Correio Braziliense
A Constituição de 1988 produziu quatro décadas
de eleições livres, alternância de poder e ampliação de direitos. Entretanto, o
Brasil que construiu aquele sistema mudou radicalmente
A eleição deste domingo vai muito além da vantagem de Flávio Bolsonaro sobre
Luiz Inácio Lula da Silva. Com mais de 99% das seções totalizadas, Flávio tinha
cerca de 47% dos votos válidos, contra aproximadamente 45% de Lula, resultado
que confirmou o segundo turno no próximo dia 25. O candidato do PL não apenas
superou as pesquisas da véspera como demonstrou que a onda conservadora,
iniciada em 2018, será longa e que o centro político está sendo, mais uma vez,
capturado pela extrema-direita.
A apuração chegou a mostrar Flávio acima dos 50% até quase dois terços das urnas contabilizadas. A vantagem diminuiu à medida que avançava a totalização dos estados mais favoráveis a Lula, mas permaneceu suficiente para inverter a expectativa criada pelas últimas pesquisas, nas quais os dois apareciam empatados ou com pequena vantagem do petista. A Quaest, por exemplo, apontava 46% a 45% dos votos válidos para Lula; o Atlas, 47% a 44,1%.
O resultado do primeiro turno reforça a hipótese de que o tsunami eleitoral de 2018 não foi um acidente produzido exclusivamente pela candidatura de Jair Bolsonaro. O bolsonarismo tornou-se expressão brasileira de uma onda conservadora internacional de longa duração, progressivamente tensionada pela extrema direita. Bolsonaro perdeu a eleição de 2022, foi condenado e está fora da disputa, mas o fenômeno político que personificou encarnou em Flávio Bolsonaro, que herdou grande parte do eleitorado do pai, mas procurou ampliar suas fronteiras, moderando a forma sem abandonar o conteúdo essencial do bolsonarismo.
Sua votação mostra que existe hoje um campo conservador consolidado, social e
eleitoralmente, capaz de sobreviver às derrotas, às crises e aos próprios
Bolsonaro. As eleições nos estados mostram que uma nova geração de lideranças
de direita está emergindo das urnas.
Brasil profundo
Este talvez tenha sido o maior erro de avaliação de Lula depois da vitória de
2022. Sua eleição resultou de uma ampla frente democrática, que reuniu forças
de esquerda, centro e até setores da antiga centro-direita diante do risco
representado pela continuidade de Jair Bolsonaro. A vitória exigia, portanto,
uma estratégia permanente de resistência democrática e reconstrução
institucional. O governo preferiu interpretá-la também como reafirmação da
liderança pessoal de Lula e da hegemonia do PT.
Quatro anos depois, a conta aparece nas urnas. O antipetismo continua sendo uma
força mobilizadora, e a esquerda sozinha não é forte o suficiente para governar
o país. Parcelas importantes do centro que haviam apoiado Lula contra
Bolsonaro, aparentemente, deslocam-se para a direita. Ao mesmo tempo,
escândalos como o do INSS, a crise do Banco Master e o desgaste do Supremo
alimentaram a narrativa antissistema da oposição. Nem mesmo indicadores
econômicos favoráveis foram suficientes para produzir uma onda eleitoral em
benefício do governo neste primeiro turno.
Há ainda um Brasil subterrâneo que as pesquisas captam com dificuldade. Em
parcelas do território, principalmente nas periferias metropolitanas, o Estado
divide autoridade com facções criminosas e milícias. Nos grotões, sobrevivem
máquinas políticas, relações clientelistas e velhas oligarquias. A compra de
votos continua fazendo parte do repertório eleitoral. A democracia brasileira é
moderna na urna eletrônica, mas convive com estruturas políticas e sociais
arcaicas.
Os resultados para governos estaduais e para o Senado mostram a nova correlação
de forças. Em São Paulo, por exemplo, Guilherme Derrite e André do Prado, ambos
vinculados ao campo de Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro, conquistaram as
duas vagas senatoriais; no Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem e Sanderson,
também identificados com a direita, foram eleitos. Não se trata, portanto,
apenas de uma votação presidencial: existe uma reorganização conservadora do
poder político.
É nesse ponto que a eleição se encontra com uma crise histórica mais profunda. A redemocratização iniciada em 1985 e institucionalizada pela Constituição de 1988 produziu quatro décadas de eleições livres, alternância de poder e ampliação de direitos. Entretanto, o Brasil que construiu aquele sistema mudou radicalmente. Partidos, sindicatos, imprensa e instituições perderam o monopólio da mediação política. As redes sociais fragmentaram a esfera pública, enquanto Executivo, Congresso e Judiciário passaram a disputar protagonismo diante de uma sociedade crescentemente desconfiada. Vivemos um interregno como os que antecederam às crises de 1930, de 1945, de 1964 e de 1985, que marcam ciclos autoritários e democráticos

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