O Globo
A pauta básica de Flávio é política e
vingativa. Planeja indultar seu pai e anistiar todos os condenados pelo 8 de
Janeiro
Recomeça a campanha presidencial. Foi dada
uma segunda chance aos candidatos, já que a primeira parte passou com um vazio
de ideias e propostas. Não por falta de problemas.
O Brasil passa por um momento singular. A
economia cresce, mas pouco e em desaceleração. A inflação está fora da meta,
mas não é explosiva. Houve ganhos de renda ao longo dos últimos anos, mas as
famílias não se sentem confortáveis. Estão endividadas e percebem que o custo
de vida permanece alto. É muito baixa a produtividade, consequência de décadas
de educação de má qualidade.
Tudo isso exige programas de longo prazo, requer uma visão de país. Além disso, há questões imediatas que ocuparão o presidente eleito desde seu primeiro dia. É como se o vencedor fosse receber um envelope que ninguém quis abrir na campanha.
Lula, é claro, não pode alegar surpresa. O
crescimento recente se deu pelo consumo, não pelo investimento, e pelo gasto
público sempre acima da despesa. Durante a campanha, o presidente recusou-se
até mesmo a discutir sobre o necessário ajuste das contas públicas.
O senador Flávio Bolsonaro chegou a
manifestar intenção de tratar do problema, mas não apresentou nada de concreto.
Então, pode-se perguntar, por que o mercado comemorou seu avanço nos últimos
dias? E por que deve mostrar-se ainda mais animado hoje?
A resposta está nos nomes que circulam para a
composição da equipe econômica. São economistas de linha ortodoxa, que têm
feito o trabalho de conversar com os agentes do mercado. Uma coisa é conversar,
outra é aplicar políticas impopulares. Mas é o que se tem no momento. E deve-se
considerar que a direita terá maioria no Congresso, isso determinando uma pauta
conservadora. Lula foi derrotado neste primeiro turno. Se já tinha dificuldades
com o Congresso, terá problemas ainda maiores se conseguir um difícil quarto
mandato.
Tudo considerado, não se pode esperar dele
qualquer proposta de ajuste fiscal. Ao contrário. Como demonstrou no primeiro
turno, sua ideia de ganhar votos é aumentar o gasto do governo, distribuir
bondades, ainda que sem orçamento. Quando pressionado, Lula lembra que fez
sólidos superávits nas contas públicas no seu primeiro mandato, iniciado em
janeiro de 2003. Mas foi por medo. Lula se viu diante de uma grave crise, com
desvalorização do real e recessão.
Do mesmo modo, hoje, parece que só a ameaça
de uma crise pode levar Lula a mudar a política de gastos que levou ao limite
no seu terceiro mandato. Existe essa ameaça. Do jeito que vai, o país corre o
risco de cair num ambiente de inflação, com juros altos, desvalorização de
moeda e recessão.
Eis aonde chegamos depois deste primeiro
turno. O senador chegou na frente e assim entra na segunda volta. Quanto ao
presidente Lula, pela primeira vez em sua longa carreira, entra no segundo
turno em desvantagem.
Em tese, haveria espaço para um debate de
propostas. Ocorre que a pauta básica de Bolsonaro é política. E vingativa.
Planeja, como disse, indultar seu pai e anistiar todos os condenados pelo 8 de
Janeiro. Haverá conflito com o Supremo Tribunal Federal — instituição
desmoralizada nos últimos tempos, mas ainda a instância máxima da Justiça.

Nenhum comentário:
Postar um comentário