domingo, 1 de setembro de 2013

O mundo muda - Ferreira Gullar

Quanto mais radical for o militante, mais dificilmente admitirá que o seu sonho acabou

Os ideais de esquerda nasceram em meados do século 19 e ganharam corpo no começo do século 20, com a revolução de 1917. Com o nascimento da União Soviética, o ideal comunista ganhou corpo, deixou de ser mera utopia para se tornar realidade.

O sonho de uma sociedade igualitária, em que os trabalhadores seriam os dirigentes da nação e em que a mais-valia reverteria em benefício da sociedade e não de alguns burgueses ricos, parecia enfim concretizar-se.

É verdade que as primeiras décadas do socialismo soviético não apresentaram resultados muito positivos, mas para quem acreditava na sociedade igualitária, os problemas seriam em breve resolvidos.

O fato é que a simples existência da URSS já provocara importantes mudanças nos países capitalistas que trataram de atender a algumas reivindicações do trabalhadores.

A deflagração da Segunda Guerra Mundial, provocada pela Alemanha nazista, tumultuou o processo e provocou uma inesperada aliança entre os países capitalistas avançados e a União Soviética, o que adiou o conflito entre socialismo e capitalismo que, finda a guerra, levaria um mundo à chamada Guerra Fria e à beira de um conflito nuclear, o que felizmente não aconteceu.

Nesse período, o capitalismo se desenvolveu e derrotou economicamente o socialismo, levando ao fim da União Soviética e do sistema comunista que havia surgido no pós-guerra. A partir de então, o sonho revolucionário dos partidos comunistas disseminados pelo mundo inteiro se desfez. Não era mais possível, sensatamente, continuar lutando por um ideal de sociedade que fracassara.

Deve-se admitir, no entanto, que não é fácil abrir mão das utopias, dos projetos concebidos e aceitos como salvação da sociedade, o fim da desigualdade, o reino da felicidade sobre a Terra.

Tais utopias equivalem a crenças religiosas, de que dificilmente as pessoas abrem mão. Elas são, ademais, tanto uma como outra, o que dá sentido à existência. Para alguns é isso, para outros, a afirmação de valores ideológicos aos quais entregaram a vida. Há aí, sem dúvida, uma mistura de autoafirmação e autoengano.

Isso explica o que aconteceu com as esquerdas em diferentes países, inclusive o Brasil. Deve-se observar que quanto mais radical for o militante, mais dificilmente admitirá que o seu sonho acabou. Em setores da esquerda moderada, algumas mudanças na máquina capitalista aparecem como uma opção admissível, mas não para a esquerda radical que, por isso mesmo, defronta-se com um impasse: sabe que a revolução se tornou inviável mas teima em não aceitar a verdade. O que não significa que devamos aceitar os abusos do capitalismo.

E então nasce o neopopulismo que é, no fundo, a tentativa de manter o poder, dentro do regime capitalista, mas contra ele. Como isso tornaria o governo inviável, toma decisões contraditórias, para mostrar-se de esquerda e ao mesmo tempo atender às exigências do capital.

O que ocorre na Venezuela é exemplo disso, onde tal ambivalência conduziu o país a um impasse econômico que se agrava a cada dia. A verdade é que ou o novo governo muda de rumo ou leva o país ao caos econômico e social.

O que sucedeu na Venezuela começa a acontecer no Brasil, claro que em escala diversa, dada a natureza distinta dos dois países, tanto histórica quanto econômica.

Aqui, certamente, não surgirá um novo Hugo Chávez nem teremos uma sucessão presidencial tão surrealista quanto a que ocorreu ali. De qualquer modo, a atitude ambivalente do governo petista --que governa com a direita e finge que é de esquerda-- se mantém e compromete o crescimento do país.

Esse é um aspecto da questão que envolve o que restou da esquerda radical. É que ela chega ao fim tanto pelo esvaziamento ideológico quanto pela idade de seus líderes: Lula e Dilma não têm como seguir adiante por muito tempo.

Em suma, embora ainda haja quem teime em se dizer esquerdista, nenhum político profissional que pretenda de fato ascender no cenário nacional insistirá em repetir os chavões que saíram de moda.

Quem pretenda fazer carreira política seguirá outro caminho. Uma geração não ideológica --que nada tem da herança utópica surgida com Karl Marx-- assumirá o poder no futuro.

Fonte: Folha de S. Paulo /Ilustrada

Radiografia das cidades - Merval Pereira

No estudo sobre a gestão das grandes cidades brasileiras que a consultoria Macroplan, especializada em cenários prospectivos e planejamento estratégico, realizou recentemente, a radiografia das cem maiores cidades do país mostra as disparidades regionais de qualidade e cobertura dos serviços em cada município. Há cidades como Foz do Iguaçu (PR) que, entre 2007 e 2011, evoluiu da 23ª posição para a primeira do grupo no Ideb dos anos iniciais (nota 7), mas que deixa a desejar no campo da segurança, registrando alta taxa de homicídios (73/100 mil).

Ou o caso de Franca (SP), que possui o melhor percentual de domicílios com adequado saneamento (99,34%), mas ocupa a 81ª posição em remuneração média mensal. Chama a atenção também o descompasso entre as cidades. Há um abismo que separa os municípios no campo do desenvolvimento econômico, diz o estudo. Vitória (ES), por exemplo, tem o maior PIB per capita do país, de R$ 76.722, enquanto em Ribeirão das Neves (MG) o PIB per capita é de R$ 6.499. Blumenau (SC) exibe uma taxa de desocupação de 2,7%, e Paulista (PE) tem 14,6% da população economicamente ativa desocupada.

Na educação, Curitiba (PR) tem taxa de analfabetismo de 2,79%, mas 14,4% da população adulta de lua-zeiro do Norte (CE) é analfabeta. No terreno da saúde, as desigualdades prosseguem. Enquanto São losé do Rio Preto exibe a menor taxa de mortalidade (7/1.000), Guarujá tem 23 mortes em mil crianças nascidas vivas, registrando crescimento de 7% do índice entre 20082011. Franca (SP), Limeira (SP) e Uberlândia (MG) possuem mais de 99% dos domicílios com saneamento adequado, enquanto em Macapá (AP) só 17,5% das residências têm esse serviço. O estudo aponta ainda que há grande distância a ser percorrida quando a comparação é internacional. A mortalidade infantil média das cem cidades estudadas é de 12,79. Superior aos padrões definidos pela OMS (10/1.000 nascidos vivos) e o dobro dos verificados nos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): 6,46/1.000 nascidos vivos.

A nota média no Ideb nos anos iniciais das redes municipais dessas cidades não chegou a 5 em 2011, enquanto a OCDE já havia alcançado nota 6 em 2005. A média de cobertura adequada de saneamento nos países da OCDE é de 98,41%, enquanto, nas nossas maiores cidades, a média é de 81,5%.

Os desafios das cidades requerem respostas rápidas. O acelerado processo de crescimento das cidades gera pressões crescentes por moradias, serviços públicos, trabalho de qualidade e melhores transportes. Cidades maiores consomem mais recursos, mais água, energia e produzem mais resíduos.

Segundo a Macroplan, o desempenho da gestão é fundamental para a qualidade de vida de seus moradores e a competitividade do país, reflexo, em boa medida, da competitividade combinada de suas cidades. Foi pensando nesses desafios que o estudo debruçou-se especialmente sobre a ação dos gestores. Para além de entender quais as principais fragilidades das cidades que constituem os elos centrais da rede de cidades, a Macroplan buscou identificar transformações possíveis em horizontes temporais de um ou dois mandatos e experiências concretas que delineiam estratégias de desenvolvimento e práticas de gestão capazes de produzir mais e melhores resultados.

O estudo aponta que as maiores fragilidades na totalidade das cidades estão na ausência de planejamento e na baixa capacidade de gestão, traduzidas em pulverização de esforços, imediatismo, improvisação e descontinuidade de projetos e recursos. "Tudo conduz à manutenção indesejável de baixos resultados para a sociedade"; avalia o coordenador do estudo e diretor da Macroplan, Gustavo Morelli.

"Está na hora de repensar a gestão pública na esfera municipal. O Brasil avançou consideravelmente nas duas últimas décadas, mas é preciso mais, os cidadãos cada vez mais escolarizados e informados demandam maior acesso e melhores serviços, melhor qualidade de vida" afirma Morelli.

Para ele, o desenvolvimento das cidades ganha relevância como estratégia para tornar os países mais competitivos e melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos. O que não será alcançado sem a melhoria da gestão na esfera municipal e a busca de maior articulação da rede de cidades. •

Fonte: O Globo

Sintomas de uma crise - Denise Rothenburg

O PMDB começa a virar novamente aquela pensão em que várias famílias convivem, mas um desconfia do outro.

Aos poucos, o PMDB vai voltando à velha forma da divisão interna. Principalmente, no protagonismo na aliança com o PT. Os parlamentares do partido começaram a perceber uma disputa velada entre os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL), e da Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), e outras rusgas internas. Se brincar, está em gestação mais uma daquelas divisões em que vai cada um para um lado na sucessão presidencial. Aquela velha fórmula que Lula adotara colocando todos os segmentos sob o seu governo na pré-campanha pela reeleição em 2006 acabou.

Embora de público todos digam que está tudo bem, deputados e senadores são praticamente unânimes em confidenciar que a relação está delicada, seja do PMDB com o próprio PMDB, seja do PMDB com o governo, e, ainda, do PMDB com o PT.

Mas, vamos por partes. Na relação interna, Renan não gostou do fato de Henrique Alves ter ido tratar dos vetos com a presidente Dilma e decidido que nem todos entrariam em pauta. Afinal, o presidente do Congresso é o senador e caberia a ele, Renan, definir o que deveria ser votado.

Não por acaso, depois desse episódio, a presidente Dilma foi até o Congresso. Na entrega do relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Violência contra a Mulher, Dilma não só marcou a importância do tema, como também afagou o peemedebista. Muitos repararam que, antes e depois da solenidade, ela passou muito tempo conversando com Renan, sem dar a mesma atenção ao presidente da Câmara.

Essas rusgas de atenção e vaidades, no entanto, são as menores, uma vez que o PMDB começa a virar novamente aquela pensão em que várias famílias convivem, mas um desconfia do outro. Uma das famílias congrega Renan, o ex-presidente do Senado José Sarney e o líder do partido, senador Eunício Oliveira. Eunício tem ficado mais com a bancada, enquanto os outros dois vivem uma relação mais pacífica com o Planalto.

Na Câmara, as famílias são mais diversificadas. Uma congrega o grupo de Geddel Vieira Lima (na Câmara, representado pelo irmão Lúcio Vieira Lima), o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco, e o presidente do Instituto Ulysses Guimarães, Eliseu Padilha. A outra é capitaneada pelo líder Eduardo Cunha, que a cada dia amplia sua influência na bancada, uma vez que não dá um passo sem combinar ou avisar a um expressivo grupo de seus pares. Eduardo Cunha cresceu tanto no papel de líder do PMDB que muitos chegam ao ponto de dizer que, se Henrique Alves não abrir o olho, será engolido pelo seu sucessor em termos de influência dentro do partido.

O patriarca dessas famílias, ou capitanias, ainda é o vice-presidente da República, Michel Temer. Mas há quem diga que o fim de seu reinado se aproxima. Michel terá que agir com firmeza e paciência se quiser manter seu partido na aliança com a presidente Dilma e o PT. Afinal, hoje, dadas as aspirações dos peemedebistas em termos de palanques estaduais, a aliança corre sérios riscos e nenhum dos grupos dentro do PMDB se mostra disposto a perder poder nos estados para preservar a vaga de vice. O raciocínio é o inverso: se para ter o poder no estado for preciso dar um chega pra lá na aliança com o PT, assim será.

O PMDB não hesitará em largar Dilma e, por tabela, o próprio Michel Temer, caso a presidente chegue em baixa na campanha eleitoral. Mas essa “largada” não será agora nem de uma vez. Afinal, é preciso esperar para ver como estará cada pré-candidato a presidente em 5 de outubro, quando termina o prazo de filiação partidária para os candidatos a algum mandato eletivo no ano que vem. Especialmente José Serra, que deve apresentar sua posição final nos próximos dias. Há quem jure que Serra deixará o PSDB, até para se manter no jogo da sucessão. Ele e a Rede de Marina Silva são as incógnitas do momento. E pode ter certeza, leitor: cada um dos pré-candidatos terá um pedacinho no PMDB na campanha. É a velha formação de um pé em cada canoa dentro da máxima “dividir agora para governar depois”, seja o presidente quem for.

Por falar em governar…
Para sorte da presidente, essas semanas até 5 de outubro devem seguir sem muitas pressões políticas da base aliada sobre o Planalto. O Congresso está às voltas com as repercussões negativas da preservação do mandato de Natan Donadon, que certamente dará novo fôlego às manifestações do próximo sábado, 7 de setembro. Além disso, os deputados estarão mais empenhados em conquistar espaço e tempo de tevê para 2014, deixando a escolha do candidato presidencial para depois do prazo de filiação.

Outro fator que ajuda Dilma nesse momento é a grata surpresa do Produto Interno Bruto. Os resultados positivos graças ao setor agropecuário deram uma lufada de ar fresco ao seu governo. E se a economia respirar sem a ajuda de aparelhos, o poder de atração da presidente continuará forte. O problema, entretanto, é segurar o PT nesse período. Não dá para o partido de Dilma aproveitar a fase boa e tripudiar em cima dos aliados nos estados ou no governo porque, se tem algo que vale para tudo na vida, é a incerteza sobre o dia de amanhã. De certo, no momento, só mesmo a divisão do PMDB e a pré-candidatura de Dilma.

Fonte: Correio Braziliense

Médicos cubanos - Eliane Cantanhêde

Um deputado presidiário manteve o mandato, o chanceler caiu, houve ameaças do boliviano Evo Morales e a invasão americana na Síria se desenhava iminente, mas nada tirou a contundência de uma foto na "Primeira Página" da Folha na semana passada: o médico cubano, negro, sendo humilhado por médicas brasileiras, brancas.

Há, assim, um triplo ataque aos médicos cubanos. O governo de Cuba os aluga mundo afora e embolsa a maior parte dos seus salários. O governo do Brasil se conforma em ter, lado a lado, médicos estrangeiros ganhando salários diretos bem superiores aos dos cubanos --a quem, preventivamente, nega refúgio. Por fim, eles sofrem esses ataques vergonhosos de colegas brasileiros.

É o típico caso de alvo errado. Os cubanos são vítimas, e não culpados de coisa nenhuma. Eles são inocentes úteis para o regime dos irmãos Castro e certamente serão de grande ajuda no Brasil, que fecha os olhos para a injustiça moral --se não erro legal-- de prestarem serviço por remuneração diversa de seus equivalentes de outros países.

A medicina cubana, como a chinesa, segue princípios de massificação, com atendimento à família, visita de casa em casa e prevenção a doenças transmissíveis. Logo, é muito compatível com as necessidades de centenas de cidades brasileiras.

Falta muito, mas o ministro da Saúde do governo Geisel, Paulo de Almeida Machado, praticamente revolucionou a saúde pública no país ao importar princípios, estratégias e ações da medicina chinesa para as regiões mais desassistidas do Brasil.

Geisel era um militar de direita, mas a sua política de saúde era, claramente, inspirada em regimes de esquerda. Almeida Machado era sanitarista e dava de ombros para esse detalhe ideológico. Sua missão era salvar vidas, cuidar de pessoas. E ele jamais humilharia médicos chineses ou cubanos. Até porque os admirava.

PS - Tiro duas semanas de férias dessas crises todas. Até a volta!

Fonte: Folha de S. Paulo

Ver pra crer - Dora Kramer

Reza a mais recente lenda que a preservação do mandato do deputado condenado à prisão e, em decorrência, à suspensão dos direitos políticos pelo Supremo Tribunal Federal foi um tiro que saiu pela culatra.

Por esse raciocínio, o Congresso, envergonhado, apressaria a aprova: ção de duas emendas constitucionais: uma para acabar com o voto secreto para cassação de parlamentares - ou, numa versão mais radical, para todos os tipos de votações outra para tomar automática a perda do mandato de condenados em ações penais depois do trânsito em julgado da sentença.

Pelo que se viu no plenário da Câmara na noite da última quarta-feira, é mais prudente esperar para ver antes de acreditar, A julgar pelo histórico de , suas excelências na abordagem do tema melhor mesmo é seguir a lei de São j Tomé a fim de economizar frustrações. Ainda sob os efeitos da ressaca moral: da inusitada decisão, deu-se um corre-corre de senadores e deputados a declarar a urgência de se tomar uma proviciência. Antes tarde, poder-se-ia dizer com boa vontade, não fosse o cinismo.

Renan Calheiros, o presidente do Senado absolvido duas vezes por força do voto secreto, pontificou: "A sociedade não tolera mais essa situação", fazendo-se de alheio ao fato de ser personagem de destaque na referida "situação".

Ato contínuo Calheiros marcou para a semana que vem a votação em plenário da emenda do senador Jarbas Vasconcelos que dirime a dúvida constitucional sobre quem dá a última palavra sobre a cassação de condenados, vinculando definitivamente o mandato à decisão da justiça.

Isso depois de assistir inerte à lenta tramitação da proposta desde o arrefecimento do ânimo em torno da "agenda positiva" resultante dos protestos de junho. A coisa só voltou a andar no dia seguinte ao estapafúrdio perdão dado a Natan Donadon, por causa da reação de fora. Se dependesse da "de dentro", a emenda continuaria sendo cozida em banho-maria.

Mas, vamos que o Senado a aprove no dia marcado (10 de setembro), a PEC terá ainda de passar por dois turnos de votações na Câmara. E lá anda a passos de tartaruga a emenda que acaba com o voto secreto. O presidente Henrique AlI ves determinou a suspensão de cassações até que a regra seja mudada.

E quem garante que será? Note-se: falamos de quórum de três quintos nas duas Casas, muito mais difícil de ser alcançado que a maioria absoluta exigida no caso de Donadon.

O andar da carruagem dessa proposta é tortuoso, No meio do escândalo do mensalão, em 2006, a Câmara aprovou em primeiro turno o fim total do voto secreto, até para o exame dos vetos presidenciais. A segunda votação que permitiria o projeto ir ao Senado nunca se realizou.

No ano passado, empurrados pelo episódio que resultou na cassação de Demóstenes Torres, os senadores concluíram a aprovação do voto aberto só para cassação de mandatos. A emenda chegou à Câmara praticamente ao mesmo tempo em que se iniciava no Supremo o julgamento do processo do mensalão.

O então presidente da Casa, Marco Maia, chegou a dizer ao relator na Comissão de Constituição e Justiça, Alessandro Molon, que queria aprovar a PEC ainda em sua gestão. Mas o julgamento começou, a situação dos réus foi se desenhando periclitante e, certamente não por coincidência, o voto aberto deixou de ser urgente.

O assunto foi retomado em junho como parte da "agenda positiva". Aprovada na GCJ, a emenda seguiu para uma comissão especial e lá está no aguardo da realização de 10 a 40 sessões, das quais até agora só uma foi realizada.

Esse é o ritmo, cuja lentidão autoriza a desconfiança sobre o que vem adiante. Pode ser que os protestos marcados para 7 de Setembro surtam algum efeito, pois as manifestações de junho, ao que se vê no Parlamento, entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Chuvas na horta - Tereza Cruvinel

O crescimento econômico de 1,5% no segundo trimestre dará impulso à recuperação eleitoral da presidente. Atenta a esse quadro, a oposição avalia o melhor ator para o papel de anti-Dilma

As águas voltaram a correr para o moinho da presidente Dilma Rousseff, alimentando a recuperação de sua popularidade que, segundo auxiliares, agora estaria na casa dos 40%, e, por decorrência, sua competitividade eleitoral. As pesquisas dirão. E, com isso, os adversários avaliam as condições de cada um para representar o papel de anti-Dilma no pleito de 2014, no esforço para barrar sua reeleição ou acumular forças para remover o PT do governo em 2018. Insere-se nesse movimento o encontro de quinta-feira entre os presidenciáveis Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB.

O crescimento de 1,5% da economia brasileira no segundo trimestre, superando a taxa de desenvolvidos e emergentes, inclusive os Estados Unidos, excetuando-se apenas a China, deve dar novo impulso à recuperação da presidente. O índice superou as previsões mais otimistas e desmentiu as hegemônicas profecias negativas. O foguetório foi discreto: o ministro da Fazenda, Guido Mantega, proclamou a superação do “fundo do poço” mas previu crescimento moderado para o ano. Fora do governo, quem divergiu da manada e acertou foi o presidente da CNI, Robson Andrade. Em artigo na semana passada, ele apontou discrepância entre o pessimismo dos analistas e a realidade dos empresários, apostando na recuperação. A indústria, de fato, retomou a dinâmica, crescendo 2%, embora a agricultura tenha contribuído mais com o resultado trimestral.

Na frente social, Dilma parece estar ganhando a guerra do Programa Mais Médicos. Se ele der certo, lavrará dois tentos. Ganhará para si e para o candidato do PT ao governo de São Paulo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Ela tem viajado intensamente pelo Sudeste — região em que mais caiu e onde vem obtendo a melhor recuperação. Vem se recompondo com os partidos aliados. E como eles não resistiram a cometer mais um desatino, preservando o mandato do deputado condenado Natan Donadon, pode sobrar apenas para o Congresso os protestos esperados para o Sete de Setembro. No resto do semestre, a aposta de Dilma é no êxito das concessões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos ao setor privado. Se o governo não cometer grandes erros, se o inesperado e o imprevisível não emergirem com a força de junho, Dilma deve começar 2014 como a candidata mais competitiva, ainda que não volte a ser a franca favorita de antes. Como candidata, ela precisa é resolver seus problemas com o PMDB e com os partidos da amplia coligação que a elegeu, em 2010. Esse quadro é que vem pautando os movimentos dos adversários.

O papel de anti-Dilma
As dificuldades de Marina Silva para viabilizar seu partido, a Rede Sustentabilidade, começam a frustrar as apostas de que ela se tornaria o polo mais forte contra Dilma. Afinal, ela é quem tem os maiores índices de intenção de votos (26% contra 35% de Dilma, na última pesquisa Datafolha) e o melhor desempenho num eventual segundo turno contra a presidente (46% a 41%, na mesma pesquisa). Mas, agora, ainda que o partido consiga ser legalizado, admite-se no círculo marinista que isso ocorrerá no limite do tempo de filiação, quando já será praticamente impossível atrair adesões (para garantir tempo de televisão) e projetar alianças para 2014. Resta sempre a hipótese de concorrer por outro partido, o plano B que ela se recusa a discutir até com os mais próximos. Candidata ou não, Marina será um fator importante na sucessão, que nenhuma coalizão anti-Dilma desprezará.

Eduardo Campos foi recentemente citado pelo jornal inglês Financial Times como a maior ameaça a Dilma em 2014. Ele é a maior novidade no quadro, mas seu jogo político é o mesmo dos outros. Diferente é o jogo de Marina. E diferentemente dela, ele não cresceu com a onda de protestos. Apenas preservou-se, contendo a exposição. Até agora, não firmou alianças nítidas e tem problemas no próprio partido. Ao saber de seu jantar com Aécio Neves, o governador do Ceará, Cid Gomes, protestou contra a hipótese de ver o PSB transformado em linha auxiliar do PSDB. Ele e o irmão Ciro, que defendem o apoio a Dilma, podem deixar o partido em outubro, como fizeram em 2004, quando o PPS optou pela oposição ao governo Lula, do qual Ciro era ministro. O maior ativo de Campos hoje é a simpatia do empresariado, que, na hora H, pisará em duas canoas: a da presidente e a do adversário mais competitivo. Claro que é cedo para Campos que, no fim do ano, deve romper com o governo para começar o ano com postura mais agressiva.

Embora enfrente um problema partidário que atende pelo nome de José Serra, o senador Aécio Neves é que vem reunindo as melhores condições para o papel de anti-Dilma. Apresentou crescimento, embora tenha depois perdido uns pontos. Seu partido é nacionalmente estruturado, dispõe de máquinas poderosas nos estados de Minas e São Paulo, terá um tempo de televisão razoável. As candidaturas de Campos e Marina no primeiro turno lhe interessam para forçar o segundo, assegurando-se — desde agora — da unidade das oposições no embate final. Para isso, prestará aos dois todas as homenagens e fará até concessões nas disputas estaduais.

Batalha à vista
Campos, Aécio e Marina estarão unidos numa batalha que se avizinha. Talvez ainda nesta semana os governistas tentem votar, no Senado, o projeto do senador Romero Jucá, que altera algumas regras eleitorais. Para as oposições, casuísmo puro. Por exemplo, a redução do período de duração da campanha na tevê, a pretexto de poupar a paciência do eleitor. Aécio e Campos concluíram que eles é que perderão, pois precisam se tornar mais conhecidos nacionalmente.

Fonte: Correio Braziliense

Como a raiva reelegerá Dilma - Elio Gaspari

A oposição prega para os convertidos, associando-se a causas perdidas; médicos cubanos merecem crédito

A recuperação da popularidade do governo da doutora Dilma foi audaciosamente prevista pelo marqueteiro João Santana durante o rescaldo das manifestações de junho, quando ele disse que tudo não passava de um desabafo temporário. A doutora, que tivera 57% de aprovação, tomara uma vaia de estádio e caíra para 30%. Acredita-se que já retornou à faixa dos 40%.

Santana tinha motivos para acreditar na força de Dilma. Não foi ela quem aumentou as tarifas de transporte (pelo contrário, torceu o braço dos prefeitos Eduardo Paes e Fernando Haddad para baixá-las).

Enquanto a doutora tocava o expediente, a oposição dedicou-se a fortalecê-la. É uma oposição que converte crentes.

Seu primeiro alvo foi o programa Mais Médicos, que trouxe profissionais estrangeiros. Em vez de discutir também a reserva de mercado que as associações médicas estimulam, as pegadinhas do programa Revalida ou a burocracia das universidades federais, partiram para baixarias e ameaças. Uma equipe de repórteres da Folha descobriu um rombo no programa: em 11 cidades de quatro Estados, prefeitos pretendem demitir médicos brasileiros que estão em suas folhas, trocando-os por estrangeiros que serão pagos pela Viúva federal. "Mais médicos" onde não os há é uma coisa. Menos médicos brasileiros, bem outra. Basta lançar o programa "trocou, dançou".

A desqualificação dos cubanos tem um ingrediente de ingenuidade. Raul Castro não está mandando para o Brasil médicos que flanavam por Havana. Ele já enviou 113 mil profissionais para 103 países e fez da iniciativa uma fonte de dólares. São quadros selecionados, com formação política. Em tempos passados, cubanos iam para guerras onde morreram pelo menos 3.000 deles. O governo trabalha com a certeza de que o programa trará benefícios. A oposição, com o desejo de que dê tudo errado.

No caso da solidariedade que deram ao diplomata que desovou o senador boliviano no Brasil, esqueceram-se de pedir uma avaliação da sua conduta aos notáveis que estão entre seus quadros. Disputam a bola atrás da linha de fundos, pois pode-se detestar o PT, mas no dia em que um encarregado de negócios fizer o que acha melhor, a diplomacia vira bagunça.

Dilma vai para a reeleição (isso se não for preciso tirar Lula do banco de reservas) porque o PSDB tem mais ressentimentos que planos e mais queixas que projetos. Em 2010 o PT teve 55,7 milhões de votos. Desse jeito, a oposição corre o risco de sair da eleição de 2014 com os mesmos 43,7 milhões de 2010, satisfeita por ter conseguido que esses eleitores ficassem com muito mais raiva dos comissários.

Um sábio
Quando começou o julgamento do mensalão e nove em dez pessoas temiam que o STF fizesse uma pizza, um conhecedor da Casa avisou:

"Haverá uma farta distribuição de condenações. Muitas com penas superiores a dez anos."
Esse sábio acha que os recursos infringentes, capazes de aliviar a vida dos comissários e de seus tesoureiros, morrerão na preliminar:

"Meu palpite é uma maioria, de seis a cinco ou sete a quatro, mantendo as penas."

Alguns interessados já sentiram o cheiro da brilhantina e mudaram seus domicílios para Brasília, onde começou uma pequena reforma na penitenciária da Papuda.

Para os condenados a regime semiaberto, será um conforto. Irão da Papuda para a Câmara e dela para a cela. Já a turma do regime fechado safa-se das condições a que são submetidos os demais cidadãos no presídio do Tremembé.

Não aprendem
Um pedaço do comissariado petista namorou a ideia de salvar o comissário João Paulo Cunha do regime fechado por conta de sua condenação, pelo Supremo Tribunal Federal, a nove anos e quatro meses de reclusão.

Recordar é viver
O risco de um asilado vir a suicidar-se não é fantasia.

Depois da deposição de João Goulart, seu secretário particular, Eugenio Caillard, pediu asilo ao embaixador do México, Vicente Sanchez Gavito.

O diplomata negou-lhe o pedido e, na mesma hora, Caillard ameaçou matar-se, pulando a janela da sala em que conversavam. Gavito não quis arriscar e asilou-o.

Semanas depois, Caillard matou-se na embaixada, com barbitúricos.

Garibaldi no Brasil
Está chegando às livrarias "Garibaldi na América do Sul: O mito do gaúcho", do jornalista Gianni Carta. É o resultado de oito anos de trabalho em oito países. Republicano, corsário e namorador, antes de ser o herói da unificação da Itália, Giuseppe Garibaldi foi um subversivo na América Latina, metido na Revolução Farroupilha. Carta estudou o mito que envolveu o personagem, construído, entre outros, pelo romancista francês Alexandre Dumas.

Para quem acompanha as atuais vicissitudes da diplomacia brasileira, vale relembrar o episódio em que o ministro brasileiro em Montevidéu o chamou de "pirata" e pediu que fosse expulso do Uruguai. Garibaldi foi à legação brasileira e desafiou-o para um duelo. O ministro (João Francisco Régis) não aceitou, sustentando que representava o governo de seu país e não duelaria com um delinquente. Depois a diplomacia brasileira amansou-se.

Cadê o Amarildo?
Sabe-se que o major Edson Santos poderá deixar o comando da UPP da Rocinha.

Só não se sabe:

1) Onde está o pedreiro Amarildo.

2) Com que frequência as câmeras da PM pifam. (As da UPP pifaram na hora de registrar a saída de Amarildo.)

3) Com que frequência as viaturas da PM rodam com os GPSs desligados. (Os da UPP não funcionavam naquele mesmo dia.)

As duas últimas perguntas o secretário José Mariano Beltrame pode responder. É só querer.

Ócio
Nos quatro próximos quatro domingos o signatário usufruirá o programa Mais Ócio, financiado pela Bolsa Nada.

A Câmara pode criar o anexo dos condenados
A situação em que ficou o deputado Natan Donadon pode ser absurda, produto dos piores instintos do plenário da Câmara, mas é o jogo jogado. Seus pares acharam que ele não ofendeu o decoro do Parlamento. Por ser um criminoso, ficará na penitenciária da Papuda. Há precedentes de diversos países e nos Estados Unidos chegou-se a situações ainda mais esquisitas. Dois deputados foram reeleitos enquanto estavam na cadeia. Um deles, depois de solto, assumiu a cadeira e deu o voto que garantiu a presidência a Thomas Jefferson. Um terceiro, Jay Kim, condenado a um ano de prisão domiciliar em 1988, ia ao Congresso com uma pulseira eletrônica, sabendo que sua rotina seria de lá para casa.

O que parece ser uma monstruosidade poderia ser uma solução. Se os parlamentares ladrões condenados pelo Supremo Tribunal Federal forem para a Papuda, fica estabelecido que todos os brasileiros são iguais perante a lei. Deputado em regime fechado não faz mal a ninguém. A Câmara pode até construir o anexo 5 para a carceragem.

Fonte: Folha de S. Paulo

A preamar dos mascarados - Gaudêncio Torquato

A democracia é o governo do poder visível. Sob sua tutela "nada pode permanecer confinado no espaço do mistério", ensina Norberto Bobbio. A lição é oportuna na quadra em que vive o País, caracterizada por mobilização de grupos e setores, entre os quais o contingente que se autointitula Black Bloc, formado por pessoas que atuam de forma brutal, construindo barricadas, depredando lojas e monumentos, enfrentando a polícia, em aparente demonstração de que a revolta tem como foco o Estado e os símbolos clássicos do capital, a partir da concentração de riquezas e das instituições que encarnam tal representação, como bancos.

A crescente onda de violência puxada por esse grupamento, além do evidente refluxo que produz no apoio aos eventos de rua que há dois meses agitam a vida nacional, deixa transparecer uma crise de autoridade. O Estado não tem demonstrado competência para fazer cumprir a lei, seja por leniência, fechando os olhos para o vandalismo, seja por receio de que a força policial puxe para baixo a imagem já negativa de seus governantes, ou ainda por falta de qualificação do aparelho policial para lidar com uma nova ordem social. O fato é que o descontrole fica patente, ensejando, a cada nova manifestação, atos cada vez mais virulentos. Imagine-se o efeito bola de neve se a criminalidade crescente não receber um basta.

A par das motivações que estão por trás de suas ações diretas e truculentas, é inegável que os Black Blocs afrontam a lei e rompem a textura do Estado de Direito. Pode-se até argumentar que não seriam meros vândalos e baderneiros ao inseri-los no ciclo de protestos do final dos anos 90, quando o grupo ganhou visibilidade nas manifestações contra a Organização Mundial do Comércio, a batalha de Seattle (1999), e contra o G-8, em Gênova (2001), quando morreu o primeiro ativista do movimento antiglobalização, Carlo Giuliani.

Na moldura brasileira, porém, a indignação do grupo não tem como lastro um episódio de envergadura nem o pano de fundo de profunda crise econômica, como a que abalou nações em 2008. O movimento Occupy Wall Street, lembre-se, tinha como foco protestos contra a desigualdade econômica, a influência de empresas e bancos no governo americano, sob a tessitura da crise internacional. A situação deflagrou movimentos congêneres nos países assolados pela mesma borrasca financeira. Por aqui, o conceito dos Black Blocs entra mais na esfera da barbárie, convergindo para o que Elias Canetti, no clássico Massa e Poder, classifica como malta: "Um grupo de homens excitados que nada desejam com maior veemência do que ser mais; o que lhes falta de densidade real suprem por intensidade". A falta de discurso é suprida pela estética da destruição.

Não se trata de proibir manifestações, mas de obedecer aos dispositivos constitucionais, principalmente o inciso IV do artigo 5.º da Carta Magna, que estabelece: "É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". A este se segue a regra do inciso XVI: "Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente". Fica patente que as máscaras cobrindo as feições dos militantes lhes conferem a condição de anônimos, enquanto outros pré-requisitos da ordem são desprezados, como a atitude pacífica, o espírito desarmado, o dano ao patrimônio público e privado, o direito de ir e vir de outros.

Visibilidade e transparência devem integrar o caráter público do poder do Estado, na medida em que constituem meios para distinguir o justo do injusto, o lícito do ilícito, o certo do errado, a cidadania ativa de maltas oportunistas. Se portam demandas legítimas de comunidades, se iluminam as consciências com as luzes do civismo e da ética, por que agir sob disfarce? Que coragem é essa, repartida entre pernas e braços que funcionam como aríetes de ferro e aço e rostos protegidos por lenços pretos?

Tentemos entender a inclinação civilizatória pela violência. Ortega Y Gasset chegou a sinalizar a propensão das massas à subversão, fruto do que chamava de era das nivelações: "Nivelam-se as fortunas, nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais, nivelam-se os sexos e até os continentes". Vejam só, o filósofo espanhol fez tal peroração no final da segunda década do século passado, quando descreveu o homem-massa, com sua vida sem peso nem raiz, "deixando-se arrastar pelas correntes", sem resistir aos redemoinhos que se formam nas artes, na política ou nos usos sociais. Pois bem, apesar dos ganhos civilizatórios em quase todas as frentes a serviço da vida humana, particularmente nos campos de educação e saúde, as mais perversas formas de barbárie têm-se desenvolvido nos intestinos do Estado moderno. E pior é ver que a democracia tem fracassado na promessa de debelar o poder invisível que se incrusta em todos os quadrantes do planeta, sob a forma da quebra da lei e da ordem, das ondas da vertiginosa criminalidade, do declínio dos valores morais e cívicos, dos conflitos étnicos e religiosos, do incremento dos negócios das drogas e armas, enfim, do esvaecer dos elementos básicos da civilização.

O que mudou na essência do discurso de Gasset? Piorou. Na esfera do homem-massa apenas mudou a dimensão. Antes integrado às vastas multidões que se deixavam levar ao sabor das correntes, hoje a pessoa se refugia em núcleos de referência, organizados pela cadeia de especialização que a sociedade foi impelida a buscar na esteira do progresso técnico.

A foto do presente flagra a violência dos caras-pretas. Mas a legenda é a mesma que Nietzsche gritou do penhasco de Engadine, nos Alpes suíços: "Vejo subir a preamar do niilismo".

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP,

Fonte: O Estado de S. Paulo

Panorama Político -Ilimar Franco

O plano B
A candidata a presidente Marina Silva já tem partido para concorrer em 2014, caso não consiga criar a Rede a tempo. O presidente do Partido Ecológico Nacional (PEN), Adilson Barroso, ofereceu a legenda e o comando do partido à ex-ministra. Eles voltarão a conversar dia 25 de setembro. Até lá, Marina vai aguardar a decisão do TSE, de homologar ou não a criação da Rede.

Ayres Britto vem aí?
O ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto tem sido uma espécie de consultor informal de Marina Silva. Há poucos dias, ela o convidou para se filiar à Rede e disputar um cargo eletivo no ano que vem. Ayres Britto ficou de pensar na proposta.

Me engana que eu gosto
Diante da prática generalizada de antecipar as campanhas, a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, disse o seguinte no Senado, quinta-feira: “Sempre fui considerada professora rigorosa, porque eu pegava cola de alunos. Alguns diziam ‘professora, há professor que faz de conta que não vê Eu dizia: ‘Não, minha combinação é outra: vocês façam, como os homens fazem com as mulheres quando nos traem, sem que eu saiba Não façam de maneira tão acintosa. Então, talvez, em matéria de redes sociais, seja um pouco isso. Estamos fazendo de conta que não acontece, mas já há carros andando por aí com referências a candidatos para 2014’ O que dizer?

“Estamos começando a botar o bloco na rua com muita prudência. Esta (a eleição) não é a agenda da sociedade”
Marcus Pestana Presidente do PSDB mineiro e deputado, sobre o ritmo da campanha à Presidência do senador Aécio Neves

O veredito
Está nas mãos do Judiciário a criação de um programa de alfabetização e formação técnica nos presídios. O ministro Aloizio Mercadante (Educação) explica que será preciso separar os presos por periculosidade. Para criar um ambiente escolar, e dar segurança aos professores, é preciso isolar os integrantes do crime organizado.

Modus operandi
A estratégia do Palácio do Planalto para manter o veto ao fim da multa patronal de 10% do FGTS é a mesma seguida no Ato Médico: negociar sua manutenção com a apresentação de projeto de lei que resolva os pontos polêmicos.

Perdidos no espaço
Na volta de uma recente viagem internacional, o avião da presidente Dilma fez uma parada no Panamá para abastecimento. Integrantes da comitiva resolveram ir ao free shop. Dois intérpretes da presidente demoraram nas compras, e Duma mandou o avião decolar. Eles perderam a cadeira vip e voltaram ao Brasil no avião reserva, que segue a nave presidencial.

O MST desencantado
O governo Dilma está sendo acusado pelo MST de ter abandonado a reforma agrária. Alexandre Conceição, da coordenação nacional, diz que o atual governo tem “o pior índice de desapropriação de terras dos últimos 20 anos’

Tertúlia literária
Ministros do STF e do governo Dilma foram reunidos pelo vice Michel Temer, em jantar no Jaburu na quarta-feira, em torno do jornalista e biógrafo Lira Neto, autor de “Getulio biografia do ex-presidente trabalhista Getulio Vargas.

O VICE-PRESIDENTE NACIONAL DO PSB, Roberto Amaral, decidiu que irá concorrer a deputado federal nas eleições do ano que vem.

Com Simone Iglesias, sucursais e correspondentes

Fonte: O Globo

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo

Pardos, negros e mulatos
O governo ganhou a batalha contra as entidades médicas no caso do Programa Mais Médicos, embora ainda tenha muitas arestas a aparar. Foi acusado de agir com motivação partidária e ideológica ao criar a iniciativa para viabilizar a contratação de 6 mil médicos cubanos por meio de um convênio entre a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e o governo de Cuba. Mas criou oportunidades para que as vagas do programa fossem preenchidas pelos médicos brasileiros e estrangeiros de outras nacionalidades, o que não ocorreu.

Os médicos cubanos vão para as cidades e os postos de periferia que não têm médicos. Prefeitos e moradores que padecem da falta de médicos dão graças a Deus. A presidente Dilma Rousseff faturou eleitoralmente. No confronto entre as entidades médicas e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, houve muito preconceito contra os cubanos, principalmente os negros e pardos, que são maioria entre eles, ao contrário do que acontece com os médicos brasileiros. Não faltaram vergonhosas demonstrações de xenofobia e racismo contra os cubanos. A oposição ficou no sal.

É óbvio que a opinião pública, que faz críticas pesadas ao SUS, acabou apoiando a iniciativa do governo. Ninguém de bom senso pode ser contra um programa cujo objetivo o nome já diz: mais médicos. As entidades médicas, porém, têm razão em alguns aspectos. As condições de trabalho oferecida aos profissionais são precárias; o governo não aceita criar um plano de carreira que resolveria, em caráter permanente, o problema de alocação de médicos nas regiões remotas e nas periferias; nem admitiu a destinação de 10% das receitas da União para a saúde na regulamentação da chamada Emenda 29. Também questionam o caráter “terceirizado” das relações trabalhistas impostas aos médicos cubanos.

Errante
O Itamaraty negocia a transferência do senador boliviano Roger Pinto Molina para países cujo governo têm mais afinidades com a oposição boliviana do que com o presidente Evo Morales, como o Paraguai, ao contrário do que acontece com o governo brasileiro. Na sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff e o presidente boliviano se encontraram no Suriname, na reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Morales chamou o líder da oposição boliviana de delinquente e ficou de encaminhar os processos contra ele para o governo brasileiro, que ainda não decidiu se atenderá o seu pedido de refúgio. Roger Pinto estava asilado na embaixada do Brasil em La Paz e viajou para o Brasil sem salvo-conduto. Foi condenado a um ano de prisão por corrupção, mas alega perseguição política.

Linha de passe
Os acordos regionais entre o PT e o PMDB em vários estados serviram para aproximar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), que se encontraram na quinta-feira passada no Recife. Os dois estão dispostos a pactuar as relações entre as duas legendas em diversos estados e compartilhar palanques para enfrentar a presidente Dilma Rousseff nas eleições. O pacto irritou ainda mais o PT.

Ônibus
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) vai leiloar 2.110 linhas de transporte interestadual de passageiros, que foram distribuídas em 16 grupos e 54 lotes. Serão interligadas 2.050 cidades

Para todos
A chapa Partido é Para Todos, na Luta, encabeçada por Rui Falcão, candidato à reeleição para o comando do PT, será lançada terça-feira à noite em Brasília, na Galeteria Beira Lago. O PT está em pleno processo de renovação de suas direções, e cerca de 500 mil filiados deverão ir às urnas. Falcão encabeça uma ampla aliança de cinco forças políticas internas, que reúne a maioria de parlamentares, prefeitos, ministro e ex-ministros e lideranças petistas. Os ex-presidentes da Câmara Arlindo Chinaglia (SP) e Marco Maia (RS) integram a chapa.

Serra e o PPS
O deputado Roberto Freire (SP) convocou a executiva do PPS para uma reunião na próxima quinta-feira em Vitória, cujo prefeito, Luciano Rezende, é uma estrela em ascensão na legenda. Espera que até lá o ex-governador José Serra deixe o PSDB e anuncie seu ingresso no partido para ser candidato a presidente da República.

Cara de vice
O vice-presidente Michel Temer (PMDB) avisou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que não deve contar com o apoio da legenda à sua reeleição. Pretende lançar o presidente da poderosa Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, ao Palácio dos Bandeirantes. O empresário é cortejado para ser o vice do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o mais provável candidato do PT.

Comércio/ O embaixador brasileiro Roberto Azevêdo toma posse hoje como diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). A posição é a mais estratégica ocupada pelo Brasil no plano internacional.

Arrocho/ O Banco Central (BC) resolveu dar exemplo de corte de gastos: reduziu viagens a serviço, celulares, serviços de 3G, impressoras, serviços terceirizados, estagiários, clippings de jornais, rádio e tevê, análises de mídia, assessoria de imprensa, publicidade, transportes , contratos de limpeza, videoconferências, serviços de informação, ligações interurbanas, treinamentos, serviços médicos e eventos.

Fonte: Correio Braziliense

Painel - Vera Magalhães

Dedicação exclusiva
Dilma Rousseff estipulou o início de janeiro como prazo para que os ministros-candidatos deixem suas pastas. Até lá, no entanto, a presidente orientou Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e Alexandre Padilha (Saúde), os mais proeminentes, a só marcar atividades políticas nos fins de semana. Com o Mais Médicos, no entanto, Padilha tem sido acionado pela petista aos sábados e domingos, sem tempo para percorrer os municípios de São Paulo.

Fora do ar A prioridade à transferência de médicos para o interior é tal que a ordem no PT é só exibir o virtual candidato ao governo nas inserções de TV em São Paulo em novembro, quando, acredita o Planalto, a medida provisória do programa já terá sido aprovada no Congresso.

Vaza Já em relação aos dois ministros do PSB, a ordem é pressionar para que saiam dos cargos imediatamente, dada a clara disposição de Eduardo Campos de se candidatar a presidente.

Âncora Há duas semanas, a cúpula do PSB discutiu o timing da saída de Leônidas Cristino (Portos) e Fernando Bezerra (Integração Nacional), mas os deputados presentes pressionaram para que esticassem a corda.

Pelo... Marina Silva quer evitar embates com a Justiça Eleitoral, mas a Rede decidiu que vai reclamar novamente ao TSE sobre o atraso na certificação de assinaturas de apoio à sigla em Estados como São Paulo e Pará. Neste, há fichas que estão há 60 dias nos cartórios, sem análise.

... cansaço Por outro lado, o partido admite que a lentidão na obtenção do registro se deve também a falhas de sua própria equipe: no interior de Goiás e de Minas, há certidões prontas que não foram retiradas pelos representantes da Rede.

Soft power Em momento delicado com Bolívia e Paraguai, Dilma deu carona a Evo Morales e Horacio Cartes do aeroporto de Paramaribo ao hotel da cúpula da Unasul. Para isso, a FAB deslocou três helicópteros de Belém.

Leva eu Marco Feliciano (PSC) se insinuou recentemente para o PMDB. Ele tem procurado caciques da sigla de olho no Senado em 2014.

Quites Preso por ordem do STF, Natan Donadon (ex-PMDB-RO) usou sua verba indenizatória de 2011 a 2013 para contratar a Rádio Planalto de Vilhena, do senador Ivo Cassol (PP-RO), também condenado pela corte por fraude em licitação. Os repasses variam de R$ 1.200 a R$ 1.850.

Outro lado A assessoria de Cassol diz que o repasse é "normal", com objetivo de divulgação. Informa também que a emissora é a estação de maior audiência da região e que só o senador é proibido de fazer divulgação na rádio.

Plantão... O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, operou pessoalmente e convenceu a Amil a desistir da compra do hospital Santa Marina, no Jabaquara, arrematado em leilão em agosto por R$ 55 milhões.

... médico A empresa vai vender o prédio à prefeitura, que repassará a gestão ao hospital Albert Einstein.

Virou moda Parlamentares da base aliada planejam novo revés para o governo caso o Planalto se recuse a retirar a urgência do Código de Mineração, em discussão na Câmara. Por tramitar em regime de urgência, o projeto tranca a pauta e nenhuma matéria pode ser votada.

Clonagem A ideia dos deputados é derrubar o projeto do governo e propor um novo texto nos mesmos termos, para que permaneça em discussão por mais tempo nas comissões da Casa.

Tiroteio
O governo trocou o certo pelo duvidoso. Agora, só falta criar um seguro-desemprego para os brasileiros que podem ser demitidos.
DO SENADOR ALVARO DIAS (PSDB-PR), sobre os municípios que declararam intenção de demitir brasileiros para receber profissionais do Mais Médicos.

Contraponto
Carência zero
Durante reunião no Palácio do Planalto com ministros, na quinta-feira, Garibaldi Alves (Previdência) levantou-se e fez uma rápida prestação de contas da pasta.
Ao concluir sua apresentação, provocou Gleisi Hoffmann (Casa Civil), que coordenava a reunião:
-Nosso atendimento ao público melhorou muito. Quando estava com problemas, a ministra Gleisi me ligava todos os dias. Agora que melhorou, não liga mais! - brincou Garibaldi.
A chefe da Casa Civil riu e respondeu:
-Parabéns, ministro!

Com Andréia Sadi e Bruno Boghossian

Fonte: Folha de S. Paulo

Pátria distraída - Míriam Leitão

Muita gente no Brasil consegue ver com nitidez o grau de desigualdade racial americana, mas não a brasileira. Fica indignada quando vê os números ou sabe das histórias nos Estados Unidos. É capaz de se emocionar com o discurso de Martin Luther King, e não vê o que está posto diante de nossos olhos. A nossa vergonhosa separação racial exige muita abstração para não ser vista.

De novo isso ficou evidente, na comemoração dos 50 anos do maravilhoso e inesquecível discurso do pastor Martin Luther King. O racismo deles, de ontem e de hoje, nos deixa indignado; mas o nosso sequer é notado. A ausência dos negros nos eventos onde está a elite, de qualquer área, não incomoda os brasileiros. E porque tantos não veem essa ausência, podem continuar dizendo com conforto que o racismo brasileiro não existe. São os que dizem que nós apenas discriminamos os pobres. E falam isso sem pejo, sem sequer se dar conta do preconceito que a frase embute.

A propósito do aniversário do mais importante discurso do século XX, muitos textos foram publicados na imprensa brasileira. Houve textos mostrando o quanto, cinco décadas depois, o sonho de Martin Luther King está ainda incompleto. Houve até quem tentasse extrair das palavras do líder negro americano uma condenação às políticas de inclusão baseadas em ações afirmativas. Não é a primeira vez, nem será a última, que no Brasil vai se tentar inverter as palavras do ícone do movimento negro. O manifesto dos intelectuais, de triste memória, que se divulgou no Brasil contra as cotas raciais usava as palavras de Martin Luther King para sustentar suas teses de defesa do status quo no Brasil. Felizmente, tudo isso foi superado quando o Supremo Tribunal Federal considerou as cotas constitucionais por unanimidade. Mas seus opositores ainda resmungam.

Pode-se revisitar qualquer número e lá está a marca da separação entre pretos e pardos, de um lado; brancos de outro. Pode-se visitar os espaços brasileiros para se encontrar de um lado a hegemonia branca, de outro a maioria preta e parda. Uma jovem negra de hoje, certamente, estudou mais do que seus pais, mas a taxa de desemprego feminino negro entre 18 a 24 anos chega a 20%. A dos jovens em geral é de 13%. A da população é menos de 6%. Mesmo num dos melhores momentos do mercado de trabalho recente no Brasil, a exclusão permanece.

Os salários dos trabalhadores negros é a metade dos salários dos trabalhadores brancos. Muitos dirão que é a diferença de escolaridade. Mas os estudos que comparam pessoas com a mesma escolaridade comprovam que a diferença persiste. Há inúmeros dados, mas não quero empilhar números aqui, eles são conhecidos. O que me espanta é o silêncio enorme que se faz sobre eles. O tema não tem tido a visibilidade e a constância que precisa ter na imprensa brasileira.

Recentemente, numa entrevista que me concedeu, o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, se referiu ao episódio do concurso do Itamaraty do qual ele foi eliminado numa entrevista. Depois de ter passado nas provas, ele foi reprovado por um embaixador que o entrevistou. E isso foi referendado por outros cinco embaixadores.

É transparente a ausência de negros no Itamaraty desde sempre. Quando se quer dizer que não é bem assim, se lembram do embaixador Souza Dantas. Ele era o único quando foi nomeado no final dos anos 1960. Diante de uma representação diplomática quase escandinava, o Itamaraty começou a tomar, recentemente, algumas medidas de apoio à entrada de candidatos negros. Mas é pouco e recente. Sobre o caso lembrado pelo ministro Joaquim, a única resposta sincera do Itamaraty era reconhecer esse passado de discriminação. Mas o Ministério preferiu uma nota de defesa corporativa em que usou o presente recentíssimo para abonar um longo passado de exclusão. A verdade é que a porta que sempre esteve fechada, apenas começa a se entreabrir.

Seria bom se o Brasil tivesse aproveitado a oportunidade do aniversário do memorável discurso para pensar sobre si mesmo, fazendo uma honesta admissão de quanto tem discriminado os negros. Se a pátria permanecer assim distraída, sendo tão capaz de ver o alheio, mas nunca a si mesma; se continuar repetindo os mitos da miscigenação que tudo resolveu, se permanecer não percebendo o tom racista em certas palavras e reações, vamos estar aqui partidos ainda, no dia em que se comemorar 100 anos da proclamação do sonho americano.

Fonte: O Globo

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Conversa com Raimundo Santos:O marxismo político de Armênio Guedes na VIII Semana Acadêmica do CPDA /UFRRJ/ICHS

Tema: Projetos políticos de desenvolvimento rural e o papel do Brasil no contexto internacional: que desenvolvimento é esse?

Programação

Dia 3/9
9h: Mesa de Abertura: Renato Maluf (coordenador do CPDA) e Andrey Cordeiro
Ferreira (chefe do Departamento)

9h30-12h - Mesa 1: Transformações no rural brasileiro: políticas de combate à pobreza, aproximação entre ‘agricultura familiar’ e ‘agronegócio’ e o atual modelo de desenvolvimento rural brasileiro

Painelistas:
Sergio Pereira Leite (CPDA/UFRRJ),
Moacir Palmeira (Museu Nacional/UFRJ)
Antonio Nivaldo Hespanhol (UNESP)

14h às 17h30 – Oficina Temática: Conflitos Socioambientais no Estado do Rio de Janeiro

Participantes:
Paulo Alentejano (Associação de Geógrafos do Brasil/UERJ)
Carolina Abreu (Comissão Pastoral daTerra - CPT)
Mediação: Natália Almeida (Cooperativa CEDRO)

17h30 - Mostra fotográfica (Vernissage + confraternização)
Curadoria: Fátima Portillo
Produção: alunos da disciplina Teorias sobre as Sociedades Contemporâneas do CPDA.

Dia 4/9
9h30-12h - Mesa 2: O Brasil e seu papel no contexto transnacional:que modelo de desenvolvimento rural estamos exportando?

Painelistas:
Sérgio Schlesinger (FASE)
Adriana Erthal Abdenur (Instituto de Relações Internacionais – IRI/PUC-RJ)
Karina Kato (OPPA/CPDA)

14h-17h - Cineclube: exibição do filme Soluções locais para uma desordem global

Debatedora: Claudia Job Schmitt (CPDA/UFRRJ)

Dia 5/11
9h30-12h – Encerramento – Mesa 3: Repensando o desenvolvimento: novas possibilidades ou limites estruturantes?

Painelistas:
Renato Maluf (CPDA/UFRRJ)
Virgínia Fontes (UFF)
Ana Saggioro Garcia (IRI/PUC-RJ)

14h-17h - Conversa com o autor: Raimundo Santos. Livro: O marxismo político de Armênio Guedes

(A publicação estará disponível no evento)

CPDA/UFRRJ | Avenida Presidente Vargas 417, 6º a 9º andares, Centro | CEP 20.071-003 Rio de Janeiro (RJ

Setembro, 40 anos do golpe no Chile

O último discurso do presidente chileno Salvador Allende

Por Roberto Simon

SANTIAGO – O governo brasileiro apoiou, há 40 anos, os conspiradores chilenos que derrubaram o presidente Salvador Allende. Empresários enviaram dinheiro a grupos de direita do Chile e o embaixador em Santiago atuou como pôde para minar o governo Allende.

No dia 11 de setembro de 1973, Allende faz seu último discurso ao povo chileno. “Essa é a última oportunidade para me dirigir a vocês”, começa o presidente.

Antes de terminar, Allende diz que não vai renunciar e agradece ao apoio popular. “A história é nossa e quem a faz é o povo. Trabalhadores da minha pátria, quero agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram.”

Escute a transmissão da Rádio Magallanes

Te recuerdo

Retrato de família. Os Jaras, com as filhas Manuela e Amanda

Andanças e lembranças de Joan, viúva de Víctor Jara, torturado e assassinado cinco dias após o golpe no Chile

Juliana Sayuri

Enquanto caminhava na Calle Huérfanos numa manhã fria de agosto, mal sabia eu que a rua, agora arborizada e colorida, entre grafites vibrantes e pichações envelhecidas, um dia abrigou um fervilhante Café São Paulo, onde se reuniam intelectuais e artistas ao redor de Violeta Parra para um café e um vinho embalados por histórias e canções folclóricas no fim da década de 1950. Foi nesse café, nessa rua trivial no centro, um dos diversos pontos na capital chilena de onde é possível apenas imaginar os contornos da cordilheira sob o céu azul, que a inquieta bailarina inglesa Joan Turner encontrou o músico Víctor Jara pela primeira vez, em fins de outubro de 1960. Já tinham se visto outras vezes, mas não assim, no prelúdio de uma primavera inesquecível. De volta à Calle Huérfanos, como faz dia sim dia não, Joan, passos vagarosos e vacilantes nos atuais 86 anos, relembra a própria história, interrompida como tantas outras pelo golpe de 11 de setembro de 1973.

Não por acaso escolheu esse endereço. Viúva de Víctor Jara, Joan mantém nessa mesma rua uma fundação em memória ao músico brutalmente assassinado nos primeiros dias da ditadura de Augusto Pinochet. Ali nos encontramos, diante de um galpão grafitado com retratos de seu marido, lembrado pelos cachos rebeldes, olhos expressivos e sorriso largo. Nos arredores da Plaza Brasil, a rua assiste atualmente ao vaivém de estudantes e bailarinos da companhia Espiral, fundada na década de 1980 como polo de resistência cultural a Pinochet, e da oficina da Universidad Academia de Humanismo Cristiano. Caminhamos quadra a quadra. A cada passo, um forte, outro manco, uma lembrança para Joan, senhora de olhos azuis, lábios finos e fios orgulhosamente brancos. Às vezes melancólica, mas vívida, lúcida e atilada.

Joan Alison Turner Roberts nasceu em Londres, em 1927. Apaixonou-se pela dança aos 5, talvez 6 anos, mas decidiu seu destino num dia de julho de 1944 ao assistir à coreografia A Mesa Verde da companhia alemã Ballet Jooss, pela primeira de muitas vezes. Queria ser bailarina. “Mas nunca gostei do balé clássico. Estraçalhava a sapatilha. Sempre preferi a dança contemporânea. Gosto da arte mais vital, impulsiva e dramática.” Em 1951, uniu-se à companhia, e logo interpretou o papel da guerrilheira de A Mesa Verde que tanto admirava.

No pós-guerra, entre turnês europeias e ensaios em Essen, lembrança de uma Alemanha fragmentada por um muro, Joan se apaixonou pelo bailarino chileno Patricio Bunster. Em outubro de 1953, casaram-se em Londres. Após o fim do Ballet Jooss, decidiram mudar para o Chile. Assim, num dia nublado de julho de 1954, Joan embarcou no S.S. Cuzco no porto de Liverpool, rumo a Santiago. Cruzou o Atlântico para reencontrar Patricio, que voltara meses antes. “Era uma gringa terrível, terrível. Extremamente inglesa. Ainda no navio, arrisquei aprender o castelhano, sem sucesso.” Mas uma vez firmada em território latino-americano, não tardou para dominar o idioma.

No Chile, Joan e Patricio logo se integraram ao Ballet Nacional. Ela, uma dançarina londrina que se aventurou numa terra distante, onde foi convidada a lapidar novos talentos. Ele, um bailarino que voltava para casa, onde se tornaria um dos principais coreógrafos do país. Ficaram juntos até 1960 – Joan, grávida pela primeira vez; Patricio, apaixonado por uma jovem ex-Miss Chile. “Nós nos separamos dolorosamente. Por que dolorosamente? Ora, dói, né?”

Manuela nasceu em maio de 1960. Sem Patricio, Joan passou a se sentir uma forasteira no país. Mergulhou numa depressão abissal, corpo e alma em frangalhos, tanto que nem imaginava voltar a dançar.

Caminhamos. Joan conheceu Víctor primeiro como estudante de teatro da Universidad de Chile, onde dava aulas de expressão corporal, por volta de 1957. “Era um excelente aluno, talentoso, expressivo e muito ágil. Tempos depois, disse-me que se apaixonou por mim ao me ver dançar pela primeira vez”, lembra.

Acaso feliz, quando foi visitar a recém-nascida Manuela, Patricio levou o amigo Víctor junto. Não muito tempo depois, Víctor, raminho de flores nas mãos, voltou a visitar Joan. Também a reencontrou fortuitamente no tal Café São Paulo, na Calle Huérfanos. E, assim, silenciosa e lentamente, o músico passou a invadir os pensamentos da bailarina.

Enquanto Joan se recuperava e voltava a dançar, Víctor embarcou numa primeira aventura além da cordilheira: com a companhia de teatro Cuncumén, fez uma turnê de quatro meses pelo Leste Europeu, época em que descobriu que a música era o que queria para sua vida. Além de cartas de amor, escreveu sua primeira canção pessoal durante a viagem – e a dedicou a Joan: Paloma Quiero Contarte. Em 1961, casaram-se em Santiago.

Entre 1961 e 1973, viveram felizes numa pequena casa no bairro alto da cidade, Las Condes – a mesma onde Joan vive até hoje. Em 1964, nasceu Amanda. “Mas Manuela era muito chiquitita quando Víctor e eu passamos a viver juntos. Manu sempre viu Víctor como seu papi, com todo o respeito a Patricio. E Víctor sempre dizia ter duas filhas”, diz Joan, voz branda num espanhol sem vestígios de sotaque britânico.

Nas férias faziam pequenas expedições Chile adentro, principalmente para os campos do sul, onde o verde ainda impressionava os olhos já não tão estrangeiros de Joan. No entanto, como a labuta cotidiana na capital lhes exigia muito tempo, as férias não eram tão frequentes. “Sempre pensávamos: depois teremos mais tempo.” Ainda assim, construíram um lar feliz, pois frequentes eram as declarações de amor de Víctor: “Você tem ideia da sorte que temos em nos amarmos tanto?”.

Nesses dez anos, Joan e Víctor também amadureceram suas ideias políticas, ao lado de suas carreiras artísticas. Ela, com o Ballet Popular, liderado por Patricio, que pretendia levar a dança a rincões não privilegiados da cidade. Ele, com o efervescente movimento Nueva Canción Chilena. Era uma época em que as artes, literatura e música passaram a se sintonizar mais intensamente com os bairros operários, os camponeses e as favelas. Em 1970, os Jaras militavam na Unidad Popular. A partir de uma música instrumental de Víctor, Joan fez a coreografia intitulada Venceremos, que se tornaria a assinatura do Ballet Popular na campanha de Salvador Allende, com quem brindariam a vitória em setembro.

Na casa dos Jaras, não passaram em branco as tensões políticas que paulatinamente se acirravam nos tempos de Allende. Era como se o ar estivesse ficando mais rarefeito, com a nebulosa atmosfera ideológica que se instaurava no país. Enquanto isso, Víctor já se tornara um dos principais músicos latino-americanos, famoso por suas canções revolucionárias.

No dia 11 de setembro de 1973 – uma manhã fria, melancólica e nublada, lembra Joan –, Víctor iria cantar na Universidad Técnica, na estreia de uma mostra sobre os horrores do fascismo. Ali, Allende iria discursar.

O discurso foi outro. No rádio, a partir do Palácio de La Moneda, o presidente literalmente se despediu do povo chileno. Minutos depois, o palácio foi tomado pelos militares. Ainda assim, Víctor decidiu ir à universidade – e se despediu de Joan.

Na universidade, Víctor foi preso e levado para o Estádio Chile, com outros 600 estudantes e professores. Os militares logo o reconheceram: Víctor Jara, o músico marxista, o comunista perigoso, mais um que seria subjugado a um militar lembrado como El Príncipe, posteriormente revelariam testemunhas. Víctor foi torturado por dias, ferido no corpo e no rosto, com toda sorte de instrumentos. “Toque violão agora, comunista de merda!”, dissera um dos oficiais, ao pisotear as mãos do músico de 40 anos. Quebraram-lhe os pulsos e esmagaram-lhe as mãos a pauladas, tanto que ficaram penduradas, quase amputadas. No dia 15, fuzilaram-no com mais de 44 tiros.

Só no dia 18, Joan voltaria a ver Víctor. Héctor, um jovem de 22 anos, tocou a campainha dos Jaras. “Sou da Juventude Comunista”, sussurrou, ao mostrar a carteira de identidade. Contou a Joan que Víctor estava no necrotério, onde um amigo, outro Héctor, de 19 anos, o vira.

Paramos. “Eram filas e filas de corpos, às vezes empilhados. Eram tantos que ocupavam os corredores, as salas administrativas, os lados todos do necrotério. Era Víctor”, lembra Joan, olhos marejados e fixos. “Era Víctor, meu amor. Ali morri também.

Quase um mês depois, Joan decidiu ir embora, levando as duas filhas e duas malas com discos e fitas. “Voltei para Londres no dia 16 de outubro de 1973. Mas não era como voltar ‘para casa’. Era para me refugiar. Santiago era minha casa.”

Ainda em 1973, 1974, foram realizados tributos a Víctor em São Francisco, Paris, Berlim. Nos anos seguintes, Joan visitou diversos países para contar o que se passava no Chile. Víctor tornara-se um símbolo, principalmente devido à brutalidade de sua morte. Joan, porém, queria resgatar sua vida – a história deles juntos.

Por volta de 1982, ainda sob Pinochet, voltou ao Chile. Queria rever a cordilheira, reencontrar amigos, reviver lembranças, queria escrever um livro in memoriam. “Para me inspirar para escrever, precisei voltar para casa”, conta. Depois, para datilografar suas memórias, precisou de perspectiva. Assim, publicou Canção Inacabada: A Vida e a Obra de Víctor Jara, em Londres, em 1983.

Tempos depois, Joan decidiu retornar a Santiago definitivamente. Em abril de 1993, criou a Fundación Víctor Jara para resgatar o legado do músico, que por muito tempo ficou na clandestinidade no país. No sobradinho marfim da Universidad Academia de Humanismo Cristiano, na Calle Huérfanos, visitamos a filha Manuela, e ali ficamos. “Chorei muito no passado. Mas é diferente lembrar Víctor agora. Gosto de recordar o caminho que trilhamos. Preservar sua memória é o que me mantém viva”, diz Joan, quebrando um momento de silêncio.

Voltamos a caminhar. Nos últimos tempos, Joan iniciou a campanha Justicia para Víctor, para esclarecer as circunstâncias de sua morte. Em dezembro de 2012, dois oficiais – Hugo Sánchez (preso) e Pedro Barrientos (refugiado na Flórida, tramita um pedido para sua extradição) – foram formalmente acusados de apertar o gatilho. Outros seis foram presos como cúmplices. El Príncipe não foi identificado até hoje.

Joan Jara vive sozinha em Las Condes. Detesta o bairro, agora emoldurado por arranha-céus e construções modernosas no lugar da vista para as montanhas dos Andes. “Mas não me mudarei dessa casa. Tudo que me lembra Víctor está aqui.” Também ex-bailarina, Manuela se casou com um músico “subversivo” como papi e teve quatro filhos. Amanda encontrou sua paz numa vila de pescadores perto de Valparaíso.

Diante do muro grafitado da fundação, Joan se senta num dos banquinhos da Plaza Brasil. Sorri com os olhos, tão claros e tão fixos, como que fascinada por algo no horizonte. Viúva desde os 46, Joan está apaixonada. “Sempre estive. Não sou religiosa, não é isso. Mas Víctor está sempre comigo. É o amor da minha vida. E, agora, sinto que minha missão está quase no fim.”

Fonte: O Estado de S. Paulo / Aliás

Beth Carvalho - Hora da razão

O homem, a luta e a eternidade - Murilo Mendes

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.