quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Denúncia contra Jair Bolsonaro é sólida e gravíssima

O Globo

Cabe agora ao Supremo evitar atropelo e lentidão para que o julgamento tenha desfecho justo

Com base num extenso trabalho investigativo da Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou o ex-presidente Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF), sob a acusação de ter liderado uma tentativa de golpe de Estado depois de derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Entre os outros 33 denunciados estão quatro ex-ministros, quatro ex-integrantes do Alto Comando do Exército, um ex-comandante da Marinha, assessores palacianos e militares da ativa ou da reserva.

Estão na lista nomes como Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e candidato a vice na chapa de Bolsonaro; Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça; Alexandre Ramagem, deputado federal pelo Rio e ex-diretor da Abin; e Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal. Se a denúncia for aceita pelo STF, os envolvidos passarão à condição de réus e serão julgados por crimes como tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e participação em organização criminosa. Somadas, as penas de prisão podem chegar a 43 anos.

É de lamentar - Merval Pereira

O Globo

O que incomoda é ter a quase certeza de que, corremos o risco de ver de novo o que aconteceu aos condenados da Lava-Jato

No dia seguinte à denúncia, pelo procurador-geral da República, do ex-presidente Bolsonaro e de mais 33 comparsas, cinco deles militares de alta patente — quatro generais do Exército, um almirante da Marinha —, por tentativa de golpe de Estado, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli anulou com uma canetada monocrática todos os processos contra o ex-ministro dos governos Lula e Dilma Antonio Palocci. Agora ele está livre, leve e solto depois de ter detalhado, por livre e espontânea vontade, todos os crimes que praticou durante o governo Lula, com o conluio do presidente da época, o mesmo Lula que hoje nos preside pela terceira vez.

Não creio que tenha sido de propósito, seria muita perversidade do ministro. Mas denota o completo alheamento da realidade à sua volta. Poderia ter esperado mais um pouco, para evitar que o Supremo seja mais uma vez acusado de beneficiar petistas para prejudicar Bolsonaro.

Por quanto tempo Bolsonaro ficará na cadeia, se é que será preso? Mais ou menos tempo que o presidente Lula, que ficou 580 dias preso e saiu se dizendo inocentado pela Justiça? Mais ou menos tempo que o tenente-coronel Mauro Cid, que negociou um máximo de dois anos de prisão, caso não seja indultado pela Justiça?

Malu Gaspar – O golpe e seu julgamento

O Globo

Julgamento de Bolsonaro deve coroar democracia, e não enfraquecê-la

Como já era de esperar, a denúncia contra Jair Bolsonaro e outros 33 acusados de golpe de Estado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, dividiu o Brasil. Quem já considerava o ex-presidente culpado ou de alguma forma responsável pelo 8 de janeiro comemorou antecipadamente até a provável condenação e, por tabela, o enterro do projeto de anistia aos presos pelos ataques golpistas às sedes dos três Poderes. No polo oposto do espectro político, a acusação foi tachada de frágil, sem evidências ou provas de que Bolsonaro tem ligação com os ataques — para muita gente, tudo não passou de uma baderna generalizada.

Para que se avalie a denúncia pelo que ela realmente é, e não pelo que se pretende fazer dela, porém, é preciso entender de que tipo de crime estamos falando. Um presidente da República que trame um golpe de Estado nunca assinará um recibo ou preencherá um formulário descrevendo o que fará.

Presos em suas próprias provas - Míriam Leitão

O Globo

A denúncia do PGR e a delação de Cid mostram que estivemos muito perto de um golpe ‘A democracia correu riscos’, diz presidente de STM

"Eu te digo com muito assombro que eu não tenho dúvidas de que a democracia correu sérios riscos e que se tivesse sido decretado a GLO provavelmente o golpe teria sido desfechado”. Ouvi isso da ministra Elizabeth Rocha que assumirá em março a presidência do Superior Tribunal Militar. Ela chegou para a entrevista que me concedeu ontem de manhã com um bloquinho no qual tinha anotado pontos importantes da denúncia que ficara lendo até tarde. Disse que o procurador-geral Paulo Gonet apresentou uma denúncia com “começo, meio e fim, os indícios são fortes e a peça bem fundamentada processualmente”. Ela disse que “sem querer prejulgar, acho muito difícil que essa denúncia não seja recebida”.

Tentativa de golpe pode pôr Bolsonaro na cadeia - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Denúncia somente tem precedente no caso do putsch integralista de 11 de maio de 1938, quando o tenente Severo Fournier liderou um ataque ao Palácio Guanabara, residência do presidente Getúlio Vargas

A Procuradoria-Geral da República (PGR) finalmente apresentou a denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras 33 pessoas por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e formação de organização criminosa, crimes que podem levar a penas duríssimas. Bolsonaro é acusado de liderar uma conspiração para permanecer no poder, após a derrota nas eleições de 2022, para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ações para desacreditar o sistema eleitoral, pressionar líderes militares, envenenar Lula e assassinar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes compõem o escopo da denúncia. Isso é muito grave. Porém, as acusações precisam ser comprovadas, principalmente no caso do ex-presidente da República. Todos os acusados têm direito à presunção de inocência e ao devido processo legal, ou seja, à ampla defesa.

A sobriedade de Gonet e a combustão da denúncia - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se o Centrão já havia majorado o preço para o governo depois da queda de popularidade, fará o mesmo com o bolsonarismo garantindo um espetáculo de boa bilheteria

Depois da denúncia e julgamento da Lavajato, o PT perdeu duas eleições presidenciais consecutivas, viu a base municipal do partido ser dizimada e a bancada na Câmara dos Deputados perder um quinto de suas cadeiras. A revelação dos vícios daquela operação e dos erros no julgamento dela decorrente permitiu a volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, mas à frente de uma maioria eleitoral e política muito mais apertada e acossada pelo extremismo de direita adubado pelo lavajatismo.

O que importa no show de Trump - Eduardo Belo

Valor Econômico

Impacto das medidas do primeiro mês de governo ficarão claros no meio deste ano, projeta professor da FDC

Em 2017, o economista, escritor e quadrinista americano Scott Adams, célebre por ter criado e publicado por mais de três décadas a tirinha “Dilbert”, uma sátira mordaz do mundo corporativo, lançou o livro “Win Bigly: Persuasion in a World Where Facts Don’t Matter”.

O título é autoexplicativo. Os fatos não importam. O que realmente conta é como convencer pessoas - especialmente as que ainda não têm convicções enraizadas - de que há duas formas de ver o mundo ou de fazer as coisas: a “nossa” e a “errada”.

No livro - cujo título em português é um quase presunçoso “Ganhar de lavada” - Addams desfila técnicas e conceitos de convencimento, muitos deles aplicados na campanha da primeira eleição de Donald Trump, em 2016.

Implicações previsíveis - William Waack

O Estado de S. Paulo

Mesmo a denúncia não tira de Bolsonaro papel central na direita brasileira

A denúncia e a esperada condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado têm pelo menos duas previsíveis implicações. Embaralham o cenário da sucessão em 2026 e aumenta o descrédito em largas parcelas da população brasileira em relação a instituições como o STF.

O roteiro que Bolsonaro pretende seguir é idêntico ao de Lula em 2018 – anunciar sua candidatura mesmo inelegível e mesmo se estiver na cadeia (hipótese nada desprezível). Esse script circunscreve um “herdeiro” ao âmbito da sua família, complicando consideravelmente articulações de centro-direita na busca de candidatos à Presidência entre os atuais governadores.

Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas. Pois, no trumpismo e nas suas adjacências, o dinheiro é a medida de todas as coisas, inclusive do homem

Dia desses, assistindo a uma entrevista num canal de TV da internet, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem de negócios sem ócios precisa sempre contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história: o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.

Bolsonaro na cadeia e Lula 4 - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Prisão do golpista-mor pode ser solução para elite que quer frente ampla contra esquerda

As más notícias sobre o governo devem sair das manchetes por um par de dias graças à denúncia de Jair Bolsonaro e turma. A abertura do processo, em abril, e a provável condenação dos elementos da organização criminosa armada, no dizer da Procuradoria-Geral da República, vai criar ondas de noticiário em tese negativo para certa extrema direita.

É improvável que os danos à imagem dessa parte da oposição contribuam para aumentar o prestígio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Decerto atrasam a organização da direita para 2026. Mas essa bem pode ser uma solução para quem quer derrotar Lula.

Deputado gosta de apanhar - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se anistiar os depredadores, a Câmara mostrará que mereceu ser invadida, urinada e cuspida

No passado, dizia-se que mulher de malandro apanhava e gostava. Hoje sabemos que ela não reagia porque não podia. Mas aquela história pode ser contada em nossos dias, tendo no papel os deputados brasileiros. Segundo arrotos recentes de Bolsonaro, a Câmara "já assegurou o quorum para aprovar o projeto de lei" que anistia os terroristas do 8/1 —anistia que se estenderia num perdão a ele próprio. Essa maioria inclui, diz ele, além dos deputados de oposição, outros pertencentes a partidos nominalmente aliados do governo.

Pouca esperança na segurança pública - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Nenhum outro assunto abre tamanho fosso entre o temor dos cidadãos e o dar de ombros do governo

Recentes pesquisas mostram agudo declínio na avaliação positiva do presidente Lula. Mas, nos últimos dois anos, algo tem se mantido constante nas medições dos humores do povo.

A segurança é invariavelmente citada como a principal preocupação do público (acima até da saúde). Mesmo que alguns indicadores da criminalidade revelem discretíssima melhora nos últimos anos —em alguns estados e para certos delitos—, a sensação geral é de desamparo diante do que pobres, ricos ou remediados vivem como ameaça cotidiana.

Entregando o ouro...Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Enquanto a governabilidade é distraída com as versões e narrativas errantes do Executivo, com as inconstitucionalidades de Morais e oportunismo de meia dúzia de sujeitos, uma das maiores minas de estanho do mundo, que tem como subproduto ferro ligas de nióbio e tântalo, além de conter resíduos de urânio, (usado na produção de energia nuclear), acaba de ser vendida para os chineses. Sem um projeto de Nação, um presidente que governe e um Supremo que respeite a cidadania, o País está tomado por uma governança vacilante. Não se sabe o que fazer, entre outras coisas, com o petróleo da foz da Amazônia, com as reservas naturais   estratégicas. Anda-se na contramão das tendências mundiais, colocando em risco a própria soberania. 

É a economia idiota! (II) - Alfredo Maciel da Silveira

"The Economy Stupid!"...(James Carville, campanha de Clinton, 1992)...

Vai fazer um ano, 02/03/24, que tive publicado aqui mesmo neste blog artigo praticamente de mesmo título. Alguns podem achar que a economia “tem melhorado”. Mas o quadro político acho que reforça meus temores de um ano atrás. E a presente análise econômico-política é continuação da anterior.

Dos estimados 3,5% do crescimento do PIB brasileiro em 2024, pode-se afirmar – a partir das próprias estimativas do IBGE – que uns 2,5% vem de efeitos diretos e indiretos do dinamismo do Agro!

( "Linkages" de investimentos à la Hirshman, mais multiplicadores do "superavit comercial", à la Kalecki, com forte presença do Agro.)

Nem mesmo os desenvolvimentistas (sem adjetivos) dão uma "dura" no "Biden (ops!) Lula da Silva". Estariam aguardando serem demandados por alguma nova composição de forças para 2026?

Belluzzo sabe tudo, mas "pega leve", talvez pela amizade pessoal com Lula.

Poesia | Façam silêncio, de Pablo Neruda

 

Música | Diogo Nogueira - Samba de Arerê / Zé do Caroço

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso tem dever de dar fim aos supersalários

O Globo

Levantamento do GLOBO estima em R$ 6,7 bilhões os penduricalhos que juízes receberam além do teto salarial

Na abertura do ano judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, minimizou o peso da Justiça nos cofres públicos. Afirmou que o custo dos tribunais para os contribuintes, atualmente em 1,2% do PIB (ou 1,6% se considerado o Ministério Público), é decrescente. Ora, Barroso esquece o essencial: a Justiça brasileira é, por todas as medidas disponíveis, a mais cara do mundo para a sociedade. Nos países emergentes, os tribunais custam 0,5% do PIB. Nas economias avançadas, 0,3%. Além de caríssima, a Justiça brasileira é ineficiente. O Índice do Estado de Direito, medida da percepção sobre o trabalho dos tribunais elaborada pelo World Justice Project, põe o Brasil em 80º lugar entre 142 países.

Denúncia implode campanha por anistia a Bolsonaro e golpistas Vera Magalhães

O Globo

Peça de Gonet deixa clara conexão entre trama golpista iniciada em 2021 e o 8 de Janeiro de 2023 e joga balde de água fria em articulação bolsonarista

O capítulo mais relevante do ponto de vista da estruturação da denúncia de 276 páginas do procurador-geral da República Paulo Gonet é justamente a sua introdução. Não por acaso, o PGR o chamou de "uma introdução necessária". É nele que Gonet diz que uma democracia que não se protege não resiste às tentativas de suprimi-la e lista as incumbências constitucionais de cada uma das instituições de zelar por ela.

É a partir desse arrazoado legal e teórico que Gonet mostra como a trama golpista, cujo início ele situa em junho de 2021, foi comandada por Jair Bolsonaro e pela cúpula militar e policial de seu governo (dos oito principais denunciados, 6 são militares e os 2 únicos civis são delegados da Polícia Federal) e se estendeu até o 8 de Janeiro de 2023 --o que já joga por terra a estratégia que se intensificou nas últimas semanas de tentar minimizar os acontecimentos daquele dia e creditá-los a mera baderna desorganizada.

Bolsonaro mais perto do xadrez - Bernardo Mello Franco

O Globo

Paulo Gonet demorou, mas enfim denunciou Jair Bolsonaro ao Supremo. O capitão foi acusado de articular um golpe de Estado em causa própria. Segundo o procurador-geral, ele transformou o governo numa organização criminosa para tentar se manter no poder sem votos.

As conclusões do Ministério Público não são novas. Já estavam no relatório em que a Polícia Federal indiciou Bolsonaro e seus asseclas, em novembro passado. Isso não tira a relevância histórica da denúncia. No momento em que o país celebra 40 anos de democracia, um ex-presidente deve se enviado ao banco dos réus por conspirar contra a Constituição e impor uma nova ditadura.

Denúncia de Gonet derruba teses de defesa de Bolsonaro - Míriam Leitão

O Globo

O procurador- geral da República, Paulo Gonet, denunciou ao todo 34 indiciados na tentativa de golpe, mas avisou que outros podem ser denunciados. Na sua lista estão todos os principais líderes da trama golpista, a começar do ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais Braga Netto, Augusto Heleno, Mario Fernandes, Paulo Sérgio Nogueira, o ex-ministro Anderson Torres, o ex-diretor da ABIN, Alexandre Ramagem.

Entre os 34 denunciados, a maioria é militar. Além dos ex-ministros general Paulo Sérgio Nogueira, general Braga Netto e general Augusto Heleno, estão entre os denunciados o general Mauro Fernandes; o ex-comandante da Marinha o almirante Almir Garnier; o general Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, que chefiava o Coter, Comando de Operações Terrestres; o coronel da ativa Bernardo Romão Corrêa Netto; e o tenente-coronel Rodrigo Bezerra de Azevedo.

Lula tropeça, e a Faria Lima se anima – Zeina Latif

O Globo

O risco fiscal entrou no radar. Os indicadores fiscais são piores, e as reações do mercado cambial são mais tempestivas, o que alimenta a inflação

Afirmei em artigo recente que, simbolicamente, a viralização do vídeo do deputado Nikolas Ferreira, com críticas à portaria da Receita que ampliava a fiscalização sobre o Pix, seria para o governo Lula o que os protestos de 2013 foram para o governo Dilma.

A hipótese ganha musculatura à luz da queda brusca da aprovação do presidente em fevereiro, segundo o Datafolha. Explico: a aprovação de Dilma vinha em patamares elevados (55% líquido, na diferença entre bom/ótimo e ruim/péssimo), apesar do desconforto com a economia.

O inferno astral de Lula – Elio Gaspari

O Globo

Na segunda-feira da semana passada, um conhecedor de Brasília e de Lula dizia: "Ele não sabe governar com pouco dinheiro." Na sexta veio o Datafolha com o tombo de sua popularidade. Em seguida, chegou o Ipec informando que 62% dos entrevistados preferem que ele não dispute a reeleição. A erosão da popularidade do governo deu-se até mesmo no segmento de seus eleitores. Desde os tempos da Lava-Jato, Lula não tinha uma semana tão amarga.

Não é só Lula que está com um problema, nem é só o PT, prestes a completar 45 anos, numa situação esquisita. Divide-se entre ideias velhas, acreditando em reforma ministerial e projetos juvenis. A raiz de todas as dificuldades instaladas na segunda metade do mandato está lá atrás, nas primeiras semanas do Lula 3.0. Ele e seus companheiros leram mal a vitória de 2022. Não foi Lula quem ganhou, foi Bolsonaro quem perdeu.

Em defesa do Estado - Martin Wolf

Valor Econômico

Uma sociedade complexa é mais bem atendida por um serviço público competente, profissional e neutro

Sociedades civilizadas dependem das instituições. Quanto mais complexa a sociedade, mais vital são essas instituições. Instituições proporcionam estabilidade, previsibilidade e segurança. Empresas, escolas, universidades e tribunais são instituições. No entanto, as instituições mais importantes são as do Estado. É por isso que a ofensiva de Donald Trump contra o que seus apoiadores de forma enganosa chamam de “o Estado profundo” é tão perigosa. Alguns deles acreditam que o Estado deveria ser servil aos caprichos do grande líder. Outros acham que deveria estar a serviço dos mais ricos. Ambos esses lados concordam que a capacidade do Estado de atender às necessidades do grande público é de pouca importância. Esses pontos de vista são perigosos. Prenunciam autocracia, plutocracia e disfunção.

Os ventos do populismo sopram nos EUA e no Brasil - Fernando Exman

Valor Econômico

Petistas importantes demonstram preocupação com a nova estratégia de comunicação adotada pelo presidente Lula

Vozes relevantes do PT demonstram preocupação com a nova estratégia de comunicação adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nada pessoal contra o titular da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Sidônio Palmeira, sublinham. Eles reconhecem a importância de seu trabalho durante campanha de 2022 e o fato de o ministro ter sido nomeado há cerca de um mês, em uma situação delicada. Mas o receio é com o risco de agravamento do problema de imagem do governo.

Explica-se: a comunicação da Presidência da República tem a missão institucional de difundir as políticas públicas do Poder Executivo, após coordenação interministerial e com o uso de pesquisas sobre o que interessa ou preocupa a sociedade. Por ser impessoal e técnica, argumentam, chega à população com muito mais credibilidade do que quando a mensagem passa a ter uma roupagem de campanha eleitoral.

Gonet afasta noção de atos preparatório e aponta insurreição - César Felício

Valor Econômico

Pela primeira vez na história do Brasil um governante é denunciado formalmente por tentativa de golpe de Estado

A chave da denúncia apresentada pelo procurador geral da República, Paulo Gonet ,contra o ex-presidente Jair Bolsonaro está na frase: "quando um presidente, que é a autoridade suprema das Forças Armadas (art.142) reúne a cúpula dessas Forças para expor planejamento minuciosamente concebido para romper com a ordem constitucional, tem-se ato de insurreição em curso, apenas ainda não consumado em toda sua potencialidade danosa". Com esse entendimento, Gonet afasta da conduta de Bolsonaro a noção jurídica de ato preparatório, que pela legislação brasileira não é crime, e a enquadra em um ato executório.

O procurador geral considera as duas reuniões que Bolsonaro teve com os comandantes das Três Forças , entre 14 de novembro e 7 de dezembro de 2022, e o seu encontro no Palácio da Alvorada com o general que chefiava o Comando de Operações Terrestres ( Coter), como passos de uma caminhada iniciada em meados de 2021, com a sua campanha contra o voto digital, e só concluída na quebradeira na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Só a reforma do artigo 142 viraria a página do golpismo - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A gravidade dos crimes denunciados pelo PGR não deixa dúvida de que Bolsonaro e os 33 outros denunciados dificilmente escaparão da prisão

A gravidade dos crimes denunciados pelo Procurador-Geral da República a serem analisados pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal e julgados pelo plenário da Corte não deixa dúvida de que o ex-presidente Jair Bolsonaro e os 33 outros denunciados dificilmente escaparão da prisão. O desgaste a que o bolsonarismo será submetido ao longo do processo de aceitação e julgamento da denúncia terá desdobramentos políticos com reflexos diretos sobre a disputa presidencial de 2026.

A dúvida que surge é sobre o aperfeiçoamento institucional que decorrerá deste capítulo infeliz da história brasileira. O mais evidente e, em torno do qual gira boa parte das 272 páginas da denúncia, é o esforço dos golpistas, dos “kids pretos” ao ex-presidente da República, em envolver as Forças Armadas na tentativa de golpe.

Pix segue zanzando no Congresso Nacional - Lu Aiko Otta

Valor Econômico 

Isenção de IR até R$ 5 mil pode ser ‘tábua de salvação’ para a popularidade em queda de Lula

Responsável por grande estrago na popularidade do governo, o pix segue zanzando pelo Congresso Nacional. A Medida Provisória (MP) 1.288/25, enviada no calor da crise, segue em tramitação. Recebeu 40 emendas, notadamente da oposição e do centrão. Além disso, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) protocolou um projeto de lei com o mesmo conteúdo da MP na semana passada.

Podem dar em nada, como podem servir de base para outra onda de fake news. É o tipo de discussão que pode se descolar da realidade, como se viu.

Está prestes a chegar ao Congresso Nacional a reforma do Imposto de Renda. É outro tema igualmente capaz de atropelar a racionalidade.

Brasil na Opep sinaliza mais carbono e menos energia limpa - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com a decisão de explorar petróleo até a última gota, o país abdica de ser um líder da nova economia descarbonizada

O Brasil aderiu à Carta de Cooperação entre Países Produtores de Petróleo (CoC), um fórum de discussão ligado à Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). A decisão sinaliza uma mudança de rumo na política ambiental do governo, às vésperas da Conferência das Nações Unidas para o Clima (COP30), em Belém (PA), ao lado da controversa decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de explorar o petróleo na região da Margem Equatorial, na bacia da Foz do Amazonas.

Com as bênçãos de Lula, a decisão foi tomada nesta terça-feira pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e anunciada pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, enquanto a ministra do Meio Ambiente (Rede), Marina Silva, muito pressionada por seu próprio partido e pelas organizações e lideranças ambientalistas, ainda permanece numa espécie de “silêncio obsequioso”.

A crise política tem nome - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Janja não pode responder por erros do governo nem pela demora do presidente em tomar decisões

Desde que pesquisas começaram a indicar acentuada queda na popularidade do presidente Lula, o Palácio do Planalto busca um culpado para a crise. Lula reuniu o núcleo duro do governo no domingo, na Granja do Torto. Na véspera, o ministro chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, também teve uma conversa reservada com sua equipe.

Na reunião do Torto, o diagnóstico indicou que os principais problemas estavam relacionados à economia. Na lista apareceram a divulgação da portaria sobre monitoramento do Pix sem combinar com os russos, a taxação das blusinhas e até a inflação dos alimentos.

O PIB e os juros de Lula - Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

A aposta é de que a ala política, com o marqueteiro à frente, vai ditar as decisões do governo até 2026

É crescente o temor de que o tombo nos índices de aprovação do presidente Lula terá um impacto populista sobre as principais variáveis macroeconômicas em 2025 e, sobretudo, em 2026, ano de eleição presidencial: um piso para a desaceleração do crescimento do PIB e um teto para o aumento dos juros, com efeito colateral sobre a inflação.

Com a reeleição no foco do presidente, especialmente depois de ter colocado o seu marqueteiro da campanha eleitoral em 2022 como funcionário do governo, ocupando a Secretaria de Comunicação Social, dificilmente Lula abrirá mão das suas principais bandeiras políticas, como criação de postos de trabalho, baixa taxa de desemprego e programas de transferência de renda.

Juros, dólar e Lula caem pelas tabelas - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Esfriamento previsto da economia e má imagem do governo ajudam a mudar clima na finança

De janeiro para fevereiro, o clima mudou. Mudou pelo menos na finança. Não foi da água para o vinho, mas para chá de camomila, até porque, nas expectativas ou nas esperanças de parte da elite, a imagem de Luiz Inácio Lula da Silva foi para o vinagre e por lá ficaria.

O dólar vale menos do que R$ 5,70. Um dia antes de Fernando Haddad anunciar o pacote fiscal, custava R$ 5,81. Devolveu, pois, mais do que o exagero do pânico de dezembro, quando chegou ao pico de R$ 6,27. Na mediana da previsão de "o mercado", ficaria em R$ 6 no final deste 2025.

As taxas de juros de dois a cinco anos no mercado de dinheiro caíram em torno de 0,8 ponto percentual, de mais de 15% ao ano para perto de 14%. É relevante. O que houve, segundo administradores do dinheiro grosso e porta-vozes mais qualificados?

O confrade manda a real – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Kakay disse a Lula, em público, verdades que muito governista fala por aí no particular

Do jeito que vai, o PT —com Lula ou sem ele— perde a eleição em 2026. Foi, em resumo, o que disse Antônio Carlos de Almeida Castro, admirador e apologista das ideias do presidente. Isso até segunda-feira (17), quando escreveu e depois falou em voz alta o que governistas dizem no particular.

Kakay, como é conhecido o advogado, expôs em detalhe o que Gilberto Kassab havia dito há dias levando Lula a usar de ironia: "Comecei a rir quando li a declaração do companheiro Kassab".

Segundo o presidente do PSD, governo nenhum se sustenta com ministro da Fazenda fraco. Ele alertou para a necessidade de o presidente fortalecer Fernando Haddad (PT) a fim de chegar competitivo à eleição de 2026.

Trump sabota a Longa Paz - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Perspectiva de ceder territórios ucranianos à Rússia sem a anuência de Kiev seria recompensar Putin por guerra de agressão

Sim, Vladimir Putin tinha motivos para queixar-se da expansão da Otan para o Leste, que contrariou promessas feitas à Rússia nos anos 1990. Mas o autocrata perdeu qualquer filamento de razão que pudesse ter quando trocou o diálogo por uma guerra de agressão e invadiu a Ucrânia em 2022 (deixemos de lado o precedente da Crimeia).

Sim, Donald Trump tinha motivos para queixar-se do desequilíbrio no financiamento da Otan. Eram os EUA que arcavam com a maior parte dos custos da segurança do Ocidente, enquanto países europeus entesouravam os chamados dividendos da paz (redução de gastos militares após o fim da Guerra Fria).

Não em meu nome - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Identitários estão confortáveis para dar justificativa biológica a seus atos de revanche

Nas últimas semanas, tivemos uma amostra impressionante do que significa "dobrar a aposta" quando se trata das estratégias de assédio identitário. De costas quentes, agora que uma corte de Justiça afirmou que o racismo é o único crime exclusivo de uma raça –uma vez que só os brancos podem cometê-lo–, militantes identitários começam a se sentir confortáveis para dar uma justificativa biológica e genética à sua glorificação do ressentimento e aos seus atos de revanche.

Como a mídia digital está (também) redefinindo a aprovação de Lula - Arthur Ituassu*

Correio Braziliense

O fenômeno da crescente insatisfação na era digital não significa necessariamente que a democracia esteja em risco, mas sugere que os padrões de governabilidade e popularidade precisam ser reavaliados

Um debate interessante se estabeleceu no Brasil, com cientistas políticos tentando entender os baixos índices de aprovação do governo Lula. Pelo menos duas pesquisas importantes, Quaest e Datafolha, apresentaram índices de aprovação de 31%, em janeiro, e 24%, em fevereiro. Os números chamam a atenção em um contexto de relativa normalidade, sem uma grande crise política ou econômica, de fato, acontecendo.

A ciência política tem interpretado o fenômeno a partir de uma transformação histórica e como algo "estrutural", não de conjuntura. No passado, o apoio político era, em geral, explicado por questões econômicas, isto é, benefícios sociais e aumento da renda eram imediatamente transformados em altos índices de aprovação. Agora, há as questões pós-materiais ligadas às questões culturais e de identidade. No Brasil, o crescimento do protestantismo teria fortalecido a meritocracia e a responsabilidade individual, mudando a perspectiva sobre bens gerados pelo governo. O que antes era visto com gratidão, agora seria percebido como nada além de uma obrigação.

Poesia | Um poema de fim de tarde, de Fernando Pessoa

 

Música | Seu Jorge - Tive Razão

 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente reformar a Previdência de estados e municípios

O Globo

Em 63% das prefeituras e 37% dos estados, regras do funcionalismo são mais brandas que as federais

Num cenário de envelhecimento da população causa preocupação que as regras de aposentadoria estabelecidas para os servidores da União na reforma da Previdência de 2019 sejam seguidas em menos da metade das prefeituras (37%) com regime previdenciário próprio e em apenas 17 das 27 unidades da Federação (63%). Todos os demais entes federativos adotam regimes menos rigorosos, como verificou estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) noticiado pelo GLOBO. O estudo foi feito pelos pesquisadores Rogério Nagamine e Bernardo Schettini, levando em conta critérios como idade mínima de aposentadoria e outras mudanças introduzidas pela reforma.

Extubação plena da democracia brasileira: a conciliação política começa por cima - Paulo Fábio Dantas Neto

Com frequência, nos atuais tempos em que a democracia brasileira se sustenta e reconfigura em alta tensão com valores tradicionais da nossa república, tenho me lembrado de um texto de Raul Francisco Magalhães sobre traços republicanos presentes nos primeiros passos da construção oitocentista do estado e da sociedade nacionais no Brasil. “A república estava lá, mas a democracia não ou jamais fomos ibéricos” foi um trabalho apresentado ao XXXV Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), em outubro de 2011 (ver anais do Encontro).

Até onde sei, o autor - que não conheço e de quem, por negligência minha, não li mais nada, além do texto citado - é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, assim como Rubem Barboza Filho, este, um interlocutor e amigo, autor do livro “Tradição e artifício: iberismo e barroco na formação americana”, obra preciosa, publicada em 2000, pela Editora da UFMG, leitura imprescindível para quem pesquisa ou busca ter uma compreensão sobre a formação social brasileira e da Ibero-América, notadamente em suas dimensões política e cultural.  A alusão a Rubem Barboza Filho é imperativa ao evocar o texto de Magalhães porque parte importante deste é controvérsia respeitosa e qualificada com outro precioso texto daquele autor, publicado no ano anterior (Barboza Filho, R. “A modernização brasileira e o nosso pensamento político” - Perspectivas, São Paulo, v. 37, p. 15-64, jan./jun. 2010).

As voltas que o mundo dá - Merval Pereira

O Globo

“O fim indolor da inflação ter sido uma marca do PSDB foi algo que o PT não conseguiu perdoar nos 20 anos seguintes e colocou os dois partidos em polos opostos. Nas últimas quatro décadas o Brasil continuou tropeçando nas finanças

A política se move por sensações, das quais o medo é a mais importante. O cidadão vota por medo de perder o emprego, medo de perder benefícios, medo de mudanças radicais, medo de continuar sem perspectivas e assim por diante. Às vezes, como no caso do Pix, ou dos celulares em 2002, esse sentimento não é captado pelos políticos. Outras, como no caso do Bolsa Família ou do crédito consignado, responde a uma necessidade reprimida do cidadão comum e torna-se ferramenta eleitoral poderosa.