quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desperdício e má gestão explicam falta de vacinas

O Globo

Enquanto governo Lula jogou fora 59 milhões de doses, em quase metade dos estados há carência nos postos

Em quase dois anos de governo, o Ministério da Saúde não resolveu os problemas de logística que prejudicam o abastecimento de vacinas e levam ao desperdício. Responsável pela compra e distribuição das doses aos estados, a pasta tem argumentado que não há escassez generalizada e que tem comprado novos lotes. Mas a todo momento vêm à tona casos de estoques zerados, em especial nas vacinas contra Covid-19. O cidadão que vai aos postos em busca de vacina é quem acaba punido.

Reportagem do GLOBO feita por meio da Lei de Acesso à Informação revela que o governo Luiz Inácio Lula da Silva deixou vencer 58,7 milhões de vacinas desde 2023, a maior parte delas — 45,7 milhões — contra Covid-19. O total jogado fora apenas nos dois primeiros anos do governo Lula supera todo o desperdício na gestão Jair Bolsonaro, que já descartara inacreditáveis 48,2 milhões de doses.

Federação é pacto e não ilhas - Fernando Abrucio

Valor Econômico

O Brasil precisa urgentemente da institucionalidade e fortalecimento do SUSP na segurança pública, bem como da criação um sistema nacional com articulação intergovernamental na política de mudança climática

Dos principais e mais complexos problemas brasileiros, dois são centrais e não têm ainda uma governança mínima para seu tratamento: a segurança pública e a mudança climática. Em outras questões fundamentais, como a saúde, a educação e o combate à desigualdade social, certamente há muitas tarefas a realizar. Porém, tais setores já construíram políticas governamentais com avanços importantes e, sobretudo, sistemas básicos que os organizam. Em todos esses casos, as soluções passam inexoravelmente pela estrutura federativa. Se o país quiser lidar melhor com os desafios do século XXI, seus líderes terão de entender para que serve uma federação.

Os debates recentes sobre mudança climática e segurança pública revelam que muitas lideranças com postos elevados na República brasileira não compreenderam ainda o significado do federalismo. A palavra federação vem do latim “foedus”, cujo significado etimológico é pacto. Foi com essa ideia que no final do século XVIII os federalistas americanos criaram um novo experimento político que buscava garantir a autonomia e as liberdades locais e, ao mesmo tempo, construir uma nação governada por uma interdependência equilibrada entre as partes territoriais.

O ajuste que pode definir rumo de Lula em 2026 - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Colheita do presidente terá que ficar para o último ano do governo se quiser salvá-lo

Na manhã desta quinta-feira, dona Norma (nome fictício) chegou danada da vida à casa em que trabalha como empregada doméstica. “Se Lula mexer no meu salário, não voto mais nele. Acordo às 4h da manhã e [Fernando] Haddad e Simone [Tebet] querem cortar meu salário”. Sua patroa tentou lhe explicar que a proposta em curso manterá o ganho real, mas acabou convencida de que ela tem razão.

Naquela manhã, Dona Norma havia recebido mensagem num grupo de WhatsApp com a “notícia”. Católica, mora em Formosa, a 78 km de Brasília, onde trabalha. Votou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, mas tem filha e genro policiais militares e eleitores de Jair Bolsonaro, que agraciou um parente com o “Auxílio Brasil”, nome que o ex-presidente deu ao Bolsa Família.

Dois dias antes, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) subiu à tribuna no Senado para criticar a escala 6x1 de trabalho, movimento nascido no Psol. Disse que o pai, comerciante no sacolão de Divinópolis (MG), morreu aos 70 anos fazendo uma escala 7x0 e, por isso, nunca lhe levou a um jogo de futebol nem lhe ajudou nas lições da escola.

Cleitinho chegou ao Senado no bonde bolsonarista depois de derrotar o atual ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), em 2022, numa campanha feita com paródias, para as redes sociais, sobre corrupção e petistas.

A sombra de Trump no Brasil - José de Souza Martins

Valor Econômico

De repente, o presidente eleito dos EUA está sendo cortejado como cabo eleitoral em terra alheia

É rica e reveladora a entrevista de Jair Bolsonaro a Camila Mattoso e Ranier Bragon, da “Folha de S. Paulo”, sobre a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA. Suas respostas indicam que a fala é sobre ele e não sobre Trump. Nela, este aparece mais como um ajudante de ordens do brasileiro na obra de transformação do mundo num mundo de direita.

A figura de Bolsonaro tem sido enigmática. Figura de manipulação de subentendidos, nunca fica claro quem ele realmente é. Não se assumiu como presidente de uma república democrática, constituída por três poderes independentes entre si. A república de Bolsonaro é singular, de um poder só.

Fica claro que o mundo de Bolsonaro é hierárquico, definido por concepções de quartel. Para ele, Trump não é apenas o homem mais poderoso do mundo. Mas o é de um poder duplicado pelo fato de que terá por quatro anos a responsabilidade de tomar decisões sobre o país mais rico do mundo, com o arsenal mais poderoso do mundo, mas também porque ele é pessoalmente senhor de imensa riqueza.

Uma escolha reveladora - Merval Pereira

O Globo

O uso do X por Musk para fazer a campanha de Trump, e a favor de valores da direita internacional, até no Brasil, para defender Bolsonaro e atacar o STF, mostra claramente que ele comprou o antigo Twitter para fazer política e defender seus interesses

Entre as escolhas de Donald Trump para seu futuro governo nos Estados Unidos, uma chamou a atenção pelo inusitado da situação: a indicação do homem mais rico do mundo, Elon Musk, para uma secretaria criada para ele com intuito de melhorar a eficiência do governo. Seria o caso de cortar todos os contratos que suas empresas têm com o governo americano, para evitar conflitos de interesse. Mas isso não acontecerá, e a falta de escrúpulos do presidente eleito e do futuro secretário denota uma disposição de implementar a todo custo medidas drásticas, com pessoas de confiança absoluta.

O uso da plataforma X por Musk para fazer a campanha de Trump, a favor de valores da direita internacional, até no Brasil, para defender Bolsonaro e atacar o STF, mostra claramente que ele comprou o antigo Twitter para fazer política e defender seus interesses. Não tem qualquer responsabilidade sobre o que publica, desde que seja a seu favor. Agora, Musk indo para o governo, o X perde completamente a credibilidade.

Armínio: cortar na saúde seria crime - Míriam Leitão

O Globo

Ex-presidente do BC salienta que não é de hoje que o SUS é subfinanciado e seria criminoso cortar recursos da Saúde

O economista Armínio Fraga, que sempre trata com rigor a questão fiscal e defende a redução das despesas públicas, acha que o corte não pode ser feito no orçamento da Saúde. “Mais do que um erro, seria um crime”, diz ele. Armínio, ex-presidente do Banco Central, é também conhecido por se envolver na defesa de políticas públicas na área da saúde. Eu o entrevistei sobre a economia brasileira, mas também sobre a conjuntura americana depois da eleição presidencial. “Só ouvir o nome de Trump nesse momento, sugere que vamos entrar em rota de alta turbulência”.

Armínio disse que todas as indicações de Donald Trump, até agora, mostram com muita clareza que ele pretende implantar o programa de altas tarifas comerciais contra os outros países, especialmente a China. Uma lição da história, que ele lembrou, foi da lei Smoot-Hawley que elevou tarifas americanas durante o crash da Bolsa de Nova York, em 1929.

— Foi um fator que aprofundou a recessão tremendamente. Espalhou a crise no mundo, fez com que a Grande Depressão, que nasceu nos Estados Unidos, acabasse se tornando uma crise mundial. O Brasil naquela época se isolou um pouco do mundo, mas eu não creio que isso seja possível hoje.

A escala 6 x 1 emparedou o governo - Malu Gaspar

O Globo

O presidente Lula já tinha problemas suficientes para resolver, com seus ministros se digladiando internamente em torno dos cortes de gastos, quando ganhou as redes sociais e a atenção do Congresso a proposta da deputada do PSOL Erika Hilton que acaba com a escala de seis dias trabalhados para um de folga, a famosa 6 x 1.

Saudada como uma lufada de ar fresco, capaz de superar a reconhecida desconexão da esquerda com as novas demandas do mundo do trabalho, a pauta também foi encarada no governo como uma forma de dispersar a atenção da opinião pública e do mercado sobre sua própria incapacidade de definir onde e como enxugar o Orçamento para caber nos limites do arcabouço fiscal.

Motta unifica o “Centrão” com desistência de Brito - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Consolidou-se a hegemonia do chamado Centrão na Câmara, mas é um erro tratar as forças políticas de centro e centro-direita como um bloco monolítico

O deputado Antônio Brito (PSD-BA) anunciou, nesta quarta-feira, a retirada de sua candidatura a presidente da Câmara e o apoio da bancada do PSD ao deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), o que fecha uma grande aliança partidária, que vai do PT ao PL, para compartilhar o poder na Mesa Diretora e nas comissões legislativas da Casa. Com isso, o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mantém sua influência no Legislativo e terá cacife para negociar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma eventual reforma ministerial, da qual faça parte.

Motta terá uma liderança compartilhada com Lira, que o ungiu candidato diante do fracasso de outros aliados que pleiteavam sucedê-lo, como Elmar Nascimento (União-BA), Marcos Pereira (Republicanos) e, agora, o baiano Brito. O “dedazo” evitou uma disputa que também não interessava ao Palácio do Planalto nem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, uma vez que a derrota do PT ou do PL, em caso de racha no bloco de Lira, poderia resultar na perda de controle de comissões importantes, como as de Constituição e Justiça e de Fiscalização Financeira e Controle, para quem perdesse a disputa.

O governo Lula corre atrás dos fatos - William Waack

O Estado de S. Paulo

Não há escolhas fáceis para o atual governo de Lula 3; haja fôlego para se correr tanto assim

A tramitação da PEC que prevê o fim da escala 6 x 1 é apenas o mais recente exemplo de como o governo Lula 3 corre atrás dos fatos, dentro e fora do País. No caso da redução da jornada de trabalho é patente a tentação no Planalto de surfar o impacto nas redes sociais com a promessa de fácil ganho eleitoral mais adiante. Mas corre atrás do fato muito sério da estagnação da produtividade no Brasil em relação às economias mais avançadas. Coisa chata de tratar que dá pouca visualização nas redes.

A utopia e o fim do regime 6x1 - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A proposta de redução da jornada de trabalho a 36 horas semanais vai produzindo um montão de espuma com pouca possibilidade de substância.

A ideia da deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP) é aprovar Projeto de Emenda da Constituição (PEC), que já contaria com 194 assinaturas (apoio de mais de 1/3 da Casa Legislativa) para protocolar a proposta. Instituiria o regime obrigatório de duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias por quatro dias por semana, sem redução dos salários.

Hoje, a Constituição define uma jornada de trabalho não superior a oito horas diárias por seis dias na semana. É a escala 6X1, ou seis dias trabalhados com um de descanso, que seria revogada pela PEC, se aprovada.

O entretenimento como religião - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não foi o espetáculo televisivo que atendeu com diligência às demandas das profissões de fé – estas é que serviram aos desígnios do espetáculo

Por graça ou interesse, as igrejas se valem dos meios de comunicação para ganhar fiéis. Sabemos disso há coisa de cem anos. Foi nos Estados Unidos, pelas ondas do rádio, que a prática se tornou um expediente assíduo, ainda na primeira metade do século 20. Na década de 1960, os televangelizadores, à imagem e semelhança de Billy Graham, cresceram e se multiplicaram em escalas miraculosas. O cristianismo de raízes protestantes e feições evangélicas se apossou de um filão inteiro das redes de TV, num empuxo que se replicou mundo afora. Então, o linguajar plangente, a cenografia ambientada em templos vastos, o figurino em traje passeio completo e a coreografia expressionista fincaram seus púlpitos em plagas longínquas – algumas verdadeiramente remotas, como as brasileiras. Por aqui, quando baixa o horário nobre, pregadores oram e peroram em quase todos os canais abertos. Todas as religiões, ou virtualmente todas, requisitam os préstimos e os auxílios das tecnologias midiáticas em prol da fé. O divino é um campeão de audiência. O demônio também – depende do ponto de vista do freguês.

Reforçando a credibilidade nas políticas - José Serra

O Estado de S. Paulo

A política econômica não pode se dar ao luxo de apenas assistir à deterioração dos cenários interno e externo, praguejando contra o aumento da taxa de juros

Os últimos dias adicionaram muitas interrogações sobre a condução da política econômica. As curvas de juros futuros indicam que a expectativa do “mercado” é de que a taxa Selic suba a 14% ao ano dentro do ciclo expansivo inaugurado pelo Banco Central. Certamente, este não é o Brasil dos sonhos do presidente Lula que resolveu atacar o próprio mercado.

As expectativas já vinham um tanto azedadas por conta da situação fiscal, em meio às crescentes dúvidas sobre a capacidade do governo Lula de controlar os gastos e colocar barreiras contra o enorme apetite dos outros por recursos públicos. A desconfiança com respeito à factibilidade das metas postas pelo arcabouço fiscal está em sintonia com o descrédito em relação ao leque de gastos considerados como exceções aos limites estabelecidos pela Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Às dificuldades fiscais vêm se somar as vulnerabilidades do nosso setor externo, especialmente refletidas no câmbio. A vitória de Donald Trump reforça o temor de que o protecionismo comercial e o dólar forte signifiquem grandes problemas para a política cambial.

Lula, inflação e eleitores de direita – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Pesquisas ainda registram otimismo, mas cresce percepção de alta de preços

A maioria dos brasileiros está otimista com a situação de sua vida. Mas fica menos otimista desde fevereiro. Está cada vez mais preocupado com a inflação. Mas, em uma lista de prioridades para o governo, o custo de vida está em apenas quarto lugar.

Além do mais, o aumento da média dos salários bem além da inflação não aparece no prestígio de Luiz Inácio Lula da Silva. Além da hipótese preços, o estrago pode ter sido causado pela disputa política, acirrada pela eleição.

Em outubro, 43% dos brasileiros diziam que sua vida e de sua família era melhor do que no ano anterior; para 36%, estava na mesma. São percepções parecidas com as dos melhores meses sob Lula, em fins de 2023. A perspectiva para o final do ano era de melhora para 62% dos entrevistados; em fevereiro, para 75%.

A pesquisa é do Ipespe, para a Febraban, feita entre os dias 15 e 23 de outubro. A margem de erro é de 2,2 pontos.

Um fiapo miúdo na farra das emendas – Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Fiscalização da CGU puxou só um fiapo miúdo da distribuição descontrolada do dinheiro

A Controladoria-Geral da União puxou um fiapo miúdo da farra das emendas parlamentares. Em três auditorias, o órgão colheu amostras de desperdício de dinheiro, direcionamento de verba pública, descontrole de gastos e suspeitas de desvios. Uma parte dos recursos foi para a conta de ONGs sem estrutura ou obras que não começam nunca.

A fiscalização nem começa a arranhar a superfície do problema. Por ordem do Supremo, a CGU analisou uma amostra de repasses de emendas para 30 municípios (R$ 787 milhões) e 20 ONGs (R$ 515 milhões) em anos recentes. É um rio de dinheiro, mas o valor representa menos de 0,8% da fortuna de R$ 167 bilhões empenhados de 2020 a 2024.

Os novos trumpistas vieram de baixo - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A capacidade de construir coalizão multiétnica com raízes populares deu força a Trump

Fosse outro o adversário de Kamala Harris, o resultado das eleições americanas não teria causado surpresa nem comoção. Afinal, o desfecho da disputa seguiu o padrão verificado em outros países nos quais a derrota dos incumbentes —ou dos candidatos por eles indicados— vai se tornando regra. Nos Estados Unidos, pesava contra a democrata a avaliação negativa do presidente Biden, o mau humor generalizado com a economia e o pessimismo da maioria com a sua própria situação: receita conhecida para uma vitória oposicionista.

Só que o vencedor foi Donald Trump, um homem sem qualidades, ameaça à democracia e, pior, aos princípios básicos da convivência civilizada. Assim, a extensão dos efeitos negativos de seu regresso à Casa Branca —bem como as razões de seu êxito— têm produzido uma enxurrada de análises no Brasil e pelo mundo afora.

Deus criou o mundo em 6x1, mas era todo poderoso e não batia ponto - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Mudanças em regimes de trabalho são historicamente rejeitadas pelo status quo da economia

Deus criou a Terra, o céu e todas as formas de vida em seis dias. No sétimo dia descansou, nos legando generosamente a folga dominical, já que ele mesmo era todo poderoso, não batia ponto e não ganhava salário mínimo.

A reivindicação do fim da jornada 6x1, como se sabe, acaba de virar uma PEC a ser encaminhada ao Congresso.

Modificar esse regime e discutir a redução da jornada semanal é uma questão contemporânea relevante, com passado histórico e implicações humanas e civilizatórias. Alguns comentadores, refratários a mudanças, reagiram intempestivamente, considerando que a ideia seria irrealista e prejudicaria a economia.

Líderes autoritários voltam como zumbis vingativos após derrotas prévias - Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Foi o que aconteceu com Orbán, Erdogan, Netanyahu e Putin; veremos o que acontece com Donald Trump nos EUA

Quando Viktor Orbán regressou ao poder na Hungria em maio de 2010, ninguém atribuiu enorme significado ao acontecimento. É comum, nomeadamente em regimes parlamentares, a reeleição de políticos que tenham sido derrotados numa eleição anterior.

Orbán fora antes primeiro-ministro por um mandato, entre 1998 e 2002, e poucos fora da Hungria conheciam o discurso amargo que ele fizera ao perder as eleições no fim desse mandato. "A nação não pode estar na oposição!", disse na ocasião, deixando claro que, para ele, apenas o seu partido representava a verdadeira Hungria e que qualquer outro partido que estivesse no poder em seu lugar seria composto por traidores e, no fundo, usurpadores.

Correndo para trás das calças de Trump – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Para Bolsonaro, o Brasil deve babar, como ele, diante do homem mais poderoso do mundo

Foi notável como, assim que soube da vitória de Donald Trump, na semana passada, Jair Bolsonaro se transformou. Deixou de ser o homem que os serviçais flagravam chorando pelos cantos, a cada passo das investigações que o deixam mais perto de ser preso, e voltou a ser o velho bazófio e arrogante de seu palanque presidencial. Seu primeiro ato foi convidar-se para a posse de Trump e se julgar no direito de ter de volta o passaporte para viajar. "O STF", leia-se Alexandre de Moraes, "não terá a ousadia de negar. Quem vai contrariar o homem mais poderoso do mundo?", disse.

Meia-volta, volver! – Ivan Alves Filho*

Aprendi com um mestre do valor de Nelson Werneck Sodré que mesmo quando realizamos algum trabalho "setorial", algum estudo de caso em matéria de História, não podemos perder de vista a visão de conjunto. Caso contrário, a História deixa de ser um processo, tornando-se incompreensível. Ou seja, é preciso unir sempre o particular ao geral. E isso é válido também para a militância, a atuação política ou social de cada um de nós. Tudo é parte da luta e não há luta à parte, sempre observo isso.

Há um aspecto regressivo em algumas propostas identitárias atuais, por exemplo. Assim, elas, muitas vezes, desembocam em engajamentos que lembram as lutas pré-políticas. Nesse sentido, alguns estudiosos parecem se empenhar em abolir a história das lutas de classes. E as relações entre as classes são, essencialmente, relações de exploração. Os partidários da visão racialista, pela “direita” ou pela “esquerda” querem nos fazer crer que existe de um lado o eurocentrismo e de outro o identitarismo pós-colonial, decolonial ou algo nessa linha confusa e diversionista. E nada mais.

Poesia | Um Boi vê os homens, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moacyr Luz e Banda - A reza do samba

 

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É positivo o avanço dos mercados de créditos de carbono

O Globo

Enquanto COP29 cria diretrizes globais, Senado voltou a adiar regras para negócios no Brasil

O Senado adiou ontem mais uma vez a votação do Projeto de Lei (PL) que regulamenta o mercado de créditos de carbono no Brasil, parado havia nove meses. Ele não é perfeito, mas sem dúvida é um avanço, por formalizar a negociação desses créditos no país. Precisa ser votado rapidamente, pois, devido a mudanças feitas no texto vindo da Câmara no início do ano, precisará ser apreciado pelos deputados novamente. Seria constrangedor para o Brasil, sede da 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30) no ano que vem, ficar para trás em assunto tão premente por falta de agilidade do Congresso.

A fábula do Centrão e a questão do centro - Paulo Fábio Dantas Neto*

No artigo mais recente desta coluna (“Duas considerações iniciais sobre o resultado das eleições municipais” - https://padlet.com/sfialho/paulofabio_coluna),fiz comentários convergentes com duas considerações bastante frequentes na crônica política e no debate público, em outubro: os resultados das eleições não confirmaram o tipo de polarização que vinha sendo anunciada nas redes sociais e por discursos políticos mais radicalizados; a partir desses resultados municipais, a predição razoável que se pode arriscar é sobre as próximas eleições à Câmara dos Deputados e não sobre a disputa presidencial.

No mesmo artigo, fiz uma terceira consideração, mais controversa – a de que os resultados eleitorais pedem revisão de crenças correntes a respeito dos principais campos da geografia política do país e suas respectivas possibilidades de êxito em várias arenas de competição, até 2026. Sendo mais especifico: pedem reformular, ou abandonar, a noção de “centrão”, compreender em profundidade a crise da esquerda e centro-esquerda (que está longe de ser só crise eleitoral) e avaliar com realismo a força da direita radical e suas versões extremistas. Serão os temas deste e de mais dois artigos. Hoje é visita paciente ao centrismo, por onde se costuma passar batido, usando jargões ilusórios ou irônicos.

Vera Magalhães – A escala 6 x 1 e o 7 x 1 do governo

O Globo

Enquanto perde de 7 a 1 na tentativa de colocar de pé um pacote de corte de gastos, Lula deixa passar pauta que se mostrou capaz de mobilizar sua base social

O assunto que mais mobilizou a base social de Lula a favor de uma causa neste ano nasceu e ganhou a praça pública sem que o governo visse. Pior: o presidente e seus ministros estão tão enrolados numa discussão bizantina sobre cortes de gastos, prolongando de forma inexplicável um tema que dizem detestar, que não conseguem nem se desvencilhar para, quem sabe, adquirir algum protagonismo na discussão sobre a redução da jornada de trabalho.

Fim da escala 6 x 1 mobiliza redes e pressiona Lula – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governo está na berlinda, principalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que criou um partido e chegou à Presidência para defender os trabalhadores

O vice-presidente Geraldo Alckmin pôs mais lenha na fogueira do debate sobre a redução da jornada de trabalho, que ganhou as redes sociais após a deputada federal Érika Hilton (PSol-SP) ter recolhido assinaturas para apresentar à Câmara uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que reduz a jornada semanal de 44 horas para 36 horas.

"O fim do 6 x 1", como foi batizada a proposta de emenda constitucional, viralizou nas redes sociais e já pressiona o governo Lula. "Isso não foi ainda discutido, mas acho que é uma tendência no mundo inteiro. À medida em que a tecnologia avança, você pode fazer mais com menos pessoas, você ter uma jornada menor. Esse é um debate que cabe à sociedade e ao Parlamento a sua discussão", disse.

A parolagem do capitão Derrite – Elio Gaspari

O Globo

Em menos de uma semana, o aparelho de segurança de São Paulo mostrou seu rosto violento e poderoso para baixo, inepto e sonolento para cima.

Aos fatos.

Na terça-feira da semana passada, o menino Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, foi baleado no Morro São Bento, em Santos. Segundo a Polícia Militar, o tiro “provavelmente” partiu de um PM. Leonel, pai de Ryan, havia sido um dos 56 mortos deixados pela Operação Verão há alguns meses.

Ryan morreu na quarta-feira. Na quinta, um pelotão de PMs fardados e armados para um combate apareceu no cemitério onde a criança era velada.

Na sexta-feira, Antônio Vinícius Lopes Gritzbach — um operador da caixa do Primeiro Comando da Capital (PCC) que vinha colaborando com o Ministério Público — foi fuzilado na área de desembarque do aeroporto de Guarulhos. Uma gravação informa que o PCC havia colocado sua cabeça a prêmio (R$ 3 milhões). Os assassinos dispararam dezenas de tiros de fuzil, ferindo duas pessoas e matando um motorista que trabalhava no aeroporto.

Inflação alta não aceita desaforo – Zeina Latif

O Globo

Enquanto o mercado procura âncoras, ou sinais de que o governo teme a aceleração da inflação, em um mar revolto, Lula queima ancoradouros

Chega a ser frustrante voltar ao tema da macroeconomia de curto prazo. Mas há novos elementos que demandam atenção: a inflação ganha rigidez e a Fazenda prepara uma reação, no caso, medidas para a contenção de gastos. O reconhecimento do problema tem muito valor, mas a resposta poderá ser tímida à luz da grande deterioração da credibilidade do governo.

A primeira barreira é enfrentar o fogo amigo, em um contexto de conflito interno no partido e com a tensão pré-eleitoral já dando as caras. A divergência não se resume à ideologia quanto ao papel do Estado na economia e à disciplina fiscal. Trata-se também de disputa política.

STF dá um bom impulso à reforma administrativa - Fernando Exman

Valor Econômico

Depois de 17 anos suspensa, proposta recebeu sinal verde do STF

O diagnóstico é de 29 anos atrás, mas permanece atual: a crise do Estado está na raiz das dificuldades econômicas enfrentadas pelo Brasil durante longos anos, e ela se manifesta como crise fiscal, com o colapso no modo pelo qual o Estado atua na economia e, consequentemente, nas deficiências do próprio aparelho estatal.

Ele consta da exposição de motivos da proposta de reforma administrativa que, depois de suspensa por 17 anos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu sinal verde da Corte na quarta-feira (6).

O equacionamento dessa crise, anotaram os ministros que assinaram o documento enviado à Presidência da República e depois ao Congresso Nacional, será determinante para a retomada do desenvolvimento econômico e o atendimento da população por um serviço público de qualidade. E para isso, portanto, é preciso que se implemente novos formatos organizacionais e institucionais, uma revisão de rotinas e procedimentos no serviço público, além da substituição dos controles formais pela avaliação permanente de resultados. Em outras palavras, o fim do regime único de contratação de servidores públicos.

A recauchutagem do Centrão e a ira do PT - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Ciro Nogueira diz estar cansado dos extremos enquanto petistas disputam rumos do governo Lula

“A direita só pensa em falar de impeachment, de aborto e de outras coisas que não dizem respeito à vida do cidadão. Estou cansado disso.” A frase cairia bem na boca de qualquer político de esquerda. Ao contrário do que se imagina, porém, é de autoria do senador Ciro Nogueira, presidente do PP, o partido de Arthur Lira, que está prestes a deixar o comando da Câmara.

Em julho de 2021, Ciro assumiu a Casa Civil na gestão de Jair Bolsonaro dizendo que atuaria como um “amortecedor” para evitar trepidações no governo. Passados três anos e quatro meses, o senador afirma agora que não pode ser um “acelerador” de crises.

6x1 dá de 7x1 na política convencional – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Sem mobilização, ideia da redução da jornada tende a morrer, mas mexe na pauta política

O projeto de diminuir a jornada de trabalho é iniciativa de um partido pequeno, o PSOL, o mais à esquerda da reduzida esquerda, ainda mais diminuída na eleição municipal. Faz sensação nas ruas das redes sociais, tal como um meme ou uma treta de influenciadores; é assunto como um "coach" ou como um crime.

Mas o "6x1" não é nada disso ou muito mais do que isso. Difícil saber até onde vão a onda de interesse pelo assunto e seus desdobramentos políticos —isto é, além do mundo da política politiqueira, de parlamentos, partidos e governos. Sem mobilização, organização coletiva, tais assuntos tendem a morrer. No entanto, a ideia de redução da jornada entrou na contramão da conversa do "establishment", atrapalhando o tráfego.

O ajuste fiscal e uma briga pelo futuro - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

PT vai recolher as armas depois que Lula carimbar o pacote, mas escolhas ainda dirão algo sobre os rumos do partido e do governo

O PT vai recolher as armas depois que Lula carimbar o pacote de corte de gastos do governo. Enquanto as ideias ainda estão na mesa do presidente, setores do partido trabalham para puxar o ajuste para a esquerda. Quando as propostas ganharem a assinatura do chefe, ninguém vai deixá-lo sozinho, nas palavras de dirigentes da legenda.

O impasse na elaboração das medidas, a oposição de ministros e a divisão interna no PT fazem parte de uma briga pelo futuro. Ninguém sabe ao certo qual será o tamanho do ajuste, mas seu processo político dá pistas do que poderão ser os dois anos finais do terceiro mandato de Lula, suas chances de reeleição e os caminhos que a esquerda vai tomar.

Santidade democrática – Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Indignação contra artigo de Bolsonaro é reflexo do sentimento de pureza, um dos seis ingredientes de nossos mapas ético-ideológicos

O psicólogo Jonathan Haidt, que hoje faz sucesso liderando um movimento para banir crianças e adolescentes das redes sociais, propõe que a ideologia seja decomposta em seis dimensões, às quais corresponderiam seis sentimentos morais básicos: proteção, justiça, liberdade, lealdade, autoridade e pureza.

Eles constituiriam uma espécie de tabela periódica do instinto moral. O mapa ético-ideológico de cada indivíduo seria uma combinação de diferentes proporções desses ingredientes.

A nova direita não está de passagem - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

O eleitor da extrema direita está mesmo votando para liquidar a democracia?

Na semana passada, caiu enfim a ficha sobre o verdadeiro significado de 2016, ano em que um maluco de cabelo laranja, desbocado, politicamente incorreto e radical de direita venceu a eleição presidencial na maior democracia das Américas.

Esse evento foi crucial para que, dois anos depois, outro candidato igualmente esquisito, desbocado e direitista radical triunfasse na segunda maior democracia do continente. Foi um choque que, por anos, alimentou a convicção otimista de que, dado que esse fenômeno parecia incompatível com o nível de civilidade e cultura democrática progressista arduamente conquistado após tantos desafios no século 20, só poderia ser uma exceção trágica —um desvario do qual os eleitores se recuperariam, assim que caíssem em si.

Ao Leandro Konder com carinho - Vagner Gomes de Souza

Lições políticas da Derrota – Uma homenagem a Leandro Konder

Leandro Konder foi um célebre divulgador de ideias e introdução de pensadores marxistas em nosso país. Desde sua enfermidade até seu recente falecimento o campo marxista ficou mais debilitado na produção de reflexões e debates com os pensadores liberais até para evitar esse estigma de falsa polarização política. A principal característica de Leandro Konder sempre foi a busca do diálogo das ideias democráticas em que a dialética seria a força motriz dessa importante articulação.

Ele era muito mais um grande professor sobre as ideias políticas que formulador de análises da conjuntura política. Na conjuntura política ele sempre preferiu ser um observador atento de outros analistas sejam marxistas ou não. Então, se dizia um derrotado na política. Sua derrota se confunde com os desdobramentos do VII Congresso Nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que no início dos anos 80 interrompeu um processo de renovação interna partidária. Sua geração foi sectariamente acusada de “direita” do PCB por defenderem uma linha mais ampla na luta contra a Ditadura Militar (1964 – 1985) que seria a Frente Democrática a qual valorizava um aprofundamento da aliança com as forças liberais.

Vitória de Trump significa rejeição do liberalismo clássico e inaugura nova era nos EUA e no mundo - Francis Fukuyama

Folha de S. Paulo

A vitória esmagadora de Donald Trump e do Partido Republicano no último dia 5 levará a grandes mudanças em áreas importantes na política dos Estados Unidos, desde a imigração até a Ucrânia. Mas o significado da eleição vai muito além dessas questões específicas e representa uma rejeição decisiva dos eleitores americanos ao liberalismo e à maneira particular como a compreensão de uma "sociedade livre" evoluiu desde os anos 1980.

Quando Trump foi eleito pela primeira vez em 2016, era fácil acreditar que esse evento era uma aberração. Ele estava concorrendo contra uma oponente fraca que não o levava a sério e, de qualquer forma, Trump não venceu no voto popular. Quando Biden conquistou a Casa Branca quatro anos depois, parecia que as coisas tinham voltado ao normal após uma desastrosa Presidência de um mandato só.

Após a votação do dia 5, agora parece que a anomalia foi a Presidência de Biden, e que Trump está inaugurando uma nova era na política dos EUA e talvez no mundo como um todo. Os americanos votaram nele com pleno conhecimento de quem Trump era e o que ele representava. Não só ele ganhou a maioria dos votos e todos os estados-pêndulo, mas os republicanos retomaram o Senado e parecem que vão manter a maioria da Câmara dos Representantes. Dada a sua já existente dominância na Suprema Corte, eles agora estão prontos para controlar todos os Três Poderes do governo.

Mas qual é a natureza desta nova fase da história americana?

Fundo trilionário para sacralizar a mudança climática - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

A busca angustiosa de  soluções   para mitigar o impacto do aquecimento global , que já passou pela ciência, pela economia, por ações pontuais de governos, está sendo introduzida agora  também no espaço da religiosidade.  No Japão,  uma freira católica, Agnes Katsuko Sasagawa, que, nos anos de 1970, na cidade de Akita,   fazia previsões   catastróficas de eventos que vieram a acontecer , está ganhando milhares de seguidores, ao condenar a violência,  a injustiça social e as guerras insensatas. Agora começou a advertir   sobre as questões climáticas e o papel da Amazônia para atenuar o problema.

É intrigante: a gente não sabe se chora ou se acha graça. Recebe ela,  segundo a própria, orientações espirituais   de uma  pequena estátua (de madeira) de Maria, mãe de Jesus, existente na igreja local,  da qual verte ou  vertia sangue e lágrimas.  Nas suas advertências, Sasagawa relata genericamente, como no Apocalipse e até em Nostradamus, as possibilidades  dos desastres naturais, das crises sociais , e  dos  conflitos inesperados entre países  tornarem-se ainda mais frequentes com   o colapso espiritual da humanidade. 

A Instrumentalização da Fé pela Política - Cláudio Carraly*

A instrumentalização da fé como fenômeno global é uma questão complexa e multifacetada que permeia diversas sociedades ao redor do mundo. Esse fenômeno refere-se à utilização da religião como ferramenta para atingir objetivos políticos, sociais ou econômicos, muitas vezes distorcendo os princípios fundamentais das crenças religiosas em prol de interesses de grupos específicos. No Brasil, país marcado por uma significativa diversidade de crenças, uma das manifestações mais notáveis desse fenômeno é a intolerância religiosa. Grupos e indivíduos sentem-se compelidos a impor suas crenças como absolutas, desconsiderando a diversidade de práticas espirituais presentes no país e a garantia destas pela Constituição. Essa realidade não apenas cria divisões, mas também gera conflitos que frequentemente resultam em violência e discriminação. 

IEPfD & Ateliê de Humanidades | Diálogos: O que saiu das urnas de 2024? com Paulo Fábio Dantas

 

Poesia | Destruição, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Agnes Nunes - Como vai você