Valor Econômico
Algumas ocupações serão simplesmente extintas, enquanto outras serão transformadas e novas ocupações serão criadas
Há um temor generalizado no mundo sobre as
transformações que a inteligência artificial (IA) poderá trazer ao mercado de
trabalho nos próximos anos. O Brasil não foge a essa visão pessimista. Que tipo
de empregos serão eliminados? Em que quantidade? Como e quantos serão os novos
empregos gerados? E naqueles que sobreviverão, que mudanças serão realizadas
nas atividades desenvolvidas? Em resumo, há mais dúvidas que certezas na medida
em que a IA vai se disseminando no interior da economia.
Embora reconhecendo que a IA possa trazer grandes transformações e sérios problemas no mercado de trabalho, vamos desenvolver no artigo de hoje uma visão relativamente otimista sobre esse tema dentro do contexto de nosso país.
Ato 1 - Produtividade do
trabalho
Há mais de uma década a produtividade média do trabalho não cresce. Segundo o
Observatório da Produtividade Regis Bonelli, a produtividade por hora de
trabalho (medida em R$ de 2021) passou de R$ 42,1 em 2013 para R$ 42,5 em 2025.
É verdade que há setores com forte crescimento, como a agropecuária, mas em
outros, como na indústria de transformação, houve queda no período, resultando
numa média global na economia praticamente estável. Por outro lado, há grandes
desníveis nos diferentes setores. A produtividade é muito maior na indústria
extrativa mineral e na intermediação financeira do que em outros como a
indústria de construção e o comércio.
Temos acompanhado a evolução da produtividade
nos últimos anos, inclusive através de artigos publicados no Valor Econômico (ver, por
exemplo, os textos publicados em 30/11/2023, 03/12/2025 e 31/03/2026),
destacando a contribuição dos baixos investimentos e da má qualidade da
educação, entre outras razões, para a estagnação da produtividade no país.
Ato 2 - Geração de empregos e
taxa de desemprego
É exatamente a estagnação da produtividade média do trabalho que tem produzido
um efeito favorável em termos de criação de empregos e redução da taxa de
desocupação. Na medida em que a produtividade permanece constante, qualquer
crescimento econômico se transforma em crescimento do emprego. Ao final do
período acima, a taxa de desocupação atingia a mínima histórica de 5,6% (5,3%
no trimestre maio/julho de 2026).
É verdade que a taxa de desocupação do país
esconde um grande número de pessoas subutilizadas no mercado de trabalho
brasileiro, quando consideradas como subutilizadas, além das pessoas
desocupadas, os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e a força de
trabalho potencial (pessoas que não estão procurando trabalho, mas que teriam
disponibilidade para trabalhar). De qualquer forma, pode-se considerar que o
mercado de trabalho brasileiro, embora não possa ser considerado em pleno
emprego, se encontra atualmente em situação bastante favorável comparativamente
ao passado.
A IA pode trazer uma contribuição positiva
para enfrentar a baixa produtividade e a transição demográfica
Ato 3 - Transição demográfica
e oferta de mão de obra
O Brasil vem passando por uma forte transição demográfica. A taxa de
fecundidade (número de filhos/as por mulher ao longo da vida) não para de cair.
No período 2013/2025 baixou de 1,77 para 1,55, bem abaixo da taxa de reposição
de 2,1 necessária para estabilizar a população do país. Uma das consequências
da queda da taxa de fecundidade é que a entrada de jovens no mercado de
trabalho tende a diminuir e continuará diminuindo nos próximos anos. A famosa
pirâmide demográfica deixou de ter o formato de pirâmide há muitos anos. Sua
base vem se fechando. Atualmente há muito mais pessoas na faixa 40/44 anos e no
seu entorno do que nas faixas etárias mais jovens.
A continuidade da transição demográfica
representará uma dificuldade adicional para o mercado de trabalho brasileiro.
Se atualmente a taxa de desocupação anda em seu mínimo histórico e há
dificuldades para a contratação de pessoal em alguns setores, mesmo com um
crescimento econômico entre baixo e moderado, o que poderia acontecer nos
próximos anos com uma eventual recuperação econômica? Se a produtividade do
trabalho não voltar a crescer, poderemos ter uma séria crise no mercado de
trabalho com acentuada falta de mão de obra. É aí que entraria o papel da IA.
Ato 4 - IA e ajuste do
mercado de trabalho
A disseminação da IA está ocorrendo em um ritmo rápido a ponto do próprio CEO
da Anthopic, Dario Amodei, ter sugerido recentemente uma desaceleração de seu
desenvolvimento. Em relação a seus efeitos sobre o mercado de trabalho, como
destacado acima, ainda há muitas dúvidas. As ocupações que exigem trabalho
manual, operações de máquinas e atividades físicas devem ser poupadas, enquanto
as que utilizam tarefas repetitivas, produção de conteúdos e informação têm
grande chance de serem impactadas negativamente. Algumas ocupações serão
simplesmente extintas, enquanto outras serão transformadas e novas ocupações
serão criadas. A principal dúvida é sobre o saldo final.
A disseminação da IA produzirá mais ou menos
empregos na economia? A resposta depende da evolução futura da produtividade e
do próprio crescimento da economia. Tudo aponta em direção ao aumento da
produtividade na medida em que a IA se difundir pela economia. Assim, o
aprofundamento da sua utilização teria o poder de modificar a composição e
simultaneamente poupar mão de obra em termos absolutos.
Ato final - Conclusão
Apesar das preocupações sobre a evolução do nível de emprego com o
desenvolvimento da IA no futuro, no caso do Brasil ela poderia trazer uma
contribuição positiva para enfrentar a baixa produtividade do trabalho e a
transição demográfica. A disseminação da IA tem potencial para transformar a
atual estagnação da produtividade do trabalho numa retomada de seu crescimento.
Isso seria benéfico num país que está passando por uma forte transição
demográfica, onde a oferta de mão de obra jovem está diminuindo e tende a
diminuir ainda mais nos próximos anos.
Do ponto de vista macroeconômico os
resultados parecem favoráveis, mas do ponto de vista da população
ocupada/desocupada políticas públicas deveriam ser implementadas no sentido de
proteção para aqueles que perderem seus empregos, para aqueles que tiverem suas
ocupações transformadas, e também para aqueles que serão incorporados às novas
ocupações surgidas com a IA.
*João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “Mercado de Trabalho e Desigualdades - de Bolsonaro a Lula” (2019-2026), Editora Lux, 2026.

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