O Globo
Sob pressão, presidente precisa convencer
descontentes de que mudança pode ser para pior
Foi há 20 anos, quando a Itália venceu sua
quarta Copa do Mundo. Encerrado o torneio, o saudoso Fernando Vannucci saudou a
campeã e fez um discurso inflamado sobre o fiasco da seleção brasileira. “É
hora da gente mudar... ou mudar de vez. Vamos colocar o castelo de areia
abaixo!”, conclamou.
As redes sociais ainda engatinhavam, mas a
transmissão de 2006 virou meme instantâneo. Circula até hoje na internet, onde
vídeos antigos ganham novos significados, inspiram piadas, alimentam outros
debates.
No esporte e na política, mudar tudo é uma ideia poderosa. Derrubar o castelo soa mais tentador do que reformá-lo. É mais fácil destruir do que consertar as telhas, trocar as janelas, reparar os canos gastos pela ferrugem.
No segundo estado mais populoso do país, o
eleitor parece seduzido pela promessa do bota-abaixo. Ex-cantor de pagode, o
senador Cleitinho Azevedo decolou com um discurso que nega a política e
vocifera contra o “sistema”. Num vídeo célebre, ensinou motoristas a burlar o
pedágio de uma rodovia. Na CPI das Bets, abriu mão de fazer perguntas para
pedir selfie a uma influenciadora sob investigação.
Sem a mais remota ideia de como gerir as
contas de um estado quebrado, o populista de Divinópolis pode ser eleito hoje
em primeiro turno. Se vencer, assumirá uma cadeira que já foi ocupada por JK,
Tancredo e Itamar.
O apelo por mudança também dá o tom da
disputa presidencial. Na quinta-feira, os dois candidatos favoritos martelaram
a ideia no encerramento da propaganda de TV. “É hora de mudar”, discursou
Flávio Bolsonaro. “Mudar é continuar avançando”, recitou Lula.
Desde a pandemia, cientistas políticos usam a
expressão “maldição do incumbente” ao falar da onda de vitórias de candidatos
de oposição. Segundo levantamento de Steven Lewitsky, a situação foi derrotada
em 40 de 54 eleições nacionais entre 2020 e 2024. O povo puniu os governantes
pelo aumento do custo de vida até em países que conseguiram frear a inflação,
como os EUA de Joe Biden. Pode ser o caso do Brasil em 2026.
Guiado por pesquisas qualitativas, Flávio
transformou o carrinho de compras em símbolo da campanha. Apostou na
insatisfação do eleitor com a perda de poder aquisitivo, ainda que a alta dos
alimentos tenha sido muito maior no governo do pai dele do que no atual.
Em busca do quarto mandato, Lula fez uma
campanha errática. Gastou mais tempo falando em legado do que apontando para o
futuro. Parecia esperar uma homenagem pelo conjunto da obra, quando o eleitor
já sinalizava cansaço e preocupação com problemas que o atual governo não soube
resolver.
Alertado para o risco de derrota, o petista
tentou virar o disco nos últimos dias. Anunciou uma série de medidas populares
e tentou driblar a ideia de continuísmo. “Mudar não é voltar para trás. Mudança
não é tirar o que você já conquistou”, disse, no programa de quinta. A ver se
terá tempo para atrair indecisos e barrar a volta da extrema direita.
Sob pressão, Lula precisa convencer os descontentes de que nem toda mudança é para melhor. O futebol tem exemplos disso. Depois do fiasco que irritou Vannucci, a CBF teve seis presidentes, e a seleção passou pelas mãos de oito técnicos. Em 20 anos, o Brasil perdeu mais cinco Copas — e ainda amargou a humilhação do 7 a 1.

Um comentário:
às vezes dá impressão que não são jornalistas políticos são articuladores de campanha do Lula tamanha a preocupação E conselhos que dão Aos marqueteiros do PT
É muito triste isso saber que o PT não duas redações dos melhores jornais com muito dinheiro e ainda encontrou um ambiente esquerdista natural dos jornalistas e aí tomou posse das redações e aí a gente fica ouvindo essas análises que na verdade são lamentos e conselhos para campanha do PT
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