terça-feira, 9 de junho de 2020

Eliane Cantanhêde - Cortando as asinhas

- O Estado de S.Paulo

‘Grande problema’ não são atos pró-democracia, mas falta de governo, de estatísticas, de pudor

À deriva, o governo faz água por todo lado. O presidente Jair Bolsonaro continua fora de órbita, em outro planeta, Moro caiu, Mandetta foi demitido, Nelson Teich desistiu, Paulo Guedes sumiu, o Ministério da Saúde acabou e o da Economia submergiu, enquanto outras pastas pintam e bordam, sem rumo, sob aplausos do presidente. Ou o rumo é romper com a China, estorricar a Amazônia, prender ministros do Supremo e governadores? Uma situação melancólica, ou desesperadora.

Nem a exposição da reunião de 22 de abril, uma síntese do governo, que gerou ou alimentou investigações no Supremo, conteve Bolsonaro. Conforme o Estadão, foi ele quem deu, pessoalmente, a ordem para o Ministério da Saúde divulgar “menos de mil mortes por dia” e “acabar com matéria do Jornal Nacional”. Pois entrou plantão extraordinário na novela, o Congresso está criando uma central própria e Estadão, G1, O Globo, UOL, Folha e Extra fecharam parceria para prestar as informações que o governo sonega ou manipula.

O dr. Jair, epidemiologista, assumiu desde o início uma cruzada particular contra o isolamento social adotado no mundo todo. O dr. Jair, cientista, determinou o uso indiscriminado da cloroquina sem qualquer aval internacional ou nacional. Agora, o deus Jair decide quantos são os mortos do coronavírus. Danem-se os fatos e as mortes. O que importa é a versão do dr. Jair, o Messias Bolsonaro.

*Ana Carla Abrão - 'Ensaio sobre a cegueira'

- O Estado de S. Paulo

A história tem inúmeros casos em que mudar os fatos foi uma saída vergonhosa

O isolamento imposto pela pandemia da covid-19 tem motivado várias reflexões. Numa dimensão individual, a necessidade de distanciamento físico nos obrigou a reorganizar os métodos de trabalho, trouxe as famílias de volta ao convívio e nos provocou no sentido de rever prioridades. Nesse processo, muitos resgataram uma leitura (ou quem sabe várias) relacionada a alguma grande peste que assolou o mundo – na realidade ou na ficção. Relemos Gabriel Garcia Marques, Albert Camus, José Saramago e tantos outros.

No cinema, revimos O Sétimo Selo ou, para os que são mais novos, Contágio ou algum outro filme que nos remeta a essa situação inesperada e surreal que vivenciamos hoje. Mas nem mesmo as obras mais perturbadoras conseguem refletir a nossa atual situação, que teima diariamente em ir além de várias dessas trágicas descrições ficcionais.

Nossas mazelas são maiores e mais profundas e se expõem agora como nunca. A primeira delas se refere à nossa inaceitável condição social, onde a desigualdade de renda se escancara na assimetria dos impactos econômico, social e de saúde a depender da classe de renda. Isso gerou, felizmente, uma mobilização filantrópica sem precedentes da sociedade civil e questionamentos sobre a eficácia da nossa rede de proteção social. Esperemos que também se reflita em foco naquele que é o nosso principal problema estrutural e ganhe prioridade na elaboração de políticas públicas – e não só as de complementação de renda.

*Rubens Barbosa - A Amazônia em tempos de globalização

- O Estado de S.Paulo

Em ambiente e clima, o Brasil perdeu a voz e a visibilidade no mundo que teve desde a Rio-92

Destravando a Agenda da Bioeconomia na Amazônia foi tema do encontro live organizado pelo Instituto Escolhas e pelo Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), na semana passada. Tivemos a oportunidade de tratar da questão da bioeconomia e da proteção da Floresta Amazônica como fator de projeção do Brasil no cenário internacional. Questões mais que nunca atuais e relevantes em vista da percepção externa do País extremamente negativa.

É indubitável que o meio ambiente entrou definitivamente na agenda global e um dos focos principais é a preservação da Floresta Amazônica. As imagens relacionadas a desmatamento, queimadas e garimpo ilegal na Amazônia em 2019 ganharam repercussão mundial. A retórica e algumas medidas e políticas governamentais contribuíram para a escalada da opinião pública internacional contra o Brasil, agravada agora pela maneira como é vista a condução das políticas em relação à pandemia e à confrontação política interna.

As preocupações com a preservação do meio ambiente e com a mudança do clima passaram a ter um impacto que vai além das sanções políticas, como no passado. Agora, com a entrada em cena da figura do consumidor e com a inclusão de políticas ambientais nas negociações de acordos comerciais, as consequências são econômicas e comerciais. Atraem restrições às exportações, boicotes e a inclusão de cláusulas específicas de desenvolvimento sustentável nos acordos comerciais, como ocorreu nas negociações do Mercosul com a União Europeia (UE). E Parlamentos europeus já estão votando moções contra o acordo com o Mercosul. O plano de recuperação da UE, depois da covid-19, inclui uma política industrial e uma política ambiental (Green Deal), que preveem punição a empresas que importarem produtos provenientes de áreas de desmatamento florestal.

*Gaudêncio Torquato - Uma nota acima do tom

- O Estado de S. Paulo

Basta apurar os sentidos para perceber que há uma nota acima do tom na orquestração da política. O presidente da República tem se comportado como um incontrolável rebelde no uso da liturgia da expressão. Todos os dias recita substantivos ácidos e adjetivos ferinos para animar suas galeras e atacar adversários. Magistrados, de alto coturno, incluindo os que carregam grande bagagem no acervo do Direito, extravasam a linguagem peculiar dos juízes, abrindo polêmica na frente institucional. Dos políticos, então, tanto dos bastiões de defesa do governo quanto das hostes de oposição, o tiroteio do palanque virtual não arrefeceu como seria de esperar nesses tempos de encolhimento pandêmico.

A conclusão a que se pode chegar sinaliza para uma sobrecarga de energia acumulada, como se o alvo dos tiros não fosse a danada da covid-19 e sim os interlocutores e protagonistas que agem nas esferas das nossas instituições. Até os generais que, em tempos idos, sob o escudo da hierarquia e da disciplina, eram comedidos no uso do verbo, extrapolam os limites de sua linguagem. É razoável pensar que esses comportamentos venham a oxigenar nossa democracia ante a hipótese de que o franco debate desperta a sociedade, mas há uma questão de fundo a balizar o jogo das ideias. Povoam a paisagem temas como intervenção militar, golpe, impeachment, rebelião social, entre outros. Há de se ter cuidado com a banalização de escopos desse teor.

*Michel Temer - Democracia e manifestações de rua

- O Estado de S. Paulo

A manifestação contra o governo ou a seu favor deriva do ‘pluralismo político’. É exercício democrárico

Logo de saída, no artigo 1.º da Constituição Federal, o Brasil é definido como “Estado Democrático de Direito”. Esta dicção tem especial significado. É que na ciência política Estado Democrático e Estado de Direito se equivalem. Aliás, quando se abandonou o Estado Absolutista, surgiu o Estado de Direito. Por que faço esta afirmação? Precisamente para revelar a ênfase na democracia.

Saímos, em 5 de outubro de 1988, data da nova Constituição, de um sistema centralizador e autoritário. Quisemos, e demos, relevo à democracia, que, com licença para a obviedade, significa “governo do povo”. Daí termos usado a expressão que abre a Constituição Federal logo no seu primeiro artigo.

Impõe-se verificar quais são os desdobramentos desse dispositivo para verificar se efetivamente vive-se na democracia.

De logo se registra que o inciso V do mesmo artigo 1.º sustenta que um dos fundamentos do Estado é “o pluralismo político”. Portanto, a pluralidade de opiniões é marca do nosso sistema, já que política (do grego polis) é a arte de governar. Plural, como é, enseja o debate de opiniões. De ideias e posições programáticas. E, naturalmente, de manifestações.

De onde vem o direito à manifestação? Do artigo 5.º, inciso XVI, que preceitua “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

Projeto é chance para conter as fake News – Editorial | O Globo

Proposta que tramita no Senado pode levar redes a erguer barreiras contra as usinas de notícias falsas

Enquanto a epidemia continua a sua evolução, e a crise político-institucional se desdobra, o Senado pode votar em breve projeto de lei sobre as fake news, uma necessária iniciativa do Legislativo para dar transparência ao mundo opaco da geração e circulação de informações, presentes no combate à Covid-19, com a disseminação de mentiras, e também sendo usadas como arma, da mesma forma, na crise política. O assunto é, portanto, de grande importância.

De autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), o projeto, sob a relatoria de Ângelo Coronel (PSD-BA), além de visar a iluminar a trajetória que notícias percorrem até invadirem computadores, telefones, tablets, o que seja, pretende estabelecer a responsabilização das redes, ou plataformas digitais, que difundem fatos inverídicos e também são usadas para outros delitos.

Este é um terreno movediço, porque tem a ver com a liberdade de expressão, erroneamente interpretada como licença para mentir, caluniar. Um grande equívoco, porque são crimes. Mas, ao se buscarem fórmulas que impeçam e punam a circulação de fake news, não se pode delegar às plataformas digitais o poder de censurar conteúdos que trafegam em suas redes. Porém, essas empresas precisam ser contidas dentro dos limites usuais da liberdade de circulação de notícias e análises, que são o veto ao triunvirato da injúria, calúnia e difamação, com suas inúmeras correlações.

O projeto dá oportunidade ao legislador brasileiro de avançar no campo cada vez mais amplo da comunicação digital em que robôs se fazem passar por internautas, contas de fantasmas ajudam a multiplicar o número de “seguidores” de quem puder pagar e também servem para engrossar qualquer tipo de campanha contra pessoas e instituições. É por investigar uma conspiração digital dessas que um inquérito conduzido no Supremo pelo ministro Alexandre de Moraes tanto preocupa a família Bolsonaro.

Um Ministério da Saúde à deriva em fase crítica da epidemia – Editorial | O Globo

Esvaziada e inerte, pasta tenta, inutilmente, ocultar números sobre a pandemia de Covid-19

Seria um equívoco dizer que a responsabilidade pelo descalabro na Saúde durante a mais letal pandemia em cem anos é apenas do governo federal, já que as ações de combate à Covid-19 são compartilhadas entre União, estados e municípios. Ademais, governadores e prefeitos têm autonomia para decretar medidas de restrição, a despeito da oposição do presidente Jair Bolsonaro. Mas ao Ministério da Saúde cabe — ou deveria caber — a condução do processo.

Se é verdade que em algum momento o ministério chegou a ter protagonismo no combate à Covid-19, hoje é mero coadjuvante, quase um observador, enquanto o Brasil, que já soma mais de 37 mil mortos, caminha para se tornar o segundo país com maior número de óbitos. A tragédia que se amplia a cada minuto, tempo em que um brasileiro morre de Covid-19, transformou o país numa espécie de pária internacional. Chegou-se ao ponto de o presidente Donald Trump, dos EUA, que concentram maior número de mortes no planeta, citar o Brasil como mau exemplo.

Merval Pereira - Cada um conta

- O Globo

Brigar com os números é uma tendência de todo governo autoritário ou populista, controlar a narrativa também

Seria uma grande notícia se o presidente Bolsonaro tivesse tomado a decisão de que não aceita mil mortes todos os dias, em consequência da Covid-19 e, ordenasse uma reunião de emergência para analisar que medidas teriam que ser tomadas na área da Saúde para evitar que esse número trágico se repetisse.

Sim, ele decidiu que não queria mais ver o anúncio de mais de mil mortos por dia, ou um morto por minuto. Mas não tomou medidas na área sanitária. Simplesmente decidiu maquiar as estatísticas para nunca mais ouvir o Papa Francisco lamentar no Angelus o fato “terrível” de morrerem mil pessoas por dia no Brasil.

Brigar com os números é uma tendência de todo governo autoritário ou populista, controlar a narrativa também. Stálin mandava apagar das fotos seus antigos aliados caídos em desgraça. O mais incrível é que o governo tem um ponto importante nessa discussão.

Se o número de mortes em 24 horas inclui as mortes ocorridas anteriormente, cujo diagnóstico de Covid-19 só agora foi confirmado, o total de mortes diárias está distorcido, embora o que importa, a soma total de mortos não mude. Se houvesse a separação das mortes nas 24 horas, e as confirmadas entre as que estavam na fila de suposição, a informação seria também correta, e a estatística mais esclarecedora.

Míriam Leitão- O crime da desinformação

- O Globo

Ao tentar brigar com números da pandemia, tudo o que o governo conseguiu foi mais desgaste e exposição negativa

Quando os absurdos se tornam frequentes, o risco é perdermos a noção da gravidade. Sonegar informações de mortos e contaminados numa pandemia é crime. Tudo o que o governo Bolsonaro já fez nos últimos dias no Ministério da Saúde — tirar site do ar, divulgar números conflitantes, acusar governos estaduais de superfaturar a morte, desinformar deliberadamente — é abuso de autoridade. É também inútil. Os órgãos de imprensa anunciaram uma parceria inédita, e o Congresso, uma comissão mista especial de acompanhamento do coronavírus. No final do dia, o governo ensaiou um recuo, mas ainda deixou muitas dúvidas no ar. Divulgou dados incompletos, com menos mortes e casos em relação ao que foi apurado pelo consórcio dos jornais.

Democracia busca sempre maior transparência. Ditaduras escondem informações, brigam com os números, quebram termômetros, ameaçam quem informa, mudam metodologias para ver se conseguem fazer os dados corresponderem à versão que lhes convém. Numa pandemia, a falta de informação desorienta pessoas e administradores públicos e pode levar a decisões temerárias.

Numa crise, a comunicação confiável é uma arma poderosa na mão de governantes esclarecidos para ajudar na solução. É parte do tratamento. O Ministério de Saúde comandado por Luiz Henrique Mandetta entendeu isso. Aquelas entrevistas diárias ajudavam a esclarecer e informar. No início da pandemia, com tanto desconhecimento sobre o assunto, foi fundamental e sem dúvida salvou vidas por transmitir o senso de urgência e gravidade. No curto período Nelson Teich, a comunicação ficou mais opaca e o Ministério da Saúde se enfraqueceu. No interinato do general Pazuello, o Ministério da Saúde está sendo desmontado. A briga com os números é parte dessa conspiração.

Bernardo Mello Franco - Bolsonaro virou refém da gripezinha

- O Globo

Ao sonegar dados sobre a pandemia, Bolsonaro atenta contra a saúde pública e repete dois crimes da ditadura: a censura e a ocultação de cadáveres

Quase todos os líderes mundiais viram sua popularidade crescer na pandemia. Jair Bolsonaro viu a sua derreter, e agora virou refém da armadilha que montou para si.

O presidente sempre negou a gravidade da Covid-19. Chamou a doença de “gripezinha”, debochou das medidas sanitárias, comprou briga com prefeitos e governadores. Em março, ele garantiu que o país não ultrapassaria as 800 mortes. Com a conta se aproximando de 40 mil, passou a manipular as estatísticas oficiais.

No domingo, o Ministério da Saúde anunciou o registro de 1.382 óbitos em 24 horas. Pouco depois, o número encolheu para 525. Em uma hora e meia, sumiram 857 vítimas. Bolsonaro escancarou o motivo da maquiagem. Por ordem sua, a pasta começou a atrasar os boletins para esconder as mortes dos telejornais.

Ao sonegar informações, o presidente atenta contra a saúde pública e repete dois crimes da ditadura: a censura e a ocultação de cadáveres. Nos anos 70, o regime militar tentou esconder uma epidemia de meningite. Não funcionou na época e não tem chance de funcionar agora, na era da comunicação instantânea.

Carlos Andreazza - Pedaladas funerárias

- O Globo

Temos um governo que, oficial e criminosamente, descaracteriza números de doentes e mortos pela peste, prática fascistoide que compõe a gramática golpista

Não deveria haver gente protestando nas ruas. Há uma pandemia; a sanha de um vírus traiçoeiro. Há também, no entanto, o vírus do bolsonarismo; a forma agressiva como, explorando a janela de oportunidades escancarada pelo enfrentamento à Covid-19, Jair Bolsonaro e seu projeto autocrático de poder aceleram o programa de radicalização para infeccionar a democracia liberal. Crise é chance. Crise é pretexto.

Agora, por exemplo, temos um governo que, oficial e criminosamente, descaracteriza números de doentes e mortos pela peste — prática fascistoide que compõe a gramática golpista. A ideia: que não haja fatos; que tudo seja controvérsia e sirva a formulações conspirativas. É a peste dentro da peste. As pestes dentro da peste. Uma delas: um militar, general, à frente do Ministério da Saúde, prestando-se ao papel de ser cavalo da vontade do presidente — que sobre toda a superfície do Estado tenta expandir a natureza meramente narrativa do fenômeno reacionário que encarna.

O que interessa: em campanha contínua, fabricar constantemente inimigos. A lógica é simples e influente. Como o establishment, sinônimo de “forças nada ocultas”, trabalharia para derrubar Bolsonaro, tudo quanto originário do sistema — da própria estrutura republicana — teria o fim de destruí-lo. Por exemplo, a consolidação e a exposição dos números de vítimas da Covid-19: ação para desestabilizá-lo.

José Casado - Bolsonaro dá caixão e enterro

- O Globo

Governos em realidade paralela são casos clássicos na política

Jair Bolsonaro resolveu torturar estatísticas sobre as mortes de brasileiros pela Covid-19 até que confessem só uma “gripezinha”. Liquida a própria credibilidade, pois se não é possível confiar nos dados oficiais sobre a vida e a morte, por que se deveria acreditar nos números da economia?

Governos em realidade paralela são casos clássicos na política.

George III, rei da Inglaterra, derrotou Napoleão e impôs a hegemonia britânica. No 4 de julho de 1776, registrou em diário: “Nada de importante aconteceu”. Nada, só a declaração de independência dos EUA. Morreu cego, surdo e louco, depois de falar horas sem parar aos cortesãos — a reunião ministerial da época.

Luis XVI, marido de Maria Antonieta, era obcecado pela morte. Também anotou um “nada aconteceu” no 11 de julho de 1789, ao demitir o ministro da Fazenda, Jacques Necker, fiador da estabilidade do reino. Três dias depois deu-se a Revolução Francesa. Ele perdeu a cabeça, literalmente.

A psicopatia de Bolsonaro com mortes merece estudo, mas obedece a uma lógica peculiar de luta pelo poder. Ele nega porque não admite seu desgoverno na pandemia.

Banco Mundial prevê queda de 8% da economia brasileira em 2020

Instituição projeta que PIB global encolherá 5,2%. Expectativa é de retomada parcial em 2021, mas processo pode ser mais lento se pandemia não perder força até o fim do ano

Marcello Corrêa e Bruno Rosa | O Globo

BRASÍLIA E RIO - A crise do coronavírus deve fazer a economia brasileira encolher mais que o esperado pelo governo e por analistas do mercado financeiro, de acordo com projeções do Banco Mundial. Nas contas do organismo internacional, o país amargará uma recessão de 8% neste ano, a pior da série histórica. A retração é mais que o triplo da queda de 2,5% esperada para o grupo de nações emergentes.

A entidade estima ainda que a recuperação do Brasil será tímida, com crescimento de 2,2% no ano que vem, bem abaixo da alta de 4,2% prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) global. E a saída da recessão pode ser ainda mais vagarosa, caso os efeitos da pandemia sejam mais longos e a agenda de reformas não avance, alerta a instituição.

As estimativas fazem parte do relatório “Perspectivas econômicas globais”, divulgado ontem. O estudo revela um cenário mais grave do que o traçado até agora por outras fontes. No Boletim Focus, do Banco Central, economistas projetam que o PIB brasileiro registre queda de 6,48%.

Em abril, a entidade havia divulgado outro estudo em que previa retração de 5% para o PIB do país.

Também em abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou uma queda de 5,3% da economia brasileira. A mais recente projeção do governo, de maio, indica resultado negativo de 4,7% para este ano.

Música | Paulinho da Viola - É difícil viver assim

Poesia | Vinicius de Moraes - Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Opinião do dia – *Fernando Henrique Cardoso

“São tempos incertos os que vivemos. Neles a liderança deve apelar à racionalidade, ao bom senso, ao sentimento de solidariedade e de unidade nacional, admitir que não há caminhos fáceis nem soluções mágicas, e o País deve buscá-los de braços dados. O Brasil tem vulnerabilidades, como os grandes aglomerados urbanos onde milhões vivem do trabalho informal em moradias precárias. Sem falar dos desempregados e dos que perderam condições de se empregar. Tem limitações fiscais, que podem e devem ser flexibilizadas num momento de emergência social e econômica, mas não podem ser desconsideradas. E tem ativos como o SUS, instituições de pesquisa científica como a Fiocruz, universidades como a USP e outras, epidemiologistas de categoria internacional, militares e funcionários devotados ao serviço público, uma sociedade civil ativa, governadores e prefeitos que arregaçaram as mangas para enfrentar o desafio, uma imprensa atenta e instituições públicas de controle a zelar pelo bem comum, etc.

O que nos tem faltado é quem inspire, em vez de ódio e rancor, confiança em nós mesmos. Esta requer serenidade de quem busca despertá-la nos compatriotas; exige compostura, capacidade de convencer pelas ideias, e não pela ameaça.

O Brasil já contou com políticas e políticos que despertavam confiança. Convivi com Tancredo Neves, homem de fala mansa, mas de valores firmes. Foi um político de diálogo, atento à necessidade de buscar denominadores comuns em momentos críticos. E com Ulysses Guimarães, que sabia aliar ao diálogo a firmeza, quando necessário. E assim outros.

Que sua lembrança nos inspire a fazer frente aos arreganhos autoritários com firmeza e serenidade. E novos líderes encarnem o espírito enérgico e conciliador que marcou boa parte de nossa liderança, para em 2022 não se repetir a escolha trágica de quatro anos atrás.”

*Sociólogo, foi presidente da República. “Tempos incertos”, O Estado de S. Paulo/ O Globo, 7/6/2020.

Fernando Gabeira - O fascismo eterno e o fascismo tabajara

- O Globo

Há obsessão com a conspiração, sobretudo a internacional. Esse talvez seja dos traços mais decisivos na política externa

Fascismo tabajara é uma feliz expressão criada pelo cientista político Luiz Werneck Vianna. Fascismo eterno é um conceito do intelectual italiano Umberto Eco e foi tema de uma de suas conferências nos EUA.

Como muita gente nova tem me perguntado o que é o fascismo, resolvi trabalhar um pouco o tema, partindo das características eternas do fascismo para suas manifestações tropicais. A conferência de Umberto Eco acabou resultando num livro de 64 páginas. Ele entende como fascismo esse regime nacionalista, autoritário, que vigorou na Itália e foi derrubado no final da Segunda Guerra.

Quando garoto, Umberto Eco participava de concursos de composições com esse tema: “Devemos morrer pelo glória de Mussolini e o destino imortal da Itália?” Como um garoto esperto, respondia que sim. Eco viu os americanos ocuparem a Itália, Mussolini ser executado e refletiu tantos anos sobre o fascismo que acabou extraindo do regime as suas características que sobrevivem aos tempos.

São 14 traços essenciais e, segundo Eco, não precisam estar todos presentes para definir um regime fascista. É temerário condensá-los num curto artigo e apontar sua manifestação tabajara.

Alguns, no entanto, são tão evidentes que não demandam profundas análises comparativas.

Ricardo Noblat - Dias de cão para um presidente perdido no seu labirinto

- Blog do Noblat | Veja

O pior ainda está por vir

Por onde começar o relato sobre os últimos dias que o presidente Jair Bolsonaro gostaria de esquecer, e sobre os próximos que gostaria de evitar? Pela lambança dos números do coronavírus que destruiu o que restava de credibilidade ao Ministério da Saúde?

Pelas acanhadas manifestações contra o governo que ainda assim serviram para mostrar que os devotos do presidente perderam o monopólio das ruas? Ou por mais uma derrota que Bolsonaro colherá, esta semana, no Supremo Tribunal Federal?

Deixo para o texto seguinte a ameaça do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, guru da família Bolsonaro, de detonar o governo caso não o ajudem com dinheiro para pagar a conta de tantos processos que já perdeu na justiça. Olavo pede socorro.

Bolsonaro não tem a quem pedir socorro porque as dificuldades que enfrenta foram criadas por ele mesmo. Seu amigo de fé, camarada, o presidente Donald Trump, passou a citar o Brasil como um mau exemplo na guerra contra o Covid-19. E com razão.

A bancada do Partido Democrata em uma das comissões técnicas mais importantes do Congresso despachou uma carta a Trump se opondo a acordos comerciais entre os Estados Unidos e o Brasil. Nada de moleza com um governo claramente antidemocrático.

O acordo Mercosul-Comunidade Econômica Europeia depende do consentimento unânime dos países europeus para entrar em vigor. O parlamento da Holanda votou contra o acordo. A política ambiental do Brasil (ou a falta dela) só inspira desconfiança.

*Marcus André Melo - Bolhas ideológicas?

- Folha de S. Paulo

É mais fácil deparar-se com informação contrária online que off-line

Entre fevereiro e março deste ano ocorreu um incremento gigantesco (24,4%) no tráfego do Twitter, equivalente a 1 bilhão de novos acessos. No Facebook, o incremento foi de 20,6% (4,3 bilhões de novas visitas).

São grandes as expectativas de que essa intensa digitalização afete a política, polarizando-a ainda mais. Elas assentam-se em processos de exposição seletiva à informação que levariam à formação de bolhas digitais. O viés de autosseleção impediria assim a exposição à informação contrária fazendo que as bolhas operem como câmaras de eco. As evidências sobre essas questões, contudo, são controversas.

O incremento citado, por exemplo, levou a uma explosão no acesso aos jornais mainstream nos EUA—o ao New York Times aumentou em mais de 50%— enquanto o dos blogs partidários não se alterou.

Em relação às bolhas, o gigantesco esforço de mapeamento por Joshua Tucker (Universidade de Nova York) e coautores tampouco corrobora o argumento padrão. Os autores investigam o tamanho das bolhas nos EUA em pesquisa com 1.500 usuários do Twitter que também forneceram acesso às 642 mil contas que seguem e aos 1,2 bilhão (sim, o número é estonteante) de tuítes que elas contêm. Os autores estimam a distribuição ideológica das contas com base em seus seguidores e tuítes que recebem e desagregaram as contas de políticos, veículos de mídia e público em geral.

*Celso Rocha de Barros - Bolsonaro quer privatizar o golpe

- Folha de S. Paulo

Os democratas da Ucrânia precisam tentar uma Lava Jato que não acabe em Bolsonaro

O primeiro projeto claro de privatização desse governo parece ser a privatização do golpe. Na última sexta-feira, em uma inauguração em Goiás, Bolsonaro defendeu zerar o imposto de importação de armamentos e disse por que vai fazer isso: “É uma boa medida que vai ajudar a todo o pessoal dos artigos 142 e 144 da nossa Constituição”.

Como se sabe, o submundo do crime bolsonarista mente que o artigo 142 da Constituição autoriza uma intervenção militar.

Armar golpistas é parte do plano de “ucranizar” o Brasil, termo que os bolsonaristas usam para defender conflitos de rua como os que se seguiram às manifestações de 2013-2014 na Ucrânia.

Uma matéria do Washington Post de 30 de outubro de 2019 indicava a preocupação das autoridades americanas com o fluxo de extremistas de direita que iam lutar na do leste da Ucrânia para adquirir experiência de combate.

Golpe estatístico- Editorial | Folha de S. Paulo

Como se pudesse praticar a censura, Bolsonaro tenta abafar dados da Covid-19

Ao mandar sonegar ao público dados completos sobre mortes e casos do coronavírus, Jair Bolsonaro deu fim ao pouco que restava de seriedade na forma com que seu arremedo de governo trata a epidemia hoje fora de controle.

O painel diário do Ministério da Saúde sobre Covid-19 sofreu vários golpes nos últimos dias. Primeiro determinou-se que sua atualização ocorresse apenas após as 22h, convenientemente após o horário nobre dos telejornais.

Não funcionou. Ganharam mais destaque, em informes extraordinários, as lúgubres cifras que põem o Brasil em segunda posição mundial no número de infectados e ainda em terceiro lugar no de óbitos —apenas por subnotificação, pois é certo que a mortandade nacional já ultrapassou a do Reino Unido.

A página do ministério na rede foi então retirada do ar. Quando voltou, exibia unicamente os casos e mortes registrados no dia anterior. Omitiram-se totais que atestam a incompetência do governo em liderar o combate local à pandemia. Pior: sumiram vias de acesso à base de dados detalhados.

Vinicius Mota - O povo contra o populismo

- Folha de S. Paulo

Aqui e nos EUA, ruas pedem respeito, democracia e responsabilização de poderosos

A batata do presidente Jair Bolsonaro vai assando lentamente. Neste fim de semana, com menos de 18 meses no cargo, conseguiu a proeza de reunir contra si um movimento de rua que tem tudo para engrossar nos próximos meses. De quebra, jogou mais lenha na fogueira dos crimes de responsabilidade ao interferir, com a sutileza de um Borat, nas estatísticas da pandemia.

Não é para qualquer um. Quando chega uma ameaça ao conjunto da sociedade, sob a forma de guerra ou de infecção mortal, o normal é a maioria da população sublimar divisões internas e cerrar fileiras com seu governante. Basta ter fosfato em volumes mínimos circulando no sangue para o mandatário surfar essa onda.

Na falta do mineral, outra opção seria o clássico “siga o líder”. Durante a crise, Donald Trump tem mesclado a sua volúpia bravateira com acenos ao consenso médico. Não pensou duas vezes na hora de propagandear que a política adotada nos EUA para combater o coronavírus se diferencia da catástrofe brasileira.

Leandro Colon - Eficiência, gestão e respeito

- Folha de S. Paulo

Os três pontos foram elencados no plano de governo de Bolsonaro para Saúde e Educação

No plano de governo entregue à Justiça Eleitoral em 2018, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro elencou três prioridades: segurança, saúde e educação.

Na Segurança, adotou uma retórica armamentista e entrou numa crise política grave ao perder o ministro que escolheu para comandar a área. Com a saída de Sergio Moro, Bolsonaro agora retoma a ideia de separar a Segurança da Justiça para agradar os amigos da bancada da bala como se essa fosse a solução.

Diz o plano de governo da campanha em sua primeira frase ao citar saúde e educação: “eficiência, gestão e respeito com a vida das pessoas”.

*Ruy Castro - O mensageiro da morte

- Folha de S. Paulo

Para Bolsonaro, de que importa se até seus eleitores estão morrendo? Eles já votaram em 2018

O confinamento nos tornou melhores. As pessoas se telefonam. Os mais novos ligam para os mais velhos. Os mais velhos ligam para os ainda mais velhos. Queremos saber como vão. Querem saber como vamos. Quem recebe o telefonema sente-se querido e reconfortado —alguém gosta de nós e quer se certificar de que estamos bem. Trocam-se ideias sobre como tornar o dia a dia menos vazio. E fala-se de amigos que se foram ou que estamos a ponto de perder.

Enquanto trocamos mensagens de vida, Bolsonaro exala o bafio da morte. Seu desprezo pela dor de seus governados é acachapante —morram quantos morrerem, isso não é com ele, é com “o destino”. Nenhum filho, pai ou esposo dos já atingidos mereceu uma palavra sua, exceto “E daí? Não sou coveiro”. Nenhum médico ou enfermeiro, que a cada minuto corre risco de contágio, recebeu um gesto de solidariedade de sua parte.

Sinais positivos, mas ainda com grandes incertezas – Editorial | Valor Econômico

Se voltarmos à situação de abril, o “fundo do poço” ainda estaria por vir

Na semana passada, a Receita Federal apresentou um dado alentador, em meio a essa enxurrada de notícias ruins ligadas à pandemia do coronavírus. Com base nas notas fiscais eletrônicas, o fisco informou que as vendas apresentaram, em maio, um aumento de 11,1%, na comparação com abril, em decorrência das medidas de estímulo econômico, adotadas pelo governo. O crescimento ocorreu em todas as regiões do país.

Há uma queda significativa, explica a Receita, quando os resultados de abril e maio são comparados com os mesmos meses de 2019. Ou seja, as medidas de isolamento para reduzir o contágio da população pelo novo coronavírus derrubaram as vendas, como era esperado.

Mas, o que os dados divulgados parecem sugerir é que o mês de abril deste ano pode ter sido “o fundo do poço”. O secretário da Receita, José Barroso Tostes Neto, disse ao Valor que os dados do início de junho indicam que a trajetória ascendente das vendas continua.

Ainda é cedo para afirmar que existe uma tendência de alta e em que intensidade ela está ocorrendo, pois é necessário esperar os resultados finais de junho e julho. Mas os dados da Receita parecem em linha com outros indicadores, que mostram uma certa reação da economia no mês passado, na comparação com abril.

*Bruno Carazza - De João 8:32 ao art. 211 do Código Penal

- Valor Econômico

Bolsonaro se parece cada vez mais com aqueles que criticava

Todo-poderoso da economia cubana desde a revolução socialista, Ernesto Che Guevara foi escolhido por Fidel Castro para comandar o Banco Central (1959-1961) e depois o recém-criado Ministério das Indústrias (1962-1967). No final de 1963, a diretoria executiva do Fundo Monetário Internacional enviou a Cuba uma carta denunciando o descumprimento de uma série de obrigações, entre elas o não fornecimento de dados sobre balanço de pagamentos e estatísticas financeiras e monetárias desde julho de 1961. Incomodada com as cobranças por maior transparência sobre a evolução da economia do país, a ditadura caribenha retirou-se do FMI em 2 de abril de 1964.

Quem assistiu à premiada série “Chernobyl” se lembra das imensas dificuldades enfrentadas pelo cientista Valery Legasov (interpretado por Jarred Harris) na sua tentativa de implementar um plano de mitigação das consequências do acidente nuclear. Temendo a repercussão negativa, tanto em termos internacionais quanto no apoio popular ao regime comunista, o governo soviético demorou não só a admitir a ocorrência do desastre, mas também em reconhecer sua gravidade. Até hoje não há um consenso sobre o número de mortes decorrentes do “acidente” - as estimativas variam de dezenas a milhares.

As denúncias sobre interferências no Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) - o IBGE da Argentina - remontam ao falecido presidente Néstor Kirchner. As acusações, que iam da falta de transparência à descarada manipulação de dados, tiveram continuidade nos mandatos subsequentes de sua esposa Cristina Kirchner. Chegou-se até mesmo a interromper o cálculo do índice de pobreza da população, sob a justificativa de que isso “estigmatizaria” as pessoas.

Atos frustram aposta de radicalização

Protestos contra Bolsonaro e pró-democracia ocorrem de forma pacífica pelo país

Por Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

BRASÍLIA, RIO E SÃO PAULO - A expectativa de que as manifestações nas ruas contra o governo Jair Bolsonaro, pró-democracia e antirracismo, realizadas ontem, pudessem acirrar os ânimos da crise política não se confirmaram. Os atos, em várias capitais do país, correram de forma pacífica, sem registro de problemas entre grupos opositores, retirando o trunfo da radicalização, que tem sido uma aposta do presidente para mobilizar seus apoiadores. Em São Paulo, porém, um grupo que durante a tarde havia participado da manifestação, foi dispersado pela Polícia Militar durante a noite para evitar que seguisse para a avenida Paulista, onde ocorreria um ato a favor do presidente Bolsonaro.

Além dos atos de rua, houve panelaços e buzinaços contra o presidente promovidos em diversas localidades, num fim de semana em que o governo federal foi muito criticado, dentro e fora do país, por causa da retirada do número de mortos de covid-19 do site do Ministério da Saúde.

No Rio, o ato em defesa da democracia e contra o racismo teve início a partir das 14h. Os manifestantes também lembraram a morte da vereadora Marielle Franco (Psol), em março de 2018. A manifestação foi acompanhada de perto pela Polícia Militar, mas não houve incidentes. Pela manhã, um ato em apoio a Bolsonaro foi realizado na Avenida Atlântica, na praia de Copacabana.

Milhares protestam contra Bolsonaro em meio à pandemia

Atos anti-Bolsonaro no país expõem rachas, provocam aglomerações e têm gritos contra racismo

Manifestações ocorreram em ao menos sete capitais; PM usou bombas para dispersar grupo de manifestantes em SP

Bruno B. Soraggi, Fábio Zanini, Daniel Carvalho | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO E BRASÍLIA - Atos anti-Bolsonaro em diferentes pontos do país neste domingo (7) ganharam o reforço de gritos contra o racismo, causaram aglomerações e expuseram a cisão entre movimentos e partidos de oposição ao governo.

Em São Paulo, em Brasília e no Rio, por exemplo, cartazes e faixas fizeram referência ao “vida negras importam” —o black lives matter, movimento que ganhou corpo nos EUA após a morte de George Floyd por um policial branco.

Houve atos contra o governo também em Belo Horizonte, Belém, Goiânia e Salvador, entre outras. Muitos deles marcados por aglomerações, em meio a uma média recente de cerca de mil mortos por dia na pandemia.

Os movimentos mantiveram o chamado para os atos mesmo após o questionamento sobre promover aglomeração em meio à pandemia —a estratégia do distanciamento social é a única forma efetiva de prevenção do contágio, segundo orientações médicas.

Os protestos, em geral, ocorreram de forma pacífica. Em São Paulo, um pequeno grupo de manifestantes foi dispersado pela tropa de choque da PM na região de Pinheiros cerca de três horas após o término do ato contra o presidente. Policiais lançaram bombas de efeito moral, enquanto moradores do bairro gritavam fascista e jogavam ovos e pedras contra os policiais.

No último domingo (31), em São Paulo, um ato contra Bolsonaro convocado por torcidas organizadas acabou sendo dispersado por bombas lançadas pela PM. O conflito ocorreu na avenida Paulista, onde naquele dia também havia uma manifestação a favor de Bolsonaro.

O Palácio do Planalto e o Governo do Distrito Federal, por exemplo, trabalhavam com a possibilidade de violência neste final de semana.

Desde o início da semana passada, Bolsonaro orientou sua militância a não comparecer à Esplanada dos Ministérios, como costuma fazer todos os domingos. Ao mesmo tempo, procurou elevar a temperatura chamando os manifestantes contrários ao governo de terroristas, maconheiros, marginais e black blocs.

Rio e São Paulo têm maiores atos antirracismo e contra governo Bolsonaro

Protestos a favor do presidente também foram registrados nas duas cidades e em Brasília, mas reuniram menor número de manifestantes

Bruno Marinho, Guilherme Caetano, Bruno Góes, Leonardo Sodré e Victor Farias | O Globo

RIO, SÃO PAULO E BRASÍLIA — As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo concentram as maiores manifestações antirracismo e contra o governo do presidente Jair Bolsonaro registradas na tarde deste domingo. Também foram feitos protestos neste domingo com "panelaços" e "buzinaços" em diversas capitais contra o presidente. Na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, um protesto contra o racismo toma uma pista lateral da via. Organizado por coletivos e movimentos de comunidades do Rio, a manifestação gritou palavras de ordem contra a morte de pessoas negras no país em ações policiais. Em São Paulo, os manifestantes se concentraram no Largo da Batata, na região Oeste da capital paulista. O ato foi convocado por organizações de esquerda, como a Frente Povo Sem Medo, lideranças de torcidas organizadas e coletivos do movimento negro.

No ato do Rio, a polícia militar e o presidente Jair Bolsonaro foram os principais alvos dos manifestantes, que lembraram também a morte da vereadora Marielle Franco, em março de 2018. O assassinato do adolescente João Pedro, em São Gonçalo, durante operação policial na comunidade do Salgueiro, também foi muito reclamada pelos protestantes.

A concentração do protesto começou na altura do monumento à Zumbi dos Palmares, um dos maiores ícones do movimento negro no país, por volta das 14h. Cercada por um forte contingente de segurança, ela caminhou até a Igreja da Candelária sem incidentes. A polícia militar, formada por homens do Batalhão de Choque e do Batalhão Especial de Policiamento em Estádios, restringiu o grupo à faixa lateral da avenida e revistou manifestantes. Há relatos de pessoas que foram detidas ao chegarem ao protesto.

Em São Paulo, cartazes, bandeiras e cantos entoados na grande praça no bairro de Pinheiros tratavam de pautas diversas. Sobressaíram-se as críticas ao descaso do governo federal no combate à pandemia do novo coronavírus, a medidas consideradas autoritárias pelo presidente Jair Bolsonaro e a mortes de pessoas negras causadas pela polícia.

O protesto encheu o largo e frustrou a tentativa dos organizadores de manter o distanciamento de pelo menos um metro entre os manifestantes, para evitar a infecção pelo novo coronavírus. Ainda assim, os organizadores promoveram uma brigada de saúde, com dezenas de voluntários, que percorreram o local distribuindo álcool em gel e cartilhas ensinando a "lutar contra o fascismo em tempos de Covid", com orientações de higiene.

Brasil manchado também nos EUA – Editorial | O Estado de S. Paulo

Mais uma vitória sinistra foi alcançada pelo presidente Jair Bolsonaro, em seu esforço para transformar o Brasil em pária internacional. Ele poderá continuar aplaudindo, seguindo e imitando seu grande guru, o presidente Donald Trump, mas terá de abandonar a ambição de um acordo comercial com os Estados Unidos, pelo menos enquanto houver maioria democrata na Câmara dos Representantes. A busca de qualquer parceria econômica mais estreita com “o Brasil do presidente Jair Bolsonaro” será rejeitada, informaram 24 deputados democratas da Comissão de Orçamento e Tributos da Câmara. A declaração foi expressa em carta dirigida ao chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), embaixador Robert Lighthizer. O embaixador havia anunciado em maio, depois de uma conversa com o chanceler brasileiro Ernesto Araújo, a intenção de intensificar a cooperação econômica entre os dois países.

Na mesma data da carta, 3 de junho, o Parlamento holandês aprovou moção contrária ao acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, assinado em 2019 e ainda pendente de ratificação pelos países participantes. A devastação da Amazônia foi o principal argumento a favor da moção. Mas também houve referência a riscos para os povos indígenas. Políticos citados pela imprensa europeia, nas discussões sobre o acordo entre os dois blocos, têm apontado o governo Bolsonaro como inimigo do meio ambiente e dos direitos humanos.

*Denis Lerrer Rosenfield - O caminho do arbítrio

- O Estado de S.Paulo

Estamos vivendo um processo semelhante ao da Venezuela chavista, só que de sinal trocado

Urge que o presidente Bolsonaro pare sua escalada rumo ao autoritarismo, mediante o uso indiscriminado do arbítrio. Decisões presidenciais num Estado democrático passam por uma série de mediações, sendo as mais importantes o Legislativo e o Judiciário, e no que concerne a este último, o STF. Arrogar a si a verdade e a decisão arbitrária só é fonte de confrontos incessantes.

Acontece que o presidente e sua família operam segundo a concepção schmittiana da distinção entre amigo e inimigo, fazendo que qualquer crítica ou divergência seja vista sob o prisma do inimigo a ser atacado. O mesmo vale para amigos em definições mutáveis, pois, ao passarem a ser considerados uma ameaça, tornam-se inimigos a ser abatidos – os casos mais eloquentes, Bebianno, Moro e Santos Cruz.

A distinção amigo-inimigo não é, todavia, exclusiva da extrema direita, vale também para a esquerda. O próprio Carl Schmitt, após ter sido apoiador entusiasta de Hitler, escreveu, no pós-guerra, que Mao e Lenin se encaixavam na mesma concepção, tecendo-lhes elogios. Chávez e agora Maduro são seus discípulos. A distinção lulopetista entre “nós” e “eles” é dessa mesma estirpe.

No caso da experiência venezuelana, considerada por Lula um exemplo de democracia, processou-se a subversão da democracia por meios democráticos. As instituições democráticas foram inicialmente preservadas, enquanto o seu interior foi progressivamente minado. A imprensa e os meios de comunicação em geral foram, passo a passo, calados, o Legislativo perdeu suas funções, com o presidente passando a legislar por decretos, e o Supremo Tribunal, após ser atacado, foi cooptado. Milícias foram criadas e passaram a violentar e controlar os cidadãos.

É grave a decisão de ocultar dados sobre a Covid-19 – Editorial | O Globo

Governo Bolsonaro retarda divulgação de números, tenta omitir total de mortos, mas recua após pressão

Uma das atitudes elogiáveis do Ministério da Saúde, antes mesmo de o Brasil registrar o primeiro caso de Covid-19, era a transparência. Em entrevistas coletivas, o então ministro Luiz Henrique Mandetta orientava a população sobre como se prevenir de um vírus que já se anunciava devastador. Com a chegada da pandemia, em fins de fevereiro, os informes diários do ministério serviam para divulgar números, traçar um panorama da evolução da doença, fazer projeções sobre o fim da epidemia e desmistificar fake news que contaminavam as redes.

Porém, desde a saída de Mandetta e de seu sucessor, Nelson Teich, ambos por divergências com o presidente Jair Bolsonaro, a transparência se tornou artigo tão escasso quanto respiradores. As coletivas foram esvaziadas, o ministério passou a divulgar os números cada vez mais tarde, e a metodologia das estatísticas foi alterada. Desde sexta, omitiu-se o total de mortos e infectados. No domingo, diante da repercussão negativa do fato, a pasta recuou.

Ana Maria Machado - Tentando respirar

- O Globo

Contra quem quer nos asfixiar, crescem movimentos suprapartidários

Sei que opinião individual não interessa. Não importa que, ao contrário do presidente, eu jamais tenha tido o impulso de ouvir filho atrás da porta e sinta engulhos diante de quem acha isso recomendável. Mas confesso uma posição pessoal: sou contra prorrogar mandatos. Por isso, não gostei nada quando se falou em adiar para outro ano as eleições municipais, a pretexto da pandemia. 

Ainda bem que Rodrigo Maia também pensa assim. E o ministro Barroso, agora presidente do TSE, está firme na busca de alternativas que garantam a continuidade democrática no pleito, sem irresponsabilidade sanitária. Acaba de autorizar convenções virtuais para escolha dos candidatos. E como os testes das urnas eletrônicas devem ser presenciais, que haja condições seguras de trabalho para os funcionários da Justiça Eleitoral neles envolvidos.

Pode-se fazer a votação em horário dilatado ou em mais de um dia. Talvez postergar um pouco a data, mas permitindo que a posse dos novos eleitos fique dentro do previsto na legislação. Talvez até valha considerar a hipótese de suspender a obrigatoriedade do voto neste pleito. Claro, a palavra final é do Congresso. Vejo que outros se preocupam com isso, não estou sozinha.

Cacá Diegues - Delicadeza e doçura

- O Globo

No Brasil, tratamos de espalhar a lorota da mestiçagem, a mentira das boas relações igualitárias

Seja de que natureza for, o racismo será sempre um horror. Da morte de um negro sufocado por um policial branco, às piadas contra chineses de um ministro da Educação, tudo que for negação agressiva da diferença natural entre seres humanos deve ser condenado. Mas o racismo não se manifesta do mesmo modo, entre os diferentes grupos humanos. É preciso consultar essas diferenças, cada vez que devemos reagir a essa depravação moral. Como agora, com o assassinato brutal de George Floyd.

No Brasil, onde o racismo se instalou desde que nossos “descobridores” chegaram às nossas praias em 1500, ele foi da violência selvagem da escravidão secular à malemolência de descendentes de senhores de escravos, que elegeram aspectos da cultura afro-brasileira como capazes de representar a nação. Hoje, os grandes clássicos de futebol são assistidos por uma torcida bastante especial, criada pela reforma que diminuiu e gentrificou o Maracanã, evitando miseráveis gerais. Assim como o samba acabou virando um ritmo de marcha militar, desfilando no Sambódromo de ingresso proibitivo. Entre uma coisa e outra, adotamos a “política do embranquecimento”, inventada por intelectuais na virada do século XIX para o XX, que, sejamos justos, não prescrevia a eliminação de uma raça, mas a sua transformação em outra, uma miscigenação que só existiria no Brasil.

Em debate, FH, Ciro e Marina defendem frente ampla contra Bolsonaro

Ex-presidente e os dois ex-ministros criticaram condução da crise do novo coronavírus pelo presidente

Dimitrius Dantas | O Globo

SÃO PAULO — O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) reforçaram a necessidade de união de lideranças políticas contra retrocessos democráticos em meio à crise política pela qual passa o país. Os três participaram de um debate mediado pela colunista do GLOBO, Miriam Leitão, na "GloboNews".

De acordo com o ex-presidente, o atual governo seria um símbolo do atraso. O presidente criticou a forma pela qual o presidente vem lidando com a crise do novo coronavírus, criando uma crise econômica e também institucional.

— O problema maior que temos no Brasil, e simbolizado pelos que estão no poder, é o atraso. Não é questão de ser de direita: eles são atrasados. Eles têm teia de aranha na cabeça, não conseguem ver a realidade, se agarram a fantasmas. Inventaram agora um tal de marxismo globalista. Não sei o que é isso, e olha que eu entendo dessas coisas — afirmou o ex-presidente.

O ex-ministro Ciro Gomes também afirmou que as forças políticas, mesmo que sejam adversárias, devem se unir para combater o que enxerga ser um risco para a continuidade da democracia no país. 

O pedetista aproveitou para criticar aqueles que "por mimimi" não participariam da luta pela proteção da democracia no Brasil. A declaração ocorre dias após o ex-presidente Lula ter declarado em reunião do PT de que não assinaria manifestos assinados por alguns dos adversários do partido, sobretudo aqueles que defenderam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Entrevista | Celso Lafer: “O Brasil é muito maior do que Bolsonaro’

- Vicente Vilardaga | IstoÉ - Edição 05/06/2020 - nº 2630

O jurista Celso Lafer, 78 anos, foi um personagem de destaque em vários momentos da história brasileira.

Coube a ele, por exemplo, organizar a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92. Além disso, ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores por duas vezes, nos governos de Fernando Collor e de Fernando Henrique Cardoso. Escritor profícuo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Lafer sempre esteve alinhado com a democracia e com os direitos humanos. Neste momento, portanto, ele tem muito com que se preocupar. Tanto que foi um dos signatários do manifesto Basta!, lançado no dia 31 de maio contra os persistentes ataques do presidente Jair Bolsonaro às instituições democráticas. Mais de 600 advogados assinaram o documento, que denuncia a ofensiva do presidente contra os outros poderes da República. Para Lafer, o governo Bolsonaro substituiu a lógica da cooperação pela do confronto, tanto no plano interno como nas relações internacionais, e está fazendo o País perder credibilidade. “Vivemos um momento de exacerbação dos ódios e o governo dá uma contribuição significativa para isso”, disse à ISTOÉ.

• O senhor é um dos signatários do manifesto Basta!, contra os ataques sucessivos de Bolsonaro à democracia. Qual é o objetivo desse manifesto?

Nós aqui no Brasil estamos vivendo um momento politicamente tenso e difícil, que está ligado à crise política, que se soma aos problemas econômicos e ao desafio da pandemia. Temos uma crise de saúde imensa, uma crise econômica muito respeitável e uma crise política que se soma às outras duas. É um problema triplo. E ela tem se colocado também em termos de debate e discussão muito acirrada por parte do Executivo sobre o papel dos demais poderes do Brasil, entre os quais o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso. Acho que para voltar ao tema básico da divisão dos poderes deve haver aí um respeito aos parâmetros que a Constituição estabelece. E a Constituição de 88, que é fruto da redemocratização, colocou como um de seus valores fundamentais a vida democrática e o pluralismo de ideias e opiniões, além do papel próprio das instituições nesta dinâmica.

• O senhor acha que a democracia está ameaçada?

Acho que as instituições são fortes e que você tem uma sociedade civil que está se manifestando com muita clareza, como se manifestou na semana passada em diversos documentos e declarações de múltipla abrangência, inclusive com o manifesto Basta!, e de pessoas de diversas linhas e de diversas orientações que sentiram importante manter esse terreno comum, onde pode haver concordância e discordância, mas onde é necessário que haja respeito e civilidade.

• O problema é que o ódio está dominando as relações políticas. Como evitar isso?

Nós estamos vivendo um momento de exacerbação dos ódios e para isso o governo dá uma contribuição muito significativa, pelo espírito que alimenta as facções que o apóiam e, inclusive, pela maneira de sustentá-lo por via das fake news. O filósofo espanhol Ortega y Gasset, em um dos seus primeiro livros, a Meditações do Quixote, diz que o ódio é um sentimento que conduz à aniquilação dos valores, promove a falta de conexão entre as pessoas e, ao fabricar essa falta de conexão, isola e desliga, pulveriza e corrói o papel dos indivíduos. O ódio tem um efeito deletério que corrompe e avilta o espaço público.

*César Mortari Barreira e Marcelo de Azevedo Granato - Partido ou pessoas?

- O Estado de S.Paulo

... quantos negariam que a derrota, em 2018, de Sarney, Jucá, etc., teve algo de libertador?

Uma das características do noticiário político do último ano é a fartura de nomes e a escassez de siglas. Noticia-se, frequentemente, sobre Bolsonaro, Lula, Witzel, Doria, Ciro, Moro, Huck, etc. Mas pouco aparecem PSL, PT, PSC, PSDB, PDT...

Isso decorre de fatores como a eleição de 2018, marcada pela rejeição à elite política, que rebaixou partidos estabelecidos, como DEM, PSDB, e alçou o PSL. Espera-se que o sistema partidário continue mudando nas próximas eleições, seja pelas restrições aos recursos do Fundo Partidário e ao acesso gratuito a rádio e televisão (artigo 17, parágrafo 3.º, da Constituição federal), seja pelo provável enraizamento da direita, hoje representada pela família Bolsonaro, ou pelo espaço ocupado por movimentos como MBL, Livres, etc. A ver.

Certo é que hoje o noticiário político segue a tendência manifestada nas eleições de 2018: primeiro vêm as pessoas e depois os partidos, o que nos remete ao fenômeno dos “partidos pessoais” de que falava Norberto Bobbio, isto é, ao “partido criado por uma pessoa em contraste com o partido em sentido próprio, que consiste, por definição, em uma associação de pessoas” (Contra os Novos Despotismos). Nesses partidos a lealdade ao chefe (tenha ele criado ou não o partido) é mais forte que ideias ou projetos que vão além dele; o partido, no fundo, serve para exprimir a personalidade do chefe.

Mas essa troca, de partidos por “pessoas-partidos”, é uma boa troca?

Música | Forró Pesado - Mariana Aydar/Chico César/Mestrinho

Poesia | Ascenso Ferreira - Minha escola

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!

À sua porta eu estava sempre hesitante...
De um lado a vida... — A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
— O meu engenho de barro de fazer mel!

Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
— Quantas orações?
— Qual é o maior rio da China?
— A 2 + 2 A B = quanto?
— Que é curvilíneo, convexo?
— Menino, venha dar sua lição de retórica!
— "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
— Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
— Agora, a de francês:
— "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
— Basta
— Hoje temos sabatina...
— O argumento é a bolo!
— Qual é a distância da Terra ao Sol?
— ?!!
— Não sabe? Passe a mão à palmatória!
— Bem, amanhã quero isso de cor...

Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.

In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal