terça-feira, 29 de setembro de 2026

IA e o futuro do trabalho no Brasil, por João Saboia*

Valor Econômico

Algumas ocupações serão simplesmente extintas, enquanto outras serão transformadas e novas ocupações serão criadas

Há um temor generalizado no mundo sobre as transformações que a inteligência artificial (IA) poderá trazer ao mercado de trabalho nos próximos anos. O Brasil não foge a essa visão pessimista. Que tipo de empregos serão eliminados? Em que quantidade? Como e quantos serão os novos empregos gerados? E naqueles que sobreviverão, que mudanças serão realizadas nas atividades desenvolvidas? Em resumo, há mais dúvidas que certezas na medida em que a IA vai se disseminando no interior da economia.

Embora reconhecendo que a IA possa trazer grandes transformações e sérios problemas no mercado de trabalho, vamos desenvolver no artigo de hoje uma visão relativamente otimista sobre esse tema dentro do contexto de nosso país.

Ato 1 - Produtividade do trabalho
Há mais de uma década a produtividade média do trabalho não cresce. Segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, a produtividade por hora de trabalho (medida em R$ de 2021) passou de R$ 42,1 em 2013 para R$ 42,5 em 2025. É verdade que há setores com forte crescimento, como a agropecuária, mas em outros, como na indústria de transformação, houve queda no período, resultando numa média global na economia praticamente estável. Por outro lado, há grandes desníveis nos diferentes setores. A produtividade é muito maior na indústria extrativa mineral e na intermediação financeira do que em outros como a indústria de construção e o comércio.

Temos acompanhado a evolução da produtividade nos últimos anos, inclusive através de artigos publicados no Valor Econômico (ver, por exemplo, os textos publicados em 30/11/2023, 03/12/2025 e 31/03/2026), destacando a contribuição dos baixos investimentos e da má qualidade da educação, entre outras razões, para a estagnação da produtividade no país.

Ato 2 - Geração de empregos e taxa de desemprego
É exatamente a estagnação da produtividade média do trabalho que tem produzido um efeito favorável em termos de criação de empregos e redução da taxa de desocupação. Na medida em que a produtividade permanece constante, qualquer crescimento econômico se transforma em crescimento do emprego. Ao final do período acima, a taxa de desocupação atingia a mínima histórica de 5,6% (5,3% no trimestre maio/julho de 2026).

É verdade que a taxa de desocupação do país esconde um grande número de pessoas subutilizadas no mercado de trabalho brasileiro, quando consideradas como subutilizadas, além das pessoas desocupadas, os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e a força de trabalho potencial (pessoas que não estão procurando trabalho, mas que teriam disponibilidade para trabalhar). De qualquer forma, pode-se considerar que o mercado de trabalho brasileiro, embora não possa ser considerado em pleno emprego, se encontra atualmente em situação bastante favorável comparativamente ao passado.

A IA pode trazer uma contribuição positiva para enfrentar a baixa produtividade e a transição demográfica

Ato 3 - Transição demográfica e oferta de mão de obra
O Brasil vem passando por uma forte transição demográfica. A taxa de fecundidade (número de filhos/as por mulher ao longo da vida) não para de cair. No período 2013/2025 baixou de 1,77 para 1,55, bem abaixo da taxa de reposição de 2,1 necessária para estabilizar a população do país. Uma das consequências da queda da taxa de fecundidade é que a entrada de jovens no mercado de trabalho tende a diminuir e continuará diminuindo nos próximos anos. A famosa pirâmide demográfica deixou de ter o formato de pirâmide há muitos anos. Sua base vem se fechando. Atualmente há muito mais pessoas na faixa 40/44 anos e no seu entorno do que nas faixas etárias mais jovens.

A continuidade da transição demográfica representará uma dificuldade adicional para o mercado de trabalho brasileiro. Se atualmente a taxa de desocupação anda em seu mínimo histórico e há dificuldades para a contratação de pessoal em alguns setores, mesmo com um crescimento econômico entre baixo e moderado, o que poderia acontecer nos próximos anos com uma eventual recuperação econômica? Se a produtividade do trabalho não voltar a crescer, poderemos ter uma séria crise no mercado de trabalho com acentuada falta de mão de obra. É aí que entraria o papel da IA.

Ato 4 - IA e ajuste do mercado de trabalho
A disseminação da IA está ocorrendo em um ritmo rápido a ponto do próprio CEO da Anthopic, Dario Amodei, ter sugerido recentemente uma desaceleração de seu desenvolvimento. Em relação a seus efeitos sobre o mercado de trabalho, como destacado acima, ainda há muitas dúvidas. As ocupações que exigem trabalho manual, operações de máquinas e atividades físicas devem ser poupadas, enquanto as que utilizam tarefas repetitivas, produção de conteúdos e informação têm grande chance de serem impactadas negativamente. Algumas ocupações serão simplesmente extintas, enquanto outras serão transformadas e novas ocupações serão criadas. A principal dúvida é sobre o saldo final.

A disseminação da IA produzirá mais ou menos empregos na economia? A resposta depende da evolução futura da produtividade e do próprio crescimento da economia. Tudo aponta em direção ao aumento da produtividade na medida em que a IA se difundir pela economia. Assim, o aprofundamento da sua utilização teria o poder de modificar a composição e simultaneamente poupar mão de obra em termos absolutos.

Ato final - Conclusão
Apesar das preocupações sobre a evolução do nível de emprego com o desenvolvimento da IA no futuro, no caso do Brasil ela poderia trazer uma contribuição positiva para enfrentar a baixa produtividade do trabalho e a transição demográfica. A disseminação da IA tem potencial para transformar a atual estagnação da produtividade do trabalho numa retomada de seu crescimento. Isso seria benéfico num país que está passando por uma forte transição demográfica, onde a oferta de mão de obra jovem está diminuindo e tende a diminuir ainda mais nos próximos anos.

Do ponto de vista macroeconômico os resultados parecem favoráveis, mas do ponto de vista da população ocupada/desocupada políticas públicas deveriam ser implementadas no sentido de proteção para aqueles que perderem seus empregos, para aqueles que tiverem suas ocupações transformadas, e também para aqueles que serão incorporados às novas ocupações surgidas com a IA.

*João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “Mercado de Trabalho e Desigualdades - de Bolsonaro a Lula” (2019-2026), Editora Lux, 2026.

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