domingo, 8 de novembro de 2026

Um xerife na Esplanada, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Pasta terá papel de destaque em novo governo Lula; Camilo e Haddad preferem correr menos riscos na Casa Civil

O presidente Lula anunciou que vai recriar o Ministério da Segurança Pública. A promessa é antiga. Foi apresentada na campanha de 2022 e levou quatro anos para começar a sair do papel.

A pasta só existiu nos últimos dez meses do acidentado governo de Michel Temer. Com a posse de Jair Bolsonaro, suas atribuições voltaram ao guarda-chuva do Ministério da Justiça, onde permanecem até hoje.

Em mandatos anteriores, Lula resistiu a puxar para si a encrenca da segurança. A exemplo de outros presidentes, era aconselhado a manter distância de chacinas, rebeliões e outras crises que desgastam a imagem de governadores.

O cenário mudou quando a extrema direita abocanhou a pauta para ganhar votos e demonizar adversários. O inquilino do Planalto passou a ser responsabilizado por todas as formas de violência, das guerras do tráfico ao roubo de celular.

A aprovação da PEC da Segurança criou instrumentos para o governo federal passar do discurso à ação. Ainda assim, sobram incertezas sobre o desenho e os poderes do novo ministério. “A questão é saber quem botar lá”, resume o ex-ministro Nelson Jobim.

Quando a pasta for criada, seu titular receberá uma estrela de xerife e ganhará papel de destaque no governo. Além de competência técnica, precisará de habilidade política para contornar conflitos anunciados.

Assim que a PEC foi enviada ao Congresso, Ronaldo Caiado liderou uma grita de governadores de oposição. “Quem manda na segurança pública no meu estado sou eu”, desafiou. O homem do cavalo branco perdeu a eleição, mas personagens em ascensão na direita, como Tarcísio de Freitas e Douglas Ruas, tendem a protagonizar embates com o novo ministro.

Se a pasta for bem avaliada, terá potencial para projetar um sucessor para Lula em 2030. Se fracassar, pode virar uma sepultura de presidenciáveis. O risco ajuda a entender a preferência de Camilo Santana e Fernando Haddad pela chefia da Casa Civil, na cozinha do Planalto.

Nos próximos dias, o governo decidirá o que levar para o novo órgão e o que deixar no Ministério da Justiça. No passado, Jobim brincava que as atribuições da pasta iam “da toga à tanga”. A Funai já migrou para o Ministério dos Povos Indígenas, e agora será a vez de a Polícia Federal mudar de endereço.

Criado no Império, o Ministério da Justiça ficará com tarefas como defesa do consumidor, cooperação jurídica internacional e recuperação de ativos. Seu titular terá menos poder e menos visibilidade do que o xerife da Esplanada.

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Netanyahu derrotado

O convite para Gadi Eisenkot formar um novo governo abre caminho para a normalização das relações entre Brasil e Israel. O diálogo está congelado desde maio de 2024, quando o chanceler de Benjamin Netanyahu destratou o embaixador Frederico Meyer e declarou Lula persona non grata por criticar a matança em Gaza.

O petista não pode reclamar da sorte. Em dez dias, conquistou o quarto mandato e saboreou derrotas de Netanyahu e Donald Trump.

 

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