terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Ano novo, expectativas modestas

O Estado de S. Paulo

As projeções mais otimistas indicam inflação ainda elevada, juros em alta e baixo crescimento econômico em 2022

Neste início do ano, otimismo é apostar em crescimento econômico superior a 1%, sem o País afundar numa nova recessão.

Otimismo, neste início do ano, é apostar num crescimento econômico superior a 1%, retomar o ritmo anterior à pandemia e continuar correndo atrás da maior parte do mundo, sem afundar numa nova recessão. A recuperação em V prometida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, tirou o Brasil do poço onde havia entrado em 2020. Se houve algum ganho, foi muito modesto. No ano recémterminado, com muita inflação, muito desemprego e consumo contido, o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter aumentado 4,5%, segundo a mediana das projeções captadas na última pesquisa Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central (BC). Em 2022 a expansão econômica deverá ficar em 0,36%, de acordo com a mesma pesquisa. Mas até essa estimativa pode ser considerada rósea demais por muitos economistas fora da equipe de Guedes.

Algumas das previsões mais feias foram formuladas no setor bancário. Para 83,3% dos consultados, haverá algum crescimento econômico em 2022, mas inferior a 1%.

Os demais 16,7% projetam recessão. Para metade dos participantes, neste ano a inflação continuará acima da meta (3,5%) e só convergirá para esse ponto em 2023. Menor atividade, juros mais altos e maiores gastos federais empurrarão para cima a dívida pública, de acordo com 88,9% das projeções obtidas no setor. Para conter a inflação, o BC continuará elevando os juros e a taxa básica estará em 11,75% no fim do ano. Juros continuarão subindo também segundo a pesquisa Focus, mas a previsão, nesse caso, indica uma taxa de 11,5% no fim do ano.

Crédito mais caro dificultará o consumo e a retomada dos negócios e do emprego. O aperto das famílias, pressionadas pelo desemprego, pelo encarecimento dos bens e serviços essenciais e pela piora das condições de financiamento, é perceptível no desempenho do comércio varejista. É fácil entender por que as ações mais desvalorizadas em 2021 foram as de empresas do varejo, como o Magazine Luiza, a Via (dona de Casas Bahia e Ponto), os supermercados Pão de Açúcar e as Lojas Americanas. O desempenho dessas empresas na B3, a bolsa de valores, basicamente refletiu o empobrecimento da maior parte das famílias, em grande parte explicável pelas falhas da política econômica do poder central.

Poesia | Joaquim Cardozo: Poesia da Presença Invisível

Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
— A Natureza assume a precária presença de um sonho;

Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.

Música | Quinteto Armorial: Baque de Luanda

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entrevista | Rubens Ricupero: “Bicentenário terá o signo do combate à desigualdade”

Novo titular da cátedra José Bonifácio, da USP, Ricupero vê esgotamento da Nova República no bicentenário da independência

Maria Cristina Fernandes / Valor Econômico

Rubens Ricupero tinha saído de uma cirurgia cardíaca quando recebeu o convite do reitor da USP, Vahan Agopyan, para assumir a Cátedra José Bonifácio. Aceitá-la parecia uma temeridade para o embaixador de 84 anos. Depois de quatro décadas dedicadas à diplomacia, em que alcançou o posto de secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), e da passagem pelos ministérios do Meio Ambiente (1993) e da Fazenda (1994), parecia ter chegado a hora de se aposentar. Mas a tentação foi maior.

É a segunda vez que a cátedra, que já foi ocupada pelo ex-presidente do Chile Ricardo Lagos e pelo ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González, será entregue a um brasileiro. A primeira foi Nélida Piñon. Como a cátedra seria dedicada ao bicentenário da independência, a escolha levou em conta a lucidez com a qual Ricupero reflete sobre o Brasil contemporâneo à luz de sua história.

Redigiu as notas preparatórias à cátedra na crença de que o tempo raramente deixa intactas as atitudes em relação ao passado. Inspirou-se em Mário de Andrade, que, em 1922, foi capaz de extrair de uma realidade imperfeita os estímulos da transformação, e pôs-se a refletir sobre as razões pelas quais seria possível acreditar num país melhor no terceiro centenário.

E a primeira de suas reflexões é a de que, na comparação com a efeméride de cem anos atrás, o Brasil virou a chave de um país tão obcecado pela modernização que se achava capaz de remover mocambos com jatos d’água. Hoje, diz, há um consenso nacional, que só não invadiu o Palácio do Planalto, de que a verdadeira modernização do Brasil é o enfrentamento da desigualdade.

A segunda reflexão é a de que a convergência do bicentenário com a eleição de 2022 é uma coincidência infeliz e feliz. Infeliz por cair num momento de baixíssima autoestima nacional com a morte de mais de 619 mil brasileiros na pandemia e com a depressão da economia. E feliz porque as pessoas terão uma oportunidade de começar a mudança com seu voto.

Entrevista: Paulo Fábio:“Neto e o candidato do governo polarizarão sem deixar margem para 3ª via”

Declaração é do cientista político Paulo Fábio, que afirmou ainda ter dúvida sobre a candidatura de Wagner a governador 

Por Guilherme Reis, Rodrigo Daniel Silva, Paulo Roberto Sampaio /| Tribuna da Bahia, Salvador

O cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Fábio Dantas Neto, não acredita que há chance de uma terceira via vingar na eleição para governador. Para ele, o pleito estadual será polarizado entre o ex-prefeito soteropolitano ACM Neto (DEM/União Brasil) e o candidato do governo. Apesar de o PT ter lançado o senador Jaques Wagner (PT) como o postulante governista, Dantas Neto tem dúvida se, de fato, o petista será postulante no próximo ano. 

“A incerteza maior não provém de sua posição atual nas pesquisas, que nada tem de definitiva, mas do quadro nacional e, dentro dele, com especial destaque, da manutenção do fator Lula nas atuais condições de competitividade. Além disso, dependerá da capacidade do acordo político estadual longevo, que resiste a várias tempestades da política brasileira, tornar-se uma aliança política de fato, feita entre partidos, com amplitude nacional”, disse o professor, em entrevista à Tribuna. “Um dado concreto do momento é que ACM Neto será candidato oposicionista competitivo a governador. Outro é que o governo estadual patrocinará uma candidatura, também competitiva. Desses dois dados resulta o prognóstico de que essas duas candidaturas polarizarão a disputa sem deixarem margem a uma terceira via com chances reais de competir com sucesso. Não vejo como ir além desse ponto no exercício prospectivo. Isso quanto à solução. Quanto ao diagnóstico do problema, pode ser feito na resposta à pergunta seguinte”, acrescentou. 

Fernando Gabeira: ‘Get back’, o enigma do retorno

O Globo

Neste fim de ano, vi o documentário sobre os Beatles. Não me trouxe lembranças apenas dos intensos anos 60. A música que dá título ao documentário, “Get back”, teve muita importância há pouco mais de 40 anos, quando voltei do exílio. Eu a cantarolava, enquanto ajuntava algumas coisas e viajei para o Brasil.

Foi um momento decisivo. Às vezes, penso o que seria de mim se não voltasse. Viveria em Estocolmo, passaria as férias no sul de Portugal, nas Ilhas Gregas? Conheci gente que não voltou de seu exílio. No meu caso, seria uma escolha fatal.

Quando desembarquei, tinha uma máquina de escrever portátil vermelha, a Olivetti Lettera 22. Os funcionários da alfândega a olharam como se fosse um artefato tributável. A revolução digital ainda era uma névoa no horizonte.

Fervilhavam ideias ecológicas na cabeça, mas as mudanças climáticas e os eventos extremos não eram prioridade. Chamaria de poesia se um amigo baiano, como na semana passada, me dissesse que os peixes na pista de pouso pararam o trânsito no Aeroporto de Ilhéus.

Irapuã Santana: O transbordar

O Globo

‘Como será amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser.’ 2021 ficou para trás, o Ano-Novo já deu as caras, e muitas perguntas rondam as cabeças de toda a população brasileira acerca do futuro que nos aguarda.

Entretanto, muito mais do que esperar que 2022 seja um ano melhor, precisamos refletir sobre nossa contribuição para chegar ao resultado que almejamos. Infelizmente, a polarização acentuada tomou conta de todas as áreas da nossa sociedade, dificultando demais o diálogo com o diferente e a criação de um caminho que possa ser construído para o surgimento de um panorama mais harmonioso.

Tratando-se de ano eleitoral, a hostilidade e as rixas tendem a ser potencializadas, indo para o caminho oposto ao da política, que é justamente a arte da composição.

O debate público ficou tóxico, com descartes completos e cancelamentos. Ao mesmo tempo, do outro lado, observamos políticos e partidos de diferentes ideologias aumentando o fundo eleitoral, destinando verbas do orçamento secreto, dilapidando o patrimônio público em troca de benefícios pessoais.

A sociedade, que deveria fiscalizar, cobrar e exigir, está completamente fragmentada e enfraquecida, assistindo a tudo atônita.

Celso Rocha de Barros: Quantos Bolsonaro matou na pandemia?

Folha de S. Paulo

Conforme a vacinação contra Covid cresce, o número de óbitos cai 

Nos últimos dias de 2021, um grupo de pesquisadores brasileiros, ligados à Fundação Oswaldo Cruz e ao Observatório Covid-19 Brasil, disponibilizou um artigo em pré-print —ainda não avaliado, portanto, pelos pareceristas da publicação científica— que dá uma nova contribuição à estimativa de quantos brasileiros Jair Bolsonaro matou durante a pandemia de Covid-19.

O cruzamento entre dados de vacinação e óbitos por Covid-19 em 2021, ano em que a vacinação começou, não dá margem a qualquer dúvida. Observe o que acontece quando a vacinação vai progredindo. Conforme a vacinação cresce, o número de óbitos cai, e cai rápido.

Com esses dados, os pesquisadores utilizaram técnicas estatísticas para verificar, com base no padrão observado em 2021, duas coisas. A primeira, a boa notícia, é que a vacinação salvou, no mínimo, 75 mil idosos brasileiros em 2021.

Catarina Rochamonte: 2022: a mudança virá

Folha de S. Paulo

O tempo da estridência política ficará para trás

O ano que passou pode ser seccionado em três fases: de alerta, de negação e de revolta. O alerta refere-se aos que souberam ler as entrelinhas do contexto da pandemia e entenderam que o assunto era grave demais para ser tratado em termos meramente políticos e eleitoreiros; a negação foi o modo como uma parcela da população reagiu ao alerta, desconfiando do que era noticiado e formulando teorias conspiratórias disseminadas a torto e a direito de modo irresponsável e inconsequente; já o momento da revolta precisa ser transmutado e a indignação deve virar ousadia: é preciso avançar na estrada do bom senso e tratar todos os assuntos com a seriedade que o momento exige.

Denis Lerrer Rosenfield*: A fábula do pecado

O Estado de S. Paulo

Uma vez penalizações como as previstas na reforma tributária tendo começado, não há mais limites em sua abrangência

No século 18, Bernard de Mandeville publicou um livreto de grande repercussão na época, A Fábula das Abelhas. Trata-se de uma espécie de alegoria tendo como pano de fundo a ação dos reformadores religiosos ingleses, que pretendiam reformar o Estado impondo suas crenças e suas formas de comportamento. Procuravam obrigar as pessoas a seguirem os mesmos valores religiosos relativos a gostos e atitudes, numa versão daquela época do que hoje chamaríamos de politicamente correto. As roupagens são diferentes, a essência é a mesma, assim como o alvo: suprimir a esfera da liberdade individual em nome de supostos valores mais “revolucionários” e ditos conforme os casos, em linguagem atual, de “progressistas”. No assunto em pauta, eles se voltaram contra uma sociedade de tipo hedonista – atualmente poderíamos dizer de consumo –, pois seria a representante de valores deturpados ou perversos.

Miguel de Almeida: As tardes no Leblon com Paulo Mendes Campos

O Globo

Em 1967, Rubem Braga convocou o fotógrafo Paulo Garcez para registrar os autores de sua Editora Sabiá. Lá estavam em sua cobertura, logo no início da Rua Barão da Torre, além de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), José Carlos de Oliveira, Vinícius de Moraes e ainda Chico Buarque.

As fotos do encontro voltam à baila na capa e nas páginas internas do livro “Os sabiás da crônica”, ideia da editora Maria Amélia Mello levada a cabo pelo poeta Augusto Massi.

Maria Amélia é dessas figuras grávidas da melhor literatura, capaz de distinguir a quilômetros um Romain Gary de um Romain Rolland, responsável silenciosa por títulos capitais no mercado brasileiro e amiga fraterna de Ferreira Gullar, com quem dividimos muitos pratos numa cantina da Rua Fernando Mendes, em Copacabana.

Augusto Massi, poeta de boa cepa, esteve por trás da melhor fase da lendária Cosac Naify e sempre se envolve em projetos de redescoberta e escavações literárias. Além de ser querido por 11 em cada dez pessoas que contam no Brasil contemporâneo.

Ruy Castro: Sonhos frustrados

Folha de S. Paulo

Orson, Glauber, Kubrick, Hitchcock, todos sonharam com filmes que nunca puderam fazer

Quando alguém do cinema me diz que desistiu de um filme que estava lutando para rodar, penso no prejuízo potencial para a cultura. E se o filme saísse uma obra-prima? Toda arte leva a frustrações, mas o cinema é cruel. Entre a concepção original de um filme e este na lata, podem-se passar anos --ou o filme nunca chegar à lata.

Não é um problema só nosso, nem de hoje. O russo Eisenstein não pôde filmar "Uma Tragédia Americana", do livro de Theodore Dreiser, e nunca completou "Que Viva México!" (1931). Orson Welles deixou pela metade "It's All True", em 42, e "Dom Quixote", em 59. Vincente Minnelli nem pôde começar o talvez último grande musical da MGM, "Say It with Music", em 61 —a MGM acabou antes.

Bruno Carazza*: Mais sacrifícios, menos soluções mágicas

Valor Econômico

Economia precisa resistir a tentações populistas em 2022

Governos fracos são presas fáceis das tentações populistas, principalmente quando se encaminham para o final do mandato. Nas últimas semanas de 2021, vimos a popularidade do presidente sangrar, e na busca de aprovar medidas que revertam a má avaliação da sua gestão, grupos de interesses deram o bote e arrancaram nacos expressivos do orçamento público.

A última leva de pesquisas revela que a economia - mais especificamente o bolso e o estômago do cidadão - será o grande tema da disputa eleitoral deste ano.

O levantamento da CNT/MDA que saiu pouco antes do Natal revelou que 63,7% dos entrevistados avaliam que durante o governo Bolsonaro seu poder de compra encolheu. Entre os principais vilões da inflação estão os preços dos alimentos, seguidos de combustíveis, energia elétrica e moradia. Maior evidência de bem-estar alimentar, o consumo de carne caiu nos lares de 71,9% das pessoas que participaram da enquete.

Alex Ribeiro: O mercado fez terrorismo fiscal?

Valor Econômico

Toda essa incerteza foi causada pela iniciativa do próprio governo de driblar o teto de gastos para turbinar o Bolsa Família e outros gastos neste ano eleitoral

Os dados fiscais divulgados na reta final de 2021 foram melhores do que o esperado, levando alguns analistas econômicos a fazer a pergunta: houve exagero do mercado financeiro em temer um desastre das contas públicas?

Quem olha as estatísticas mais recentes acha que sim. A União, Estados e municípios e respectivas estatais registraram em novembro um superávit primário de 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB) pela primeira vez em sete anos, no resultado acumulado em 12 meses. É insuficiente para conter o aumento da dívida pública, mas agora o governo não está mais tomando dinheiro emprestado para bancar gastos primários. O ajuste é considerável: em 2020, o país havia registrado um déficit de 9,41% do PIB.

Gustavo Loyola*: Antes tarde do que nunca

Valor Econômico

Marco legal enuncia que as operações no mercado de câmbio podem ser realizadas sem limitação de valor

Em artigo publicado nesta coluna em novembro de 2003, externei minha opinião de que a reforma das leis cambiais era a mais adiada das reformas no Brasil. Entendia que, em plena era da globalização financeira e dos regimes de taxas flutuantes de câmbio, não era cabível que o Brasil operasse com uma legislação cambial que é um verdadeiro “patchwork”, em que se misturam pedaços de normas restritivas datadas da era Vargas, com dispositivos editados a partir dos anos 1990 que já consideram as complexidades dos mercados financeiros contemporâneos.

Como mencionei no citado artigo, o princípio basilar da legislação cambial brasileira é o do chamado "monopólio de câmbio" do Banco Central (antes da Sumoc). O exportador deve compulsoriamente vender as divisas resultantes de suas exportações para a Autoridade Monetária e os importadores somente podem adquirir câmbio para liquidar suas compras externas quando autorizados pelo BC. Na conta de capitais, por esse mesmo princípio, prevalece o sistema de assegurar o direito de saída, apenas aos capitais cuja entrada foi registrada no BC. Esse princípio, embora relaxado a partir de 1990, com o fim do sistema de repasses e coberturas e o desenvolvimento do mercado interbancário de câmbio, persiste até os dias de hoje como base lógica de nossas normas cambiais.

Mirtes Cordeiro*: Seja 2022 o Ano da Esperança

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

(Ferreira Gullar)

Então, começou o Ano que chamamos de Novo Ano. É preciso que nos afastemos dos males que aconteceram nos últimos três anos, quando fomos assombrados por duas coisas ruins: a pandemia e o governo Bolsonaro, que embora tenha sido eleito democraticamente por 57 milhões de brasileiros – sendo que 31 milhões se abstiveram, 2 milhões votaram branco e 8 milhões votaram nulo -, foi escolhido na verdade por cerca de 39% do eleitorado.

No entanto, governa para poucos.

Foi muito difícil para a maioria dos brasileiros enfrentar a crueldade da pandemia, expressa principalmente em 619 mil mortos até o último dia do ano que passou. Também nas maluquices danosas do governo no desmonte das políticas públicas e, sobretudo, na condução das diretrizes que movem a economia no país.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Círculo vicioso

O Estado de S. Paulo.

A Constituição de 1988, que já nasceu extensa, tornou-se com o tempo ainda mais ampla e detalhista, o que acarreta novas demandas de alteração, fragilizando-a ainda mais

Grande número de emendas intensifica fenômeno da constitucionalização.

Mesmo os mais ardentes defensores da Constituição admitem: o texto produzido pela Assembleia Constituinte é muito extenso. No momento da promulgação, a Carta de 1988 tinha 245 artigos, além dos 70 artigos do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Houve o chamado fenômeno da ampla constitucionalização. Muitos assuntos, que poderiam ser regulados pela legislação ordinária – ou mesmo serem deixados à livre disposição da sociedade –, ganharam assento constitucional.

Pode-se dizer que o tamanho da Constituição de 1988 foi uma escolha da sociedade. Para garantir a ampla proteção do indivíduo e uma determinada configuração do Estado, retirou-se da esfera legislativa ordinária uma série de temas, dando-lhes status constitucional. O art. 5.º, sobre direitos e garantias fundamentais, tem 78 incisos.

Em tese, a ampla constitucionalização deveria significar uma maior estabilidade do ordenamento jurídico, uma vez que mudanças constitucionais são mais difíceis de serem realizadas. Há rito próprio, com requisitos mais exigentes: aprovação em dois turnos por cada Casa Legislativa com quórum de três quintos.

No entanto, mais do que preservar a estabilidade da ordem jurídica ao longo do tempo, essa ampla constitucionalização produziu um efeito inverso: o enfraquecimento da Carta de 1988. Por tratar de muitos assuntos, muitas vezes num detalhamento excessivo, a Constituição tornou-se, desde a promulgação, objeto de muitas pressões para sua alteração. Com isso, ainda que existam condições específicas para alterar o texto, o Congresso aprovou muitas Emendas Constitucionais (ECS). A EC relativa ao não pagamento dos precatórios foi a 113.ª emenda promulgada!

Poesia | Graziela Melo: Saudade

Saudade
dos pássaros
é que vou
sentir,
quando
deste mundo
solitária,
me for!!!

Das flores,
dos amigos,
até mesmo
das dores,

das emoções
mais sutis!!!

Parada,
pálida
e fria

inerte,
sem
qualquer
ação,

debaixo
daqueles
palmos
de terra,

estarei
distante
das maldades,
da guerra,
dos homens
sem compaixão!

Enquanto
se desmancha
meu corpo,

no frio,
na escuridão

Música | Quinteto Armorial: Ária (Cantilenas de Bachianas Brasileiras No. 5)

 

domingo, 2 de janeiro de 2022

Dorrit Harazim: Quanta dor

O Globo

Algumas histórias são eternas. Uma em especial costuma ser relembrada a cada fim de ano graças ao livro de memórias de Bruce Bairnsfather, o capitão britânico na Grande Guerra de 1914-1918 que mais tarde se tornaria um celebrado cartunista europeu. Era seu primeiro Natal naquele conflito mundial que eliminou mais de 21 milhões de vidas, e o narrador tremia de frio numa trincheira enlameada da Bélgica. Ele e seus companheiros do Primeiro Regimento Real passavam dias e noites agachados, num ciclo interminável de insônia e medo, biscoitos azedos e cigarros inutilizados pela chuva. “Lá estávamos, naquela cavidade de argila, a léguas e léguas de casa... sem a menor chance de poder sair dali exceto de ambulância”, descreveu ele. Mais provável que fossem mortos.

Perto das 22h do dia 24, Bairnsfather percebeu um ruído novo no campo de batalha de Ploegsteert, vindo dos boches (como os Aliados chamavam os inimigos alemães). Afinou o ouvido e percebeu, em meio a sombras noturnas, um murmurar de vozes. Seus companheiros também estranharam. Perceberam então tratar-se de cantorias — os temidos soldados do Exército alemão, também entrincheirados e invisíveis, entoavam canções de Natal! Os britânicos decidiram cantar de volta. E subitamente ouviram alguém do lado inimigo gritando algo confuso, em inglês carregado de sotaque germânico. “Venham para cá”, dizia o boche. Um dos sargentos britânicos respondeu: “Nos encontramos a meio do caminho”.

Elio Gaspari: Markun revisitou o lava-jatismo

O Globo / Folha de S. Paulo

Está nas livrarias “Recurso final” do repórter Paulo Markun. Conta a vida e a morte de Luiz Carlos Cancellier, o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, que foi preso em setembro de 2017 pela Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal. Nunca fora ouvido e tinha domicílio certo e sabido. Passou dois dias na cadeia, foi algemado e colocado numa espécie de jaula. Libertado, foi proibido de entrar na universidade. Semanas depois, matou-se, aos 58 anos, pulando do sétimo andar de um shopping. No bolso, deixou um bilhete: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade.”

Quando Cancellier foi publicamente humilhado, a Operação Lava-Jato estava no seu esplendor. Passados quatro anos, “lavajatismo” tornou-se um neologismo da língua portuguesa. (Ele originou-se há poucas semanas, quando a Polícia Federal cancelou uma entrevista coletiva que daria moldura espetaculosa a uma operação contra os irmãos Ciro e Cid Gomes, no Ceará.)

Cancellier e seis outros professores da UFSC foram presos sob a suspeita trombeteada de terem desviado R$ 80 milhões de um programa de ensino à distância. (As trombetas tocavam de ouvido, porque nas partituras documentais essa cifra nunca existiu). Markun ouviu dezenas de pessoas e atravessou uma papelada de mais de 20 mil páginas. Seu livro tem três histórias, a da vida de Cancellier, a da futrica acadêmica que levou à sua prisão e a da ruína a que o professor foi submetido. Nessa parte, esteve a lição dos presos da penitenciária para onde os professores foram levados. Eles anunciaram a todos os encarcerados: “Salve, barraco 18, 19, 20 não é pra mexer. Tudo professor da UFSC!” Como se sabe, o “salve” designa as mensagens das facções criminosas.

Naquela noite de setembro de 2017, o crime estava com a cabeça no lugar. Já a ação do Estado era definida por Cancellier, com roupa de preso: “As pessoas estão ficando loucas”.

Markun ficou nas quatro linhas do caso e mostrou como futricas acadêmicas anabolizadas por uma denúncia anônima produziram o que seria um escândalo, matou um professor e acabou como começou, em futricas acadêmicas.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro começa o ano em guerra com a burocracia

Correio Braziliense / Estado de Minas

Não é fácil operar uma política de cooptação. Vimos isso no Inep, na Anvisa, no Ibama, na Capes, no Inpe e, agora, na Receita Federal. Servidores ameaçam parar a administração federal

Falsas ideias sobre a guerra aberta que se instalou no governo entre o presidente Jair Bolsonaro e a alta burocracia federal. Uma é de que estaria prestando um serviço à sociedade ao desmantelar órgãos e instituições que, supostamente, seriam um entrave à economia e à liberdade dos cidadãos, na linha das ideias ultraliberais do “Estado mínimo”; a outra, de que opera uma política para liquidar ou enfraquecer redutos, supostamente, “comunistas”, ao operar a cooptação de setores que seriam vitais para a reprodução de seu projeto de poder. O resultado dessa guerra é um tiro no próprio pé, pois anula, com grande antecipação, a vantagem estratégica que todo governante teria quando disputa a reeleição: a capacidade de implementar políticas públicas bem-sucedidas em razão do controle do governo.

Na teoria, a burocracia tem os seguintes pressupostos: legalidade das normas, comunicação formal, impessoalidade no relacionamento, divisão de trabalho, hierarquia da autoridade, rotinas e procedimentos, competência técnica e mérito, especialização, profissionalismo, previsibilidade. Isso vale para qualquer burocracia, em qualquer lugar do mundo onde existe um Estado organizado e legalmente constituído. Quando isso não acontece, como no governo Bolsonaro, as políticas públicas acabam bloqueadas e a ação do governo não chega a bom termo. Em razão da Constituição de 1988, temos um Estado ampliado, com divisão entre poderes e caráter federativo tripartite, cujo bom funcionamento depende do respeito a esses pressupostos.

Míriam Leitão: Resistência e independência

O Globo

O novo ano começa com a esperança de que o tormento do pior governo da nossa história chegue ao fim e a previsão de que a economia nos manterá em terreno árido. O ano passado nos deu uma certeza pelo avesso, a de que o Brasil, colocado no extremo de um presidente sem compaixão e sem capacidade administrativa, consegue governar a si mesmo. O país desenvolveu vacinas, se vacinou, criou consórcio de governadores, manteve-se informado, enfrentou ameaças de golpe, investigou os crimes do governo na pandemia, produziu cultura e montou uma rede de solidariedade para o combate à fome e às tragédias. Na crise aguda da falta de oxigênio em Manaus, a sociedade tentou ajudar.

É resistência que se chama. O país resistiu de inúmeras formas ao descalabro que tem sido Bolsonaro no comando. O presidente apostou no pior, jogou no conflito, investiu em pautas nefastas. Mas o saldo do ano passado é positivo, principalmente porque o socorro veio da ciência. Nos institutos brasileiros de produção de vacinas trabalhou-se duramente. Brasileiros em centros internacionais conectaram o país nas redes de desenvolvimento da imunização. O Sistema Único de Saúde venceu um ministro general que dizia não saber o que era o SUS, e um ministro sabujo que até o último dia do ano tentava retardar a vacinação de crianças. O governo foi sórdido. A sociedade resistiu. Com alta taxa de vacinação, os brasileiros aguardam a onda ômicrom mais seguros, mas ainda vigilantes.

Wanda Engel*: Novo atentado aos pobres

O Globo

A sede de destruição do atual governo parece não ter fim. Agora é a vez da política de combate à pobreza, reconhecida internacionalmente, cuja pena de morte foi decretada com a criação do Auxílio Brasil.

Além de acabar com o Bolsa Família — extensão e aperfeiçoamento da Rede de Proteção Social —, o novo programa não será apenas uma mudança de nome. Destruirá princípios e estruturas, frutos de importante evolução histórica.

Nessa trajetória, a assistência começou a ser tratada como política pública a partir da Legião Brasileira de Assistência e passou a ser considerada como direito do cidadão e dever do Estado, com a Constituição de 1988. Seguiu-se a Lei Orgânica da Assistência Social, propondo a estruturação de um Sistema Único de Assistência Social (Suas), que definia o papel de cada ente federativo.

Houve uma importante evolução conceitual. A pobreza passou a ser vista como multidimensional, e “não natural”, tendo a família como unidade básica de produção/reprodução ou de superação.

Eliane Cantanhêde: Geringonça política

O Estado de S. Paulo.

Existe bolsonarista, petista, comunista, tucano e morista ao mesmo tempo? Sim, nas redes sociais

Como alguém pode ser acusado de ser, ao mesmo tempo, responsável pela eleição de Bolsonaro, fanático por Lula, direitista, petista, comunista, tucano e fazer campanha para Sérgio Moro? Pois é. Muitos, incontáveis, são atacados assim. Eu, inclusive.

Esse Frankenstein, metamorfose ambulante ou geringonça política é uma das ficções criadas nas redes sociais pela irracionalidade e polarização da política brasileira. E quem cai nessa rede será, certamente, um saco de pancadas de variados militantes doentios neste ano eleitoral de 2022.

Hélio Schwartsman: Brasil avacalha a matemática

Folha de S. Paulo

A matemática que nos ensinam na escola peca pela abstração

A matemática que nos ensinam na escola peca pela abstração. A maioria das pessoas não consegue usar a trigonometria em seu dia a dia. Já a teoria dos jogos, que quase não é ensinada nas escolas, é escandalosamente prática. Ela, afinal, pode ser descrita como o estudo das interações estratégicas entre agentes racionais. Também dá para dizer que ela expande a lógica para todos os domínios da vida.

Não é uma coincidência que, depois que Von Neumann unificou e deu nome à teoria dos jogos, em meados dos anos 40, ela se espalhou como um rastilho de pólvora. Invadiu a biologia, tomou de assalto a economia (onde produziu 11 prêmios Nobel) e deixou marcas em todas as ciências sociais. Tem ainda forte presença na ciência da computação.

Janio de Freitas: É preciso salva-se de 2022

Folha de S. Paulo

Diante da tragédia na Bahia, Bolsonaro mostra com clareza o descaso eleitoral que, de repente, começou a indicar

Salvar-se de 2022 é um desejo justo e um objetivo justificado. Desejo-lhe que os adote, estando entre os que mereçam escapar à sanha prenunciada pelos grupos, classes e interesses que fizeram nosso 2021.

Os novos anos são futuros engatilhados pelos anos antecessores. Só as surpresas são de sua autoria. E a margem para esses insondáveis deixada por 2021 insinua-se, por ora, uma via estreita. Talvez mesmo um beco sem saída.

Os acumuladores de cifrões emitem maus pressentimentos sobre a inflação crescente, embalados em sua dúplice tradição: esfalfam-se apregoando queixas da inflação e mais se esfalfam amontoando seus lucros inflacionários.

Aos efeitos da inflação junta-se o desvario do governo e da Câmara nos gastos públicos, inclusive apenas eleitoreiro, e já sabemos quem e como pagará essas contas já a partir de 2022. Governantes e economistas têm muito apego às suas tradições.

Cristovam Buarque*: 2022

Blog do Noblat / Metrópoles

O pais termina 2021 asfixiado por cada grupo isolado, monologando entre os que pensam igual.

Para 2022 desejo o que não tivemos em 2021: abraços sem o incômodo de máscaras e conversas sem as barreiras dos preconceitos. Os abraços permitirão uma vida mais prazerosa e as conversas facilitarão encontrar rumos para o país.

Dois anos de distanciamento e máscaras reduziram o gosto dos encontros entre amigos, e o tempo em que as conversas são filtradas por preconceitos nos impedem de encontrar rumo para retirar o Brasil da crise que atravessamos.

Os preconceitos criam bolhas que separam as pessoas, sem respeito ao que os outros pensam. Estas bolhas isoladas não permitem a cada grupo perceber seus erros e impedem o nascimento de novas ideias. O preconceito funciona como um anticoncepcional de ideias e de propostas para o futuro. O pais termina asfixiado por cada grupo isolado, monologando entre os que pensam igual.

José Murilo de Carvalho*: 200 anos de Brasil: pouco a celebrar, muito a questionar

O Estado de S. Paulo (01/01/2022

Olhando para a frente, podemos nos perguntar se ainda somos um país viável no sentido de sermos capazes de formarmos uma sociedade includente, sem a enorme marginalização que hoje a caracteriza

O Brasil não tem sorte com seus centenários. O primeiro, em 1922, teve de conviver com os restos da devastação causada pela gripe espanhola, chegada ao País em 1918. Calculam-se em cerca de 35 mil as mortes causadas no País, concentradas no Rio de Janeiro e São Paulo. Entre elas não estava, como se costuma afirmar, o presidente eleito, Rodrigues Alves, embora tenha morrido antes de assumir. O ano de 1922 foi ainda marcado pela primeira revolta tenentista e pela decretação do estado de sítio pelo presidente Epitácio Pessoa, destinada a garantir a posse do presidente eleito, Artur Bernardes. Nas celebrações, destacou-se a Exposição Internacional de que participaram 14 países. O segundo centenário, a ocorrer ano que vem, virá na cauda de outra pandemia, a da covid-19, chegada ao País em 2020 e que já matou cerca de 620 mil brasileiros, embora também sem matar presidente. Junto com a pandemia, temos hoje um país às voltas com um tumultuado mandato presidencial que gerou dúvidas sobre a solidez de nossa jovem democracia e, mais ainda, com o imenso drama social do desemprego, da desigualdade, da exclusão, da fome. Até agora, não há indicação de que haverá alguma importante celebração oficial, ficando os registros da efeméride a cargo da mídia, das instituições e do meio acadêmico.

Ascânio Seleme: Jovens políticos velhos

O Globo (01/01/2022)

Muito provavelmente o Brasil será governado a partir de janeiro de 2023 por um político de 77 anos, um veterano que àquela altura terá participado diretamente de seis campanhas presidenciais e indiretamente de outras três. Um homem de seu tempo, que amadureceu e se renovou ao longo dos anos, mas ainda assim um fruto da guerra fria, do bem contra o mal. Do vermelho contra o azul. Um ser binário. Quando tomar posse, Lula terá 41 anos a mais do que o chileno Gabriel Boric, presidente eleito do Chile, com quem se reunirá em cúpulas e encontros bilaterais. Ambos são de esquerda e guardam outras muitas semelhanças a despeito do abismo etário que os separa.

Aos 35 anos, não se pode dizer que Boric seja o mais moderno dos políticos. Não é. Trata-se de um jovem da sua época com sinais externos visíveis. Me refiro às tatuagens do novo presidente. Apesar de não ser necessariamente uma novidade, a tatuagem remonta três mil anos de história, ela representa rebeldia e transgressão. Pode ainda significar coragem. Mas também pode não ser nada disso. O fato é que a tatuagem hoje está cada vez mais marcada na pele dos jovens. Desafio um leitor a me dizer que não tem pelo menos um parente muito próximo tatuado. Ele tem, e é jovem.

Mas, para lá da tatuagem, as novas gerações que aos poucos vão tomando o poder têm tudo para mudar velhos paradigmas. Talvez em razão da revolução tecnológica e das comunicações, o fato é que a distância que hoje separa os avós de seus netos nunca foi tão grande. Na política, contudo, o que vemos sempre é mais do mesmo. Vamos aos exemplos clássicos. Qual a diferença entre Tancredo Neves e seu neto Aécio Neves, fora o fato do segundo ter colocado a mão na botija? Nenhuma. O neto fez e faz política como seu avô fazia, sem obviamente a habilidade do ancestral. Aécio é um político tão velho quanto Tancredo. Há outros exemplos, como o de ACM e Neto, ou os filhos e netos de tantos outros políticos pelo país adentro.

Urnas trarão duelos novos entre populismo e democracia

Rodrigo Turrer / O Estado de S. Paulo (01/01/2022)

Embate entre populistas iliberais e democratas vai se repetir em uma série de eleições pelo mundo

Se 2021 foi o ano em que a ameaça à democracia se cristalizou em várias partes do mundo, com a invasão do Capitólio por uma turba de radicais, em 6 de janeiro, 2022 será um ano em que os embates entre populismo radical e democracia estarão ainda mais presentes.

“A batalha entre os defensores do autoritarismo e dos modelos iliberais contra a democracia vai crescer em 2022, e não há sinais de diminuição do refluxo democrático que vimos nos últimos anos”, afirmou ao Estadão Arend Lijphart, professor emérito de ciência política na Universidade da Califórnia, autor do livro Modelos de Democracia: desempenho e padrões de Governo em 36 países, e um dos principais estudiosos do assunto no mundo.

Para Lijphart, o avanço do populismo e do nacionalismo tem acontecido de maneira mais intensa em países que eram modelo de democracia, e esse avanço ameaça desintegrar a ordem mundial surgida depois da queda do Muro de Berlim, e os princípios da democracia, do estado de direito e dos direitos humanos.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Liberdade ameaçada pela desinformação

O Estado de S. Paulo.

Valendo-se da profunda aspiração humana por ser livre, campanhas contra o passaporte da vacina pregam a morte. O cuidado com o outro não agride o regime de liberdade

A lei não se opõe à liberdade, e o cuidado com o outro não agride esse regime.

Entre os maiores desafios do mundo atual, encontra-se o fenômeno da desinformação. Não é apenas que a realidade seja complexa e sujeita a várias interpretações, além de suscitar diferenças de percepção e opinião. A desinformação é a manipulação de fatos e conceitos para sujeitar uma parcela da população a determinados interesses. Essa tática, que sempre existiu, ganhou especial poder corrosivo por meio das redes sociais, com efeitos sobre todo o tecido social.

Um dos conceitos mais atacados pelas campanhas de desinformação é a liberdade. Os manipuladores utilizam a profunda aspiração humana por ser livre para impor suas concepções, em uma perversa inversão de valores. Caso recente ocorreu com a exigência do chamado passaporte da vacina, que é uma medida de elementar prudência, adotada pacificamente ao longo da história para proteção da saúde da população. Havendo um perigo sanitário e existindo meios para reduzir esse perigo, exige-se, pelo bem da coletividade, a adoção desses meios.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: O Tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, 

a que se deu o nome de ano,

foi um individuo genial.

 

Industrializou a esperança,

fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

 

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar

e entregar os pontos.

 

Aí entra o milagre da renovação

e tudo começa outra vez, com outro número

e outra vontade de acreditar

que daqui para diante tudo vai ser diferente.

 

Para você, desejo o sonho realizado,

o amor esperado,

a esperança renovada.

 

Para você, desejo todas as cores desta vida,

todas as alegrias que puder sorrir,

todas as músicas que puder emocionar.

 

Para você, neste novo ano,

desejo que os amigos sejam mais cúmplices,

que sua família seja mais unida,

que sua vida seja mais bem vivida.

 

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...

Mas nada seria suficiente...

 

Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,

desejos grandes.

 

E que eles possam mover você a cada minuto

ao rumo da sua felicidade.

Música | Portela 2022 | Samba ao vivo