segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Flávio agora tem tudo para jogar parado, por Marco Antonio Carvalho Teixeira

Folha de S. Paulo

Se não houver um debate efetivo de propostas, senador deve ser eleito em razão do antipetismo enraizado

Caso Lulinha trouxe novamente o tema da corrupção para o governo e o PT e foi importante elemento de desgaste

As eleições de 2026 ganharam características próprias quando comparadas aos dois pleitos anteriores entre o petismo e o bolsonarismo.

Em 2018, com Lula preso, a retórica bolsonarista trazia um tom missionário ao exaltar pautas como o combate à corrupção e a defesa de valores morais e religiosos como prioridades, deixando o petismo, recém-saído da Lava Jato, na defensiva. Em 2022, após sucessivos conflitos do governo Jair Bolsonaro com o STF, que desencadearam o receio de uma ruptura institucional, os petistas investiram na construção de uma frente ampla em defesa da democracia, o que parecia enfraquecer o bolsonarismo enquanto grupo político —sobretudo após o episódio de 8 de janeiro.

A agenda eleitoral de 2026 foi sequestrada por fatores alheios aos comandos das campanhas, como o caso Master, as investigações sobre Lulinha e os escândalos do STF, além de questões pontuais relacionadas à Nossa Senhora e à relação do Brasil com os EUA, entre outras. Nesta disputa, Flávio e Lula não puderam contar com o tema da corrupção para alimentar a guerra entre eles. Ao contrário: passaram mais tempo criando narrativas para se defenderem dos supostos malfeitos que os envolviam diretamente ou que traziam seus familiares para o centro do debate.

Não houve espaço para propostas sobre o futuro do país em relação às políticas públicas e, menos ainda, para discutir as prioridades de governo. Com isso, a decisão do voto neste primeiro turno parece ter se baseado mais em evitar a eleição de um deles do que em escolher pelo mérito de cada um. Entretanto, teremos um segundo turno em 20 dias, período muito curto para levar o eleitor a mudar de posição. Assim, tanto os estrategistas de Flávio Bolsonaro quanto os de Lula terão pouco tempo para buscar novos aliados que possibilitem, no caso do senador, ampliar a votação em 2% a 3% e, no caso do presidente, alcançar ao menos mais 6%. Um caminho é identificar com quem se pode contar, sobretudo nos estados mais populosos.

Nesse caso, Flávio sai em grande vantagem. Não haverá segundo turno para governador em dois dos estados mais populosos: São Paulo e Minas Gerais. Em ambos, aliados do bolsonarismo saíram vitoriosos com votações expressivas e certamente terão disponibilidade para uma forte campanha antipetista.

Todavia, Lula poderá contar com Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Antes favorito, Paes chega ao segundo turno em condição de desvantagem e com pouca força para arregimentar votos para o petista. Nos estados do Sul, o pleito também foi resolvido no primeiro turno, com o PT sendo derrotado de forma avassaladora nas disputas para os governos estaduais e o Senado.

Resta a Lula tentar ampliar seu desempenho na Bahia, em Pernambuco, no Piauí e no Ceará, onde, além de ter eleito governadores petistas —exceto em Pernambuco—, também teve senadores aliados eleitos. Entretanto, sem diminuir a diferença no Sul/Sudeste e no Centro-Oeste/Norte, o esforço pode ser em vão.

O que explicaria o baixo desempenho de Lula e a súbita arrancada de Flávio Bolsonaro? Um conjunto de fatos. Primeiro, o caso Lulinha trouxe novamente o tema da corrupção para o governo e o PT e foi um importante elemento de desgaste, explorado de forma intensa pelo principal adversário. Assim, afugentou eleitores que haviam deixado de votar no PT e tinham retomado o voto no partido em 2022.

A recusa em participar do último debate, que parecia ter pouco impacto eleitoral, acabou também sendo intensamente explorada por Flávio no exato momento em que a candidatura de Lula começava a se descolar da de seu adversário no primeiro turno, três dias antes do pleito. Flávio, mesmo tendo seu nome envolvido diretamente no caso Master e vendo circular denúncias sobre sua vida íntima, acabou evitando comentar tais casos e viu seu prestígio eleitoral crescer mais pelo descrédito de seu principal competidor do que por propostas e méritos de sua atividade pública.

Agora resta saber se Flávio participará de debates ou se repetirá o que seu competidor fez quando liderava as pesquisas. Por fim, a sociedade brasileira merece candidatos que tragam propostas para o país, que digam como querem superar os desafios cotidianos da vida pública e que falem de futuro. Até o momento, não houve debate nem apresentação de propostas de maneira que um pudesse se diferenciar do outro.

Ser honesto ou parecer honesto deveria ser uma obrigação e não uma excepcionalidade. Caso não haja debate efetivo de propostas, a tendência é que Flávio seja eleito mais pelo antipetismo já enraizado em diversos grupos sociais do que por seus méritos.

*Cientista político, professor e coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado Profissional em Políticas Públicas da FGV/Eaesp

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