domingo, 2 de abril de 2023

Opinião do dia - André Lara (disse tudo)*

André Lara Resende disse tudo na sua entrevista à repórter Míriam Leitão, quando tratou dos economistas que defendem a atrofia do Estado:

“Essa (é a) visão dominante entre os economistas do mercado financeiro. Quem aparece na grande mídia são 99% os economistas que trabalham no mercado financeiro. Eles falam consigo mesmo. E eles aparecem na mídia. E a grande mídia está completamente dominada por essa percepção, essa visão de mundo.”

*Coluna de Elio Gaspari, O Globo, 2 de Abril 2023

Dorrit Harazim - Nosso umbigo

O Globo

O momento atual parece excelente para também no Brasil o jornalismo profissional se repensar de ponta-cabeça

Na semana passada apoiadores do diário britânico The Guardian encontraram um comunicado incomum em suas caixas postais eletrônicas. Assinado pela editora-chefe Katharine Viner, o anúncio informava o resultado de uma investigação de dois anos encomendada a um plantel de eminentes acadêmicos do país. No relatório final, intitulado “Legado e escravização”, o grupo independente concluíra que, sim, o Manchester Guardian (nome original do jornal até 1951) dependera de trabalho escravo em seu nascedouro.

Para o jornal bicentenário, zeloso de sua independência editorial e financeira, foi uma questão de coerência moral ir até o fundo de suas raízes.

Como se sabe, o Guardian não é um matutino qualquer. Ocupa lugar bastante solitário entre as grandes mídias tradicionais de países democráticos. É regido há quase nove décadas por um truste sem fim lucrativo, criado em testamento pelo visionário C.P. Scott, seu mais longevo proprietário e editor. Cabe ao Scott Trust, formado por um conselho de oito integrantes (jornalistas, executivos e representantes externos), financiar o jornal — basicamente por meio dos dividendos gerados por seus investimentos. A ideia central do arranjo está em proteger o jornal de interferências políticas e comerciais. Apesar de sofrer prejuízos marcantes, como boa parte da mídia no mundo todo, o Guardian procura honrar esse compromisso. Isso envolve não só cobrir o presente e olhar para o futuro, como fuçar o próprio passado.

Merval Pereira - Caçando jabutis

O Globo

Arthur Lira vai ganhar força nas negociações do arcabouço, mas governo tenta, nos bastidores, minar seu poder

O governo Lula precipita-se na articulação de bastidores para minar o poder do presidente da Câmara, Arthur Lira, no mesmo momento em que precisa de seu apoio para aprovar o chamado arcabouço fiscal, que sinaliza seu compromisso com o equilíbrio das contas públicas.

Há uma contradição em termos na presunção de que o Congresso será capaz de cancelar desonerações e cortar subsídios, de criar novas instâncias de taxação de setores hoje blindados, exterminar os chamados “jabutis” de medidas provisórias. Como se sabe, Jabuti não sobe em árvore, e se vir um em algum galho, tenha certeza de que alguma mão o colocou lá.

Essas muitas mãos que colocaram múltiplos jabutis nas medidas provisórias, que deveriam ser todas anuladas porquanto os “jabutis” tratam sempre de temas que nada têm a ver com a medida provisória em si, o que é proibido por lei, são mãos com foro privilegiado e poder para inseri-los, e que agora terão como missão impossível retirá-los de lá.

Difícil acreditar nisso, já que o Congresso sempre é mais gastador, especialmente este, que ansiava pelo orçamento secreto, doce que lhe foi tirado da boca pelo presidente eleito Lula, em busca de recuperar o poder de barganha perdido por Bolsonaro. Lula conseguiu, mas nem tanto. Teve que fazer acordos, abrir mão de parcela do orçamento para cumprir compromissos já assumidos por Lira, aceitar negociações em posição de desvantagem.

Luiz Carlos Azedo - Lula precisa achar a passagem do meio

Correio Braziliense

“Quem está contra o novo arcabouço fiscal defende o corte de despesas do governo, que sempre é possível, mas tem alto custo social e político”

A mais bem-sucedida experiência desenvolvimentista pós II Guerra Mundial foi a dos chamados Tigres Asiáticos: Coreia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Taiwan. Governos intervencionistas protagonizaram a transformação desses países de economias estagnadas em países dinâmicos e industrializados, cada qual ocupando um papel específico na nova divisão internacional do trabalho. Na sequência, vieram Malásia, Tailândia, Indonésia, com modelos semelhantes, e a China, que saiu do “comunismo de guerra” de Mao Tse Tung para o “capitalismo de Estado” de Deng Hsiao Ping. Hoje, é o Vietnã que envereda com sucesso por esse mesmo caminho.

Na Ásia, burocracias muito fortes comandaram um processo no qual a iniciativa privada foi preservada, com o Estado investindo fortemente em ramos estratégicos e na inovação tecnologia. Grandes investimentos na educação proporcionaram a mão de obra qualificada necessária para os novos setores da economia, na transição do agrário para o urbano. Em 1950, o PIB per capita da Coreia do Sul era metade do PIB do Brasil; em 1990 era o dobro, em 2005, três vezes maior. No ano passado, era quatro vezes.

Bernardo Mello Franco - Lula precisa se ajudar

O Globo

Governo aposta em ofensiva publicitária, mas presidente é aconselhado a evitar novos conflitos

Na semana passada, um velho aliado entregou uma carta a Lula. Em tom de alerta, o texto enumerava tropeços no início do governo. E sugeria que o destinatário maneirasse para evitar novos conflitos e esfriar a temperatura política no país.

Para o conselheiro, o presidente erra ao alimentar a polarização em vez de combatê-la. Isso daria fôlego ao bolsonarismo e produziria efeitos negativos sobre a popularidade dele.

O novo Datafolha confirma que Lula começou pior do que em seus dois mandatos anteriores. Às vésperas de completar cem dias no cargo, o petista é aprovado por 38% e reprovado por 29% dos brasileiros. Em abril de 2003, ele tinha 43% de bom e ótimo e apenas 10% de ruim e péssimo. Em 2007, após a reeleição, os índices eram de 48% e 14%.

Todos sabiam que a nova largada seria mais difícil. O presidente venceu uma eleição muito apertada, que refletiu a divisão do país. E enfrenta uma oposição barulhenta e radicalizada, sem paralelo com a dos tucanos de duas décadas atrás.

Ainda assim, Lula teve a chance de virar a página e criar um clima de união nacional após os atos golpistas de 8 de janeiro. Ele acertou na reação imediata aos ataques, mas depois se atrapalhou com a própria incontinência verbal.

Elio Gaspari - Precatórios e aeroportos

O Globo

A empresa espanhola Aena pretende pagar 50% (R$ 1,16 bilhão) da outorga da concessão do aeroporto de Congonhas com precatórios. Esse é o nome dado a dívidas da Viúva, reconhecidas pela Justiça e caloteadas pelos governos.

A lei permite que esses espetos sejam usados em transações com o poder público. O caso expõe o preço da voracidade dos governos e a balbúrdia jurídica de Pindorama. Enquanto precatórios servem para quitar a outorga de um aeroporto, vale a pena ir a outro, o do Galeão.

Na década de 1940, durante a ditadura do Estado Novo, o governo de Getúlio Vargas resolveu construir um novo aeroporto no Rio de Janeiro. Oficiais foram à ilha do Governador e escolheram a área. Com uma canetada ela foi desapropriada e os proprietários das terras foram tungados.

Começou uma batalha jurídica. Os lesados tiveram seu direito reconhecido em 1951 e assim surgiu a figura do “precatório do Galeão”. O governo devia, não pagava, e os papéis —desvalorizados— iam de mão em mão.

Celso Rocha de Barros - Nem Dilma nem Palocci

Folha de S. Paulo

Equipe econômica até lembra aliança PT/PSDB sonhada por Palocci, mas circunstâncias políticas são piores do que as enfrentadas por Dilma

O novo arcabouço fiscal mostrou que Lula-3 não é nem Lula-1 nem Dilma-1. É um governo que reconhece a necessidade de equilibrar as contas, mas vai tentar fazer isso gradualmente. Pode dar certo, pode dar errado, mas não há nada de maluco sendo proposto.

A boa notícia é que, pelos cálculos do economista Felipe Salto, ex-presidente da Instituição Fiscal Independente, a nova regra terá um efeito importante na evolução da relação dívida/PIB nos próximos anos.

Em uma entrevista para o site Brazil Journal, Salto afirmou que, em suas projeções anteriores, a relação dívida/PIB tinha tendência crescente chegando a 95,3% em 2032. Se a nova regra for aplicada, a projeção mostra esse número se estabilizando já em 2026-7.

Isto é, a nova regra, se for aplicada direito, deve evitar que a dívida pública brasileira saia de controle. Em condições normais, isso fará os juros caírem.

Bruno Boghossian - O estoque de popularidade de Lula

Folha de S. Paulo

Petista dá tiro curto para reforçar conexão com sua base, mas não acumula estoque de popularidade

Lula decidiu abrir o terceiro mandato com um investimento de retorno rápido. Nos meses inaugurais, o petista apostou no contraste com Jair Bolsonaro, resgatou programas demolidos pelo antecessor, relançou marcas de gestões passadas e buscou reforçar uma conexão com o núcleo de seu eleitorado.

A primeira pesquisa do Datafolha sobre a popularidade do governo dá sinais do alcance dessas escolhas. Lula 3 colheu resultados de curto prazo em grupos ávidos pela recuperação de políticas públicas, mas também vê as limitações de uma plataforma concentrada em sua própria base.

A retomada de ações ambientais, o socorro aos yanomamis, a recriação do Ministério da Cultura e a volta do Bolsa Família reforçaram o vínculo com segmentos fiéis da coalizão petista. Entre os mais pobres, 45% dizem que o governo é ótimo ou bom.

Ruy Castro - Nunca aos domingos

Folha de S. Paulo

Com duas exceções, tudo de realmente importante no Brasil aconteceu num dia de semana

Sempre desconfiei de que nada de muito importante aconteceu no Brasil aos domingos —importante no sentido de mudar a história. Fui checar, usando uma tabela de conversão num antigo Almanaque Capivarol, e vi que estava certo. Só em duas ocasiões tivemos fatos decisivos num domingo.

execução de Tiradentes, em 21 de abril de 1792, não foi um deles —caiu num sábado. Nem o Dia do Fico, 9 de janeiro de 1822, uma quarta-feira. Nem o da Independência, 7 de setembro, um sábado. A Guerra do Paraguai começou numa sexta, 13 de dezembro de 1864; em outra, 15 de novembro de 1889, proclamou-se a República; e em ainda outra, 3 de outubro de 1930, caiu a Primeira República.

Muniz Sodré* - Escorregando na linguagem

Folha de S. Paulo

Disse Rumi, poeta persa: 'Já que todos somos um, falemos de outro modo'

"Ninguém fala para si mesmo em voz alta. Já que todos somos um, falemos de outro modo."

Essa exortação atualíssima parte de Rumi, poeta e teólogo sufi persa do século 13, um místico cuja importância transcende fronteiras.

São palavras adequadas aos ouvidos de Lula, sobrecheios de desconfortos passados e presentes, capazes de perturbar consciência e linguagem.

O poeta recomenda: "Eleve suas palavras, não sua voz / É a chuva que faz florescer, não o trovão".

Isso vem a propósito de reprováveis tropeços verbais do presidente no espaço público. Ainda que esse espaço esteja contaminado pela efemeridade das redes e sua aversão à civilidade, espera-se de alguém eleito pelo voto de renormalização institucional um esforço de continência de atitude e de linguagem.

Eliane Cantanhêde - Centrão x Centrão

O Estado de S. Paulo

O problema não é PT nem mercado, é o centro, ou melhor, o Centrão do Congresso

O presidente Lula aproveitou a broncopneumonia para calar a boca, parar de falar besteira e dar a largada no plano fiscal, recebido bem à direita, pelo mercado, e à esquerda, pelo PT. O problema é com o centro e o Centrão e, se o pior momento de Lula pode ter passado, o plano vai chegar ao Congresso com a Câmara, o Senado e os partidos em chamas.

A B3 voltou a subir acima dos 100 mil pontos, o dólar caiu e, agora, o mercado está como Roberto Campos Neto, do BC: aguardando o texto protocolado no Congresso, com todos os detalhes, principalmente sobre a mágica para aumentar a arrecadação, espinha dorsal e grande dúvida do pacote.

O PT, dentro e fora do governo, botou a boca no trombone durante a elaboração do plano, mas com o compromisso de calar depois do anúncio. E, se o mercado acha o conjunto de ideias engenhoso e que a questão fiscal está bem tratada, o PT de Gleisi Hoffmann e Rui Costa se dá por satisfeito com o tratamento para programas sociais, Educação e Saúde.

A preocupação está no centro, ou melhor, no Centrão do Congresso. As cúpulas, com Arthur Lira na Câmara e Rodrigo Pacheco/Davi Alcolumbre no Senado, estão em sintonia com Fernando Haddad e reagiram bem ao plano. Mas, além da crise entre as duas Casas por causa das MPs, está pegando fogo dentro das próprias Casas.

José Roberto Batochio* - Sem o devido processo legal não há democracia

O Estado de S. Paulo

Aos que chancelam atual estado de coisas, havendo-o por mal necessário e reação legítima da ‘democracia militante’, não se deve juntar a voz legalista da advocacia

“Quem quiser garantir a própria liberdade deve preservar até seu inimigo da opressão; pois, se infringir esse dever, estabelece um precedente que atingirá a si próprio” (Thomas Paine, em Dissertação sobre os primeiros princípios do governo)

Com autoridade de coadjutor das libertárias revoluções americana, em 1776, e francesa, em 1792, o inglês Thomas Paine legou-nos preciosa obra política e influenciou a consolidação dos Estados constitucionais. Sua militância revolucionária não o poupou da prisão em Paris, no período do Terror jacobino, escapando, porém, da guilhotina de Maximilien de Robespierre, sob cuja lâmina implacável a também revolucionária Manon Roland pronunciou a célebre frase: “Ó, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.

Na quadra atual, em que o Brasil vivencia as mais longas e duradouras liberdades democráticas de sua história, ressurge certa dogmática jurídica fortemente rechaçada na obra de Thomas Paine. Ela se fundamentaria no princípio da terapia homeopática similia similibus curantur: semelhante pelo semelhante se cura. A quem viola a lei também se pode punir com violações à lei – ideia sedutora em conjuntura política de afrontas a valores essenciais do Estado Democrático de Direito, pisoteados por grupos radicais de extrema direita.

Devido processo legal? Liberdade de opinião e expressão? Vedação de censura? Imunidade parlamentar? Direito de não ser preso senão em flagrante delito inafiançável ou por imutável sentença judicial? Eis valores democráticos sagrados, mas preteridos, paradoxalmente em nome de sua preservação, quando se recorre à multicitada máxima de Ovídio de que os fins justificam os meios.

Substancialidade das democracias, o devido processo legal veda ao Estado-sancionador, garante da legalidade e repressor dos delitos, atribuição para sumariamente investigar, acusar e infligir penas antecipadas a acusado protegido pelo princípio magno da presunção de inocência.

José Roberto Mendonça de Barros - Finalmente, chegou a proposta

O Estado de S. Paulo

O arcabouço proposto é bastante razoável. Porém, ele terá de ser aprimorado

Finalmente, chegou a proposta de arcabouço fiscal. Antes de tudo, ela significa que o governo poderá ter um rumo que busque conciliar sustentabilidade e melhoria social. E não uma guerra de posições que apenas resulte na aceleração do processo inflacionário e em estagnação.

Não será simples nem fácil. Mas a proposta foi relativamente bem recebida se medida pela queda do valor do dólar, pelo efeito no sistema político e pela avaliação de parte dos analistas. Todos concordam, corretamente, que faltam os detalhes que só aparecerão no projeto da lei complementar. É possível que a divulgação antecipada de um quadro geral tenha sido pensada para facilitar a compreensão do público e permitir que certas críticas sejam, eventualmente, incorporadas ao projeto, o que não seria ruim.

Míriam Leitão - As chances da nova regra fiscal

O Globo

Fortalecido, em três meses Haddad venceu a desconfiança do mercado, superou batalhas internas e convenceu o governo a ter um limite de gastos

A grande pergunta que ronda a economia agora neste começo de abril é se vai dar certo o arcabouço fiscal. É preciso esperar o desenho final que sairá do Congresso, mas certas críticas vêm com um travo de saudosismo em relação ao último modelo de disciplina fiscal, aquele que fracassou. O teto de gastos dizia que a despesa pública não iria crescer em termos reais e, portanto, cairia como proporção do PIB. O teto foi derrubado pelo governo que alegava ser liberal e querer um estado menor. O arcabouço diz que a despesa vai subir em termos reais, mas dentro de uma disciplina. Andará sempre um passo atrás das receitas e ficará dentro de um intervalo que limite a alta nos tempos de prosperidade, e amorteça a queda em momentos de dificuldade.

O ministro da Fazenda foi costurando apoio em círculos. Primeiro, o dos ministérios da área econômica. Depois, o da área política. Em seguida, os presidentes das duas Casas. Por fim, os líderes. Dar bem o passo da apresentação é importante, mas não suficiente. A vantagem é que o próprio ministro avisou que não é bala de prata, mas o começo da jornada.

Vinicius Torres Freire - Um teto para gregos e troianos

Folha de S. Paulo

Longe de ideal ou necessário, plano pode convencer BC, dinheiro grosso, PT e Congresso

Luiz Inácio Lula da Silva é "ótimo/bom" para 38%, conta o Datafolha. Dadas as circunstâncias, é um resultado favorável.

Lula também acaba de divulgar uma prévia do seu teto de gastos, o "arcabouço fiscal". Ainda tem buracos, é preciso cobrar mais imposto para a coisa funcionar, e a restrição de despesa é frouxa. Mas o plano Lula-Haddad tira a perspectiva de desastre do caminho.

Ainda que não seja nem de longe o melhor plano, pode fazer a mágica de satisfazer, ao mesmo tempo, Banco Central, negociantes de dinheiro grosso, credores do governo, Congresso, PT etc. Vai ser uma satisfação medíocre, se funcionar. Mas é alguma coisa.

Sérgio C. Buarque* - Teto de gastos e novo arcabouço fiscal

Revista Será? (PE)

Ainda faltam alguns detalhes da proposta do governo, de novas regras fiscais, que substituirá o Teto de Gastos. Mas o que foi anunciado até agora pela equipe econômica do Governo, Fernando Haddad e Simone Tebet, transmite confiança numa trajetória consistente de equilíbrio fiscal. O Teto de Gastos definido em 2016 foi desfigurado por atalhos e exceções que, no fundo, desmoralizaram o instrumento de contenção das despesas primárias. Como era previsível, o Teto de Gastos não seria sustentável se não fossem realizadas reformas estruturais que, ao longo dos anos, reduzissem a inércia de crescimento das despesas primárias, principalmente das obrigatórias, que representam 90% delas. Com exceção da Reforma da Previdência, cujo resultado se alonga no tempo, nada mais foi feito para conter a expansão das despesas primárias. Mesmo sem a crise decorrente da pandemia, o teto de gastos seria insustentável sem as reformas, principalmente, a reforma administrativa. 

Cristovam Buarque* - Avançar, não revogar

Blog do Noblat / Metrópoles

Hora de propostas cirúrgicas revolucionárias para acabar com a divisão do sistema escolar entre “escolas senzala” e “escolas casa grande”

Em 1889, muitos republicanos denunciaram que a Abolição foi uma reforma tímida, por não dar terra aos ex-escravos, nem escola aos seus filhos; e lamentavam ter sido feita pela monarquia, por um governo do partido conservador. Mas nenhum defendeu a revogação da insuficiente Lei Áurea. Nabuco fez sua defesa enquanto lutava por reforma agrária e educação de base para todos.

Cento e trinta anos depois, o governo de Michel Temer, com o ministro Mendonça Filho, apresenta uma reforma do ensino médio insuficiente. Não vai colocar a educação brasileira entre as melhores do mundo, nem assegura que os filhos dos pobres tenham escola com a qualidade dos filhos dos ricos; e nem mobiliza os recursos necessários para que, mesmo tímida, a reforma seja executada. Mesmo assim, a reforma do ensino médio representa um avanço: sinaliza ampliação de escolas com horário integral, adoção da necessidade de formação profissionalizante, e traz liberdade para que os alunos possam escolher o que desejam estudar. Mas, desta vez, no lugar de defenderem os avanços desta reforma insuficiente e de lutarem por mais avanços e recursos para executá-la, alguns educadores defendem sua revogação.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Reforma do ensino médio precisa de ajuste para vingar

O Globo

Mas seria um retrocesso revogar a mudança que impõe o ensino integral e cria formações específicas

O debate sobre o novo ensino médio precisa se libertar da estreita camisa de força a que está preso. Dois grupos têm sobressaído. De um lado, os responsáveis pela lei de 2017 que determinou a ampliação da carga horária e a reformulação do currículo defendem que ela fique como está. No campo oposto, sindicatos e organizações estudantis, insufladas por partidos de extrema esquerda, defendem a revogação e fazem barulho nas redes sociais. Ambos estão errados.

A reforma determina que os alunos passem a ter um currículo dividido em dois blocos. O primeiro com matérias básicas, como português e matemática. O segundo, chamado itinerário formativo, com disciplinas de formação técnica, profissional ou programas interdisciplinares para aprofundar o conhecimento. Nos três anos, a formação básica ficou com uma carga máxima estipulada em 1.800 horas de aula.

Dois problemas surgiram quando a lei começou a ser implementada. Primeiro: com a expansão da carga horária, os itinerários formativos acabaram ficando em algumas escolas com uma grande proporção da carga horária. Preocupados com o vestibular, alunos têm protestado com razão. Segundo: ainda que bem-intencionada, a estrutura desses itinerários formativos ficou demasiadamente flexível, dando margem ao surgimento até de cursos para fazer brigadeiro.

A primeira mudança necessária é determinar que as 1.800 horas sejam o piso alocado para as disciplinas, não o teto, de modo que os alunos recebam a formação básica essencial. Nada disso pode ser feito sem mexer na lei, portanto não se trata apenas de uma dificuldade de implementação, como defende o primeiro grupo.

Poesia | O lutador, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Adriana Calcanhotto - Devolva-me

 

sábado, 1 de abril de 2023

Hélio Schwartsman - O plano e a realidade

Folha de S. Paulo

Regra fiscal proposta pelo governo exige combate ao patrimonialismo; difícil dar certo

No papel, é boa a proposta do ministro Fernando Haddad para um novo arcabouço fiscal. Ela põe uma trava a gastos desenfreados que governos ficam tentados a fazer em tempos de vacas gordas e assegura um mínimo de investimentos em caso de penúria. Seria uma forma arrojada de juntar a responsabilidade nas finanças públicas com as preocupações sociais. Se seus pressupostos se materializarem, o plano poderá zerar o déficit primário já no ano que vem. O problema, como sempre, é o "se".

Para funcionar, isto é, para não sofrer sabotagens variadas, incluindo aquelas oriundas do PT, a proposta exigiria fortes aumentos na arrecadação. E, se isso já não é muito fácil em condições normais, fica ainda mais difícil de fazer sem recorrer à criação de impostos ou aumento de alíquotas dos já existentes, como prometeu Haddad. A solução, como o próprio ministro já antecipou, seria fazer com que aqueles que hoje não pagam tributos ou pagam pouco passem a dar a sua justa contribuição.

Demétrio Magnoli - As duas voltas de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

A novela bifurca-se nas hipóteses ficcionais 'Caso de polícia' e 'O mito da Fênix'

O ato introdutório não trouxe surpresa. Do aeroporto de Brasília emergiu um Bolsonaro miniaturizado: o líder que fugiu enquanto seus devotos idiotas sofriam as consequências do ato golpista engendrado por seus discursos. A recepção teve os contornos de um cortejo fúnebre político, com as presenças sombrias de um Valdemar e um Braga Netto e sólidas ausências de antigos aliados, na moldura da algazarra de uma diminuta turba de zumbis vestidos em camisetas amarelas.

Daí, a novela bifurca-se em hipóteses ficcionais distintas. Batizo a primeira como "Caso de polícia" e a segunda como "O mito da Fênix".

1. Caso de polícia

Na noite anterior à aterrissagem, uma reunião discreta, restrita, no Alvorada delineou a postura do governo. Alguém, talvez um Padilha ou um Dino, deu o tom da resposta oficial: um silêncio ensurdecedor. Lula, ele mesmo, enviou a orientação à presidente petista. Na linha combinada, um porta-voz secundário do partido declarou à imprensa que "Bolsonaro é caso de polícia, não de política".

Alvaro Costa e Silva -As mandíbulas de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Ex-presidente tem de esclarecer a suspeita de corrupção no caso das joias

Como é uma cara de ladrão? Provavelmente após ter folheado as obras do higienista italiano Cesare Lombroso (1835-1909) —que relacionava o tamanho da mandíbula à psicopatologia criminal—, o senador Ciro Nogueira afirmou numa entrevista que Bolsonaro não tem tal cara. Só faltou dizer que ele tem um queixo bonitinho.

Os fatos e as joias estão aí, com escandalosas revelações todos os dias. Um terceiro pacote da Arábia Saudita, avaliado em R$ 500 mil, foi entregue em mãos a Bolsonaro, em 2019, e incorporado ao acervo pessoal do ex-presidente. Nele há um relógio Rolex de ouro branco, cravejado de diamantes (R$ 364 mil na internet), e uma caneta prateada com pedras preciosas incrustadas da marca Chopard. Que fim levaram as canetas Bic?

Dora Kramer - Reféns da colisão

Folha de S. Paulo

Lula e Bolsonaro se retroalimentam numa dinâmica de sinais trocados

De volta à cena, senão dos crimes ainda a serem juridicamente configurados, mas ao cenário da política nacional onde não há sinal de pacificação à vista, Jair Bolsonaro chegou para confrontar. E o PT, na voz da presidente do partido, já mostrou que topa a briga. "Tá voltando, genocida?", provocou Gleisi Hoffmann na véspera do desembarque do antagonista.

Armado o ringue, o Brasil segue prisioneiro das narrativas conflagradas. Duas forças opostas que se retroalimentam numa dinâmica de sinais trocados, que sequestra o debate e faz dos brasileiros reféns da colisão permanente. A conferir se o presidente Luiz Inácio da Silva entrará no embate ou se deixará a tarefa para porta-vozes. Na essência, dá no mesmo, na escalação mútua do malvado predileto.

Pacheco nega pedido de Lira para sessão conjunta e diz que rito das MPs é ‘imperativo constitucional’

Por Caetano Tonet e Marcelo Ribeiro, Valor Econômico

O rito das comissões mistas foi alterado durante o período da pandemia de covid-19, quando as matérias passaram a ir direto para os plenários

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), negou hoje o pedido do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para que a tramitação das medidas provisórias (MPs) fosse discutida em uma sessão conjunta do Congresso Nacional. O senador reforçou que o rito das MPs está previsto no artigo 62 da Constituição Federal e disse não ver necessidade de um debate envolvendo as duas casas sobre o assunto.

"Por fim, reitero que a observância do rito constitucional das medidas provisórias é ordem cuja imposição deve se dar de ofício por esta presidência, pelo que seria dispensável provocação por questão de ordem, como o é a realização de sessão conjunta para tal finalidade", disse Pacheco.

Pablo Ortellado - Projeto para regular redes vai no caminho certo

O Globo

PL pode ser aprimorado, mas o ponto de partida que oferece é sólido

O governo federal finalmente apresentou seu Projeto de Lei (PL) para regular as mídias sociais. Trata-se de um projeto mais amplo e mais robusto que o PL das Fake News que tramita na Câmara dos Deputados. Como qualquer PL, ele pode ser aprimorado, mas o ponto de partida que oferece é sólido. Não contém nenhuma excentricidade, nenhum traço autoritário e, em linhas gerais, segue o caminho seguro da Lei de Serviços Digitais europeia. Deverá ser apensado e fundido ao PL das Fake News e debatido pela sociedade e pelo Congresso nos próximos meses.

Plataformas de mídia social como Twitter ou Instagram moderam conteúdo — removem postagens — hoje com grande autonomia. Se, por acaso, algum conteúdo ilícito não for moderado, a responsabilidade será do usuário que postou, e não da plataforma (a não ser que um juiz determine a remoção, e a plataforma não obedeça). Esse regime de responsabilização foi concebido no passado para garantir o desenvolvimento de serviços digitais em que são os usuários que fazem os conteúdos, e as plataformas apenas os distribuem.

Esse regime sofre fortes críticas. Tem sido apontado como responsável pela proliferação de conteúdos ilegais e perigosos que desencorajam a vacinação, fomentam ataques à democracia ou violam os direitos humanos. Como a moderação é cara, e as empresas não têm obrigação de remover os conteúdos e não são responsabilizadas juridicamente se eles circularem, sua difusão saiu do controle.

Alvaro Gribel - Vitória de Haddad, sob fogo cruzado

O Globo

O arcabouço fiscal apresentado pela equipe econômica esta semana não é o projeto dos sonhos dos economistas especializados em política fiscal, mas tem o mérito de conciliar as demandas sociais urgentes do país com as necessidades de controle da dívida pública. O cenário econômico ficou mais claro a partir de agora, porque o governo Lula se comprometeu a melhorar ano a ano as suas contas, chegando a um superávit primário de 1% do PIB em 2026, seu último ano de mandato. Ainda que o ajuste seja gradual e feito com a necessidade de aumento de arrecadação, há uma trava no crescimento das despesas, que só poderão subir, no máximo, 2,5% ao ano, descontada a inflação.

Carlos Alberto Sardenberg - Em busca de mais impostos ou mais inflação

O Globo

Arcabouço depende de forte ganho de arrecadação, difícil de realizar. E, realizado, aumenta o custo Brasil

O novo arcabouço fiscal só funciona, mantendo as contas públicas em razoável equilíbrio, na ocorrência de três situações:

1) expressivo ganho de arrecadação do governo federal;

2) forte crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ou;

3) alta inflação.

O ajuste proposto se baseia no ganho de arrecadação. O corte de despesa só ocorre, quer dizer, só seria necessário em circunstância difícil de acontecer. Na verdade, o programa como que protege o crescimento da despesa, chegando mesmo a estabelecer uma expansão mínima de 0,6% em termos reais. Também fixa uma meta de investimentos, corrigida anualmente pela inflação.

Sim, sabemos que o governo tem mesmo de gastar, especialmente nos programas sociais. Sim, investimentos geram crescimento, emprego e renda. E, finalmente, não há como cortar radicalmente a despesa. Os gastos obrigatórios (Previdência, salários do funcionalismo, programas sociais, educação e saúde) consomem cerca de 95% da receita. Tudo isso subirá com o aumento real do salário mínimo e o reajuste do funcionalismo. Sem contar as diversas promessas de campanha.

Adriana Fernandes – Haddad, o caçador de jabutis

O Estado de S. Paulo

O ministro criou um novo tipo de jabuti: o tributário, que ele disse ser ‘dos grandes’

Os jabutis são répteis pertencentes à ordem dos testudines, animais que possuem casco convexo – carapaça bem arqueada – e pernas grossas e adaptadas à vida terrestre. Em Brasília, eles costumam aparecer com muita frequência nas votações do Congresso. Na política, é o nome dado a propostas, incluídas em projetos e medidas provisórias em tramitação na Câmara e no Senado, que não têm relação com o texto original. Um “contrabando” no texto, como se diz no centro político do País.

No anúncio do novo pacote, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criou mais um tipo de jabuti: o tributário, que classificou como “dos grandes”. Ele anunciou que vai adotar medidas para ampliar a arrecadação em até R$ 150 bilhões acabando com eles.

Bolívar Lamounier* - No limiar de um debate histórico

O Estado de S. Paulo

É audaciosa a tese de que ‘o que produz a hiperinflação, desorganização, é a desconfiança na desorganização do Estado’

O debate que se vem travando entre o economista André Lara Resende e o que ele denomina os “mercadistas” (basicamente os economistas que atuam no mercado financeiro) tem tudo para se tornar histórico.

Pode desempenhar na presente conjuntura um papel análogo ao travado em 1944 entre Eugenio Gudin e Roberto Simonsen. O alvo visado por Lara Resende é a elevada taxa de juros praticada pelo Banco Central, concentrando-se na estabilidade monetária sem se preocupar, em seu âmbito de atuação, com o risco de uma perigosa subida da inflação. Dias atrás, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, defendeu em entrevista a posição de que estabelecer um arcabouço fiscal adequado é função do Legislativo e do Executivo, não do Banco Central; a este cabe aplicar seu meio específico, a taxa de juros, a fim de controlar a inflação.

Lara Resende martela a tecla de que o Banco Central e os “mercadistas” dão uma ênfase exagerada à taxa de juros e ao equilíbrio de contas porque raciocinam com modelos peremptos, como se nossa moeda ainda dependesse de lastro metálico ou como se nossa dívida pública estivesse sob o controle de estrangeiros, o que absolutamente não é o caso. Estando nas mãos de nacionais, vale dizer, de cidadãos de um Estado nacional autônomo e legítimo, nada impede que, em caso de necessidade, o Estado contraia mais dívida, emitindo moeda.

Miguel Reale Júnior* - Moderação de conteúdos na internet

O Estado de S. Paulo

Regulamento europeu deve servir de guia na formulação final do PL 2.630/20 do Senado, ora em tramitação na Câmara, matéria urgente, mas a ser bem meditada

Vive-se a virtualidade do real. Estamos submersos no mundo da informação imediata, alvejados continuamente pela notícia em rede comunicacional, criando dependência psíquica que leva à persistente consulta ao celular. A reflexão e a solidão cederam passo à passiva e permanente recepção de comunicações, fragmentariamente enviadas.

Com a rede, a existência se desenrola na mídia e pela mídia, como dissera Manuel Castells (A sociedade em rede, p. 361). Esse fenômeno tem impacto imenso em nosso cotidiano e em todas as vertentes da vida, apresentando aspectos altamente positivos e negativos. A rede tem sido instrumento de difusão de discursos de ódio, de conteúdo discriminatório ou belicoso, alimentando afrontas à democracia, facilitando a pornografia infantil, a ação de organizações criminosas, bem como o comércio ilegal e a difusão de fake news nocivas à saúde pública, à dignidade e à privacidade das pessoas.

João Gabriel de Lima* - A inspiração que vem de Israel

O Estado de S. Paulo

Criticar e desmerecer a sociedade civil é um refrão clássico dos que não toleram os regimes de liberdade

Os israelenses viveram um momento histórico ao longo desta semana. Eles foram às ruas contra o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que ameaçava reduzir os poderes da Suprema Corte do país – expediente que, na Venezuela de Hugo Chávez e na Hungria de Viktor Orbán, deu início a uma escalada autoritária. Ao decretar uma greve geral e protestar de forma vibrante nas ruas, a sociedade civil israelense fez com que Netanyahu recuasse do arreganho despótico.

“Está sendo uma experiência fascinante ver as engrenagens da democracia em ação. Ver como a população influencia as decisões do governo e como o governo reage rápido e até se pauta pelos horários das manifestações”, diz Sérgio Berezovsky, fotógrafo de carreira brilhante no jornalismo brasileiro. Ele foi a Israel para compromissos familiares, viu-se engolfado pelo momento histórico – e fala de sua vivência no minipodcast da semana.

Entrevista | Arieh Saposnik: ‘Movimentos de extrema direita pelo mundo estão conectados’

Arieh Saposnik, historiador da Universidade Ben-Gurion do Negev, afirma que a extrema direita se apossou de símbolos israelenses e que reforma judicial de Netanyahu pode ecoar em outros países

Por Renato Vasconcelos / O Globo

O recuo de Benjamin Netanyahu para rediscutir o projeto de lei de reforma do Judiciário em Israel — que muitos ativistas apontam como a morte da divisão de Poderes no país— não foi suficiente para convencer historiador Arieh Saposnik, professor da Universidade Ben-Gurion do Negev. Um dos milhares de israelenses que foram às ruas nos protestos contra a reforma, que propõe uma maior intervenção do governo na escolha de ministros e redução do poder de revisão legal da Suprema Corte sobre leis aprovadas no Parlamento, Saposnik acredita que a pausa no processo é apenas uma estratégia para diminuir a pressão dos opositores da iniciativa.

Em conversa com O GLOBO em visita ao Brasil, onde participou de um ciclo de palestras sobre a transformação de Israel em um símbolo para a extrema direita global, o historiador afirmou que a tendência é que a violência contra os protestos aumente, e que em caso de aprovação, o projeto pode ecoar pelo mundo.

Sua vinda ao Brasil foi para um ciclo de palestras sobre a apropriação de Israel como modelo cultural pela extrema direita no mundo. Poderia explicar esse fenômeno?

Como você sabe muito bem, existem símbolos de Israel, como a bandeira do país, que se tornaram marcadores de identidade política, social e ideológica em um contexto que na verdade não tem nada a ver com Israel. É como se Israel tivesse se tornado uma marca ou um código para uma série de questões que às vezes não têm nada a ver com o próprio Estado de Israel ou com o que de fato está acontecendo no país. Infelizmente, neste momento, Israel se tornou um dos estereótipos mais negativos sobre isso.

José de Souza Martins*- Qual educação? Para qual país?

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

No país não se conseguiu propor a questão mais importante no mundo de hoje: a descoisificação dos seres humanos

Passam-se os anos, os governos e os palpites e o Brasil continua desprovido de uma referência consistente na definição do que deve ser a educação brasileira. Desde que valores estranhos ao que é propriamente formativo foram afastados das referências de nossa concepção de educação, educar é cada vez mais difícil.

Estamos de novo em face de justos questionamentos a respeito dos rumos de nossa educação, as novas gerações inquietas com uma concepção de educação que separa a sala de aula da vida com ela é e como vai ser.

O Brasil é um país em que todos somos especialistas em tudo, também em educação. A escola concebida como oficina de formatação da mente para os modos de pensar de uma sociedade reduzida ao falso pressuposto da lógica da eficiência e do lucro como nortes da vida. E também o falso pressuposto de que o futuro das novas gerações está no empreendedorismo.