Valor Econômico
Flávio Bolsonaro fecha primeiro turno com desempenho melhor que o pai; lulistas levam só 5 Estados
A direita conseguiu no primeiro turno da
eleição presidencial o seu melhor resultado desde a redemocratização em 1989. O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) alcançou 47% dos votos válidos, indo para o
segundo turno em primeiro lugar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), que ficou com 45,2 % do total, excluindo votos brancos e nulos. O
percentual atingido por Flávio é 3,8 pontos percentuais acima do obtido pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022 e um ponto superior ao desempenho do
bolsonarismo em 2018, e não veio isoladamente.
O PL garante no momento uma bancada de 28 senadores, a maior da casa legislativa, e bolsonaristas ou aliados táticos de Flávio venceram em primeiro turno a disputa de catorze governos estaduais. Esta conta pode subir para 15 a depender da decisão da Justiça eleitoral a respeito da votação no Rio de Janeiro. Caso os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) sejam considerados anulados, o governador eleito será Douglas Ruas (PL).
Lulistas conseguiram a reeleição no primeiro
turno em somente cinco Estados. Em um cenário inédito, o segundo turno será
disputado somente em sete Estados, ou seis, a depender da decisão sobre o Rio
de Janeiro. Nunca houve tão baixa competição para governos estaduais desde
1990.
A correlação de forças para o segundo turno
entre Flávio e Lula se torna ainda mais dramática para o presidente quando se
leva em conta que os candidatos menos votados a presidente também pendem à
direita: Augusto Cury (Avante) teve 2,9%, Renan Santos (Missão), 2,2%, Ronaldo
Caiado (PSD), 2,2% e Romeu Zema (Novo), 0,3%. Os quatro candidatos nanicos da
esquerda somaram 0,17%. Os nanicos da direita não chegaram a 0,1%.
A disputa deste ano sinalizou para um grau de
polarização inédito em toda a história das eleições presidenciais sob sufrágio
universal direto e secreto. A soma dos candidatos intermediários ficou em 7,8%,
o menor resultado desde 1945. Em 2022, a soma dos eliminados no primeiro turno
foi 8,4%. Em 2006, outra eleição extremamente polarizada, ficou em 9,5%.
Tamanho grau de afunilamento indica que as pesquisas não devem mostrar grande
variáveis na breve campanha de segundo turno, que se encerrará no dia 25 de
outubro.
A variável fundamental para se explicar a
arrancada do bolsonarismo está no Sudeste, a mesma região que foi decisiva para
a derrota de Jair Bolsonaro há quatro anos. Em Minas Gerais, Flávio conseguiu
48,4%, praticamente o mesmo percentual obtido por Lula há quatro anos. O
petista caiu para 43,1% entre os mineiros, menos do que Jair Bolsonaro obteve
no estado em 2022 (43,6%). Em São Paulo, a dianteira do bolsonarismo na eleição
anterior foi de sete pontos percentuais. Desta vez foi de 14 pontos. No Rio de
Janeiro a diferença se elevou de 11 para também 14 pontos.
Em Minas e sobretudo em São Paulo esta
recuperação do bolsonarismo se pode explicar parcialmente pela força dos
governadores eleitos, Cleitinho Azevedo e Tarcísio de Freitas, ambos do
Republicanos. Mas a força da direita neste eixo se provou orgânica. O deputado
Nikolas Ferreira (PL-MG) se reelegeu com impressionantes 3 milhões de votos,
cerca de 20% do eleitorado apto do Estado. Em São Paulo, o vereador paulistano
Lucas Pavanato (PL), uma espécie de “proxy” de Nikolas, recebeu praticamente a
mesma votação, equivalente a 9% do eleitorado paulista apto. No caso do Rio foi
a força do bolsonarismo que tracionou Douglas Ruas (PL), uma candidatura que
teve grande dificuldade de se firmar.
A frente ampliada da esquerda pela presença
de Geraldo Alckmin na chapa de Lula, fundamental em 2022 para diminuir a
diferença no Sudeste, perdeu vigor. Ao contrário do que aconteceu há quatro
anos, Lula não conseguiu atrair formadores de opinião e segmentos empresariais
para sua candidatura. Não teve aderência o discurso de que Flávio Bolsonaro
representa uma ameaça à democracia, como Jair Bolsonaro representou
anteriormente.
A avaliação de governo sofrível na região ao
longo da administração, sobretudo depois da eleição municipal de 2024, cobrou
seu preço.
Outra Estado fundamental para a direita ficar
na dianteira foi o Rio Grande do Sul. Lá em 2022 o bolsonarismo abriu uma
frente de apenas sete pontos percentuais. Desta vez foram 20 pontos. No estado
que representa o quinto maior colégio eleitoral do Brasil a direita conseguiu
uma surpreendente vitória no primeiro turno para o governo estadual, com
Luciano Zucco (PL), um resultado fora do radar de todas as pesquisas de
opinião, além de levar as duas vagas para o Senado. É a primeira vez que a
esquerda fica sem senador no Rio Grande do Sul desde 1974.
O Rio Grande do Sul é emblemático no fracasso
de Lula em ampliar sua aliança. Em 2022, o governo estadual foi conquistado por
Eduardo Leite (PSD), no único caso no Brasil em que um governador derrotou
simultaneamente direita e esquerda. Em 2024, o estado foi devastado por uma
catástrofe climática. Em vez de construir uma aliança com Leite, o governo
federal preferiu demarcar diferença, criando um ministério extraordinário para
a ajuda ao Rio Grande do Sul e entregando-o ao PT.
A abstenção este ano atingiu 21,07%, ligeiramente
superior aos 20,95% de quatro anos atrás. Ao contrário de um senso comum
equivocadamente difundido, ela foi percentualmente menor que a média no
Nordeste, região em que Lula novamente venceu em todos os Estados. O índice foi
puxado para cima pelo Rio de Janeiro (23,8%), Mato Grosso do Sul (23,9%), Minas
Gerais (22,8%) e São Paulo (22,5%), todos locais em que Flávio Bolsonaro ficou
em primeiro lugar.
Em 2022, pela primeira vez na história, a
abstenção caiu no segundo turno em relação ao primeiro. Se este mesmo movimento
ocorrer este ano, irá afetar redutos bolsonaristas. Em seu discurso após a
divulgação dos resultados do primeiro turno, Lula disse que haverá um esforço
para tentar reduzir o número de eleitores ausentes.
A derrota do PT foi ampla e o partido sai
muito mais enfraquecido que o presidente. A ex-prefeita de Contagem Marília
Campos (MG) foi a única eleita para o Senado no conjunto das regiões Sudeste,
Sul, Norte e Centro-Oeste, que engloba 36 das 54 cadeiras em disputa. O partido
se tornou um feudo nordestino. Lá manteve os governos da Bahia, Piauí e Ceará,
irá disputar o segundo turno no Rio Grande do Norte, fez os dois senadores da
Bahia, reelegeu Humberto Costa (PE) e Rogério Carvalho (SE) e elegeu Samanda
Alves (RN). A esquerda ainda ganhou no Nordeste com as reeleições de Cid Gomes
(PSB-CE) e com a eleição de Luizianne Lins (Rede-CE), João Azevêdo (PSB-PB) e
Marília Arraes (PDT-PE). É muito pouco.
Os partidos do centro menos alinhados ao
bolsonarismo, como se previa, fizeram uma péssima eleição. O PSD caiu de 14
para apenas cinco senadores e perdeu os governos de Minas Gerais, Rondônia, Rio
Grande do Sul e Paraná. O MDB oscilou no Senado de 9 para 8 senadores, mas
ficaram pelo caminho o senador Renan Calheiros (AL), que não se reelegeu, e a
deputada Roseana Sarney (MA), que fracassou em sua tentativa de voltar ao
Senado. O deputado Aécio Neves (PSDB-MG) interrompeu uma carreira parlamentar
de 40 anos, a maior do Congresso Nacional, ao perder a eleição para o Senado em
Minas Gerais. O ex-governador Marconi Perillo, do PSDB de Goiás, ficou em um
distante terceiro lugar. O ex-governador Ciro Gomes (PSDB-CE), mesmo aliado ao
bolsonarismo, não conseguiu voltar ao governo do Ceará e acumula assim a sua
quarta derrota eleitoral seguida. No caminho do centro, sobrou a governadora de
Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), que, em uma aliança tática com o bolsonarismo,
conseguiu se reeleger em uma campanha eleitoral duríssima contra o presidente
nacional do PSB, João Campos.

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