terça-feira, 2 de novembro de 2021

Merval Pereira - Seleção natural

O Globo

A tese de que o eleitor fará a seleção natural para escolher quem será capaz de derrotar Bolsonaro e Lula no ano que vem tem mais credibilidade para esta eleição do que em 2018, quando a maioria queria mesmo era impedir que o petismo voltasse ao poder. Hoje, a maioria quer que apareça algum candidato capaz de derrotar o presente infame e o passado recente que não quer ter de volta.

Bolsonaro surgiu do nada para derrotar o candidato petista Fernando Haddad porque, naquela ocasião, o eleitorado votou com sangue nos olhos. O PT inaugurou a política do “nós contra eles”, sem se dar conta de que “eles” tinham a maioria depois que o predomínio petista foi sendo corroído pelas acusações de corrupção, do mensalão ao petrolão. Não que os extremistas de direita sejam, ou fossem naquela ocasião, a maioria do eleitorado, mas porque Bolsonaro surgiu como uma novidade que não era, mas parecia ser, pela linguagem desabrida, pela suposta coragem de encarar os poderosos, de ir contra “o sistema”.

A maioria não percebeu, apesar das demonstrações públicas de que era misógino, racista, miliciano, fariseu, que Bolsonaro era a face mais obscura do próprio sistema, um falso Messias. Hoje, é diferente. Já se sabe o que é ser um Bolsonaro, e, mesmo entre os que o apoiam ainda, a maioria está à espera de um(a) candidato(a) que seja capaz de derrotar não apenas o farsante que nos governa, como o que quer voltar para repetir os mesmos erros, com as mesmas pessoas.

Míriam Leitão - Governo diminui um país gigante

O Globo

O Brasil empatou com o passado. É assim que Márcio Astrini, coordenador do Observatório do Clima, explica a mudança anunciada ontem, em Glasgow, das metas brasileiras. “Esse empate vem depois de um ano de enorme prejuízo para a imagem do Brasil”, diz. O Brasil havia dado uma pedalada climática, e agora, ao subir de 43% para 50% a redução das emissões em 2030, em relação a 2005, o país atinge o mesmo efeito líquido. Na verdade, não elevou as metas, fingiu aumentar as ambições, para voltar ao que se comprometeu quando assinou o Acordo de Paris.

— O Brasil é o único país entre os grandes emissores que havia retrocedido em suas metas climáticas e por isso estava sendo enormemente criticado — diz Astrini.

O Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa, atrás da China, Estados Unidos, Índia e Rússia. Se considerar a União Europeia como um país, é o sexto, informa o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo. E ele concorda com Astrini. O que aconteceu ontem foi um não evento.

— Sobre a nova meta, o governo brasileiro tirou o bode da sala. Com a meta de 50% sobre a emissão de 2005, com números do quarto inventário, o resultado é o mesmo: o Brasil vai reduzir para 1,2 bilhão de tonelada de carbono. E tem mais, em 2015, quando se fez a meta, o Brasil já havia reduzido em 40% as emissões de 2005. Só que de 2016 para cá o país só fez crescer as emissões e em 2020 aumentou 4,6% sobre 2015. Estamos na trajetória errada — disse Tasso Azevedo.

Zuenir Ventura - No papel de penetra

O Globo

A imagem que simboliza o isolamento do Brasil na cúpula do G20 está no vídeo em que Jair Bolsonaro aparece perambulando pelo amplo salão onde os principais líderes confraternizavam em vários grupos. Completamente deslocado, ele parece um penetra. Só se sente mais à vontade quando se refugia no bar e passa a puxar conversa com os garçons por meio do intérprete.

Em seguida, fica em pé e, apontando com o dedo os grupos, parece perguntar quem é quem. Estão ali alguns conhecidos, como Boris Johnson. Mas nenhuma das lideranças se dignou a dirigir-lhe sequer um cumprimento. A cena é patética.

Bolsonaro deve agradecer a quem teve a ideia de arranjar-lhe um de seus raros interlocutores, este sob medida: o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, considerado pela organização Repórteres sem Fronteira “o inimigo número um da liberdade de imprensa”. Os dois têm, portanto, muita afinidade.

Carlos Andreazza - Finados

O Globo

Ao passar a Presidência para (o de súbito pacificado) Hamilton Mourão (qual será o acordo?), Jair Bolsonaro falou em folga. É como o chefe de Estado brasileiro — um destruidor infeliz, agente dilapidador que não gosta de trabalhar, despreza a República e a democracia representativa — compreende uma viagem oficial: folga. Escape. Talvez mesmo liberdade.

Liberdade para — segundo a compreensão bolsonarista de direito individual — forjar inimigos artificiais, difundir conspirações, apregoar desconfianças, investir contra a estabilidade institucional e — por que não? — distribuir pancadas.

Garanto que se divertiu em Roma; especialmente ao ver seus cachorros mordendo jornalistas. Ele não precisaria ter ordenado a caçada para haver ordenado a caçada. Apito soprado faz tempo; e todos os dias. A palavra de um presidente, tanto mais a de um líder personalista que se mitifica, resulta. São anos de pregação até um arranjo autoritário em que jornalistas tenham de agradecer quando apenas intimidados.

Não nos enganemos: aquilo — o que se viu na blitz da milícia de Bolsonaro contra a imprensa — é biscoito para a base social extremista há semanas chateada com o presidente cujas barbaridades restringiram-se, reduziram-se, à desqualificação de vacinas. Como!? Somente isso!?

Não nos enganemos: o assalto contra jornalistas foi o gozo entre bolsonaristas. Desqualificar vacinas já é pouco. A turma quer — acostumou-se com — mais. Quer conflito. E aqui convém projetar, com bastante segurança, o que será o ano eleitoral a vir: uma campanha violenta, materialmente violenta, de riscos sem precedente, e não apenas para profissionais de imprensa, em que as pessoas — como gangues — sairão no braço. Briga de rua, sob o espectro da forra pela facada.

Luiz Carlos Azedo - O luto dos outros

Correio Braziliense

As vítimas da covid-19 foram sepultadas em caixões lacrados, sem que amigos e familiares pudessem ver, pela última vez, o rosto de seus entes queridos

Na crônica A morte dos outros, publicada no livro Alta ajuda (Foz Editora), o filósofo e professor Francisco Bosco — filho do cantor e compositor João Bosco — afirma que se uma divindade lhe desse a chance de fazer um único pedido, não seria um pedido para a vida, mas para a morte. “Eu escolheria como morrer, aliás, como não morrer: eu pediria que, entre as infinitas formas possíveis de encontrar a morte, eu fosse poupado unicamente de ser buscado por ela em um acidente de avião.”

Segundo ele, todos sabemos que vamos morrer, mas o que torna suportável a nossa finitude é ela ser indeterminada, porque não sabemos quando vamos morrer e, por isso, essa é uma verdade encoberta, como uma doença indolor. Por isso, é tão aterrorizante ser desenganado por uma doença incurável e saber que os nossos dias estão contados. Entretanto, Bosco não tem medo do perigo, da morte no mar ou mesmo num voo de asa delta, já levou até um tiro durante um assalto, mas não quer morrer num acidente aéreo:

Moro chega ao Brasil para trabalhar pré-candidatura

Ex-ministro quer pacto com os candidatos da terceira via

Por Isadora Peron e Marcelo Ribeiro / Valor Econômico

BRASÍLIA - Lideranças do Podemos começaram a preparar a pré-candidatura de Sergio Moro à Presidência da República. O mais provável é que o lançamento ocorra no dia 10 de novembro, quando está marcada uma cerimônia em Brasília para filiar o ex-juiz da Lava-Jato à sigla. Antes tratada com parcimônia, a disposição do ex-ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro de entrar na disputa e encarnar o papel da terceira via passou a ser abordada de maneira direta por integrantes da legenda.

Moro desembarca no Brasil hoje, depois de uma temporada nos Estados Unidos, com o objetivo de colocar de pé a sua candidatura ao Palácio do Planalto. Isso, no entanto, não será feito a qualquer custo. Como ainda falta algum tempo até a eleição, a ideia do ex-ministro é fazer um “pacto” com os demais candidatos da terceira via.

Esse acordo passaria até mesmo pela possibilidade de ele abrir mão da cabeça de chapa com o objetivo de fortalecer o nome que tivesse mais chance de quebrar a polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Moro tem conversado sobre o assunto com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que deve se filiar ao novo União Brasil.

Também do Paraná, o senador Oriovisto Guimarães (Podemos) tem sido um dos principais interlocutores do ex-ministro. Segundo ele, Moro tem mantido contado com diferentes atores, inclusive da área econômica. O parlamentar evita falar sobre o perfil do vice da futura chapa - e diz que isso, além de ser uma escolha do candidato, só será definido mais para frente. Outros aliados de Moro, no entanto, ponderam que o ideal seria um nome da política tradicional, para quebrar a resistência que o segmento tem do ex-juiz da Lava-Jato.

PSD arma palanque presidencial para Pacheco em dezessete Estados


Presidente do Senado já foi lembrado como possível vice de Bolsonaro e também é citado como opção para Lula

Por Andrea Jubé / Valor Econômico

BRASÍLIA - Já foi deflagrada a montagem de palanques competitivos nos Estados vinculados a uma possível candidatura presidencial de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, que trocou na quarta-feira o DEM pelo PSD. Será dada prioridade aos maiores colégios eleitorais, como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O projeto paulista, entretanto, aguarda a resposta do convite feito ao ex-governador Geraldo Alckmin para ingressar no PSD - ele ameaça deixar o PSDB após as prévias do partido marcadas para o fim do mês. Mas o partido abriga puxadores de votos em quase todos os Estados.

“Não se faz política sem porto”, ressalta o deputado André de Paula, segundo vice-presidente da Câmara, ao relembrar um dos ensinamentos do ex-vice-presidente Marco Maciel, morto em junho. O parlamentar, que é presidente do diretório do PSD de Pernambuco e uma das principais lideranças da sigla no Nordeste, reconhece que Pacheco enfrentará o favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na região.

No entanto, André de Paula explica que, em cada “porto” onde Pacheco desembarcar, contará com uma liderança expressiva do PSD para recepcioná-lo no aeroporto, levá-lo para uma rádio local para dar entrevista, conduzi-lo a um auditório onde ele poderá discursar para 2 mil ou 3 mil pessoas e depois acompanhá-lo em um almoço na casa de uma autoridade, com prefeitos e demais aliados regionais.

“No Nordeste, pode ser que Rodrigo [Pacheco] não tenha hegemonia, mas ele com certeza terá porto”, afirma. André de Paula será o “porto” de Pacheco em Pernambuco, onde o PSD integra a frente ampla de apoio ao governador Paulo Câmara e ao prefeito de Recife, João Campos, ambos do PSB. Ele é cotado para concorrer ao Senado na chapa que deverá ser encabeçada pelo ex-prefeito de Recife Geraldo Júlio (PSB).

Planalto teme que Pacheco candidato amplie entraves para o governo no Senado

Auxiliares avaliam que senador, cotado para a chamada terceira via de 2022, pode tentar impulsionar agenda própria na Casa

Marianna Holanda, Ricardo Della Colleta / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A filiação ao PSD do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), e as especulações sobre sua intenção de disputar as eleições presidenciais de 2022 acenderam um alerta no Palácio do Planalto em relação a possíveis impactos na pauta governista no Congresso Nacional.

Interlocutores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) temem que o senador adote cada vez mais uma postura de candidato e que, consequentemente, projetos importantes para o governo fiquem prejudicados na Casa. Hoje, o Senado é o maior obstáculo da articulação política do governo.

Pacheco se filiou ao PSD em 27 de outubro, movendo mais uma peça no xadrez eleitoral de 2022 para se tornar um eventual adversário do presidente. A cerimônia, com toda a pompa de "terceira via" e críticas do senador à polarização Lula x Bolsonaro, chamou a atenção de interlocutores do presidente.

"Estamos cansados de viver em meio a tanta incerteza, a tanta incompreensão e intolerância. Uma sociedade dividida, em que cada um não admite o contrário e não aceita a existência do outro, nunca irá chegar a lugar algum", afirmou o senador, no ato de sua filiação.

Joel Pinheiro da Fonseca - O radicalismo gera seu contrário

Folha de S. Paulo

É uma saída fácil fechar a discussão dizendo que o jogador está arcando com as consequências de suas palavras

O enredo já é comum. Dessa vez foi com o jogador de vôlei Maurício Souza. Ele fez um post homofóbico em sua rede social. Não continha injúria direta a ninguém nem ameaça nem incitação a qualquer violência; mas basicamente dava a entender que a representação de um beijo gay numa história em quadrinhos traria consigo perigosas consequências sociais. Era, enfim, preconceituoso, e não há por que defendê-lo.

O post gerou indignação. A indignação, comoção popular nas redes exigindo a demissão do jogador. Inicialmente, ele tentou contornar a situação com um tímido (e, ao que tudo indica, insincero) pedido de desculpas. Mas a pressão social chegou às empresas patrocinadoras do Minas Tênis Clube, que ameaçaram retirar o patrocínio caso o jogador continuasse na equipe. Ele foi, enfim, demitido. E aqui estamos nós de novo discutindo o "cancelamento".

Hélio Schwartsman - Direito e moral

Folha de S. Paulo

STF vai na contramão do Iluminismo ao tornar injúria racial delito imprescritível

Um passo decisivo para a humanidade foi separar o direito penal da moral. O primeiro é uma instituição humana desenhada para inibir condutas antissociais. Apela principalmente à razão e ao cálculo. Não é coincidência que os códigos assumam a forma de tabela de preços: delito x – y anos de cadeia. A moral é mais visceral. Ela surge dos impulsos com que a biologia nos dotou para que pudéssemos sobreviver a nós mesmos. Ela se materializa na repulsa ao assassino, na vontade de castigar aqueles que vemos tentando obter vantagens indevidas etc.

O divórcio entre direito e moral se deu a partir do século 18, sob inspiração do Iluminismo. Ele possibilitou conter comportamentos que prejudicam a sociedade nos valendo de doses cada vez menores de violência estatal. Para início de conversa, deixamos de punir práticas que, embora alguns julguem imorais, não ameaçam o convívio social, como a blasfêmia e o sexo extramarital.

Cristina Serra - O fim do Bolsa Família

Folha de S. Paulo

O Brasil de Bolsonaro nos faz retornar a um tempo de brutalidade e indiferença

Nos anos 1970, o economista Edmar Bacha cunhou o termo "Belíndia", que passou a ser usado como sinônimo do abismo entre dois "brasis": a Bélgica dos mais ricos e a Índia dos miseráveis. Em 2009, Bacha disse em entrevista que o conceito não era mais adequado. Em resumo, argumentou que a desigualdade ainda era forte, mas que o crescimento econômico, com aumento de renda e programas sociais, havia melhorado muito a parte "Índia" do Brasil.

Eliane Cantanhêde - Bolsonaro, um peixe fora d’água na ida à Europa

O Estado de S. Paulo

A viagem do presidente Jair Bolsonaro à Europa, fugindo da COP-26, na Escócia, e passando vexame na cúpula do G-20, na Itália, é de deixar qualquer brasileiro morto de vergonha, pela forma e pelo conteúdo. E Bolsonaro volta com o carimbo de “incapaz” que lhe atribuiu o Financial Times, ícone do liberalismo mundial.

As imagens do presidente brasileiro dizem tudo: isolado num banco no G-20, papeando com garçons por falta de interlocutores entre os líderes, falando absurdos para um Recep Erdogan mudo e perplexo e, ainda, dando aquela gargalhada falsa que o filho Flávio imitou no fim da CPI da Covid. Ele mente, ele gargalha, é um peixe fora d’água.

Mais: depois de Bolsonaro dizer ao turco Erdogan que seus problemas se resumem à Petrobras e à imprensa, os seguranças partiram para cima dos jornalistas que cobriam a viagem. Uma baixaria, em frente à bela embaixada do Brasil em Roma. E, ontem, a polícia italiana reprimiu duramente o “Fora Bolsonaro” no norte do país.

O G-20 abriga as 20 maiores economias e, por pressuposto, seus 20 chefes de Estado ou de governo, mas só aparecem 17 na foto final, na Fontana de Trevi. Bolsonaro, que saíra antes da reunião oficial, durante a fala do príncipe Charles, foi uma das três ausências também ali. Ora bolas, já tinha feito aquele passeio de véspera...

Ruy Altenfelder* - A Constituição Cidadã

O Estado de S. Paulo

O princípio da ‘moralidade’, que a Lei Maior determina que a administração pública tem de obedecer, tem como corolário o comportamento ético

No dia 5 de outubro de 1988, tive o privilégio de ser convidado e de assistir, no Congresso Nacional, à sessão de promulgação da atual Constituição da República Federativa do Brasil.

O saudoso dr. Ulysses Guimarães, ao levantar com as duas mãos acima de sua cabeça o novo texto constitucional, com voz forte e emocionada declarou: “Declaro promulgada. O documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil. Que Deus nos ajude para que isso se cumpra”.

Trinta e três anos depois, a “Constituição Cidadã” já sofreu mais de uma centena de emendas. Mas segue viva, defensora da soberania, da independência e da liberdade. Somos guardiões da Constituição. A maior crítica aos legisladores foi não ter revisto a Constituição no quinto ano de sua promulgação, como determinava a Carta Constitucional de 1988. Nenhuma providência foi tomada pelos legisladores em 1993, o que foi lamentável.

Paulo Hartung - É vital superar a convulsão climática

O Estado de S. Paulo

O Brasil tem exemplos concretos de que trilhar uma nova economia, responsável e escalável, é possível

Ao longo dos últimos séculos, a humanidade contratou um futuro nebuloso na agenda da sustentabilidade. E cabe ao presente reverter a tendência de desfecho desastroso, incluindo a imperativa concertação com vistas a uma nova civilização verde. O aquecimento global e as mudanças do clima se transformaram em emergência climática. Se falávamos em mitigação, diante de danos irreversíveis, agora já devemos cuidar de adaptação, conforme último relatório do IPCC.

Não seria exagero afirmar que o planeta se aproxima de momento dramático. A solução para evitarmos ponto sem retorno depende da viabilização de acordo em escala mundial, que sirva de ponte para ações estruturantes devotadas a uma efetiva virada verde em escala global.

A primeira seção da COP15 da Biodiversidade, ocorrida em outubro, de maneira híbrida, mas a partir da China, constatou que nenhuma das 20 metas de Aichi foi plenamente atingida. Desses debates iniciais, em processo a ser concluído em 2022, foi elaborada a Declaração de Kunming. Assinado por mais de 100 países, o documento exige atitudes urgentes e conjuntas para que a biodiversidade esteja inserida no planejamento de todos os segmentos da economia mundial.

Mirtes Cordeiro* - Escolas públicas… por que não seguimos os nossos pensadores?

 

“…de fato o Brasil é um país que nunca deu importância à educação”. (Cristovam Buarque)

As escolas públicas estão ressurgindo, saindo de uma longa jornada de isolamento em que alunos e professores se afastaram por imposição do vírus para uma grande reflexão sobre seu rumo.

O afastamento forçado foi uma oportunidade – dentro da adversidade – propícia para que gestores e professores observassem com mais precisão as lacunas, há muito tempo apontadas no ensino básico, e que tem levado a tão pífios resultados: baixos resultados na aprendizagem dos alunos; baixa permanência na sala de aula; violência na escola e pouca integração com as comunidades.

As nossas escolas públicas há mais de cem anos, desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, padecem das mesmas dificuldades, ressalvadas algumas medidas paliativas. Os professores nunca foram valorizados. Segundo José Geraldo Santana, em seu artigo A Histórica desvalorização dos Professores, as emblemáticas palavras de D. Pedro II nunca encontraram eco suficiente na sociedade brasileira. Disse D. Pedro II: “Se eu não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro”.

A elite brasileira nunca se preocupou com a educação como fonte do conhecimento. A preocupação, na verdade, é com o caráter utilitário do ensino universitário para extrair mais-valia e ganhar sempre mais dinheiro.

“Não é de assustar, portanto, que os professores sofram de síndrome do desencanto e que haja constante migração para outras atividades e seja pequeno o percentual dos ingressos, no ensino superior, que queiram dedicar-se ao magistério”, acrescenta Geraldo.

Numa crítica ao período republicano instalado há 43 anos (Proclamação da República/1889), o Manifesto dos Pioneiros apresentado à sociedade brasileira e ao governo Getúlio Vargas, em 1932, expressava a preocupação com a dicotomia existente entre o pensamento econômico e a organização da educação no país.

 “Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação. Nem mesmo os de caráter econômico lhe podem disputar a primazia nos planos de reconstrução nacional. Pois, se a evolução orgânica do sistema cultural de um país depende de suas condições econômicas, é impossível desenvolver as forças econômicas ou de produção, sem o preparo intensivo das forças culturais e o desenvolvimento das aptidões à invenção e à iniciativa que são os fatores fundamentais do acréscimo de riqueza de uma sociedade.” (Texto do Manifesto)

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

A perigosa permanência do lavajatismo

O Estado de S. Paulo

A Lava Jato chegou ao fim, mas o espírito lavajatista ainda existe. Para combater a corrupção, seria permitido e autorizado usar todos os meios disponíveis, inclusive os ilegais

A Lava Jato chegou ao fim, mas seu espírito permanece. Para combater a corrupção, seria permitido usar todos os meios, inclusive os ilegais.

Toda operação de investigação deve ter início, meio e fim. Em vez de efetividade, a eventual perpetuidade de uma operação revelaria sua ineficiência. O fim da Lava Jato não é, portanto, nenhum problema. Na verdade, depois de sete anos, com 80 fases realizadas, era passada a hora de a famosa operação acabar. Por óbvio, terminou a Lava Jato, mas isso não significa que o Estado passe a ser omisso na investigação de malfeitos e suspeitas de crime. Basta ver o que a CPI da Covid descobriu em relação a negociações de vacinas no entorno do Ministério da Saúde. Não pode haver impunidade.

A Lava Jato chegou ao fim, mas – eis ponto que merece ser destacado – continua existindo o que se pode chamar de espírito lavajatista. Segue viva uma específica mentalidade que vai muito além do princípio republicano de que todos são iguais perante a lei e, portanto, todos devem responder à luz da lei por seus atos. Partindo de uma ideia bastante discutível (com bons argumentos de apoio e outros de refutação) – a de que a corrupção seria o grande problema do País, causa e estímulo de todas as mazelas da vida nacional –, essa visão pretende justificar uma conclusão inteiramente antirrepublicana: a de que, para combater a corrupção, seria permitido e autorizado utilizar todos os meios disponíveis, também os ilegais.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Música | Nelson Freire - Beethoven: Piano Concerto No. 4, Monte-Carlo Philharmonic Orchestra & Kazuki Yamada

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Celso Rocha de Barros - Bolsonaro acabou com o Bolsa Família

Folha de S. Paulo

Presidente precisa mentir para a classe média bolsonarista que seu programa é diferente porque desencoraja vagabundagem de pobre

O programa Bolsa Escola, matriz do Bolsa Família, foi uma proposta do economista José Márcio Camargo, apresentada pela primeira vez em uma reunião do "governo paralelo" do PT em 1991. Camargo havia se aproximado do PT por meio de Eduardo Suplicy, cuja proposta de renda mínima tinha semelhanças óbvias com a do economista. O debate entre os dois sobre que setor deveria ser beneficiado primeiro com transferências de renda —crianças em idade escolar (Camargo) ou idosos pobres (Suplicy)— foi publicado nesta Folha em 26 de dezembro de 1991.

O Bolsa Escola foi incluído no programa de governo de Lula de 1994 (p. 173). O programa foi implementado no governo do então petista Cristovam Buarque em Brasília em 1995 e trazido para a esfera federal pelo tucano Fernando Henrique Cardoso em 1998. FHC não mudou o nome do programa, pois tinha vergonha na cara.

Ana Cristina Rosa - Amanhã é dia dos mortos

Folha de S. Paulo

Uma geração de órfãos crescerá sob o estigma do luto

"Amanhã que é dia dos mortos/ Vai ao cemitério/ Vai/ E procura entre as sepulturas/ A sepultura de meu pai/ Leva três rosas bem bonitas/ Ajoelha e reza uma oração/ Não pelo pai, mas pelo filho:/ O filho tem mais precisão/ O que resta de mim na vida/ É a amargura do que sofri/ Pois nada quero, nada espero/ Em verdade estou morto ali."

Os versos do "Poema de Finados", de Manuel Bandeira, têm mais de meio século, porém são de uma atualidade que reflete a trágica realidade que se instalou em mais de meio milhão de lares de brasileiros que viram seus afetos, vítimas da Covid-19, morrer nos últimos meses.

Ainda não se tem clareza do impacto social das mais de 607 mil vidas perdidas no país, muitas delas em decorrência da negligência no trato da crise sanitária, segundo os indícios. Mas já se sabe que uma geração de órfãos crescerá sob o estigma do luto.

Adriana Fernandes - Estudo põe em xeque ‘euforia’ com arrecadação

O Estado de S. Paulo

Para a IFI, órgão ligado ao Senado, avanço da receita com impostos não é duradouro, o que pede cautela nos gastos

Não há motivo para acreditar que a arrecadação do governo vai manter a atual dinâmica de forte crescimento, indica estudo elaborado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), que alerta para a necessidade de prudência do Congresso com medidas de aumento permanente de despesas e de corte de receitas.

Os economistas da IFI, órgão do Senado Federal com autonomia para analisar as contas públicas, se debruçaram sobre esse tema num momento em que o aumento nominal da arrecadação, puxado principalmente pela disparada da inflação, tem sido alardeado como justificativa para a redução da carga tributária – como ocorreu no debate sobre o projeto de reforma do Imposto de Renda. Para a IFI, porém, essa mesma inflação vai provocar elevação mais forte dos juros, com impacto direto no PIB do País.

O órgão do Senado calculou a resposta de longo prazo da receita pública a uma variação de 1% do PIB, fenômeno que no jargão econômico é chamado de “elasticidade”.

Bruno Carazza* - O lero-lero como política pública

Valor Econômico

Plano de crescimento verde expõe o blá-blá-blá brasileiro

A delegação do governo federal chega a Glasgow para a Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP26) desprestigiada e sem resultados concretos a entregar, a ponto de Jair Bolsonaro ter decidido brincar de esconde-esconde para evitar o constrangimento e a cobrança internacionais.

Nas últimas semanas até que houve um corre-corre no Congresso Nacional na tentativa de se aprovar alguma medida que pudesse sinalizar a existência de uma agenda positiva na área ambiental no Brasil, mas nem isso foi possível. Com dados alarmantes de avanço no desmatamento, sem a regulação do mercado de créditos de carbono e após o acionamento de termelétricas para se evitar um apagão energético, tudo o que resta à comitiva de representantes do governo federal é esquivar-se com o tradicional blá-blá-blá das promessas vagas e dos discursos vazios.

Sergio Lamucci - O trunfo desperdiçado

Valor Econômico

Em poucos meses, pressões inflacionárias disseminadas e crescentes incertezas fiscais mudaram totalmente o cenário projetado para a Selic

A avaliação de que os ciclos de alta dos juros no Brasil seriam moderados ficou para trás. Em poucos meses, pressões inflacionárias disseminadas e crescentes incertezas fiscais mudaram totalmente o cenário projetado para a Selic. A ideia de que a taxa não voltaria a rondar os dois dígitos foi substituída pela percepção de que os juros terão de ficar mais altos por mais tempo, para domar uma inflação que deve ficar na casa de 9% neste ano, com aumentos fortes dos preços de alimentos, combustíveis, energia elétrica, bens industriais e serviços.

O drible no teto de gastos, marcando o abandono da âncora para as contas públicas, deteriorou uma perspectiva que já era negativa. A manobra do governo para elevar os gastos públicos no ano eleitoral de 2022 elevou o risco país, desvalorizou ainda mais o câmbio e jogou nas alturas as taxas dos contratos futuros de juros. Ainda que possa haver um exagero nos movimentos recentes dos preços dos ativos brasileiros, o quadro que se desenha até o fim do ano que vem é complicado, dificultando a tarefa de quem vencer as próximas eleições presidenciais. A alta mais forte da Selic vai minar o crescimento, afetar a disposição das empresas em investir, encarecer empréstimos e aumentar o custo da dívida pública. O mercado imobiliário e o mercado de capitais, que viviam um bom momento devido aos juros baixos, também serão prejudicados.

Carlos Pereira - A vitrine da 'terceira via'

O Estado de S. Paulo

Mercado eleitoral anti-Lula e anti-Bolsonaro vai fazer a 'seleção natural' dos candidatos alternativos à Presidência

De acordo com a última pesquisa do Genial/Quaest, 55% dos eleitores ainda não escolheram, de forma espontânea, seu candidato à Presidência em 2022; Lula é o escolhido por 22%, enquanto Bolsonaro, por 17%. Todavia, o ex-presidente e o atual são rejeitados, respectivamente, por 43% e 65% dos eleitores. E, quando perguntados quem preferem que vençam as eleições, 30% respondem: “nem Lula, nem Bolsonaro”.

Portanto, há uma fatia expressiva no mercado eleitoral a ser disputada por uma candidatura alternativa aos dois polos rivais e que se retroalimentam.

O problema para muitos é que, sendo os partidos “não polares” incapazes de se coordenar na escolha de uma só candidatura alternativa à de Lula e à de Bolsonaro, receia-se que uma pletora de candidatos de centro termine por reduzir a disputa à polarização entre Lula e Bolsonaro, que só a eles interessaria.  

Mas esse cenário dificilmente acontecerá. Porque, diferentemente de 2018, é pouco provável que as eleições de 2022 tenham muitas candidaturas alternativas a presidente.

Partidos têm trajetórias distintas em presidencialismos multipartidários. Podem seguir a trajetória majoritária, lançando candidatos à Presidência, ou podem seguir uma trajetória legislativa. Enquanto a trajetória majoritária oferece os maiores retornos ao vencedor, gera os piores ao perdedor. Já a trajetória legislativa proporciona retornos intermediários entre os do vencedor e perdedor.

Fernando Gabeira - A parte que nos toca na COP de Glasgow

O Globo

Ao começar a COP-26, em Glasgow, diante de tantas incertezas sobre a capacidade humana de enfrentar as mudanças climáticas, sinto-me às vezes dividido entre a esperança e a tristeza. Afinal, há quase meio século a questão ambiental definiu meu trabalho. A tendência é constatar como as coisas pioraram de um lado e como melhoraram de outro.

Quando o Clube de Roma, no fim da década de 1960, lançou o primeiro manifesto falando da limitação dos recursos naturais e propondo mudanças na forma de consumir e produzir, a quantidade de carbono na atmosfera era relativamente pequena: pouco mais de 300 ppms, medida que exprime o número de partículas por milhão na atmosfera. Hoje esse índice é de 450 ppms.

As mudanças climáticas tornaram-se um grande tema bem depois do alerta genérico do Grupo de Roma. Naquela época, não se falava tanto em clima, mas na perspectiva de escassez de recursos naturais.

No princípio, contamos com reduzir o aquecimento ao nível de 1,5 grau no fim de século; hoje, já se fala no índice de 2,8 graus.

Às vezes tendo a concordar com a rainha da Inglaterra, que, num acesso de franqueza, sugeriu que os líderes mundiais falam muito, mas fazem pouco. Acontece que o caminho é difícil. O Plano Biden dá uma ideia de como será preciso mudar profundamente uma sociedade dependente do combustível fóssil para reduzir as emissões.

Demétrio Magnoli - A Constituição não milita

O Globo

O juiz Alexandre de Moraes, do STF, emitiu ordem de prisão contra Allan dos Santos, um pistoleiro virtual a serviço do marketing de ódio do bolsonarismo. Foi além, mandando bloquear todos os canais do atirador de aluguel nas redes sociais. As justificativas oferecidas pelo magistrado para a censura irrestrita emanam de uma releitura intolerável da Constituição.

As medidas determinadas pelo juiz inscrevem-se no inquérito das fake news, deflagrado em março de 2019. Mais de 30 meses depois, a investigação prossegue inconclusa, produzindo apenas resultados fragmentários. Tudo indica que o STF a utiliza como ferramenta de contenção política de Bolsonaro: uma tentativa de cercear o bombardeio do governo à democracia. Muitos aplaudem a iniciativa, simulando ignorar que a função judicial é aplicar as leis, não usá-las para gerar efeitos no tabuleiro político. No percurso, celebram uma reinterpretação constitucional que atenta contra a liberdade de expressão.

Gilmar Mendes ensaiou afirmar, mais de uma vez, que temos uma “democracia militante” — um contrato político em que é vedada a opinião antidemocrática. Nada mais falso. A Alemanha é uma “democracia militante”, pois sua Constituição foi desenhada sob a inspiração do “nunca mais”, ou seja, como ferramenta para impedir o retorno do nazismo. O trauma singular do passado legitima o veto a partidos extremistas e a certos discursos que, mesmo sem estimular diretamente a violência, reciclam o exterminismo nazista.

Inflação corrói renda de 70% dos trabalhadores

Alta de preços de produtos essenciais, como alimentos, prejudica os mais pobres

Cássia Almeida* / O Globo

RIO - A inflação está deixando o mercado de trabalho cada vez mais desigual: 70% dos trabalhadores ganham hoje menos do que recebiam em 2019, antes da pandemia. E o peso da alta de preços na desigualdade, que tem sido recorde nos últimos tempos, triplicou desde o terceiro trimestre do ano passado.

Essas são as conclusões de um cruzamento de dados inédito feito pelo economista Daniel Duque, da Fundação Getulio Vargas (FGV), ao medir o efeito da inflação na massa de trabalhadores.

— Os mais ricos consomem mais serviços e menos alimentos e acabam tendo uma inflação menor. Infelizmente, a tendência é só piorar com a aceleração da inflação, com grande perda de consumo das camadas mais vulneráveis — prevê o economista.

Ele fez os cálculos com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, a inflação oficial) de junho, que ainda estava em 8,35%, considerando o acumulado em 12 meses. Hoje, está em 10,25%.

Portanto, os efeitos devem ficar mais intensos com o avanço dos preços. O IBGE mostrou que o rendimento do trabalho teve queda histórica de 10,2% em agosto.

A conta de Duque é baseada no redimento do trabalho domicilar per capita, ou seja, dividido pelo número de pessoas da família. Os 30% que conseguiram chegar a 2021 ganhando mais que há dois anos pertencem ao topo da pirâmide social.

Quanto mais perto da ponta, maior o ganho. Entre os 10% mais ricos, o ganho real chegou a 8%. Já entre os que estão nas camadas médias de renda, na faixa entre os 30% e 40% mais pobres, o recuo chegou a 28%.

Duque lembra que a inflação mais alta no terceiro trimestre deste ano fez a situação ficar ainda mais dramática, sem contar os que ficarão sem qualquer transferência do governo, com o fim do auxílio emergencial. O benefício deixou de ser pago no mês passado. O Auxílio Brasil, o substituto do Bolsa Família, não será distribuído a milhões que estavam recebendo o auxílio emergencial:

— Certamente o poder de compra pós-auxílio teve forte queda, não só pela inflação ser pior para os mais pobres. Houve redução nominal nas transferências (frente ao ano passado, quando o auxílio emergencial era de R$ 600).

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O medo é o pior dos conselheiros

O Estado de S. Paulo

A reeleição de Bolsonaro ou o retorno de Lula ao poder suscitam temores justificados. Mas uma nova via precisa ser construída sobre a esperança

Lula e Bolsonaro suscitam temores. Nova via deve ser construída sobre a esperança.

Após quatro mandatos de um governo populista à esquerda e um mandato de sua contraparte populista à direita, os altos índices de rejeição aos dois candidatos que lideram as pesquisas para a eleição de 2022 revelam que boa parte da sociedade a vê como uma oportunidade de renovação da política.

A reeleição de Jair Bolsonaro significaria a manutenção de uma crassa incompetência administrativa e da maior ameaça à democracia brasileira desde 1964. O retorno do lulopetismo significaria reeditar uma agenda que negligenciou as condições para o desenvolvimento sustentável, alimentou o corporativismo e o clientelismo, disseminou ainda mais a corrupção endêmica, precipitou o País na maior recessão de sua história e, por último, mas não menos importante, inflamou o sectarismo que alçou Bolsonaro ao poder.

Ante a erosão econômica, social e moral provocada pelo lulopetismo e agravada pela incúria e o autoritarismo de Bolsonaro, o empresariado tem se mobilizado cada vez mais em nome do interesse público, seja em defesa dos alicerces democráticos, como nos manifestos contra as agressões do presidente às instituições republicanas, seja em apoio a políticas públicas inovadoras de inclusão social, meio ambiente ou educação.

“Vejo um crescente envolvimento da sociedade na política. Vejo mais gente querendo se candidatar a cargos públicos”, disse ao Estado o empresário Fabio Barbosa, que foi signatário de um manifesto em apoio ao sistema eleitoral e participa de grupos de executivos empenhados em promover a racionalidade no debate político. “Eu quero que as pessoas votem por acreditar, e não por ter medo.”

Foi o medo de um quinto mandato lulopetista que alavancou o apoio de parte do empresariado a Bolsonaro em 2018. Aqueles que se deixaram enganar pelas promessas fajutas de liberalismo de Paulo Guedes já perceberam que ele só entregou demagogia. Barbosa lembrou os malogros do governo, incapaz de dar o devido arranque ao novo marco do saneamento básico ou encampar privatizações e reformas, como a tributária e a administrativa. Hoje, a política econômica é refém dos interesses patrimonialistas do Centrão e do projeto de poder de Bolsonaro.

Poesia | Ferreira Gullar -Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Música | Caetano Veloso - Anjos Tronchos

 

domingo, 31 de outubro de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - Mais Brasil e mais Brasília: a via política como solução

“Mais Brasil, menos Brasília” era um slogan a que Jair Bolsonaro apelava quando o governo eleito em 2018 ainda despertava expectativa positiva em partes da sociedade brasileira, fora do círculo cada vez mais estreito do eleitorado que hoje ainda o trata como mito. Mas o slogan não guardava afinidade apenas com a candidatura vencedora naquelas eleições. Funcionava, subliminarmente, como cartão de visitas da chamada “nova política”, que muitos imaginavam estar surgindo no Brasil, após a blitz que a Operação Lava-jato dirigiu à chamada “velha política”. Esse foi o nome-fantasia com que a ética faxineira batizou seu real adversário, o sistema institucional onde se opera a política de todos os partidos e lideranças políticas. Lamentavelmente, a elite política reagiu à blitz de autoproclamados guardiães de virtudes republicanas com uma espécie de strip tease. Entregou-se a ritos autofágicos, com quase todas as suas facções partidárias caindo no autoengano de tentar surfar na onda do lava-jatismo para escapar do afogamento geral que ela pretendia causar.

A omissão e o escapismo das lideranças e partidos que acabaram entregando o país à extrema-direita foram de tal monta que correram da raia tanto a facção de esquerda que ocupava o governo e que - exatamente por estar no governo - havia sido atingida pelos primeiros petardos da Lava-Jato, quanto as facções de centro e de direita que se uniram pelo impeachment de uma presidente já caída em desgraça pela rejeição popular e foram igualmente alcançadas, na sequência, pela perversidade de uma operação que degenerou, como se sabe, em toda sorte de arbitrariedades.  Omitiu-se o grupo governante até 2016 ao fazer ouvidos moucos aos protestos de 2013 (que legitimamente e pacificamente cobravam eficácia e transparência do governo na prestação de serviços públicos) e ao tentar refratá-los pelo despiste para uma fictícia reforma política, chegando ao ponto de ameaçar a Carta de 1988 com uma insólita ideia de Constituinte. Já os grupos que apearam do poder aquele grupo governante também se omitiram ao negarem ao governo de transição que criaram o apoio e a solidariedade necessários para que se desse em clima de unidade a travessia até as urnas, hora em que os litigantes prestariam contas aos eleitores. As forças derrotadas na batalha do impeachment tentaram escapar pela narrativa do “golpe” e as vencedoras por um salve-se-quem-puder que fugia à responsabilidade política pela solução encontrada. Da combinação desses escapismos resultou a catástrofe atual.

Merval Pereira - Sem lugar de fala

O Globo

A ida de Bolsonaro à reunião do G20 não tem a menor importância. O importante é ele não ir à reunião mundial do clima na Escócia, da qual depende nosso futuro, e o do mundo. Tanto no G20 quanto na COP26, ele não tem lugar de fala, não tem nada a dizer. Não ir à COP26 é sinal de que o assunto não é prioridade do país. Como explicar que acabou de dar uma pedalada para mudar o critério de emissão de carbono, para poder poluir mais ?

Somos o quarto ou quinto país em emissão de carbono, ao lado de China, Rússia, Índia e Estados Unidos. O Brasil já foi protagonista na discussão sobre meio ambiente, e no esforço de reduzir a emissão de carbono. Hoje é um pária internacional. O país tem uma fonte de riqueza espetacular na Amazônia, e o governo só faz destruí-la, não entende que uma árvore em pé é mais importante economicamente do que derrubada.

O Brasil estaria com a faca e o queijo na mão nesse assunto. Se tem um país no mundo que tem todas as condições, uma matriz energética muito limpa, este é o Brasil. Nossa energia é 80% limpa, renovável com as hidrelétricas, a da China é 60% de carvão mineral, nossa vantagem comparativa é imensa. Para Sérgio Margulis, doutor em economia ambiental pelo Imperial College de Londres e  pesquisador sênior  do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), a racionalidade econômica seria o Brasil puxar por essa agenda, onde temos uma vantagem enorme. “É uma questão econômica, comercial, não tem nada de esquerda ou de direita”, ressalta.