quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A armadilha do STF- Julia Duailibi

O Globo

Quem ajuda Bolsonaro a se vitimizar é o próprio Supremo, ao ignorar a contenção e escorregar nas cascas de banana

O próximo presidente do STF, Edson Fachin, disse nesta semana que o “Supremo Tribunal Federal não é o árbitro exclusivo do jogo democrático” e que “a vitalidade democrática brasileira exige que todos os atores — Executivo, Legislativo, partidos, imprensa e sociedade civil — atuem com contenção e dentro das regras do jogo”.

Não fosse o atual contexto político-criminal, a reflexão, feita numa palestra, poderia soar como uma obviedade sobre freios e contrapesos de democracias funcionais e independência dos Poderes, herança do Iluminismo francês prevista em nossa Constituição. Ela nos leva, porém, a uma incontornável discussão sobre a contenção dos Poderes. No caso, do próprio STF.

Muito além da economia - Míriam Leitão

O Globo

A bomba tarifária dos Estados Unidos, com estímulo da extrema direita, vai além da economia: é chantagem política contra a nossa democracia

Tudo o que temos vivido nos últimos dias é tão absurdo que, às vezes, parece irreal. O Brasil está sendo atacado pelos Estados Unidos com a maior tarifa que aquele país impôs aos seus parceiros, exigindo em troca não uma abertura da economia brasileira, mas a interrupção de uma ação penal contra quem tentou um golpe de Estado no Brasil. O governo brasileiro com seu plano de contingência quer mitigar os danos de setores e empresas, e é isso mesmo que ele deve fazer. Mas a economia vai sentir o impacto, algumas empresas podem não sobreviver, empregos serão perdidos. Segundo a CNI, as tarifas adicionais dos EUA afetam 77,8% das exportações brasileiras ao país.

Lula precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre os EUA e a China - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Havia um certo consenso nacional e continuidade em torno da política externa brasileira pós-redemocratização, a partir do governo de Sarney, que restabeleceu as relações com Cuba e a China. Bolsonaro rompeu essa tradição

Se imaginarmos um triangulo ligando o Brasil aos Estados Unidos e à China, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa traçar uma bissetriz entre os dois países que possibilite achar um ponto de equilíbrio e sair do impasse em que se encontra, a partir de relações bilaterais com o presidente Donald Trump, que hoje não existem, e com o presidente Xi Jinping, cada vez mais próximas. O multilateralismo, no curto prazo, não dá conta de evitar a escalada da crise.

Na geometria, um triângulo possui dois tipos de bissetrizes: internas e externas. Para não complicar a analogia, o que nos interessa aqui é o ponto de encontro das bissetrizes internas do triangulo. Imagine uma circunferência dentro do triângulo — seu centro é equidistante de todos os lados. Por isso, é chamado de “incentro”. Bissetrizes são traçadas com régua e compasso; na política, é muito mais difícil achar esse ponto de equilíbrio e equidistância.

Reação de presidentes da Câmara e Senado demorou muito - César Felício

Valor Econômico

Câmara abriu sessão com uma pauta cheia de assuntos irrelevantes

A potestade do cargo é o principal ativo que os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), têm para negociar com os parlamentares que bloqueiam desde terça-feira as duas Casas do Congresso, exigindo a votação do tal “pacote da paz”. Demoraram muito, mais de 24 horas, para exercerem o peso de suas cadeiras.

Esse poder só começou a ser exercido na noite de quarta. Somente às 22 horas Hugo Motta conseguiu retomar, de forma precária, o controle da Casa que preside. O motim bolsonarista teve início na terça. As notas de Alcolumbre e Motta divulgadas na ocasião, em vez de esvaziarem a crise, insuflaram-na. Na sua nota oficial de terça, Alcolumbre disse logo na segunda linha que “a ocupação das mesas diretoras das Casas, que inviabilize (sic) o seu funcionamento, constitui exercício arbitrário das próprias razões”. Alcolumbre criticou os bolsonaristas, mas admitiu que a manobra extremista atingia um de seus objetivos, inviabilizar o andamento do Congresso Nacional.

O 8 de janeiro dos paletós devolve a bola para Lula - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ameaça bolsonarista contra Centrão devolve protagonismo ao presidente

O 8 de janeiro dos paletós que ocupou o Congresso Nacional sepultou de uma vez por todas o dueto entre bolsonaristas e o Centrão que, até aqui, capitaneou os maiores emparedamentos do governo.

É a MP de isenção do IR que pode perder a validade, mas o episódio, por paradoxal que possa parecer, marca a possibilidade de o Executivo retomar a posse da bola. O bolsonarismo havia até respirado com a prisão domiciliar do ex-presidente que fez com que um réu por tentativa de golpe de Estado fosse exibido como paladino da liberdade de expressão. Ao afrontar o comando das Casas, porém, os aliados do ex-presidente voltaram a unir os três Poderes.

Com um Supremo Tribunal Federal ainda agastado pelas divisões em torno das decisões do ministro Alexandre de Moraes no caso e com os presidentes das Casas desafiados pelos próprios pares, é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem recobra, em pleno embate com o chefe de Estado mais poderoso do mundo, a posse da bola.

Procuram-se engenheiros para fazer política - Nelson Niero

Valor Econômico

Mensagens de Donald Trump em rede social, entrevistas e a carta enviada a Luiz Inácio Lula da Silva já haviam deixado escancarado que o cerne da questão é político

A crise das tarifas está obrigando a classe empresarial a recuperar o lugar de destaque que já teve em outros momentos cruciais da história brasileira. A taxação do governo americano ao Brasil, que entrou em vigor ontem, desenha consequências drásticas para a economia, o que clama por um protagonista que nas últimas décadas parece ter se contentado com o segundo plano.

Diante da inépcia do governo, num momento de desarranjo institucional, com um Judiciário hipertrofiado e um Legislativo alheio, o poder econômico foi chamado a assumir a posição de negociador. Os líderes do setor privado não têm mais como fugir dessa concertação. Eles terão, no entanto, que arrumar estômago para enfrentar uma questão política, mais do que comercial, apesar do desconforto visível com o tema.

Sem saída visível para a crise - William Waack

O Estado de S. Paulo

Não há saída visível para a crise que apanhou o Brasil, pois o que cada um entende por “pacificação” ou “acomodação” significa a rendição do outro. Isso vale também para o precaríssimo estado das relações entre Brasil e Estados Unidos.

Um fato inédito é o componente internacional na crise doméstica brasileira, pois uma corrente política interna está contando com a ajuda de uma potência estrangeira para atingir seus objetivos – e os da potência. Eles equivalem na prática a um “regime change” no Brasil.

Trump está comandando o show em torno da sua visão de que o Brasil não vive um regime democrático. Mas, sim, uma ditadura de toga que persegue adversários políticos e prejudica interesses econômicos das big techs – além de se alinhar ao grande adversário geopolítico dos EUA, a China.

Não há como o Estado brasileiro ceder a esse tipo de demanda, salvo render-se. A crise expôs um Brasil vulnerável, despreparado para situações de emergência e com um governo incapaz de enxergar a natureza e a gravidade do contexto, preocupado sobretudo com obtenção de vantagens político-eleitorais. E seus cacoetes ideológicos de sempre.

Cabo de guerra no Supremo - Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Críticas a Moraes no Supremo não tiram dele maioria nas votações sobre trama golpista

Não foi boa a reação de ministros do Supremo Tribunal Federal à decisão de Alexandre de Moraes de prender Jair Bolsonaro. Nos bastidores, a medida foi considerada desnecessária neste momento, com potencial para escalar duas crises: a do tribunal com o Congresso e a do Brasil com os Estados Unidos.

A expectativa no STF é de que os EUA apliquem sanções com base na Lei Magnitsky a outros ministros e também a autoridades brasileiras. A partir da prisão de Bolsonaro, ministros aguardam punições que atinjam o bolso deles, com restrições financeiras ainda maiores que as impostas a Moraes.

Outro impacto da prisão de Bolsonaro é o aumento da pressão política sobre a Corte às vésperas do julgamento do ex-presidente. Na visão de alguns ministros, o ideal teria sido Moraes ignorar a isca jogada pelo réu e deixá-lo em liberdade até o veredicto, previsto para setembro.

Protecionismo não só para o comércio - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

É pouco dizer que o presidente Donald Trump abandonou a defesa e a prática do livre comércio, um dos fundamentos da doutrina neoliberal capitalista. Ele passou a usar o até recentemente inominável protecionismo do sistema produtivo e do comércio global para outras finalidades, como base de seu jogo político e geopolítico.

Ao contrário do que vinham afirmando alguns analistas, que previram um tiro no pé com o tarifaço, o presidente Trump tem obtido inegável sucesso, pelo menos até agora. Países e blocos de países poderosos têm engolido, com certo conformismo, a imposição de tarifas alfandegárias predatórias sobre sua economia. E, se o bumerangue se voltar contra a economia dos Estados Unidos, isso pode levar algum tempo.

Moraes simboliza o pavor da direita diante do pênalti - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Apesar de erros, ministro não cede à cultura política acomodatícia do país no processo de Bolsonaro e militares golpistas

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes causou grande alvoroço e afetação entre setores da opinião pública, da direita e do bolsonarismo ao determinar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro por descumprimento de medidas cautelares aprovadas pelo tribunal.

Chamado de censor e tirano, e alvo de uma tremenda palhaçada de trumpistas no Congresso, o ministro pareceu de uma hora para outra ser o inimigo público número um da livre expressão e da democracia no Brasil.

O magistrado é muitas vezes tratado enviesadamente como se tomasse medidas apenas monocráticas, sem respaldo de colegiado da corte, ao sabor de seus humores. É certo que há reparos a fazer ao STF e particularmente a Moraes, cujo temperamento justiceiro, como já se comentou aqui, poderia e deveria ser domado. São muito escassas, além disso, para dizer o mínimo, as habilidades políticas por ele demonstradas.

O freio conservador do eleitor brasileiro – Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Conservadorismo do eleitor limita o que se pode dizer em campanhas e fazer no governo

Não é de hoje a ideia de que no Brasil predomina uma cultura política conservadora. Os políticos tradicionais dela sempre tiraram inspiração para seus programas e discursos. Mas o assunto ganhou fôlego quando a direita radical, em ascensão, alçou a segurança pública, assim como os valores e comportamentos privados, para o primeiro plano da disputa com os progressistas.

Baseado em pesquisas dos últimos 15 anos, o Instituto Ipsos-Ipec vem medindo, desde 2010, a força da disposição conservadora na população brasileira —um traço cuja existência poucos contestam.

Elite econômica é conivente com a agressão de Trump e dos Bolsonaro – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No curto ou no longo prazo, não se vê ação para conter destruição institucional

Vamos supor que Donald Trump decida agredir o Brasil um tanto mais, como acaba de fazer com a Índia e como o faz com o Canadá: por política imperial. Suponha-se que impostos de importação aumentassem para níveis de embargo caso o Brasil continuasse a comprar diesel ou fertilizante russos.

O que fazer? Dar o comércio com os Estados Unidos como perdido (o que também afetaria investimentos aqui) e manter as compras russas? O que diriam empresas que exportam para os EUA? Aceitariam o custo de o Brasil manter as importações críticas de fertilizantes? Essas são as ameaças de hoje. Mas o mundo de Trump e suas sequelas vão durar.

A ameaça para a economia da Lei Magnitsky contra Moraes – Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Não se descarta a possibilidade de uma complementação da ordem disparada pelo governo Trump contra o ministro do Supremo

Não é exagero dizer que parte dos participantes do mercado financeiro no Brasil está hoje mais preocupada com o impacto de uma aplicação rígida da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes para as empresas brasileiras do que com o tarifaço em si.

A punição a Moraes não é um problema só para os bancos e muito menos restrito às dúvidas se o ministro do STF pode ou não fazer compras usando cartão de crédito internacional de bandeiras americanas.

Bolsonaro não é réu qualquer - Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Restrição à liberdade de expressão não é ilegal, leniência à sua libertinagem é

A obra intelectual de Jair Bolsonaro se encerra em mais ou menos cinco linhas:

"Devia ter matado uns 30 mil. O erro foi torturar e não matar. Não estupro porque não merece. Vou legalizar milícias. Não sou coveiro. A minoria tem que se curvar à maioria. O afrodescendente mais leve pesava sete arrobas. Rolou um clima. Dirás a verdade. Fake news faz parte da vida. Fora, Folha! Sou perseguido. Ficar em casa é para os fracos. A Constituição sou eu. Não vou mais obedecer. Amo a liberdade."

O pensamento oral de Bolsonaro gozou do mais extravagante regime da liberdade de expressão que se tem notícia para um homem público no país. Sempre foi duvidosa sua constitucionalidade.

Violava a lei, mas o STF (Supremo Tribunal Federal) se acostumou a liberá-lo com base na seguinte teoria: "apesar da grosseria e da vulgaridade, não parece ter extrapolado limites". Essa síntese da leniência jurídica foi de Alexandre de Moraes.

Na rendição do Japão, o medo do comunismo foi tão eficaz quanto bombas atômicas – João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Obra de Richard Overy lembra que Hiroshima e Nagasaki não foram casos isolados e leva leitor ao centro do poder nipônico

Para efeitos dramáticos, o céu deveria estar cinzento, e uma chuva pequena, triste, deveria molhar a Terra. Não é o caso. Céu azul, iluminado por um Sol generoso —e, aqui embaixo, famílias e crianças e amigos vivendo o dia na cidade.

A cidade é Hiroshima. Estou sentado em frente à Cúpula da Bomba Atômica, um edifício construído pelo arquiteto tcheco Jan Letzel em 1915. É um dos poucos edifícios que ficaram de pé depois da explosão daquele dia 6 de agosto de 1945 —faz hoje 80 anos.

As casas de Hiroshima eram, na maioria, construções frágeis de madeira, facilmente pulverizadas pela explosão. O edifício de Letzel, com sua cúpula de cobre, era feito de concreto e metal. Como a explosão ocorreu diretamente acima, a 600 metros do solo, o edifício absorveu o impacto e resistiu.

Jogando Bolsonaro ao mar – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A fim de um Reich planetário, Trump tem muito a fazer para se preocupar com alguém que ele só viu duas vezes

Já aconteceu antes. Era uma vez um político que, legitimamente eleito, vestiu a farda de ditador e tentou impor ao mundo seu estilo de governar —intimidar, dividir, desestabilizar, perseguir, humilhar, subjugar, expulsar e tocar o terror. Com que fim? O de estabelecer sua bolha, expandir sua dominação, consolidar seu poder. Para isso, valeu-se também de recuar, contradizer-se, abandonar parceiros e parecer imprevisível —como alguém pode se defender se não sabe como será o ataque?

Poesia | Charles Baudelaire - Elevação (de As flores do mal)

 

Música | A Paz - Gilberto Gil

 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preciso respeitar as regras do jogo democrático

Correio Braziliense

Bolsonaro está na posição de quem não se importa com quais são as regras do jogo. Decisões do STF podem ser problematizadas, mas nunca descumpridas

O ex-presidente Jair Bolsonaro tinha medidas claras a cumprir quando o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Alexandre de Moraes, decidiu pelas já públicas medidas cautelares. Entre elas, estava a obrigação de não propagar discursos nas redes sociais. Ainda que não tenha falado nada demais em sua participação na rede social do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos seus filhos, o ex-chefe do Planalto apostou alto ao desrespeitar o regramento definido pela Corte. 

A análise em Brasília é de que Bolsonaro agiu de maneira calculada. Apostou que Moraes não deixaria o descumprimento passar ileso, e o ministro acatou o que havia determinado. Preso em casa, o ex-presidente quer alimentar ainda mais a polarização e tende a usar a arma de sempre: a mobilização nas redes sociais, ainda que de maneira indireta, a partir, principalmente, de aliados. 

O que vem depois da domiciliar de Bolsonaro? - Vera Magalhães

O Globo

Nem novas retaliações contra ministros do STF devem mudar rumos do processo contra ex-presidente, e Congresso não parece disposto a comprar 'pacote da paz'

Decretada a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, algumas perguntas imediatamente dominaram o debate público. Alexandre de Moraes ainda está amplamente respaldado pelo Supremo Tribunal Federal? A pressão da direita sobre o comando do Congresso por medidas de retaliação ao STF terá chance de avançar? E novas sanções aos ministros da Corte e mesmo ao Brasil, na esfera comercial, poderão ser determinadas pelo governo dos Estados Unidos?

A resposta à primeira questão é a mais fácil: sim. O placar no Supremo segue amplamente favorável a Moraes. Se a prisão domiciliar fosse submetida a referendo do plenário, o que não acontecerá, seria confirmada por pelo menos 8 votos a 3. Isso ocorre por coerção de algum tipo do relator da trama golpista sobre os pares? Não.

Ainda que alguns ministros desejem, e muitos desejam, um caminho para distensionar as relações institucionais entre os Poderes e tirar o Judiciário dos holofotes, a maioria entende que não se fará isso condescendendo com claras afrontas a decisões judiciais como as perpetradas por Bolsonaro e seus apoiadores, de forma sistemática, deliberada, com a clara intenção de forçar Moraes a escalar as sanções e vender à sociedade, aos Estados Unidos e à classe política a narrativa da perseguição.

Bolsonaro em casa - Bernardo Mello Franco

O Globo

Às vésperas de condenação, ex-presidente tenta melar julgamento e transformar juízes em réus

“Um dos melhores lugares para viver na capital federal.” Assim se apresenta o condomínio Solar de Brasília, endereço de Jair Bolsonaro desde 2023. O capitão vive numa casa de cerca de 400 metros quadrados, com piscina e área gourmet. Agora terá mais tempo para desfrutá-la: está em prisão domiciliar.

O ex-presidente plantou o que colheu. No domingo, afrontou o Supremo ao participar, à distância, de duas manifestações contra o tribunal. No ato do Rio, discursou por viva-voz pelo celular do filho Zero Um. No de São Paulo, fez chamada de vídeo com o aliado Nikolas Ferreira, que usou a ligação para inflamar o público contra o Judiciário.

O deputado tiktoker foi autor do discurso mais agressivo da tarde. Do alto do trio elétrico, atacou o Supremo e pregou a prisão do ministro Alexandre de Moraes. “Tenho um recado para te dar, ministro. Você, sem a toga, não sobra nada”, provocou.

Trump venera o deus da guerra – Elio Gaspari

O Globo

Hoje, há 80 anos, a bomba deu aos EUA o gosto da superioridade

Às 6h30 de 6 de agosto de 1945, o coronel Paul Tibbets, pilotando o bombardeiro Enola Gay, avisou aos tripulantes: "Estamos transportando a primeira bomba atômica." Às 8h15, a barriga do avião soltou o artefato, e Tibbets afastou-se da cena.

A bomba explodiu 43 segundos depois sobre Hiroshima, uma cidade plana, com milhares de casas de madeira. Produziu um clarão, carbonizando as pessoas que saíam para o trabalho. Ainda hoje pode-se ver no museu da cidade, impressa num degrau de granito do banco Sumitomo, a sombra de uma pessoa que estava sentada ali. Foi o que restou dela.

Isso foi o que aconteceu há 80 anos. Passado o tempo, uma fotografia da explosão, autografada por cinco tripulantes do bombardeiro, valia menos que outra, com um simples autógrafo do almirante que comandava a frota americana do Pacífico.

Hiroshima nunca mais! - Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

A bomba atômica nunca mais foi utilizada, tamanho o horror testemunhado pelos sobreviventes. No entanto, depois dos bombardeios e do fim da Segunda Guerra, as potências começaram uma verdadeira corrida nuclear, sob o pretexto de autodefesa

Aconteceu há exatamente 80 anos. O bombardeiro Boeing B-29 Superfortress Enola Gay despejou a bomba atômica "Little Boy" a 600 metros sobre Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945. A onda expansiva da explosão, aliada à temperatura que subiu a 3.873 graus Celsius, saiu arrastando e evaporando tudo pela frente, deslocando-se a 1.583km/h. Animais e pessoas simplesmente desapareceram, como se tivessem sido desintegrados. Os 12 tripulantes do Enola Gay encararam a missão como essencial e necessária para forçar a rendição dos japoneses. Ainda que tenham matado 70 mil pessoas de forma instantânea e outras 200 mil posteriormente, por causa dos efeitos da radiação. Em 2005, Theodore "Dutch" Van Kirk, o navegador do Enola Gay, me disse que aquela tinha sido a missão mais fácil da vida dele e que faria tudo de novo, sob as mesmas condições. "A bomba atômica salvou milhares de vidas", afirmou ao Correio, sem demonstrar nenhum arrependimento.

Bolsonaristas radicalizam e levam a crise ao Congresso - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A cena de parlamentares impedindo o trabalho regular do Congresso não encontra paralelo recente na história. Mas ecoa o ambiente que antecedeu o 8 de janeiro de 2023

A volta do recesso parlamentar, ontem, mostrou o agravamento da crise política que abala a República. A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes por descumprimento de medidas cautelares, desencadeou reação imediata dos parlamentares de oposição, liderados pelo PL, que ocuparam as mesas diretoras da Câmara e do Senado, afrontaram seus presidentes, o deputado Hugo Mota (Republicanos-PB) e o senador Davi Alcolumbre (União-AP), e ainda ameaçam promover a obstrução total das votações do Congresso.

A cena de parlamentares impedindo o trabalho regular do Congresso não encontra paralelo recente na história. Mas ecoa o ambiente anárquico e radical que antecedeu a invasão dos palácios da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, como se fosse a retomada de um fio da história da tentativa de golpe de Estado. Ao decretar a prisão domiciliar de Bolsonaro, Moraes tirou da garrafa o gênio da desestabilização das relações entre o Supremo Tribunal Federal e o Congresso.

'Água na fervura', revogação da tornozeleira - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Parlamentares levaram à cúpula episódios passados em que o Legislativo contestaram decisões do STF

O trânsito virtual na Praça dos Três Poderes engarrafou. Enquanto os bolsonaristas se refastelavam na mesa do Senado e obstruíam a pauta do plenário e das comissões, circularam entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) súmulas de decisões de ministros que, nos últimos anos, contestaram decisões de colegas em relação às prerrogativas de parlamentares.

O pano de fundo é a contestação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas é sobre o mandato do senador Marcos do Val (PL-ES), desde essa segunda-feira dotado de uma tornozeleira eletrônica por ter viajado aos EUA sem comunicar ao ministro Alexandre de Moraes, que o Congresso avalia ter o que hoje se chama de “lugar de fala”.

A autoridade diante do desafio histórico - Fernando Exman

Valor Econômico

Preocupação da próxima gestão do STF será evitar que ocorra o primeiro impeachment de ministro do Supremo da História

Há ocasiões em que o homem público tem a convicção de que seus atos - ou a deliberada omissão - transcenderão os limites temporais do mandato que ocupa. Tem hora que a autoridade sente o peso e a responsabilidade da História.

Esta quarta-feira, 6 de agosto de 2025, é um dia desses. E diante das sanções anunciadas pelos Estados Unidos ao Brasil, integrantes das cúpulas dos Poderes Executivo e Judiciário têm dado sinais de que estão cientes dessa circunstância.

Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizem ter a certeza de que o chefe vive dias assim. Segundo relatos, suas reflexões têm ido além do necessário plano de contingência para mitigar os efeitos do tarifaço imposto por Donald Trump sob condições escorchantes. No Palácio do Planalto, acredita-se que o presidente americano escolheu Lula, nome de destaque na esquerda mundial, como alvo prioritário de seus ataques globo afora.

Os investidores e os riscos do mês aziago - Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O investidor torce para que agosto não seja, como prega o dito popular, o ‘mês do desgosto’

O investidor está cruzando os dedos para que o calendário astral esteja bagunçado e que o azar que caracteriza a crença popular de que “agosto é o mês do desgosto” tenha ficado para trás em julho, quando a Bolsa e o câmbio sofreram forte correção. Mas, até o fim deste mês, há um campo minado de riscos nos cenários externo e interno da política e da economia, além da tensão na geopolítica mundial.

Em julho, o Ibovespa recuou 4,17%, pior desempenho desde dezembro passado, enquanto o dólar subiu 3,07% em relação ao real, maior alta em oito meses. Em contraste, nos EUA os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram ganhos de 2,17% e 3,70%, respectivamente.

Brasil tem de saber sofrer - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Prisão de Bolsonaro piora conflito externo e alimenta insurreição permanente da extrema direita

O Brasil tem de "saber sofrer", diz um integrante do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito dos ataques de Donald Trump. Cita, em brincadeira agoniada, o ex-técnico da seleção brasileira de futebol masculino, o Tite: é preciso ser esperto para aguentar momento ruim de pressão.

É uma pessoa que advoga a atitude mais discreta possível do governo e que torce para que o Supremo ande assim também. Isto é, que conduza o processo de Jair Bolsonaro do modo menos conturbado possível.

Para certas pessoas do governo Lula, para o comando do Congresso e para integrantes do STF, a prisão domiciliar de Bolsonaro foi ruim para a estratégia de negociação do país e para quem prefere atenuar a conturbação política, que será crescente. Relatos de que a atitude de Alexandre de Moraes não foi bem recebida pela maioria do Supremo foram confirmados por Mônica Bergamo, nesta Folha.

Por que o bolsonarismo voltou às ruas? - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Protestos reafirmam a identidade tribal bolsonarista e buscam legitimidade simbólica

Ao que tudo indica, o bolsonarismo voltou às ruas. Já não se veem as multidões impressionantes de 2016 a 2020, tampouco as mobilizações alcançam a escala nacional dos tempos gloriosos do movimento —mas cumprem bem a função que o consórcio Bolsonaros-Malafaia lhes designou.

Em uma época em que a presença digital e a política institucional são, de longe, mais efetivas do que 30 ou 40 mil pessoas aglomeradas ao redor de um carro de som, "as ruas" passaram a ter valor sobretudo simbólico e psicológico.

A nova extrema direita aprendeu com a esquerda tradicional, igualmente populista, que "ocupar as ruas" com multidões mobilizadas confere a qualquer causa um selo de legitimidade que a política institucional raramente alcança. Nesse sentido, 50 mil pessoas reunidas num domingo teriam mais valor simbólico como expressão da soberania popular do que os 513 deputados eleitos e os 120 milhões de votos depositados nas urnas.

Moraes não tinha escolha - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não cabe ao juiz cotejar as injunções políticas na aplicação de sanções à infração das regras legais

Jair Bolsonaro (PL) poderia ter escolhido cumprir a ordem do juiz para evitar a prisão domiciliar; já o magistrado não tinha escolha: ou executava o que ele mesmo determinara ou teria, aí sim, feito um juízo político da condição do réu.

Se Alexandre de Moraes tivesse ignorado a infração à medida cautelar de não usar redes sociais, seria sinal de que teria calculado o risco de fazer do ex-presidente um mártir e se intimidado ante a possibilidade de sua decisão provocar novas sanções por parte do governo dos Estados Unidos.

Foi sem querer ou de propósito? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Se Bolsonaro provocou a própria prisão, sacrifica seus interesses de longo prazo por ganho político efêmero

Não foram poucos os que escreveram que Jair Bolsonaro provocou a própria prisão para extrair dividendos políticos. Faz sentido, mas, como não sei o que vai na cabeça do ex-presidente, não descarto a possibilidade de a domiciliar ter vindo por mais um erro de cálculo do clã. Como Eduardo já demonstrou, eles não excelem em matemática política.

A ordem exarada por Alexandre de Moraes está dentro das quatro linhas do Código de Processo Penal, mas o conteúdo da declaração de Jair levada aos comícios era tão pífio —basicamente um "boa tarde"— que o ministro poderia ter deixado passar sem maiores prejuízos à autoridade do STF.

Bolsonaro (edição de colecionador) - Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Pequi roído, golpista, fujão, indiciado, monitorado, preso

Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha. Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda.

Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jagodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Escapista. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível.

Mentecapto. Demônio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjeto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona.

Execrável. Infando. Nefando. Zé Ruela. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Cavernícola. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista.

Uivemos! –Ricardo Marinho

Na maioria das vezes com decepção, acompanhamos o debate político neste momento.

Nele, coisas inevitáveis acontecem em uma situação de complexidade política. É desagradável, mas comum que os tons endureçam, acusações destinadas a denegrir o competidor para ocupar o palco, que ataques malévolos sejam desenvolvidos e até manobras indecentes baseadas na base tecnológico-comunicacional de nosso tempo.

Está a decorrer um duplo debate. Um é o debate aberto do corpo atual e o outro ocorre no darkside na internet e não só de forma sub-reptícia e realizado também por inteligências artificiais (IA) aéticas comercializadas por especialistas como alertam o belga Mark Coeckelbergh e o italiano Luciano Floridi, que buscam a destruição do adversário por meio das redes sociais.

Los posibles escenarios que se abren con la prisión efectiva de Bolsonaro - Fernando de la Cuadra

El Clarín de Chile

Bolsonaro está en prisión domiciliar, destacan los titulares de los principales diarios del país ¿Y ahora qué puede pasar si Bolsonaro es efectivamente encarcelado? Según los pasos que ha seguido el proceso judicial en su contra, falta poco para que el expresidente sea condenado a la cárcel por los delitos que él, junto a otros 33 cómplices -militares y civiles- cometieron a partir de su derrota electoral en octubre de 2022.

Solo para recordar, las acusaciones que pesan sobre este grupo de sediciosos articulados en torno a una trama golpista fracasada incluye los siguientes cinco crímenes: Conspiración para dar un Golpe de Estado; abolición del Estado democrático de Derecho; asociación criminal armada; daño calificado al patrimonio público y deterioro del patrimonio histórico nacional. Si es considerado culpable por todos estos delitos, Bolsonaro puede llegar a ser condenado a más de 40 años de cárcel y aumentar su inelegibilidad, que actualmente llega hasta el año 2030.

A marcha da insensaz - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Não bastassem os cenários apocalíticos, cada vez mais frequentes, as erupções vulcânicas, os terremotos, tsunamis, inundações, o covid deixando para trás marcas de destruições catastróficas, os homens, mesmo assim, insistem em fazer guerra. É a "marcha da insensatez” de um grupo de meia dúzia de líderes empoderados pelas próprias ambições. Essa vaidade pessoal, transferida para os Estados Nacionais, extingue vagarosamente a vida no Planeta. Desorganiza países, economias, cidades, promove a morte de populações inteiras, fecham escolas, hospitais, explodem pontes     e destroem     terras agrícolas. Diante da dimensão que essas coisas estão tomando, perguntaria, se haverá tempo para um novo Plano Marsall, destinado a recuperação agora da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, da Síria, do Líbano, do Iêmem, de Israel mesmo e até para uma reorganização do mundo.

Tem-se de admitir que esta geração política do Planeta é representada por lideranças paranóicas.  Até fevereiro deste ano, a aventura de invadir a Ucrânia    teria custado aos russos US$ 211 bilhões de suas reservas, de acordo com estimativas do Pentágono, já que a Rússia se recusa a tornar público  este tipo de informação .  Para os ucranianos, em fevereiro, os gastos aproximavam-se de US$ 320 bilhões. Mas eles receberam perto de US$ 100 bilhões de ajuda externa do mundo ao seu redor (Instituto Kiel da Economia Mundial). A Ucrânia mesmo teria investido em sua defesa entre US$ 150 a 200 bilhões.

Cautela e firmeza – Ivan Alves Filho*

"Quem procura a verdade deve se preparar para o inesperado", já ensinava Heráclito de Éfeso. O momento político vivido pelo Brasil inspira muita cautela a todos nós. Despudoradamente, alguns setores estão recorrendo ao bom e velho nacionalismo para se manter na crista da onda eleitoral. Outros setores, também despudoradamente, parecem apostar em um movimento oposto, isto é, em uma crise internacional, trazendo incertezas para o país, de fora para dentro.

Os dois cenários são extremamente preocupantes e podem apontar para uma grave crise institucional. 

Poesia | "Tecendo a Manhã", de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Ela já não gosta mais de mim (que pena) - Tim Bernardes e Lívia Nestrovski

Mùsica | Ney Matogrosso - Rosa de Hiroshima (Vinicius de Moraes)