordem pública e atacar instituições democráticas

O objetivo de Francisco Wanderley Luiz, autor das explosões na Praça dos Três Poderes, era matar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, segundo depoimentos de familiares à Polícia Federal (PF). Ele também havia revelado à ex-mulher, Dayane Dias, que pretendia se matar após o atentado, o que acabou ocorrendo durante o confronto com a segurança do STF. Chaveiro, de 59 anos, Wanderley fora candidato a vereador do PL, em 2020, no município de Rio do Sul (SC). Era um bolsonarista fanático.

Desde a derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, Wanderley falava que pretendia matar o ministro Moraes, tendo se preparado para isso longamente. Fez viagens a Brasília, visitou o plenário do Supremo, percorreu corredores da Câmara e rondou a Praça dos Três Poderes, tudo registrado em postagens nas redes sociais. No começo da noite de quarta-feira, impedido de entrar no prédio do STF, lançou uma bomba contra a estátua da Justiça, duas contra os seguranças do Supremo e se matou, ao acionar uma quarta bomba sob a cabeça, após se deitar no chão.

Medos e pânicos do Brasil com Trump - Janaína Figueiredo

O Globo

Nomeação de Marco Rubio para comandar a política externa americana foi a confirmação de um dos piores cenários imaginados para um governo Trump 2

Quando o nome do senador da Flórida Marco Rubio foi confirmado como a escolha de Donald Trump para chefiar o Departamento de Estado, a sensação no governo brasileiro foi a de que os piores cenários imaginados para um governo Trump 2 estavam se confirmando. “A cada nomeação, só piora”, comentou uma fonte diplomática, que enumerou alguns dos medos e pânicos do Brasil em relação ao republicano que se tornou líder da extrema direita global.

Os medos do governo Lula são muitos e incluem eventual sabotagem da agenda ambiental brasileira, até mesmo da COP 30, que será realizada em 2025 em Belém. O evento é uma das grandes apostas do governo em sua estratégia de inserção nos grandes debates globais, e o negacionismo climático de Trump, temem em Brasília, poderia enfraquecer o encontro.

Jornada necessária – Flávia Oliveira

O Globo

O clamor por qualidade de vida inundou as redes sociais, tomou o debate público, alcançou Congresso Nacional, empresariado, Palácio do Planalto. Por trás da insatisfação com a escala que impõe a empregados seis dias de trabalho, um de folga, está o bem-viver, sinônimo de mais tempo para família, estudo, formação profissional, lazer, saúde, consumo. Um século atrás, quem anunciou isso aos quatro ventos, com outras palavras, foi Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística dos Estados Unidos. Ele fundou a Ford Motor Company; foi o primeiro a aplicar a montagem em série para produzir carros maciçamente; dobrou para US$ 5 diários o salário mínimo dos operários; e, em 1926, implementou a escala de cinco dias de trabalho, dois de folga, 40 horas semanais de jornada. Fez tudo isso em prol do capitalismo.

Tiro pela culatra – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Autor das explosões conseguiu o oposto do que pretendia: fortaleceu Moraes, enfraqueceu Bolsonaro

O tiro saiu pela culatra e as explosões na Praça dos Três Poderes produziram efeitos opostos aos pretendidos pelo seu autor, Francisco Wanderley Luiz. Se ele planejou enfraquecer o Supremo e fortalecer o golpismo, acabou unindo as instituições e as forças democráticas e isolando bolsonaristas e radicais em geral. E, afinal, foi a única vítima do seu próprio ato terrorista.

As duas explosões, uma à frente do STF, a outra próxima ao Congresso, confirmam o poder da internet, o quanto o discurso do ódio está disseminado e como cidadãos e cidadãs estão reféns da guerra ideológica.

Louco ou golpista? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bolsonaristas se apressam a pintar autor de ataque como lobo solitário; apenas investigações dirão se ele agiu só ou se teve apoio material

Só o aprofundamento das investigações dirá se o homem que desferiu o ataque com bombas a Brasília e morreu numa das explosões é um louco que agiu sozinho ou se fazia parte de uma trama golpista mais ampla.

O vídeo do sistema de segurança do STF que mostra os instantes finais do agressor é sugestivo de uma ação suicida, o que favorece a hipótese do desequilíbrio mental. Mas as imagens não descartam a possibilidade de ele ter contado com apoio logístico e/ou financeiro de atores com uma agenda mais política que psicológica. O homem tinha história de militância na extrema direita. É preciso aguardar o resultado das apurações.

Bolsonaro e seus sequazes não querem esperar. Eles se apressam em pintar o perpetrador como um desvairado que agiu só. Fazem-no por um motivo bem concreto. Não querem ser relacionados a mais um ataque contra a democracia.

O país tratar radicais como radicais - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Naturalidade das discussões sobre anistia era o delírio coletivo de um país que inscreveu o fanatismo na cultura política

O atentado na praça dos Três Poderes foi o quarto ataque político radical no país em dois anos. Desde dezembro de 2022, bolsonaristas depredaram Brasília no dia da diplomação de Lula, tentaram explodir um caminhão no aeroporto da capital e protagonizaram a invasão golpista de 8 de janeiro. Para os padrões brasileiros, não é pouca coisa.

Os detalhes do ataque de quarta-feira (13) sugerem que o responsável pelas explosões era um homem desequilibrado, encharcado por um conspiracionismo violento, uma doutrina de radicalização e o mais puro fanatismo antipolítico. Um distúrbio grave pode ter sido o gatilho para a execução do plano, mas o conspiracionismo, a radicalização e o fanatismo estão aí.

Bolsonaro e os terroristas - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque do suposto lobo solitário resulta de movimento de golpe inspirado pelo ex-presidente

Um item central do projeto golpista de Jair Bolsonaro era o ataque ao Supremo Tribunal Federal, o STF, e ao Tribunal Superior Eleitoral. Um terrorista tentou atacar também o STF nesta quarta. Colocou explosivos na praça dos Três Poderes, alvo de multidões da intentona bolsonarista de 8 de Janeiro de 2023. Em dezembro de 2022, depois da eleição, a capital do país já havia sido objeto de outras tentativas terroristas.

O suposto lobo solitário que atacou a praça dos Três Poderes é sobra de um movimento antigo e amplo, o golpe pregado por Bolsonaro e organizado por seguidores e assessores, sob inspiração do ex-presidente.

Atentado explode momento Trump de Bolsonaro - Igor Gielow

Folha de S. Paulo

DNA do grupo do ex-presidente se revela novamente, obrigando malabarismos verbais

O bolsonarista que tentou atacar o Supremo prestou um duplo desserviço à causa a que servia. Primeiro, jogou um balde de fogo quente no ímpeto pela anistia do 8 de Janeiro. Segundo, renovou a exposição do DNA da turma no momento em que ela procura normalização.

Com isso, perde acima de tudo Jair Bolsonaro (PL), o ex-presidente que havia tentado emprestar a legitimidade das urnas americanas a seu ídolo, Donald Trump, e empregá-la em seu próprio favor.

No raciocínio de Bolsonaro, se tal coisa é estruturada assim, a vitória inequívoca de Trump antecipava o clima de 2026 e a inevitabilidade da reversão não da pena dos condenados pela intentona de 2022 em Brasília, mas sim de sua própria inelegibilidade.

O argumento da anistia tem eco até no PT, como prova a fala do vice-presidente da sigla, Washington Quaquá, de que ela poderia "reconciliar o país" —sugerindo aí a utilidade de ter Bolsonaro no páreo em 2026 para Lula.

Os povos sempre se ressentem de suas origens - Ricardo José de Azevedo Marinho*

O saudoso cientista político norte-americano Ronald Inglehart (1934-2021) não se enganou quando chamou o século XXI da era das reações, da desconfiança (como também aponta Pierre Rosanvallon), da dissolução dos laços e tecidos sociais que são, juntamente com o respeito pelas regras, tanto por parte dos cidadãos como por aqueles que exercem o poder, a base da coexistência democrática. A vitória clara, embora não esmagadora, de Donald Trump nas eleições norte-americanas é a confirmação disso.

O que torna a nação mais avançada do mundo em termos econômicos, com a democracia moderna mais antiga do planeta, imperfeita desde a sua criação até hoje, na vanguarda da ciência e da tecnologia, das artes e da cultura popular, polo de atração para aqueles que sonham em mudar seus destinos pessoais, faz seus cidadãos votar em Donald Trump? É um enigma difícil de desvendar pela razão.

Poesia | Palavra Mágica, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Alceu Valença - Hino de Pernambuco (a República é filha de Olinda)

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desperdício e má gestão explicam falta de vacinas

O Globo

Enquanto governo Lula jogou fora 59 milhões de doses, em quase metade dos estados há carência nos postos

Em quase dois anos de governo, o Ministério da Saúde não resolveu os problemas de logística que prejudicam o abastecimento de vacinas e levam ao desperdício. Responsável pela compra e distribuição das doses aos estados, a pasta tem argumentado que não há escassez generalizada e que tem comprado novos lotes. Mas a todo momento vêm à tona casos de estoques zerados, em especial nas vacinas contra Covid-19. O cidadão que vai aos postos em busca de vacina é quem acaba punido.

Reportagem do GLOBO feita por meio da Lei de Acesso à Informação revela que o governo Luiz Inácio Lula da Silva deixou vencer 58,7 milhões de vacinas desde 2023, a maior parte delas — 45,7 milhões — contra Covid-19. O total jogado fora apenas nos dois primeiros anos do governo Lula supera todo o desperdício na gestão Jair Bolsonaro, que já descartara inacreditáveis 48,2 milhões de doses.

Federação é pacto e não ilhas - Fernando Abrucio

Valor Econômico

O Brasil precisa urgentemente da institucionalidade e fortalecimento do SUSP na segurança pública, bem como da criação um sistema nacional com articulação intergovernamental na política de mudança climática

Dos principais e mais complexos problemas brasileiros, dois são centrais e não têm ainda uma governança mínima para seu tratamento: a segurança pública e a mudança climática. Em outras questões fundamentais, como a saúde, a educação e o combate à desigualdade social, certamente há muitas tarefas a realizar. Porém, tais setores já construíram políticas governamentais com avanços importantes e, sobretudo, sistemas básicos que os organizam. Em todos esses casos, as soluções passam inexoravelmente pela estrutura federativa. Se o país quiser lidar melhor com os desafios do século XXI, seus líderes terão de entender para que serve uma federação.

Os debates recentes sobre mudança climática e segurança pública revelam que muitas lideranças com postos elevados na República brasileira não compreenderam ainda o significado do federalismo. A palavra federação vem do latim “foedus”, cujo significado etimológico é pacto. Foi com essa ideia que no final do século XVIII os federalistas americanos criaram um novo experimento político que buscava garantir a autonomia e as liberdades locais e, ao mesmo tempo, construir uma nação governada por uma interdependência equilibrada entre as partes territoriais.

O ajuste que pode definir rumo de Lula em 2026 - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Colheita do presidente terá que ficar para o último ano do governo se quiser salvá-lo

Na manhã desta quinta-feira, dona Norma (nome fictício) chegou danada da vida à casa em que trabalha como empregada doméstica. “Se Lula mexer no meu salário, não voto mais nele. Acordo às 4h da manhã e [Fernando] Haddad e Simone [Tebet] querem cortar meu salário”. Sua patroa tentou lhe explicar que a proposta em curso manterá o ganho real, mas acabou convencida de que ela tem razão.

Naquela manhã, Dona Norma havia recebido mensagem num grupo de WhatsApp com a “notícia”. Católica, mora em Formosa, a 78 km de Brasília, onde trabalha. Votou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, mas tem filha e genro policiais militares e eleitores de Jair Bolsonaro, que agraciou um parente com o “Auxílio Brasil”, nome que o ex-presidente deu ao Bolsa Família.

Dois dias antes, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) subiu à tribuna no Senado para criticar a escala 6x1 de trabalho, movimento nascido no Psol. Disse que o pai, comerciante no sacolão de Divinópolis (MG), morreu aos 70 anos fazendo uma escala 7x0 e, por isso, nunca lhe levou a um jogo de futebol nem lhe ajudou nas lições da escola.

Cleitinho chegou ao Senado no bonde bolsonarista depois de derrotar o atual ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), em 2022, numa campanha feita com paródias, para as redes sociais, sobre corrupção e petistas.

A sombra de Trump no Brasil - José de Souza Martins

Valor Econômico

De repente, o presidente eleito dos EUA está sendo cortejado como cabo eleitoral em terra alheia

É rica e reveladora a entrevista de Jair Bolsonaro a Camila Mattoso e Ranier Bragon, da “Folha de S. Paulo”, sobre a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA. Suas respostas indicam que a fala é sobre ele e não sobre Trump. Nela, este aparece mais como um ajudante de ordens do brasileiro na obra de transformação do mundo num mundo de direita.

A figura de Bolsonaro tem sido enigmática. Figura de manipulação de subentendidos, nunca fica claro quem ele realmente é. Não se assumiu como presidente de uma república democrática, constituída por três poderes independentes entre si. A república de Bolsonaro é singular, de um poder só.

Fica claro que o mundo de Bolsonaro é hierárquico, definido por concepções de quartel. Para ele, Trump não é apenas o homem mais poderoso do mundo. Mas o é de um poder duplicado pelo fato de que terá por quatro anos a responsabilidade de tomar decisões sobre o país mais rico do mundo, com o arsenal mais poderoso do mundo, mas também porque ele é pessoalmente senhor de imensa riqueza.

Uma escolha reveladora - Merval Pereira

O Globo

O uso do X por Musk para fazer a campanha de Trump, e a favor de valores da direita internacional, até no Brasil, para defender Bolsonaro e atacar o STF, mostra claramente que ele comprou o antigo Twitter para fazer política e defender seus interesses

Entre as escolhas de Donald Trump para seu futuro governo nos Estados Unidos, uma chamou a atenção pelo inusitado da situação: a indicação do homem mais rico do mundo, Elon Musk, para uma secretaria criada para ele com intuito de melhorar a eficiência do governo. Seria o caso de cortar todos os contratos que suas empresas têm com o governo americano, para evitar conflitos de interesse. Mas isso não acontecerá, e a falta de escrúpulos do presidente eleito e do futuro secretário denota uma disposição de implementar a todo custo medidas drásticas, com pessoas de confiança absoluta.

O uso da plataforma X por Musk para fazer a campanha de Trump, a favor de valores da direita internacional, até no Brasil, para defender Bolsonaro e atacar o STF, mostra claramente que ele comprou o antigo Twitter para fazer política e defender seus interesses. Não tem qualquer responsabilidade sobre o que publica, desde que seja a seu favor. Agora, Musk indo para o governo, o X perde completamente a credibilidade.

Armínio: cortar na saúde seria crime - Míriam Leitão

O Globo

Ex-presidente do BC salienta que não é de hoje que o SUS é subfinanciado e seria criminoso cortar recursos da Saúde

O economista Armínio Fraga, que sempre trata com rigor a questão fiscal e defende a redução das despesas públicas, acha que o corte não pode ser feito no orçamento da Saúde. “Mais do que um erro, seria um crime”, diz ele. Armínio, ex-presidente do Banco Central, é também conhecido por se envolver na defesa de políticas públicas na área da saúde. Eu o entrevistei sobre a economia brasileira, mas também sobre a conjuntura americana depois da eleição presidencial. “Só ouvir o nome de Trump nesse momento, sugere que vamos entrar em rota de alta turbulência”.

Armínio disse que todas as indicações de Donald Trump, até agora, mostram com muita clareza que ele pretende implantar o programa de altas tarifas comerciais contra os outros países, especialmente a China. Uma lição da história, que ele lembrou, foi da lei Smoot-Hawley que elevou tarifas americanas durante o crash da Bolsa de Nova York, em 1929.

— Foi um fator que aprofundou a recessão tremendamente. Espalhou a crise no mundo, fez com que a Grande Depressão, que nasceu nos Estados Unidos, acabasse se tornando uma crise mundial. O Brasil naquela época se isolou um pouco do mundo, mas eu não creio que isso seja possível hoje.

A escala 6 x 1 emparedou o governo - Malu Gaspar

O Globo

O presidente Lula já tinha problemas suficientes para resolver, com seus ministros se digladiando internamente em torno dos cortes de gastos, quando ganhou as redes sociais e a atenção do Congresso a proposta da deputada do PSOL Erika Hilton que acaba com a escala de seis dias trabalhados para um de folga, a famosa 6 x 1.

Saudada como uma lufada de ar fresco, capaz de superar a reconhecida desconexão da esquerda com as novas demandas do mundo do trabalho, a pauta também foi encarada no governo como uma forma de dispersar a atenção da opinião pública e do mercado sobre sua própria incapacidade de definir onde e como enxugar o Orçamento para caber nos limites do arcabouço fiscal.

Motta unifica o “Centrão” com desistência de Brito - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Consolidou-se a hegemonia do chamado Centrão na Câmara, mas é um erro tratar as forças políticas de centro e centro-direita como um bloco monolítico

O deputado Antônio Brito (PSD-BA) anunciou, nesta quarta-feira, a retirada de sua candidatura a presidente da Câmara e o apoio da bancada do PSD ao deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), o que fecha uma grande aliança partidária, que vai do PT ao PL, para compartilhar o poder na Mesa Diretora e nas comissões legislativas da Casa. Com isso, o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mantém sua influência no Legislativo e terá cacife para negociar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma eventual reforma ministerial, da qual faça parte.

Motta terá uma liderança compartilhada com Lira, que o ungiu candidato diante do fracasso de outros aliados que pleiteavam sucedê-lo, como Elmar Nascimento (União-BA), Marcos Pereira (Republicanos) e, agora, o baiano Brito. O “dedazo” evitou uma disputa que também não interessava ao Palácio do Planalto nem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, uma vez que a derrota do PT ou do PL, em caso de racha no bloco de Lira, poderia resultar na perda de controle de comissões importantes, como as de Constituição e Justiça e de Fiscalização Financeira e Controle, para quem perdesse a disputa.

O governo Lula corre atrás dos fatos - William Waack

O Estado de S. Paulo

Não há escolhas fáceis para o atual governo de Lula 3; haja fôlego para se correr tanto assim

A tramitação da PEC que prevê o fim da escala 6 x 1 é apenas o mais recente exemplo de como o governo Lula 3 corre atrás dos fatos, dentro e fora do País. No caso da redução da jornada de trabalho é patente a tentação no Planalto de surfar o impacto nas redes sociais com a promessa de fácil ganho eleitoral mais adiante. Mas corre atrás do fato muito sério da estagnação da produtividade no Brasil em relação às economias mais avançadas. Coisa chata de tratar que dá pouca visualização nas redes.

A utopia e o fim do regime 6x1 - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A proposta de redução da jornada de trabalho a 36 horas semanais vai produzindo um montão de espuma com pouca possibilidade de substância.

A ideia da deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP) é aprovar Projeto de Emenda da Constituição (PEC), que já contaria com 194 assinaturas (apoio de mais de 1/3 da Casa Legislativa) para protocolar a proposta. Instituiria o regime obrigatório de duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias por quatro dias por semana, sem redução dos salários.

Hoje, a Constituição define uma jornada de trabalho não superior a oito horas diárias por seis dias na semana. É a escala 6X1, ou seis dias trabalhados com um de descanso, que seria revogada pela PEC, se aprovada.

O entretenimento como religião - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não foi o espetáculo televisivo que atendeu com diligência às demandas das profissões de fé – estas é que serviram aos desígnios do espetáculo

Por graça ou interesse, as igrejas se valem dos meios de comunicação para ganhar fiéis. Sabemos disso há coisa de cem anos. Foi nos Estados Unidos, pelas ondas do rádio, que a prática se tornou um expediente assíduo, ainda na primeira metade do século 20. Na década de 1960, os televangelizadores, à imagem e semelhança de Billy Graham, cresceram e se multiplicaram em escalas miraculosas. O cristianismo de raízes protestantes e feições evangélicas se apossou de um filão inteiro das redes de TV, num empuxo que se replicou mundo afora. Então, o linguajar plangente, a cenografia ambientada em templos vastos, o figurino em traje passeio completo e a coreografia expressionista fincaram seus púlpitos em plagas longínquas – algumas verdadeiramente remotas, como as brasileiras. Por aqui, quando baixa o horário nobre, pregadores oram e peroram em quase todos os canais abertos. Todas as religiões, ou virtualmente todas, requisitam os préstimos e os auxílios das tecnologias midiáticas em prol da fé. O divino é um campeão de audiência. O demônio também – depende do ponto de vista do freguês.

Reforçando a credibilidade nas políticas - José Serra

O Estado de S. Paulo

A política econômica não pode se dar ao luxo de apenas assistir à deterioração dos cenários interno e externo, praguejando contra o aumento da taxa de juros

Os últimos dias adicionaram muitas interrogações sobre a condução da política econômica. As curvas de juros futuros indicam que a expectativa do “mercado” é de que a taxa Selic suba a 14% ao ano dentro do ciclo expansivo inaugurado pelo Banco Central. Certamente, este não é o Brasil dos sonhos do presidente Lula que resolveu atacar o próprio mercado.

As expectativas já vinham um tanto azedadas por conta da situação fiscal, em meio às crescentes dúvidas sobre a capacidade do governo Lula de controlar os gastos e colocar barreiras contra o enorme apetite dos outros por recursos públicos. A desconfiança com respeito à factibilidade das metas postas pelo arcabouço fiscal está em sintonia com o descrédito em relação ao leque de gastos considerados como exceções aos limites estabelecidos pela Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Às dificuldades fiscais vêm se somar as vulnerabilidades do nosso setor externo, especialmente refletidas no câmbio. A vitória de Donald Trump reforça o temor de que o protecionismo comercial e o dólar forte signifiquem grandes problemas para a política cambial.

Lula, inflação e eleitores de direita – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Pesquisas ainda registram otimismo, mas cresce percepção de alta de preços

A maioria dos brasileiros está otimista com a situação de sua vida. Mas fica menos otimista desde fevereiro. Está cada vez mais preocupado com a inflação. Mas, em uma lista de prioridades para o governo, o custo de vida está em apenas quarto lugar.

Além do mais, o aumento da média dos salários bem além da inflação não aparece no prestígio de Luiz Inácio Lula da Silva. Além da hipótese preços, o estrago pode ter sido causado pela disputa política, acirrada pela eleição.

Em outubro, 43% dos brasileiros diziam que sua vida e de sua família era melhor do que no ano anterior; para 36%, estava na mesma. São percepções parecidas com as dos melhores meses sob Lula, em fins de 2023. A perspectiva para o final do ano era de melhora para 62% dos entrevistados; em fevereiro, para 75%.

A pesquisa é do Ipespe, para a Febraban, feita entre os dias 15 e 23 de outubro. A margem de erro é de 2,2 pontos.

Um fiapo miúdo na farra das emendas – Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Fiscalização da CGU puxou só um fiapo miúdo da distribuição descontrolada do dinheiro

A Controladoria-Geral da União puxou um fiapo miúdo da farra das emendas parlamentares. Em três auditorias, o órgão colheu amostras de desperdício de dinheiro, direcionamento de verba pública, descontrole de gastos e suspeitas de desvios. Uma parte dos recursos foi para a conta de ONGs sem estrutura ou obras que não começam nunca.

A fiscalização nem começa a arranhar a superfície do problema. Por ordem do Supremo, a CGU analisou uma amostra de repasses de emendas para 30 municípios (R$ 787 milhões) e 20 ONGs (R$ 515 milhões) em anos recentes. É um rio de dinheiro, mas o valor representa menos de 0,8% da fortuna de R$ 167 bilhões empenhados de 2020 a 2024.

Os novos trumpistas vieram de baixo - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A capacidade de construir coalizão multiétnica com raízes populares deu força a Trump

Fosse outro o adversário de Kamala Harris, o resultado das eleições americanas não teria causado surpresa nem comoção. Afinal, o desfecho da disputa seguiu o padrão verificado em outros países nos quais a derrota dos incumbentes —ou dos candidatos por eles indicados— vai se tornando regra. Nos Estados Unidos, pesava contra a democrata a avaliação negativa do presidente Biden, o mau humor generalizado com a economia e o pessimismo da maioria com a sua própria situação: receita conhecida para uma vitória oposicionista.

Só que o vencedor foi Donald Trump, um homem sem qualidades, ameaça à democracia e, pior, aos princípios básicos da convivência civilizada. Assim, a extensão dos efeitos negativos de seu regresso à Casa Branca —bem como as razões de seu êxito— têm produzido uma enxurrada de análises no Brasil e pelo mundo afora.

Deus criou o mundo em 6x1, mas era todo poderoso e não batia ponto - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Mudanças em regimes de trabalho são historicamente rejeitadas pelo status quo da economia

Deus criou a Terra, o céu e todas as formas de vida em seis dias. No sétimo dia descansou, nos legando generosamente a folga dominical, já que ele mesmo era todo poderoso, não batia ponto e não ganhava salário mínimo.

A reivindicação do fim da jornada 6x1, como se sabe, acaba de virar uma PEC a ser encaminhada ao Congresso.

Modificar esse regime e discutir a redução da jornada semanal é uma questão contemporânea relevante, com passado histórico e implicações humanas e civilizatórias. Alguns comentadores, refratários a mudanças, reagiram intempestivamente, considerando que a ideia seria irrealista e prejudicaria a economia.

Líderes autoritários voltam como zumbis vingativos após derrotas prévias - Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Foi o que aconteceu com Orbán, Erdogan, Netanyahu e Putin; veremos o que acontece com Donald Trump nos EUA

Quando Viktor Orbán regressou ao poder na Hungria em maio de 2010, ninguém atribuiu enorme significado ao acontecimento. É comum, nomeadamente em regimes parlamentares, a reeleição de políticos que tenham sido derrotados numa eleição anterior.

Orbán fora antes primeiro-ministro por um mandato, entre 1998 e 2002, e poucos fora da Hungria conheciam o discurso amargo que ele fizera ao perder as eleições no fim desse mandato. "A nação não pode estar na oposição!", disse na ocasião, deixando claro que, para ele, apenas o seu partido representava a verdadeira Hungria e que qualquer outro partido que estivesse no poder em seu lugar seria composto por traidores e, no fundo, usurpadores.

Correndo para trás das calças de Trump – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Para Bolsonaro, o Brasil deve babar, como ele, diante do homem mais poderoso do mundo

Foi notável como, assim que soube da vitória de Donald Trump, na semana passada, Jair Bolsonaro se transformou. Deixou de ser o homem que os serviçais flagravam chorando pelos cantos, a cada passo das investigações que o deixam mais perto de ser preso, e voltou a ser o velho bazófio e arrogante de seu palanque presidencial. Seu primeiro ato foi convidar-se para a posse de Trump e se julgar no direito de ter de volta o passaporte para viajar. "O STF", leia-se Alexandre de Moraes, "não terá a ousadia de negar. Quem vai contrariar o homem mais poderoso do mundo?", disse.

Meia-volta, volver! – Ivan Alves Filho*

Aprendi com um mestre do valor de Nelson Werneck Sodré que mesmo quando realizamos algum trabalho "setorial", algum estudo de caso em matéria de História, não podemos perder de vista a visão de conjunto. Caso contrário, a História deixa de ser um processo, tornando-se incompreensível. Ou seja, é preciso unir sempre o particular ao geral. E isso é válido também para a militância, a atuação política ou social de cada um de nós. Tudo é parte da luta e não há luta à parte, sempre observo isso.

Há um aspecto regressivo em algumas propostas identitárias atuais, por exemplo. Assim, elas, muitas vezes, desembocam em engajamentos que lembram as lutas pré-políticas. Nesse sentido, alguns estudiosos parecem se empenhar em abolir a história das lutas de classes. E as relações entre as classes são, essencialmente, relações de exploração. Os partidários da visão racialista, pela “direita” ou pela “esquerda” querem nos fazer crer que existe de um lado o eurocentrismo e de outro o identitarismo pós-colonial, decolonial ou algo nessa linha confusa e diversionista. E nada mais.

Poesia | Um Boi vê os homens, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moacyr Luz e Banda - A reza do samba