sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Pacote esquálido - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ala política do governo, que privilegia eleições, prevaleceu sobre a econômica, que buscava sinalizar compromisso com sustentabilidade fiscal

Na queda de braço entre Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann, deu Gleisi. A ala política do governo Lula (a que só pensa em eleição) prevaleceu sobre a econômica, e o pacote que deveria dar sustentabilidade ao arcabouço fiscal não apenas saiu esquálido como ainda teve de dividir o palco com uma proposta de reforma do Imposto de Renda, o que fez aumentar as desconfianças do mercado em relação à disposição do Planalto de ajustar as contas públicas.

O resultado prático é que o anúncio das medidas que deveriam tranquilizar os agentes econômicos produziu mais uma alta do dólar, que vai lenta e resolutamente alimentando a inflação.

Muita calma nesta hora da vida brasileira – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ambientes radicalizados são terrenos férteis para a semeadura de soluções de ruptura da legalidade

Duas dúvidas rondam a cena política do Brasil: se Jair Bolsonaro (PL) vai ser preso é uma. A outra diz respeito à possibilidade de o país caminhar para um ambiente de concertação e civilidade na convivência político-institucional.

Guardadas as devidas proporções inerentes às duas conjunturas, algo parecido aconteceu no Brasil nos anos 1980, quando a pressão da sociedade dentro dos meios legais e a união das forças políticas em torno de um objetivo comum permitiram a transição da ditadura militar para o regime democrático.

Isso Tudo Que Aí Está – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

É o nome verdadeiro do político sob os pseudônimos 'Jânio Quadros', 'Fernando Collor' e 'Bolsonaro'

Não é de hoje. Rara a eleição nos últimos 70 anos, no Brasil, em que o vencedor à Presidência não foi um candidato que, sob qualquer nome, interpreta uma figura chamada Isso Tudo Que Aí Está. O padrão é invariável. Isso Tudo Que Aí Está é um sujeito desconhecido, carismático, que surge de repente. Concorre por um partido nanico, mas este é acoplado por outro maior, notório perdedor, que não se envergonha de virar rabo de cometa. Não se sabe o que Isso Tudo Que Aí Está defende ou qual é sua plataforma. Só se sabe que ele é contra "isso tudo que aí está".

Poesia | Elegia para a adolescência, de Carlos Pena Filho

 

Música | Maria Bethânia - Recife Manhã de Sol

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Investigação da PF foi técnica, ampla e detalhista

O Globo

Inquérito traz evidências robustas contra os envolvidos na tentativa de golpe de Estado

É ao mesmo tempo profunda, robusta e assustadora a investigação que resultou no relatório da Polícia Federal (PF) descrevendo, ao longo de 884 páginas, a trama urdida nos bastidores do governo Jair Bolsonaro para dar um golpe de Estado e impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Baseado não só em depoimentos, mas sobretudo em cruzamentos de informações colhidas ou recuperadas de celulares, computadores e anotações dos acusados, o inquérito traz um farto e consistente material à disposição da Procuradoria-Geral da República para apresentar denúncia.

A PF pediu o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros 36 envolvidos, entre eles o general Walter Braga Netto (ex-ministro da Defesa, da Casa Civil e candidato a vice na chapa de Bolsonaro em 2022), o general da reserva Augusto Heleno (ex-chefe do GSI), o general da reserva Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa), o almirante Almir Garnier (ex-comandante da Marinha) e o general da reserva Mário Fernandes (ex-secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, preso na semana passada).

O autogolpe - Merval Pereira

O Globo

Teremos de enfrentar mais cedo ou mais tarde a fragilidade das normas democráticas diante de corporações fardadas e armadas

O relato oficial da Polícia Federal revela, além dos fatos concatenados desde os primeiros momentos do governo Bolsonaro até a sublevação de 8 de janeiro de 2023, um grave problema que teremos de enfrentar mais cedo ou mais tarde: a fragilidade das normas democráticas diante de corporações fardadas e armadas. O fato de Bolsonaro ter apresentado a dois comandantes militares, general Freire Gomes, do Exército, e brigadeiro Baptista Junior, da Aeronáutica, a minuta do golpe, sem consequências punitivas imediatas, revela a facilidade com que um presidente da República faz lobby por um golpe de Estado — e a dificuldade que militares democratas encontraram para superar essa situação sem criar uma crise institucional que, no limite, poderia até facilitar o golpe.

O comandante do Exército, general Freire Gomes, advertiu Bolsonaro de que ele poderia ser preso se levasse adiante tal iniciativa, mas não encontrou condições reais para prender o presidente em flagrante delito. Um coronel rebelado que enviou a ele uma mensagem de WhatsApp agressiva e impertinente tampouco foi colocado nas grades e continuou conspirando. A hierarquia quebrada nesses e noutros episódios dessa sedição fracassada mostra a delicadeza da questão, fazendo com que o comandante em chefe das Forças Armadas possa agir de maneira ilegal sem ser contido. Se fosse um presidente civil, a reação seria a mesma? Não creio.

De golpe em golpe - Malu Gaspar

O Globo

As revelações do relatório da Polícia Federal sobre a trama golpista impressionam pela quantidade de detalhes e pela ousadia do grupo de militares que estava disposto até a matar para impedir que o resultado da eleição presidencial de 2022 fosse respeitado. Mas ninguém que tenha seguido o noticiário no Brasil desde que Jair Bolsonaro foi eleito pode alegar surpresa.

As investigações deixaram claro que os surtos golpistas de Bolsonaro já eram acompanhados por articulações no submundo militar desde 2021, quando se desenhou um plano de fuga do então presidente para o exterior, caso uma tentativa de virar a mesa não desse certo.

Foi um período conturbado. Começou com a renúncia conjunta dos três comandantes das Forças Armadas, que se recusaram a aderir ao decreto de Garantia da Lei e da Ordem ou ao Estado de Sítio desejados por Bolsonaro para acabar com o isolamento social contra a Covid-19, decretado por prefeitos e governadores e chancelado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O golpe durou o governo inteiro – Míriam Leitão

O Globo

A mentira era o primeiro pilar. O alvo era minar a confiança na democracia, fabricar o ‘clamor popular’ e legitimar o golpe

Não foi um governo. Foi uma conspiração que durou um mandato. Começou em 2019 e a arma inicial foi a mentira. Durante todos os quatro anos a mentira foi usada como método. O objetivo era sedimentar a ideia, por repetição, de que o sistema eleitoral era fraudado e, assim, minar a confiança na democracia. A partir daí seus atos pareceriam legítimos. Os desdobramentos foram sendo escritos mas eram previsíveis. Cercar-se de militares, cortejar as Forças Armadas, especialmente o “meu Exército”.

Escolher alvos que seriam atacados tanto pelo então presidente da República, quanto pela milícia digital para o desmonte institucional. Por fim levar seguidores para Brasília, produzir o “clamor popular de 64”.

A realidade paralela do golpismo e o pacote fiscal - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se o relatório mostra as digitais golpistas das autoridades sob uma realidade paralela capaz de mobilizar boa parte dos 58 milhões de eleitores de Bolsonaro, é no bolso dos brasileiros que o efeito concreto do pacote se fará sentir

As 884 páginas produzidas pela Polícia Federal dão ainda maior responsabilidade ao pacote fiscal do governo. Se o relatório mostra as digitais das principais autoridades da República em ações concretas pela abolição do Estado de Direito sob uma realidade paralela capaz de mobilizar boa parte dos 58 milhões de eleitores de Jair Bolsonaro, é no bolso dos brasileiros, para além dos 60 milhões que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que os efeitos concretos do pacote fiscal se farão sentir.

O conjunto de mensagens, depoimentos, documentos e registros de entrada e saída nos palácios do Planalto e da Alvorada permite divisar com mais clareza o rumo a ser percorrido pelo inquérito até a prisão do ex-presidente. Colocá-lo atrás das grades vai elevar o custo do golpismo. Se a cultura democrática do país não se mostra capaz de se impor por suas virtudes, que o seja pela ameaça a quem a afronta.

Conspiração de 2022 foi uma caricatura de 1964 - César Felício

Valor Econômico

Golpe em 1964 envolvia governadores dos três Estados mais importantes do Brasil à época, amplos setores do Congresso, nata do empresariado, Igreja Católica e movimentos sociais enraizados na classe média

O ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, tenente coronel Mauro Cid, afirmou que, em 1964, para dar um golpe, os militares não precisaram assinar nada. É o que consta no relatório da Polícia Federal sobre a tentativa de golpe de Estado, enviado, quarta-feira (26), para a Procuradoria Geral da República.

"Em 1964 não precisou ninguém assinar nada", escreveu no WhatsApp, em conversa com outro golpista, o tenente coronel Sérgio Cavaliere. Os dois lamentavam a falta de apoio dentro da cúpula do Exército para endossar o decreto que formalizaria a ruptura institucional.

A evocação histórica golpista é incorreta em diversos níveis. Em 1964, os militares que deram um golpe assinaram um monte de papéis e procuraram, de diversas maneiras, revestir o golpe de legitimidade. Conforme a historiografia já estabeleceu, essa era uma condicionante para a destituição do então presidente João Goulart ter o reconhecimento dos Estados Unidos, fundamental para que o golpismo fosse adiante.

Problemas para o Ano Novo – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Antes mesmo de conter descrédito fiscal, governo se obriga a caçar mais receita, a fim de bancar novo IR

A preocupação do governo Lula de evitar danos de imagem com o plano de contenção de gastos é muito maior do que se imaginava. É tamanha que ministros não se importaram de dizer que a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil seria amarrada no dito pacote fiscal. Com o novo IR, o governo terá de caçar receita em volume equivalente ao que talvez economize com o pacote. O governo não se deu conta de quanto pode minar as chances de ter dólar, juros e inflação menores em 2025.

O que vai entrar por uma porta pode sair pela outra: o governo pode mostrar que foi "duro" com os mais ricos também. Mas logo pode ver os mais pobres padecerem os efeitos práticos do descrédito fiscal, como inflação em alta, o pior, ou crediário mais caro, economia esfriando etc.

Bolsonaro, militares e o golpe fracassado - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Não se pode subestimar o estrago feito pelo ex-presidente ao Estado de Direito

Presidente, Jair Bolsonaro não seguiu o roteiro dos líderes populistas que chegam ao governo. Não usou os instrumentos ao seu dispor para mudar as leis a fim de submeter o Congresso, controlar o Judiciário, calar a imprensa e emparedar as oposições.

Sua estratégia foi outra. Tratou de desacreditar o DNA da democracia: a escolha dos governantes em eleições periódicas e livres, com o respeito à vontade da maioria. Não deixou de fazer ameaças ao Supremo Tribunal Federal e aos meios de comunicação. Mas investiu mesmo, com virulência e constância, contra as instituições eleitorais —em especial o sistema eletrônico de votação e o ramo do Judiciário que zela pela lisura dos pleitos. Preparou-se para continuar no poder —pela lei, se as urnas o favorecessem; pela força, se derrotado.

Braga Netto se amarrou a Bolsonaro - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Declaração de lealdade feita pelo general não é uma mera demonstração de amizade

Por ordem do STF, Jair Bolsonaro e Walter Braga Netto não podem manter contato um com o outro. É uma medida comum para impedir que investigados combinem versões, troquem ameaças ou fechem acordos de sobrevivência. Uma conversa entre o capitão e o general, no entanto, ocorre em público.

As reações da dupla ao indiciamento por tentativa de golpe revelam a busca por um pacto. Braga Netto divulgou duas notas em que foi incapaz de negar de forma categórica seu envolvimento nos planos para permanecer no poder. O general afirmou apenas que "nunca se falou em golpe". Seus advogados gastaram caracteres para dar outros recados.

As falas da rataria – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Deus, a Pátria e a Família estão horrorizados com o baixo nível dos generais que dizem defendê-los

Deus está chocado. A Pátria e a Família, então, nem se fala. Pois não é que justo aqueles que vivem falando em Seus nomes demonstraram que, ao querer passar os adversários na bazuca, no punhal e no veneno, estão pouco ligando para os valores que os ditos Deus, Pátria e Família defendem? Deus, a Pátria e a Família se referem aos áudios descobertos outro dia, que mostram generais espumando de patriotismo e pregando ódio e ranger de dentes.

A Grande Anistia é outra - Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

A gente perdoa golpe para dar à instituição golpista uma nova chance

— Tô perto da posição, vai cancelar o jogo?

— Abortar... Áustria volta para local de desembarque, ainda estamos aqui.

— Gana prossegue para resgate com Japão.

— Brasil já foi para ponto resgate.

O diálogo entre Gana, Áustria, Japão e Brasil, codinomes dos executores do plano de sequestro e assassinato da "professora", codinome de Alexandre de Moraes, ilustra momento mais dramático da operação bolsonarista do golpe. "Por onde anda a professora?", perguntava Mauro Cid pouco antes. "Informação de que foi para escola em SP". Talvez se referissem à faculdade onde o ministro leciona.

"Brasil já foi para ponto resgate" nos deu uma metáfora notável. Desses achados que sintetizam uma época. Está em curso, de novo, o "resgate" da instituição militar contra sua sujeição a controle constitucional. A tradição de leniência perante nossa maior instituição de delinquência política volta a mostrar sua força.

Denúncias não abalaram popularidade de Bolsonaro – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Pesquisa acendeu uma luz amarela no Palácio do Planalto, que está às voltas com a repercussão do ajuste fiscal preparado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad

Pesquisa do Instituto Paraná, divulgada nesta quarta-feira pelo site Poder 360, mostra que a repercussão do indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 36 pessoas, entre as quais cinco generais de quatro estrelas, por tentativa de golpe de Estado, não abalou a popularidade do ex-chefe do Executivo. Talvez até tenha ocorrido o contrário: se as eleições presidenciais fossem hoje, Bolsonaro teria 37,6% dos votos, contra 33,6% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A pesquisa acendeu uma luz amarela no Palácio do Planalto, que está às voltas com a repercussão do ajuste fiscal preparado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que, nesta quarta-feira, fez um pronunciamento oficial em cadeia nacional de rádio e tevê para anunciar a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil. A medida, uma das promessas de campanha do presidente Lula, vem no contexto de um pacote de corte de gastos que será encaminhado ao Congresso nos próximos dias.

Ideologia, ideologia - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Pesquisa revela fragmentos de um sistema em que a identidade se dissolve no líder forte e rico, e nos explica, em parte, por que dezenas de milhões sufragaram os golpistas

Conforme vai ficando mais evidente – como se fosse possível ficar ainda mais evidente, e como se fosse preciso – que o ocupante da Presidência da República até 2022 tramava, planejava e tentava executar um golpe de Estado, uma pergunta se projeta para fora das sombras da conveniência: como explicar o apoio que ele angariou? Por que tantos ricaços o adularam de modo tão pegajoso? Por que tantos políticos experientes se dobraram em mesuras tão solícitas? Por que tantos segmentos da caserna se comportaram feito gangues tão analfabetas? E, por fim, por que as massas espoliadas se prestaram a aplaudi-lo quando ele subia em caminhões para vomitar a treva sobre o asfalto? Como entender que tenham votado numa figura declaradamente empenhada em degradar-lhes um pouco mais a vida?

A política e a política fiscal - José Serra

O Estado de S. Paulo

A fragilidade governamental na condução da tramitação do novo pacote fiscal é fonte de turbulência e descrédito na percepção da política econômica

Estamos no epicentro de um novo pacote fiscal, considerado por muitos como o momento decisivo do terceiro governo Lula. Os analistas da política econômica enfocam a validade e qualidade das medidas. O mercado financeiro deseja o primário ajustado e o arcabouço fiscal do ministro Fernando Haddad funcionando. Não creio, no entanto, que as discussões que esses atores vêm fazendo consigam dar conta de tudo que está sendo jogado neste momento.

É verdade que as expectativas sobre a economia brasileira atravessaram semanas de deterioração. Temores sobre a inflação, escalada do dólar, descrença sobre a situação fiscal e um cenário externo mais restritivo com o segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos geraram tensões que resultaram em vigorosa expansão da curva de juros no longo prazo.

Fatos e desejos - William Waack

O Estado de S. Paulo

Cortar gastos de um lado e criar um buraco de outro é tão inteligente quanto enxugar gelo. É uma postura que o governo Lula 3 parece perseguir na economia e na política. A decepção manifestada por agentes econômicos (que não têm CPF nem CNPJ nem escritório na Faria Lima, como pensa Lula) é sobretudo política. Tem a ver com uma das mais velhas frases sobre agentes políticos e uma das mais repetidas: não aprenderam nem esqueceram nada.

É o que se dizia dos senhores do “ancien regime” na França do começo do século 19.

Não tinham entendido os erros do passado nem as contingências do presente. Lula 3 é a expressão perfeita do “ancien regime” na política brasileira.

¿Qué falta para que Bolsonaro sea encarcelado? - Fernando de la Cuadra*

En el extenso y contundente informe de 884 páginas elaborado por la Policía Federal se concluye que el ex presidente Jair Bolsonaro operó como el líder de una organización criminal que planificó un Golpe de Estado para mantenerlo en el poder después que perdió las elecciones en octubre de 2022. Y no solo eso, los investigadores también descubrieron que ese plan incluía el asesinato del candidato vencedor, Lula da Silva, de su vicepresidente Geraldo Alckmin y del Ministro del Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.

En una de sus partes el documento señala que “los elementos de prueba obtenidos a lo largo de la investigación demuestran de forma inequívoca que el entonces presidente de la República, Jair Messias Bolsonaro, planificó, actuó y tuvo el dominio de forma directa y efectiva de los actos ejecutorios realizados por la organización criminal que tenía por objetivo la concretización de un Golpe de Estado y la Abolición del Estado Democrático de Derecho”.

Por lo mismo, la Policía Federal solicita el procesamiento de Bolsonaro y otras 36 personas fundamentalmente por estos tres crímenes: Intención de dar un Golpe de Estado; abolición violenta del Estado democrático de derecho y formación de organización criminal. De acuerdo a las indagaciones realizadas y a un amplio material comprobatorio, el Golpe no se habría consumado por “circunstancias ajenas a la voluntad del ex presidente” y sus cómplices.

Poesia | Das vantagens de ser bobo, de Clarice Lispector

 

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho (Capiba)

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Carrefour expõe limites do protecionismo

O Globo

Como bom varejista, empresa deveria oferecer a melhor carne pelo menor preço, de qualquer procedência

O recrudescimento do protecionismo ganhou novo capítulo com a declaração do presidente global do varejista Carrefour, Alexandre Bompard, de “não comercializar nenhuma carne do Mercosul” nas lojas francesas “em solidariedade” a pecuaristas locais. Bompard questionou a qualidade do produto sul-americano. Mais que fazer demagogia com o público francês, ele deixou claríssimas as limitações do discurso protecionista que tem se disseminado mundo afora.

União Europeia e Mercosul estão perto de anunciar a conclusão do esperado acordo de livre-comércio. Agricultores franceses estão entre seus maiores opositores no continente e têm feito de tudo para tentar impedi-lo.

Revoltados com a declaração de Bompard, produtores brasileiros passaram a boicotar as lojas do Carrefour por aqui. Com o risco de desabastecimento na operação que responde por um quarto do faturamento global do grupo, o Carrefour publicou nota para se retratar. O texto ignora o principal. Como bom varejista, o Carrefour deveria declarar que ofereceria a melhor carne pelo preço mais baixo, independentemente da procedência. Em vez disso, afirma que continuará a comprar “quase exclusivamente” o produto francês na França e o brasileiro no Brasil. Não houve mudança prática.

Dano duradouro às instituições - Vera Magalhães

O Globo

Dizer que o golpismo foi extirpado do ecossistema militar seria não só precipitado, mas um erro grave

Muito já se sabia dos fatos finalmente reunidos nas 884 páginas do relatório final da Polícia Federal sobre o inquérito aberto para investigar uma tentativa de golpe ainda na vigência do governo Jair Bolsonaro. Mas a consolidação das informações a respeito da abrangência da conspiração não deixa dúvida: o grau de corrosão institucional que permite que tantos níveis hierárquicos sejam mobilizados para consolidar um plano para abolir o Estado Democrático de Direito não se corrige em dois anos, e seus danos são prolongados.

Será necessário, além de julgar com presteza e sentido de urgência e de punir com o rigor da lei aqueles que atuaram na trama golpista, atuar para descontaminar permanentemente esses órgãos de Estado, sobretudo as Forças Armadas e, dentro delas, o Exército Brasileiro dos muitos desvios comprovados pelo inquérito.

Alguns desses vícios não são novos, mas foram ressuscitados por Bolsonaro de forma sistemática e bem anterior a sua própria eleição. Tudo começou com a atuação do ex-capitão — patente, aliás, que só obteve como espécie de prêmio de consolação incompreensível depois de seu afastamento do Exército justamente por tentar promover uma sublevação — como uma espécie de líder sindical das famílias militares no tempo em que foi deputado do baixo clero.

A última covardia - Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-presidente fugiu do país para evitar prisão e torcer pelo golpe à distância, conclui PF

Foram 44 dias de silêncio. Depois de perder o segundo turno da eleição, Jair Bolsonaro recolheu a língua e saiu de cena. Sem admitir a derrota, o capitão abandonou o Planalto à deriva. Entrincheirou-se no Palácio da Alvorada, onde maquinou um golpe para permanecer no poder.

Em 9 de dezembro de 2022, o ainda presidente interrompeu a clausura. Cercado por seguranças, caminhou até o espelho d’água da residência oficial, onde era aguardado por uma claque em verde e amarelo.

“Hoje vivemos um momento crucial. Uma encruzilhada. Um destino que o povo tem que tomar”, discursou, como se a eleição não tivesse acabado. “Quem decide o meu futuro, para onde eu vou, são vocês. Quem decide para onde vão as Forças Armadas são vocês”, prosseguiu.

Massu, um patrono dos Kids Pretos – Elio Gaspari

O Globo

O general não comia mel, comia abelha

Com sua boina preta, o general francês Jacques Massu (1908-2002) foi um modelo de oficial das tropas de elite do Exército francês. Em 1940, era capitão quando a França rendeu-se à Alemanha. Estava na África e juntou-se a tropas que atenderam ao chamado do general Charles de Gaulle. Quatro anos depois, desembarcou com as tropas aliadas na Normandia. No fim da tarde do dia 25 de agosto de 1944, estava debaixo do Arco do Triunfo, em Paris.

Passaram-se os anos e, em 1957, a Quarta República francesa enfrentava uma insurreição na Argélia. Um governador socialista entregou a repressão ao coronel paraquedista Jacques Massu. Foi a Batalha de Argel. Em oito meses, Massu neutralizou a insurreição na cidade, matando e torturando insurretos. (Ele aplicou-se choques elétricos para avaliar o efeito do suplício.)

Um grande pequeno vizinho - Zeina Latif

O Globo

Com instituições mais frágeis, o Brasil depende mais da sorte do que o Uruguai para ter lideranças políticas capacitadas para avançar

O Uruguai destoa positivamente dos demais países da América Latina, em muitas frentes. Tem o segundo maior PIB per capita da região, depois do Panamá, e o melhor balanço entre grau de desigualdade e renda per capita – afinal, nada adianta todos serem igualmente muito pobres, como o Haiti.

O índice de Gini (quanto mais baixo o valor, menor a desigualdade) estava em 40,6 em 2022 para um PIB per capita de US$32,7 mil, ante as cifras do Brasil de 52,0 e US$19,9 mil, respectivamente.

Na educação, as notas no PISA (programa internacional de avaliação da educação fundamental) estão atrás apenas das do Chile. A nota em matemática, por exemplo, foi 466 em 2022 ante 379 no Brasil. Igual retrato é observado no índice de desenvolvimento humano.

Indiciamento de Bolsonaro catapulta Caiado – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Além do presidente Lula, quem muito se beneficia eleitoralmente da situação de Bolsonaro é o governador de Goiás, pré-candidato a presidente da República em 2026

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está irremediavelmente fora das eleições presidenciais de 2026. Ao ser indiciado pela Polícia Federal como líder da organização criminosa que planejou um golpe de Estado para mantê-lo no poder, após a derrota nas eleições de 2022, a estratégia que vinha sendo implementada pelo PL para aprovar uma anistia aos participantes do 8 de janeiro de 2023 e, no embalo, reverter a inelegibilidade de Bolsonaro, não tem chance de dar certo.

Bolsonaro está sendo abandonado pelos aliados, inclusive os que apoiou nas últimas eleições, como o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), que tomou distância regulamentar do ex-presidente já no dia em que foi anunciado o resultado das eleições. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), que chegou a classificar o indiciamento como “carente de provas” e argumentar que Bolsonaro respeitou o resultado da eleição, na mesma entrevista, espertamente, fez a ressalva de que as investigações deveriam ser conduzidas com “responsabilidade e foco na verdade dos fatos”.

Não haverá vácuo no espaço de Bolsonaro - Fernando Exman

Valor Econômico

Ao centro e à direita já se desenha um cenário em que várias legendas tentarão disputar os eleitorados antipetista e antissistema

A convocação de Jair Bolsonaro chegou de repente, por volta das 17h, cerca de duas horas e meia antes de seu avião pousar em Brasília. O ex-presidente avisava a jornalistas e parlamentares que falaria com os presentes após desembarcar. “Sugiro que algum assessor seu se faça presente e abra uma ‘live’”, acrescentou aos aliados.

Por dever de ofício, a imprensa profissional se fez presente. Era preciso ouvi-lo sobre as novas revelações da tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2022. Os apoiadores eram mais barulhentos do que numerosos.

A cena pode ser usada para embasar a tese de ministros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que Bolsonaro (PL) rachou o que até então era considerado o seu campo político. Ao atuar contra aliados durante as eleições municipais, dizem interlocutores de Lula, acabou facilitando os futuros planos eleitorais do governo.

PF mostra como Bolsonaro comandou a operação golpista - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A atuação do ex-presidente não decorre do desespero ante a perspectiva de ver o poder se esvair com uma derrota eleitoral, mas é uma estratégia construída desde sua posse

São 884 páginas, mas o coração do relatório da Polícia Federal está em apenas sete. É nelas que está a fundamentação daquilo que se busca desde o início desta investigação: a centralidade do ex-presidente Jair Bolsonaro no planejamento, coordenação e execução da tentativa de golpe.

É preciso chegar à página 841 para se deparar com o capítulo “Jair Bolsonaro”, o nº 21 dos indiciados, que abre pela conclusão “inequívoca” de que o ex-presidente “planejou, atuou e teve o domínio de forma direta e efetiva dos atos executórios realizados pela organização criminosa que objetivava a concretização de um golpe de Estado e da abolição do Estado Democrático de Direito, fato que não se consumou em razão de circunstâncias alheias à sua vontade”.

O que Jair Bolsonaro merece é a cadeia - Fabiano Lana

O Estado de S. Paulo

Ao que tudo indica, o golpe não foi para a frente porque parte da Cúpula das Forças Armadas evitou a acompanhar o presidente e seus assessores marginais numa aventura inconsequente

Essa não é uma coluna sobre questões jurídicas. Mas sobre merecimento. Sobre os castigos adequados como aprendizado para condutas inadequadas das figuras públicas. Nesse sentido, o que merece um ex-presidente da República que cogitou dar um golpe militar para continuar ilegalmente no poder por meio da força bruta a não ser a cadeia? Atualmente o ex-presidente e seus asseclas nem negam mais quais eram suas intenções, apenas tentam colocar o crime dentro de outras molduras, como a de ter cogitado um “estado de sítio”, algo assim. Mas o que fizeram, ou mesmo tiveram a intenção de fazer, além de começarem a executar, é algo que obriga ao castigo, a enviar a todos por um longo tempo para o xilindró.

Mas vivemos no Estado de Direito. Nesse sentido Bolsonaro deve ter acesso a toda defesa possível e pode ser que escape ileso, em hipótese. Pulularam uma série de juristas para dizer que, apesar do plano para destruir a democracia brasileira ser repudiável, etc., na verdade o que houve não pode ser tipificado como um crime. É como se admitissem, veja, que o direito pode ser o refúgio dos canalhas. Numa adaptação aqui da frase do escritor inglês Samuel Johnson, que na verdade se referia ao uso cínico do patriotismo para justificar o injustificável.

O alerta de Toffoli para Bolsonaro - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

‘O senhor acha que, se houver um ato de força, os generais vão deixar um capitão assumir o poder?’

No dia 19 de dezembro de 2022, Jair Bolsonaro participou de um jantar, em Brasília, na casa do então ministro das Comunicações, Fábio Faria. Mas quem pediu para que Faria organizasse o encontro foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. Preocupado com a relutância de Bolsonaro em admitir a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Toffoli chamou o então presidente para uma conversa reservada após o jantar.

“O senhor acha que, se houver um ato de força, os generais quatro estrelas vão deixar um capitão assumir o poder?”, perguntou o ministro do STF.

A poucos dias do fim do mandato, o presidente ficou em silêncio. Depois, negou que estivesse planejando um golpe. Admitiu, porém, que temia a prisão e a perseguição política, principalmente contra seus filhos. Afirmou, ainda, que jamais passaria a faixa para Lula.

Donald Trump e a picanha – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Inflação de alimentos não para, republicano anuncia confusão, dólar fica nas alturas

Donald Trump já prometeu aumentar imposto sobre produtos importados de México, Canadá e China. Mais do que nunca, guerra comercial de outros países deixou de ser assunto distante da nossa vidinha de ir ao supermercado e de pagar contas. A depender do que o presidente eleito dos EUA de fato vier a fazer, o conflito no comércio pode derrubar uma sequência de dominós que vai afetar o preço do dólar aqui e, pois, a inflação.

O caldo econômico pode ficar azedo para a política, para o governismo. A carestia não está descabelada. Mas o IPCA está bem acima da meta do Banco Central. Inflação perto de 5% neste ano aumenta a "inércia" (remarcação de preço pela inflação passada, por hábito ou por contrato).

Então era assim o tão prometido golpe? – Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Bolsonaro e seus chegados nunca tentaram enganar ninguém: o poder pela força era opção clara

Sempre foi evidente que Bolsonaro e seu círculo íntimo só não dariam um golpe de Estado se não tivessem os meios ou as oportunidades necessárias; motivação nunca faltou, e eles nunca esconderam isso. Se tivessem obtido sucesso, teria sido, provavelmente, o golpe mais anunciado da história.

De fato, a cada obstáculo imposto pelo Poder Judiciário aos seus apetites, Bolsonaro respondia com ameaças histéricas de desrespeitar a Constituição, ignorar decisões judiciais e utilizar as Forças Armadas contra quem lhe contrariasse as vontades. Por várias vezes, de sua cercania e com o seu envolvimento direto, saíram as diretivas para que movimentos bolsonaristas, como caminhoneiros financiados pelo agronegócio, policiais e militantes radicais, voltassem sua fúria contra instituições e indivíduos. Ou, simplesmente, gerassem o caos necessário para justificar o uso da força policial ou militar.

Duro de matar - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Horror a dissonâncias cognitivas explica resistência de bolsonaristas em aceitar informações desfavoráveis ao ex-presidente

Parte significativa dos 25% de eleitores que se declaram bolsonaristas convictos continuará a bater continência para o ex-presidente independentemente do que a Justiça prove contra ele.

Isso tem muito a ver com a arquitetura de nossos cérebros, que têm horror a dissonâncias cognitivas. Elas se dão quando existe uma contradição entre ideias nas quais temos grande investimento emocional e a realidade. Esse choque é mentalmente doloroso, daí que o cérebro se vale de subterfúgios para reduzir a distância entre o desejado e o verificado. São as autojustificativas.

Os comandantes e a rataria - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Relatório final mostra como ex-presidente e a 'rataria' executaram plano para anular eleições

Jair Bolsonaro ouviu "não" dos comandantes do Exército e da Aeronáutica mais do que uma única vez. O relatório final do inquérito do golpe mostra que o então presidente buscou quatro vezes a adesão da dupla. Em certo momento, ele tentou driblar os chefes militares para seguir adiante com a trama.

O brigadeiro Baptista Júnior contou que, até 14 de novembro de 2022, o então presidente parecia "resignado com o resultado das eleições". Naquela data, Bolsonaro convocou os comandantes para apresentar o relatório contratado pelo PL para pedir a anulação das eleições.