domingo, 8 de novembro de 2026

Assim é a democracia, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

As derrotas de Trump e Vucic mostram que não estamos à mercê de salvadores da pátria

Vivemos inevitavelmente sob o domínio da corrupção, da política como entretenimento e de atores que se apresentam como insubstituíveis salvadores da pátria? Os eleitores americanos e sérvios acabam de responder que não. As vitórias sobre Donald Trump e Aleksandar Vucic percorreram caminhos diferentes, mas ambas vinculados ao mundo da experiência real, em vez da pirotecnia dos influenciadores das redes sociais, que possibilita a consagração de idiotas.

Contra o poder econômico e governamental de Trump e de seus aliados, os democratas bateram de porta em porta para ouvir as dores dos eleitores e, como o próximo líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, definiu: “o que devíamos fazer”.

Enquanto muitos republicanos se deixavam consumir pelo dilema entre se afastar da imagem tóxica de Trump para se viabilizar como candidatos e evitar a fúria do presidente e de seu movimento Maga, os democratas se reconectavam aos anseios dos americanos comuns.

Enquanto o ex-presidente Barack Obama e a ex-vice-presidente e candidata Kamala Harris discutiam os problemas do alto custo de vida enfrentados pelas pessoas comuns, Trump se perdia em longas tergiversações sobre suas obras na Casa Branca e no National Mall e sobre a aparência física de candidatos endossados por ele.

Redutos republicanos, como Texas, Carolinas do Norte e do Sul, Kansas, Iowa e Ohio elegeram candidatos democratas. A maioria de quase 100 cadeiras obtida pelos democratas na Câmara só é comparável à resultante das eleições de meio de mandato de 1974, no calor do escândalo de Watergate. Isso é emblemático, porque entre os motivos de rejeição a Trump estão denúncias de abuso de poder e corrupção.

Vucic estava no poder desde 2014, como premiê, a partir de 2017 como presidente, e agora se candidatou de novo à chefia do governo. A morte de 16 pessoas pela queda de uma marquise da estação de Novi Sad em novembro de 2024 desencadeou uma onda de protestos contra corrupção, má gestão, controle dos meios de comunicação e a aliança de Vucic com Vladimir Putin.

Eu estive na Sérvia há pouco mais de um ano e testemunhei o movimento popular, liderado por estudantes universitários que enfrentavam a repressão policial e o assédio político do regime.

Nas eleições do dia 25, a chamada Lista dos Estudantes obteve 140 das 250 cadeiras do Parlamento. O Partido Progressista Sérvio, de Vucic, ficou com apenas 103. A Lista é um grupo heterogêneo, e o perfil final do novo governo será resultado das intensas negociações agora em curso. Assim é a democracia. •

 

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