O Estado de S. Paulo
As derrotas de Trump e Vucic mostram que não estamos à mercê de salvadores da pátria
Vivemos inevitavelmente sob o domínio da
corrupção, da política como entretenimento e de atores que se apresentam como
insubstituíveis salvadores da pátria? Os eleitores americanos e sérvios acabam
de responder que não. As vitórias sobre Donald Trump e Aleksandar Vucic
percorreram caminhos diferentes, mas ambas vinculados ao mundo da experiência
real, em vez da pirotecnia dos influenciadores das redes sociais, que
possibilita a consagração de idiotas.
Contra o poder econômico e governamental de Trump e de seus aliados, os democratas bateram de porta em porta para ouvir as dores dos eleitores e, como o próximo líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, definiu: “o que devíamos fazer”.
Enquanto muitos republicanos se deixavam consumir
pelo dilema entre se afastar da imagem tóxica de Trump para se viabilizar como
candidatos e evitar a fúria do presidente e de seu movimento Maga, os
democratas se reconectavam aos anseios dos americanos comuns.
Enquanto o ex-presidente Barack Obama e a
ex-vice-presidente e candidata Kamala Harris discutiam os problemas do alto
custo de vida enfrentados pelas pessoas comuns, Trump se perdia em longas
tergiversações sobre suas obras na Casa Branca e no National Mall e sobre a
aparência física de candidatos endossados por ele.
Redutos republicanos, como Texas, Carolinas
do Norte e do Sul, Kansas, Iowa e Ohio elegeram candidatos democratas. A
maioria de quase 100 cadeiras obtida pelos democratas na Câmara só é comparável
à resultante das eleições de meio de mandato de 1974, no calor do escândalo de
Watergate. Isso é emblemático, porque entre os motivos de rejeição a Trump
estão denúncias de abuso de poder e corrupção.
Vucic estava no poder desde 2014, como
premiê, a partir de 2017 como presidente, e agora se candidatou de novo à
chefia do governo. A morte de 16 pessoas pela queda de uma marquise da estação
de Novi Sad em novembro de 2024 desencadeou uma onda de protestos contra
corrupção, má gestão, controle dos meios de comunicação e a aliança de Vucic
com Vladimir Putin.
Eu estive na Sérvia há pouco mais de um ano e
testemunhei o movimento popular, liderado por estudantes universitários que
enfrentavam a repressão policial e o assédio político do regime.
Nas eleições do dia 25, a chamada Lista dos
Estudantes obteve 140 das 250 cadeiras do Parlamento. O Partido Progressista
Sérvio, de Vucic, ficou com apenas 103. A Lista é um grupo heterogêneo, e o
perfil final do novo governo será resultado das intensas negociações agora em
curso. Assim é a democracia. •

Nenhum comentário:
Postar um comentário