sábado, 22 de abril de 2023

Carlos Alberto Sardenberg - O crime da Lava-Jato foi combater a corrupção

O Globo

Estão soltando os condenados. Não por terem sido considerados inocentes, mas por cuidadosa manipulação de regras formais

Lula comete muitos equívocos. Na maior parte, são opiniões rasteiras sobre assuntos complexos que ele não conhece. Entram nessa categoria os comentários sobre os games — vistos como formadores de crianças violentas — e transtornos mentais — ou “desequilíbrio de parafuso” que afeta 30 milhões de brasileiros, potenciais causadores de “desgraça”. Tratava dos assaltos a escolas, tema sensível, mas essas falas não geram políticas públicas. Ao contrário. Nos ministérios da Saúde e da Educação, ficaram perplexos com os comentários do presidente. Calaram. Ainda bem.

É diferente quando se trata das incursões de Lula em política internacional. As declarações de apoio à China e à Rússia revelam um antiamericanismo que, antes de mais nada, é visceral. Lula acha — e diz — que sua prisão foi resultado de uma conspiração armada pelo Departamento de Justiça dos EUA. Tem muita gente importante no PT que racionaliza essa ideia, tornando-a base da diplomacia “Sul-Sul”. Se os americanos são capazes de destruir uma economia emergente, então o negócio é buscar outros parceiros.

Pablo Ortellado - Nada de bom pode sair do circo da CPMI

O Globo

É ingenuidade acreditar que conseguiremos resultados com embates televisionados entre Eduardo Bolsonaro e André Janones

As imagens da invasão do gabinete da Presidência da República veiculadas na quarta-feira pela CNN tornaram inevitável a instalação da CPMI para apurar o ataque às sedes dos Poderes.

Na edição apresentada pela CNN, o então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias, parece ser conivente com a invasão do Palácio do Planalto, e alguns de seus subordinados dão a impressão de colaborar com os invasores. Olhando a íntegra das imagens, publicadas no dia seguinte, podemos até aceitar a verossimilhança da explicação do general: que não houve conivência da parte dele, apenas perplexidade e impotência e que a ação leniente de seus subordinados era desobediência.

Eduardo Affonso - O Baependi de Lula

O Globo

Covardemente escudado sob uma pretensa neutralidade, o presidente se dedica a tomar partido da Rússia, o país agressor

Em junho de 1940, o então ditador Getúlio Vargas disse, num discurso:

— Marchamos para um futuro diverso de quanto conhecíamos em matéria de organização econômica, social ou política e sentimos que os velhos sistemas e fórmulas antiquadas entram em declínio. Não é, porém, como pretendem os pessimistas e os conservadores empedernidos, o fim da civilização, mas o início, tumultuoso e fecundo, de uma nova era.

Essa “nova era” saudada por Vargas era nada mais, nada menos que o nazifascismo.

Corta para 2023. O presidente democraticamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, não esconde sua simpatia pelos regimes autoritários da Rússia e da China. Até aí, nada de novo. Lula nunca deixou de demonstrar apreço por governos corruptos e/ou pouco democráticos: a Venezuela de Chávez e Maduro, a Cuba dos irmãos Castro, a Nicarágua de Ortega, a Líbia de Kadafi, o Irã de Ahmadinejad, a Guiné Equatorial de Obiang, a Angola de José Eduardo dos Santos.

Carlos Góes - Lula e o xadrez geoeconômico

O Globo

Na terceira vez ocupando a presidência, petista enfrenta um mundo com interesses econômicos subdeterminados por contextos políticos

A viagem do Presidente Lula à China causou muitas reações. A movimentação de Lula, se traz oportunidades, traz também riscos, porque, na última década, o mundo tem se caracterizado pelo fenômeno da fragmentação geoeconômica.

Mas o que é este fenômeno?

No mundo que emergiu da Guerra Fria, as palavras de ordem eram livre comércio e mercados abertos. Mesmo a China e a Rússia foram integradas aos mercados internacionais e reconhecidas como economias de mercado.

A História parecia ter chegado ao fim, com a democracia de mercado tendo prevalecido como modelo hegemônico, como conjecturou o cientista político Francis Fukuyama.

Marcus Pestana* - Estabilidade fiscal e a retomada do desenvolvimento

Duas questões estão sobre a mesa: o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária. São temas decisivos para a retomada do crescimento. 

É evidente que governos e a sociedade em geral, carentes de investimentos e políticas sociais, preferem sempre gastar mais. Há um pequeno obstáculo: a restrição orçamentária. Na vida pessoal, empresarial ou pública só podemos gastar o que temos e não o que queremos.

A geração de empregos e renda para os brasileiros depende de fatores objetivos - os fundamentos econômicos - e subjetivos, as expectativas que se formam em relação ao futuro. O grau de confiança gerado pela política econômica é essencial para as decisões de investidores nacionais e estrangeiros. Há que se construir um ambiente que promova confiança, segurança, otimismo.

O maior desafio brasileiro é ampliar a produção e o comércio, gerando empregos, renda, tributos e bem estar. O Brasil foi um dos países que experimentou as maiores taxas de crescimento econômico do final da Segunda Grande Guerra até a crise de 1980. Em 1980, tínhamos um PIB por habitante maior do que o da Coréia do Sul. Hoje, o país asiático tem um PIB per capita mais do que quatro vezes maior do que o brasileiro.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Contribuição a sindicatos não deve ser compulsória

O Globo

Julgamento no Supremo poderá promover retrocesso se restabelecer nova versão do imposto sindical

Foi mais que oportuno o pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), num julgamento que pode restabelecer contribuições compulsórias a sindicatos, extintas na reforma trabalhista de 2017. Ao contrário do que o Supremo decidira antes no caso das contribuições sindical e confederativa, o relator, ministro Gilmar Mendes, mudou de ideia e decidiu acolher a demanda para tornar obrigatória a contribuição assistencial.

O voto de Gilmar representa uma reviravolta na posição que ele próprio defendera neste caso e em votações anteriores a respeito do tema no STF. Foi provocada, segundo ele mesmo escreveu, pela argumentação do ministro Luís Roberto Barroso em favor da obrigatoriedade. Na votação em plenário virtual cujo encerramento estava previsto para a próxima segunda-feira, Barroso e a ministra Cármen Lúcia já haviam concordado com Gilmar, até o pedido de vista de Moraes.

Poesia | Clarice Lispector - Sonhe

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Táxi Lunar (Ao Vivo em Portugal)

 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

José Eduardo Faria* - As PECs e a erosão constitucional

Folha de S. Paulo

Uso desmedido de emendas corrói estrutura, coerência e legitimidade da Carta

Aprovada no final de 2021, a Proposta de Emenda Constitucional dos Precatórios modificou a metodologia de cálculo do limite do teto de gastos, permitindo maiores dispêndios no Orçamento de 2022. Menos de um ano depois, a aprovação da PEC da Transição, após as eleições presidenciais de outubro, voltou a modificar os dispositivos sobre gastos, desta vez para acomodar mais despesas, sob a justificativa de estimular programas sociais. Ela também determinou a criação de um novo marco fiscal até agosto de 2023, e o governo já deixou claro que recorrerá a uma PEC para introduzi-lo.

Se caminhar nessa linha, serão três alterações constitucionais discordantes sobre um mesmo tema num período muito curto de tempo. Por isso, a dúvida é saber se a aprovação de tantas PECs não acabará introduzindo na Constituição normas que tendem a desfigurá-la. Como entre a promulgação da Carta e dezembro de 2022 já foram aprovadas 128 emendas constitucionais, essa indagação ganha ainda mais relevância.

Na medida em que a vida social e econômica é dinâmica por sua natureza, em princípio toda Constituição deve estar aberta a uma revisão ou sujeita a receber emendas. Revisões constitucionais também são necessárias para impedir que a vontade política de uma geração se imponha de modo descabido sobre as seguintes. Quando permanece imutável, a Constituição acaba ultrapassada pelos fatos, tornando-se ineficaz. Contudo, se alterada excessivamente e na mesma velocidade em que esses fatos ocorrem, perde força como marco normativo.

Flávia Oliveira - Um outro olhar

O Globo

Iniciativas tomadas até agora terão impacto positivo na vida dos brasileiros

No turbilhão formado pelo comentário impróprio do presidente da República sobre a guerra Rússia-Ucrânia na passagem por China e Emirados Árabes Unidos, assuntos relevantes da agenda global acabaram negligenciados. Documentos e declarações oficiais dos chefes de Estado sinalizaram atenção ao cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e do enfrentamento à emergência climática. Em Abu Dhabi, Lula chegou a propor que o G20 passe a debater até mesmo uma regulação internacional para as plataformas digitais. É assunto que preocupa o Brasil, à luz das ameaças da extrema direita à democracia e dos recentes episódios de violência contra escolas.

Foi em 2015 que os 193 membros das Nações Unidas se comprometeram a perseguir um conjunto de 169 metas socioeconômicas e ambientais para melhorar a vida no planeta até 2030. Os 17 objetivos, conhecidos como ODS, vão da erradicação da fome e da pobreza à igualdade de gênero. Incluem acesso a saúde e educação, água e saneamento; trabalho decente e energia limpa; consumo responsável e cidades sustentáveis.

Maria Cristina Fernandes - Da matança nas ruas à das escolas

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Como as redes sociais ajudaram na transformação de um país onde mendigos morriam para existir naquele em que é pela autoria de assassinatos que jovens almejam reconhecimento

A camiseta, anunciada no Mercado Livre, custa R$ 66,90. Na descrição das características do produto, consta que é “100% algodão”, “silk screen”, masculina, com gola redonda e manga curta. A camiseta preta, estampada de ódio em vermelho, já vendeu mais de 100 unidades. Ainda está disponível nos tamanhos P e GG e é enviada em até um dia útil depois do pagamento. Numa das dez fotos do anúncio, o autor de um massacre escolar nos Estados Unidos posa com uma camiseta igual.

O vendedor, do interior de São Paulo, tem o perfil mais qualificado do site pelo bom atendimento que presta e pela entrega dos produtos no prazo. Coloca-se à disposição para eventuais dúvidas. Toma a iniciativa de esclarecer a primeira delas: “Aviso à patrulha do politicamente correto, não incitamos, não fazemos apologia, somos contra qualquer tipo de violência, seja essa física ou verbal! Assim como somos contra bullying e a favor da livre manifestação de toda e qualquer forma de expressão, menos apontamentos e terceirização de culpa”.

Reinaldo Azevedo - O 'download' do Divino e Campos Neto

Folha de S. Paulo

Em seminário na presença do presidente do BC, Pacheco cobra redução imediata da taxa de juros

Que tal um ambiente institucional e regulatório em que, sendo o Banco Central autônomo, seu presidente fale apenas na ata do Copom? Isso lhe conferiria um ar de pureza sacerdotal em relação às contendas deste mundo. Já me parece suficientemente especioso, como evidência de rigor técnico, que a autoridade monetária pergunte antes a apenas um pedaço do tal mercado o que ela tem de fazer com a taxa de juros. A gente só fica estacionando os carros. Como se sabe, nessa área, contam as "expectativas". Voltarei a elas.

Hélio Schwartsman - Entre a omelete e os ovos

Folha de S. Paulo

Caso Shein mostra que Haddad vai penar para aumentar a arrecadação

Escrevi aqui há pouco que o governo teria dificuldades para fazer com que o Congresso reveja isenções tributárias e outras benesses dadas a certos grupos, condição necessária para que o novo arcabouço fiscal proposto pelo ministro Fernando Haddad funcione bem. Fui otimista. Os problemas para o governo começaram antes de as peças legislativas chegarem ao Congresso. Começaram com a Janja e outros próceres do PT, como vimos na novela das isenções para compras online.

Vinicius Torres Freire - O risco da CPI do golpe

Folha de S. Paulo

Começos de governo são confusos, mas Lula 3 está criando muito conflito desnecessário

Começos de governos são confusos. É assim até com gente experimentada, como Lula 3, seus ex-colegas de Lula 1 e 2 e tantos ex-governadores.

Costuma ser assim até por motivos aparentemente banais, como falta de entrosamento entre ministros e de tempo para afirmação de uma liderança que coordene a administração. Ou também porque não se firmou um relacionamento com o Congresso. Não quer dizer que, com o tempo, a máquina de governar se assente, sem mais. Quer dizer apenas que algum tempo é necessário.

Por outro lado, é possível que se bagunce esse período de sedimentação, deixando a água turva. A falta de clareza sobre o programa de governo é um problema. A multiplicação de conflitos, ainda mais conflitos contraproducentes, também, assim como a desconsideração de alianças. Dar assunto para a oposição é mais problema. O governo Lula tem dado chance para o azar.

Eliane Cantanhêde - O perigo estava no Planalto

O Estado de S. Paulo

O governo blinda o Exército da crise, e o Exército não vai passar a mão na cabeça de ninguém

A primeira baixa do governo Lula foi de um general, justamente no Dia do Exército, após uma solenidade com a presença do presidente, que conversou amigavelmente com o ministro da Defesa, José Múcio, e o comandante da Força, general Tomás Paiva. Houve, porém, uma evidente articulação para isolar as Forças Armadas da crise com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e o general Gonçalves Dias.

Assim, Múcio foi convenientemente excluído da reunião com o vice Geraldo Alckmin, os ministros do Planalto e da Justiça, mais o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos, em que Lula decidiu demitir o general. A ausência foi combinada. “É um caso particular, o Exército não tem nada a ver com isso”, me disse Múcio, sobre Gonçalves Dias retirando vândalos suavemente do andar do gabinete presidencial, enquanto oficiais do GSI até serviam água a eles.

Luiz Carlos Azedo - Golpistas embaralham investigações do 8 de janeiro

Correio Braziliense

Para aumentar as dúvidas, Gonçalves Dias dissera ao presidente da República que a câmera de segurança que gravou as imagens fora quebrada e ainda decretou sigilo sobre os demais vídeos

Há mais coisas entre o céu e a terra do que os aviões de carreira, como diria o Barão de Itararé. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, levaram uma bola nas costas nessa história dos vídeos da invasão do Palácio do Planalto. Lula teve que demitir o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias, que mantivera no cargo mesmo depois dos episódios de janeiro, porque confiava no amigo. Deveria ter separado a amizade das razões de Estado e defenestrado o general no mesmo dia. Não por uma questão de lealdade, que agora foi posta em dúvida, mas por incompetência mesmo.

Bernardo Mello Franco - O abacaxi do GSI

O Globo

Pasta continua infestada de bolsonaristas; tática de esvaziá-la aos poucos não funcionou

No primeiro dia à frente do Gabinete de Segurança Institucional, o ministro interino Ricardo Cappelli brincou com aliados sobre a própria nomeação: “Quando o pessoal não sabe o que fazer com um abacaxi verde e cheio de espinhos, manda entregar na minha sala...”.

O número dois do Ministério da Justiça virou o bombeiro do governo Lula. Em janeiro, foi encarregado de apagar o incêndio na segurança do Distrito Federal. Agora terá que debelar a crise que derrubou o general Gonçalves Dias.

Entre muitos abacaxis que Lula herdou do antecessor, o GSI é um dos mais difíceis de descascar. Nos últimos quatro anos, o órgão foi comandado por Augusto Heleno, decano da extrema direita militar.

O general voltou a vestir o pijama, mas deixou como legado uma pasta infestada de radicais. O novo governo demorou a afastá-los, o que ajuda a explicar a facilidade com que os golpistas invadiram e depredaram o Planalto.

Em vez de desbolsonarizar o órgão de uma vez, Lula escolheu esvaziá-lo em doses homeopáticas. Transferiu sua segurança para a Polícia Federal e deslocou a Abin para a Casa Civil. O GSI foi reduzido a um órgão zumbi, com poucas atribuições e sem razão clara de existir.

Pedro Doria - O Planalto pôs bolsonaristas sob o holofote

O Globo

Eles não tinham palco político relevante desde que deixaram o poder. Agora, com a CPI, terão todas as câmeras

Durante os próximos meses, o foco da política brasileira estará numa CPI onde duas histórias serão contadas a respeito da Intentona de 8 de janeiro. Numa, o personagem principal será o ex-presidente Jair Bolsonaro, que passou boa parte do ano eleitoral incitando um golpe em caso de vitória do adversário. Na outra, são os bolsonaristas, que terão todos os holofotes que desejarem para convencer a opinião pública de que o governo é responsável pela tentativa de golpe. Eles não tinham palco político relevante desde que deixaram o poder. Agora, terão todas as câmeras, farão muitas lives, escorrerão novamente para além de suas bolhas. Tudo isso porque o Palácio do Planalto ainda não entendeu que política, em 2023, ocorre na forma de histórias contadas em picotes de vídeos e memes no ambiente digital.

Vera Magalhães - Sem espaço para revisionismo golpista

O Globo

Governo cometeu erro ao não se antecipar à crise com ex-chefe do GSI, mas não será possível escamotear DNA bolsonarista do 8 de janeiro

As imagens que mostram o general Gonçalves Dias, agora ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, perambulando meio atônito no Palácio do Planalto enquanto golpistas bolsonaristas depredavam e saqueavam a sede do Executivo levantam uma série de questionamentos relevantes, mas de forma alguma permitem reescrever a história recentíssima e perpetrar um revisionismo também delinquente a respeito do que houve em 8 de janeiro.

Nesse sentido, são precisas as medidas determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito dos dois inquéritos instaurados para apurar responsabilidades de quem depredou e de quem idealizou e financiou os ataques.

É também salutar, em tese, a realização de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar todas as responsabilidades e matar no nascedouro a tentativa desonesta de criar uma narrativa segundo a qual passem a ser as instituições as responsáveis pela tentativa de um golpe de Estado — essa tentativa, aliás, começou no primeiro dia, o vídeo é só um novo instrumento para ela.

50.º Aniversário do Partido Socialista Português

 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

CPMI do 8 de Janeiro nada tem a acrescentar

O Globo

PF, PGR e STF têm sido competentes na investigação e no julgamento dos acusados de agredir a democracia

O pedido de demissão do ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias, depois da divulgação de vídeos em que ele é visto no Palácio do Planalto durante a invasão de 8 de janeiro, tornou praticamente inevitável a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre os atos golpistas. A base do governo, até então contrária à ideia, mudou de opinião depois do episódio, que abriu mais uma crise no governo Luiz Inácio Lula da Silva, com menos de quatro meses de mandato.

Criar a CPMI para apurar responsabilidades pela violência antidemocrática é direito dos parlamentares, em especial da minoria. Mas ela nada terá a acrescentar. Claro que tudo tem de ser apurado. Só que isso já vem sendo feito desde 8 de janeiro. Não tem cabimento usar o episódio para justificar uma CPMI que não serve para nada, a não ser investigar o que já é investigado.

Poesia | Clarice Lispector - Restos do Carnaval

 

Música | Teresa Cristina - Zé do Caroço (Leci Brandão) no Sesc Pompeia 2023

 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

José de Souza Martins - A explicação de fatalidades no Brasil

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

A sociedade já não dispõe de normas e valores sociais de referência para nortear a conduta individual e a conduta coletiva

A cultura popular brasileira tem um conjunto extenso de desculpas para explicar o aparentemente indesculpável. Há um esboço de linguagem para eximir de responsabilidade os prováveis responsáveis pelo inexplicável.

Em 2017, o ministro das Minas e Energia, em entrevista em Nova York, explicou como fatalidade o pavoroso desastre que atingiu a pequena localidade de Bento Rodrigues, no município de Mariana, em Minas Gerais, em 2015.

Foi quando a lama de uma barragem de dejetos de mineração, que se rompera, a recobriu em poucos minutos. Morreram 19 pessoas, uma área extensa no Vale do Rio Doce foi afetada, com água contaminada, abastecimento de cidades comprometido, solo afetado, grande número de pessoas desabrigadas, o meio ambiente danificado, a vida colocada entre parênteses. A maior tragédia ambiental da história do país.

A palavra fatalidade para explicar o que aconteceu pode ser utilizada no deciframento do acontecido como palavra analisadora-reveladora, que na sociologia de Henri Lefebvre é o atributo de palavras com força metodológica para desvendar acontecimentos da realidade social. Por que “fatalidade”? A barragem foi obra de engenharia, tudo calculável e previsível: a carga de rejeitos, seu peso, sua força, a capacidade da barragem para aguentá-la e, portanto, o limite de seu enchimento. O próprio risco para as 600 e tantas famílias do povoado abaixo da barragem.

Daniela Chiaretti - O Pantanal pede socorro, de novo

Valor Econômico

Destruído pelo fogo há dois anos, o Pantanal agora está ameaçado pela água

A imagem é dilacerante - um corpo carbonizado, de joelhos, no meio das cinzas. Parece um homem, não fosse a longa cauda. Até onde a vista alcança está tudo morto. O fotógrafo Lalo de Almeida, autor de uma série de imagens impressionantes durante e depois dos incêndios de 2020-2021 que queimaram mais de 20% do Pantanal, lembra bem desse dia. O parceiro das reportagens da “Folha de S.Paulo”, jornalista Fabiano Maisonnave, ficara escrevendo na sede da fazenda na Serra do Amolar, Mato Grosso do Sul. Lalo saiu com Rafael Galvão, gerente da fazenda Santa Tereza, “um pantaneiro que só de olhar o aspecto da vegetação sabia onde o fogo tinha passado com mais intensidade”. Foi então que viram a família de bugios.

William Waack - A hora do passado

O Estado de S. Paulo

O presidente não conseguiu ainda criar uma visão de futuro

Lula não parece perceber que se refugiar no passado tem sido prejudicial para ele mesmo. Justo quando tem de enfrentar desgastes de popularidade que aumentam dificuldades políticas – ampliadas pela demissão do amigo do peito de Lula que era o chefe do GSI, que apareceu parecendo acolher invasores do palácio que devia proteger.

Com ou sem esse episódio, o desgaste é típico para qualquer governo em início de mandato, mas, por instinto ou falta de melhores ideias, Lula parece acreditar que sua melhor chance de resistir ao inevitável (diminuição inicial do capital político) é o apego ao passado. E, diga-se de passagem, o general defenestrado vem do longínquo passado, ainda do primeiro mandato.

Maria Hermínia Tavares* - Mais clareza é essencial

Folha de S. Paulo

Pronunciamento sobre Guerra da Ucrânia ofuscou êxitos obtidos na viagem à China

Na sua viagem à China, o presidente Lula fez lembrar a história do cidadão que atravessa a rua para escorregar numa casca de banana na outra calçada.

De fato, os êxitos por ele obtidos com a assinatura de 15 acordos bilaterais acabaram ofuscados por suas declarações desastradas sobre as causas da Guerra da Ucrânia, o papel das potências ocidentais no conflito e ainda por alfinetadas gratuitas nos EUA. Sem falar na pretensão, entre ingênua e desmedida, de contribuir para o término do conflito provocado pela invasão russa do território ucraniano.

Vinicius Torres Freire -Congresso deve mexer no teto de Lula

Folha de S. Paulo

Superávit fiscal é difícil ou incerto com nova regra fiscal do governo

Levou um dia para que digerissem o texto da lei que cria o teto de gastos de Lula, o "arcabouço fiscal". Lido e mastigado, o projeto da nova regra de aumento de despesas provocou um salseiro, piorado pelo fato de o Banco Central dizer que os juros vão cair devagar.

No entanto, dúvidas e críticas grandes e relevantes não são novas, embora o problema exista. As dúvidas novas são confusões ou periféricas. Não, o governo não se desobrigou de apresentar metas fiscais; as exceções de despesa são velhas e sabidas. Etc.

Economistas e povos dos mercados em geral revoltam-se com o fato de que, aprovada a nova lei fiscal, praticamente o governo federal não será obrigado a cumprir uma meta de superávit primário. Isto é, de gastar menos do que arrecada, em certo montante específico. Sem superávit bastante, a dívida pública continuará a crescer. Não dá.

Ruy Castro - Carta a um otário do 8/1

Folha de S. Paulo

Enquanto você vê o sol nascer quadrado, Bolsonaro está solto, serelepe e nem aí para você

Se você participou como estrategista, financiador, agente operacional, terrorista ou simplesmente otário na intentona bolsonarista de 8/1 em Brasília, parabéns. Candidata-se a uma temporada numa colônia de férias do Estado, com três refeições diárias, tempo de sobra para ler e banho de sol uma vez por semana, tudo grátis. E, se for um general ou agente público que se omitiu na proteção dos Três Poderes ou apoiou os acampamentos diante do Q.G. do Exército, talvez possa desfrutar também dos confortos da nossa hotelaria prisional.

Tudo dependerá do STF, órgão que você tanto combateu. Os ministros acataram as denúncias oferecidas pela PGR e estão votando para decidir se o tornam réu, assim como a outros 99 dos seus colegas. Se forem aceitas as denúncias —o que você acha?—, serão abertas ações penais e, a partir daí, o STF o considerará apto para o julgamento final. E não fique mascarado, mas você fez por merecer essa distinção. Duvida?

Catia Seabra - Demissão com cem dias de atraso

Folha de S. Paulo

Lula, de novo, mostra-se condescendente com seus ministros

Ao assumir seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se deparou com cofres e bolsonaristas instalados nas salas do Palácio do Planalto.

Dispostos em gabinetes para guarda das armas de militares que ocupavam cargos de destaque no governo de Jair Bolsonaro (PL), os 48 cofres vêm sendo retirados, um a um. Já os bolsonaristas ainda persistem por lá.

Na Presidência, o Gabinete de Segurança Institucional é apontado como reduto desses remanescentes. Com suas portas sempre fechadas, o GSI acolhe no segundo andar do Planalto até mesmo bolsonaristas recém-desligados de ministérios vizinhos.

Marcelo Godoy - General deve entrar no foco de Congresso e PF

O Estado de S. Paulo

Por que foi ao Planalto? Por que caminhava sem escolta? São perguntas a que G. Dias deve responder

As imagens de agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) deixando o Palácio do Planalto à mercê dos vândalos que o invadiram no 8 de janeiro contrastam com as cenas registradas da reação da Polícia Legislativa, que enfrentou os criminosos para impedir danos maiores ao Congresso. Elas trazem novos indícios que complicam a situação dos militares que então compunham o GSI, em larga medida nomeados na gestão do general Augusto Heleno, bem como a do general Marco Edson Gonçalves Dias, o G. Dias.

Ao pedir exoneração, G. Dias não evita ser chamado para dar explicações à Polícia Federal e ao Congresso sobre sua conduta. Em 2012, ele perdeu o comando da 6.ª Região Militar (Bahia) após ser flagrado confraternizando com manifestantes durante greve da PM. Desta vez, as imagens do general caminhando por volta das 16h30 pelos andares superiores do Planalto mostram um ministro de Estado sem escolta em uma área conflagrada e ocupada por golpistas.

Maria Cristina Fernandes - Um general aparvalhado

Valor Econômico

Vantagem bolsonarista nas redes desafiará governo na CPMI

Às 18h30 do dia 8 de janeiro, o ministro da Comunicação Social, Paulo Pimenta, e o secretário de Defesa do Consumidor do Ministério da Justiça, Wadih Damous, chegaram ao Palácio do Planalto para aquilatar o estrago. Ao passarem pelo Gabinete de Segurança Institucional, viram, pela porta entreaberta, o general Gonçalves Dias sentado. Estava sozinho. A imagem era de um aparvalhado. Questionado sobre a inoperância ante a invasão, não parava de repetir: “Eles vinham de todos os lugares, em 360 graus, não pude fazer nada”. Podia.

No dia anterior, segundo depoimento do ex-comandante militar do Planalto, general Gustavo Dutra de Menezes, à Polícia Federal, Gonçalves Dias havia dispensado o reforço do Batalhão da Guarda Presidencial. Na tarde do dia 8 o general participou de uma reunião no Ministério da Justiça sobre a invasão quando chegou a defender a decretação de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem, prontamente rechaçada pelo presidente, por golpista.

Luiz Carlos Azedo - Invasão do Planalto tem duas narrativas

Correio Braziliense

São chocantes as imagens que mostram o ministro-chefe do GSI, general Gonçalves Dias, no Palácio do Planalto, dialogando com os bolsonaristas que haviam invadido e depredado suas dependências

Tabloide americano, o melhor romance dos EUA de 1996, de James Ellroy, desconstrói o sonho americano ao descrever uma trama política golpista e mafiosa, cujo desfecho foi o assassinato de John Kennedy, em Dallas, no dia 22 de novembro de 1963. No gênero noir, desnuda os bastidores glamourosos da Casa Branca.

Entre os personagens históricos, além do presidente assassinado, que, à época, mantinha um romance tórrido com Marilyn Monroe, estão o magnata Howard Hughes, um paranoico drogado; e Frank Sinatra, traído pela mulher, Ava Gardner. O senador Robert Kennedy investiga a Máfia; o poderoso chefe do FBI, J. Edgard Hoover, investiga o presidente da República; a CIA investiga todo mundo. O inimigo principal dos EUA era Fidel Castro, o líder da Revolução Cubana.

Cinco anos depois, em 6 Mil em Espécie, Ellroy retoma o fio da história, a partir do dia do assassinato de Kennedy em Dallas e descreve uma conspiração que vai do crime organizado aos políticos de direita. Wayne Junior, um tira de Las Vegas, chega a Dallas no dia do assassinato de Kennedy, com US$ 6 mil em espécie no bolso, com a função de matar um cafetão negro.

Míriam Leitão - Avanço fiscal e o sinal amarelo

O Globo

O problema que pesou no mercado foi, de um lado, a avaliação apressada de alguns pontos das novas regras e, de outro, a sensação de que revogar subsídios será uma tarefa difícil

No princípio, não havia nada, exceto o aviso do presidente Lula de que eliminaria o teto de gastos. Neste abril, quarto mês desde a posse, o governo tem uma proposta de disciplinar o crescimento dos gastos sempre abaixo da alta das receitas tramitando no Congresso, com perspectiva de aprovação rápida. Entre um ponto e outro, houve muita costura política interna e externa do ministro Fernando Haddad e de toda a equipe econômica. E a elaboração de uma proposta técnica que não tem algumas das irracionalidades da antiga regra fiscal e tem várias qualidades.

O teto de gastos, como disse a ministra Simone Tebet, “ruiu” e “caiu em cima da nossa casa”. Foi muitas vezes desrespeitado pelo governo anterior. Uma das críticas no mercado financeiro é de que a nova regra de gastos eliminou o contingenciamento e a punição para o governante que descumprir os limites, que há na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Malu Gaspar - Um Nobel da Paz Shopee

O Globo

O que a crise provocada pelo plano do governo de taxar as compras das plataformas internacionais de comércio on-line tem a ver com a polêmica diplomática provocada pelas declarações do presidente Lula sobre a guerra na Ucrânia? Aparentemente, nada. Mas, para quem está no dia a dia do Palácio do Planalto, muita coisa.

Primeiro, o caso dos sites de produtos chineses, que estão faturando tanto ou mais no Brasil do que as grandes varejistas locais. O foco em bugigangas e roupas bem baratas já fez surgir a expressão “da Shopee” para designar aquilo que é popular, mas de qualidade duvidosa.

A maior parte das vendas desses sites não atinge o valor-limite de US$ 50 para transações de importação sem impostos. A isenção só se aplica a pessoas físicas, mas as empresas burlam a regra e não pagam os tributos.

Merval Pereira - Questão democrática

O Globo

Ao revisitar antigos erros, como o apoio a ditaduras da América Latina, Lula demonstra que seu apreço à democracia não é prioritário, se é que existe realmente

O presidente Lula foi eleito com apoio decisivo de um tipo de cidadão, aquele preocupado em proteger a democracia de uma possível vitória de Bolsonaro na eleição presidencial. A campanha de Lula baseou-se na necessidade de formar uma frente ampla democrática para impedir a continuação de um governo que já deixara clara sua intenção de dar um golpe, que quase se concretizou no dia 8 de janeiro e até hoje impacta nossa sociedade.

Ontem mesmo, o general Gonçalves Dias, que já trabalhara com Lula nos governos anteriores e desfrutava sua confiança a ponto de ser o chefe da segurança pessoal, teve de pedir demissão da chefia do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) diante dos vídeos que demonstravam que ele estivera presente nos atos de vandalismo no Palácio do Planalto — não para impedi-los, ou prender seus autores, mas dando cobertura tácita a eles.

J. B. Pontes* - Como aprimorar os nossos parlamentos?

É indiscutível que os parlamentos são fundamentais para a democracia, atuando no controle do poder político, na definição das diretrizes e metas a serem cumpridas; na supervisão das ações governamentais; e na elaboração e aperfeiçoamento das leis. Por isso, são instituições essenciais para garantir a concretização pelo Estado dos direitos humanos, econômicos e sociais.

Mas essa nobre missão dos parlamentos está muito distante de ser realizada no Brasil. Em verdade, temos hoje o pior Congresso da nossa história. Se nada for feito, ele continuará a piorar a cada legislatura.

É inegável que a maioria dos atuais parlamentares não reúne as condições éticas, morais e intelectuais para o exercício de tão importante cargo. A prova disso está no nível vergonhoso dos debates que estão ocorrendo, principalmente na Câmara dos Deputados. As discussões ocorrem num clima de campanha quase obscena, com enfoque na degradação da imagem dos adversários, carregadas de palavrões chulos e quase sempre terminam em tentativas de agressões físicas. O atual parlamento virou motivo de chacotas, um verdadeiro circo de horrores.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Governo tem sido leniente com as invasões do MST

O Globo

Movimento usa ligação com PT para cavar espaço na máquina pública e sabotar aproximação do agronegócio

O governo Luiz Inácio Lula da Silva tem tratado com leniência a onda de invasões de propriedades privadas e até de instituições públicas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aliado histórico dos petistas. Não só pela raridade de críticas ou condenações aos crimes cometidos, mas também pelo indisfarçável afago aos militantes. Enquanto os invasores promoviam no Brasil uma sucessão de invasões sob a bandeira do “Abril Vermelho”, Lula acomodava em sua comitiva à China e aos Emirados Árabes Unidos o líder do MST, João Pedro Stédile.

É verdade que, diante da escalada de invasões, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, repudiou os atos, e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, condicionou a manutenção do diálogo à desocupação das propriedades. Mas as reações foram tímidas — e tardias. Antes delas, o governo cedeu à pressão do movimento.

Poesia | Clarice Lispector - Das vantagens de ser bobo

 

Música | Leci Brandão - Jeito de amar