terça-feira, 26 de abril de 2016

Brasileiros alegam retaliação e abandonam evento do Mercosul

• Parlamentares se queixam de críticas de argentino ao impeachment

Aline Macedo - O Globo

Alegando que foram alvo de uma retaliação, por causa do processo de impeachment, 14 dos 17 parlamentares brasileiros se retiraram ontem da sessão plenária do Parlasul, o parlamento do Mercosul, em comemoração aos 25 anos do bloco econômico, em Montevidéu. Os deputados e senadores abandonaram a sala, onde se realizou o seminário “Reflexões e desafios para o Mercosul 25 anos depois do Tratado de Assunção”, após constatarem que se sentariam numa das últimas fileiras, atrás de funcionários de segundo e terceiro escalão da chancelaria.

No último domingo, o presidente do Parlasul, o deputado argentino Jorge Taiana, alinhado à ex-presidente Cristina Kirchner, publicou no site oficial do parlamento nota em que condena o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Para Taiana, o julgamento político em curso é uma “situação escandalosa”: “Isto é um golpe parlamentar, é uma utilização forçada da lei de impeachment”, declarou. Ele acrescentou que setores conservadores, de direita, do mundo financeiro e da mídia teriam como objetivo central impedir que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva volte à Presidência em 2018.

Para deputado, humilhação
Após lerem as declarações de Taiana, os parlamentares brasileiros chegaram ao auditório onde houve a solenidade e não se conformaram com o local destinado à comitiva. O senador Roberto Requião (PMDB- PR) tentou resolver a questão, sem sucesso.

Os parlamentares queriam manifestar seu repúdio tanto pela nota do presidente do Parlasul, quanto pela localização dos assentos, mas a cerimônia não previa questões de ordem. O deputado Arthur Oliveira Maia ( PPS- BA) então se dirigiu à frente do auditório e, fora do microfone, declarou que a delegação brasileira iria se retirar do evento, do qual participaram o presidente uruguaio Tabaré Vásquez e o seu ministro de Relações Exteriores, Rodolfo Nin Novoa, além de chanceleres das nações que compõem o bloco. No momento do incidente, três deputados da delegação brasileira não haviam chegado.

— Ficamos surpresos quando hoje (ontem) vimos no site oficial do Parlasul uma declaração irresponsável do presidente (do parlamento) em relação ao processo de impeachment que acontece no Brasil — disse Maia. — A designação dos lugares foi uma consequência do que Taiana diz no site. Foi uma retaliação para humilhar a delegação brasileira.

Irritado, Requião disse que, após colocar a delegação no fundo do auditório de 400 lugares, o próximo passo seria fazer com que os parlamentares brasileiros almoçassem na cozinha:

— Era deles a festa, então fomos embora. É o desprezo da chancelaria em relação à delegação brasileira.

Durante a sessão plenária do Parlasul, que acontece hoje pela manhã, os brasileiros pretendem cobrar oficialmente de Taiana que reconsidere suas declarações em relação ao processo de impeachment. Segundo Requião, o presidente do Parlasul alegou não saber que a nota havia sido publicada.

Os três brasileiros que continuaram na solenidade foram os deputados Jean Wyllys (PSOL- RJ), Benedita da Silva (PT- RJ) e Ságuas Moraes (PT- MT). Para Moraes, o que houve foi um grande mal-entendido. Ele disse que os lugares foram distribuídos por ordem de chegada e que havia deputados argentinos e venezuelanos atrás dele.

Os parlamentares brasileiros, segundo Moraes, chegaram dez minutos depois do início da solenidade, que começou pontualmente às 10h. Mas Heráclito Fortes ( PSB- PI), que também estava presente, contestou o colega e afirmou que não houve atraso. Fortes disse que, tradicionalmente, as bancadas são organizadas em ordem alfabética, e não de forma aleatória.

Solidariedade de Tabaré Vásquez
O presidente do Uruguai tentou interceder para que os parlamentares brasileiros não abandonassem o seminário. Em solidariedade, ele saiu de sua cadeira de honra e se sentou na mesma fileira onde ficaria a delegação brasileira, que, mesmo assim, foi embora.

Na última sexta-feira, em Nova York, a presidente Dilma declarou que pretende invocar a cláusula democrática do Mercosul, se for afastada pelo Senado. O dispositivo já foi usado em 2012, quando o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo sofreu impeachment. Se a cláusula for ativada, o Brasil pode ser suspenso do bloco comercial, mas, para isso, seria necessário um consenso entre Uruguai, Paraguai, Argentina e Venezuela. Atualmente, Argentina e Paraguai já declararam que não apoiariam uma eventual sanção ao Brasil.

Senado elege comissão do impeachment

O Senado elegeu os 21 integrantes da comissão especial que vai analisar o processo de impeachment da presidente Dilma aprovado pela Câmara. Com maioria oposicionista, a comissão será presidida por Raimundo Lira (PMDB- PB) e deve ter como relator o senador Antonio Anastasia (PSDBMG), apesar dos protestos do PT. A eleição da comissão foi feita de forma simbólica, sem qualquer voto contrário, num sinal da influência reduzida do governo. Os trabalhos começam hoje e devem ir até a segunda semana de maio, quando o plenário votará o relatório e pode afastar Dilma.

Senado elege comissão, e tucano deve ser o relator

• Aliados da presidente Dilma protestam contra indicação de Anastasia

Eduardo Bresciani e Cristiane Jungblut - O Globo

- BRASÍLIA- O Senado elegeu ontem e instala na manhã de hoje a comissão especial que analisará o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff e deverá ter forte viés oposicionista. Apesar dos protestos dos aliados de Dilma, Antonio Anastasia (PSDB-MG), um dos aliados mais próximos do presidente tucano, Aécio Neves (MG), deverá ser confirmado como relator.

Dos 21 titulares, só cinco são contra o impeachment. Raimundo Lira ( PMDB- PB), que chegou a se manifestar favoravelmente ao afastamento da presidente, deverá ser eleito presidente do colegiado. Após ter seu nome cogitado para comandar a comissão, ele passou a se declarar indeciso em relação ao impeachment. 

Oficio enviado a Dilma
O presidente do Senado, Renan Calheiros ( PMDB- AL) enviou ontem ofício a Dilma, no qual informa que a comissão foi instalada. No documento, Renan abre a Dilma espaço para manifestação de sua defesa, desde que respeitado o prazo do colegiado: dez dias úteis.

A eleição foi realizada de maneira simbólica, sem manifestação de voto contrário. No entanto, ao longo do dia, senadores de governo e da oposição se revezaram na tribuna em discussões acaloradas, principalmente em relação à indicação de Anastasia como relator da comissão.

Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) questionou a indicação do tucano, alegando que ele não pode assumir a relatoria porque o PSDB seria um dos autores do pedido de impeachment. Isso porque o advogado Flavio Costa Pereira, que trabalha para o partido, subscreveu a denúncia feita pelos juristas Hélio Bicudo, Janaina Paschoal e Miguel Reale Jr.

— Vê- se, com toda clareza, as digitais do PSDB no pedido de impeachment da senhora presidente da República. Sendo assim, não poderá o senador Antonio Anastasia ou qualquer outro membro do partido funcionar como relator na comissão especial — disse a senadora.

Oposição cita decisão do STF
Os líderes do PSDB, Cássio Cunha Lima ( PB), e do DEM, Ronaldo Caiado ( GO), discordaram. Eles lembraram decisão do Supremo Tribunal Federal ( STF) sobre o rito do impeachment. A Corte concluiu que o processo, por suas características políticas, não está sujeito às condições de suspeição e impedimento previstas no Código de Processo Penal. Só haveria impedimento em caso de parentesco entre as partes.

Lindbergh Farias ( PT- RJ), também destacou a vinculação entre Anastasia e Aécio:

— É provocação colocar como relator um membro do PSDB, e ainda o principal aliado do senador Aécio Neves, que, por ressentimento, não reconheceu o resultado da eleição — disse Lindbergh.

Ao reagir ao petista, Aécio citou Platão. Afirmou que os medíocres falam de pessoas, em vez de discutir ideias. Renan afirmou que esse tipo de questionamento não deveria ser feito em plenário, mas na comissão. Como tem ampla maioria, o grupo a favor do impeachment pretende ignorar os questionamentos dos aliados da presidente e confirmar hoje Anastasia como relator.

Renan nega pedido
Um grupo de senadores apresentou outro questionamento regimental argumentando que o impeachment de Dilma deveria ser analisado em conjunto com o do vice-presidente Michel Temer, que está parado na Câmara dos Deputados. João Capiberibe ( PSB- AP) defendeu o tema da tribuna.

O processo de impeachment de Temer não avança na Câmara, apesar de o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, ter determinado a instalação da comissão especial naquela Casa para analisar o caso. Renan, porém, negou o pedido. Afirmou que os decretos assinados por Temer são diferentes dos que Dilma assinou.

— São atos específicos e autônomos, não havendo como se falar em identidade de infrações — disse Renan.

Com a eleição do presidente e do relator da comissão especial, começará a ser contado o prazo de dez dias úteis para que a colegiado aprove seu parecer. Lira já afirmou que trabalha com a expectativa de usar o prazo máximo.

A comissão terá até 9 de maio para concluir seu trabalho. Assim, até 12 de maio o plenário do Senado decidirá se admitirá o processo. Caso aceite, a presidente será afastada do cargo por até 180 dias, prazo o término do processo.

Na fase de admissibilidade não há previsão expressa de manifestação da defesa. Mesmo assim, no ofício enviado a Dilma, Renan abriu espaço para que a defesa se pronuncie.

Lira também já anunciou que permitirá uma manifestação do advogado- geral da União, José Eduardo Cardozo, durante esta fase.


Temer tenta desarmar bomba fiscal no Supremo

• Mudança na dívida dos estados com União causaria rombo de R$ 330 bi

Emissários do vice procuraram ministros do STF, que decidirá amanhã se permite o uso de juros simples no cálculo, como querem governadores, o que pode atrapalhar eventual novo governo

Aliados do vice-presidente Michel Temer procuraram ministros do STF preocupados com o impacto, nas contas da União, do julgamento sobre a mudança no cálculo das dívidas dos estados. O STF decidirá amanhã se os débitos devem ser calculados por juros simples ou compostos (juro sobre juro, como é hoje), o que pode provocar rombo de até R$ 330 bilhões. Temer também tenta fechar sua equipe econômica para o caso de a presidente Dilma ser afastada pelo Senado. O ex-presidente Fernando Henrique não se opôs à participação do PSDB num eventual governo Temer.

Esquadrão antibomba

• Temer escala aliados para tentar convencer STF a não mudar cálculo da dívida dos estados

Cristiane Jungblut, Simone Iglesias, Geralda Doca - O Globo

- BRASÍLIA- Interlocutores do vice-presidente Michel Temer conversaram nos últimos dias com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o impacto nas contas do governo federal de mudança no cálculo das dívidas dos estados junto à União, que pode ultrapassar R$ 300 bilhões. O STF julga amanhã se muda para juros simples ( juro sobre o valor inicial) a fórmula de cálculo das dívidas estaduais, hoje feito por juros compostos ( juro sobre juros).

O Supremo concedeu liminar ao estado de Santa Catarina permitindo o uso de juros simples em vez de compostos. A decisão levou vários estados a recorrerem também. O governo Dilma Rousseff já tinha alertado para as graves consequências dessa mudança de cálculo, e Temer está preocupado com a possibilidade de vir a assumir o comando do país com um quadro fiscal pior que o atual.

Segundo interlocutores do vice- presidente, pelo menos dois ministros do STF foram procurados e receberam argumentos sobre os efeitos da mudança. Pelas contas do Ministério da Fazenda, o impacto para os cofres do governo federal seria de R$ 300 bilhões ( a dívida dos estados com a União cairia de R$ 463 bilhões para R$ 163 bilhões).

— Isso vai provocar um rombo para o governo, e vai afetar todas as dívidas das pessoas. Esse julgamento é muito importante. O rombo seria de R$ 330 bilhões — disse um interlocutor de Temer.

Outro problema imediato é a necessidade de o Congresso aprovar até 22 de maio uma mudança na meta fiscal para evitar que o governo paralise pagamentos. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB- AL), está sem condições de marcar a sessão do Congresso para votar a mudança da meta, já que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha ( PMDB- RJ), disse que as votações estão interrompidas até a votação do impeachment no Senado, que deve ocorrer até 12 de maio.

"Não há golpe nesse país”, diz vice à CNN
Temer busca fechar nos próximos dias a nova equipe econômica, que é considerada o pilar de seu governo. O ex- presidente do Banco Central Henrique Meirelles é o nome mais forte para comandar o Ministério da Fazenda, mas há ainda expectativas em relação à conversa do vice com Gustavo Franco e à negociação com o PSDB do senador José Serra ( SP). Para o Planejamento, o senador Romero Jucá (PMDB- RR) vem se consolidando como favorito.

Em entrevista à emissora de TV americana CNN, o vice-presidente disse que o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff não é golpe. A entrevista foi concedida após a visita de Dilma à ONU, na qual ela alertou para o risco de retrocesso no país. Em entrevista coletiva, já fora da ONU, a presidente disse à imprensa internacional que havia um “golpe de Estado" em curso no Brasil.

— Respeito muito as opiniões da senhora presidente, mas acredito que o ponto de vista dela está equivocado. Primeiro, porque o rito do impeachment está previsto na Constituição. No exterior, causa a impressão de que o Brasil é uma republiqueta, que é capaz de um golpe. Não há um golpe nesse país, não há nenhuma tentativa de violação do texto constitucional — afirmou Temer.

O vice-presidente ressaltou que 62% da população brasileira aprovam o impeachment, e que a maioria dos deputados foi a favor do recebimento das denúncias contra Dilma.

— Qual conspiração eu estou conduzindo? Teria eu poder suficiente para sensibilizar 367deputados? Mais da metade da população brasileira? — questionou.

Temer quer pente-fino nas contas de bancos públicos

Temer fará auditoria nos bancos públicos

Por Marcelo de Moraes – O Estado de S. Paulo

O vice-presidente Michel Temer definiu uma das primeiras medidas que tomará se assumir o governo. Fará auditoria nas contas dos bancos públicos. Os alvos serão as operações na Caixa Econômica, Banco do Brasil, BNDES, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia nos 13 anos da gestão petista.

A justificativa é que, depois da Petrobrás e pedaladas, há motivos para o pente-fino. Mais do que isso. Será uma sinalização de que Temer manterá a guerra com o PT mesmo podendo atingir o PMDB, que tem seis vice-presidências na Caixa.

Entrevista. Luiz Werneck Vianna

Brasil vive uma mudança epocal ao se despedir da política dos últimos 80 anos. Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna

“O espírito do tempo deve passar, ele pede passagem; temos de abrir as portas para ele”, provoca o sociólogo.

“Uma mudança no espírito do tempo”. É a isso que estamos assistindo em meio à crise política e às posições acirradas em torno da votação do impeachment da presidente Dilma, diz Werneck Vianna à IHU On-Line, na entrevista a seguir concedida por telefone na última sexta-feira (22-04-2016).
As evidências dessa mudança, assinala, podem ser vistas tanto no debate entre cidadãos, que buscam seus fundamentos na Constituição Federal, que tem sido “o livro de todos”, quanto no exercício dos tribunais, a exemplo do STF na condução do processo de impeachment, porque “se parlamentares foram acossados, ninguém acossou os tribunais, que ficaram como que acima das paixões que se desencadeavam”, diz.

Com os acontecimentos políticos dos últimos meses, frisa, “nós nos despedimos (...) da Era Vargas e das disputas, como as de 64, por exemplo”, porque hoje o debate se dá em torno de questões “procedimentais” da “interpretação da Constituição”. E complementa: “Existe uma mudança a ser avaliada, a ser registrada e percebida. É uma mudança de fundo, eu diria”.

Segundo ele, essa mudança no espírito do tempo é ainda mais clarividente, uma vez que “a sociedade está demonstrando que não aceita mais que essa relação espúria entre o público e o privado seja capaz de decidir o rumo da política brasileira”. Portanto, o recado é claro: a sociedade “quer uma nova política, e não a que aí está e que aí esteve”. As consequências seguintes, vislumbra, são as de que “estamos para viver no Brasil uma mudança de época: estamos nos despedindo da política tal como a conhecemos, dos anos 30 até aqui. Se não for isso, será o quê? Vamos voltar atrás?”, questiona.

Para Werneck, a representação política brasileira, mostrada “na sua rusticidade” na votação da admissibilidade do impeachment na Câmara dos Deputados no domingo, 17-04-2016, já demonstra que a sociedade mudou, “é moderna”, mas tem um “parlamento arcaico, que não a representa”. Isso, por si só, “denuncia um fato de importância capital: por que a política chegou a esse degrau tão baixo? O que foi feito dela ao longo desses anos? Como ela foi esvaziada pela usurpação que o Estado realizou em relação aos movimentos sociais, suprimindo a sua autonomia?”.

Especificamente em relação ao processo de impeachment, Werneck frisa que “o entendimento até aqui vigente é de que há, sim, crime de responsabilidade fiscal e o impeachment tem fundamento jurídico”. Contudo, afirma, “é claro que tudo isso vai deixar rastro, ressentimentos, mas há mais do que um cálculo político corriqueiro a ser feito”.

Werneck também comenta os bastidores da política e frisa que a indecisão do PSDB em relação à adesão ou não de um eventual governo Temer demonstra que os partidos “estão dominados por lideranças egocêntricas, que calculam os interesses do país a partir da chave particular das suas pretensões eleitorais. Esse é um país em que todo mundo quer ser califa”.

Independente das decisões a serem tomadas nos próximos dias, Werneck é categórico quanto ao futuro do país: “O ciclo de controle do Estado dos movimentos sociais, de passividade na sociedade, foi encerrado. Cumpre agora estabelecer canais no meio dessa barafunda em que nos encontramos, um caminho que tem de ser providencial. (...) Temos aí à frente a sucessão presidencial em 2018. Daqui até lá tem tempo de surgirem coisas novas, candidatos novos”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil(Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012).

Confira a entrevista.

• IHU On-Line - Que leitura geral está fazendo do atual momento brasileiro?

Luiz Werneck Vianna – É o fim de um ciclo, embora não se saiba qual novo ciclo está vindo por aí. A sociedade brasileira mudou e um exemplo dessa mudança é o comportamento das multidões nas ruas. Até então, apesar do estresse e do clima de beligerância das redes sociais e mesmo de alguns políticos, a sociedade tem se mantido, até aqui, de modo impecavelmente civilizado.
A manifestação forte disso foi aquele muro que se construiu em frente ao Congresso para evitar o contato entre os dois polos adversários, a favor e contra o impeachment, que resistiram, sem ameaça, durante o dia da votação da admissibilidade do impeachment. Terminou-se o dia com registro de ocorrência policial praticamente zero em Brasília e nas principais capitais. O registro disso tem de ser compreendido como algo novo que emerge num comportamento das nossas multidões.

Mudança no espírito do tempo
Eu diria, com Habermas em alguns de seus textos, que houve uma mudança significativa no espírito do tempo: nós nos despedimos, nesse sentido, com esses acontecimentos, da forma como estão se dando até aqui, da Era Vargas e das disputas, como as de 64, por exemplo. O próprio tema que as multidões levaram às ruas é um tema que vem do mundo do Direito. Houve uma massificação do discurso jurídico entre as multidões: se é golpe porque a regra jurídica está ofendida, ou se não é, porque as regras jurídicas estão sendo obedecidas. Não podemos ficar sem um registro da novidade que isso importa.

Ademais, da reverência dos dois lados, pró e contra impeachment, as decisões judiciais me parecem outro elemento surpreendente: se parlamentares foram acossados, ninguém acossou os tribunais, que ficaram como que acima das paixões que se desencadeavam. Esse também é um elemento positivo a ser anotado e vai nesta direção do que estou tentando apontar como uma mudança no espírito do tempo.

De outra parte, nesta mesma direção, a Constituição foi o livro de todos. Todos se socorreram do texto constitucional. Daí que se pode dizer que nesse momento, em meio às turbulências e paixões desarvoradas que se manifestaram, a Constituição e suas instituições receberam uma consagração de massas que afixaram a ela e às instituições um elemento inamovível da vida política brasileira. Essa é outra anotação no sentido da mudança no espírito do tempo.

• IHU On-Line – Apesar de a Constituição ser a base de argumentação de ambos os lados, a presidente Dilma diz que está sendo alvo de um golpe, parte dos juristas concordam com ela e alguns membros do STF dizem o contrário. Nessa situação, como se posicionar?

Luiz Werneck Vianna – Quando ela diz que é golpe, ela faz essa denúncia à luz da Constituição, mobiliza o texto constitucional; e o outro lado mobiliza o texto constitucional para dizer que, em outra interpretação, por exemplo,pedaladas fiscais e responsabilidade em matéria orçamentária, é crime. Então, é a Constituição que está em causa.

Mas a presidente não está denunciando a direita contra as reformas – sabe-se lá quais seriam -, mas enfim, digo isso para aludir a tempos passados, quando a mobilização se dava em torno de questões substantivas, por exemplo, reforma agrária, sim ou não, reforma urbana, sim ou não. Agora as questões são procedimentais, são de interpretação da Constituição. Existe uma mudança a ser avaliada, a ser registrada e percebida. É uma mudança de fundo, eu diria.

• “O governo e a oposição coonestam a legitimidade do processo que estamos vivendo”

• IHU On-Line – Mas há quem diga que o processo de impeachment é uma farsa e uma conspiração do vice-presidente Michel Temer com alguns aliados.

Luiz Werneck Vianna – Sim, mas essa é a parte adjetiva da discussão. Dizem que é uma conspiração por causa de uma interpretação incorreta do texto constitucional, porque o tema da responsabilidade fiscal não seria motivo legal para que a presidente fosse levada a um processo de impeachment. O cerne do argumento é jurídico e todos os contendores estão reverentes quanto às decisões dos tribunais. O tribunal determina um rito para o processo de impeachment e todos, reverentemente, acatam. E assim tem sido.

• IHU On-Line – É possível ter uma interpretação correta da Constituição neste caso do impeachment, ou seja, há como fazer uma análise objetiva da Constituição para se tomar uma decisão? Por que, do contrário, não lhe parece que a sociedade ainda vai remoer muito esse caso, seja entre os que defendem o impeachment ou entre os que são contrários a ele, e isso dificultará novos avanços porque vamos continuar olhando para o passado?

Luiz Werneck Vianna – O jogo é jogado. As decisões têm sido todas, até então, no sentido de que o impeachment tem base jurídica, são decisões tomadas no âmbito do parlamento e, nesse sentido, são decisões democráticas que a todos obrigam. As forças governistas poderiam se retirar do parlamento, denunciar golpistas e pôr o que no lugar? Fazer isso com quem? Com que forças? Não tem como. Nesse sentido, o governo e a oposição coonestam a legitimidade do processo que estamos vivendo.
José Eduardo Cardozo, advogado-Geral da União, que vem defendendo o governo neste processo, em nenhum momento mobiliza forças e argumentos externos à lei e à Constituição. Nesse sentido, ele é obrigado a ser referente à tomada de decisão da maioria que impõe o seu entendimento. E o entendimento até aqui vigente é de que há, sim,crime de responsabilidade fiscal e o impeachment tem fundamento jurídico.

Agora, é claro que tudo isso vai deixar rastro, ressentimentos, mas há mais do que um cálculo político corriqueiro a ser feito. Na verdade houve uma mudança, insisto na ideia, no espírito do tempo. A sociedade está demonstrando que não aceita mais isso, não aceita que essa relação espúria entre o público e o privado seja capaz de decidir o rumo dapolítica brasileira, tal como se vem apurando de forma absolutamente consistente no aparelho judiciário. Então, isso está presente e a sociedade está dizendo que quer uma nova política e não a que aí está e que aí esteve.

• IHU On-Line – Num possível governo Temer, essa pressão social tende a continuar?

Luiz Werneck Vianna – Vai continuar, sim. O governo Temer, se vier, não vai ter um caminho fácil. Mas, na eventualidade remota de a presidente Dilma continuar, as possibilidades de pacificação que ela tem nas mãos são quase zero, sendo generoso. Na verdade a minha avaliação é de que é zero. Digo isso considerando as próprias lideranças do seu partido. Foi um erro a indicação à presidência de uma personalidade pública sem a menor experiência na vida política, que não foi vereadora, que não passou pelo parlamento e tem uma visão tecnocrática do mundo. Esse parlamento, na hora que teve de se manifestar, entre outros motivos, manifestou o seu profundo desagrado com o governo da presidente, com a forma de ela conduzir seu governo.

Então, quando as coisas mudam, quando entram num processo de mudança e começam a vivenciar uma lógica de mudança, nada faz com que as coisas retroajam. Como parar a Revolução Francesa? Não estava dado que ela iria culminar de forma tão catastrófica com a decapitação da família real. Aquilo foi andando e o sentimento nas massas e nas elites políticas da época era de que algo tinha de mudar, e mudou. Foi uma revolução epocal.

Eu diria que estamos para viver no Brasil uma mudança de época: estamos nos despedindo da política tal como a conhecemos, dos anos 30 até aqui. Se não for isso, será o quê? Vamos voltar atrás? Como vamos voltar com esses jovens nas ruas como estão? Estou falando dos jovens adolescentes que estão ocupando escolas em SP, no RJ, que têm uma nova cultura.

• IHU On-Line – Já é possível perceber que tipo de pensamento tem essa nova geração em relação à política, ao país?

Luiz Werneck Vianna – Ainda não. Eu tenho um neto que participa desses movimentos de ocupação e procuro me informar. O que eles querem é participar e discutir educação. Eles passam uma noite ocupando uma escola e discutindo essas questões. Boa parte deles foi às ruas contra o impeachment, mas com outro espírito, mais nesse registro de mudança do espírito do tempo: pela participação, pela democracia, pela autonomia. Eles deixam a escola intocada depois da ocupação, cuidam da escola, da limpeza dela, o que é uma coisa nova.

• “Onde está a juventude na política? Nas ruas, denunciando a política que aí está”

• IHU On-Line - Quais os demais sinais de mudança no espírito do tempo na sociedade?

Luiz Werneck Vianna – Noutro plano, o que constatamos é a falência e a ruína do nosso sistema político, o qual ficou evidente para o país, que, diante das telas da TV, viu desfilar a sua representação na sua rusticidade, diante de uma sociedade que mudou, que é moderna, mas que tem um parlamento arcaico, que não a representa, o que denuncia um fato de importância capital: por que a política chegou a esse degrau tão baixo? O que foi feito dela ao longo desses anos? Como ela foi esvaziada pela usurpação que o Estado realizou em relação aos movimentos sociais, suprimindo a sua autonomia?

Nessa situação de heteronomia não surgiu nada novo. Quais são os quadros novos? Apesar de estar há tantos anos no governo, o PT não conseguiu renovar as suas lideranças e seus quadros. Onde está a juventude na política? Nas ruas, denunciando a política que aí está. Chegamos a uma situação limite, às cegas, sem lideranças definidas e reconhecidas consensualmente.

A sociedade realizou um movimento muito amplo, que não pode mais ser ignorado, de que temos de operar de forma profunda as nossas instituições políticas, porque a sociedade não se recusou à política enquanto tal, porque vem sendo presente nas ruas – o que tem custo para cada cidadão – há meses, há anos.

Não obstante essas manifestações, não surgem – como em outros contextos nacionais surgiram – movimentos que ofereçam alternativas para que a cidadania se integre à vida política. Nós não conhecemos as formas novas de organização que em muitos lugares têm feito fortunas.

Reforma nas instituições políticas
Eu diria que a continuar com essa caracterização a partir de mudanças no espírito do tempo, que a mudança de maior alcance é essa: a sociedade declarou de forma absolutamente evidente que é necessária uma reforma dramática nas nossas instituições políticas. O ciclo de controle do Estado dos movimentos sociais, de passividade na sociedade, foi encerrado. Cumpre agora estabelecer canais no meio dessa barafunda em que nos encontramos, um caminho que tem de ser providencial; não há uma receita mágica que possa ser retirada da cartola de um sábio. É algo que a sociedade vai ter de digerir e vai precisar de tempo para sair desse tormento, sem essa névoa que ofuscou a nossa visão, e escolher caminhos novos. Esses caminhos estão na política, nos partidos, no parlamento, nas instituições, na Carta de 88, que saíram consagradas desse processo. Então, quem pode fazer isso? E a que tempo? Temos de virar a página: novos atores, novos protagonistas, que vão precisar de tempo. Isso não é uma tarefa para ser realizada de um dia para o outro.

• IHU On-Line - Na última semana muito foi dito sobre os “religiosos” na composição da atual Câmara dos Deputados e no peso que tiveram na votação da admissibilidade do impeachment. Como o senhor vê essa composição? Que peso ela teve na votação?

Luiz Werneck Vianna – Sim, a religião aqui no Brasil é tudo, e não apenas para os setores subalternos, mas para a sociedade como um todo. Já reparou como os grandes artistas brasileiros protegem a carreira dos seus descendentes? A religião é algo que está entranhada em nós. Certas posturas devem ficar, não vão mudar porque são marcas da nossa catolicidade, do tipo de colonização que tivemos; é possível mudar isso, mas não erradicar. A religião está bastante presente, inclusive o candomblé.

• “Temos de virar a página: novos atores, novos protagonistas, que vão precisar de tempo”

• IHU On-Line – Mas a bancada religiosa irá mudar com o espírito do tempo?

Luiz Werneck Vianna – Quanto a isso não teria como dizer, porque ao contrário ela tem se comportado como um elemento conservador, especialmente no que se refere à agenda comportamental.

Agora, essa é uma questão complicada: como as forças da mudança devem agir em matéria comportamental? Acho que tem de ser prudente. Agora, em alguns momentos tem de ser ousada.

Na questão do aborto é necessário ousadia nas forças da mudança. Aliás, a presidente da República apesar de ser mulher, teve duas campanhas presidenciais em que o tema do aborto jamais aflorou. 

Nem agora, com a questão daZika. Esse é um tema, numa sociedade como a nossa, a ser tratado com luva de pelica, com muita sabedoria, porque se corre demais com a agenda comportamental, se joga para o outro lado, se afasta de si a emergência dos movimentos. Então, como encaminhar isso? Como uma questão de arte, prudência, de tempo, de tentar avançar de forma não assuntada em discussões cada vez mais abrangentes, com argumentação mais sofisticada, e não de cima para baixo a partir de parlamentares que têm suas visões de mundo.

• IHU On-Line – Nos bastidores da política se fala de uma relação entre a bancada religiosa e um possível governo Temer. O que lhe parece? Essa bancada pode ter bastante peso numa composição de governo?

Luiz Werneck Vianna – Sei lá. No governo Lula teve (risos). Religião, no Brasil e na América Latina, é um tema forte e cabe aos políticos, especialmente àqueles que estão orientados para a mudança social, para a transformação, saber trabalhar corretamente com essa questão: tentar avançar com a sociedade, e em alguns momentos é preciso ser audaz, porque em relação ao aborto, por exemplo, já está mais do que na hora de a política dar passos à frente na sociedade brasileira.

• IHU On-Line – Também se fala da relação entre Cunha e Temer e da possibilidade de o presidente da Câmara realizar manobras para não ser julgado num possível governo Temer. Há uma relação entre eles? E como vê a figura de Cunha, que parece ser o político que nenhum dos lados defende?

Luiz Werneck Vianna – Se estou certo nessas considerações, parlamentares como Cunha estão com seus dias contados e não terão mais como se reproduzir. Agora, o desenlace de como vai ser, não tenho ideia.

• IHU On-Line – Além de Cunha, que outro perfil de políticos não tem mais chance de se reproduzir?

Luiz Werneck Vianna – Esse estilo não tem mais chance, a não ser que nada mude, que o espírito do tempo seja traído e isso possa acabar numa consagração dos infernos. O espírito do tempo deve passar, ele pede passagem; temos de abrir as portas para ele.

• IHU On-Line – Como vê a indecisão do PSDB em relação à participação num possível governo Temer?

Luiz Werneck Vianna – O PSDB faz seus cálculos, porque os partidos querem sobreviver. O PSDB está muito dividido em relação à candidatura para a presidência, e os nossos partidos, além de estarem formados por esse maneirismo de base, estão dominados por lideranças egocêntricas, que calculam os interesses do país a partir da chave particular das suas pretensões eleitorais. Esse é um país em que todo mundo quer ser califa. Então, sei lá o que vão fazer, mas acho que vão se alinhar com esse sentimento de mudanças políticas, que são mudanças epocais.

• IHU On-Line – Anteriormente o senhor disse que um possível governo Temer terá dificuldades. Quais serão elas?

Luiz Werneck Vianna – Políticas, porque ele terá de dar um jeito de arrumar uma base parlamentar, vai ter de dialogar com todos, inclusive com o PT, vai ter de pacificar o país, abrindo a possibilidade de um caminho para que, mais adiante, aí sim, o país possa redefinir suas instituições, seus rumos. Essa não é uma hora de definições fortes; a hora do Temer é a hora de pacificação política e social.

• IHU On-Line – O senhor mantém a mesma opinião em relação à Lava Jato desde a última entrevista que nos concedeu?

Luiz Werneck Vianna – Certamente. É um instrumento novo que ativa a emergência desse novo espírito do tempo. E por falar em religião, como eu disse naquela entrevista, boa parte deles têm compromissos religiosos bastante evidentes.

• “Essa não é uma hora de definições fortes; a hora do Temer é a hora de pacificação política e social”

• IHU On-Line – Em que saída aposta: na continuidade do rito do impeachment, em novas eleições gerais ou na constituinte exclusiva, como alguns sugerem?

Luiz Werneck Vianna – Novas eleições não têm a menor possibilidade de passagem legal, porque isso exige mais uma mudança na Constituição; é uma ruptura e isso não vai ser aceito. O processo do impeachment está descendo a ladeira, e como se para um processo desses com a força de massas que ele já tem? Não para. Especialmente porque o horizonte que se tem da paralisação desse projeto é o retorno da presidente às suas funções, que é muito assustador para todos. Temos aí à frente a sucessão presidencial em 2018. Daqui até lá tem tempo de surgirem coisas novas, candidatos novos.

• IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Luiz Werneck Vianna – Um pedido de clemência na hora de elaborar o texto, para que ele saia de uma forma tal que seja inteligível pelos leitores, para que não queiram jogar pedras em mim.

O dilema de PMDB e PSDB - Merval Pereira

- O Globo

PMDB e PSDB vivem dilema em provável troca de papéis. O PMDB está próximo de voltar à Presidência da República pela terceira vez de maneira indireta. Foi assim com José Sarney e Itamar Franco, vice-presidentes que assumiram o governo na falta do presidente eleito, Sarney devido à morte de Tancredo Neves, e Itamar em decorrência do impeachment de Collor.

Nos dois casos, no entanto, a ligação dos vices com o partido era precária. Sarney saiu da Arena e filiou- se ao PMDB para poder concorrer na chapa com Tancredo, transformando- se em um dos grandes caciques da sigla, e Itamar, que tinha origem no velho MDB, filiou- se ao PRN para concorrer ao lado de Collor e voltou ao PMDB antes do impeachment. Terminou a vida no PTB, após ter passado pelo PPS.

Temer é talvez quem melhor represente o PMDB dos tempos recentes, à falta de figuras marcantes no partido, como Ulysses e Tancredo. A decisão do PMDB de não disputar várias eleições presidenciais nos últimos anos explicaria por que não tem uma imagem política nacional, embora domine a política regional, mantendo sua estrutura enraizada por todo o país.

Deixando, no entanto, que questões locais se sobrepusessem às nacionais, demonstrou uma vocação política restrita, aceitando o papel de coadjuvante de PT e PSDB, partidos que têm “vocação presidencial”.

O cientista político Carlos Pereira, da FGV- Rio, identifica em sistemas presidencialistas multipartidários como o nosso dois caminhos prioritários para os partidos: o majoritário, que é o do PT e o do PSDB, por exemplo, e o do legislador mediano, que é o do PMDB.

Partidos podem preferir seguir o caminho majoritário, lançando candidatos críveis e competitivos para a Presidência, analisa Pereira. “Se vitorioso nas eleições, esse partido obteria os maiores benefícios, uma vez que o presidente da República é muito poderoso e dispõe de uma série de recursos de poder e orçamentários sob sua discricionariedade”.

Entretanto, essa escolha não seria destituída de custos, adverte, pois esse partido necessariamente seria, por exemplo, o responsável por potenciais erros na gestão do governo. “Mas o saldo dessa escolha seria positivo”, avalia o cientista político. Entretanto, se souber resistir o bastante à tentação de sair da rota majoritária e aguentar o tranco de ser oposição, esse partido pode vir a se tornar o majoritário vitorioso no futuro próximo, como aconteceu com o PT.

Essa seria, portanto, a esperança e o que nutriria o partido a continuar nessa trajetória, mesmo sendo o perdedor. O caminho alternativo ao majoritário seria o do legislador mediano, quando o partido não disputaria a Presidência com candidato próprio e preferiria apoiar, na condição de partido essencial (pivotal) na coalizão, o partido vitorioso na trajetória majoritária.

Essa estratégia não geraria os altos retornos da trajetória majoritária vencedora, mas também não proporcionaria os riscos de ser o majoritário perdedor. “Ou seja, geraria um retorno intermediário, que teria condições de proporcionar sobrevivência política de seus membros no longo prazo numa espécie de ‘ zona de conforto’”, avalia Pereira, situação que ocorre com o PMDB.

Enquanto o PMDB tem enfrentado o dilema de mudar da trajetória do legislador mediano para o majoritário com o impeachment, o PSDB tem justamente enfrentado o dilema inverso, com a possibilidade real do Temer de se tornar o próximo presidente. Ou seja, o de se tornar o legislador mediano do governo Temer. Ou, como define Pereira, ser o “PMDB do PMDB”.

O receio do PSDB de virar o partido essencial ( pivotal) do governo Temer, diz ele, é o de como construir narrativa de oposição a esse governo no futuro próximo ( 2018), tanto se o governo for virtuoso ou fracassar.

A escolha/ dilema que hoje se abre ao PSDB é, portanto, entre maximizar sua trajetória majoritária perdedora, e não participar do governo Temer na expectativa de ser vitorioso em 2018, versus ofertar seus melhores quadros e dar qualidade política ao governo Temer, tornandose a sigla essencial ( pivotal) da coalizão do próximo governo, na condição de legislador mediano.

Uma alternância de papéis que pode ser momentânea, se o PMDB continuar sendo vítima da própria trajetória política, sem condições de governar, mas imprescindível a qualquer governo. Ou definitiva, se o PMDB, no caso de o provável governo Temer der certo, assumir o papel de líder de centro- direita que ainda tem no PSDB hoje seu principal representante.

Os repugnantes - Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

Em discurso para líderes partidários de vários continentes, ontem, Lula comparou a votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara a “um pelotão de fuzilamento composto pelo que há de mais repugnante na política”. Só esqueceu de um detalhe: esse mesmo pelotão integrou o seu governo, e o da própria Dilma, durante longos 13 anos. Eram o que há de melhor e viraram o que há de mais repugnante. Mágica!

Por falar nisso, Michel Temer, o “traidor” e “conspirador” escolhido por Lula e Dilma para a Vice-Presidência do primeiro e do segundo mandato dela, está, respaldado pela Constituição e atento ao processo de impeachment no Senado, afunilando a escolha do ministro da Fazenda em dois nomes: Henrique Meirelles e, como Plano B, Murilo Portugal.

Será que Lula vai ter coragem de dizer que Meirelles, presidente do Banco Central e homem forte da economia nos oito anos do seu mandato, também está entre o que há de “mais repugnante” na política e na vida nacional? Lula tem se mostrado capaz de tudo, mas iria tão longe?

Meireles não é santo e também é polêmico, mas, além de ter prestígio interno e internacional, tem outra imensa vantagem: atinge o coração do discurso lulista e governista de que há um “golpe” e tudo desandou por culpa da oposição. Maestro da política econômica na época da euforia com Lula, ele é um contraponto desconfortável para a era Dilma, que levou o País à beira do precipício, com as contas públicas em frangalhos, risco de três inéditos anos de recessão, quebradeira, desemprego e mau humor.

Em 11/5/2014, bem no meio da campanha eleitoral, quando foi rejeitado por Dilma e era cortejado como vice na chapa do tucano Aécio Neves, Meirelles publicou um artigo, sob o título Pecados Nada Originais, com críticas claras, assumidas e ácidas à “nova matriz econômica” que, inventada no governo Dilma, deu no que deu. Está ali, em Dilma e no fim dos anos Lula, a origem da crise, não na oposição.

Durante a maior parte dos cinco anos de Dilma, já com as coisas indo ladeira abaixo, Lula advertiu que as extravagâncias da pupila não dariam certo e fez de tudo para derrubar José Eduardo Cardozo, Joaquim Levy e, depois, Nelson Barbosa. Sua intenção era impor Nelson Jobim na Justiça e Meirelles na Fazenda. Dilma, teimosa como uma porta, nunca aceitou.

Resultado: agora, com a casa arrombada, ela assiste ao longe, impotente, passando vergonha, as negociações de Temer com os dois “notáveis” que Lula defendeu e ela sempre recusou. Jobim seria um grande nome no governo pós-impeachment, não fosse ele advogado de empreiteiras da Lava Jato. E Meirelles só não irá para a Fazenda se não quiser. Neste caso, abrindo a porta para Murilo Portugal. Aceitando o cargo, Meirelles seria um troféu e tanto na dissidência maciça que atropela Dilma e que, repugnante ou não, foi disputada a tapas por Lula, no seu quarto de hotel, e pela própria Dilma, ainda em palácio.

O ex-BC foi só mais um entre os mais de dez ministros lulistas que não votaram em Dilma na reeleição de 2014, quando ela ganhou com um discurso falacioso que enganou milhões de pessoas, mas não quem conhece a história de dentro. Hoje, porém, ele seria mais do que isso. Seria “o” ministro do governo Temer, para corrigir tantos e tão variados erros que sua inimiga cometeu e que estão lhe custando o mandato.

Agora é esperar para ver como Lula se comportará diante de um Meirelles “lulista”, “financista”, “anti-Dilma” e obrigado a fazer um ajuste fiscal que o ex-presidente sabe que é fundamental. Será que, se Meirelles virar o nome forte de Temer na economia, Lula terá que ficar de boca calada pela primeira vez na vida? Ou será que ele vai descascar em cima de Meirelles, enquanto os petistas, como sempre, fingem que não sabem quem é e juram que não têm nada a ver com esse “repugnante” Henrique Meirelles?

Lágrimas da esquerda - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

O que me surpreende nessa novela do impeachment é que a esquerda ainda defenda a desastrada gestão de Dilma Rousseff.

O governo do PT meteu-se com esquemas pesados de corrupção e mostrou-se administrativamente incompetente. Alega-se que Dilma, como pessoa física, é honesta –com certeza mais honesta do que muitos dos que agora a condenam. Não duvido. Mas isso é muito pouco para transformá-la num modelo de virtude cívica. Ou bem a presidente é uma tonta, que não viu que pessoas ligadas ao partido e ao governo estavam se locupletando, ou então foi conivente com a corrupção. É verdade que os esquemas já existiam antes de ela chegar ao Planalto, mas a posição virtuosa aqui teria sido a de detoná-los publicamente, não tolerá-los em nome da governabilidade.

Para tornar o quadro ainda mais dramático, acho complicado até mesmo afirmar que as administrações do PT buscaram implementar políticas de esquerda. Parece mais preciso descrevê-las como populistas. Enquanto os ventos sopraram a favor, elas distribuíram benesses para todos –muito mais dinheiro foi destinado para empresários do que para os pobres, registre-se.

Em 13 anos de governos petistas, pautas históricas da esquerda, como o direito ao aborto e a descriminalização das drogas, foram tratadas como tabu pelo Executivo. O PT tampouco hesitou em sacrificar bandeiras que lhe eram caras, como a educação sexual nas escolas, sempre que seus aliados religiosos chiavam.

O caso do sindicalismo chega a ser grotesco. Nada foi feito pra implementar a convenção 87 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), aprovada no longínquo ano de 1948, que estabelece a liberdade sindical e que era defendida com unhas e dentes por Lula e pela CUT até chegarem ao poder.

Se há alguém que não deveria derramar nenhuma lágrima pelo governo Dilma, é justamente a esquerda.

Uma agonia a cada dia - Luiz Carlos Azedo

• O discurso de Lula é uma vacina contra o que ainda está por vir contra o ex-presidente da República e o PT por causa da Lava-Jato e de outras investigações

- Correio Braziliense

Detrás da narrativa do golpe contra a presidente Dilma Rousseff existe um país arrasado, no qual ninguém sabe o que vai acontecer depois do impeachment, cujo curso segue de acordo com um cronograma preestabelecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). É difícil apartar a crise econômica, que já registra mais 10 milhões de desempregados, da crise ética e política. Mas será preciso fazer um inventário de perdas e danos, ou seja, abrir a caixa-preta das contas do Tesouro, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e dos fundos de pensão controlados pelo governo, que ameaçam quebrar o nosso sistema financeiro, porque o rombo é muito grande e pode arrastar também alguns bancos privados.

Essa megapedalada é a herança maldita dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que está sendo desnudada pelos órgãos de controle do país — o Tribunal de Contas da União (TCU), o Ministério Público Federal e a Polícia Federal —, em investigações que não se restringem mais à Operação Lava-Jato. O modelo de capitalismo de Estado adotado pelo PT, cujo vértice era ocupado pelo “cluster” liderado pela Petrobras, entrou definitivamente em colapso. Depois das maiores empreiteiras do país, as “campeãs nacionais”, favorecidas por empréstimos camaradas, estão sendo arrastadas para o olho do furacão da crise.

“Cada dia será uma agonia”, previu o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, durante palestra promovida pela Universidade de Harvard no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, a respeito do impeachment e da possibilidade de um governo encabeçado pelo vice-presidente Michel Temer. “Estou convencido, com as circunstâncias de fato que existem hoje, que não existiu um mensalão e não existiu uma Lava-Jato. É toda uma operação conjugada. O mensalão foi parte do iceberg, que ainda tem parte submersa”, disse. Janot corroborou a existência de um “projeto político” por trás do esquema de corrupção da Petrobras.

A agonia já começou. Ontem, foi eleita a comissão especial do Senado que vai examinar o pedido de afastamento; hoje, a comissão será instalada, com a eleição de seu presidente e a indicação do relator. O PT e seus aliados tentam retardar o afastamento da presidente Dilma do cargo, o que deve ocorrer tão logo a comissão conclua seu trabalho e o pedido de admissibilidade seja aprovado em plenário, por maioria simples, o que deverá correr até 10 de maio, segundo as previsões mais otimistas. O cavalo de batalha do momento é para impedir que senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) seja o relator, escolha prevista para hoje, na primeira reunião da comissão.

São combates inglórios para os governistas, mas que servem para reforçar a narrativa do golpe e tentar ampliar as adesões de personalidades e mobilizações contra o impeachment. Ontem, por exemplo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do seminário da Aliança Progressista, organização que reúne partidos e movimentos de esquerda de vários países, como Itália, Israel, Argentina, Nepal e Alemanha. Lula disse que “o que está em jogo nesse momento é a continuidade do processo democrático no Brasil e em toda a região”.

Oposição dura
Segundo Lula, “a oposição, derrotada nas urnas pela quarta vez consecutiva, optou pela estratégia golpista para voltar ao poder”. Para o petista, os que se opõem ao governo querem implantar “por caminhos autoritários, a agenda neoliberal derrotada nas urnas; a agenda de desconstrução das conquistas sociais e de entrega do patrimônio nacional”. Formou-se “uma aliança oportunista entre a grande imprensa, os partidos de oposição e uma verdadeira quadrilha legislativa, que implantou a agenda do caos”, disse.

O discurso de Lula é uma espécie de vacina contra o que ainda está por vir contra o ex-presidente da República e o PT por causa da Lava-Jato e de outras investigações. Ao se passar por vítima, coesiona os militantes petistas sem fazer autocrítica dos erros cometidos. Sabe que as mobilizações petitas não têm força para impedir que a presidente Dilma seja afastada pelo Senado, mas prepara o terreno para uma dura oposição ao governo de transição que será formado pelo vice-presidente Michel Temer, até as eleições de 2018. O passo seguinte será responsabilizá-lo pelo agravamento da situação da economia, propor o seu impeachment e a convocações de eleições presidenciais com as municipais. Essa é uma bandeira de fácil sustentação, embora a decisão caiba ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e dependa da renúncia ou cassação do mandato de Temer.

Afinal, quem será a base de Temer? - Leandra Peres

• Apoio parlamentar não reflete governo de "união nacional"

- Valor Econômico

O ex-ministro Delfim Netto esteve na semana passada com o vice-presidente e deixou o encontro dizendo que Michel Temer tem a avaliação correta: não faltam talentos ou diagnósticos, mas governo e organização política. Colocada de forma mais direta, e sem a habitual fleuma do ex-ministro, a declaração de Delfim resume o fantasma que ronda o eventual governo comandado pelo PMDB: o vice conseguirá apoio no Congresso para aprovar as medidas necessárias para reanimar a economia?

Temer conseguiu demonstrar força na votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Os 367 votos a favor da continuidade do processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff foram um sinal consistente. Mas nem mesmo os mais próximos ao vice acham que isso expressa a base de apoio parlamentar que um novo governo teria. No plenário da Câmara, o jogo era afastar ou não uma presidente cuja popularidade não passa de 10% desde junho de 2015. Não se julgou ali a disposição dos deputados em aumentar a idade de aposentadoria às vésperas da eleição municipal ou os inevitáveis aumentos de impostos - apenas para citar duas medidas que são hoje consenso para sair da barafunda econômica e que dependem inteiramente do Congresso.

É razoável supor que o PMDB - mesmo dividido e com a pouca vontade do presidente do Senado Renan Calheiros para trabalhar por um governo Temer - acabará se agregando diante da força maior que exerce o poder presidencial. Há também pouca dúvida hoje de que o Democratas, com uma bancada de 29 deputados e na oposição, assim como os partidos nanicos, mais 31 votos, e o PTB de Roberto Jefferson, 19 deputados integrarão um novo governo. Mas as certezas acabam aí.

A base parlamentar que vem se desenhando nas negociações da transição continua gravitando com peso desproporcional na direção dos partidos do chamado centro. PP, PR, PRB, PSD somam hoje 145 votos na Câmara. Foram cortejados pelos dois lados do impeachment e as negociações do varejão comandado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva permitiram a esses partidos ampliarem seu espaço no poder. Já as conversas com Temer serviram, ao fim e ao cabo, para que sacramentassem os cargos já conquistados e até os prometidos.

A lição aprendida pelo pessoal do centrão durante a disputa na Câmara foi a de que, não interessa quem seja governo, eles serão chamados a participar. O vice-presidente, assim como faz a presidente Dilma Rousseff hoje, terá que negociar caso a caso, cargo a cargo a fidelidade desses votos. Muitos já comemoram os ministérios prometidos por Temer, assim como o embarque em um novo governo. Mas são poucos, ou mesmo nulos, os incentivos para que esses partidos atuem como um bloco coeso, que brigará no Congresso por propostas impopulares, justo o que será necessário ao vice-presidente. Esse arranjo só aumenta a incerteza de um eventual governo Temer.

O PSB, que apoiava o governo Dilma e depois se declarou independente, está hoje reticente. O partido, desde as primeiras conversas com Temer sobre o impeachment, garantiu apoio ao afastamento da presidente. Mas condicionou a participação no governo às conversas de depois da votação. As promessas de ministérios ainda não fizeram com que o partido se posicionasse publicamente a favor de Temer.

Sobra então, o PSDB. Foram os 51 deputados da bancada do partido na Câmara que primeiro bateram o bumbo do impeachment. São os "cabeça preta" do partido, a ala mais jovem, que se vê fortalecida na disputa interna entre os tucanos. Ali, prevalece a certeza de que não vale a pena se queimarem votando medidas impopulares por um governo que não é do PSDB. A outra disputa que paralisa o partido é o excesso de candidatos presidenciais para 2018. José Serra, que vem articulando com o PMDB muito antes de o impeachment ser viável, já disse publicamente que o PSDB tem que participar do governo Temer. Aécio Neves, controla a máquina do partido, e vem falando em não permitir a nomeação de ministros tucanos. Já o governador de São Paulo e candidatíssimo, Geraldo Alckmin, segue na linha do apoio distante. O partido promete tomar uma decisão na próxima semana. Mas quem conhece os métodos de decisão tucanos aposta que a indefinição se arrastará até as vésperas do novo governo.

Para Temer, sobrou até agora o discurso de que o PSDB não participará do governo, mas dará apoio parlamentar. Não basta. Ajudar a aprovar medidas no Congresso é muito diferente de firmar um compromisso pelo futuro do governo e se associar a seu sucesso ou fracasso. O que os tucanos querem oferecer ao vice-presidente é pouco mais que uma miragem: ajudam mais, se o governo for bem; ajudam bem menos, se os ventos forem contrários. A avaliação que ainda domina o partido é que poderá ganhar as eleições presidenciais de 2018 sem se posicionar agora. No fundo, não querem pagar o preço, mas aceitam dividir igualmente os benefícios.

Essa base parlamentar parece muito mais a que tinha a presidente Dilma antes do desembarque dos aliados rumo ao impeachment do que com o governo de união nacional que o vice promete: é pouco coesa, dependente do centrão e se escora num parceiro preferencial que hesita em apoiar o governo. A última vez em que essa base foi testada na votação de medidas impopulares, que endureceram as regras do seguro desemprego e abono salarial - a presidente Dilma Rousseff teve que desidratar suas propostas para conseguir 252 votos a favor. Os contrários foram 227.

A articulação política do vice-presidente é inegavelmente superior à que existiu durante qualquer momento do governo da presidente Dilma Rousseff. Eliseu Padilha, Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá e o próprio Michel Temer não cometerão erros pueris como o PT, que quis dividir o PMDB criando novos partidos. O vice é visto como um conciliador que conhece e sabe fazer a política de tapinhas no ombro e conversas polidas que a presidente Dilma sempre se negou a fazer.

Mas para quem pode chegar ao poder com 60% da população apoiando sua renúncia e a realização de nova eleição, com a Lava-Jato capaz de desestabilizar qualquer acordo político, com o aliado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sob investigação do Supremo Tribunal Federal, Temer precisa muito mais de apoio no Congresso do que poderia lhe dar um governo de notáveis.

Governo e PT atacam o Brasil no exterior - Rubens Barbosa

- O Estado de S. Paulo

A radicalização da política interna, agravada com o pedido de impeachment da presidente da República, adquire contornos dramáticos com a decisão do PT de mobilizar forças internas e externas para denunciar um pretenso golpe contra a democracia no Brasil. Ministros do Supremo Tribunal Federal explicam que na discussão e votação do impeachment o devido processo legal vem sendo rigorosamente seguido e que é um grave equivoco insistir na tese do golpe e do retrocesso. Além da incitação interna – “não passarão”, “vamos à luta” – dos movimentos sociais (CUT, MST, UNE e outros), o Palácio do Planalto estimula ações que vão além das nossas fronteiras.

O governo e o PT não hesitam em fazer uso da máquina pública para tentar desinformar governos estrangeiros, organizações internacionais e a mídia sobre o que está acontecendo no Brasil com o objetivo de deslegitimar o futuro governo e atingir a imagem presidencial. As conexões externas do PT e de seus principais líderes – dentro e fora do governo – estão sendo mobilizadas para uma forte campanha contra o Brasil e suas instituições, junto a pessoas em organizações internacionais e governos afins ideologicamente.

Felipe González e Ricardo Lagos assinaram documentos críticos ao processo de impeachment. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e o alto comissário de Direitos Humanos emitiram notas oficiais contra o processo de impeachment, acusando as oposições de golpe. 

Na longa e inaceitável nota da OEA, Luis Almagro investe contra o Judiciário e o Legislativo brasileiros, chegando a afirmar que não há prova contra a presidente, em clara interferência em assunto interno do Brasil. O secretário-geral da Unasul, a pedido do presidente do Uruguai, emitiu nota criticando a aprovação do início do processo de impeachment na Câmara de Deputados. Os presidentes bolivarianos da Venezuela e da Bolívia se pronunciaram em clara interferência nos assuntos internos brasileiros. O presidente do Equador fez graves afirmações ao qualificar a Operação Lava Jato de Plano Condor e atacar o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal. Raúl Castro também saiu em defesa de Dilma em comunicado oficial do governo cubano. A ministra do exterior de um dos países-membros do Mercosul chegou a afirmar que o Brasil deveria ser suspenso caso a presidente Dilma seja afastada, colocando o Brasil no mesmo pé do Paraguai.

O normalmente esquecido corpo diplomático em Brasília foi convidado a participar da reunião no Palácio do Planalto em que a chefe de Estado fez pronunciamento inflamado dizendo que não renunciaria e que iria lutar contra o golpe. A sede de governo transformou-se em palanque político onde puderam ser ouvidas seguidas manifestações de militantes e de alguns embaixadores que repetiam palavras de ordem e gestos de punhos cerrados e braços esticados. Em encontro com correspondentes estrangeiros, a presidente e Lula repetiram a narrativa do golpe e de crítica ao Ministério Público.

A campanha no exterior adquiriu contornos de realismo mágico quando, depois de mencionar a grave situação e, contraditoriamente, afirmar ser o País uma democracia vigorosa, em evento da ONU sobre clima, a presidente da República pediu a aplicação da cláusula democrática pelo Mercosul e pela Unasul contra o Brasil, se for afastada. Sábado passado, o ministro de Relações Exteriores e o assessor internacional da Presidência visitaram o secretário-geral da Unasul e, em grave atentado contra a soberania do País, formalizaram pedido nesse sentido, em carta assinada por Marco Aurélio Garcia.

Essas demandas inusitadas – não me lembro de nenhum exemplo de chefe de Estado e de governo pedindo graves sanções contra seu próprio país – não levarão a nada, nem interna nem externamente. Com a possível exceção dos países bolivarianos (Venezuela, Equador e Bolívia), nenhum outro aceitará sequer examinar a aplicação da cláusula democrática contra o Brasil.

O que choca é a narrativa de golpe ser usada no exterior pelo governo e pelo PT contra o próprio país e suas instituições. O resultado é um desserviço ao Brasil, pois vai contra o interesse nacional e a imagem do País no exterior. Procura-se criar um clima venezuelano de confrontação e de instabilidade política que inexistem no Brasil. O futuro governo terá de executar uma estratégia de longo prazo para neutralizar essa campanha de lesa-pátria, construída para oferecer a narrativa do PT para as eleições de 2018.

Todos esses episódios contribuem para macular a percepção a respeito do trabalho sério e competente desenvolvido pelo Itamaraty, por representarem interferências indevidas no trabalho diplomático e em seus processos decisórios. Como ocorreu com a iniciativa de funcionário com notórias ligações com o PT de enviar a todas as embaixadas brasileiras instrução para que diplomatas fossem designados para transmitir aos governos locais a ameaça de golpe contra a presidente e, agora, com a presença do ministro do Exterior na Unasul.

A recuperação do prestígio do Itamaraty e de sua centralidade no processo de decisão e execução internas são condições necessárias para o Brasil voltar a exercer efetiva liderança e passar a influir de forma positiva no cenário regional e multilateral, deixando de lado a atitude de “anão diplomático” que hoje prevalece.

Neste momento crítico para a instituição, que deveria defender os interesses brasileiros no exterior, e deverá responder, com o novo governo, aos ataques contra o País, é importante relembrar a lição do patrono da diplomacia brasileira. Pouco antes de assumir o Itamaraty, no início do século 20, Rio Branco afirmou, sem meias-palavras, que não se devem confundir interesses partidários com os interesses maiores do País.

Briga na federação – Miriam Leitão

- O Globo

Em uma semana tensa, no auge da crise política, com os indicadores fiscais péssimos e a dívida pública escalando, o Supremo Tribunal Federal ( STF) decidirá sobre a briga dos estados com a União. De um lado, os estados dizem que vão quebrar se tiverem que pagar a dívida da maneira com que ela é cobrada. De outro, o governo calcula que a dívida que ontem chegou a R$ 2,8 trilhões vai aumentar mais R$ 300 bilhões.

É assunto complicado em hora difícil. O Supremo recebeu o ministro da Fazenda e alguns governadores dias atrás. Conversei com duas fontes que estiveram na audiência e ficaram com a impressão de que o Governo Federal não foi convincente, não deu as respostas pedidas pelos ministros. Há dúvidas no Supremo sobre o cálculo dos R$ 300 bilhões e houve quem não se deixasse convencer pelo argumento do ministro Nelson Barbosa de que a revisão dos contratos entre União e estados geraria precedente que poderia comprometer todo o sistema de crédito do país.

— A verdade é que nós temos que decidir uma questão gravíssima, em momento muito delicado na economia e na política, o governo tem uma equipe econômica fraca e o advogado- geral da União está ausente porque tem outras preocupações — disse um dos ministros que votarão amanhã na questão da dívida dos estados com a União.

A tese do governo é de que se a União for forçada a adotar juros simples, em vez de juros compostos, na dívida dos estados, todos os devedores poderão requerer o mesmo tratamento. No Supremo se diz que mudança nos contratos envolvendo dinheiro público não gera precedente porque a natureza jurídica dos contratos privados é outra.

O governador Paulo Hartung, do Espírito Santo, é economista — e dos bons. Ele escreveu artigo afirmando que os estados não têm direito em sua queixa e que a mudança infringe a regra universal de crédito. No artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, Hartung disse que entre outras consequências previsíveis está o “risco de insolvência da dívida pública”. E lembrou que 82% do abatimento dos saldos — decorrente dessa mudança na fórmula de cálculo dos juros — iria para quatro estados e justamente os mais ricos.

Hartung disse que, ao contrário do que os estados fazem crer, o processo de renegociação da dívida, feito em 1997, significou subsídio aos estados. A cobrança de juros não é, portanto, indevida e injusta, como dizem.

Por outro lado, erros do governo podem deixar os juízes da Suprema Corte com pouca margem de manobra. O governo Dilma aceitou pressão antiga dos estados para trocar o indexador e reduzir os juros. O governo fez isso, mas deixou pontas soltas. A redação da nova lei fala em juros, mas não fala que são “compostos”. Além disso, regras contratuais não foram cumpridas, como a de recontratar em seis meses a partir de agosto do ano passado.

Quando chegou no prazo — final de janeiro — e o Ministério da Fazenda não havia calculado os saldos devedores nem negociado com os estados, Santa Catarina entrou no STF alegando que os juros a pagar teriam que ser simples. Concedida a liminar, vários outros conseguiram a mesma coisa.
A liminar provoca prejuízos ao erário porque os estados foram autorizados a pagar menos e ficaram protegidos de retaliação por parte do governo federal.

Reabrir a questão explosiva das dívidas dos estados com a União foi uma decisão temerária do governo Dilma. Demorar- se na burocracia de fechar novos contratos foi uma insensatez. Nos últimos meses, o governo negociou com os estados uma proposta que inclui alongamento da dívida e redução do que se tem a pagar no curto prazo. Isso virou um projeto de lei que não é votado porque a crise paralisou tudo. Amanhã, a Suprema Corte decide o mérito. “Precisamos retomar a trajetória da racionalidade”, disse Hartung no artigo. É isso.

Incertezas em jogo – Editorial / Folha de S. Paulo

A composição da comissão especial de senadores que analisará o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff deixa a petista praticamente sem esperanças, ao menos nesta fase inicial.

De seus 21 integrantes, 15 se declaram favoráveis à instauração do processo de impedimento no Senado. A não ser que haja uma reviravolta a esta altura tida como impossível, o colegiado aprovará parecer nesse sentido.

Tudo indica que o plenário da Casa, responsável por dar a palavra final sobre o assunto, concordará com a comissão especial.
Segundo levantamento destaFolha, pelo menos 50 dos 81 senadores afirmam que votarão pela abertura do processo, mais do que os 41 suficientes para tanto.

A situação muda de figura, contudo, quando se trata da condenação definitiva da presidente. Por ora, somente 39 senadores anteciparam juízo favorável ao impeachment, montante inferior aos 54 exigidos pela Constituição.

Pode-se supor, sem medo de errar, que o placar da segunda enquete sofrerá muitas alterações. Quando estiver afastada do cargo por até 180 dias, como consequência da primeira votação a ser feita no Senado, em maio, Dilma perderá quase toda a condição de resistir.

As duas sondagens, de todo modo, aumentam a pressão sobre o vice-presidente Michel Temer.

Sendo certo que dentro de algumas semanas assumirá o comando do Executivo, o peemedebista não tem tempo a perder. Precisa definir os nomes que ocuparão seu gabinete, de modo a anunciá-lo assim que Dilma for afastada. A tarefa parece gerar apenas custos.

Sem poder bater o martelo de antemão, sob pena de reforçar a pecha de conspirador, Temer nada pode fazer para impedir a desgastante disputa por espaço em seu governo. Além disso, cada recusa vazada à imprensa se traduz em perda de seu capital político.

O tabuleiro se complica ainda mais porque, para o peemedebista se tornar de fato presidente, no mínimo mais 15 senadores precisarão ser convencidos a votar pelo afastamento definitivo de Dilma, dentro de alguns meses. Ao montar seu ministério, portanto, o vice-presidente haverá de levar em consideração essa circunstância.

Ocorre que, ao distribuir suas pastas com base em critérios políticos, e não técnicos, Temer correrá sério risco de desagradar setores que depositam esperanças em seu governo. Se, por esses motivos, a economia continuar patinando, a nova administração logo será condenada pela sociedade.

Nesse cenário, que por enquanto não passa de especulação, os senadores indecisos terão poucos incentivos para punir Dilma Rousseff, mas dificilmente gostarão de lhe devolver a Presidência.

Outras saídas, como a realização de eleições presidenciais, talvez ganhem cada vez mais força –hipótese que não deveria ser descartada numa crise caracterizada sobretudo pela incerteza.

PSDB não pode repetir o PT de 1992 – Editorial / O Globo

• São legítimas as aspirações políticas, contanto que a necessidade imperiosa de estabilização do país não seja colocada em segundo plano

Um dos mais poderosos combustíveis que movem o político — a expectativa de poder — deixa claro rastro na crise que paralisa o país. Ele está muito visível na perda de sustentação parlamentar do governo Dilma, cuja expressão máxima, até agora, foram os 367 votos recebidos pela proposta de impeachment na Câmara contra modestos 137 pela permanência da presidente no Planalto. Ao mesmo tempo, engrossam as romarias ao Palácio do Jaburu, residência oficial do vice Michel Temer.

Há outros sinais de como a possibilidade de a faixa presidencial mudar de dono condiciona o posicionamento de políticos e partidos. Um desses casos ocorre com o PSDB, na oposição há 23 anos e que, diante da debacle do governo do PT, considera ter chances reais de voltar ao Planalto nas próximas eleições.

Numa perspectiva meramente eleitoral, para tucanos e aliados o melhor seria Dilma e PT serem governo até completar o mandato, em 2018, e assim pagarem o preço na moeda da impopularidade pelos erros que cometeram na economia e pelo estelionato da campanha de reeleição da presidente.

A tramitação do pedido de impeachment da presidente, por crimes de responsabilidade cometidos no Orçamento no ano passado, virou ameaça real de encurtamento do segundo mandato de Dilma, e isso obriga os tucanos a definirem que posição assumirão diante de um provável governo Temer.

Uma dessas trapaças do destino coloca o PSDB em situação comparável àquela em que esteve o PT por ocasião do impeachment de Fernando Collor, em 1992. Hoje, como naquele tempo, a economia está em péssimas condições, e, impedido o presidente, o governo do vice precisará ter respaldo no Congresso para tomar as medidas corretivas necessárias.

Nada mais natural do que as forças políticas que conduziram o impeachment darem sustentação ao governo do vice que assume. Mas a lógica da política é outra. O PT, que atuou ao lado do PSDB para impedir Collor, foi para a oposição ao governo Itamar Franco, também devido a cálculos político- eleitorais. Chegou a expulsar a deputada Luiza Erundina ( SP), por ela ter aceitado ser ministra de Itamar.

O PSDB se defronta com dilemas muito semelhantes. O importante é que o partido não desconsidere a situação em que se encontra o país e, por isso, não deixe de dar apoio a um futuro governo Temer. Medidas duras serão necessárias, e sem suporte forte no Congresso elas serão inviabilizadas.

As ambições presidenciais de tucanos de alto escalão, como o governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves, presidente do partido, e mesmo o senador José Serra, são peças neste jogo. Mas não podem ser decisivas, diante da necessidade crucial de se recolocar o país em funcionamento.

Dilma, a realidade e a fantasia – Editorial / O Estado de S. Paulo

Decerto aconselhada pelo diabo, aquele a quem ela recorreu em suas campanhas eleitorais, a presidente Dilma Rousseff decidiu adotar de vez a mentira como essência de seu discurso contra os adversários. A petista tem recorrido com desenvoltura e frequência ao engodo e cada vez mais parece acreditar nas fantasias que cria e conta.

Não contente em tentar enganar a opinião pública nacional, especialmente no que diz respeito à legalidade do processo de impeachment, por ela qualificado de “golpe”, Dilma dedica-se agora a espalhar sua farsa mundo afora, conforme se verifica na impressionante entrevista que concedeu à imprensa estrangeira há uma semana. O aspecto mais importante dessa entrevista não foi a reiteração da denúncia do tal “golpe”, algo que já era esperado. O mais importante foi a constatação de que Dilma está perdendo contato com a realidade, especialmente quando resolveu comentar a profunda crise econômica que ela tão cuidadosamente produziu para o Brasil.

Num dos momentos mais extravagantes da entrevista, Dilma declarou: “Nós não temos uma perda de 10 milhões de empregos, como alguns congressistas disseram. Nós não temos. Nós temos, infelizmente, uma perda de empregos, mas ela não tem esse montante, não monta a mais de 2,6 milhões de cargos. O que é uma lástima, o que é terrível”.

Menos mal que a presidente tenha qualificado de “terrível” a perda de empregos, mas sua tentativa de minimizar a escalada do desemprego, apelando a um truque mambembe de contabilidade, soa como chacota para os milhões de brasileiros que perderam sua ocupação nos últimos tempos graças às lambanças do governo petista. Dois dias depois dessa entrevista, o IBGE informou que a desocupação havia chegado a 10,2% da força de trabalho no período entre dezembro e fevereiro, conforme a Pnad Contínua. Ou seja, 10,37 milhões de brasileiros estavam em busca de vagas naquele período, quase 3 milhões a mais do que no ano anterior. Para Dilma, esse aumento é o número que representa o fechamento de vagas – como se os outros 7 milhões de desempregados não existissem, o que obviamente é uma ofensa à inteligência.

Dilma também recorreu à fabulação quando explicou que não tinha nenhuma responsabilidade sobre a crise. “Muitos atribuem a mim a única responsabilidade, como se eu fosse responsável pelo fim do superciclo das commodities, como se eu fosse responsável pela brutal crise que afetou, a partir de 2009, os países desenvolvidos”, disse a petista, incapaz de reconhecer seus erros, tão evidentes que a maioria absoluta dos brasileiros considera seu governo horroroso.

Mas Dilma foi além. Ela disse que a crise foi ampliada pela suposta inconsequência da oposição, que “se expressou nas pautas-bomba”. Tentando ser didática para os jornalistas estrangeiros, a presidente explicou que pautas-bomba eram “a aceitação de medidas populistas que inviabilizavam, na prática, a rigidez fiscal, a responsabilidade fiscal, a robustez fiscal do País”. Ou seja, na versão de Dilma, seu governo, que criou um rombo inédito nas contas públicas, era um exemplo de equilíbrio e responsabilidade e só sucumbiu porque foi vítima da sabotagem da oposição.

Mas a maior das fantasias de Dilma diz respeito à sua alegada probidade, reiterada, orgulhosamente, na entrevista. A presidente que reivindica uma medalha por idoneidade é a mesma sob cujo nariz bandidos rapinaram os cofres do Estado como nunca antes na história deste país e que teve sua própria campanha eleitoral financiada com o produto desse roubo, segundo evidências levantadas pela Lava Jato; é a mesma que se elegeu e se reelegeu fazendo uso de mentiras descaradas a respeito de si mesma e dos adversários; e é a mesma que continua a mentir a respeito do desastre de seu governo, a respeito das intenções da oposição e a respeito dela própria, apresentando-se como heroína da democracia desde os tempos da ditadura – época em que, todos sabem, ela defendia outra ditadura no lugar daquela. Mas o País, como provam os milhões que foram às ruas contra a desfaçatez de Dilma e do PT, já não se deixa mais enganar. Afinal, mentiras, mesmo aquelas contadas com muita convicção, têm pernas curtas.