quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A fala de Tarso

Roberto Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Se a democracia é a questão central da construção dos novos institutos da globalização, inquieta a todos nós o tom do ministro

QUE OS velhos bolcheviques se intimidassem diante de Stálin é compreensível. Aqueles do círculo stalinista mais próximo e não tão próximo assim corriam risco de morte se dissessem a palavra errada, se dessem um passo em falso ou se incorressem num suposto "desvio". Um risco nada metafórico, como se sabe.

Diferente é o caso do ministro Tarso Genro em relação a Lula. Não corre risco algum, salvo o de perder o emprego. Por isso, é espantoso que atribua ao presidente o monopólio da fala "alternativa" na atual crise do sistema econômico e financeiro global. Disse o ministro que "nós [a esquerda em geral] estamos incrivelmente quietos.

Só Lula fala. Sejamos solidários. Falemos junto com Lula" ("Fala, D"Alema", "Tendências/Debates", 4/1). O ministro da Justiça escreveu isso como se não houvesse uma enorme movimentação política das esquerdas na cena mundial; e como se o próprio D"Alema também não fizesse parte de um esforço de reinvenção da esquerda italiana, corporificado pelo Partido Democrático, o herdeiro mais importante do velho PCI.

Mas, para o ministro, ninguém fala.

Ninguém busca perceber o "novo" ou a ele dar voz. Só Lula. Além da crise, começamos mal 2009.

Apesar de tudo, e sabujice à parte, é bom ver o ministro empenhado na defesa de um "novo republicanismo" e até mesmo na incorporação dos temas do liberalismo político ao novo horizonte utópico que propõe.

E empenhado também na proclamação dos direitos humanos, que devem ter uma aplicação efetivamente universal, sem nenhum tipo de discriminação. Aplicam-se, por exemplo, a casos "menores", como o de atletas que pretendam eventualmente se valer de competições internacionais para escapar dos seus países de origem, nos quais a liberdade de ir e vir é fortemente cerceada.

Para essa cultura de direitos, se for possível escolher para ela uma data simbólica, só poderíamos escolher a promulgação da Constituição de 1988, marco no qual alguns poucos anos depois se completaria a nossa democracia política, com a ascensão ao poder do partido ao qual pertence o ministro. Tudo dentro das regras do jogo, que também permitem uma forte intervenção pública nos rumos da sociedade e da economia.

O governo liderado pelo PT fez algumas dessas intervenções, e isso deixa o ministro compreensivelmente feliz, mas deixou de fazer inúmeras outras no controle dos juros obscenos, que sangram a capacidade de investimentos públicos e privados, no disciplinamento forte dos mercados por meio das agências reguladoras, no comportamento nada republicano do governo e do PT, envolvidos em episódios de corrupção que passaram à nossa história política com o nome de mensalão, no controle quase absoluto dos movimentos sociais pelo Estado, e na ocupação e no aparelhamento, por meio de milhares de cargos comissionados, da máquina federal.

Tudo isso não é desvio acidental de rumo, tem raízes mais profundas: um desprezo mal disfarçado pela democracia e um desrespeito pelas instituições. Nesse sentido, seria bom que o ministro explicasse um fato absolutamente decisivo: a atitude dúbia do seu partido quando da aprovação da Constituição de 88. São duas décadas -um tempo histórico razoável em que foi revelada uma cultura política antidemocrática e não republicana.

Nas palavras do Lula de então (que, de resto, nunca veio a público para se explicar cabal e formalmente; nem ele nem seu partido!), o texto constitucional era pouco mais do que imprestável e o PT deveria votar contrariamente a ele. E votou, assinando-o com muita tibieza.

Naquele momento decisivo, "Nosso Guia" só faltou dizer que estávamos diante de uma "democracia burguesa", como nos tempos daquele outro guia genial dos povos. E, por sua vez, a hipótese de que se tratava de alguma das famosas "bravatas" é ainda mais penosa.

Simplesmente não se pode brincar de "radical" quando se trata de refundar um moderno Estado democrático de Direito após um duríssimo período de eclipse das liberdades.

Se a democracia é a questão central da construção dos novos institutos da globalização -e sem dúvida o é-, inquieta a todos nós o tom do artigo do ministro. Ao mesmo tempo, o trágico déficit teórico e político das esquerdas no seu conjunto, tantas vezes envolvidas com projetos autoritários de mudança social, inclusive no presente momento e muito especialmente na América Latina, e para além das bravatas tão ao gosto do chefe, há bons temas que mereceriam desenvolvimento teórico e comportamento político coerente (o socialismo como ideia reguladora em sociedades pluriclassistas, por exemplo).

Seria interessante ver o PT e seus intelectuais como estimuladores de um campo teórico que tivesse como divisa a incorporação, sem ambiguidade, dos valores da democracia política como condição irrenunciável para ir muito além do status quo -e, dessa vez, sem guias geniais, sem ditaduras de partido único e sem caudilhos popularescos.

ROBERTO JOÃO PEREIRA FREIRE, 66, advogado, é presidente nacional do PPS (Partido Popular Socialista). Foi deputado federal e senador da República pelo PPS-PE.

Por que Lula não lê jornais

EDITORIAL
O ESTADO DE S. PAULO

As opiniões que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva externa sobre a imprensa brasileira são de há muito conhecidas. Ele próprio diz que elas não mudaram desde que chegou ao Planalto - o que faz lembrar a anedota do jornalista irritado com um colega: “Não me venha com fatos novos, que já tenho as minhas ideias formadas.” E, decerto por tê-las e por querer poupá-las do contágio com eventuais novidades no comportamento da mídia capazes de pôr em perigo crenças assim viscerais, Lula afirma que se dispensa de ler jornais, revistas, sites e blogs. “Porque eu tenho problema de azia”, alegou, tentando exercitar o sarcasmo, numa entrevista publicada na edição deste mês da revista Piauí. (A crer nas suas palavras, ele tampouco assiste a telejornais, nem sequer aos da TV Brasil, nesse caso “por falta de tempo”.)

A imprensa lhe faz mal ao fígado, queixou-se. A mesma imprensa à qual creditou, como já fizera, a sua ascensão à Presidência da República. Foi “produto direto da liberdade de imprensa”, repetiu, alheio à incoerência entre essa constatação irrefutável e a sua visão gástrica do jornalismo. Paradoxos, aliás, não faltam quando Lula é instado a falar do assunto - sintoma, quem sabe, de que não o digere com facilidade. O presidente que se guarda de acessar as novas mídias porque também essas, a exemplo das tradicionais, lhe causariam desconforto estomacal, não hesita em saudar a diversidade de comentários disponível em “300 blogs”. “Hoje a informação é mais plural”, acredita. “Isso democratiza a imprensa, aumenta a capacidade do cidadão de interpretar o que lê.”

Lula, ao que diz, não só não lê, não ouve e não vê o noticiário, como recomenda “a qualquer presidente” que se afaste da imprensa - e ainda dos políticos - nos fins de semana. A mídia, insiste, não lhe faz falta. “Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia”, argumenta. “Não há hipótese de eu estar desinformado.” Só há. “O tanto de pessoas” que conseguem escalar o gabinete presidencial evidentemente não pediram audiência para criticar o seu titular; têm, todas, interesses a defender, o que aconselha os seus porta-vozes a guardar para si as verdades inconvenientes de que tenham conhecimento sobre o desempenho do anfitrião. Além disso, Lula se informa nas sessões matinais de meia hora com o ministro da Comunicação do Governo, Franklin Martins, que o põe a par do noticiário do dia.

“Quando sai alguma coisa importante, a Clara (a assessora especial Clara Ant) e o Franklin me trazem o artigo ou mesmo o vídeo de uma reportagem de televisão”, conta. Lula talvez não saiba, mas certa vez o presidente americano, George W. Bush, deu uma explicação semelhante para o fato de só bater os olhos nas manchetes - “eu raramente leio as matérias”, admitiu, também numa entrevista. Ele se basta com os briefings diários do seu chefe de gabinete e do assessor de segurança nacional, “que provavelmente (sic) leram eles próprios as notícias”. A diferença é que Bush, embora observando que muitas vezes as opiniões se misturam às notícias, não deixou de manifestar o seu “grande respeito” pela imprensa. “Nossa sociedade é uma boa, sólida democracia”, disse, “porque temos uma boa, sólida mídia.”

Eis a questão de fundo, mais ainda do que saber como o presidente da República se informa ou se é verdade que o jornalismo brasileiro lhe dá azia a ponto de ele manter uma distância profilática de jornais, revistas, sites e blogs. Líderes nacionais que conhecem a função não apenas informativa, mas, principalmente instrutiva da imprensa escrita não dispensam a sua leitura, como faz Lula - que, aliás, não lê nada. Quaisquer que sejam as suas mágoas em relação aos órgãos de comunicação de seus países e qualquer que seja a procedência das suas críticas ao modo como eles os tratam - e está para nascer o governante que não se sinta injustiçado pela mídia -, têm a devida noção da importância de sua contribuição, para a preservação e o aperfeiçoamento da democracia.

Desde o discurso de posse de 2003, a toda hora Lula se refere à sua escassa escolaridade em tom de quem se vangloria da facilidade com que aprende as coisas “de ouvido”. Na verdade, não é o “problema da azia” que o afasta da leitura dos jornais, É, isso sim, a aversão natural que ele tem a qualquer espécie de leitura.

Serra e PSDB iniciam montagem de palanques regionais para 2010

Raymundo Costa, de Brasília
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Assentada a poeira da eleição municipal, o PSDB engatou a primeira marcha da sucessão presidencial e já articula a montagem de palanques regionais fortes para a eleição de 2010, além de procurar consolidar a aliança com o Democratas, vitoriosa em São Paulo mas que enfrenta problemas em outros Estados. Dos seus dois principais pré-candidatos, o governador de São Paulo, José Serra, é o mais envolvido na maquinação de palanques - o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, aposta numa prévia partidária e pretende viajar aos Estados, a partir de março, para discutir um programa de governo do PSDB.

A decisão de Aécio deixou otimista a direção do PSDB. A cúpula tucana avalia que, ao entrar no jogo pela indicação do partido, Aécio sinaliza que não pretende trocar o PSDB por outra legenda, como o PMDB ou o PSB, na hipótese de perder para Serra a candidatura tucana. Nesse caso, ele se conformaria em ser candidato a uma das duas vagas ao Senado por Minas Gerais. Mas, no governo há outra expectativa em relação ao governador mineiro. Como a direção do PSDB pretende evitar a realização de prévias, isso daria o pretexto para o governador trocar de camisa.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já definiu que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) será a candidata do PT à sucessão. Só não será Dilma se ela se mostrar inteiramente inviável eleitoralmente, coisa que Lula não acredita: quando ela se tornar a "candidata do presidente", a expectativa no governo é que a ministra rapidamente ganhe pontos nas pesquisas de opinião. Mas, se os fatos não ocorrerem como planejados, uma das alternativas hoje discutidas é a indicação de um nome de fora do PT. Entre os citados estão Ciro Gomes (PSB) e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), mas também o governador Aécio Neves, que iria para o PMDB e concorreria em aliança com o PSB.

Desde antes da eleição municipal Lula faz sondagens com vistas à construção de palanques regionais fortes em 2010, algo em que só agora o PSDB e Serra, especialmente, passaram a investir de maneira mais sistemática. Paralelamente, os tucanos também trabalham para consolidar a bem sucedida aliança com o Democratas, em São Paulo, estendendo-a para todo o país. No Paraná, por exemplo, o DEM vai compor o secretariado de Beto Richa, reeleito prefeito de Curitiba. No Rio Grande do Sul o vice-governador Paulo Feijó, que faz oposição à governadora Yeda Crusius, foi isolado pelo próprio DEM.

A situação que melhor retrata a atual movimentação do PSDB é a da Bahia, pois ela contém todos os ingredientes presentes nas discussões para a armação dos palanques em outros Estados. Os tucanos articulam a filiação ao partido do ex-governador Paulo Souto (DEM). O movimento conta com a concordância de líderes do Democratas local, como o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, mas ainda esbarra na resistência do presidente nacional do Democratas, Rodrigo Maia, que vê em Souto uma oportunidade de o partido recuperar o governo baiano, durante anos controlado pelo carlismo.

Souto iria para o PSDB para concorrer ao governo estadual e assegurar um palanque forte à candidatura José Serra na Bahia, Estado governado pelo PT e no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bate recordes de popularidade. Jutahy Júnior, o principal líder tucano local, também concorda com a solução, principalmente se ela efetivamente servir de suporte a Serra, que atualmente lidera as pesquisas para presidente na Bahia.

Mas os tucanos já discutem uma outra possibilidade para tornar o palanque da oposição no quarto maior colégio eleitoral do país ainda mais atrativo: uma aliança com o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), que é do PMDB, para o governo estadual, o DEM para a vice e Paulo Souto para o Senado. Jutahy será ministro na hipótese de Serra ser presidente e também caso Aécio é que seja o eleito (pelo PSDB, evidentemente).

Uma preocupação é o Rio Grande do Sul, mas os tucanos passaram a contar com a recuperação da governadora Yeda Crusius, que diz ter saneado as contas do Estado. Mas não afastam a possibilidade de apoiar, para o governo, o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça - Yeda concorreria ao Senado, se a atual crise econômica atrapalhar a recuperação do governo gaúcho: o PMDB é aliado de Yeda.

Em São Paulo, a aliança com o DEM é sólida. A maior dificuldade é a disputa interna do PSDB. Os tucanos não têm um nome forte para a sucessão de Serra. O grupo de Geraldo Alckmin reivindica a indicação, se ele ficar no partido. Mas Alckmin está internamente enfraquecido desde que disputou a prefeitura e não se classificou para o segundo turno. Em Minas, Aécio, mesmo não sendo o candidato, tem condições de montar um amplo palanque para o PSDB, como teve - e não fez - em 2002 e 2006.

Muito além do panfleto

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Não é um debate na acepção da palavra. Nem uma discussão. Para o primeiro faltam as ideias e, para a segunda, há carência de contraditório. Chamemos, então, de palco o ambiente em que evoluem os candidatos às presidências da Câmara e do Senado.

É um cenário, com paredes falsas onde nada tem consistência nem conteúdo. O principal candidato ao comando da Câmara, deputado Michel Temer, informa que tem “propostas sérias de reestruturação da Casa”.

Quais? Ontem deu notícia de uma delas: “Vou acabar com essa história de baixo clero e alto clero.” Igualdade na fraternidade, pois.

O principal candidato ao comando do Senado, senador Tião Viana, divulgou uma carta de duas páginas e meia em que uma única vez diz direta e objetivamente a palavra “proponho”. O quê?

“Construirmos o Legislativo do tempo presente.” Como?

Mediante a adoção de uma “agenda ousadamente positiva”. Com qual finalidade?

“Sobrepor-se à agenda da crise e impedir que o Parlamento fique a reboque dos acontecimentos.” Uma locomotiva em ritmo de Brasil grande, presumidamente.

E assim, em tom de panfletagem eleitoral, se desenrolam as preliminares das eleições de fevereiro. Concepções genéricas sobre a afirmação da “altivez” do Legislativo, chavões sobre a “judicialização” da política não atendem “as crescentes demandas da sociedade em torno de um Congresso Nacional afirmativo e propositivo”, como o senador Viana considera necessário em sua carta aos eleitores da corporação.

Atendem, quando muito, ao que demanda a performance dos candidatos na batalha do voto a voto, a fim de se compor o cenário com algo mais que os acertos interpartidários, estes sim as reais referências na troca de comando do Parlamento.

A preocupação dos personagens é a de arregimentar apoios ao custo que for. Inclusive o da compostura. Como faz o Executivo em relação ao Legislativo, que incorpora o pior e não presta atenção no melhor dos outros dois Poderes. Ao contrário, ataca o ativismo do Judiciário no lugar de buscar ser tão ou mais ativo.

O presidente da República tem 37 ministérios e milhares de cargos de confiança à disposição para lotear na formação de sua maioria parlamentar. Aos presidentes da Câmara e do Senado cabem duas dezenas de cargos das Mesas Diretoras para entregar aos partidos ali representados e, assim, tentar obter a maioria dos votos dos colegas.

Antigamente a coisa não era assim tão escancarada. Hoje, no caso da Câmara principalmente, faz-se a divisão de maneira desabrida, sem pejo: é a primeira secretaria para um partido, a segunda para outro, as suplências para os menos cotados, as vice-presidências para os mais importantes e está feita a receita.

Se resulta em boa coisa, não interessa. Exatamente como a lógica do Executivo: arma-se a maioria, mas não necessariamente se faz um bom uso dela. Se Michel Temer assegura a vitória com essa prática de loteamento, não é o que está em questão. Pode até perder como vários outros candidatos “do poder” já perderam.

Lamentável é o processo. Este por si só já consolida a degradação do Poder Legislativo e invalida quaisquer manifestações contra alegadas injustiças de avaliação cometidas contra a instituição.

Não existe maior prova da degenerescência que o ambiente na antessala da escolha dos novos presidentes das duas Casas do Congresso Nacional.

Faz algum sentido um candidato a presidir a Câmara dos Deputados abraçar a causa da extinção do “baixo clero e do alto clero?” Nenhum, a não ser como exercício de demagogia. E autorreferida, como se o Congresso fosse um grêmio recreativo e não a entidade de representação popular com todas as responsabilidades públicas inerentes a este papel.

Viana, Temer, Aldo Rebelo, Garibaldi Alves e todo o plantel de candidatos dispõem de uma gama de assuntos para ser abordados que passam pelo aprimoramento do processo legislativo e vão muito além do panfleto.

Isonomia

Se não é eticamente adequado que um presidente de partido acumule essa função com a chefia de um ministério - conforme indicam a regras da Comissão de Ética Pública da Presidência da República -, não é aconselhável também que um político presida ao mesmo tempo um partido e a Câmara dos Deputados.

O conceito de conflito de interesses (mesmo presumido) é o mesmo. Daí o plano inicial, já abandonado, de o presidente do PMDB, Michel Temer, se licenciar do posto caso venha a se eleger presidente da Câmara.

Temer é um jurista e desses bastante referidos no formalismo, várias vezes cotado para o cargo de ministro da Justiça. Por essas e muitas outras mais, certamente saberia muito bem ao paladar geral, e ao decoro legislativo em particular, a retomada da ideia original do afastamento.

Mais não seja como medida preventiva a eventuais questionamentos de conduta.

Do Gueto de Varsóvia ao Gueto de Gaza

Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O Gueto de Varsóvia foi o maior enclave judaico estabelecido pelos alemães na Polônia, durante a ocupação nazista. Chegou a atingir a marca de 380 mil habitantes, ou 30% da população de Varsóvia, e ocupava 2,4% de seu território, separado da cidade por muros. A partir da construção do muro, em novembro de 1940, e pelo ano e meio seguinte, os judeus poloneses das cidades e vilas menores eram levados para lá - depósito dos judeus que iriam para o campo de extermínio de Treblinka e que podiam ter a sorte de escapar das câmaras de gás se morressem antes de tifo ou fome, ou simplesmente fossem atingidos nas ruas, como animais, caça dos soldados nazistas. Lá dentro, três grupos, no entanto, resistiram com pistolas, bombas caseiras e coquetéis molotov - um deles até com umas armas um pouco melhores, fornecidas pela resistência polonesa que as contrabandeava para dentro dos muros - dizem que até por túneis.

Depois de seis meses de resistência, os judeus poloneses do gueto foram transferidos maciçamente para Treblinka ou simplesmente assassinados em Varsóvia.

Ao longo da história, vários guetos confinaram judeus. Existiram guetos judaicos na Alemanha e na Península Ibérica no Século XIII; o Gueto de Veneza é do Século XIV. Dependendo da circunstância histórica, eram mais ricos, ou mais pobres, mas todos eles traziam o sentido metafórico do isolamento, da exclusão, do preconceito.

A primeira vez que ouvi a expressão "Gueto de Gaza" foi na minha casa. É uma expressão forte - e invertida. Nesse caso, a população judaica está fora do gueto, não dentro. Quem me chamou atenção para essa terrível inversão foi o meu companheiro, descendente de judeus poloneses. De nossa vida em comum, ostentamos, com orgulho, filhos brasileiros de descendência 50% árabe, 50% judaica, e sempre cultivamos a convicção de que seríamos - com outros tantos casais que fizeram a mesma "mistura" - os precursores de um mundo moderno, de paz, laico, em que a religião fosse apenas uma decisão de foro íntimo que não agredisse vizinhos ou causasse guerras.


Tenho acompanhado a angústia de meu companheiro nos últimos dias, no seu frenético procurar por imagens apertando botões da televisão a cabo, doendo por dentro pelas mortes de crianças palestinas, mulheres palestinas, centenas de anônimos palestinos, e tentando entender o que aconteceu com o inconsciente coletivo judaico daquele Israel do qual se sentiu parte quando, aos 18 anos, foi trabalhar num kibutz. É o Estado militarizado, explica: uma cultura entranhada da morte, uma dessensibilização para com a vida do outro, uma radicalização. Como deve ser difícil aos próprios israelenses que não concordam com a guerra entender isso: como a vida do outro pode ter se tornado acessória, como a humanidade pode ter se desumanizado. Lembro Primo Levi, nos seus pequenos e pesados livros em que tentou entender, de sua saída de um campo de concentração até a sua morte, a desumanização imposta pela guerra. "E isso é um homem?", é o título de seu melhor livro, em que descreve um cru percurso de volta ao lar, depois da guerra, quando a sobrevivência tornou cada um daqueles que erravam pelas estradas animais. Isso não é um homem, diria, se aquela pesada literatura necessitasse de uma resposta.

Li no site da "Carta Maior" artigo de Shulamit Aloni, que foi ministra do governo Itzhak Rabin, publicado originalmente no "Israel News", que é um chute no estômago. Escreve ela, em "Sangue em nossas mãos": " O Hamas exigiu a libertação de prisioneiros, e nós argumentamos que muitos deles têm sangue em suas mãos; nós somos muito mais capazes do que eles, mesmo que essa capacidade chegue a matar e leve a assassinatos. Nas primeiras 24 horas da operação matamos mais de 300 pessoas, inclusive duas meninas inocentes, para não mencionar as vítimas que matamos entre essa operação e outras anteriores. Por que nosso tão bem organizado exército, com sua excelente capacidade de inteligência, recusou a libertação de prisioneiros palestinos, quando poderíamos mandá-los de volta para casa e mais tarde assassiná-los no calor da batalha?


Afinal de contas, já estamos sendo usados para assassinatos por ar, mar, em abrigos ou em bairros populosos. Assassinato - isto é, matar e assassinar. Além do mais, as pessoas que jogam nossas bombas não ficam manchadas com sangue. Nosso sistema é simples: não há necessidade de evidência para um julgamento. Uma vez que decidamos que alguém é alvo, jogamos uma bomba e ele se foi. Recentemente, o exército adquiriu permissão para matar civis que estejam próximos de alguém escolhido com alvo; isso foi publicado na imprensa há umas duas semanas, próximo à foto de uma sorridente comandante do exército".

Li também na "Carta Maior" um artigo do secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina, Mustapha Barghouthi, em que a noção de gueto está lá também, cravado na pele: "Quem é mais anti-semita, aqueles que viciaram Israel ano após ano durante sessenta anos, até desfigurá-lo ao ponto de fazê-lo o país mais perigoso do mundo para os judeus, ou aqueles que os advertem de que o Muro marca um gueto de dois lados? É anti-semita reler Hannah Arendt hoje, em que nós, os palestinos, somos a escória da terra; é anti-semita voltar a iluminar essas páginas sobre o poder e a violência?"

A distância da guerra nos dá uma chance de não nos desumanizarmos. Mas a indiferença também desumaniza.

Errei, de novo

Estou incorrendo num péssimo hábito de cometer erros com nomes de autoridades. Já fiz isso antes, tornei a fazê-lo. Ministro Gilmar Mendes, desculpe-me. Tratei-o por "Gilberto Mendes" na primeira linha de minha coluna de 18 de dezembro. Embora eu tenha corretamente me referido ao senhor como Gilmar Mendes no restante da coluna, ainda assim considero que o erro na primeira linha é quase imperdoável. Mas espero que, mesmo assim, usando de sua generosidade, o senhor me perdoe.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Um instigante laboratório político

Cândido Grzybowski
DEU EM O GLOBO

Após quatro anos, o Brasil volta a sediar um encontro central do Fórum Social Mundial, desta vez em Belém (PA). Em sua nona edição, o Fórum segue para a Região Amazônica, compartida por nove países da América Latina, povos e culturas muito diversos - território em disputa, tanto no acesso e uso de seus recursos naturais como de rumos e sentidos; um dos pulmões do Planeta. Temos muito a dizer sobre a Amazônia, que, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro, transforma-se, em realidade, em um instigante laboratório político, ao abrigar o maior evento da sociedade civil organizada.

Em um momento em que mergulhamos em múltiplas crises (entre elas, a financeira), é bom olhar para onde ainda existe esperança: a Amazônia, a nossa Região. Como participante ativo do Fórum Social desde sua primeira edição em Porto Alegre, em 2001, penso que o encontro deste ano convida a nos abrirmos à problemática amazônica e a nos inspirarmos nos diferentes povos e seus territórios, como guardiões que são de um ecossistema fundamental para eles mesmos e para a Humanidade. E nos coloca como desafio, sobretudo, ousar pensar em alternativas ao desenvolvimento, confundido, tantas vezes, com taxas de crescimento a qualquer custo.

Esta é uma tarefa de criação teórica e cultural, mas sobretudo política. Repolitizar a economia e a própria vida, com uma perspectiva democrática radical, de participação, justiça social e ambiental, é o caminho possível para começar a formular um pensamento gerador de alternativas estratégicas. No Fórum Social Mundial aprendemos, entretanto, que não se trata de formular um pensamento único como alternativa. A reordenação do poder e das economias, para que sirvam aos seres humanos, garantido todos os direitos a todos, sem discriminações, precisa estar pautada pela diversidade, de acordo com necessidades e possibilidades dos territórios de cada povo.

A nova arquitetura do poder político é, por si só, a tarefa mais premente: estamos diante da necessidade de uma espécie de refundação em novas bases. Como? Sem dúvida, de ponta-cabeça, do local ao mundial, partindo do princípio que é necessário "democratizar a democracia e a economia". É fundamental valorizar a soberania cidadã, identificando, nesse movimento, o que precisa ser gerido de forma subsidiária por um poder democrático mundial, tendo como base um multilateralismo ativo e solidário, com busca de consensos ao invés de imposição pela força.

O Fórum Social, como espaço aberto, propicia e estimula exatamente esse tipo de atitude, de ousar e dispor-se a estabelecer o diálogo franco, entre as múltiplas organizações da sociedade civil, mas também chefes de Estado e organismos multilaterais. Por tudo isso, o Fórum na Amazônia, neste momento da História mundial, é bem-vindo e inspirador.

CÂNDIDO GRZYBOWSKI é sociólogo e diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Consenso necessário

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, está teoricamente na posição idealizada por qualquer governante em início de mandato: tem autorização da sociedade americana, e a torcida do mundo, para gastar tanto quanto for preciso para recolocar a economia dos Estados Unidos nos trilhos novamente. Quando ele diz que seu programa de recuperação econômica estará no topo das estimativas, mas não será tão grande quanto muitos economistas sugerem, para não aumentar ainda mais o déficit público, está indicando que o pacote será de no máximo US$800 bilhões, não chegando a US$1 trilhão.

Não foi por outra razão que Obama chamou a atenção para o fato de que o déficit público chegará a US$1 trilhão este ano, quando as previsões mais pessimistas durante a campanha eleitoral calculavam a metade disso. Um déficit público de US$490 bilhões era o número com que trabalhava o futuro diretor de Orçamento do futuro governo, Peter Orzag, considerado um técnico experiente e rigoroso com as contas públicas.

Há, no entanto, a previsão de que o déficit pode ser maior ainda, atingindo US$1,3 trilhão, ou 10% do PIB depois do pacote do novo governo.

Até o momento, as previsões do setor do Congresso que analisa o orçamento são as de que o déficit público já é proporcionalmente o maior desde a Segunda Guerra Mundial, de cerca de 8,8% do PIB.

A dívida externa americana, que chegou a US$10 trilhões antes da crise financeira iniciada no meio de setembro, está a ponto de superar 100% do PIB com os sucessivos pacotes de liquidez já aprovados.

Segundo o CNN Money, o dinheiro aprovado no conjunto pelo Congresso, pelo Departamento do Tesouro e pelo Banco Central americano (Fed) soma a espantosa cifra de US$7,2 trilhões desde o começo da crise financeira.

Com o pacote da nova administração, o total de socorro pode chegar a US$8 trilhões.

Os diversos programas de ajuda atingem vários setores da economia: US$29 bilhões para o Bear Stearns, US$345 bilhões para o Citigroup, US$600 bilhões que o Banco Central americano colocou para garantir os depósitos de poupança nos bancos.

Além dos US$200 bilhões do governo para assumir os gigantes semiestatais do sistema hipotecário no início de setembro, Fannie Mãe e Freddie Mac, o Departamento do Tesouro e o Banco Central uniram esforços para colocar na AIG de seguros US$152,5 bilhões, mais US$325 bilhões no Citigroup e US$23,4 bilhões na indústria automobilística.

O Tesouro também aprovou no Congresso um plano de US$700 bilhões. Além do programa de garantias aos depósitos de poupança, houve o pacote de US$1,4 trilhão para o mercado de commercial paper; US$200 bilhões para um programa de empréstimos ao consumidor; outro de US$500 bilhões de hipotecas.

O aumento do déficit público e da dívida externa leva a que alguns analistas considerem que, a longo prazo, pode estar chegando o momento em que o dólar não será mais a única moeda de reserva do mundo, acontecendo o mesmo fenômeno que atingiu a libra inglesa.

Segundo o historiador Niall Ferguson, as grandes dívidas que a Inglaterra fez para financiar suas guerras pelo mundo, e a desaceleração do crescimento da economia nas décadas do pós-guerra, foram as razões para a mudança.

O processo da transição da hegemonia da Inglaterra para os Estados Unidos, porém, levou décadas, e o dólar continuou disputando o espaço com a libra por quase 60 anos.
E, no momento, não há nenhuma moeda que possa se contrapor ao dólar em termos internacionais, inclusive porque a Europa está em uma situação econômica tão difícil ou pior que os Estados Unidos, o que enfraquece o euro em relação ao dólar.

Apesar de ter sido o detonador da maior crise financeira das últimas sete décadas, os Estados Unidos continuam atraindo os investidores, e não há sinais de que a procura pelo bônus do governo americano, mesmo com o juros chegando a zero, esteja se enfraquecendo, o que dá um fôlego para o governo Obama.

Mas, como as expectativas que ele está gerando desde que foi eleito são muito grandes, e ele sabe que não poderá preenchê-las integralmente, Obama está fazendo um movimento político que pode atrasar a aprovação do seu plano, mas pode dar-lhe o apoio consensual de que precisa para levar adiante os primeiros dois anos de seu governo sem uma oposição ferrenha por parte dos republicanos.

Mesmo com 59 das 100 cadeiras do Senado de posse dos democratas, o que praticamente garante a aprovação de qualquer futuro plano, Obama está decidido a obter o apoio de pelo menos 80% do Senado, o que significa dizer que quer o apoio de pelo menos 20 senadores republicanos.

Essa busca de um consenso político reflete não apenas a disposição de fazer um governo suprapartidário, ou pelo menos bi-partidário, mas o reconhecimento de que a dívida que assumirá nos próximos anos será impagável se as forças políticas não se sentirem responsáveis conjuntamente pelo plano de soerguimento da economia americana.

Barack Obama: os desafios

Kenneth Maxwell
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BARACK OBAMA será um tipo diferente de presidente nos Estados Unidos. Ele é produto de origens multiculturais e suas raízes políticas também são multiculturais. Chicago é a base de sua carreira política, mas suas origens são mais amplas. Ele foi criado no Havaí. Seu pai era um médico queniano que se divorciou da mãe de Obama quando o menino tinha dois anos. A mãe do presidente eleito era o protótipo da mulher dos anos 60, obstinada e independente. Obama foi criado por seus avós, e durante quase dez anos frequentou a exclusiva Punahou School, na época quase inteiramente branca.

Ele fez faculdade na Califórnia e também estudou em Nova York antes de chegar a Harvard, onde se tornou presidente da "Law Review". Depois, se assentou no South Side de Chicago, onde fortaleceu seus elos com a comunidade negra dos Estados Unidos. Casou-se com Michelle, uma advogada negra, e tem duas filhas. Foi na política de Illinois que ele fez carreira, com trabalhos comunitários em nível local e mais tarde como membro do Legislativo estadual; posteriormente, se elegeu para o Senado federal, em Washington.

Nada disso garante que ele venha a ter mais sucesso do que seu predecessor ou que demonstre mais competência para enfrentar os assustadores desafios que terá de encarar como presidente.

Mas ao menos haverá uma espécie inovadora e diferente de indivíduo na Casa Branca. Os dilemas que terá de enfrentar serão formidáveis, para dizer o mínimo. A necessidade de estimular uma economia moribunda; mercados financeiros devastados; guerras no Oriente Médio, tudo isso requer liderança e mão firme. Mas a prioridade precisa ser estimular a economia. É quanto a isso que emergirão dificuldades para o novo presidente.Não existem soluções simples.

Nos Estados Unidos, o preço médio das casas caiu em toda parte. O crédito está muito apertado. As consequências mais amplas desses desdobramentos só agora começam a se fazer sentir, especialmente para a classe média, que tem na propriedade de moradias um de seus principais ativos. O declínio dos preços afetará as pessoas diretamente.

Barack Obama terá de reassegurar à vasta maioria da população de que o seu principal investimento manterá o seu valor. Mas o fiasco do mercado hipotecário deixa pouca margem de manobra. O mercado de habitação está repleto de imóveis não vendidos e abandonados, especialmente no sul da Califórnia e no sul da Flórida.

Barack Obama precisará oferecer medidas concretas de assistência aos cidadãos comuns. Será um de seus mais formidáveis desafios.

Kenneth Maxwell escreve às quintas-feiras nesta coluna

Simples assim: pela paz!

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Só fui a Israel uma vez, como turista. Visitei do norte, na fronteira com o Líbano, até o extremo sul, entre Egito e Jordânia, rodando pela Cisjordânia nos limites com a Síria. O que mais impressiona é que judeus e árabes vivem lado a lado, bairro a bairro, numa proximidade inimaginável.

Olhando Jerusalém do alto, é possível distinguir, pela disposição e pela nuance de cores, onde moram uns e outros. E, de baixo, cruza-se o tempo inteiro, ora com as famílias muito claras dos judeus, ora com as famílias morenas dos árabes, ambas geralmente numerosas.

Um judeu ali pelos 70, engraçado e falando várias línguas, levou meu grupo de apenas quatro pessoas a um restaurante árabe. A chegada foi esfuziante, com abraços e sorrisos de velhos conhecidos. Daí a pergunta: "E numa guerra?". Do nosso companheiro, sem titubear: "Ou eles me matam, ou eu mato eles".

A milhares de quilômetros dessa história, dessa cultura e das dores do Oriente Médio, convém evitar defesas ou acusações apaixonadas e o erro de reagir aos atuais ataques a partir só de 1947, de 1967 ou de 2005, cortes que nos empurram para um lado ou para outro, inevitavelmente. A questão vem de muito antes, é daquelas em que todos têm razão e ninguém tem razão, enquanto potências movem peças de acordo com suas conveniências.

O que podemos e devemos é discordar tanto dos foguetes inconsequentes do Hamas quanto da "reação desproporcional" de Israel -como acusam os governos, inclusive o do Brasil, que apita pouco, mas não se omitiu e tem sido coerente com sua política externa.

Agiu contra a unipolaridade norte-americana e sua tendência pró-Israel. E respaldou a ação combinada da França e do Egito -os dois países que Celso Amorim primeiro procurou- pelo cessar-fogo e pela reabertura de canais de negociação.

Ou seja, pela paz. Que, aliás, é justamente o que nos cabe fazer nesse momento de sangue e de dor.

Eleições inflamáveis

Vinicius Mota
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - A retirada das colônias judaicas de Gaza e a criação do partido Kadima, para unir moderados à direita e à esquerda, foram cartadas surpreendentes do então premiê Ariel Sharon -que adoeceu e saiu da vida pública a seguir.

A iniciativa, promissora, sofreu corrosão acelerada. Três anos depois, o governo do Kadima declarou "guerra total" contra o Hamas, entre outros motivos, para tentar evitar o triunfo da direita radical de Binyamin Netaniahu nas urnas.

No intricado jogo do Oriente Médio, quando alguém mexe uma peça, deflagra reconfiguração em todo o tabuleiro cujo sentido final está fora de seu controle e às vezes contraria seu interesse. Israel vota em fevereiro; Irã e Líbano, em junho.

A ofensiva de Israel em Gaza veio a calhar para a plataforma eleitoral dos movimentos islâmicos extremistas naqueles dois países. No Líbano, o temor é que o Hizbollah, grupo xiita patrocinado pelo Irã e pela Síria, obtenha vitória estrondosa e desequilibre o precário balanço de forças na política libanesa.

Seria o golpe de misericórdia no movimento moderado e modernizante que, em 2005, pôs fim a três décadas de tutela síria no Líbano. No Irã, os bombardeios sobre Gaza dão pretexto para que a linha dura -insuflada pelo alucinado Mahmoud Ahmadinejad, que tentará a reeleição- aperte o cerco contra os reformistas. Um grande jornal desta tendência foi fechado pelo regime na última semana de dezembro.

Dias antes, o escritório da ativista de direitos humanos Shirin Ebadi, Nobel da Paz em 2003, havia sido fechado e devassado pelo governo.

Numa atitude inusual nos quase 30 anos do regime fundamentalista xiita, o líder supremo do país se inclina para um dos lados da disputa presidencial: o aiatolá Ali Khamenei dá declarações de apoio a Ahmadinejad. Nome mais forte entre os reformistas, o ex-presidente Mohammad Khatami sofre pressões para não anunciar candidatura.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais&portal=

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Lula diz que não lê jornal nem revista e critica mídia

Clarissa Oliveira
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em entrevista, ele diz por que evita noticiário: ‘Tenho problema de azia’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou que não faz parte de sua rotina ler jornais ou revistas, nem acompanhar o noticiário de sites e blogs na internet. Em entrevista à revista Piauí, o presidente justificou sua aversão à prática: “Porque tenho problema de azia.”

“A imprensa brasileira tem um comportamento histórico em relação a mim”, disse o presidente. Destacou, porém, que sua chegada ao Palácio do Planalto é “produto direto da liberdade de imprensa”.

Lula disse ainda não se preocupar com a forma como é retratado, por confiar na “inteligência de quem assina uma revista ou um jornal, de quem vê televisão e escuta rádio”.

Para o presidente, os cidadãos têm hoje maior capacidade de interpretar os fatos. O motivo, segundo ele, é o avanço tecnológico, que trouxe mais pluralidade de fontes de informação. “Não tem mais apenas a informação de tal revista ou de tal jornal”, disse, citando a existência de inúmeros sites noticiosos na internet e “300 blogs com comentários diferentes”. “Isso democratiza a imprensa, aumenta a capacidade do cidadão em interpretar o que lê.”

Apesar de não ter o hábito de acompanhar o noticiário com frequência, Lula se considera bem informado. “Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia”, explicou, acrescentando que é avisado pelo ministro Franklin Martins (Comunicação Social) ou por Clara Ant, sua assessora especial, “quando sai alguma coisa importante”.

O presidente se mantém distante de jornais e revistas mesmo quando dispõe de tempo livre. “Recomendaria a qualquer presidente que se afaste dos políticos e da imprensa nos fins de semana”, afirmou.
MEU COMENTÁRIO:
Coisa horrível! Nem necessita comentários.

Mentes opacas

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O Congresso nem reabriu os trabalhos e já está cheio de ideias. Algumas até mereceriam comparação com fabulações produzidas em cérebros rudimentares, não fosse o risco de se entrar no perigoso terreno da injustiça. Para com os irracionais de nascença.

Não bastasse a ausência do item recuperação moral do Legislativo na agenda do debate sobre a eleição nas novas presidências da Câmara e do Senado, diante do quadro de autodesmoralização galopante aos parlamentares só ocorre abrir combate contra o Poder Judiciário.

Grosso modo, as propostas visam a retirar prerrogativas do Supremo Tribunal Federal e fixar mandato para o posto de ministro, hoje assegurado até a aposentadoria aos 70 anos de idade.

No detalhe, fala-se em garantir agilidade a julgamento de processos eleitorais, em modificar as regras de acesso ao cargo de juiz, em criar punições a procuradores que divulgarem denúncias infundadas, uma série de providências que à primeira vista parecem muito bem-intencionadas.

À segunda, entretanto, revelam-se o que realmente são: uma tentativa de vingança contra o chamado ativismo dos magistrados. O Congresso faz parecido quando se sente muito criticado e ameaça endurecer a lei de imprensa. Para intimidar, nada mais.

Sob a alegação de impedir a usurpação de poderes, o Legislativo se propõe a interferir diretamente no processo judicial, inclusive determinando o tempo de julgamento de uma ação; oito meses da primeira à última instância, no caso de crimes eleitorais.

Uma barbaridade que equivaleria ao Judiciário determinar ao Legislativo quanto tempo uma proposta deve tramitar - da apresentação à votação no plenário - na Câmara e do Senado.

Não que o Poder Legislativo não possa - aliás, deve - corrigir distorções, interferir quando necessário sem que isso signifique extrapolação. Assim faz o Judiciário.

Mas o propósito aqui não é aprimorar processo nenhum, é retomar a situação anterior à qual o deputado Flávio Dino define como a de “um tribunal historicamente mais técnico que político”.

De maneira oblíqua, o deputado fala de episódios de omissão travestidos de respeito à independência dos Poderes - uma condição realmente bastante mais confortável que a fustigação permanente por parte do Judiciário, provocada não apenas pelo perfil dos magistrados, mas, sobretudo, pelo fato de o Legislativo abrir mão de suas prerrogativas de uma maneira tão leviana quanto preocupante.

O elenco de exemplos é farto e amplamente citado. Mas um pouco lembrado é o dos processos contra parlamentares. Critica-se o Judiciário pela ausência de punições a autoridades com foro privilegiado, mas hoje ao menos são abertos inquéritos e vários se transformam em processos.

Quando (até 2001) a Justiça dependia de autorização do Legislativo, na quase totalidade dos casos nem se iniciavam ações. O Congresso simplesmente não autorizava e ponto final.

Esse tipo de situação pode ser melhor para os parlamentares individualmente, mas é ruim para a instituição e bem pior para a República.

Fala-se do perigo de concentração de poder. Um sofisma, pois se todos os Poderes atuarem à altura do que lhes confere (e obriga) a Constituição não há ultrapassagem de limites. Há, sim, o cumprimento correto, e natural, do conceito de equivalência entre eles.

A ofensiva do Legislativo contra o Judiciário é uma típica tentativa de criar um caso onde não existem desavenças nem deformação institucional alguma. Trata-se apenas da defesa unilateral do retrocesso em causa própria.

Acesa a chama

Ao que parece o deputado Aldo Rebelo se candidata a presidente da Câmara por motivos assemelhados aos que o levaram a se candidatar a prefeito de São Paulo, no ano passado, até tornar-se vice de Marta Suplicy.

No início de 2008, o deputado do PC do B justificou sua candidatura a prefeito dizendo que “a esquerda” não tinha muito mais o que fazer na base de apoio a Lula depois que o presidente optou por uma aliança preferencial com o PMDB, a “centro-direita” no jargão vigente.

Quando os pemedebistas aderiram ao prefeito Gilberto Kassab, Aldo - muitíssimo a contragosto, diga-se - foi convencido a fazer o caminho de volta e ficou com o PT, sabendo que seu grupo acabaria engolido e continuaria sendo tratado como prata da casa, fava contada.

Se o critério agora for o mesmo adotado na época, a candidatura de Aldo Rebelo à presidência da Câmara tem a finalidade de preservar espaços dos pequenos, tradicionais, mas não necessariamente eternos aliados do PT.

Quanto ao desfecho, pode haver dois: se a disputa no Senado provocar um rompimento entre PT e PMDB, Rebelo será chamado a reforçar a tropa petista; na hipótese mais provável do entendimento entre os dois principais parceiros da coligação, fica mantida a candidatura.

A esperança das utopias

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


No curto período de três meses, o mundo virou de pernas para o ar. Houve uma derrocada da concepção que entendia a globalização como fusão da desregulamentação do mercado com o fim da história e das ideologias, sob tutela de uma superpotência

Neste ano que ainda não começou — à espera da posse do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama —, como disse domingo passado, aposto na esperança das utopias. Sem voluntarismo. Elas são como a alavanca de Arquimedes: podem mover o mundo. A utopia da paz no Oriente Médio, por exemplo, com a convivência entre Israel e um novo Estado palestino, ambos com sede em Jerusalém, até para facilitar o diálogo e a cooperação entre os dois governos.
A guerra

Do que dependeria a paz no Oriente Médio? Segundo minha cara amiga Dina Lida Kinoshita, que tem sobrenome japonês mas é judia, como os filhos de olhos rasgados, depende muito mais da força da política internacional do que da política da força. No sábado passado, 150 mil israelenses foram às ruas protestar contra a guerra. Milhares de jovens judeus estão presos por se recusarem a prestar serviço militar. Não é pouco para um país de 6 milhões de habitantes, dos quais a metade é árabe. “Não há outro caminho para a paz no Oriente que não seja a aplicação da decisão da ONU de novembro de 1947 pela partilha da Palestina e criação de dois Estados: o Estado de Israel e um Estado Palestino. O primeiro foi criado em maio de 1948; o outro, até hoje, não saiu do papel”, sustenta Dina, doutora em física teórica e professora da USP.

Em 1967, na Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou as Colinas do Golan (que pertenciam à Síria), Jerusalém Oriental, a Cisjordânia, Gaza e o Sinai. Ainda nos anos 80, devolveu o Sinai ao Egito e selou a paz com esse país. Mas a direita nacionalista e os fundamentalistas religiosos de Israel não permitem a solução de ‘paz por terra’. Os fundamentalistas palestinos do Hamas, da Jihad e do Hizbolah, bem como os países árabes que os financiam, não querem reconhecer o Estado de Israel. “Devemos lutar por dois Estados para dois povos com fronteiras seguras. Devemos lutar por uma solução pacífica e negociada através do diálogo para que os palestinos tenham o seu Estado nos territórios ocupados desde 1967 e o Estado de Israel seja reconhecido por árabes e palestinos. A história vem mostrando que a via militar não resolve mais os conflitos que surgem no mundo. O Hamas tem utilizado população civil palestina como ‘escudo’ para lançar mísseis e atingir alvos civis em território israelense. A resposta violenta do Estado de Israel só faz aumentar a espiral de violência. Mas há o ‘campo da paz’ na região tanto entre árabes e palestinos como em Israel. E é neles que devemos apostar”, argumenta Dina, veterana militante do movimento “Paz Agora”, com sua utopia.

O cenário

No curto período de três meses, o mundo virou de pernas para o ar. Houve uma derrocada da concepção que entendia a globalização como a fusão da desregulamentação do mercado com o fim da história e das ideologias, sob tutela de uma superpotência responsável pela segurança do mundo. Tudo foi por terra com a crise global. Há um novo cenário mundial. Seu desenvolvimento ainda está agrilhoado ao passado, como no Oriente Médio, mas dá sinais de que pode se libertar. A melhor maneira de compreendê-lo é aprender com a História. A nova liderança europeia, seja ela conservadora ou social-democrata, conhece as nefastas consequências das grandes crises de 1872 e 1929, que resultaram na proliferação de regimes nacionalistas e autoritários e em duas guerras mundiais.

O colapso do unilateralismo hegemonista de Bush e da desregulamentação do mercado financeiro cria condições para uma certa “governança mundial” baseada no multilateralismo.

Quem protagoniza essa possibilidade é a Comunidade Europeia, com um olho no Atlântico e outro no Mediterrâneo. Quais são os problemas com os quais o mundo globalizado se depara?

Primeiro, a necessidade de reduzir as desigualdades e resguardar os direitos humanos.

Segundo, respeitar a democracia, a liberdade e o papel civilizatório das grandes correntes religiosas.

Terceiro, reorientar a economia mundial de modo a enfrentar o problema ambiental e superar o padrão energético imposto pela utilização do carbono.

A eleição de Obama pelos norte-americanos, saudada em todo o mundo, foi o sinal de que a nova ordem mundial pode emergir.

A senha cifrada para a ditadura

Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


A didática e tradicional Hoje na história do Jornal do Brasil de terça-feira, dia 6, fustiga a memória do repórter com a lembrança de mais um aniversário da vitória esmagadora do presidencialismo no antecipado plebiscito de 6 de janeiro de 1963, que devolveu ao presidente João Goulart o mandato que caiu em suas mãos, como um presente dos deuses, com a renúncia do destrambelhado Jânio Quadros.

Ora, para quem acompanhou todo o episódio desde as suas origens, a derrota do parlamentarismo, articulada às pressas, para evitar o risco iminente de um confronto que racharia as Forças Armadas, é mais um elo na sucessão de erros primários, alguns com as marcas indeléveis da traição e que levou em linha direta aos 20 anos, 11 meses e 15 dias da ditadura militar que deixou poucas e renitentes saudades.

O fio da meada começa a ser desenrolado com a eleição a vice da chapa do marechal Teixeira Lott, de Jango Goulart, quando a Constituição permitia o voto em separado.

Mas, é claro que não se arma uma tão extravagante combinação, como casamento com os casais de noivos trocados no altar, sem uma articulação tecida com os fios da traição. No caso, em dose dupla. O movimento do Jan-Jan ­ Jânio e Jango ­ foi montado às escancaras pelo deputado paulista Castilho Cabral, ex-ademarista que se transferiu com armas e bagagem para onde piscava a luz do sucesso com o fenômeno do maníaco da renúncia.

A casa do deputado Castilho Cabral transformou-se em escritório do movimento da dupla traição do Jan-Jan, distribuindo farto material de propaganda às equipes recrutadas para o serviço.

Ora, Jango Goulart foi o nome indicado pelo então po- deroso PTB de Getúlio Vargas para vice do candidato do governo, Marechal Teixeira Lott. E Jânio Quadros, depois de três ameaças de renúncia à candidatura, foi consagrado em entusiástica convenção da UDN, realizada no Palácio Tiradentes, onde funcionava a Câmara dos Deputados, como o candidato da oposição udenista, derrotando o presidente do partido, senador Juracy Magalhães.

Nos alinhavos para indicar o candidato à vice, os muitos capítulos da comédia de pastelão. O candidato da UDN, o ex-governador de Sergipe Leandro Maciel foi recusado por Jânio, depois de duas renúncias. A UDN apelou para o senador Milton Campos, ex-governador de Minas e das melhores figuras que conheci na vida, de impecável postura ética e extrema modéstia.

Cobri quase toda a campanha de Jânio como repórter do Estadão. E testemunhei a costura da traição e o contraste abismal entre a duplicidade do candidato a presidente e a retidão de Milton Campos.

Depois de um giro de uma semana, o próximo roteiro começava pelo Rio Grande do Sul. Assisti a breve conversa entre os candidatos. Milton Campos tomou a iniciativa de comunicar a Jânio que não o acompanharia no giro gaúcho. E deu as suas razões: a sua candidatura não tinha a menor importância. Fundamental era a eleição de Jânio, que deveria aproveitar a oportunidade para articular o apoio de Jango e do deputado Fernando Ferrari, candidato avulso.

As urnas deram a consagradora vitória de Jânio, com Jango como vice, derrotando Milton Campos.

A renúncia de Jânio com sete meses de mandato, numa cada vez mais clara tentativa de manobra para voltar nos braços do povo, com amplos poderes, foi uma traição longamente preparada.

E, por pouco, a previsível resistência militar, com o racha no Rio Grande do Sul, liderado pela rebeldia do governador Leonel Brizola, não termina no primeiro confronto entre as Forças Armadas.

A posse de Jango é a saída penosamente articulada pelas lideranças parlamentares, com o parlamentarismo híbrido que protegia o presidente com o escudo do primeiro-ministro. Jango não sossegou enquanto não antecipou o plebiscito para derrubar o parlamentarismo e disputar com o cunhado Brizola a liderança das reformas de base.

E que analisada meio século depois, só confirma a evidência de que a jogada bisonha funcionou como a senha para os quase 21 anos da ditadura militar.

"Viver de província"

Marco Antonio Villa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Apesar do grande progresso econômico e de concentrar parte expressiva do PIB, o interior continua marcado pelo provincianismo

NO FINAL do Império, em meio às turbulências políticas, Júlio Ribeiro -escritor, gramático e polemista republicano- cunhou a expressão "viver de província", nas suas "Cartas Sertanejas". Era uma definição sarcástica do pobre cotidiano político-cultural do interior de São Paulo. Depois de 120 anos, pouco mudou:

apesar do grande progresso econômico e de concentrar parte expressiva do PIB brasileiro, o interior continua marcado pelo provincianismo.

A inexpressividade política do interior é suprapartidária. Vez ou outra algum grupo tenta ter espaço regional, mas acaba fracassando. O último foi a conhecida "República de Ribeirão Preto", expressão cunhada para designar os aliados do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, em Brasília.

Porém, a denúncia de uso pouco ortodoxo de uma mansão, na capital federal, levou ao naufrágio do grupo, mesmo com a eleição de Palocci para deputado federal. E o interior, para o bem ou para o mal, continuou sem liderança expressiva.

A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) poderia ser um palco para o aparecimento de lideranças interioranas. Contudo, das suas atividades pouco ou nada se sabe. Muitos nem sequer imaginam onde, na capital paulista, se localiza o prédio de um dos Poderes do Estado.

Dos seus 94 deputados, mesmo os que acompanham a política regional sabem, se tanto, o nome de meia dúzia. O noticiário político prioriza o Congresso Nacional. A Alesp é solenemente ignorada: só é notícia quando ocorre denúncia de um suposto escândalo administrativo.

Outra possibilidade seria a ação de alguma administração municipal que se notabilizasse pela inovação. Mas, dos mais de 600 municípios interioranos, quais poderiam ser destacados pela originalidade administrativa?

A política estadual concentra-se na capital e, no máximo, na Grande São Paulo. Os líderes partidários que têm presença nacional também atuam nessa região. O interior é marcado pelo situacionismo, pela política do "sim, senhor". Os prefeitos mudam de partido acompanhando a base política do governador. Não têm opinião formada. E os deputados são cobrados pelos seus eleitores para trazer recursos para suas bases, e o preço é sempre apoiar o governo.

No campo cultural, apesar do grande número de faculdades e universidades instaladas no interior, não houve mudança. O conservadorismo local venceu a potencialidade transformadora da universidade.

Eventualmente professores universitários passaram a participar da política local, mas sempre buscando alguma forma de composição política com os poderosos locais. E, quando necessário, os conservadores utilizaram-se da violência para expulsar os professores indesejáveis, como em São José do Rio Preto, logo após o golpe de 1964, na faculdade local e que hoje é parte da Unesp.

Há uma valorização absoluta do dinheiro e um desprezo pela cultura.

Em muitas cidades há mais joalherias que livrarias. As políticas culturais são fadadas ao fracasso. O poder público -tal qual a maioria dos eleitores- não tem interesse nas atividades culturais: elas não dão voto e, por vezes, dão problemas.

Em Araraquara, depois do espetáculo "Mistérios Gozosos", de Oswald de Andrade, José Celso Martinez Corrêa e grupo foram processados, acusados de "vilipendiar atos e objetos de culto religiosos". O processo foi movido por araraquarenses incomodados "moralmente" com o trabalho de Zé Celso.

Uma "atividade cultural" muito conhecido no interior, espécie de marca regional, é o massacre anual de animais conhecido como Festa do Peão Boiadeiro, em Barretos. Como tudo que é ruim, prolifera rapidamente: os rodeios espalharam-se pelo Estado.

No Vale do Paraíba, criaram até um rodeio para Cristo, que, certamente, deixaria o Nazareno horrorizado.

A maioria dos jornais é subsidiada pelo poder público ou por algum potentado local. O nível das publicações é rasteiro. O espaço da coluna social é várias vezes superior ao destinado a temas políticos.

Quando surge uma imprensa independente, os jornalistas passam imediatamente a ser perseguidos e ameaçados. Basta recordar, entre tantos outros exemplos, dos tristes episódios de Marília, que envolveram um conhecido político local e o ataque criminoso às instalações do "Diário".

Júlio Ribeiro morreu em 1890, aos 45 anos. Viu muito pouco do Brasil com que sonhou: sem escravos e republicano. Mas o interior não mudou: tal qual no final do século 19, continua impressionando pelo dinamismo econômico e pelo provincianismo.

MARCO ANTONIO VILLA, 52, é professor de história da Universidade Federal de São Carlos (SP) e autor, entre outras obras, de "Vida e Morte no Sertão - História das Secas no Nordeste nos Séculos 19 e 20" (Ática).

Crítica aos ardis anunciados

José Nêumanne
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Dois recentes institutos da democracia brasileira serão postos em xeque em 2009: a eleição em dois turnos e a reeleição.

A primeira o será pela jurisprudência, a ser fixada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) quando, findo o recesso, em fevereiro, reabrir os trabalhos com o julgamento do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, que produzirá efeitos sobre processos similares contra seus colegas do Maranhão, Jackson Lago, e de Santa Catarina, Luiz Henrique. Se Cássio for cassado (e isso sinalizar solução idêntica para os outros dois), a legislação eleitoral indica que seu sucessor será o segundo colocado na disputa - no caso paraibano, o senador José Maranhão. Tudo parece muito simples, porque a tradição eleitoral brasileira sempre foi a da disputa num turno só e isso permite a substituição do primeiro pelo segundo, deste pelo terceiro e daí em diante. Só que no segundo turno o eleitor toma uma decisão definitiva e, aí, não é o caso de falar em segundo colocado, mas em derrotado. Ou seja, o eleitor escolheu entre um e outro e a posse do preterido por interferência judicial implica contrariar a vontade popular expressa nas urnas. Não podendo ser empossado o vice, também réu no mesmo processo eleitoral, evidencia-se uma lacuna a ser preenchida pelo Poder Judiciário na interpretação de uma lei incompleta. Que fazer? Entregar o cargo ao presidente da Assembleia? Convocar eleições para o cumprimento da metade do mandato até as eleições seguintes? Isso não foi previsto pelo legislador apressado na hora de criar uma norma que revolucionou a escolha do mandatário pelo voto direto - norma, aliás, aprovada na prática. Cabe repensar o sistema eleitoral preenchendo esta lacuna para evitar que o STF tenha de optar entre a impunidade eventual e o intolerável menosprezo à manifestação majoritária do eleitorado.

Menos sutil e muito mais grave é a discussão no Congresso do projeto que acaba com a reeleição e estica os mandatos executivos de quatro para cinco anos. O golpe de aumentar o mandato é vil e acintoso, mas não é inédito. O Congresso já o aplicou no governo Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar, que foi justificada como uma necessária intervenção para evitar uma quebra de regras democráticas por uma eventual República sindicalista e terminou por nos impingir dois decênios de arbítrio. E também já foi adotado a pretexto de reorganizar o calendário eleitoral.

A justificativa que se dá ao golpe agora é de um cinismo vil: trata-se de uma tentativa de “reparar o erro cometido pelo Congresso ao se deixar comprar para aceitar a proposta continuísta do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso”. Se já é um absurdo sem conta tentar reparar um erro cometendo outro, mais absurdo isso se torna pelo fato de se basear em acusações não comprovadas e agressões à lógica dos fatos. Não há provas de que Fernando Henrique tenha comprado a reeleição e, se provas houvesse, seria o caso de levá-las à Justiça e o ex-presidente e os parlamentares que ele tivesse comprado, ao banco dos réus, passíveis de duras penas. Em vez disso, vem-se com essa conversa de enganar trouxa para atender aos interesses dos poderosos do momento, com a cumplicidade de próceres da oposição, também tentados pela possibilidade de tirar proveito na tramoia.

Tramoia, sim! É até admissível discutir a sutileza do argumento, antes exposto, sobre a interferência eventualmente descabida da Justiça ao alterar a vontade popular empossando um candidato derrotado para punir o vencedor, condenando por extensão o eleitor que o escolheu. Mas a extinção do instituto da reeleição será resultado de um golpe sórdido das elites dirigentes da política nacional contra a cidadania sem voz. O fato de Lula, do PT, ter sido reeleito presidente, apesar de sempre haver discordado da reeleição, e de seus correligionários denunciarem com estardalhaço e poucas provas a compra dos votos dos parlamentares que a aprovaram é a evidência mais cabal de que - fosse qual fosse seu vício de origem - a oportunidade de repetir o governo que aprova e derrotar o governante que reprova tem sido usada com sabedoria pelo cidadão. O exemplo de Lula é o mais forte, mas não é único: as últimas eleições municipais são riquíssimas em comprovações de que a possibilidade de manter um bom mandatário tem sido bem aproveitada pelos eleitores brasileiros. O caso de São Paulo é exemplar: o paulistano optou entre dois gestores cujas obras já haviam sido por eles conhecidas e vivenciadas. Ou seja: a democracia deve mesmo ser definida como o menos pior dos sistemas políticos escolhidos pelo homem para governar suas comunidades. E pode ser aperfeiçoada.

Não é de todo descabida, ainda, a hipótese de uma mão-de-gato repousar sob as almofadas destes ardis anunciados contra a democracia para tornar viável a terceira reeleição consecutiva de Lula - por cavilosa omissão. Os políticos empregam seu engenho e arte para manter o poder com mais empenho e zelo até do que para chegar a ele. Não faltam astúcia e vontade a Lula e a seus companheiros de gestão e, se há um momento favorável para legislar em proveito próprio, é este em que o prestígio popular do chefe do governo bate recordes no País - a ponto de chamar a atenção do mundo, como demonstra sua colocação, inédita para brasileiros, entre os homens mais influentes do planeta, conforme a revista americana Newsweek. A entrevista do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) atribuindo à vontade do povo a proposta de ruptura constitucional é mais uma demonstração da necessidade de desarmar as arapucas com que tentam transformar a democracia, árdua conquista de todos nós, em pretexto para permanência no poder de um grupinho cujas ambições não têm limites.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

Momento indefinido na aliança lulista

Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem passado a seus interlocutores políticos dois sinais sobre o que lhe vai à mente com relação à sucessão presidencial, neste momento. O primeiro é que a candidatura da ministra Dilma Rousseff à sua sucessão é para valer e já segue uma estratégia de marketing adequadamente preparada para uma candidatura com as características da indicada para a chefe da Casa Civil. O segundo, e sobre esse tem sido mais direto, é que, no primeiro turno, quer os aliados todos juntos.

Lula disse a pelo menos dois partidos da base parlamentar que lhe dá apoio que, ao contrário do que defendem alguns cientistas políticos e teóricos da política em geral, o bloco de apoio ao seu governo não pode estar dividido na primeira etapa da disputa.

Um dos interlocutores do presidente neste assunto foi o senador do Distrito Federal, Cristovam Buarque. Cristovam disse a ele que pensava ser candidato a presidente, de novo, se o PDT, seu partido, quisesse. O senador teria reconhecido ao presidente que não chegaria a dois dígitos na preferência do eleitorado, mas, com certeza, admitiu, passaria dos 2,5% que computou em campanha anterior. Com esta adesão, poderia deixar sua marca no país. Uma marca que ainda sonha deixar e é a mesma cuja difusão iniciou em todas as disputas de que participou: a de defender uma mudança de rumos do país pela Educação.

Na conversa com o presidente, o senador lembrou, a propósito da crise mundial que atingiu o Brasil, que mais do que correr para, com uma pá, tapar buracos, com políticas de emergência de cuja eficácia não se tem certeza, o governo deveria usar uma bússola, para mudar de rumos.

Diante da insistência na tese de que, eleitoralmente, convém apresentar mais de um candidato entre os aliados, para pelo menos garantir a participação de um deles no segundo turno, Lula voltou a defender a união em torno de apenas um, já na primeira etapa, mas sem detalhar muito suas razões.

O princípio que o presidente Lula prefere adotar neste momento já foi transmitido ao ex-ministro e deputado Ciro Gomes, outro potencial candidato à sua sucessão, também do bloquinho de esquerda da base governista, candidato do PSB a presidente da República. E está sendo colocado em prática também na sucessão das presidências da Câmara e do Senado, em que Lula está convocando os partidos aliados a apoiarem um só candidato, e também aí está minando as pretensões do bloquinho.

O que intriga os partidos aliados em que há candidatos naturais e competitivos à sucessão de Lula, é a razão que estaria motivando o presidente a fazer a opção por uma única candidatura do grupo já no primeiro turno.

Uma hipótese de explicação seria o temor de que a candidata do PT, Dilma Rousseff, ou outro, caso a aposta definida hoje não prevaleça em 2010, não chegue ao segundo turno. Mas este seria, segundo os contrários à idéia, um temor infundado, dada a sólida plataforma de lançamento em preparação há dois anos.

Analistas de grupos favoráveis à tese da união no primeiro turno, porém, crêem que a precaução é necessária. Cristóvam, pelo PDT, não representaria perigo para a candidatura do PT, mas Ciro, com certeza, levaria risco à empreitada. Ciro Gomes poderia chegar ao segundo turno na frente da candidata in pectore.

E nos sinais que vem emitindo, o presidente não considera, também, os presidenciáveis do bloquinho nas suas conjecturas sobre a candidatura a vice na chapa do PT. O vice de Dilma seria da aliança governistas, mas, para o presidente, viria do PMDB.

Os partidos do bloquinho ainda não aderiram oficialmente à estratégia que o presidente Lula vem expondo, mas estão topando conversar. Até porque, como fato consumado, há neste momento a candidatura da ministra Dilma. A função de vice nesta chapa, acreditam, ainda é negociável. Como também o lançamento de outras candidaturas.

Escândalo Soberano

Nenhum contrabando do recesso em qualquer fim de ano foi mais feio, até hoje, do que o promovido pelo governo com o fundo soberano. Neste assunto, a Presidência, que editou nova medida provisória para anular a lei aprovada pelo Congresso e a publicou, para entrar em vigor, no mesmo Diário Oficial que apresentou a lei sancionada, foi campeã na desmoralização do Congresso, no desprezo às instituições e no desrespeito ao público que reconhece os diferentes poderes da República.

Num misto de arrogância e desfaçatez, o governo praticou mais um abuso da utilização de medida provisória, como sempre argumentando com razões políticas e fugindo do conteúdo do seu gesto. Quem se opõe ao seu ato de vontade, diz, está contra o país. E saiu do episódio com a cara de quem levou uma vantagem que lhe era devida. A legislação que logrou a seu favor com a nova MP é ainda mais proveitosa do que a original enviada ao Congresso.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

No sétimo dia

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO

Hoje é o sétimo dia e o ano já está lotado de eventos, alguns trágicos. O ataque de Israel aos palestinos está virando bumerangue político. A disputa comercial entre Rússia e Ucrânia ameaça o gás da Europa. O presidente eleito Barack Obama já governa a economia e já é cobrado na política externa. Aqui, a produção industrial mergulhou. O grupo Iochpe demitiu mais de mil pessoas.

A Iochpe-Maxion confirmou ontem que já fez demissões significativas, cerca de 1.100, e que todos os funcionários da linha de produção de vagões estão em férias coletivas até o dia 15 de janeiro. O motivo é a crise que afeta o setor siderúrgico. Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da empresa, Oscar Becker, em 2009 a situação será muito ruim, com uma queda estimada na produção de 60%. A Iochpe-Maxion produz vagões comerciais do Brasil e seus principais clientes são a Vale e as empresas de siderurgia, que, como dissemos ontem aqui, na coluna, estão enfrentando queda forte de produção.

- Tudo neste ano de 2009 vai depender das negociações da Vale com a China. A partir da renegociação das siderúrgicas, principalmente com a China, é que vamos ter um mercado mais claro. E só devemos começar a nos projetar no meio deste ano. Até lá, só enxergamos o túnel, sem nenhuma luz no fim dele - contou Becker.

Já se sabia que o ano seria difícil e essa primeira semana confirma isso. A produção industrial em novembro, divulgada ontem pelo IBGE, foi do tamanho que antecipamos aqui na coluna: 5,2%. O número de outubro foi revisto e, por isso, a queda em dois meses foi de 7,8%: uma queda do mesmo tamanho da que aconteceu em nove meses no ano de 2003.

A queda da produção foi abrupta. A diminuição da produção de bens de consumo duráveis foi de 20%; a do setor de bens de capital foi de 4%. Isso significa que até o investimento está encolhendo. A Associação dos Exportadores Brasileiros (AEB) está prevendo uma queda de 17% nas exportações este ano.

Outros números virão. Eles vão confirmar que o PIB mergulhou no último trimestre do ano passado. O cenário continuará negativo neste começo de 2009. Na tradicional caminhada de picos e vales da economia, agora é a hora do vale. É um momento de extremo perigo, porque, apavorado, o governo pode tomar decisões que comprometam definitivamente o equilíbrio fiscal para enfrentar uma crise que será temporária.

Nos dias 20 e 21 deste mês, o Copom vai se reunir, e o mais sensato é que aprove um corte de juros de pelo menos meio ponto percentual. Um cortezinho de 0,25 ponto percentual será um erro. A economia está parando bruscamente, e os juros precisam cair. Se eles não caírem, será imperícia. As empresas estão com estoques e terão que reduzir os preços para se livrar deles (confira no gráfico abaixo o aumento do número de empresas registrando estoques excessivos). A alta do dólar está sendo neutralizada pela queda de preços das commodities. Tudo isso cria um cenário inflacionário que permite a queda dos juros.

Na área internacional estão ocorrendo misturas explosivas, de crises políticas com crises econômicas. A Europa, já em recessão, agora enfrenta a ameaça de desabastecimento de gás, porque o combustível que vem da Rússia, pela Ucrânia, está sendo cortado pela Rússia. As empresas de gás da França e da Itália já estavam, ontem, reportando quedas de abastecimento de 70% a 90%, apesar de ainda garantirem o fornecimento aos seus clientes.

A economia internacional depende do sucesso do pacote que o presidente Barack Obama está começando a divulgar mesmo antes de tomar posse. Ele já é também cobrado pelo silêncio em relação à crise no Oriente Médio. O cerceamento de Israel ao trabalho da imprensa está mudando o tom da cobertura da grande imprensa americana, que no passado sempre foi pró-Israel. Nesse contexto, o silêncio de Obama fica ainda mais eloquente. Entre os vários problemas que essa guerra provoca está, também, o de tirar a atenção exclusiva que o novo governo americano deveria dedicar à questão econômica.

Na guerra brasileira, que se trava nas rodovias, morreram quase tantos brasileiros quanto no ataque de Israel à Faixa de Gaza. Se a conta for bem feita, empata. É que a estatística registra apenas os que morrem na estrada, e não os que morrem nos hospitais em decorrência dos acidentes. É um número tão chocante e revoltante quanto os produzidos pela guerra. Mas o Brasil se acostumou com eles. Nossas baixas na guerra das estradas há muito tempo são comparáveis às de um país em guerra.

Foi pesada esta primeira semana do ano. Ainda bem que 2009 tem mais 51 semanas para se recuperar.

Missão (quase) impossível

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O presidente eleito, Barack Obama, está claramente com dificuldades para assumir uma posição diante da invasão israelense na Faixa de Gaza. Foi mais fácil semanas atrás, quando ocorreram os ataques terroristas em Mumbai. Naquela ocasião, não funcionou a tese de que o país tem que ter "um presidente de cada vez", e Obama se posicionou claramente contra o ataque terrorista. No início da crise econômica, mesmo ainda candidato a presidente, ele não se recusou a defender posições, e, principalmente depois de eleito, diante da gravidade da situação, assumiu a decisão de agir durante o vácuo de poder na transição do governo decadente de Bush para responder à ansiedade da sociedade americana por acenos para um futuro melhor.

A tese do "um governo de cada vez" só serve mesmo para evitar armadilhas antecipadas, como agora com a crise em Gaza, claramente armada por Israel para obrigar a futura administração americana a se posicionar sobre o Hamas.

A dificuldade de Obama é de prática, porque na teoria tanto ele quanto a futura secretária de Estado, Hillary Clinton, já se posicionaram claramente durante a campanha eleitoral. E suas posições são bastante semelhantes entre si e à política externa dos Estados Unidos: apoiam Israel e não aceitam o Hamas, que classificam de terrorista, como interlocutores.

Diferença fundamental é que o futuro governo dos Estados Unidos voltará à política dos anos 90 da administração de Bill Clinton, a favor de um Estado palestino. O fato de que o estabelecimento de um Estado palestino seja a chave para uma negociação de paz na região muda substancialmente a maneira de negociar.

A questão básica que se coloca para muitos: o Hamas, independentemente de sua natureza, é um grupo capaz de negociar ou seu objetivo é, pura e simplesmente, destruir Israel? O Hamas está comprometido com a causa palestina ou é uma subsidiária de Teerã?

O presidente eleito, Barack Obama, prometeu durante a campanha "eliminar" a ameaça representada pelo Irã a Israel, durante um discurso em Washington na AIPAC, a principal associação de defesa dos interesses israelenses nos Estados Unidos. Segundo ele, "não há ameaça maior para Israel e para a paz e a estabilidade na região que o Irã".

Já Hillary Clinton, quando senadora e candidata, sempre se posicionou a favor de Israel, que considera "um amigo e um aliado, que defende nossos valores", e chegou a ameaçar "destruir" o Irã caso ele lance um ataque nuclear contra Israel.

Caberá a ela, como secretária de Estado, mostrar-se uma interlocutora confiável para os palestinos, e para isso ela conta não apenas com um histórico de tentativas no governo Bill Clinton, como com alguns assessores importantes da futura Casa Branca que tiveram papel relevante no acordo de Oslo, por exemplo.

O futuro chefe de gabinete de Obama na Casa Branca, Rahm Emanuel, foi conselheiro de Clinton de 1993 a 1998 e tem muita ligação com Hillary, com quem trabalhou na tentativa de implantar um sistema de saúde universal no país. Por sua ligação com Israel, teve participação ativa na assinatura do acordo entre a Organização para Libertação da Palestina (OLP) e Israel em 1993, entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, nos jardins da Casa Branca.

Quase deixou de ser confiável devido a uma declaração de seu pai ao jornal israelense Maariv, quando foi escolhido por Obama: "Obviamente ele influenciará o presidente a ser pró-Israel. Por que não? Ele não é um árabe, é? Ele não vai para a Casa Branca para limpar o chão", declarou Benjamim Emanuel, fazendo com que seu filho telefonasse para Mary Rose Oakar, presidenta do Comitê Árabe-Americano de Antidiscriminação para desculpar-se.

Pelo chamado "acordo de Oslo", Israel concordava em transferir gradualmente partes dos territórios ocupados para a OLP, que em contrapartida desistia oficialmente do objetivo de acabar com o Estado judeu.

O ex-presidente Bill Clinton, em diversas ocasiões desde que deixou a Casa Branca, acusa a "liderança fraca" de Arafat por ter perdido "o melhor acordo de paz jamais conseguido" com a recusa da proposta do então primeiro-ministro Ehud Barak, em 2000, que incluía a devolução de grande parte dos chamados territórios ocupados e até mesmo chegava a um acordo com relação a Jerusalém, que teria uma parte árabe autônoma.

Clinton contou certa vez que o que inviabilizou politicamente o acordo foi a exigência de Arafat ao "direito de retorno" dos refugiados palestinos, muitos devido a guerras tão longínquas quanto a de 1948, coisa que todos sabiam que seria uma condição inaceitável para Israel.

Por isso, quando Arafat lhe telefonou para se despedir dele, na saída da Casa Branca, e lhe disse que ele era "um grande homem", Clinton respondeu: "Eu sou mesmo um fracasso colossal, e você é o culpado".

Como Clinton advertiu Arafat na ocasião, a recusa dos palestinos abriu caminho à radicalização de ambos os lados: o líder da direita, Ariel Sharon, visita a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental, provocando a segunda intifada.

Hoje, o mesmo Ehud Barak é o ministro da Defesa de Israel que comanda o ataque ao Hamas na Faixa de Gaza, e o futuro governo de Barack Obama terá pela frente uma tarefa na política externa das mais delicadas, quase impossível: retomar o caminho da negociação política para conseguir o que parecia próximo em 2000, o estabelecimento de um Estado palestino convivendo com Israel.

Num momento em que os extremismos estão fortalecidos, Israel perde o apoio internacional, e o Hamas é uma força política e militar que se sobrepõe à autoridade palestina.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais&portal=#

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Molambos golpistas

Roberto Freire
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Mais do que ficar na superfície dos trapos juntados pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP) numa trouxa que vem sendo chamada indevidamente de reforma política, o País precisa estar alerta para a traça que se esconde dentro desse embrulho. Escolhido pelo governo relator da “reforma” - cuja admissibilidade já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara -, ele deu vida a uma tese do fim da reeleição com prorrogação de todos os mandatos - tanto de parlamentares quanto de prefeitos, governadores e presidente da República. Feita a modificação, estaria consolidada uma situação nova que - sonham alguns golpistas - talvez pudesse, quem sabe, em vez da imoral prorrogação, viabilizar uma emenda que desse direito a Lula de se candidatar novamente.

A grande vitória do PT e de seus aliados na admissão da proposta de João Paulo Cunha é que neste ano se poderá instaurar uma comissão especial para tratar da “reforma” que eles querem. Na verdade, de alterações que interessam ao Palácio do Planalto, mas que em nada mudam a relação entre representantes e representados. Mudanças mais substanciais, que iriam fazer diferença na vida do País e aprofundar a democracia, foram propostas no relatório da Comissão Especial da Reforma Política ainda em 2008.

Mas a maioria dos deputados da base aliada impediu a aprovação delas. Esses parlamentares não viram vantagens para si e para suas candidaturas com o fortalecimento dos partidos e o fim da troca de favores entre os que investem em candidatos e aqueles que conseguem chegar ao posto de representantes - sabe-se lá se da sociedade ou daqueles que os financiaram. As propostas de adotar listas fechadas, financiamento público e outras, que trariam mudanças realmente importantes para a democracia no Brasil, quedaram-se derrotadas diante de um plenário lotado mais de interesses próprios que de deputados.

É de perguntar se o próprio PT - que votara a favor do relatório que visa à implantação dessa reforma profunda - e o governo, também, não se uniram a essa tese de que é melhor maquiar o ruim e apresentá-lo como novo do que realmente mudar algo em favor do futuro, da ética, da legitimidade da representação da cidadania, enfim, de novos tempos na política. Ao ver o teor da esfarrapada “reforma”, não tenho dúvida: houve mais um retrocesso desse partido, que, não é de hoje, perdeu o constrangimento de cometer toda e qualquer ação que um dia condenou. Para comandar mais essa indignidade escolheram um homem dentre aqueles que já carregam a marca do governo Lula: o processado por corrupção. Assim, não paira dúvida alguma de que a coisa não é para ser séria.

Além de atender a interesses de algumas lideranças e partidos, os farrapos da “reforma” vêm infestados de larvas, como a tentativa de prorrogação de mandatos, a esdrúxula e antidemocrática tese de coincidência das eleições em todos os níveis de representação. Não convém esquecer que tal propósito prorrogacionista e de coincidência de mandatos só foi concretizado uma única vez em toda a nossa história, pela ditadura que começou em 1964, no tristemente célebre Pacote de Abril. Quem diria: o governo de Lula e do PT, além de explicitar, várias vezes, admiração por generais e tecnocratas do regime ditatorial, passa a adotar os expedientes e casuísmos políticos que mandavam às favas os escrúpulos! Péssimo exemplo para nele se mirar.

Já seria trágico se essa enganação terminasse naquilo que o petista mensaleiro encalacrado no Supremo Tribunal Federal propôs. Mas, não. Aninhada onde a cidadania não pode enxergá-la e protegida da luz do sol e da decência está a traça do terceiro mandato, verdadeiro objetivo dessa variedade de molambos da “reforma” que passa a tramitar na Câmara este ano. Aliás, Chico Science, um grande e criativo pernambucano que sabia das coisas, já dizia: “Molambo, boa peça de pano pra se costurar mentira/ molambo boa peça de pano pra se costurar miséria...” Infelizmente, os molambos dessa “reforma” política que o Congresso vai digerir em 2009 podem servir para costurar um golpe!

É certo que a praga da tentativa de assalto ao poder está atacando candidatos a ditador na vizinhança. Exemplo clássico é o do coronel Hugo Chávez, que sonha com reeleição ilimitada. Insulta a democracia e tem o discreto apoio do amigo Lula, que contemporiza dizendo que o que não falta na Venezuela é eleição. Chávez apela para plebiscitos para se manter no poder. Perdeu o último, mas não desanimou. Já anunciou para este mês de janeiro uma nova consulta. Disse que não foi derrotado, que o resultado foi apenas um “por enquanto”.

O “por enquanto” de Lula são duas propostas descaradas de deputados sobre plebiscito pelo terceiro mandato. Ele finge que não vê, desconversa, diz que é contra, mas, vira e mexe, reclama ao povo que oito anos são pouco tempo para fazer tudo o que o País necessita.

Enquanto a candidata anunciada pelo presidente à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff, não decola e as recentes eleições municipais demonstram que Lula não transfere voto, como seus aliados gostariam, os trapos de “reforma” acolhidos pela Câmara servem de cortina de marionetes que apontam para um outro caminho, digamos, alternativo: o fim da reeleição.

Até poderíamos discutir a possibilidade de acabar com a reeleição - embora, pessoalmente, eu seja favorável à sua vigência no País -, mas a condição sine qua non para isso seria que os princípios do respeito à democracia e à República presidissem o debate. O governo do PT, o presidente Lula e alguns partidos que o apoiam no Congresso, lamentavelmente, não possuem essa condição. Prova mais cabal disso é a própria “reforma”.

Não é com molambos que iremos costurar as mudanças que o Brasil reclama.

Roberto Freire é presidente do PPS