quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: No centro do ringue

O Globo

O ex-juiz Sergio Moro não consegue chegar a dois dígitos nas pesquisas eleitorais para presidente da República, mas provoca reações raivosas em seus adversários. É “canalha”, segundo Lula; “ladrão e desonesto”, para Ciro Gomes, e “traidor”, para Bolsonaro. Mobiliza altas rodas do Judiciário, e centenas de advogados criminalistas reunidos na guilda autointitulada “Prerrogativas”, que querem vê-lo destruído moralmente e, se possível, atrás das mesmas grades em que colocou o ex-presidente Lula.

Malu Gaspar: Quem protege Jair Bolsonaro?

O Globo

As conclusões dos últimos inquéritos da Polícia Federal sobre os atos de Jair Bolsonaro deixaram a impressão de que ele conta com salvo-conduto para cometer a barbaridade que quiser sem ser incomodado.

A primeira investigação buscava saber se o presidente da República prevaricou — ou seja, deixou de cumprir seu dever como servidor público — ao não tomar providência sobre as denúncias dos irmãos Miranda, que o procuraram para relatar irregularidades na compra de vacinas pelo Ministério da Saúde.

A segunda apuração investigou Bolsonaro por usar sua live para vazar um inquérito sigiloso da própria PF sobre uma invasão de hackers ao sistema do TSE, em 2018. Além de violar o sigilo do inquérito e divulgar a íntegra em suas redes sociais, o presidente ainda sugeriu que o papelório comprovava fraudes nas urnas eletrônicas, o que nunca aconteceu.

Nos dois casos, os delegados concluíram que Bolsonaro fez mesmo tudo aquilo de que era acusado. Mas não propuseram nenhum tipo de punição.

Luiz Carlos Azedo: Acidente no metrô paulista não feriu ninguém, exceto a candidatura de Doria

Correio Braziliense

O PSDB anunciou entendimentos com o MDB para formar uma federação que envolveria ainda o Cidadania, na linha de articulação de um bloco político capaz de pôr de pé a chamada terceira via

A estrada que liga São Paulo ao Palácio do Planalto é tortuosa e cheia de obstáculos. Para o governador tucano João Doria, os problemas começaram na Marginal Tietê, onde um acidente supostamente provocado pelo “tatuzão” das obras do metrô abriu uma enorme cratera, ao romper uma galeria de esgoto ao lado do poço de ventilação construído entre as futuras estações de Santa Marina e Freguesia do Ó.

Não houve feridos, mas as obras foram interrompidas, o esgoto invadiu o túnel do metrô, o equipamento de escavação foi seriamente danificado e a marginal acabou bloqueada, no sentido Ayrton Sena. Segundo o secretário dos Transportes Metropolitanos, Paulo José Galli, a galeria de esgoto que passava 3 metros acima do “tatuzão” se rompeu e a pista desmoronou, por volta das 9h de ontem. O presidente Jair Bolsonaro, que na véspera havia visitado Franco da Rocha, ironizou a situação: “Semana que vem a gente conclui a transposição do São Francisco. Em São Paulo, eu vi a transposição do Tietê”, afirmou à saída do Palácio do Alvorada, ontem.

O acidente é tudo o que Doria não precisava num momento delicado de sua pré-candidatura. O governador tucano está sendo pressionado pelos correligionários a deixar o Palácio Bandeirantes mais cedo e andar pelo país, mas não haveria momento pior do que esse para se desincompatibilizar do cargo.

Hamilton Garcia*: O plebiscito de Ciro

Folha da Manhã (Campos (RJ)

O movimento estratégico de Lula na direção do centro político, tanto para consolidar seu favoritismo e tentar catapultá-lo à Presidência já no primeiro turno, como para construir uma alternativa parlamentar ao Centrão, em caso de vitória, parece ter mexido com o tabuleiro eleitoral.

Nesta quarta (26/01), o candidato do PDT, Ciro Gomes, ensaiou uma escapada pela esquerda diante do congestionamento do centro político provocado por Lula, que também embaraça a ascensão de Moro e pode inviabilizar as pretensões de Dória. Percebendo a impossibilidade de furar a fila nesta disputa, onde Moro tem maiores credenciais, Ciro radicalizou o discurso acenando para um pacote de reformas a ser apresentado nos seis primeiros meses de seu virtual governo e referendado diretamente pelo eleitorado por meio de um plebiscito.

Maria Hermínia Tavares*: Populismo em baixa no mundo

Folha de S. Paulo

A doença insidiosa pôs freios à onda mundial desse gênero de autoritarismo

Quando a pandemia de Covid-19 começou, estudiosos da política e da sociedade temeram que seus efeitos pudessem ir além da destruição de vidas. Imaginaram que o vírus viesse a fortalecer o populismo —de direita ou de esquerda—, dotando os seus líderes de pretextos para concentrar poder e atropelar as liberdades e as instituições da democracia, em nome, bem entendido, da defesa da saúde coletiva.

O receio —embora plausível— não se confirmou. É o que mostra o abrangente estudo do Centro para o Futuro da Democracia, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, divulgado na semana passada, sob o título "The great reset - public opinion, populism and pandemic" (A grande reconexão: opinião pública, populismo e pandemia).

Vinicius Torres Freire: Sinais da elite para Lula

Folha de S. Paulo

Centrão e até donos do dinheiro dão sinais de que podem aderir ao petista

Partidos do centrão, quase o Congresso inteiro, e gente "do mercado" dão sinais de que Lula da Silva (PT) pode ser também para eles a alternativa incontornável, se por mais não fosse porque a opção, até agora, é Jair Bolsonaro (PL).

Ainda é muito cedo, em especial para políticos e "o mercado", que precisam de perspectivas menos incertas antes de fazerem seus arranjos. Faltam oito meses para o primeiro turno, mas algumas características da política e da economia destroçadas do Brasil talvez induzam certa precipitação ou conformismo.

Bruno Boghossian: Uma campanha paralela

Folha de S. Paulo

Articulações envolvendo Lula e Bolsonaro incluem cálculos para presidências da Câmara e do Senado

As articulações da corrida presidencial deram início a uma campanha paralela para definir o comando do Congresso a partir de 2023. A negociação de alianças envolvendo Lula e Jair Bolsonaro passou a incluir cálculos dos partidos interessados em ocupar as presidências da Câmara e do Senado num futuro governo.

Nas últimas semanas, os petistas voltaram a investir no apoio do PSD a Lula já no primeiro turno. Aliados do ex-presidente indicam que, em troca, podem oferecer à sigla um patrocínio à reeleição de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) na chefia do Senado.

O acordo interessa a Pacheco, que foi lançado ao Planalto, mas aparece com apenas 1% nas pesquisas. O PT ganharia mais: ampliaria a sua aliança eleitoral e agregaria um partido à base de Lula em caso de vitória.

Ruy Castro: Bolsoriarty ou Mabusonaro

Folha de S. Paulo

Até que ponto os cúmplices que Bolsonaro implantou no sistema impedirão que ele pague por seus crimes?

Jair Bolsonaro acaba de nomear mais um aliado para um cargo-chave na administração. Desta vez, trata-se de um indivíduo com autoridade para bloquear, ignorar ou mesmo apagar as investigações contra um de seus filhos pela extorsão de funcionários chamada "rachadinha". Qual é a novidade? Todo dia, Bolsonaro infiltra em cargos-chave elementos de sua confiança. É sua prerrogativa, mas nunca um presidente amarrou tão bem o sistema visando a proteger-se, assegurar impunidade ou eternizar-se no cargo.

William Waack: Rivais têm dúvidas se Bolsonaro vai concorrer

O Estado de S. Paulo

Adversários de Bolsonaro se perguntam se ele vai tentar a reeleição

Jair Bolsonaro é no momento o fator imponderável das próximas eleições. O comportamento de Lula, seu principal adversário, é o que se esperava e previa. Idem para os demais concorrentes, nenhum deles até aqui uma formidável surpresa – mesmo considerando o “efeito Moro”, em parte já dissipado.

O imponderável associado ao presidente tem menos a ver com a possibilidade de uma “ruptura” institucional, como a pantomima ensaiada no último 7 de setembro. E muito mais com seu notório desequilíbrio pessoal, pautado em grande medida pelo medo de ele ou de seus filhos acabarem presos em caso de derrota eleitoral. Temer foi preso quando deixou a Presidência, e Bolsonaro acha que corre o mesmo risco.

Maria Cristina Fernandes: A fila do confessionário

Valor Econômico

Lula diz que não é candidato do PT mas de um “movimento”. Adesismo só não é maior que a resistência à conta a pagar

Foi com ares de Arenão que o União Brasil foi anunciado. Alçaria à condição de maior partido da Câmara pela junção do PSL, legenda que elegeu o capitão, com o DEM, herdeiro do partido de sustentação da ditadura dos generais. Quatro meses depois, a UB, que ainda não foi formalizada, passou de legenda disputada pela terceira via, para agrupamento dos que têm dinheiro e TV mas é incapaz de canalizar um ou outro para a conquista do poder.

Também foi com pompa de partido oficial que o PL de Valdemar Costa Neto filiou o presidente da República. Com os planos de arregimentar os candidatos do bolsonarismo raiz à Câmara, passou a acalentar o sonho de fazer uma bancada robusta o suficiente para suceder ao deputado Arthur Lira (PP-AL) em 2025 - sim, porque não colocavam em dúvida a recondução do presidente da Câmara na próxima legislatura.

Cristiano Romero*: Vão chamar o Meirelles novamente?

Valor Econômico

Bem-sucedido, ex-presidente do Banco Central sempre foi subestimado

Quando o jornalista Chico Mendez criou o bordão “Chama o Meirelles”, o maior achado de marketing político da eleição presidencial de 2018, o ex-presidente do Banco Central (BC) e ex-ministro da Fazenda já havia sido “chamado” pelo menos três vezes por governantes para socorrê-los. Goiano de Luziânia, cidade a menos de 50 Km de Brasília, engenheiro formado pela Poli, a prestigiosa Escola Politécnica da USP, Henrique Meirelles é, ao mesmo tempo, o homem público mais subestimado da história do país e um dos mais bem-sucedidos.

Em novembro de 2002, quando ainda beliscava o braço para ter certeza de que vencera mesmo a eleição para Presidente depois de chegar em segundo lugar nos três pleitos anteriores, Luiz Inácio Lula da Silva foi logo pressionado pelo coordenador do programa de governo de sua campanha e futuro ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a iniciar as consultas para a escolha do presidente do Banco Central.

Alvaro Gribel: A ‘torre’ de volta aos dois dígitos

O Globo

O Banco Central subiu a Selic para 10,75% e já se comprometeu com mais um aumento na reunião de março

A “torre” dos juros que o ministro Paulo Guedes tanto propagou ter derrubado está de volta aos dois dígitos. O Banco Central subiu a Selic para 10,75% e já se comprometeu com mais um aumento na reunião de março, ainda que em ritmo menor, a grande novidade na decisão. Agora, haverá uma guerra de interpretações no mercado, na tentativa de prever a taxa final deste ciclo. Ela deve ficar em torno de 12% — um pouco mais, um pouco menos — mas o importante é entender que os juros nesse patamar terão um forte impacto sobre a economia e esse é um dos principais motivos para que as projeções de crescimento deste ano estejam tão baixas.

A verdade é que o Banco Central está sozinho no combate à inflação, já que neste ano eleitoral o governo relaxou as regras fiscais para gastar mais. Por duas vezes no curto comunicado de ontem o BC falou desse assunto. Primeiro, disse que é um risco para a inflação “se houver impulso adicional” da demanda agregada. Depois, que a “incerteza em relação ao arcabouço fiscal” está afetando as projeções para os índices de preços. No modelo do Banco, o IPCA fechará este ano em 5,4%, acima do teto da meta, e em 3,2% no ano que vem. Mas no mercado a estimativa de 2023 está em alta, e por isso o BC avisou que irá “perseverar” até que consiga controlar as expectativas.

Mario Mesquita*: Condições para a convergência

Valor Econômico

O aumento de gastos públicos tipicamente implementado no Brasil tende a apreciar a taxa de câmbio real

Em coluna anterior, registrei o pífio desempenho da economia brasileira nos últimos 50 anos, que confirma um padrão histórico pouco encorajador, que vem sendo observado desde a independência, com um interregno dinâmico em parte do século passado.

O objetivo aqui é ampliar o foco, e considerar os casos de sucesso, isto é, as economias que conseguiram, nas últimas décadas, sair da renda média e alcançar patamar de ingresso mais próximo (em alguns casos superior) ao observado nos EUA.

É claro que classificar uma economia como “desenvolvida” ou “avançada” é algo que abrange várias dimensões, mas para os propósitos desta coluna, vou estabelecer, de forma arbitrária, que convergência significa atingir um nível de renda per capita de pelo menos 60% daquele observado na economia americana.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Supremo dá valioso recado ao país em ano eleitoral

O Globo

A solenidade que abre os trabalhos do Judiciário no começo de cada ano é sempre motivo de atenção para a sociedade. A sessão solene do Supremo Tribunal Federal (STF) realizada por videoconferência na terça-feira teve um atrativo a mais por se tratar de 2022, um ano de eleições gerais. Ao presidente do STF, ministro Luiz Fux, coube a tarefa de proferir o discurso de abertura. De forma firme e serena, ele mandou recados claros e sensatos. Em tempos normais, muitos comentários poderiam ser classificados como obviedades. Não em 2022.

Fux reconheceu que debates inflamados são parte do jogo democrático, consequência de um ambiente onde circulam diferentes visões sobre os problemas do país e como solucioná-los. Isso tudo é válido. Campanhas que incentivam a polarização extremada não são. “A democracia não comporta disputas baseadas no ‘nós contra eles’”, disse o presidente do STF, que pediu tolerância e moderação nos embates entre os candidatos e seus apoiadores, mas não apenas nesses casos.

Após três anos de governo Bolsonaro, Fux foi categórico: “Não há mais espaços para ações contra o regime democrático e para violência contra as instituições públicas”, declarou. O magistrado não chegou a citar o nome de Jair Bolsonaro, provavelmente porque são de conhecimento público todas as investidas do presidente contra órgãos de controle do Estado.

Poesia | Joaquim Cardozo: Chuva de caju

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

Música | Paulinho da Viola: Eu canto samba / Quando bate uma saudade

 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Luiz Werneck Vianna*: Ainda podemos nos tornar um imenso Portugal

Em política é preciso estar atento ao tempo, que não para como o movimento da terra que não sentimos, como Nabuco gostava de dizer, embora conheçamos seus resultados nas noites que se sucedem aos dias e nas mudanças das estações, assim como variam pelos efeitos das nossas próprias ações, em grande parte inesperados, as circunstâncias imperantes na sociedade em que vivemos e atuamos. Há cerca de 50 anos um celebrado poeta vaticinava que o Brasil estava se tornando um imenso Portugal, autocrático, passadista e inimigo das liberdades, e enquanto seu belo canto embalava o mundo já germinava o que se tornaria a Revolução dos Cravos que sepultaria a época de trevas do salazarismo. Por que o mundo gira e a Lusitana roda, também estava fora do alcance do poeta que o Portugal de hoje se converteria aos nossos olhos numa experiência a ser seguida com sua capacidade de navegar em meio a tempestades e se manter fiel aos ideais com que expurgaram os males do seu passado ditatorial.

Vera Magalhães: Falta a Bolsonaro visão de Brasil

O Globo

Jair Bolsonaro deu para demonstrar tamanho fastio com a tarefa de governar o Brasil que fica difícil entender por que, além da razão exclusivamente política, ele pretende gastar mundos e fundos para tentar se reeleger.

Duas das últimas manifestações do presidente de turno apontam uma completa ausência, da sua parte, de visão do que seja o país que administra (sic) há três anos.

Para se contrapor à avassaladora constatação de que foi o presidente que mais gastou nos cartões corporativos da Presidência, sobre os quais ainda colocou camadas adicionais de sigilo, o capitão (ou seus filhos, esses luminares da comunicação) teve uma ideia: por que não dar um dos seus apreciados rolês de motoca pela capital federal e se deixar fotografar coberto de farofa, comendo um frango com as mãos numa barraca de rua? Genial, não?

Não. Poucas cenas podem ser mais emblemáticas da falta de empatia do presidente com quem de fato carece de recursos para se alimentar, ou precisa muitas vezes fazer uso das mãos pois não dispõe de casa, cadeira, talheres e pratos.

Luiz Carlos Azedo: A política mundial caminha no sentido anti-horário; no Brasil, também.

Correio Braziliense

Caso Lula faça seu aggiornamento, a estratégia de seus concorrentes no campo democrático não passará da mera busca de sobrevivência na trincheira parlamentar

Desde a eleição do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a política mundial caminha no sentido anti-horário. As recentes eleições chilenas e, neste fim de semana, os pleitos portugueses mostram isso. A onda eleitoral favorável às forças mais conservadoras e reacionárias, em vários países da Europa e da América Latina, foi contida em razão de fatores que também estão se apresentando nas eleições brasileiras. Primeiro: indiscutivelmente, a pandemia de covid-19 desorganizou a economia e escancarou as desigualdades sociais num quesito básico, o direito à vida. Segundo: o novo choque de petróleo, patrocinado pela Opep, pela Rússia e pela Venezuela, grandes produtores mundiais. Terceiro: a economia do carbono está tornando a vida humana no planeta muito mais difícil e ameaça o futuro da espécie. Quarto: a compreensão no Ocidente de que não existe salvação fora da democracia, por sinal, muito bem lembrada em 27 de janeiro passado, em memória do Holocausto.

Elio Gaspari: O compromisso com o erro

O Globo

Lula parece ter ouvido JK

Há poucas semanas, quando Guido Mantega foi escalado pelo PT para escrever um artigo para a Folha de S.Paulo propondo um programa econômico, a turma do papelório assustou-se. Haveria o risco de retomar o caminho da ruína? Passaram-se 26 dias, e o próprio Mantega mostrou que dentro do lençol não havia fantasma: “Não pretendo voltar. A economia tem ciclos; você fica com a parte boa, mas se a economia não funciona, a culpa é do ministro. Fiquei no governo por 12 anos seguidos. Já dei a minha parte”.

O pessoal do papelório gosta de sustos, e Lula gosta de administrar temores alheios.

Depois de ter surpreendido a plateia da cena política apontando a possibilidade de escolher o tucano Geraldo Alckmin para seu vice, Lula mostra que absorveu o ensinamento de Juscelino Kubitschek: “Não tenho compromisso com o erro”. Tê-lo desprezado foi um dos pilares da derrocada petista na eleição de 2018.

José Nêumanne*: O crime no comando

O Estado de S. Paulo

Na farsa democrática, perde tempo o gestor público que tentar governar com planos e projetos

Neste País, Bolsonaro manda às favas o Supremo Tribunal Federal (STF), que desconhece a Constituição para tudo permitir aos donos da lei

A democracia é o império da lei. Na sexta-feira 28, esse truísmo foi falsificado pela maior autoridade da República. Ou não vigora nela o que possa ser definido como governo do povo. Pois Bolsonaro não depôs na Polícia Federal, órgão do Estado, e não de seu governo particular, sob acusação de vazar inquérito sigiloso, a cargo da mesma. Agiu como se estivesse acima da norma legal. O que significa além ou fora dela.

Vinicius Torres Freire: Compra de votos com diesel e fogão

Folha de S. Paulo

Baixar tributos sobre diesel e eletrodoméstico tem pouco efeito e eleva a dívida

Paulo Guedes quer emagrecer o "Estado obeso" cobrando menos imposto sobre eletrodomésticos, para "beneficiar o setor industrial e o consumidor de massa". Diz que o aumento permanente da arrecadação do governo foi de mais de R$ 100 bilhões em 2021. Quer devolver até uns R$ 20 bilhões para a "população abusivamente explorada" pelo governo glutão. Para tanto, diminuiria um imposto sobre fogão, geladeira e lava-roupas.

Hum.

Como no caso de diesel e gasolina, se o governo cobrar menos imposto, vai fazer mais dívida. Vai, pois, pagar mais juros, o que beneficia ricos.

Bruno Boghossian: Aposentadoria antecipada

Folha de S. Paulo

Equipe do ex-presidente quer conter exploração de erros na economia e corrupção por rivais

O PT anunciou a aposentadoria de alguns de seus quadros. Na semana passada, Lula disse que Dilma Rousseff não deve ocupar nenhum cargo no governo caso ele vença a próxima eleição. Outros petistas seguiram o exemplo: em declarações públicas nos últimos dias, Guido Mantega e José Dirceu descartaram uma volta à Esplanada dos Ministérios em 2023.

O partido se antecipou para deixar no passado figuras que podem se tornar incômodas na campanha. O time de Lula quer descolar a imagem do presidente das memórias da crise econômica evocadas com Dilma e Mantega, além das conexões de Dirceu com escândalos da era petista.

Hélio Schwartsman: O livre-arbítrio salva Deus?

Folha de S. Paulo

Livre-arbítrio não explica o mal resultante de desastres naturais

O problema da teodiceia tem mais de 2.000 anos, de modo que não achei que causaria tanta polêmica ao evocá-lo em relação à pandemia, como fiz na coluna "Deus e a Covid". Mas, como estou até agora recebendo contestações, acho que vale a pena tentar esclarecer alguns pontos.

Conciliar o sofrimento presente no mundo com a existência de um Deus onipotente e benevolente é um problema real, que desafia filósofos e teólogos das mais diversas tradições. E nem é algo que os religiosos procurem esconder. É o tema mesmo do "Livro de Jó", incluído na Bíblia.

Fernando Exman*: O jogo da regulação dos criptoativos

Valor Econômico

Ideal é proteger investidor sem criar amarras à inovação

Era tarde da noite de 8 de dezembro, algo comparável aos 42 minutos do primeiro tempo deste biênio em que a Câmara será presidida por Arthur Lira (PP-AL), quando os deputados aprovaram o projeto de lei que regulamenta a atividade de prestação de serviços de negociação de criptoativos.

Lance inesperado, que ainda não se sabe qual andamento terá no Senado, a despeito dos sinais de que a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) não perderá tempo. Será difícil ignorar o assunto depois da notícia divulgada recentemente pelo Banco Central (BC) de que as importações de criptoativos somaram US$ 6 bilhões em 2021 - volume recorde e quase o dobro do registrado no ano anterior.

Tiago Cavalcanti*: Transferência de renda como investimento

Valor Econômico

O Bolsa Família é uma forma pragmática de garantir renda para os mais pobres, em um país com alta informalidade

No meu artigo anterior (“Por que as pessoas seguem na pobreza?”), aqui no Valor, discuti razões pelas quais indivíduos permanecem em situação de extrema pobreza e em atividades de baixíssimo rendimento. Apresentei evidências sobre como um programa de distribuição de ativos em Bangladesh teve efeitos positivos e permanentes sobre o tipo de ocupação, trabalho e renda das famílias beneficiadas.

Portanto, não só políticas de capital humano são efetivas para combater a pobreza de curto e longo prazos; ações redistributivas podem ter papel relevante.

No presente artigo, discuto o desenho das políticas de transferência de renda sob a ótica do investimento. Penso que, nesta questão, o objetivo do gestor público é de transferir eficientemente recursos para as pessoas que realmente necessitam, minimizando os possíveis efeitos adversos dessas transferências.

A questão atraiu vários pensadores, inclusive os liberais mais influentes. Milton Friedman, por exemplo, em seu livro “Capitalismo e Liberdade”, dedica o penúltimo capítulo ao problema de combate à pobreza.

Roberto DaMatta: Tempos eleitoreiros

O Globo

Em tempos eleitorais, tempos de mudanças inversas ou reversas, de ajustes de contradições e permanência disfarçada; tempos nos quais mudamos nomes e inventamos partidos, mas não pensamos nisso como um costume destinado a não transformar os jeitinhos, os assassinatos de caráter, as notícias mentirosas, falsas, fantasiosas, caluniosas, criminosas — enfim, tudo que cabe na noção de fake surge como um sol de verão.

Em tempos eleitorais, falamos de “candidatos” e postulantes. Dos que pretendem ser eleitos numa competição teoricamente igualitária. E tal princípio alheio à vida cotidiana produz uma multidão de discursos conjunturais, transformando-se numa verdadeira “economia política eleitoral”, na qual se produz uma matemática de relações. Uma álgebra que poderá revelar se A vai com X ou Y, e se o partido Z vai com G, T ou K. O campo político eleitoreiro vira uma crônica de Lima Barreto ou um manicômio de Machado de Assis. Nele, só não ficam loucos os pré-candidatos, perdidos numa competição cuja única regra é ganhar porque, conforme sabemos, “em política vale tudo”, até mesmo trair juramentos constitucionais, como é rotineiro em Bolsonaro. Dito isso, vale observar a ferocidade com a qual se tenta, neste jogo sujo, eliminar o “centro” bloqueador eventual de uma infame repetição.

Luiz Roberto Nascimento Silva*: O novo escravo digital

O Globo

A revolução digital trouxe uma mudança profunda no ciclo do trabalho, que ficou mais curto com o crescimento de serviços temporários sem proteção ou sindicalização. Nesse universo, os serviços de delivery utilizam-se de trabalho quase escravo. O prestador não é empregado de quem encomenda nem do restaurante para o qual trabalha. Aluga a moto ou bicicleta que usa, não tem férias nem folga no fim de semana, não tem plano de saúde e não vai se aposentar.

Na fase inicial, esse novo escravo sentiu-se liberto da estrutura tradicional de trabalho com subordinação e rotina, achando que a mudança seria sua libertação. Sua consciência ainda não se formou, mas sente sinais insistentes de que as coisas não estão saindo como imaginou. Analisei este assunto em detalhe no livro “O cavalo de Troia digital”, que acabo de publicar. O tema passou a ser objeto de discussão dos principais candidatos à Presidência da República, valendo a pena refletir sobre ele.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Na volta às aulas, ensino presencial deve ser prioridade

O Globo

No momento em que escolas de todo o país começam a retomar suas atividades, secretários estaduais e municipais de Educação, diretores e professores têm a missão crucial de fazer o possível e o impossível para que os alunos voltem às salas de aula, depois de um inaceitável afastamento de quase dois anos em que imperou o ensino remoto ou híbrido.

É boa notícia a forte adesão ao ensino presencial, mesmo com o agravamento da pandemia de Covid-19 pelo avanço da variante Ômicron. Como mostrou reportagem do GLOBO com o G1, dez redes públicas estão retomando o ano letivo esta semana de forma presencial, como é o caso dos estados de São Paulo, Ceará, Espírito Santo e Pernambuco (Goiás havia feito o mesmo na última semana). Nos próximos dias, Bahia e Rio de Janeiro devem se juntar ao grupo. Capitais como São Paulo, Rio, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, São Luís, Recife, Goiânia e Palmas também priorizam o modelo presencial. Espera-se que sirvam de exemplo.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Ainda a retórica

Talvez retórica: na voz
que não sabe ser em voz baixa,
e que por isso mais explode
do que fala, se é que ela fala;

retórica ao avesso, ela ensina
senão o falar, essa explosão
com que a voz, como qualquer gás,
se expressa ao ser forte a pressão;

caprichosa, com a água morta
da vida sul-americana,
que explode sem quandos nem ondes,
ou onde parece mais mansa.

Música | Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti - Por quem os Blocos Cantam

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: À espera do inesperado

O Globo

Tudo parece se encaminhar para uma vitória do ex-presidente Lula na eleição presidencial de outubro, a não ser que o inesperado faça uma surpresa, como cantava Johnny Alf. Nem tão inesperada assim seria uma desistência de Bolsonaro, prevendo a derrota certa e sem chance de tornar-se, como Trump nos Estados Unidos de Biden, a liderança contra o PT sem foro privilegiado que o proteja. Eleito senador, Bolsonaro poderia liderar a oposição. Derrotado, pode ir para a cadeia. Sua saída do páreo mudaria a cena eleitoral.

Lula está fazendo tudo certo, inclusive contendo sua turma mais radical que, enebriada pelo clima de já ganhou, começou a anunciar medidas que não combinam com o que Lula anuncia que está planejando. Pretende, segundo diz, fazer um governo mais amplo que o PT, assim como ele é maior que o partido que criou.

Os petistas da velha guarda, como José Dirceu, Dilma Rousseff, Guido Mantega, Gleisi Hoffmann, José Genoino e Franklin Martins, andaram discorrendo sobre planos polêmicos como interferir no currículo das escolas militares, alteração nos critérios de promoção de oficiais superiores, controle social da mídia, retorno da política econômica criativa, mudança da reforma trabalhista, fim do teto de gastos, e assim por diante.

Claramente, a esquerda está se precipitando, dando como certa vitória, e, Lula já entendeu, está assustando a classe média. Ele, que lançou a proposta de mudar a reforma trabalhista e que escolheu Guido Mantega para escrever um texto sobre proposta econômica de um eventual terceiro governo, deu uma freada de arrumação e desdisse o que dissera. Mandou parar a movimentação por uma CPI contra Sergio Moro, disse que faria apenas adaptações à reforma trabalhista e, sobretudo, vem bancando Geraldo Alckmin como vice ideal de uma chapa para governar, não para ganhar, que para isso parece não necessitar de ajuda, com os adversários que tem.

Carlos Andreazza: À vontade para radicalizar

O Globo

Desde há muito trato da pandemia — especificamente da vacinação — como campo ideal para o exercício da radicalização bolsonarista; território perfeito à produção-circulação de teorias conspirativas.

Claro que há outros chãos favoráveis ao fluxo do discurso sectário com vista à eleição de 2022. Por exemplo: a desinformação fidelizante difundida pela campanha do voto impresso, cruzada pela suspeição das urnas eletrônicas, uma empresa pela dilapidação do sistema eleitoral; mas cujos limites logo armariam os freios, o maior dos quais o fato de existir um inquérito instaurado de ofício, dependente apenas da caneta de Alexandre de Moraes.

Os movimentos nesse processo, muitos sob a vara da PF, assustaram.

No caso da pandemia, inexistente um inquérito como o governado por Moraes (em que o STF é vítima, acusador e juiz), a criminalização da conduta do presidente dependeria de gestões da PGR. Bolsonaro está blindado neste flanco — e sabe. A CPI da Covid, que lhe deu muito trabalho, não terá como se desdobrar sem Aras. (Lira, na Câmara, é seu sócio.) Daí por que deite e role. Daí por que, ante a vacinação de crianças, sinta-se ainda mais à vontade para acelerar o esforço por desacreditar vacinas.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro come farofa, enquanto a oposição articula alianças

Correio Braziliense

O que era para ser um bom lance de marketing político, mostrando Bolsonaro como um homem popular, virou um exemplo de falta de asseio e educação

Em busca de mais popularidade, o presidente Jair Bolsonaro produziu uma imagem bizarra no fim de semana, durante um de seus passeios de moto: um vídeo comendo asa de frango com farofa numa barraca de rua de Brasília, o que não seria nada demais durante uma campanha eleitoral, não fosse o fato de se lambuzar com a farinha muito mais do que uma criança o faria. Essa imagem não combina com a liturgia do cargo de presidente da República, nem para a maioria dos seus eleitores. Sem trocadilho, o ministro Fábio Faria (Comunicações) foi o autor do registro, que depois apagou, mas já era tarde: o vídeo viralizou no Twitter, provocando forte reação negativa. O que era para ser um bom lance de marketing político, mostrando Bolsonaro como um homem popular, virou um exemplo de falta de asseio e educação.

Eliane Cantânhede*: O xadrez de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Presidente joga a bomba no ar, a Federação e as instituições que se virem para desarmar

Bem que alguns ministros queriam tirar o protagonismo do Supremo no ano eleitoral, mas a realidade não permite. Tão vilipendiada nestes novos tempos, ela, a realidade, perde daqui e dali para as fake news, mas, no geral, ainda se sobrepõe às vontades e maquinações.

A nova crise com o Planalto é pelo “direito ao silêncio” do presidente Jair Bolsonaro sobre o vazamento ilegal de um processo sigiloso da Polícia Federal, mas não é única. A pauta do Supremo é recheada de temas ligados direta ou indiretamente a Bolsonaro.

São cinco inquéritos contra ele: vazamento ilegal do inquérito da PF, prevaricação nas vacinas da Covaxin, ataques às urnas eletrônicas, fake news associando vacinas contra a covid à aids e o primeiro deles, por interferência política na PF. São graves, mas não devem dar em nada, porque a eleição está bem aí à frente e o Supremo não vai incendiar o País, com economia patinando e miséria grassando.

Há ainda casos que envolvem interesses conflitantes do governo, da sociedade e do País, como o marco regulatório das terras indígenas, a ferrovia Ferrogrão e as rachadinhas – o alvo é outro, mas qualquer decisão resvalará para o 01, senador Flávio Bolsonaro.

Paulo Hartung*: Eleições 2022 - fazer história ou repeti-la

O Estado de S. Paulo

O Brasil merece que nessas eleições possamos tirar o foco das personalidades e mirar na discussão de projetos de País

Ainda numa trágica e nebulosa travessia pandêmica, eis que 2022 chega com sua agenda eleitoral decisiva para o País. No retrato por ora desenhado para a disputa, com seus desafios e oportunidades, os votos parecem se destinar basicamente a duas alternativas: fazer história ou repetir a história.

A oportunidade de fazer história significa ajudar a construir projeto que possibilite um “novo início” para a nossa nação, fundado na superação do abismo das desigualdades socioeconômicas e ancorado nas potencialidades das demandas por infraestrutura, da digitalidade, da ampliação das interfaces econômicas do Brasil com o mundo e do imperativo da economia verde, inaugurando a era de desenvolvimento sustentável e inclusivo.

A opção por fazer história dialoga com reformas estruturantes (como a tributária e a administrativa) e os investimentos prioritários em educação, saúde e segurança. Passa também por um projeto político que vise ao bem comum e ao interesse coletivo, em ambiente organizado e dinamizado pelos valores humanísticos e democráticos.

Andrea Jubé: Um delegado contra Lula e Moro na eleição

Valor Econômico

Governo estuda indenização de R$ 100 mil para policiais

O novo estremecimento envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes joga luz sobre um aliado discreto, mas que terá papel estratégico na campanha à reeleição: o ultra leal ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres.

Avesso a entrevistas e aos holofotes, Torres é um dos raros aliados a transitar entre dois núcleos da difusa base bolsonarista: o dos filhos e o político. Alçado ao cargo com o apoio de Flávio e Eduardo Bolsonaro e do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jorge Oliveira - considerado um integrante da família -, Torres também é desenvolto no meio político. Presidente do futuro União Brasil (UB), que resultará da fusão entre PSL e DEM, no Distrito Federal (DF), e ex-secretário de Segurança Pública do governador Ibaneis Rocha (MDB), o ministro é uma das apostas de Bolsonaro para o pleito de outubro: deverá postular uma vaga de deputado federal ou senador.

Edu Lyra: Pedras de esperança

O Globo

No ano passado, visitei em Washington o memorial de Martin Luther King, o ativista pelos direitos civis dos negros americanos que se tornou um dos maiores líderes de causas sociais do século XX. Exposta num parque, a enorme rocha de granito de onde emerge sua figura recortada nos obriga a elevar o olhar. Na lateral, lê-se: “Da montanha de desespero, [surge uma] pedra de esperança”. É um trecho do famoso discurso em que ele falava do seu sonho de ver negros e brancos convivendo harmonicamente.

Não deixa de ser simbólico que o monumento tenha sido inaugurado, em 2011, por Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos — um país que, como o Brasil, tem sua história manchada pela escravidão. Foram sementes plantadas por lideranças lúcidas e corajosas como Luther King que permitiram ao país superar leis de segregação que vigoraram até poucas décadas atrás.

A visita me levou a refletir sobre nossa situação. Vivemos num país racista. Sei, até por experiência própria, que é raro um negro que não tenha sido vítima de uma humilhante história de racismo. Feita a constatação, porém, é o caso de perguntar: quais pedras de esperança deixaremos às próximas gerações, para que elas construam edifícios sociais menos desiguais e injustos?

Alvaro Gribel: Dívida cai, mas contas são ruins

O Globo

A dívida bruta teve uma forte queda, como mostrou ontem o Banco Central, mas no mercado não há um único economista confortável com as contas públicas. Primeiro, porque a dívida permanece em patamar elevado e voltará a crescer em 2022. Segundo, porque o aumento da inflação ajuda primeiro a arrecadação do governo, o que aconteceu no ano passado, e só depois atinge as despesas, via indexação, o que acontecerá este ano. Terceiro, porque os gastos com juros podem chegar a R$ 700 bilhões, com a alta da Selic, para segurar a própria inflação. Tudo isso se somará a um ano eleitoral com promessas de mais despesas por um presidente que fará de tudo para se reeleger.

É preciso entender que a inflação elevada ajuda em um primeiro momento as contas públicas, mas depois provoca um efeito rebote. De início, a disparada dos preços significa mais dinheiro nos cofres dos governos federal, estadual e municipal. É fácil ver isso, por exemplo, nos preços dos combustíveis. Quanto mais alta a gasolina, maior a arrecadação dos estados com ICMS. E não é à toa que os chamados entes subnacionais fecharam o ano com superávit de R$ 97,7 bilhões (veja o gráfico). A energia elétrica em alta também ajudou, assim como o aumento dos preços das commodities em dólares, como soja e minério de ferro.